Os Ensaios
Sobre a afeição dos pais pelos filhos
que a m ulher tinha razão. Condenação investigatória.
Sobre a afeição dos pais pelos filhos
À senhora d’Estissac253
Capítulo VIII
Este é um dos capítulos mais comoventes e reveladores. Começa com o
surto de melancolia que aborreceu Montaigne e o levou a escrever Os
ensaios; termina com pensamentos sobre o louco frenesi que pode levar os
pais a se apaixonarem pelos próprios filhos e por seus filhos “intelectuais”
(suas obras do espírito). Propõe uma reflexão sobre os laços que unem o
livro e seu autor. O tema parece mais urgente pelo fato de que todos os
filhos de Montaigne morreram na infância, com exceção de uma filha. Há
também aqui uma série de alusões aos familiares de Montaigne. A longa
argumentação dedicada aos problemas de testamentos e heranças foi para
ele uma ocasião de acertar contas dentro de sua própria família, evocando
por alusão o caso difícil da sucessão de Pierre Eyquem. Estamos longe da
serenidade equilibrada que Montaigne em geral demonstra: sente-se uma
irritação que perpassa esses comentários e que certamente traduz as
tensões entre ele e a mãe a respeito das disposições testamentárias do pai.
No Exemplar de Bordeaux há supressões, que provavelmente não foram da
mão do autor. Na edição póstuma há um longo acréscimo, escrito entre 1588
e 1592, sobre os caprichos dos testadores.
Senhora, se a estranheza e a novidade, que costum am dar valor às coisas, não m e salvarem , j am ais sairei honrado desta tola em preitada, m as ela é tão
fantástica e tem um aspecto tão distante da prática com um que isso poderá lhe abrir um cam inho. Foi um hum or m elancólico, e por conseguinte um hum or
m uito oposto à m inha com pleição natural, produzido pela tristeza e pela
solidão em que havia alguns anos m e atirara, que m e pôs prim eiram ente na
cabeça esse desvario de m e m eter a escrever. E depois, encontrando-m e
inteiram ente desprovido e vazio de qualquer outra m atéria a tratar, apresentei
eu m esm o a m im com o argum ento e com o assunto. É o único livro do m undo
dessa espécie, tendo um obj etivo bizarro e extravagante. Tam bém não há
nesta tarefa algo digno de ser notado além dessa bizarria, pois em m atéria
tão vã e tão sem valor o m elhor operário do m undo não saberia dar um a
form a que m erecesse ser levada em conta. Ora, senhora, decidindo retratar-
m e ao vivo, eu teria esquecido um elem ento im portante se não tivesse
representado a honra que sem pre prestei a vossos m éritos. E quis dizê-lo
expressam ente no início deste capítulo, porquanto entre vossas outras boas
qualidades o am or que dem onstrastes a vossos filhos ocupa um dos prim eiros
lugares. Quem souber a idade em que o senhor d’Estissac, vosso m arido, vos
deixou viúva; os grandes e honrosos partidos que vos foram oferecidos, com o
a um a dam a da França de vossa condição; a constância e a firm eza com que
sustentastes tantos anos e diante de dificuldades tão espinhosas o encargo e
a conduta de seus negócios, que vos agitaram por todos os cantos da França
e ainda vos m antêm preocupada; e a feliz conclusão que lhes destes só com
vossa prudência ou boa fortuna, dirá facilm ente com igo que não tem os em
nossa época exem plo de afeição m aterna m ais patente que o vosso. Louvo a
Deus, Senhora, que vosso am or tenha sido tão bem em pregado, pois as boas esperanças que dá de si o senhor d’Estissac, vosso filho, são garantia
suficiente de que, quando chegar à idade, tereis dele a obediência e o
reconhecim ento de um filho m uito bom . Mas por causa de sua j uventude ele
não pode apreciar os im ensos cuidados que recebeu de vós em tão grande
núm ero; assim , quero, se estes escritos vierem um dia a lhe cair nas m ãos, quando eu não m ais tiver boca nem palavra que possa dizê-lo, que ele receba
de m im este testem unho de com pleta verdade, a qual lhe será ainda m ais
vivam ente testem unhada pelos bons efeitos que, se Deus quiser, ele sentirá,
pois não há na França fidalgo que deva m ais à sua m ãe do que ele e que não
pode dar no futuro prova m ais certa de sua bondade e de sua virtude do que
vos reconhecendo com o tal. Se existe um a lei realm ente natural, isto é, um
instinto que sej a universal e perpetuam ente gravado nos anim ais e em nós (o
que não deixa de ser controverso), posso dizer que, a m eu ver, depois do
cuidado que cada anim al tem com sua preservação e de fugir do que o
prej udica, o segundo lugar nessa lista é o am or que o procriador dedica à sua
progenitura. E porque a natureza parece tê-lo nos recom endado, visando a
propagar e fazer avançar as peças sucessivas dessa sua m áquina, não é de
espantar que, em sentido inverso, o am or dos filhos pelos pais não sej a tão
grande. Junte-se esta outra consideração aristotélica: quem faz o bem a
alguém am a-o m ais do que é am ado por ele, e aquele a quem se deve am a
m ais do que quem deve, e todo operário am a m ais sua obra do que por ela
seria am ado se a obra tivesse sentim ento; porquanto dam os valor ao fato de
existir, e existir consiste em m ovim ento e ação, e por isso cada um de nós
existe, de certa m aneira, em cada coisa que faz. Quem faz o bem exerce um a
ação bela e honesta, quem recebe, exerce apenas um a ação útil. Ora, o útil é
m uito m enos digno de ser am ado do que o honesto. O honesto é estável e
perm anente, fornecendo a quem o faz um a satisfação constante. O útil se
perde e escapa facilm ente, sua lem brança não é tão fresca nem tão doce. As
coisas que m ais nos custaram nos são as m ais queridas. E dar custa m ais
que receber. Posto que a Deus aprouve dotar-nos de certa capacidade de
raciocínio a fim de que, com o os bichos, não fôssem os servilm ente
subm etidos às leis com uns, m as que as seguíssem os por nosso j ulgam ento e
nossa livre vontade, devem os adaptar-nos um pouco à sim ples autoridade da
natureza, m as não nos deixar tiranicam ente levar por ela: só a razão deve
governar nossas inclinações. De m inha parte, tenho o gosto estranham ente
reticente a essas propensões que se produzem em nós sem o com ando e a
interm ediação de nosso j ulgam ento. No caso do assunto de que falo aqui, não
consigo conceber essa em oção de se abraçar os filhos que acabaram de
nascer e que não têm m ovim ento na alm a nem form a reconhecível no corpo
por onde possam tornar-se dignos de ser am ados; e não suportei de bom
grado que fossem criados perto de m im . Um a verdadeira afeição, e bem
regrada, deveria nascer e aum entar com o conhecim ento que eles nos dão de
si; e então, se o m erecem , com o a propensão natural anda a par com a
razão, podem os dedicar-lhes um a afeição verdadeiram ente paternal; e, da
m esm a form a, j ulgá-los, se forem diferentes, rendendo-nos sem pre à razão,
não obstante a força da natureza. Muitas vezes é o inverso que acontece, e
m ais com um ente nos sentim os m ais com ovidos com os pulos, brincadeiras e tolices pueris de nossos filhos do que, depois, com suas ações bem
pensadas: com o se os am ássem os com o nosso passatem po, com o
m acaquinhos e não com o hom ens. E o m esm o que lhes oferece brinquedos na
infância com grande liberalidade se torna parcim onioso à m enor despesa para
suas necessidades na idade adulta. E até parece que o ciúm e que sentim os
ao vê-los exibindo-se ao m undo e dele desfrutando, quando estam os a ponto
de deixá-lo, nos torna m ais sovinas e econôm icos com eles: aborrece-nos que
andem em nossos calcanhares, com o a nos solicitar para irm os em bora. E,
para falar a verdade, j á que a ordem das coisas faz que só possam ser e viver
às expensas de nosso ser e de nossa vida, não devíam os nos m eter a ser
pais se isso nos am edronta. Quanto a m im , acho que é um a crueldade e um a
inj ustiça não fazê-los partilhar de nossos bens, não associá-los a eles e não
tratá-los com o parceiros no conhecim ento de nossos negócios dom ésticos,
quando disso são capazes, e não cortar e restringir nossas vantagens para
assegurar as deles, pois para isso os geram os. É inj ustiça ver que um pai
velho, alquebrado e sem im orto desfruta sozinho, num canto do lar, de bens
que bastariam para o desenvolvim ento e o sustento de vários filhos, e que os
faça, por falta de m eios, perder seus m elhores anos sem avançar no serviço
público e no conhecim ento dos hom ens do m undo. São atirados no desespero
de procurar um cam inho, por inj usto que sej a, de prover às suas
necessidades. Com o vi em m eu tem po vários rapazes de boa fam ília tão
dados ao roubo que nenhum a correção conseguiria desviá-los. Conheço um ,
bem -nascido, com quem , a pedido de um irm ão seu, m uito honesto e bravo fidalgo, falei um a vez com esse obj etivo. Respondeu-m e e confessou pura e
sim plesm ente que tinha sido levado a essa baixeza pelo rigor e avareza do
pai; m as que agora estava tão acostum ado que não podia evitá-la. E na época
acabara de ser flagrado num roubo de anéis de um a senhora, em cuj o
despertar se encontrara, j unto com m uitos outros. Lem brou-m e a história que
eu ouvira contar sobre outro fidalgo, tão bem form ado nesse belo ofício, no
tem po da j uventude, e decidido a abandonar essa prática, m as que, se
passasse perto de um a loj a onde houvesse algo de que precisasse, não
conseguia evitar roubá-la, ainda que, depois, m andasse alguém pagá-la. E vi
vários tão treinados e habituados a isso que, entre seus próprios
com panheiros, roubavam costum eiram ente coisas que em seguida lhes
devolviam . Sou gascão, e no entanto não há vício com que m e entenda
m enos. Odeio-o um pouco m ais por tem peram ento do que o condeno por
convicção. Não subtraio nada de ninguém e nem m esm o tive esse desej o.
Esta nossa província é, na verdade, um pouco m ais desacreditada por isso do
que as outras da nação francesa. No entanto, várias vezes vim os em nossa
época, entre as m ãos da j ustiça, hom ens de boa fam ília, de outras paragens,
acusados de diversos roubos horríveis. Receio que essa depravação de certa
form a tenha origem no vício dos pais. E se m e respondem , com o um dia um
senhor de boa inteligência, que ele econom izava suas riquezas não para delas
tirar outro fruto e uso e sim para ser honrado e procurado pelos seus, pois
tendo a idade lhe retirado todas as outras forças era o único j eito que lhe
restava de m anter sua autoridade na fam ília e evitar que se tornasse obj eto de desprezo e desdém por todos (na verdade, segundo Aristóteles, não só a
velhice m as qualquer fraqueza é prom otora de avareza), então esse é um
m odo de ver as coisas, m as é o rem édio para um m al cuj o nascim ento se
deveria evitar. Um pai é um tanto infeliz se só conservar o am or de seus filhos
pela necessidade que têm de seu auxílio, se é que a isso pode se cham ar de
am or. Precisam os nos tornar respeitáveis por nossa virtude e nossas
qualidades, e dignos de ser am ados por nossa bondade e pela suavidade de
nossos hábitos. As próprias cinzas de um a m atéria rica têm seu valor: e
acostum am o-nos a ter respeito e reverência pelos ossos e relíquias das
pessoas honradas. Para um personagem que passou honradam ente sua
m aturidade, nenhum a velhice pode ser tão caduca e decrépita a ponto de não
ser venerável, e em especial para seus filhos, cuj a alm a deve ter sido form ada
em seu dever não pela necessidade e pela privação, nem pela dureza e pela
força, m as pela razão,
et errat longe, mea quidem sententia,
Qui imperium credat esse gravius aut stabilius
Vi quod fit, quam illud quod amicitia adjungitur. 254
e ele se engana fortem ente, ao m enos em m inha opinião, se acredita que a
autoridade é m ais forte e m ais firm e quando repousa sobre a força do que
se estabelecida sobre a afeição.
Condeno toda violência na educação de um a alm a tenra que é criada para a
honra e a liberdade. Há não sei quê de servil no rigor e na coerção, penso que
aquilo que não se consegue fazer pela razão e pela prudência, e pela habilidade, j am ais se fará pela força. Assim m e criaram : dizem que em m inha
tenra idade só experim entei a vara duas vezes, e bem m oderadam ente. Fiz o
m esm o com os filhos que tive. Todos eles m orrem , porém , ainda com a am a
de leite, m as Léonor, a única que escapou desse infortúnio, chegou aos seis anos ou m ais sem que tenham os em pregado em sua educação e com o
castigo de suas faltas pueris outra coisa além das palavras, e bem doces
(tendo a indulgência de sua m ãe a isso se aplicado prontam ente). E ainda que
m inha expectativa sobre ela se frustrasse, há m uitas outras causas a que nos
prenderm os sem acusar a educação que lhe dei, e que sei ser j usta e natural.
Eu teria sido m uito m ais escrupuloso ainda com os m eninos, m enos nascidos
para servir e de natureza m ais livre; gostaria de fortalecer-lhes o coração com
nobreza e franqueza. Não vi outro resultado com as varas além de tornar as
alm as m ais covardes ou m ais m aliciosam ente teim osas. Querem os ser
am ados por nossos filhos? Querem os retirar-lhes a razão de desej arem nossa
m orte? — se bem que nenhum a razão para um desej o tão horrível possa ser
j usta nem desculpável; nullum scelus rationem habet, 255nenhum crim e tem j ustificativa,] — arrum em os a vida deles razoavelm ente, com o que está em
nosso poder. Para isso, não deveríam os casar-nos tão j ovens a ponto de
nossa idade vir quase a confundir-se com a deles, pois esse inconveniente nos
j oga em m uitas grandes dificuldades. Falo especialm ente para a nobreza, que,
com o se diz, é de condição ociosa e vive apenas de suas rendas, pois em
outros lugares em que a vida depende de um salário a com panhia e a
pluralidade de crianças são arranj os dom ésticos, são outras tantas novas
ferram entas e instrum entos para enriquecer. Casei-m e aos 33 anos e aprovo a escolha de 35, que dizem ser de Aristóteles. Platão não quer que nos
casem os antes dos trinta, m as tem razão de zom bar dos que se dedicam às
artes do casam ento depois de 55, e condena sua descendência com o indigna
de alim ento e de vida. Tales estabeleceu quanto a isso os lim ites m ais
verdadeiros, quando, j ovem , respondeu à m ãe que o pressionava para se
casar que não era hora; e, quando envelheceu, que não era m ais hora. É
preciso recusar com o inoportuna toda ação que não venha oportunam ente. Os
antigos gauleses consideravam extrem am ente repreensível ter tido intim idades
com um a m ulher antes dos vinte anos e recom endavam em especial aos
hom ens que queriam se adestrar para a guerra que conservassem a
virgindade até idade bem avançada, porque a cópula com as m ulheres
am olece e desvia os corações.
Ma hor congiunto a giovinetta sposa,
Lieto homai de’ figlio era invilito
Ne gli affetti di padre et di marito. 256
Mas então, unido a um a j ovem esposa, feliz de ter filhos, suas afeições de
m arido e de pai aviltaram sua coragem .
Mulay -Hassan, rei de Túnis, aquele que o im perador Carlos V reconduziu ao trono, criticava a m em ória de Maom é, seu pai, por sua frequentação das
m ulheres, cham ando-o de debochado, efem inado, fazedor de filhos. A história
grega observa que, para m anter o corpo firm e a serviço da corrida dos Jogos
Olím picos, da Palestra e de outros exercícios, Jecus de Tarento, Criso, Ástilo,
Diopom pos e outros se privaram , enquanto lhes durou esse tem po, de
qualquer espécie de ato venéreo. Em certa região das Índias espanholas só se perm itia aos hom ens casarem -se depois dos quarenta anos, ao passo que
se perm itia às m oças que se casassem aos dez anos. Para um fidalgo de 35
anos não é hora de deixar o lugar para o filho de vinte: ele m esm o está em
condições de se exibir tanto nas expedições guerreiras com o na corte de seu
príncipe; precisa de seus bens e certam ente deve partilhá-los, m as não deve
esquecer de si próprio em favor de outro. E um hom em desses pode
j ustam ente valer-se dessa resposta que em geral os pais têm nos lábios: “Não
quero m e despir antes de ir m e deitar”. Mas um pai com balido pelos anos e
pelas doenças, privado por sua fraqueza e falta de saúde da convivência
com um com os hom ens, prej udica a si e aos seus se ficar chocando
inutilm ente um a profusão de riquezas. Se for sábio, estará em condições
suficientes para ter vontade de se despir e se deitar, não despir até a cam isa,
m as até um roupão bem quente, e o resto de seus pertences, com que não
tem m ais o que fazer, deve presenteá-los de bom grado àqueles a quem , pela
ordem natural, devem pertencer. É razoável que lhes deixe o uso desses bens
de que a natureza o priva: caso contrário, sem a m enor dúvida há um
elem ento de m aldade e invej a. A m ais bela das ações do im perador Carlos V
foi, im itando nisso certos personagens antigos de seu calibre, ter sabido
reconhecer que a razão nos m anda claram ente nos despirm os de nossas
roupas quando nos pesam e atrapalham e deitarm o-nos quando as pernas nos
falham . Ele transm itiu suas riquezas, grandeza e poder ao filho quando, diante
da glória que adquirira, sentiu fraquej arem em si a firm eza e a força para
conduzir os negócios.
Solve senescentem mature sanus equum, ne
Peccet ad extremum ridendus, et ilia ducat. 257
Sabiam ente, desatrela a tem po teu cavalo que envelhece, de m edo que no
final ele tropece ridiculam ente e se torne ofegante.
Esse erro de não saber reconhecer bem cedo e não sentir a im potência e a
extrem a alteração que a idade traz naturalm ente tanto ao corpo com o à alm a,
que em m inha opinião são iguais, se é que a alm a não fica com m ais da
m etade, pôs a perder a reputação da m aioria dos grandes hom ens do m undo.
Vi em m inha época e conheci na intim idade personagens de grande autoridade
que (era m uito fácil ver) j á não tinham aquela antiga capacidade que eu
conhecia pela fam a que haviam adquirido em seus m elhores anos. Por sua
honra, de bom grado eu desej aria vê-los retirados em casa, à vontade, e
desobrigados das ocupações públicas e guerreiras, que não eram para seus
om bros. Outrora fui fam iliar dos filhos de um fidalgo viúvo e m uito velho, de
um a velhice, porém , bastante forte. Tinha várias filhas para casar e um filho j á
em idade de frequentar o m undo; isso sobrecarregava sua casa com várias
despesas e visitas de fora, que lhe davam pouco prazer, não só pela
preocupação com a econom ia com o, m ais ainda, por ter adotado, devido à
idade, um a form a de vida m uito distante da nossa. Um dia eu lhe disse um
tanto atrevidam ente, com o é m eu costum e, que seria m ais conveniente nos
ceder espaço e deixar a casa principal para seu filho (pois era a única bem -
arrum ada e confortável) e retirar-se para um a propriedade sua, vizinha, onde
ninguém incom odaria seu sossego, pois de outra form a ele não conseguiria evitar nossas am olações, tendo em vista a condição de seus filhos. Mais
tarde, aceitou m eu conselho e sentiu-se bem . Isso não significa darm os algo
aos filhos por m eio de um contrato do qual não se possa voltar atrás: eu, que
estou em condições de exercer esse papel, lhes deixaria o usufruto de m inha
casa e de m eus bens m as com liberdade para m e arrepender se m e dessem
m otivo; lhes deixaria o uso por j á não m e ser conveniente, m as preservaria,
tanto quanto m e aprouvesse, a autoridade sobre o conj unto dos negócios, pois
sem pre j ulguei que deve ser um a grande alegria para um pai velho pôr ele
m esm o os filhos a par do com ando dos negócios e poder, em vida, controlar o
com portam ento deles, oferecer-lhes ensinam entos e opiniões de sua própria
experiência e entregar a honra antiga e a organização da casa nas m ãos de
seus sucessores, confirm ando assim as esperanças que pode ter em sua
conduta futura. E para tanto, não gostaria de fugir de sua com panhia, gostaria
de esclarecê-los de perto e desfrutar, conform e a condição de m inha idade,
de sua alegria e de suas festas. Se não vivesse entre eles (com o não poderia
sem atrapalhar, com a tristeza de m inha idade e os constrangim entos de
m inhas doenças, as reuniões deles, e tam bém sem constranger e forçar as
regras e os m odos de vida que eu teria então), gostaria ao m enos de viver
perto deles num a ala da casa, não a m ais vistosa m as a m ais confortável. Não
com o vi há alguns anos um decano de Saint-Hilaire de Poitiers, entregue a
tam anha solidão pelo desconforto de sua m elancolia que, quando entrei em
seu quarto, fazia 22 anos que não saía para dar um só passo; e no entanto
tinha todos os m ovim entos livres e fáceis, salvo um fluxo reum ático que lhe oprim ia o estôm ago. Só um a vez por sem ana perm itia que alguém entrasse
para vê-lo; em seu quarto se m antinha sem pre trancado por dentro, sozinho, a
não ser por um criado que um a vez ao dia lhe levava com ida e apenas entrava
e saía. Sua ocupação era andar e ler algum livro (pois conhecia um pouco as
letras), obstinado, aliás, em m orrer nesse estado, com o aconteceu logo
depois. Eu ensaiaria, por um a doce conversa, alim entar em m eus filhos um a
viva am izade e benevolência não falsa por m im . Algo que se conquista
facilm ente das pessoas bem -nascidas, m as, se são bichos furiosos, com o
nosso século produz aos m ilhares, há que odiá-los e fugir deles com o tais.
Desaprovo esse costum e de proibir às crianças usar a palavra “pai” e
ordenar-lhes um a outra, estranha e m ais respeitosa, com o se a natureza não
nos tivesse, em geral, provido de suficiente autoridade. Cham am os a Deus
todo-poderoso de pai e desdenham os que nossos filhos nos cham em assim .
Corrigi esse erro em m inha fam ília. Tam bém é loucura e inj ustiça privar os
filhos crescidos da fam iliaridade com os pais e querer m anter com eles um a
arrogância austera e desdenhosa, esperando com isso deixá-los tem erosos e
obedientes. Pois é um a farsa inútil que torna os pais m uito aborrecidos para
os filhos, e, o que é pior, ridículos. Eles têm a j uventude e as forças nas
m ãos, e por conseguinte o vento e a sim patia do m undo; e recebem com
zom baria essas caras orgulhosas e tirânicas de um hom em que não tem m ais
sangue no coração nem nas veias: verdadeiros espantalhos de cam pos de
cânham o. Mesm o se pudesse m e fazer tem ido, gostaria m ais ainda de m e
fazer am ado. Há tantas espécies de fraquezas na velhice, tanta im potência, ela é tão suj eita ao desprezo, que a m elhor conquista que pode fazer é a
afeição e o am or dos seus: o com ando e o tem or não são m ais suas arm as.
Conheci alguém cuj a j uventude fora m uito autoritária. Ao chegar à idade
avançada, em bora viva tão saudavelm ente com o possível, ele bate, m orde,
xinga: o m ais bravo senhor da França; rói-se de preocupações e vigilância,
m as tudo isso não passa de um a com édia para a qual a própria fam ília
conspira: do celeiro, da adega e m esm o de sua bolsa, os outros ficam com a
m elhor parte, ao passo que ele guarda as chaves na algibeira, m ais
preciosam ente que seus próprios olhos. Enquanto se alegra de m anter sua
m esa com tanta econom ia e sovinice, em diversos cantos da casa tudo é
desperdício, j ogo e despesas, e conversas sobre as histórias de sua cólera vã
e de sua prudência. Cada um está de atalaia contra ele. Se por acaso um
m iserável criado a ele se apega, de súbito é posto sob suspeita, atitude a que
a velhice se presta tão facilm ente. Quantas vezes se gabou com igo do freio
em que m antinha os seus e da perfeita obediência e reverência que recebia; e
de com o enxergava claro em seus negócios! Ille solus nescit omnia. 258Só ele
ignora tudo.] Não conheço hom em que possa m ostrar m ais qualidades, tanto inatas com o adquiridas, próprias a conservar a autoridade que tem , e no
entanto desta se tenha destituído com o um a criança. Por isso o escolhi, entre
vários casos sem elhantes que conheço, com o o m ais exem plar. Seria m atéria
para um a discussão escolástica saber se está m elhor assim ou de outra
m aneira. Em sua presença todas as coisas lhe cedem . E deixam sua
autoridade seguir seu curso inútil pois j am ais lhe resistem : acreditam nele,
tem em -no, respeitam -no tanto quanto ele quer. Dem ite um criado? Este
arrum a sua trouxa e ei-lo partindo, m as só para longe de sua presença. Os
passos da velhice são tão lentos, os sentidos tão turvos, que o criado viverá
um ano na m esm a casa e fará seu serviço, sem ser notado. E quando chega o
m om ento, fazem vir cartas de longe, lastim osas, suplicantes, cheias de
prom essas de fazer m elhor, pelo que o criado volta perdoado. O cavalheiro
faz algum a transação ou algum a carta que desagrade? Suprim em -na, forj ando
em seguida causas suficientes para desculpar o fato de suas ordens não
terem sido cum pridas ou a falta de resposta. Com o nenhum a carta de fora é
levada a ele em prim eiro lugar, só vê as que parecem convenientes que saiba.
Se porventura as apanha, tendo com o costum e apoiar-se em certa pessoa
para lê-las, acha-se im ediatam ente o que se desej a que ele encontre e a todo
instante dizem que alguém que o insulta na carta está lhe pedindo perdão. Por
fim , só vê seus negócios através de um a im agem desenhada e arrum ada,
sendo a m ais satisfatória possível para não despertar sua rabugice e sua
raiva. Vi sob form as diferentes, m as todas com igual resultado, m uitas casas
adm inistradas por m uito tem po com igual constância. É um a tendência natural
das m ulheres discordar dos m aridos. Agarram com am bas as m ãos todos os
pretextos para se oporem a eles: a prim eira desculpa lhes serve de plena
j ustificação. Vi um a que furtava m uito o m arido, para, dizia a seu confessor,
dar esm olas m ais gordas. Confie-se nessa piedosa j ustificativa! Nenhum a
despesa lhes parece ter suficiente dignidade se vem de um a concessão do
m arido. Para dar-lhe graça e autoridade, elas têm de usurpá-la pela astúcia
ou pela força, e sem pre de m odo incorreto. Voltando ao m eu assunto, quando agem contra um pobre velho, e em nom e dos filhos, então em punham esse
pretexto e o utilizam gloriosam ente para suas próprias paixões, e, com o se
sofressem um a m esm a servidão, conspiram facilm ente contra a dom inação e
o com ando dele. Se os filhos são hom ens, adultos e em preendedores,
tam bém subornam de im ediato, à força ou com favores, o m ordom o, o
intendente e todos os outros. Os que não têm m ulher nem filho caem nessa
desgraça m ais dificilm ente, m as tam bém de m odo m ais cruel e indigno. O
velho Catão dizia em sua época: “tantos criados, tantos inim igos”. Devido à
distância entre a pureza de seu século e a do nosso, vej am os se ele não quis nos advertir de que m ulher, filho e criado são todos inim igos nossos. Bem faz
a decrepitude ao nos fornecer o doce benefício de nada perceberm os, a
ignorância e a facilidade de nos deixarm os enganar. Se vigiássem os tudo isso,
que seria de nós! Especialm ente nesta época em que os j uízes que devem
decidir sobre nossas controvérsias são em geral partidários da j uventude e
interesseiros? Essa fraude pode escapar de m inha vista, m as pelo m enos não
m e escapa à vista que sou m uito fraudável. E j á terem os dito o suficiente o
quanto vale um am igo, em com paração com esses vínculos sociais que são os
casam entos! E com que devoção e respeito vej o a própria im agem da
am izade, tão pura, nos anim ais! Se os outros m e fraudam , pelo m enos eu
m esm o não m e fraudo ao considerar-m e capaz de evitar isso ou ao m e roer
os m iolos para consegui-lo. Preservo-m e de tais traições em m eu âm ago, não
por um a curiosidade inquieta e tum ultuosa m as, antes, por desvio de m eu
pensam ento e por resolução. Quando ouço contarem a situação de alguém ,
não zom bo do outro: viro im ediatam ente os olhos para m im , para ver com o
estou. Tudo o que lhe toca m e diz respeito. Seu incidente adverte-m e e
desperta-m e para esse lado. Todos os dias e todas as horas dizem os a
respeito de outro o que diríam os m ais adequadam ente a nosso respeito se
soubéssem os voltar os olhos para nós m esm os e estender nossas
considerações. E vários autores prej udicam dessa form a a defesa de sua
causa quando correm , tem erários, ao encontro da causa que atacam e
quando lançam contra os inim igos dardos que poderiam lhes ser relançados
com m ais proveito. O finado m arechal de Montluc,259 tendo perdido seu filho, m orto na ilha da Madeira, e na verdade bravo fidalgo e m uito prom issor,
observava-m e, entre seus outros arrependim entos, a tristeza e a dor no
coração que sentia de j am ais ter se com unicado com ele; e por causa desse
hum or paternal severo e de seus m uxoxos, de ter perdido a satisfação de bem
conhecer e apreciar o filho, e tam bém de declarar-lhe a extrem a afeição que
lhe dedicava e o digno j ulgam ento que fazia de seu valor. “E esse pobre
rapaz”, dizia, “nada viu de m im além de um a reserva carrancuda e cheia de
desprezo, e partiu com essa crença de que eu não soube am á-lo nem estim á-
lo de acordo com seu m érito. Para quem eu guardava a descoberta dessa
afeição singular que lhe dedicava em m inha alm a? Não era ele que devia ter
todo o desfrute e toda a gratidão disso? Forcei-m e e torturei-m e para m anter
essa m áscara inútil, e perdi o prazer de sua conversa, e ao m esm o tem po seu
afeto, que deve ter sido m uito frio em relação a m im , pois nunca recebeu
senão dureza e um a autoridade tirânica.” Acho essa queixa m uito j usta e
sensata, pois, com o sei m uito bem por experiência, não há nenhum doce consolo na perda de nossos am igos a não ser o que nos traz a certeza de
nada ter esquecido de lhes dizer e de ter tido com eles a com unicação
perfeita e integral de um am igo. Ó m eu am igo! Valho m ais por ter esse gosto
ou valho m enos? Valho, decerto, bem m ais. A tristeza que sinto com sua
perda m e consola e m e honra. Será um piedoso e agradável dever de m inha
vida fazer-lhe para sem pre as exéquias? Existe prazer que valha essa
privação? Abro-m e com os m eus tanto quanto posso e com m uito gosto lhes
com unico o estado de m inha vontade e de m eu j ulgam ento sobre eles, com o
sobre qualquer um ; apresso-m e em m ostrar-m e e em apresentar-m e, pois não
quero que se enganem a m eu respeito, de nenhum a m aneira que sej a. Pelo
que diz César, entre os costum es particulares que tinham os gauleses, nossos
ancestrais, havia um segundo o qual as crianças só se apresentavam aos pais
e m ostravam -se em público na com panhia deles quando com eçavam a portar
arm as; com o se quisessem dizer que então tam bém era o m om ento de os
pais os receberem em sua intim idade e entre seus conhecidos. Vi tam bém
outra espécie de falta de discernim ento em alguns pais de m inha época, que
não se contentam em , durante sua longa vida, ter privado os filhos da parte de
suas fortunas que lhes toca naturalm ente, m as ainda deixam , depois deles, às
suas m ulheres essa m esm a autoridade sobre todos os seus bens e o direito
de deles dispor segundo sua fantasia. E conheci certo senhor, dos prim eiros
oficiais de nossa Coroa, que tinha com o expectativa de direito futuro m ais de
50 m il escudos de renda e m orreu necessitado e coberto de dívidas, com
m ais de cinquenta anos, enquanto sua m ãe, em extrem a decrepitude, ainda goza de todos os seus bens por desej o do pai, que por sua vez vivera quase
oitenta anos. Isso não m e parece nada razoável. Por isso vej o pouca
vantagem em que um hom em , cuj os negócios vão bem , vá procurar um a
m ulher que o sobrecarregue com um grande dote; não há dívida vinda de fora
que cause m ais ruína aos lares. Meus predecessores seguiram correntem ente
essa regra, bem a propósito, e eu tam bém . Mas os que nos desaconselham
as m ulheres ricas, receando que sej am m enos dóceis e agradecidas,
enganam -se ao nos fazer perder algum a real vantagem por um a conj ectura
tão frívola. Para um a m ulher insensata tam bém não lhe custa passar por cim a
de um a razão, tanto quanto por cim a de outra. Ficam m ais contentes consigo
m esm as quando estão m ais erradas. A inj ustiça as atrai, assim com o a honra
das ações virtuosas atrai as boas, e, quanto m ais ricas, m ais bondosas, assim
com o as m ais belas são m ais fácil e gloriosam ente castas. É razoável deixar a
adm inistração dos negócios com as m ães enquanto os filhos não estão na
idade, segundo a lei, de poder encarregar-se deles, m as o pai os educou
m uito m al se não pode esperar que, na m aturidade, tenham m ais sensatez e
com petência que sua m ulher, dada a fraqueza habitual desse sexo.
Entretanto, na verdade seria m ais antinatural fazer as m ães dependerem das
decisões dos filhos. Deve-se dar-lhes largam ente com o que m anterem sua
situação, segundo a condição de sua fam ília e sua idade, tanto m ais que para
elas a necessidade e a indigência são m uito m ais inconvenientes e difíceis de
suportar do que para os hom ens: é m elhor que os filhos, e não a m ãe,
suportem isso. Via de regra, a distribuição m ais saudável de nossos bens quando m orrem os é, creio, de acordo com o uso do país. As leis pensaram
nisso m elhor que nós e é preferível deixá-las falhar em sua escolha do que
nos aventurarm os a falhar tem erariam ente na nossa. Os bens não são
propriam ente nossos, j á que, sem nós e pela lei civil, se destinam a certos
sucessores. E ainda que tenham os algum a liberdade a m ais, considero que é
preciso um grande m otivo e bem razoável para retirarm os de alguém o que
sua sorte lhe designou e o que a j ustiça com um lhe atribuiu, e é abusar
insensatam ente dessa liberdade nos servirm os de nossas fantasias frívolas e
pessoais. Meu destino deu-m e a graça de não ter m e apresentado ocasiões
capazes de tentar e desviar m inha afeição à regra com um e legítim a. Vej o
gente para quem é tem po perdido dem onstrar um longo cuidado e bons
ofícios. 260 Para eles, basta um a palavra atravessada e apaga-se o m érito de dez anos. Feliz de quem ali se encontra para adular-lhe a vontade nessa
derradeira passagem . A últim a ação é a que vence, não são os cuidados
m elhores e m ais frequentes que se m ostram eficazes, porém os m ais
recentes e presentes. São pessoas que j ogam com seus testam entos com o
se fossem m açãs ou varas para gratificar ou castigar cada ação dos que
alegam interesse neles. É coisa de consequência m uito longa e de m uito peso
para ser assim m udada a cada instante, e em que os sensatos tom am partido
de um a vez por todas, baseando-se sobretudo na razão e no costum e público.
Levam os dem asiado a peito essas substituições m asculinas, 261 e propom os um a eternidade ridícula para nossos nom es. Dam os tam bém im portância
dem ais às vãs conj ecturas feitas sobre o futuro a partir do que os espíritos
das crianças nos oferecem . Talvez tenham feito um a inj ustiça ao m e deslocar
de m inha posição262 por ter sido o m ais desaj eitado e obtuso, o m ais lento e desinteressado por m inha lição, não só de todos os m eus irm ãos m as de
todas as crianças de m inha província, fosse num a aula de exercício do
espírito, fosse num a aula de exercício do corpo. É loucura fazer escolhas
incom uns de herdeiros, confiando nessas adivinhações com que tantas vezes
nos enganam os. Se podem os infringir essa regra e corrigir os destinos que
seriam norm alm ente os de nossos herdeiros, podem os com m ais razão fazê-lo
em função de algum a deform idade corporal notável e enorm e, de um vício
constante, irrem ediável, e que para nós, grandes apreciadores da beleza, constitui considerável prej uízo. O agradável diálogo do legislador de Platão
com seus cidadãos honrará esta passagem . “Com o então”, dizem eles
sentindo o fim aproxim ar-se, “não poderem os legar o que é nosso para quem
nos aprouver? Ó deuses, que crueldade que não nos sej a possível, conform e
os nossos nos tenham servido em nossas doenças, em nossa velhice, em
nossos negócios, dar-lhes m ais ou m enos segundo nossas fantasias!” Ao que
o legislador responde desta m aneira: “Meus am igos, que ireis sem dúvida
m orrer em breve, é tão difícil que vos conheceis com o que conheceis o que é
vosso, segundo a inscrição délfica. 263 Eu, que faço as leis, afirm o que nem pertenceis a vós m esm os nem é vosso aquilo de que desfrutais. E vossos
bens e vós são de vossa fam ília, tanto passada com o futura; porém , ainda
m ais, são do público tanto vossa fam ília com o vossos bens. Pelo que hei de
proteger-vos de fazer um testam ento inj usto tem endo que em vossa velhice ou
vossa doença algum baj ulador ou algum a paixão vos solicitem
despropositadam ente. Mas tendo respeito tanto ao interesse universal da Cidade com o ao de vossa fam ília, estabelecerei leis e farei sentir que,
segundo a razão, o interesse individual deve ceder diante do geral. Parti,
alegrem ente, para onde a necessidade hum ana vos cham a. Cabe a m im , que
não favoreço m ais um a coisa que outra, e que tanto quanto posso m e
preocupo com o bem geral, cuidar do que deixardes”. Voltando ao m eu
assunto, parece-m e que, de toda m aneira, raram ente nascem m ulheres com
autoridade sobre os hom ens, a não ser a m aterna que lhes é natural, e a não
ser para o castigo daqueles que, por algum hum or febril, se subm eteram
voluntariam ente a elas. Mas isso não se refere de j eito nenhum às velhas de
quem falam os aqui. Foi a evidência de tal consideração que nos fez forj ar e
dar consistência com tanto gosto a essa lei, 264 que ninguém nunca viu, e que priva as m ulheres da sucessão desta coroa, e não há dom ínio senhorial no
m undo em que ela não sej a invocada, com o aqui, por um a genuína aparência
de razão que a credencia; m as o acaso lhe deu m ais crédito em certos
lugares do que em outros. É perigoso deixar a j uízo delas a repartição de
nossa sucessão, segundo a escolha que farão dos filhos, que é sem pre iníqua
e fantasiosa. Pois esse apetite desregrado e esse desej o doentio que
experim entam na época da gravidez, elas o têm na alm a, o tem po todo.
Correntem ente vem o-las se apegarem aos m ais fracos e deform ados, ou aos
que, se os têm , ainda estão pendurados em seu pescoço. Pois, não tendo
suficiente força de j ulgam ento para escolher e abraçar o que m erece sê-lo,
deixam -se m ais facilm ente levar para onde os sinais da natureza estão m ais
presentes: com o os anim ais que só reconhecem os filhotes quando eles ainda
estão presos às suas tetas. Em sum a, é fácil ver por experiência que essa afeição natural a que conferim os tanta autoridade tem raízes bem fracas. Em
troca de um pagam ento bem m odesto, diariam ente arrancam os dos braços
das m ães seus próprios filhos e as fazem os tom ar conta dos nossos; fazem o-
las entregar os delas a algum a m iserável am a de leite a quem não querem os
abandonar os nossos, ou a algum a cabra; proibindo-as não só de am am entá-
los, qualquer que sej a o perigo que eles possam correr, m as tam bém de
cuidar deles para se dedicarem totalm ente ao serviço dos nossos. E na
m aioria delas vê-se gerar bem cedo, por hábito, um am or bastardo m ais
veem ente que o natural e m aior solicitude no cuidado com os filhos de criação
do que com os seus próprios. E o que falei das cabras é porque, ao m eu
redor, é corrente ver as m ulheres das aldeias, quando não podem alim entar
seus filhos com o próprio peito, cham ar as cabras em seu auxílio. E tenho
neste m om ento dois lacaios que nunca m am aram m ais de oito dias leite de
m ulheres. Essas cabras são am estradas para vir im ediatam ente aleitar as
criancinhas, reconhecem suas vozes quando gritam e acorrem ; se lhes
apresentam outro que não o seu bebê, recusam -no, e a criança faz o m esm o
com outra cabra. Outro dia, vi um que perdera a sua pois o pai apenas a
tom ara em prestada de um vizinho, e o bebê j am ais conseguiu se apegar à
outra que lhe apresentaram e m orreu, provavelm ente de fom e. Os anim ais
alteram e desviam tão facilm ente com o nós o afeto natural. Heródoto conta
que em certo lugar da Líbia os hom ens se j untam às m ulheres
indiscrim inadam ente, m as que o filho, quando tem força para andar, encontra
o pai, aquele para o qual, na m ultidão, sua propensão natural encam inha seus prim eiros passos. Creio que deve haver m uitos equívocos. Ora, considerando
o sim ples fato de que am am os nossos filhos por tê-los gerado, pelo qual os
cham am os de outros nós m esm os, parece-m e que há outra produção vinda de
nós que não é de m enor valor. Pois o que geram os pela alm a, os partos de
nosso espírito, de nosso coração e de nosso saber são produtos de um a
parte m ais nobre que a corporal e são m ais nossos. Dessa descendência
som os pai e m ãe j untos; essas crianças nos custam bem m ais caro e trazem -
nos m ais honra se têm algo de bom . Pois o valor de nossos outros filhos é
m uito m ais deles que nosso: tem os um a leve participação nisso; m as
daqueles, toda a beleza, toda a graça e todo o valor é nosso. E por isso nos
representam e nos revelam m ais intensam ente que os outros. Platão
acrescenta que são esses os filhos im ortais, que im ortalizam seus pais, e
m esm o os deificam , com o foi o caso com Licurgo, Sólon, Minos. Ora, com o
as histórias estão cheias de exem plos desse am or habitual dos pais em
relação aos filhos, não m e pareceu descabido selecionar tam bém alguns
dessa outra espécie. Heliodoro, aquele bom bispo de Trica, preferiu perder a dignidade, as vantagens, a devoção de um a prelazia tão venerável a perder
sua filha:265 filha que ainda vive, bem graciosa, m as talvez com m ais zelo e requinte, e m uito am orosam ente tam bém , do que convém a um a filha
eclesiástica e sacerdotal. Houve em Rom a um Labieno, personagem de
grande valor e autoridade e entre outras qualidades excelente em todo tipo de
literatura, que era, creio, filho daquele grande Labieno, o prim eiro dos
capitães sob o com ando de César na guerra da Gália, e que depois, tendo se
j ogado no partido do grande Pom peu, ali se m anteve tão coraj osam ente até que César o derrotou na Espanha. Vários eram os que tinham invej a do valor
desse Labieno de quem falo, e, com o é provável, os cortesãos e favoritos dos
im peradores de seu tem po foram inim igos de sua liberdade e dos sentim entos
herdados de seu pai contra a tirania, e que, é de crer, im pregnaram seus
escritos e livros. Seus adversários o perseguiram perante os m agistrados de
Rom a e obtiveram que várias de suas obras publicadas fossem condenadas a
ser queim adas. Foi por ele que com eçou esse novo exem plo de sanção, que
depois se aplicou em Rom a a vários outros, de punir de m orte os próprios
escritos e até m esm o a erudição. Com o se não houvesse suficientes m eios e
m atéria de crueldade se a eles não j untássem os coisas que a natureza isentou
de todo sentim ento e de todo sofrim ento, com o a reputação e as invenções de
nosso espírito; e com o se fôssem os transm itir os m ales corporais às ciências
e às obras das Musas. Ora, Labieno não conseguiu suportar essa perda nem
sobreviver a essa tão querida progenitura; fez-se levar e trancar vivo no
m ausoléu de seus ancestrais, onde conseguiu a um só tem po suicidar-se e
enterrar-se. É difícil m ostrar outro exem plo m ais veem ente de am or paterno
do que esse. Cássio Severo, hom em m uito eloquente e fam iliar de Labieno, ao
ver queim arem seus livros exclam ou que, pela m esm a sentença, deviam
sim ultaneam ente condená-lo tam bém a ser queim ado vivo, pois conservava na
m em ória o que eles continham . Sem elhante infortúnio adveio a Crem úcio
Cordo, acusado de ter louvado Bruto e Cássio em seus livros. Aquele Senado
detestável, servil e corrom pido, e digno de um senhor pior que Tibério,
condenou ao fogo seus escritos. E ele ficou feliz de acom panhá-los na m orte e m atou-se por abstinência de com ida. O bom Lucano foi j ulgado por aquele
infam e Nero; nos últim os instantes de vida, quando quase todo o sangue j á lhe
escorrera das veias dos braços, que fizera seu m édico seccionar para m orrer,
e que a frieza j á lhe tom ara as extrem idades dos m em bros e com eçava a se
aproxim ar das partes vitais, a últim a coisa que teve na m em ória foram alguns
dos versos de seu livro sobre a guerra de Farsália, que ele recitou, e m orreu
tendo essas derradeiras palavras na boca. O que era isso senão um a terna e
paternal despedida que fazia de seus filhos, equivalente aos adeuses e
estreitos abraços que dam os aos nossos quando m orrem ? E um exem plo do
instinto natural que rem em ora em nossa lem brança, nesse final, as coisas
m ais queridas que tivem os em vida? Epicuro, que m orreu atorm entado, com o
diz, pelas dores extrem as da cólica, tinha todo o consolo na beleza da doutrina
que deixava ao m undo. Pensam os que ele teria encontrado tanta alegria em
um núm ero de filhos bem -nascidos e bem -educados, se os tivesse tido, com o
tinha com a produção de seus ricos escritos? E que, se houvesse tido a
escolha de deixar atrás de si um filho defeituoso e doente ou um livro tolo e
inepto, não preferiria, e não apenas ele m as todo hom em de saber
sem elhante, sofrer a prim eira desgraça m ais que a outra? Se fosse proposto
(por exem plo) a Santo Agostinho, de um lado, enterrar seus escritos que são
tão proveitosos para nossa religião, e, de outro, enterrar seus filhos, caso os
tivesse, seria talvez im piedade se não preferisse enterrar os filhos. E não sei
se eu não gostaria m uito m ais de ter produzido um , perfeitam ente bem
form ado, do relacionam ento com as Musas que do relacionam ento com m inha
m ulher. A este aqui, 266 tal com o está, o que dou, dou de form a pura e irrevogável, com o se dá aos filhos corporais. Esse pouco bem que lhe dei não
está m ais à m inha disposição. Ele pode saber m uitas coisas que não sei m ais,
e ter de m im o que não conservei e que eu precisaria, tanto quanto um
estranho, pedir em prestado se tivesse necessidade. Se sou m ais sábio que
ele, ele é m ais rico que eu. Há poucos hom ens afeitos à poesia que não se
gratificariam m ais por ser pai da Eneida que do m ais belo m enino de Rom a, e
que não suportassem m ais facilm ente a perda de um que do outro. Pois
segundo Aristóteles, de todos os operários o poeta é precisam ente o m ais
apaixonado por sua obra. Custa crer que Epam inondas, que se gabava de
deixar, com o única posteridade, filhas que um dia honrariam o pai (eram as
duas nobres vitórias que ele tivera contra os lacedem ônios), houvesse
consentido de bom grado trocá-las pelas m oças m ais sedutoras de toda a
Grécia; ou que Alexandre e César tenham algum dia desej ado ser privados da
grandeza de suas gloriosas façanhas guerreiras em troca da vantagem de ter
filhos e herdeiros, por m ais perfeitos e incom paráveis que fossem . E até
duvido m uito que Fídias ou outro excelente escultor gostasse tanto da
preservação e da longevidade de seus filhos reais com o o faria de um a
estátua excelente que, com longo trabalho e estudo, ele tivesse realizado à
perfeição segundo as regras da arte. E quanto a essas paixões viciosas e
furiosas que às vezes inflam aram os pais com am or por suas filhas, ou as
m ães por seus filhos, tam bém as encontram os, sem elhantes, nessa outra
espécie de parentesco: com o prova, o que se conta de Pigm alião, que, tendo
esculpido um a estátua de m ulher de singular beleza, ficou tão perdida e