Os Ensaios

Michel de Montaigne · Capítulo 4 de 33

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Os Ensaios

O escritor Montaigne

XXXII Defesa de Sêneca e de Plutarco

XXXV Sobre três boas esposas

XXXVII Sobre a sem elhança dos filhos com os pais

LIVRO TERCEIRO

II Sobre o arrependim ento

III Sobre três relações

V Sobre versos de Virgílio

VI Sobre os coches

XI Sobre os coxos

XIII Sobre a experiência

Cronologia

Outras leituras

Índice remissivo

O escritor Montaigne1

ERICH AUERBACH

Montaigne era filho de pai gascão e m ãe j udia espanhola. A fam ília era rica e

estim ada: o avô Ey quem , com erciante de peixes em Bordeaux, com prara o

feudo nobiliário de Montaigne, na Guy enne; o pai, soldado e nobre, alcançou o

cargo de prefeito de Bordeaux. Michel é seu sucessor em todos os aspectos

exteriores: herdeiro do patrim ônio, soldado, adm inistrador, viaj ante, bom pai

de fam ília e finalm ente maire de Bordeaux. Tam bém quanto ao físico é filho

de seu pai, de quem herdou a constituição robusta, o tem peram ento

sanguíneo e a predisposição à litíase. Mas os tem pos haviam se tornado m ais difíceis. O pai viveu na época dourada das cam panhas m ilitares na Itália; o

filho, em m eio à terrível turbulência causada pela crise huguenote, a últim a a

am eaçar a estabilidade nacional da França. A questão religiosa teve início na

década de 1550, época em que Montaigne m al atingira a idade adulta, e

term inou por volta de 1600, com a vitória de Henrique IV, poucos anos após a

m orte do escritor. Na segunda m etade do século XVI, a era de Filipe da

Espanha e Elizabeth da Inglaterra, a França é palco de um sangrento turbilhão

de acontecim entos e de um a inquietante anarquia dos ânim os.

Sobre um a base tão instável com o essa, Montaigne levou um a vida cuj o

equilíbrio j am ais foi abalado. Em sua j uventude, talvez tenha conhecido a

am bição e a ansiedade, talvez a paixão e certam ente a am izade em sua

expressão m ais autêntica. Mas na época em que o conhecem os, isso há m uito

j á é passado. Com 38 anos, ele se recolhe à vida privada, e daí em diante sua

atividade externa restringe-se à defesa de seu patrim ônio. Adm inistra-o com

prudência, sem m edo nem rigidez, por vezes cedendo um pouco, com espírito

e sem uso da força, m as de m odo firm e e resoluto.

Qual era o patrim ônio que devia resguardar? Prim eiro, suas posses, sua

fam ília e sua segurança. Mas isso é o de m enos: defendia-os de m odo sereno

e cordial, com alguns gestos hábeis. É divertido ler com o consegue desarm ar

os bandos de saqueadores com sua postura digna e segura, com seu sim ples

m odo de agir. Mas se o fardo se fizesse pesado dem ais, se tais obrigações

viessem a lhe exigir m uito, estaria disposto a abandoná-las. O verdadeiro

obj eto de sua defesa é seu cerne interior, o esconderij o de seu espírito, a arrière-boutique que soube conservar para si. Il faut faire comme les

animaux, qui effacent la trace à la porte de leur tanière. 2 É preciso fazer com o os anim ais, que apagam seu rastro na porta da toca.

E isso não vale apenas para sua vida exterior. Montaigne era um hom em

de coração aberto, expansivo e hospitaleiro; não recusava a aventura; não se

abandonava, m as prestava-se de bom grado. Estava atento às novidades e

chegava m esm o a ser um pouco esnobe; passava-se por m ais nobre do que

era de fato e sabia fazer notar da m aneira m ais discreta possível sua elevada

posição social. Sua autocrítica e autoironia estão cheias de um orgulho

sim pático. Não é de form a algum a um erem ita; é apenas um hom em

reservado, que por vezes gosta de estar em boa com panhia. Mas a arrière-

boutique de seu ser interior é inacessível: aí está sua verdadeira m orada, ali

se sente em casa; em prol da segurança e do conforto desse refúgio

concentra-se toda a atividade do hom em m ais sagaz de seu tem po.

Montaigne possuía um sentido pronunciado de decoro e lealdade. Tivera

um pai bom e inteligente, um a infância feliz e um a j uventude livre; não era

próprio de seu tem peram ento ter pensam entos m alevolentes ou agir de m odo

baixo, não esperava que os outros o fizessem e acabava por se enganar,

com o vira acontecer a seu pai. Fazia parte dessa lealdade servir ao rei, ser

agradável aos am igos e proteger a própria fam ília; era preciso ser hum ano e

espontâneo com os inferiores e franco e respeitoso com os superiores. Fazia

parte da lealdade respeitar as regras e os costum es, e seria insensatez

acreditar que com um a conduta oposta se pudesse causar algo além de

desordem . Não era conveniente, e seria m esm o inútil, incôm odo e inoportuno,

diferenciar-se de m odo notável dos outros hom ens da m esm a classe, faltar

com os deveres ou m esm o assum ir voluntariam ente encargos descabidos.

Talvez tam bém lhe fosse agradável com provar com o se pode exercer um

cargo ou adm inistrar um negócio a que não se pode fugir de form a tão boa ou

m elhor do que os outros — sem para isso ter que se esforçar ou dedicar-se

em excesso. A condição era essa. Si quelquefois on m’a poussé au

maniement d’affaires estrangères, j’ay promis de les prendre en main, non

pas au poulmon et au foye. 3 Se por vezes m e com peliram à adm inistração de negócios alheios, prom eti m anej á-los com cuidado, m as sem levá-los a peito.]

Montaigne agiu desse m odo m esm o quando, num a época difícil, foi quase

coagido a se tornar maire de Bordeaux. Foi um bom pai para sua fam ília, um

francês leal e um hom em versado nas grandes questões de seu tem po; se

não veio a ser um personagem de destaque na corte, isso deveu-se tão

som ente a ele. Não o foi porque não quis. Defendia-se contra tudo que lhe

im punha deveres além do necessário: frente ao rei, aos am igos, aos

burgueses de Bordeaux, à sua fam ília. Defendia-se contra vínculos coercivos

com a m esm a obstinação e gentileza com que se defendia contra os inim igos

externos.

Montaigne defende sua solidão interior. Mas o que significa isso para ele?

O que a torna tão valiosa? A solidão interior é sua própria vida, seu existir em

si e consigo m esm o, sua casa, seu j ardim e sua câm ara de tesouros. Para lá

carrega tudo o que conquistou de precioso em suas andanças pelo m undo; lá

elabora e im pregna tudo com o tem pero de seu ser. O que é e a que serve essa solidão? Não se trata de um a fuga do m undo no sentido cristão, e

tam pouco de ciência ou filosofia. É algo que ainda não tem nom e. Montaigne

abandona-se a si m esm o. Dá livre curso a suas forças interiores — m as não

som ente ao espírito: o corpo tam bém deve ter voz, pode interferir em seus

pensam entos e até nas palavras que ele se põe a escrever.

Com parados a ele, os grandes espíritos do século XVI — os prom otores do

Renascim ento, do Hum anism o, da Reform a e da ciência que criaram a Europa

m oderna — são todos, sem exceção, especialistas. Teólogos ou filólogos,

astrônom os ou m atem áticos, artistas ou poetas, diplom atas ou generais,

historiadores ou m édicos: em sentido lato, são todos especialistas. Alguns se

especializaram em várias áreas; Montaigne, em nenhum a. Não é

absolutam ente um poeta. Estudou ciências j urídicas, m as era um j urista

indiferente, e suas declarações sobre os fundam entos do direito, em bora

significativas de outro ponto de vista, não possuem nenhum valor específico

para a m atéria. Toda a sua atividade prática não tem nenhum a relação

profissional com sua produção intelectual. Muitas vezes aquela fornece o

m aterial para seus pensam entos. Mas tais pensam entos não são de grande

im portância para nenhum a disciplina específica; não têm caráter j urídico, nem

m ilitar, nem diplom ático, nem filológico, em bora retirem de todos esses

cam pos e outros m ais sua encantadora concretude. E tam bém não são

propriam ente filosóficos: falta-lhes todo sistem a ou m étodo. Montaigne

perm anece leigo m esm o onde parece com preender algo do assunto — em

pedagogia, por exem plo. É difícil acreditar que ele quisesse aprofundar-se seriam ente num a das m atérias de que trata casualm ente. E, sej a com o for,

suas realizações não dizem respeito a nenhum a delas. Ainda hoj e é difícil

definir em que consistem , e é quase incom preensível que tenham alcançado

repercussão em sua época. Pois toda realização necessita de um destinatário

que lhe dê algum valor, todo sucesso necessita de um público. O público dos Ensaios de Montaigne não existia, e ele não podia supor que existisse. Não

escrevia nem para a corte nem para o povo, nem para os católicos nem para

os protestantes, nem para os hum anistas nem para algum a outra coletividade

j á existente. Escrevia para um a coletividade que parecia não existir, para os

hom ens vivos em geral que, com o leigos, possuíam um a certa cultura e

queriam com preender sua própria existência, isto é, para o grupo que m ais

tarde veio a se cham ar de público culto. Até esse m om ento, a única

coletividade existente — sem considerar as guildas, os estam entos e o Estado

— era a com unidade cristã. Montaigne dirige-se a um a nova coletividade e, ao

fazê-lo, ele tam bém a cria: é a partir de seu livro que ela cobra existência.

Mas Montaigne não tinha consciência disso; dizia escrever para si m esm o,

com a intenção de investigar e conhecer a si m esm o, e para seus am igos, a

fim de que dele conservassem um a im agem clara após sua m orte. Por vezes

foi m ais além , e afirm ou que num único indivíduo pode-se encontrar a

constituição de todo o gênero hum ano. Sej a com o for, ele m esm o é seu único

obj eto, e seu único fito é aprender a viver e a m orrer — isso é o m ais

im portante, pois para ele quem aprendeu a m orrer sabe tam bém com o viver.

A ideia soa algo filosófica, e em algum a instância de fato o é. Mas falar de

um a filosofia de Montaigne é um equívoco. Não há sistem a algum ; ele m esm o

afirm a, por exem plo, que é inútil aprender a m orrer, pois a natureza

encarrega-se disso à nossa revelia; e falta-lhe tam bém um a verdadeira

vontade de ensinar com o a de Sócrates (que de resto bem se pode com parar

a ele) e, portanto, um a vontade de alcançar um a validade obj etiva. Aquilo que

escreve dirige-se a ele e vale apenas para ele; se outros descobrirem aí

algum a utilidade e prazer, tanto m elhor.

A utilidade e o prazer que se podem auferir dos Ensaios têm um aspecto

peculiar, antes desconhecido. Não são de um gênero propriam ente artístico,

pois não se trata de poesia, e o obj eto é m uito próxim o e concreto para que o

efeito possa perm anecer puram ente estético. Mas seu caráter tam bém não é

apenas didático, um a vez que conservam sua validade ainda que se tenha um a

opinião diversa — m elhor dizendo, é difícil encontrar um a doutrina da qual se

possa discordar. Na m aioria das vezes, seu efeito é sem elhante ao de

algum as obras da Antiguidade tardia, de caráter histórico-m oral, à m aneira de

Plutarco — um dos autores prediletos de Montaigne. Mas falta-lhe um a

orientação racional unitária, até m esm o dentro de cada um dos capítulos.

Trata-se de exem plos que são constantem ente ponderados, verificados e

apreciados. Poucos são os resultados, e estes de qualquer m odo não exigem

a concordância do leitor. Mas a própria form a com o o assunto vem exposto é

suficiente para enredá-lo. Montaigne narra com o vive, com o terá de m orrer e com o com eça a conform ar-se com isso; narra tam bém o que viu e ouviu de

outros a esse respeito. É preciso escutá-lo, pois ele narra bem . Não se sabe

m ais o que acabou de dizer, e ele j á passa a um assunto totalm ente diverso, dando a im pressão de que em breve dirá algo absolutam ente novo, a

propósito de um a palavra qualquer. Sem o perceber, o leitor é envolvido por

sua índole m utável e fluida, cheia de nuanças e contudo sem pre plácida.

Cham á-la de cética seria im por-lhe um a sistem atização dem asiado am pla. No

entanto, ela é forte e nos faz prisioneiros, com o faz o m ar ao nadador ou o

vinho ao bebedor. Muito antes de aprisionar o leitor, cativara o próprio

Montaigne e o obrigara a escrever. Pois, a bem da verdade, ele não o

desej ara, sendo por dem ais m odesto e orgulhoso para reconhecer um a tal

ocupação com o profissão. Si j’étais faiseur de livres…4 Se eu fosse fazedor de livros…] — assim ele com eça um a frase, igualm ente notável sob outros

aspectos. E, no entanto, ele foi o prim eiro faiseur de livres na acepção atual

— nem poeta, nem erudito, m as autor de livros: escritor. Num nível inferior,

essa figura j á havia despontado: autores de literatura popular e narradores na

tradição das fábulas, lendas, exempla, fabliaux, tendo com o lim ites um tanto im precisos o poeta, de um lado, e o m oralista doutrinador, de outro. Mas

enquanto não veio a ser um a coisa nem outra, perm anecendo a m eio cam inho

entre am bos, esse tipo de hom em não conquistou posição social definida nem

reconhecim ento intelectual. Rabelais j á fora um caso-lim ite e, enquanto tal, um

precursor de Montaigne.

Esse hom em independente e sem profissão determ inada criou assim um a

nova profissão e um a nova categoria social: o homme de lettres ou écrivain, o leigo na condição de escritor. Conhecem os o cam inho percorrido por essa

profissão, prim eiro na França e depois tam bém em outros países de cultura:

tais leigos tornaram -se os verdadeiros intelectuais, os representantes e guias da vida intelectual, e gozam hoj e em dia de um tal reconhecim ento que Julien

Benda os cham ou de clercs, o m esm o nom e, portanto, daqueles a quem

originalm ente se opunham , os clerici ou religiosos. Isso equivale ao

reconhecim ento de que os escritores herdaram destes últim os o legado e o

posto, isto é, a hegem onia intelectual na Europa m oderna. De Montaigne a

Voltaire há um a ascensão contínua; no século XIX, eles am pliam sua posição e

alcançam repercussão sobre um a base m ais larga, o j ornalism o, e apesar de

alguns sinais de decadência observados há tem pos, é bastante provável que

tam bém no século XX eles venham a m anter sua função de voz do m undo.

Quais são os traços característicos do escritor, encarnados pela prim eira

vez por Montaigne? 5 Duas características negativas j á foram assinaladas: falta

de especialização e de m étodo científico. Am bas são percebidas apenas pelo fato de que as obras do escritor tratam de obj etos do conhecim ento que antes

costum avam ser analisados de form a m etódica exclusivam ente por

especialistas. A quebra da especialização nos principais cam pos do saber fora

preparada pela Reform a; nesses aspectos, as obras reform istas na França,

em especial a versão francesa da Institution de la religion chrétienne, são

precursoras de Montaigne. Os reform adores dirigiam -se aos leigos, pois viam -

se obrigados a tanto — os leigos esperavam um esclarecim ento que lhes

fosse com preensível. Mas os próprios escritores reform istas eram em sua

m aioria teólogos, portanto especialistas, e seus leitores não eram leigos em

geral, m as leigos cristãos. O leigo Montaigne foi o prim eiro a escrever de

m odo leigo sobre tem as im portantes; m uito em bora na verdade não

escrevesse para ninguém a não ser para si m esm o, form ou um a com unidade

de leigos, e seu livro tornou-se um livro para leigos. Ele escreveu o prim eiro

livro da autoconsciência leiga. Mas é apenas gradualm ente que sua obra

alcança tal posição. No início, era um a espécie de com entário a suas leituras.

Lia m uitíssim o: os escritores antigos, os italianos, seus contem porâneos —

sobretudo historiadores e m oralistas. Seu pai, da m esm a geração dos

defensores do ideal hum anista, fizera com que aprendesse o latim antes do

francês; era culto, possuía a técnica da leitura e lia com critério e

sensibilidade. Veio-lhe a ideia de anotar suas próprias experiências relativas

ao que andava lendo, com pará-las com o que havia lido, resgatar outras

passagens de leituras precedentes. Desse m odo surgiu um a espécie de

raciocínio m ultifacetado sobre o obj eto, que não teria ido além disso, não

fosse o im pulso de seu entusiasm o pessoal, que é o segredo e a m arca do

grande talento. Seu talento é algo à parte. Creio que sua m odéstia a respeito

é totalm ente sincera, e que apenas o sucesso e o próprio prazer com o que

escrevia tornaram -no verdadeiram ente consciente de seu talento. 6 Este era, de fato, m uito diferente do que até então se tinha com o perfeição estilística.

Não são apenas o caráter leigo e a ausência de ordem explícita em sua

criação que espantam , m as tam bém — e sobretudo — seus aspectos

positivos. Ele viveu na época de Tasso (que considerava louco), da Pléiade e

do esplendor literário espanhol; reinavam nesse tem po o Hum anism o e um a

espécie de petrarquism o m aneirista, um a forte tendência à deliberada

artificialidade form al. O talento de Montaigne consiste em sua capacidade de

desm ascaram ento. Ele diz as coisas m ais concretas de m odo extrem am ente subj etivo, m as sem pre telles quelles. Não há eufem ism os, raras m etáforas

desviam a fantasia, os períodos são pouco trabalhados. Na construção de

suas frases, o sentido causal, final, consecutivo ou concessivo das partes é

m anifestado m uitas vezes não pelas conj unções, m as pela entonação; com

toda razão ele se com para a Tácito. O sentido cria as conexões m uito m ais

que os conectivos sintáticos criam o sentido. É certo que há frases longas,

m as não um burilam ento consciente dos períodos. E as palavras são

correntes e despoj adas, ou pelo m enos prescindem de qualquer seleção com

base em critérios estéticos. Se o francês não basta — diz ele —, recorra-se

ao gascão. Não resulta, porém , um a abundância caótica com o em Rabelais,

pois Montaigne não possui tendências antiestéticas ou estético-

revolucionárias, 7 não se gaba de sua riqueza léxica e, nessa ausência de preconceitos linguísticos, não busca nada senão a expressão que faz j ustiça

ao obj eto: o resultado é a m ais perfeita nudez das coisas. E com o ele m esm o

é seu obj eto, ele próprio aparece perfeitam ente nu; não houvesse observado

algum as regras de decência — e o fez apenas a contragosto, com o confessa

no prefácio —, haveria antecipado m uito daquilo que ensinaram alguns

escritores de nosso século. Sem páthos, sem artifícios, com calm a e um a

certa satisfação, som os apresentados ao que Montaigne foi, sentiu e pensou.

Sua transparência é radiante. Mas isso se deu som ente aos poucos. Apenas

quando se torna consciente de suas forças o escritor desprende-se do texto

lido, faz-se m ais ousado e rico na expressão, fala de si m esm o com m ais

m inúcia e m enos resguardo. Com praz-se em seus próprios pensam entos,

estes tornam -se ainda m ais variados e, em m eio à m ultiplicidade e confusão,

até m ais coerentes. Diz tudo que lhe vem à cabeça, certo de que a coesão de

sua personalidade será forte o bastante para m anter a unidade do todo. Dá-

nos um diagram a de seu eu interior — de que faz parte tam bém sua aparência

exterior, tal com o vista de dentro.

O conteúdo de sua consciência é a existência de Michel de Montaigne com

seu fim inevitável, a m orte que aguarda o term o dessa existência. Montaigne

foi um cristão católico; j unto a seu leito de m orte achava-se um padre católico.

Nutria antipatia pelos huguenotes, pois era inim igo de distúrbios e não

acreditava que as revoluções pudessem dar bons frutos. Suas ideias quanto à

incerteza de todo conhecim ento — posição que seria por dem ais taxativo e

dogm ático caracterizar com o ceticism o — term inam quase sem pre com o

apelo à revelação e à fé. Mas tem os m otivos para supor que não fosse

crente. Tão som ente para supor, pois não cabe a nós afirm á-lo. Mas

possuím os seu livro, e sobre o livro podem os m uito bem form ar um j uízo,

com o lem brou corretam ente Sainte-Beuve. Não é obra de um crente. Nele, a

fé tem seu lugar assegurado, m as no restante discute-se a vida e a m orte

com o se a fé não existisse. Montaigne diz coisas profundas e pertinentes

sobre o catolicism o, entre as quais certas questões que depois dele foram

logo esquecidas ou passaram para segundo plano, a exem plo da relação

entre corpo e alm a. 8 Mas dificilm ente se encontra nos Ensaios um vestígio da esperança ou da redenção. Montaigne escreveu sobre as religiões em geral

com o se não fossem m ais do que usos e costum es, e salientou com

veem ência suas alterações, sua instabilidade, seu caráter de obra hum ana.

Viu-se nisso um a crítica dissim ulada ao cristianism o, e sem dúvida essas

passagens célebres contribuíram para tal visão. Mas não podem os ter certeza

de que o próprio Montaigne tenha extraído tais consequências; talvez nós,

inj ustam ente, infiram os do efeito posterior, que nos é conhecido, o propósito

deliberado daquele que o ensej ou. Considero perfeitam ente possível que

Montaigne tenha om itido um a conclusão análoga para a religião cristã não

tanto por diplom acia e conservadorism o político, e sim porque j am ais o teria

feito, porque — obedecendo às form alidades e não tentando nem presum indo-

se capaz de negar a revelação — considerava a si m esm o um cristão católico.

Chegou m esm o a subm eter seu livro à censura rom ana, que inicialm ente o

j ulgou inofensivo, em bora com algum as reservas. Sej a com o for, o espírito

dos Ensaios é absolutam ente não cristão, pois tratam da m orte com o se não

houvesse redenção nem im ortalidade. 9 O autor de um tal livro não conhece o Redentor, e é praticam ente im possível im aginá-lo rezando. O que escreve são

as observações de um hom em honesto e sensível, não de um crente. Sua

atitude em relação à m orte é com parável à de Sócrates e à da Antiguidade

tardia; distingue-se desta últim a pela com pleta falta de ênfase, e de am bas

pela tangibilidade com que a m orte é representada. Montaigne é, m ais do que

ninguém , um hom em desprovido de retórica e im placável contra o palavreado

dissim ulador. Seu livro trata com espantosa concretude da m orte de

Montaigne, da própria m orte, que ele pressente e aguarda.

Sente-a dentro de si, e é ela o inim igo contra o qual, enfim , toda defesa

será inútil. Ela o arrancará de seu astucioso esconderij o, da arrière-boutique,

e o lançará ao Nada com o fez a todos antes dele. Mas ao m enos não irá

assom brá-lo inutilm ente enquanto não chegar a hora. Montaigne é inteligente e

coraj oso, sabe que de nada serve desviar o olhar e fugir. Tenta fazer o

contrário: pensa continuam ente na m orte, da form a m ais concreta possível, e

tenta habituar-se a ela do m esm o m odo com o se conduz um cavalo ao

obstáculo diante do qual ele refuga. Montaigne cham a isso de flatter la mort,

lisonj ear a m orte. E o consegue. Habitua-se tanto a ela que a m orte torna-se

um pedaço de sua vida; com ela se fam iliariza, fazendo com que não lhe

inspire m ais m edo; ou m elhor, o m edo da m orte apoderou-se dele de tal form a

que j á não o sente m ais. E então lhe vêm as ideias m ais grandiosas,

duplam ente sinistras em sua rispidez fria e antirrom ântica: a vida com o um a

cavalgada; a despedida das pessoas próxim as, cerim ônia tediosa e irritante; a m orte num a hospedaria, entre estranhos a quem se pode pagar pelos últim os

serviços em dinheiro, sem outras obrigações, de m odo a não perturbar a

tranquilidade da m orte. Tais coisas povoam sua fantasia, e ele as expõe com

a m esm a desenvoltura com que fala do efeito da doença em sua urina. Estar

em viagem , a cam inho — esse é o sentim ento que j am ais deve tê-lo

abandonado, e desse terreno nascem as palavras que resum em toda a sua

obra: Je ne peinds pas l’estre, je peinds le passage. 10 Não pinto o ser, pinto a passagem .

Mas a fam iliaridade com a m orte não extingue a vida, não dim inui a

capacidade de instalar-se na arrière-boutique de m odo aconchegante e

confortável. Montaigne pode ser com parado a um hom em que desfruta os

prazeres da vida, consciente de que lhe resta pouco tem po para gozá-los;

com fervor redobrado, com o talento organizativo que só a necessidade é

capaz de criar, ele desfruta e saboreia o tem po de sua existência.

Seu desfrute da vida é um desfrute de si m esm o, e no sentido m ais

im ediato, m ais anim al. É o prazer de respirar, com er, beber e digerir, de

m orar e viaj ar, de ser proprietário e ter um a posição social. Tudo o que é sinal

de sua própria vida deixa-o satisfeito, e tudo o que lhe pertence deve servir

para tornar m ais côm oda sua m orada interior. Até m esm o sua doença.

Montaigne sofre de cálculos renais que lhe causam cólicas terríveis. Mas sabe

com o adaptar-se à situação: firm a um pacto com a doença e a lisonj eia com

palavras e pensam entos, a exem plo do que faz com a m orte. No final, sente-

se à vontade em sua presença; ela passa a ser um a am iga íntim a. A doença é

um a propriedade, um a parte de si m esm o, e talvez não a pior. Ensina-o a

desfrutar a saúde. Que sensação m aravilhosa quando a crise term ina! Por

algum tem po está livre e pode com er, beber e m over-se a seu bel-prazer.

Com efeito, não segue as prescrições m édicas, não confia na m edicina e se

recusa a obter a saúde à custa dos prazeres, o único m otivo pelo qual vale a

pena possuí-la. Outras pessoas de sua idade encontram -se em pior estado.

Talvez as dores que sofrem sej am m enores, m as em com pensação estão

continuam ente oprim idas pela doença, ao passo que ele, Montaigne, sente-se

perfeitam ente saudável enquanto a crise não chega. Antes de adoecer, tinha

m edo da doença; conhecia sua predisposição hereditária e a tem ia. Agora que

a doença se m anifestou, descobre que ela não é tão ruim . Talvez o m esm o

aconteça com a m orte.

Mas o aspecto físico é apenas um a parte e um estím ulo ao desfrute de si m esm o. Montaigne sente-se viver, percebe-se, em bebe-se de sua própria

existência. O perigo sem pre im inente de deparar com a m orte dá-lhe um a

m agnífica coesão, solda-o internam ente, e faz com que se sinta à vontade em si m esm o. Im pede, além disso, que suas forças se dissipem , e atualiza

constantem ente suas características m ais pessoais. Aquilo que Montaigne é,

ele o é em vista da m orte. Se desej a possuir a si m esm o a cada instante, é

porque este pode ser o últim o. A calm a e a coragem de seu tem peram ento

im pedem que o prazer se torne espasm ódico. Encontra-se, porém , sem pre

concentrado e aguerrido, não para fazer ou obter algum a coisa, m as para

existir. Os Ensaios são apenas um dos sintom as de sua existência.

A existência de Montaigne consiste naquilo que lhe foi dado viver. Não tenta

m elhorá-la ou m odificá-la, apenas aceita-a, suporta-a com o ela é. Os

costum es, as instituições, os ordenam entos dos hom ens são todos igualm ente

tolos e extravagantes. Mudam conform e suas opiniões e não são estáveis nem

verdadeiram ente legítim os. Não possuem outro fundam ento senão o próprio

fato de sua vigência naquele dado m om ento, ou sej a, o hábito. Quem tem

consciência disso não se torna revolucionário, assim com o não são

revolucionárias as pessoas obtusas e sem discernim ento, que aceitam os

dados da realidade por pura contum ácia, e às quais Montaigne desej a por

vezes assem elhar-se. Os revolucionários e os agitadores estão no m eio: são

os m edíocres, que percebem a tolice e a inj ustiça do presente, m as não se

dão conta de que toda situação nova seria igualm ente inj usta e tola, e de que

os distúrbios do processo de transform ação, com suas lutas e desordens, não

provocam , num prim eiro m om ento, nada além de um a perda incontestável.

Ele, Montaigne, m antém -se calm o e am olda-se ao presente, por força de seu

bom -senso e de seu sentim ento de lealdade; adm ira Sócrates, que se

subm eteu a seus j uízes e às leis de Atenas, em bora estas lhe fossem inj ustas.

Para Montaigne isso é fácil; sua posição é côm oda, se pensarm os com o são

desfavoráveis os tem pos. Ele não busca o m artírio, e tentaria esquivar-se com

todos os seus m eios de um m al evitável. Mas não tem os m otivos para duvidar

de que teria perm anecido fiel a sua opinião m esm o se esta se voltasse contra

ele. Assim com o se encontra, sua existência parece-lhe bastante aceitável.

Quando não está em seu aposento na Torre de Montaigne, viaj a pela França,

Itália e Alem anha, sem pre a cavalo, sem se preocupar com as cólicas.

Grandes senhores e reis desej am seus serviços; ele os recusa de m odo

cortês ou consente com reservas. Tem um a m ulher honrada e um a filha, que

não lhe dão trabalho. Tem alguns vizinhos agradáveis e outros tantos am igos.

As pessoas gostam de ler o que lhe dá vontade de escrever, e desde quando

se decidiu a im prim ir suas ideias, foram sem pre necessárias novas edições. Si

j’étais faiseur de livres… Em Paris, encontra por fim um a am iga, um a j ovem

m ulher, a senhorita de Gournay, que o am a e o adm ira; ela se torna sa fille

d’alliance e, depois da m orte de Étienne de la Boétie, passa a ser a pessoa que lhe é m ais próxim a. Ela porá ordem nos papéis e nos textos que um dia

ele deixará com o seu legado. O escritor sente-se satisfeito. Tudo deverá

perm anecer com o está, o m áxim o que for possível. Cada hora vivida é um a

hora conquistada.

Montaigne não escreve m uito, cerca de m il páginas em vinte anos. Revê o que escreve, acrescenta, risca e corrige. Diz j am ais ter corrigido nada,

em bora o m anuscrito conservado em Bordeaux — na verdade, não um

m anuscrito, m as um exem plar da edição de 1588 anotado e revisado por ele

próprio — deixe claro que faz tam bém correções de natureza estilística.

Exam ina-se, deixa que as diferentes partes de seu espírito atuem livrem ente,

apresenta-se a si m esm o. Sobre todos os tem as form ula suas próprias ideias,

e estas são m uitas vezes dubitativas e hesitantes. Mas o cam inho que o leva à

dubiedade e à hesitação foi aberto por ele m esm o; foi ele que form ulou pela

prim eira vez o problem a ou a com binação de problem as de tal ou qual m odo.

Sua independência despida de preconceitos é quase assustadora, e tão m ais

eficaz na m edida em que não é obj eto de sua vanglória. Diz o que lhe vem à

cabeça, e então o põe de lado. Mas o estím ulo alcança o leitor e pode então

facilm ente condensar-se num com plexo de ideias m uito m ais tosco,

sistem ático e ativo do que a substância sutil, quase inefável de Montaigne. Em

seus discursos m oderados, por vezes um pouco prolixos, esconde-se um

estim ulante, um elixir da vida ou da m orte, com o se preferir. É o veneno da

liberdade, do afastam ento de toda realidade concreta, da autonom ia hum ana.

Em sociedade, j unto aos outros, Montaigne é com edido e observa os

costum es; sozinho consigo m esm o, ele é diferente. Usos, costum es, leis e

religiões desaparecem . Estou sozinho, a m orte é certa. Não estou em casa,

estou em viagem — não sei de onde venho nem para onde vou. O que

possuo, o que m e resta? Eu m esm o.

Com eça então a destacar-se um a palavra singular, m otivo de várias interpretações equivocadas e superficiais: virtus, la vertu, a virilidade ou virtude. Naturalm ente, ele retom a a palavra e a ideia da Antiguidade tardia, de

Sêneca e Plutarco, da tradição, estoica com tudo que lhe é próprio: o elogio

com parativo das m ortes de Sócrates e Catão, a m assa de exem plos patéticos

dos encôm ios antigos, que ele expõe e avalia com um a seriedade bastante

ingênua. Montaigne, pelo m enos num prim eiro m om ento, faz o culto hum anista

da virtude, e alguns críticos nada criteriosos, incapazes de harm onizar a

rigidez estoica com a nudez indiscreta e quase indecente de seu autorretrato,

inventaram um a evolução das ideias do escritor, que o levaria do estoicism o

ao ceticism o. É bem verdade que o desdobram ento de sua personalidade

deu-se apenas gradualm ente, m as am bos os term os adaptam -se m al a

Montaigne: “cético” é insuficiente e “estoico” é errôneo. 11 Ele é um soldado e um hom em dotado de força física, apesar da doença; quando necessário, é

coraj oso e indiferente às privações. Mas não há nele o m enor vestígio do rigor

estoico, da autonom ia da razão, da identidade entre natureza e razão ou da

ascese m oral. Ele lem bra com saudade de sua j uventude e recusa-se a

apreciar a sabedoria da velhice. Rebaixar-se tão m iseravelm ente a ponto de

preferir a lam urienta sabedoria e virtude dos anciãos, nascidas da im potência,

à força viva e im petuosa da j uventude — isso ele espera que j am ais lhe

aconteça. Sem dúvida ele renova, num certo aspecto, o antigo ideal do sábio

solitário; m as o faz sem um program a definido — pelo contrário, é

hospitaleiro, interessa-se por tudo, e tem paixão por viagens. Sua solidão é

apenas interior, e m esm o aí não o é por princípio. Ela é seu elem ento vital.

Montaigne sente-se tão feliz em sua solidão — e isso sem qualquer ferida rom ântica ou sentim ental — que ela m ais se assem elha a um vício do que a

um a virtude. Não é, porém , nem um a coisa nem outra. Ela é com o a água

para o peixe.

Vej am os de que consta essa célebre virtude.

Quoy qu’ils dient, en la vertu mesme, le dernier but de nostre visée, c’est

la volupté. Il me plaist de battre leurs oreilles de ce mot, qui leur est si fort

à contrecoeur: et s’il signifie quelque supresme plaisir, et excessif

contentement, il est mieux deu à l’assistance de la vertu qu’à nulle autre

assistance. Cette volupté, pour estre plus gaillarde, nerveuse, robuste,

virile, n’en est que plus sérieusement voluptueuse. Et luy deuions donner

le nom du plaisir, plus fauorable, plus doux et naturel; et non celuy de la

vigueur, duquel nous l’auons dénommée. Cette autre volupté plus basse,

si elle méritoit ce beau nom: ce deuoit estre en concurrence, non par

priuilège. Je la trouve moins pure d’incommoditez de trauerses que n’est

la vertu. Outre que son goût est plus momentané, fluide et caduque, elle a

ses veilles, ses jeusnes et ses travaux et la sueur et le sang … et à son

costé une satiété si lourde …]. 12

Digam o que disserem , na própria virtude o obj etivo últim o que visam os é a

volúpia. Agrada-m e m artelar os ouvidos das pessoas com essa palavra

que as contraria tão fortem ente: e se ela significa um deleite suprem o e

extrem o contentam ento, é um m elhor acom panhante para a virtude do que

qualquer outra coisa. Por ser m ais viva, nervosa, robusta, viril, essa volúpia

é m ais seriam ente voluptuosa. E devíam os lhe dar o nom e de prazer, m ais

favorável, m ais suave e natural, e não o de vigor, a partir do qual o denom inam os. Aquela outra volúpia, m ais baixa, se m erecesse esse belo

nom e, não seria o resultado de um privilégio, m as de um a concorrência.

Acho-a m enos isenta de inconvenientes e dificuldades do que a virtude.

Além de ter um gosto m ais m om entâneo, fluido e frágil, tem suas vigílias,

seus j ej uns e seus trabalhos, e o suor e o sangue […] e ao m esm o tem po

um a saciedade tão pesada que equivale à penitência […].

A virtude com o volúpia: isso não consta nem do estoicism o, nem do

epicurism o, nem do ceticism o. Trata-se de algo m ais vivo do que as form as da

ética individual da Antiguidade tardia e em geral do que qualquer atitude

fundada apenas no pensam ento. Talvez a página de que tiram os essa citação

possa ainda deixar algum a dúvida; m uito nela tem coloração antiga. Som ente

aqueles que conhecem bem Montaigne perceberão que ele não confere à

virtude um valor m aior que ao am or, antes confronta esses dois segundo a

m edida de prazer que proporcionam ; num a tal com paração, os parâm etros

não podem ser senão sensíveis ou vinculados à existência. Desse m odo, essa

página harm oniza-se com a totalidade de seu tem peram ento. A vida, o dado

histórico ou natural não são rej eitados nem m enosprezados; pelo contrário,

Montaigne, para quem a virtude é volúpia, m ergulha a fundo na sensualidade

da vida, pois som ente na sensualidade vital do m undo ele pode cingir e

desfrutar a si m esm o. Isso, por estranho que pareça, é um legado cristão;

trata-se do aristotelism o prático am oldado ao cristianism o, com seu

fundam ento na história de Cristo e suas raízes, tão pouco clássicas ou

teóricas, nos sofrim entos do m undo sensível; um a representação fiel à realidade que o Renascim ento herdou do “outono da Idade Média”, da

concepção do hom em vivo com o prisioneiro da natureza terrestre, noção

indissoluvelm ente ligada à esperança na eternidade. Um a herança, em sum a,

do realism o cristão da Idade Média. Em Montaigne, porém , esta não é m ais

um a prisão forçada, nem propriam ente um a coerção, m as antes a plenitude

da liberdade. Pois de fato, o m undo em que nasceu e que abandonará a

contragosto, m as sem m edo, dá-lhe, com a plenitude da vida, a plenitude da

liberdade. A vida oferece-lhe inúm eras possibilidades de exam inar a si m esm o,

m as não lhe im põe leis. A virtude de que desfruta não é um a lei, não é de

m odo algum “a lei m oral em m im ”. Ela não serve nem a Deus nem aos

hom ens, m as à própria pessoa que a detém . Não obriga a nada e a ninguém .

Deixa o hom em livre, m as só. 13

Esse, portanto, é o eu que constitui o obj eto dos Ensaios, livro que

encontrou ao final do século XVI um público com posto necessariam ente de

leigos. Talvez isso se deva em parte ao cansaço geral com as disputas

religiosas. Os Ensaios pareciam im parciais, superiores; o consenso não se form a em torno desta ou daquela ideia de Montaigne, m as abrange a

totalidade da sua pessoa. A pessoa de Montaigne prestava-se a criar um novo

tipo de hom em : em lugar do cristão crente, cético ou rebelde, o honnête

homme que observa todos os preceitos e abandona as coisas a si m esm as.

O honnête homme dos séculos XVII e XVIII foi logo im pelido por outras

influências em outras direções, e tornou-se por fim m ais ativo, m ais burguês e

m ais m esquinho. Em Montaigne, todavia, estam os longe da burguesia e do

Ilum inism o. Nele tam bém há algo de diverso da astuciosa reserva do honnête