Os Ensaios

Michel de Montaigne · Capítulo 24 de 33

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Os Ensaios

Sobre a crueldade

alucinadam ente apaixonado por sua obra que foi preciso, em face de sua

fúria, que os deuses lhe fizessem o favor de vivificá-la:

Tentatum mollescit ebur, positoque rigore

Subsidit digitis. 267

O m arfim tocado am olece, e perdendo sua dureza vibra sob os dedos.

Sobre a crueldade

Capítulo XI

Este longo capítulo é um dos grandes textos morais de Os ensaios.

Montaigne percebe que a virtude, como concebida por Hesíodo ou Catão, é

inadequada para explicar a virtude de Sócrates, a qual, menos severa, ele

acaba preferindo. Fala da crueldade que nasce nos êxtases da fúria ou das

relações sexuais arrebatadoras. Ainda piores são a crueldade e a tortura

praticadas apenas por diversão. Na verdade, a condenação da crueldade

aparece aqui como uma simples digressão, prolongamento de uma

argumentação sobre a piedade e a compaixão, e também sobre a bondade

com os animais. A censura vaticana criticara Montaigne por ter considerado

crueldade o que estava além da morte simples. Em resposta, já na edição de

1582 ele introduziu o relato do suplício de Catena como exemplo de morte

simples seguida de uma crueldade simbólica mas exemplar. O longo

desenvolvimento final, dedicado à crença na metempsicose, é uma paráfrase

de Ovídio, e Montaigne encontra sobre o mesmo tema o texto

contemporâneo de Giordano Bruno, Spaccio della bestia trionfante, de 1584.

Parece-m e que a virtude é outra coisa, e m ais nobre, do que essas tendências à bondade que nascem em nós. As alm as bem autocontroladas por si m esm as e bem -nascidas seguem o m esm o passo e representam em suas

ações a m esm a face que as virtuosas. Mas a virtude soa um não sei quê de

m aior e m ais ativo do que se deixar conduzir tranquila e pacificam ente pelo

rastro da razão graças a um feliz tem peram ento. Quem , por ter um caráter

naturalm ente fácil e suave, deprezasse as ofensas recebidas faria coisa m uito

bonita e digna de elogio; m as quem , picado em carne viva e indignado por

um a ofensa, se m unisse das arm as da razão contra esse furioso apetite de

vingança e por fim o controlasse depois de um grande conflito faria sem

dúvida m uito m ais. Aquele agiria bem , e este agiria virtuosam ente; um a ação

poderia se cham ar bondade, a outra, virtude. Pois parece que a palavra

virtude pressupõe dificuldade e oposição, e não pode ser exercitada sem

com bate. É talvez por isso que dizem os que Deus é bom , forte, e generoso e

j usto, m as não o cham am os de virtuoso. Suas operações são todas naturais e

sem esforço. Dos filósofos, não só os estoicos porém m ais ainda os

epicuristas (e tiro esse “m ais ainda” da opinião com um , que é falsa apesar da

sutil tirada de Arcesilau: a quem o criticava porque m uitas pessoas passavam

de sua escola para a epicurista, e nunca o contrário, ele disse: “Acredito. Dos

galos se fazem m uitos capões, m as dos capões nunca se fizeram galos”. Pois

na verdade, em firm eza e rigor de opiniões e preceitos, a escola epicurista

não cede de nenhum a m aneira aos estoicos. E um estoico, m ostrando m ais

boa-fé do que todos esses discutidores que, para com bater Epicuro e levar a

m elhor, o fazem dizer aquilo que ele j am ais pensa, distorcem suas palavras

para a direção errada e alegam , com a lei da gram ática, outro sentido de seu m odo de falar e outra opinião que não a que sabem que ele tinha no espírito e

em seus costum es, diz que deixou de ser epicurista por essa consideração,

entre outras, de que acha o cam inho deles m uito difícil e inacessível: et ii qui

φιλήδονοι sunt φιλδχαλοι et φιλοδίχαιοι, omnesque virtudes et colunt et

retinent268 e que aqueles que cham am os amantes do prazer são amantes do

belo e amantes da justiça, que praticam e honram todas as virtudes]), dos filósofos estoicos e epicuristas, dizia eu, há vários que j ulgaram que não

bastava ter a alm a bem equilibrada, bem regrada e predisposta à virtude; não

bastava term os nossas resoluções e nossos pensam entos acim a de todos os

esforços do destino, m as ainda precisávam os procurar as ocasiões de pô-los

à prova. Eles querem ir ao encontro da dor, da necessidade e do desprezo

para com batê-los e m anter suas alm as em boa disposição: multum sibi adjicit

virtus lacessita. 269 a virtude cresce m uito quando é posta à prova.] É um a das razões pelas quais Epam inondas, que era de um a terceira escola, recusou

riquezas que o destino lhe pôs nas m ãos por um a via m uito legítim a; por ter,

diz ele, de se esgrim ir contra a pobreza extrem a em que sem pre viveu.

Sócrates testava a si m esm o, parece-m e, ainda m ais rudem ente, conservando

para seu exercício a m aldade de sua m ulher, o que é um a prova com ferro

am olado. 270 Metelo, sendo o único de todos os senadores rom anos que se em penhou, pelo esforço de sua virtude, em resistir à violência de Saturnino,

tribuno do povo em Rom a que queria a toda força aprovar um a lei inj usta em

favor da plebe, e tendo por isso incorrido nas penas capitais que Saturnino

estabelecera contra os oponentes, disse aos que, naquele perigo extrem o, o

conduziam à praça as seguintes palavras: “que era coisa m uito fácil e m uito

covarde agir m al; e que agir bem onde não houvesse perigo era coisa vulgar; m as que agir bem onde houvesse perigo era o próprio ofício de um hom em de

virtude”. Essas palavras de Metelo nos m ostram claram ente o que eu queria

provar: que a virtude recusa a facilidade com o com panheira e que esse

cam inho fácil, suave e em leve declive, por onde vão os passos regulados por

um a boa inclinação natural, não é o da verdadeira virtude. Ela pede um

cam inho áspero e espinhoso, quer ter dificuldades externas contra as quais

lutar (com o a de Metelo), por m eio das quais o destino se apraz em quebrar a

firm eza de sua m archa; ou dificuldades internas que lhe são fornecidas pelos

apetites desordenados e im perfeições de nossa condição. Cheguei até aqui

bem facilm ente. Mas ao final desta exposição m e vem ao pensam ento que a

alm a de Sócrates, que é a m ais perfeita que m e foi dada a conhecer, seria,

nessa avaliação, um a alm a de pouco m érito; pois não posso conceber nesse

personagem nenhum arroubo de viciosa concupiscência. Não consigo im aginar

nenhum a dificuldade e nenhum a coerção no curso de sua virtude; sei que sua

razão é tão poderosa e, nele, tão soberana, que j am ais propiciou o

nascim ento sequer de um desej o vicioso. A um a virtude tão elevada com o a

sua nada posso opor; parece-m e vê-la andar com passo vitorioso e triunfante,

em pom pa e m uito à vontade, sem obstáculo nem em pecilho. Se a virtude só

pode brilhar quando luta contra desej os contrários, direm os portanto que não

pode dispensar a aj uda do vício, a que deve o fato de ser considerada e

honrada? E o que se tornaria aquela brava e generosa volúpia epicurista, que

se vangloria de alim entar a virtude em seu regaço e fazê-la divertir-se dando-

lhe com o brinquedos a vergonha, as febres, a pobreza, a m orte e as torturas?

Se pressuponho que a virtude perfeita é reconhecida porque com bate e

suporta pacientem ente a dor, porque resiste aos ataques da gota sem se

deixar perturbar; se lhe dou com o obj etivo necessário o rigor e a dificuldade, o

que será da virtude que chegou a esse ponto em que não só despreza a dor

m as com ela se rej ubila e deixa-se afagar pelas pontadas de um a forte cólica?

Essa era a virtude instituída pelos epicuristas e de que vários deles nos

deixaram por seus atos provas m uito seguras. E é o caso de m uitos outros

que considero terem ultrapassado, na realidade, as próprias regras de sua

doutrina. Conform e atesta Catão, o Moço: quando o vej o m orrer e dilacerar as

entranhas, 271 não posso m e contentar em crer apenas que sua alm a estava então totalm ente isenta de aflição e pavor; não posso crer que m eram ente se

m antivesse no estado em que as regras da escola estoica lhe exigiam :

equilibrado, sem em oção e im passível. Havia, parece-m e, na virtude desse

hom em coragem dem ais e vigor para se lim itar a isso. Creio antes que ele

sentiu prazer e volúpia num a ação tão nobre e que com ela se satisfez m ais

que com outras de sua vida. Sic abiit e vita, ut causam moriendi nactum se

esse gauderet. 272Ele saiu da vida com o quem se rej ubilasse de ter encontrado um a razão de m orrer.] Creio tanto nisso que fico em dúvida se ele gostaria

que a ocasião de tão bela façanha lhe fosse retirada. E se a bondade que o

fazia abraçar os interesses públicos m ais que os seus não m e freasse, eu

concordaria facilm ente com a opinião de que ele era m uito grato ao destino

por ter posto sua virtude a um a prova tão bela e por ter favorecido esse

bandido273 a pisotear a antiga liberdade de sua pátria. Parece-m e ler nessa ação não sei que j úbilo em sua alm a e um a extraordinária em oção de prazer e volúpia viril, considerando a nobreza e a elevação de sua atitude:

Deliberata morte ferocior. 274

Mais orgulhosa por ter decidido m orrer.

Não um a alm a estim ulada por esperança de glória (com o têm j ulgado os

espíritos populares e efem inados de certos hom ens), pois essa atitude é

m uito baixa para tocar um coração tão generoso, tão altivo e firm e, m as

estim ulada pela beleza da própria coisa em si, a qual ele via, ele que

m anej ava suas engrenagens, bem m ais claram ente e em sua perfeição do que

podem os fazê-lo. Dá-m e prazer essa filosofia que considera que um a ação

tão bonita não podia estar decentem ente aloj ada em nenhum a outra vida

senão na de Catão, e que só a dele cabia term inar assim . Por isso m esm o ele

ordenou, com o era razoável, ao filho e aos senadores que o acom panhavam

que resolvessem de outro m odo seus próprios casos. Catoni, cum

incredibilem natura tribuisset gravitatem, eamque ipse perpetua constantia

roboravisset, semperque in proposito consilio permansisset: moriendum

potius quam tyranni vultus aspiciendus erat.275 Catão, a quem a natureza atribuíra um a inacreditável força de alm a, que ele m esm o endurecera por um a

perpétua constância, e que sem pre perm anecera no obj etivo que se fixara,

devia antes m orrer do que ver a face de um tirano.] Toda m orte deve ser de

acordo com a vida. Não nos tornam os outra pessoa para m orrer. Sem pre

interpreto a m orte através da vida. E se m e contam algum a que parece forte,

ligada a um a vida que foi fraca, considero que é produzida por um a causa

fraca e de acordo com o que foi essa vida. Portanto, direm os que o desafogo

da m orte de Catão e o poder que ele adquiriu pela força de sua alm a devam atenuar algum a coisa do brilho de sua virtude? E dos que têm o cérebro

im pregnado, ainda que um pouco, de verdadeira filosofia, quem pode se

contentar em im aginar Sócrates sim plesm ente isento de tem or e sofrim ento na

desgraça de sua prisão, de seus ferros e de sua condenação? E quem não

reconhece nele não só a firm eza e a constância (essa era sua atitude

corrente) m as tam bém não sei qual contentam ento novo e um a alegria j ovial

em seus derradeiros instantes e palavras? Aquele arrepio de prazer que ele

sente em coçar a perna, depois que os ferros foram retirados, não indica um a

sem elhante doçura e alegria em sua alm a, por estar livre dos incôm odos

passados e até m esm o por enfrentar o conhecim ento das coisas por vir?

Catão há de fazer o favor de m e perdoar, sua m orte é m ais trágica e m ais

tensa, m as esta ainda é, não sei com o, m ais bela. Aristipo disse aos que a

deploravam : “Possam os deuses enviar-m e um a assim ”. Vem os nas alm as

desses dois personagens e de seus im itadores (pois parecidos duvido m uito

que haj a existido) um hábito tão perfeito da virtude que ela passou à índole

deles. Não é m ais um a virtude árdua, nem ordens da razão que, para serem

cum pridas, requerem um esforço de suas alm as: é a própria essência de sua

alm a, é sua atitude natural e corrente. Eles assim a transform aram por um

longo exercício dos preceitos da filosofia, que ali encontraram um a bela e rica

natureza. As paixões viciosas que nascem em nós j á não encontram por onde

entrar neles. A força e a retidão de suas alm as sufocam e extinguem as

concupiscências tão logo elas com eçam a se agitar. Ora, penso não haver

dúvida de que é m ais bonito im pedir o nascim ento das tentações, por um a elevada e divina resolução, e estar tão form ado para a virtude de m odo que

os próprios germ es dos vícios sej am desenraizados, do que im pedir a toda força o avanço deles; e, tendo se deixado flagrar pelas em oções prim eiras

das paixões, arm ar-se e retesar-se para sustar sua m archa e vencê-las; com o

tam pouco há dúvida de que esse segundo feito é ainda m ais belo do que ser

sim plesm ente dotado de um a natureza fácil e bondosa, e por si só enoj ada da

devassidão e do vício. Pois parece que essa terceira e últim a m aneira de ser

torna um hom em inocente, m as não virtuoso, isento de agir m al, m as não

bastante apto a agir bem . Acresce que essa condição é tão vizinha da

im perfeição e da fraqueza que não sei com o destrinchar seus lim ites e

distingui-los. As próprias palavras “bondade” e “inocência” são por isso, de

certa form a, palavras de m enosprezo. Vej o que várias virtudes, com o a

castidade, a sobriedade e a tem perança, podem nos acontecer por fraqueza

corporal. A firm eza diante dos perigos (se devem os cham á-la firm eza), o

desprezo pela m orte, a constância em face dos infortúnios podem derivar e

não raro se encontrar nos hom ens por incapacidade de bem j ulgar esses

acidentes e não encará-los com o são. A falta de com preensão e a estupidez

são aparentadas, assim , às vezes, aos com portam entos virtuosos, com o vi

am iúde acontecer de louvarem hom ens pelo que m ereciam ser repreendidos.

Certa vez, um senhor italiano fez em m inha presença um a afirm ação que era

prej udicial ao seu país: dizia ele que a sutileza dos italianos e a vivacidade de

suas ideias eram tão grandes que previam os perigos e acidentes passíveis

de lhes acontecer m uito tem po antes, e por isso não se devia achar estranho

se costum assem ser vistos na guerra cuidando da própria segurança, antes

m esm o de terem reconhecido se havia um perigo; que nós e os espanhóis,

que não éram os tão espertos, íam os m ais longe porque precisávam os ver

com os próprios olhos e tocar com a m ão o perigo antes de nos apavorarm os,

e que então não tínham os m ais resistência; m as que os alem ães e os suíços,

m ais grosseiros e m ais broncos que nós, não tinham nem a ideia de se dar

conta disso a não ser quando j á estavam quase sucum bindo aos golpes.

Talvez fosse apenas para rir. No entanto, é bem verdade que no ofício da

guerra os aprendizes m uitas vezes se atiram contra os perigos com um a

irreflexão que não têm depois, quando j á estão escaldados.

haud ignarus, quantum nova gloria in armis

Et praedulce decus primo certamine possit. 276

não ignorando tudo o que podem , num prim eiro com bate, um a glória

desconhecida nas arm as e a honra tão doce.

Eis por que quando se j ulga um a ação particular é preciso considerar várias

circunstâncias e o hom em por inteiro que a produziu, antes de batizá-la. Para dizer um a palavra sobre m im m esm o: vi às vezes m eus am igos cham arem de

prudência o que, em m im , era acaso, e considerar m ais com o coragem e

paciência o que m ais era j ulgam ento e opinião; e atribuir-m e um título por um

outro, ora em m eu favor, ora em m eu prej uízo. Aliás, falta tanto para que eu

chegue a esse prim eiro e m ais perfeito grau de excelência, em que a virtude

se torna um hábito, com o m esm o do segundo ainda não dei provas. Não fiz

grande esforço para refrear os desej os que m e oprim iram . Minha virtude é

um a virtude, ou inocência, para dizer m elhor, acidental e fortuita. Se eu tivesse nascido com um tem peram ento m ais desregrado, tem o que m inha vida teria

sido lam entável, pois não experim entei m uita firm eza em m inha alm a para

conter as paixões acaso tivessem sido um pouco veem entes. Não sei

alim entar querelas e debates com igo m esm o. Assim , não posso m e dizer

nenhum m uito obrigado por m e encontrar isento de vários vícios:

si vitiis mediocribus, et mea paucis

Mendosa est natura, alioqui recta, velut si

Egregio inspersos reprehendas corpore naevos. 277

se m inha natureza, boa de certa m aneira, tem apenas vícios m edíocres e

pouco num erosos, é com o um belo corpo de que só haveria a recrim inar

algum as m anchas esparsas.

Devo isso m ais à m inha sorte que à m inha razão: ela m e fez nascer num a

fam ília fam osa pela sensatez e de um m uito bom pai. Não sei se ele infundiu

em m im parte de seus hum ores ou se os exem plos dom ésticos e a boa

educação em m inha infância insensivelm ente aj udaram ; ou se, ao contrário,

nasci assim ;

Seu libra, seu me scorpius aspicit

Formidolosus, pars violentior

Natalis horae, seu tyrannus

Hesperiae Capricornus undae. 278

Que a Balança ou o Escorpião tem ível, no grau dom inante na hora de m eu

nascim ento, m antêm -m e sob seu olhar, ou o Capricórnio, tirano das ondas

do Hespéria.

Mas o fato é que, por m im m esm o, tenho horror à m aioria dos vícios. A

resposta de Antístenes, “desaprender o m al”, àquele que lhe indagava sobre a

m elhor aprendizagem , parece acentuar essa im agem . Tenho horror a eles,

com o disse, de um m odo tão natural e tão m eu que esse m esm o instinto e

essa im pressão que trouxe desde a am a de leite os conservei sem que

nenhum a ocasião j am ais tenha m e conseguido alterá-los; e nem , aliás, m inhas

reflexões pessoais, que, por terem em certas coisas se afastado da via

com um facilm ente m e conduziriam a ações que essa propensão natural m e faz

detestar. Direi um a m onstruosidade, m as a direi. Em m uitas coisas encontro

em m eu com portam ento m ais m oderação e regra do que em m eu

pensam ento, e m enos desregrada m inha concupiscência do que m inha razão.

Aristipo professou opiniões tão ousadas em favor da volúpia e das riquezas

que pôs em polvorosa contra si todos os filósofos. Mas quanto a seu

com portam ento, Dionísio, o tirano, tendo lhe apresentado três belas m oças a

fim de que fizesse sua escolha, ele respondeu que escolhia as três e que

criticava Páris por ter preferido um a entre suas com panheiras. 279 Mas quando as levou à sua casa, m andou-as em bora, sem tocá-las. E com o seu criado

estivesse sobrecarregado do dinheiro que em viagem levava, ordenou-lhe que

j ogasse fora e deixasse ali m esm o o que o atrapalhava. E Epicuro, cuj os

dogm as são irreligiosos e voltados para o prazer, se com portou em sua vida

m uito devota e laboriosam ente. A um am igo, escreveu que só vivia de pão

ordinário e água; e pediu-lhe que lhe enviasse um pouco de queij o para

quando quisesse fazer um a refeição suntuosa. Seria então verdade que para

ser realm ente bom cum pre sê-lo por um a disposição inata, secreta e

universal, sem leis, sem razão, sem exem plos? Os excessos em que m e vi

envolvido não são, graças a Deus, os piores. Condenei-os em m im conform e

m erecem , pois m eu j ulgam ento não foi contam inado por eles. Ao contrário,

acuso-os m ais rigorosam ente em m im do que em outro. Mas é só isso, pois,

pensando bem , oponho-lhes pouquíssim a resistência e deixo-m e facilm ente

pender para o outro lado da balança, a não ser que sej a para m oderá-los e

im pedir que se m isturem com outros vícios, os quais se entretêm e se

entrelaçam , em m aioria, uns nos outros se não prestarm os atenção. Os m eus,

separei-os e confinei-os para que fiquem isolados, o m ais possível.

nec ultra

Errorem foveo. 280

e não encoraj o m eu vício exageradam ente.

Os estoicos dizem que quando o sábio age, age com todas as virtudes j untas,

em bora um a sej a m ais aparente segundo a natureza da ação (e nisso poderia

servir-lhes, de certa form a, a sem elhança com o corpo hum ano, pois a ação

da cólera só pode se exercer se todos os hum ores nos aj udarem , em bora a

cólera predom ine). Se daí querem tirar tal conclusão de que quando um

pecador peca, peca por todos os vícios j untos, não creio neles assim tão

sim plesm ente; ou não os com preendo, pois na verdade sinto o contrário. É a

sutilezas agudas, insubstanciais, que a filosofia por vezes se apega. Sigo

alguns vícios m as fuj o de outros, tanto quanto um santo poderia fazer.

Tam bém os peripatéticos renegam essa conexão e essa costura indissolúvel;

e afirm a Aristóteles que um hom em prudente e j usto pode ser intem perante e incontinente. Sócrates confessava, aos que reconheciam em sua fisionom ia

algum a tendência ao vício, que na verdade era sua propensão natural, m as

que ele a corrigira por disciplina. E os fam iliares do filósofo Estílpon diziam

que, tendo nascido dado ao vinho e às m ulheres, ele se tornara, por esforço,

m uito abstinente de um e outro. Eu, inversam ente, o que tenho de bom o tenho

pelo acaso de m eu nascim ento: não o devo à lei nem a um preceito ou outro

aprendizado. A inocência que há em m im é um a inocência inata, de pouco

vigor e sem arte. Entre os vícios, odeio cruelm ente a crueldade, tanto por

natureza com o por j ulgam ento, com o sendo o extrem o de todos os vícios.

Mas isso chega a tal fraqueza que não vej o degolarem um frango sem

desprazer, e não suporto ouvir gem er um a lebre sob os dentes de m eus cães,

em bora a caça sej a um violento prazer. Os que devem com bater a volúpia

usam de bom grado, para m ostrar que ela é totalm ente viciosa e irracional, o

argum ento de que quando está no auge nos dom ina de m odo que a razão não

consegue ter acesso a nós, e invocam a experiência que sentim os no

com ércio com as m ulheres,

cum iam praesagit gaudia corpus,

Atque in eo est Venus, ut muliebria conserat arva; 281

quando o corpo pressente o prazer de Vênus estar nele, a fim de sem ear o

cam po fem inino;

m om ento em que lhes parece que o prazer nos transporta tão forte para fora

de nós que nosso raciocínio, de todo percluso e arrebatado pela volúpia, não

conseguiria então cum prir seu papel. Sei que pode ser de outra m aneira; e que às vezes chegarem os, se quiserm os, a repor a alm a, nesse m esm o

instante, em outros pensam entos; m as é preciso ser vigilante para retesá-la e

endurecê-la. Sei que é possível resistir à força desse prazer, e disso entendo;

e não encontrei em Vênus um a deusa tão im periosa que alguns, m ais castos

que eu, pretendem ser ela. Não considero um m ilagre, com o o faz a rainha de

Navarra num dos contos de seu Heptameron (que é um bom livro no seu

gênero), nem coisa de extrem a dificuldade passar noites inteiras, em total

sossego e liberdade, com um a am ante há m uito tem po desej ada, m antendo a

prom essa que lhe terem os feito de nos contentarm os com beij os e sim ples

carinhos. Creio que o exem plo do prazer na caça viria m ais a calhar: com o há

m enos prazer, há m ais exaltação e surpresa, pelo que, atordoada, nossa

razão perde essa possibilidade de se preparar para o encontro quando,

depois de um a longa busca, o anim al vem em sobressalto a se apresentar

num local onde talvez m enos o esperássem os. Essa surpresa e o ardor de

seus alaridos chocam -nos tanto que seria difícil, para os que gostam dessa

espécie de caça, desviar o pensam ento para outra coisa. E os poetas fazem

de Diana a vitoriosa contra as tochas e as flechas de Cupido.

Quis non malarum quas amor curas habet

Haec inter obliviscitur? 282

Quem não esquece, no m eio das delícias, as penas que o am or traz

consigo?

Para voltar ao m eu assunto, sinto um a com paixão m uito terna pelas aflições

do outro e facilm ente choraria por contágio se em qualquer ocasião que fosse eu conseguisse chorar. Não há nada que tente m inhas lágrim as tanto quanto

as lágrim as: não apenas as verdadeiras, m as quaisquer que sej am , fingidas

ou pintadas. É raro que chore pelos m ortos, antes os invej aria; m as choro

m uito forte pelos m oribundos. Os selvagens não m e ofendem tanto por

assarem e com erem os corpos dos falecidos quanto aqueles que os

atorm entam e perseguem quando são vivos. As próprias execuções da j ustiça,

por razoáveis que sej am , não posso vê-las com olhos firm es. Alguém que teve

de atestar a clem ência de Júlio César declarou: “Ele era suave em suas

vinganças: tendo forçado os piratas a se renderem , a ele que outrora haviam

prendido e subm etido a resgate, am eaçou-os com a crucificação, e de fato os

condenou a isso; m as só depois de estrangulá-los. A seu secretário Fílom on,

que quisera envenená-lo, não o puniu m ais duram ente que com um a m orte

sim ples”. Sem falar desse autor latino que ousa alegar com o prova de

clem ência o fato de m atar apenas aqueles por quem fom os ofendidos: é fácil

adivinhar que está chocado com os vis e horríveis exem plos de crueldade que

os tiranos rom anos introduziram . Quanto a m im , tudo o que, na própria j ustiça,

vai além da m orte sim ples m e parece pura crueldade, e notadam ente para

nós, que deveríam os ter o respeito de entregar as alm as em bom estado, o

que não é possível tendo-as agitado e desesperado com torturas

insuportáveis. Nesses dias passados, um soldado prisioneiro, ao avistar da

torre onde estava o povo se reunindo na praça e carpinteiros ali erguendo

suas obras, pensou que era para ele: e, tom ando a decisão de se m atar, não achou nada que pudesse auxiliá-lo além de um velho prego de carroça,

enferruj ado, que o acaso lhe ofereceu. Com ele deu, prim eiram ente, dois

grandes golpes na garganta, m as vendo que isso não surtira efeito, deu,

pouco depois, um terceiro, no ventre, onde deixou o prego enfiado. O prim eiro

guarda que entrou encontrou-o naquele estado, ainda vivo, m as desacordado

e m uito enfraquecido pelos golpes. Para aproveitar o tem po antes que ele

desfalecesse, apressaram -se em proferir a sentença. Depois da qual, um a

vez ouvida, e com o ele só fora condenado a ter a cabeça cortada, o soldado

pareceu recobrar novo ânim o: aceitou vinho, que antes recusara, agradeceu

aos j uízes a brandura inesperada de sua condenação. Disse que decidira

convocar a m orte por tem or de um a m orte m ais dura e insuportável, pois,

pelos preparativos que vira na praça, veio-lhe a ideia de que queriam torturá-lo

com algum horrível suplício e pareceu estar libertado da m orte por tê-la

m odificado. Eu aconselharia que esses exem plos de rigor com os quais se

desej a m anter o povo no dever fossem aplicados aos cadáveres dos

crim inosos. Pois vê-los privados de sepultura, vê-los fervendo e esquartej ados

tocaria quase tanto o vulgo quanto tocam as dores que fazem os vivos sofrer;

conquanto na verdade isso sej a pouco ou nada, com o Deus diz, Qui corpus

occidunt, et postea non habent quod faciant. 283Eles m atam o corpo, e em seguida não podem fazer m ais nada.] E os poetas valorizam singularm ente o

horror dessa representação dos suplícios, e m ais que da m orte:

Heu reliquias semiassi regis, denudatis ossibus,

Per terram sanie delibutas foedè divexarier. 284

Infelizm ente! Serei arrastado por terra, ignom iniosam ente, restos gotej ando

sangue de um rei m eio assado, seus ossos descarnados.

Encontrava-m e um dia em Rom a no m om ento em que iam executar Catena,

um notório ladrão. Estrangularam -no sem nenhum a em oção do público, m as

quando foram esquartej á-lo o carrasco não dava um golpe sem que o povo

acom panhasse com um grito plangente e um a exclam ação, com o se todos

transferissem a própria sensibilidade àquela carcaça. Há que exercer esses

excessos desum anos contra a casca m orta e não contra a carne viva. Assim ,

Ataxerxes, em caso m ais ou m enos parecido, abrandou o rigor das leis

antigas da Pérsia; ordenou que os senhores que tinham com etido um a falta

em sua função, em vez de ser chicoteados, com o era costum e, fossem

despoj ados e suas roupas açoitadas no seu lugar; e em vez de arrancar-lhes

os cabelos, com o era costum e, que apenas lhes retirassem o alto do chapéu.

Os egípcios, tão devotos, estim avam satisfazer a j ustiça divina sacrificando-lhe porcos em figuras e efígies pintadas; invenção ousada, de querer pagar a

Deus, substância tão essencial, com pinturas e som bras. Vivo num a época em

que abundam exem plos inacreditáveis desse vício da crueldade, pelas

desordens de nossas guerras civis, e não vem os nada de m ais extrem o nas

histórias antigas do que aquilo a que assistim os todos os dias. Mas isso não

m e acostum ou a esse vício, de j eito nenhum . Eu m al era capaz de m e

convencer, antes de tê-lo visto, que pudessem existir alm as tão ferozes que

quisessem com eter assassínios só pelo prazer; retalhar e cortar os m em bros

de alguém ; aguçar o espírito para inventar torturas inusitadas e m ortes novas,

sem inim izade, sem proveito, e só para o fim de gozar do agradável

espetáculo, dos gestos e m ovim entos lastim áveis, dos gem idos, dos gritos

lam entáveis de um hom em m orrendo em agonia. Pois eis o ponto extrem o que

a crueldade pode alcançar. Ut homo hominem, non iratus, non timens, tantum

spectaturus occidat.285 Que um hom em m ate um hom em , sem cólera, sem m edo, sim plesm ente para ver.] Quanto a m im , j am ais consegui ver sem

desprazer perseguirem e m atarem um bicho inocente, que é sem defesa e não

nos fez sofrer nenhum m al. E o cervo que com um ente, sentindo-se sem fôlego

e sem força, e não tendo outro rem édio, se vira e se rende a nós m esm os que

o perseguim os, pedindo-nos piedade por suas lágrim as,

quoestuque cruentus

Atque imploranti similis, 286

sangrando, e lem brando, por seus queixum es, um suplicante,

isso sem pre m e pareceu um espetáculo m uito desagradável. Não pego anim al

vivo a que não restitua a liberdade. Pitágoras fazia o m esm o, com prando-os

dos pescadores e dos passarinheiros.

primoque a caede ferarum

Incaluisse puto maculatum sanguine ferrum287

foi, creio, pelo m assacre dos anim ais selvagens que o ferro tingido de

sangue esquentou pela prim eira vez.

As índoles sanguinárias em relação aos anim ais atestam um a propensão

natural à crueldade. Em Rom a, depois que se acostum aram aos espetáculos

de m ortes dos anim ais, chegaram aos hom ens e aos gladiadores. A própria

natureza (tem o) fixou no hom em um instinto de desum anidade. Ninguém sente

prazer em ver os anim ais brincando entre si e acariciando-se; e ninguém deixa

de senti-lo ao vê-los se dilacerarem e se desm em brarem . E a fim de que não caçoem dessa sim patia que lhes tenho, a própria teologia nos ordena dem onstrar algum favor por eles. E considerando que um m esm o senhor nos

aloj ou neste palácio para seu serviço, e que eles são, com o nós, de sua

fam ília, a teologia tem razão de im por-nos certo respeito e afeto por eles.

Pitágoras tom ou dos egípcios a ideia da m etem psicose, m as depois ela foi

adotada por vários povos e notadam ente por nossos druidas:

Morte carent animae, semperque priore relicta

Sede, novis domibus vivunt, habitantque receptae. 288

As alm as são subtraídas à m orte, e sem pre, depois de ter deixado sua

prim eira m orada, vão viver em outra, onde fazem sua residência.

A religião de nossos antigos gauleses considerava que as alm as, sendo

eternas, não paravam de se m exer e m udar de lugar de um corpo a outro;

m isturando, adem ais, a essa im aginação certa ideia da j ustiça divina. Pois

segundo o com portam ento da alm a, quando ela tinha habitado, por exem plo,

Alexandre, eles diziam que Deus lhe designava um outro corpo para habitar,

m ais ou m enos árduo e relacionado à sua conduta:

muta ferarum

Cogit vincla pati, truculentos ingerit ursis,

Praedonesque lupis, fallaces vulpibus addit,

Atque ubi per varios annos per mille figuras

Egit, lethaeo purgatos flumine tandem

Rursus ad humanae revocat primordia formae. 289

ele as força a sofrer a m uda prisão dos anim ais, faz entrar os cruéis nos

corpos de ursos, os ladrões nos dos lobos, atribuem os m entirosos às raposas, e depois que as levou durante vários anos através de m il figuras,

cham a-as de novo à sua form a hum ana original, um a vez que eles foram

purificados no rio do Lete.

Se ela tivesse sido valente, aloj avam -na no corpo de um leão; se voluptuosa,

no de um porco; se covarde, no de um cervo ou um a lebre; se m aliciosa, no

de um a raposa; e assim por diante, até que, purificada pelo castigo, retom ava

o corpo de um outro hom em ;

Ipse ego, nam memini, Trojani tempore belli

Panthoides Euphorbus eram. 290

Eu m esm o, lem bro-m e, no tem po da guerra de Troia, era Eufórbio, filho de

Panteu.

Quanto a esse parentesco entre nós e os anim ais, não o levo m uito em conta;

tam pouco isso de que várias nações, e em especial as m ais antigas e m ais

nobres, não só adm itiram os anim ais em sua convivência e com panhia com o

lhes deram um a posição bem m ais elevada que a delas m esm as, ora

considerando-os fam iliares e favoritos de seus deuses, e tendo por eles m ais

respeito e reverência que pelos hom ens, ora não reconhecendo outro deus

nem outra divindade além deles: Belluae a barbaris propter beneficium

consecratae; 291Os anim ais foram sacrificados pelos bárbaros para os benefícios que deles esperavam ;

crocodilon adorat

Pars haec, illa pavet saturam serpentibus Ibin,

Effigies sacri hic nitet aurea Cercopitheci;

hic piscem fluminis, illic

Oppida tota canem venerantur. 292

uns adoram o crocodilo, outros veneram tem erosam ente o íbis repleto de

serpentes, aqui resplandece a estátua de ouro do cercopiteco sagrado; ali,

um peixe do rio, aqui um cão venerado por cidades inteiras.

E a própria interpretação, m uito j udiciosa, que Plutarco dá a esse erro ainda

lhes é honrosa. Pois ele diz que não era o gato ou o boi (por exem plo) que os

egípcios adoravam ; m as que adoravam nesses bichos um a im agem das

faculdades divinas: neste, a paciência e a utilidade, naquele, a vivacidade, ou,

com o nossos vizinhos borguinhões e em toda a Alem anha, a incapacidade de

suportar a clausura, o que representava para eles a liberdade que am avam e

adoravam além de qualquer outra faculdade divina, e assim por diante. Mas

quando encontro entre as opiniões m ais m oderadas raciocínios que tentam

m ostrar a sem elhança estreita entre nós e os anim ais, e o quanto eles

participam de nossos m aiores privilégios, e com quanta verossim ilhança

podem os com pará-los a nós, sem dúvida rebaixo m uito nossa presunção e

renuncio de bom grado a essa im aginária realeza sobre as outras criaturas,

que nos atribuem . Mesm o se esse não fosse o caso, há todavia um certo

respeito que nos liga e um dever geral de hum anidade não só em relação aos

anim ais, que têm vida e sentim ento, m as às próprias árvores e plantas.

Devem os j ustiça aos hom ens, e bondade e benevolência às outras criaturas

capazes de recebê-las. Há certa relação entre elas e nós e certa obrigação m útua. Não tem o confessar a ternura de m inha natureza tão pueril que m e leva

a não conseguir recusar ao m eu cão a festa que m e oferece fora de hora ou

que m e pede. Os turcos têm obras de caridade e hospitais para os bichos. Os rom anos tinham um serviço público para a alim entação dos gansos, por cuj a