Os Ensaios

Michel de Montaigne · Capítulo 28 de 33

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Os Ensaios

Sobre o arrependimento

grandes e sólidas: não detesto as opiniões contrárias às m inhas. Estou m uito

longe de m e assustar ao ver a discordância entre m eus j ulgam entos e os dos

outros e não m e torno incom patível com a sociedade dos hom ens por terem

outra opinião e partido que não o m eu. Ao contrário (com o a variedade é o

estilo m ais geral que a natureza seguiu, e m ais nos espíritos do que nos

corpos, pois os espíritos são de substância m ais flexível e passível de outras

form as), acho bem m ais raro ver concordarem nossos tem peram entos e

nossos desígnios. E nunca houve no m undo duas opiniões parecidas, com o

tam pouco dois pelos ou dois grãos. Sua qualidade m ais universal é a

diversidade.

LIVRO TERCEIRO

Sobre o arrependimento

Capítulo II

Este é o segundo e último capítulo de Os ensaios (depois do capítulo das

orações) que aborda um tema religioso. É uma reflexão sobre a penitência,

um dos sete sacramentos do dogma católico, obtida graças à confissão, que

então era obrigatória pelo menos uma vez por ano. Como o bom gigante

Gargantua, de Rabelais, Montaigne sabe que um homem pode viver como

um fidalgo cristão, sem reproche mas não sem pecado. Fala do tema com

tanta ousadia que, no século seguinte, será denunciado pelos jansenistas,

que o acusam de não se arrepender de nada. Ora, Montaigne questiona a

possibilidade do arrependimento, que nunca será mais que uma “cerimônia”,

e declara, não sem provocação, que é impermeável a esse sentimento, a seu ver quase sempre confundido com o remorso estéril. Pensa que a

contrição é impossível para o homem: seria uma ilusão, ou, pior, uma

hipocrisia do jogo social. O ideal humano seria mostrar-se irrepreensível em

seu foro íntimo, tanto no lar como em sociedade.

Os outros form am o hom em , eu o relato, e represento um em particular, bem m alform ado; e o qual, se tivesse de m oldá-lo de novo, faria de fato bem

diferente do que ele é. Mas está feito. Ora, os traços de m inha pintura não se

extraviam , em bora se m odifiquem e diversifiquem . O m undo não passa de um

perene balanço: todas as coisas se m ovim entam incessantem ente, a Terra, os

rochedos do Cáucaso, as pirâm ides do Egito; tanto com o m ovim ento geral

com o com o seu. A própria constância não é outra coisa além de um

m ovim ento m ais lânguido. Não posso ter certeza de m eu obj eto: ele segue

confuso e cam baleante, com um a em briaguez natural. Pego-o neste ponto,

com o ele é, no instante em que m e interesso por ele. Não pinto o ser, pinto a

passagem : não a passagem de um a idade à outra, ou, com o diz o povo, de

sete em sete anos, m as de dia em dia, de m inuto em m inuto. Devo adaptar

m inha história ao m om ento. Breve poderei m udar, não só por acidente m as

tam bém por intenção. É um registro de ocorrências diversas e m utáveis, de

ideias indecisas, e se calhar, contrárias: sej a que sou outro eu m esm o, sej a

que apreendo os assuntos por outras circunstâncias e considerações. Tanto

assim que talvez m e contradiga, m as, com o dizia Dêm ades, não contradigo a

verdade. Se m inha alm a pudesse se firm ar, eu não experim entaria m as m e

decidiria: ela está sem pre em aprendizagem e em prova. Proponho um a vida

hum ilde e sem lustro: pouco im porta. Pode-se ligar toda a filosofia m oral tanto a um a vida ordinária e privada com o a um a vida de m ais rico estofo: cada

hom em traz a form a inteira da condição hum ana. Os autores com unicam -se

com o público por algum a m arca especial, externa a eles. Sou o prim eiro a

fazê-lo por m eu ser universal: com o Michel de Montaigne, não com o gram ático

ou poeta ou j urisconsulto. Se o m undo se queixa de que falo dem ais de m im ,

queixo-m e de que ele não pensa sequer em si m esm o. Mas é razoável que,

com um a vida tão particular, eu pretenda tornar-m e público e conhecido? É

razoável que apresente ao m undo, em que a form a e a arte têm tanto crédito

e autoridade, efeitos naturalm ente crus e sim ples e de um a natureza ainda um

tanto fraquinha? Construir livros sem ciência não é fazer um a m uralha sem

pedra, ou algo parecido? As fantasias m usicais são conduzidas pela arte, as

m inhas, pelo acaso. Ao m enos tenho essa regra de que nunca um hom em

tratou de assunto que com preendesse e conhecesse m elhor do que o faço

com este que em preendi: e neste sou o hom em m ais sábio em vida. Em

segundo lugar, que nunca nenhum penetrou m ais longe em sua m atéria nem

descascou m ais em detalhes seus elem entos e consequências, e chegou m ais

exata e plenam ente ao fim a que se propusera em sua tarefa. Para executá-la

só preciso conferir-lhe fidelidade: aqui ela está, a m ais sincera e pura que

existe. Digo a verdade, não tanto à saciedade, m as tanto quanto ouso dizê-la.

E ouso um pouco m ais ao envelhecer, pois parece que o costum e concede a

essa idade m ais liberdade de tagarelar e indiscrição ao falar de si. Não pode

acontecer aqui o que vej o com frequência acontecer: que o artesão e o

artefato se contrariem : “Com o um hom em de convívio tão correto fez um texto tão tolo?”, ou “Com o escritos tão sábios partiram de um hom em de tão pobre

convívio?”. Quem tem um a conversação com um e escritos de raro valor, isto

quer dizer que sua capacidade está ali de onde a tom a em prestada, e não

nele. Um a personalidade sábia não é sábia em tudo, m as o talentoso é

talentoso em tudo, até m esm o no que ignora. Aqui irem os num m esm o passo

e em harm onia, m eu livro e eu. Em outro lugar, pode-se recom endar ou acusar

a obra, separadam ente do operário: aqui não, quem toca um toca o outro.

Quem a j ulgar sem conhecê-la prej udicará m ais a si do que a m im ; quem a

tiver conhecido terá m e satisfeito totalm ente. Ficarei feliz, além de m eu m érito,

se tiver apenas esta parte da aprovação pública: que eu faça sentir às

pessoas inteligentes que era capaz de tirar proveito da ciência se tivesse tido

algum a, e que m erecia que a m em ória m e socorresse m elhor. Apresentem os

aqui as desculpas pelo que costum o dizer: que raram ente m e arrependo e que

m inha consciência está contente consigo, não com o a consciência de um anj o

ou de um cavalo, m as com o a consciência de um hom em . E acrescentando

sem pre este refrão, não um refrão de pura convenção m as de sincera e

fundam ental subm issão: de que falo inquirindo e ignorando, reportando-m e

com o conclusão, pura e sim plesm ente, às crenças com uns e legítim as. Não

ensino, relato. Não há vício verdadeiram ente vício que não choque e que um

j ulgam ento íntegro não acuse; pois sua feiura e seus inconvenientes são tão

aparentes que talvez tenham razão os que dizem que ele é produzido

principalm ente pela estupidez e ignorância, de tal form a é difícil im aginar que o

conheçam os sem odiá-lo. A m aldade absorve a m aior parte de seu próprio veneno e envenena-se. O vício deixa com o um a úlcera na carne, um

arrependim ento na alm a, que sem pre se arranha e ensanguenta a si m esm a.

Pois a razão apaga as outras tristezas e dores m as engendra a do

arrependim ento, que é m ais grave um a vez que nasce no interior, com o o frio

e o quente das febres é m ais lancinante que o que vem de fora. Considero

vícios (m as cada um segundo sua im portância) não só os que a razão e a

natureza condenam , m as tam bém os que a opinião dos hom ens, m esm o falsa

e errônea, forj ou, se as leis e os usos os autorizam . Da m esm a m aneira, não

há conduta louvável que não regozij e um a natureza bem -nascida. Há sem

dúvida não sei que satisfação em agir bem que nos alegra em nós m esm os, e

um generoso orgulho que acom panha a boa consciência. Um a alm a viciosa

m as coraj osa pode talvez arm ar-se de segurança, m as não pode prover-se

desse deleite e dessa satisfação. Não é um pequeno prazer sentir-se

preservado do contágio de um século tão corrom pido e dizer consigo m esm o:

“Quem m e visse até dentro da alm a, m esm o assim não m e acharia culpado

nem da aflição nem da ruína de ninguém ; nem de vingança ou invej a, nem de

ofensa pública às leis; nem de revolta326 ou distúrbios; nem de falta à m inha palavra; e em bora a licença deste tem po o perm ita e o ensine a cada um de

nós, não pus a m ão nos bens nem na bolsa de um hom em francês, e só vivi da

m inha, tanto na guerra com o na paz; nem m e servi do trabalho de ninguém

sem pagar”. Esses testem unhos de nossa consciência agradam , e esse j úbilo

natural nos é um grande benefício, e o único pagam ento que j am ais nos falta.

Basear a recom pensa de suas ações virtuosas na aprovação dos outros é

adotar um fundam ento m uito incerto e confuso, e notadam ente num século

corrom pido e ignorante com o este a boa estim a do povo é inj uriosa. Em quem

se fiar para saber o que é louvável? Deus m e guarde de ser hom em de bem

segundo a descrição honrosa que vej o todo dia cada um fazer de si. Quae

fuerant vitia, mores sunt. 327Vícios de outrora, costum es de hoj e.] Alguns de m eus am igos por vezes resolveram criticar-m e e recrim inar-m e de peito

aberto, sej a por iniciativa própria ou solicitados por m im , com o um dever que,

para um a alm a bem form ada, supera todos os deveres da am izade, não só

em utilidade m as em gentileza tam bém . Sem pre o acolhi com os braços m ais

abertos da cortesia e do reconhecim ento. Mas para falar neste m om ento em

sã consciência, volta e m eia vi em suas críticas e seus elogios tanta falsa

m edida que eu não estaria errado em fazer errado ao m eu j eito, em vez de

certo ao j eito deles. Nós, principalm ente, que vivem os um a vida interior que só

está à m ostra para nós, devem os ter estabelecido um m odelo interior que sej a

a pedra de toque de nossos atos, pelo qual ora nos lisonj eam os, ora nos

castigam os. Tenho m inhas leis e m eu tribunal para j ulgar a m im m esm o, e a

eles m e dirij o m ais que a outro lugar. Restrinj o m inhas ações em função dos

outros, m as só as estendo em função de m im . Só vós é que sabeis se sois

covarde e cruel, ou leal e devotado: os outros não vos veem , adivinham -vos

por conj ecturas incertas; veem não tanto vossa natureza com o vossa arte. Por

isso, não confiais em sua sentença, confiais na vossa. Tuo tibi judicio est

utendum. 328 Deves recorrer a teu próprio j ulgam ento. Virtutis et vitiorum grave

ipsius conscientiae pondus est: qua sublata, jacent omnia. 329 A consciência da virtude e do vício tem grande peso; m as suprim i-a, e tudo desaba.] Mas o que

dizem , de que o arrependim ento segue de perto o pecado, não parece referir-se ao pecado que está em sua m ais alta pom pa, aquele que se aloj a em nós

com o em seu próprio dom icílio. Podem os renegar e desdizer os vícios que

nos surpreendem e para os quais as paixões nos levam ; m as os que por longo

hábito estão enraizados e ancorados num a vontade forte e vigorosa não estão suj eitos a contradição. O arrependim ento é apenas um desm entido de nossa

vontade, um a reviravolta de nossos pensam entos, que nos m ove em todas as

direções. Faz o hom em renegar sua virtude passada e sua continência:

Quae mens est hodie, cur eadem non puero fuit,

Vel cur his animis incolumes non redeunt genae? 330

Esse estado de espírito de hoj e, por que não tive em criança? Ou por que,

com esses sentim entos, m inhas faces não voltam a ser glabras?

É um a vida rara esta que se m antém em ordem até na intim idade. Cada um

pode tom ar parte do espetáculo e representar um personagem honesto no

estrado; m as ser regrado por dentro, em seu peito, em que tudo nos é

perm itido, em que tudo está escondido, esse é o ponto. O m ais perto disso é

ser assim em casa, em nossas ações ordinárias das quais não tem os de

prestar contas a ninguém , nas quais não há afetação nem artifício. E por essa

razão Bias, ao pintar um excelente governo da fam ília, diz: “Que o senhor sej a

em casa tal com o é fora por tem or da lei e do que os hom ens podem dizer”. E

foi um a digna frase a de Júlio Druso331 aos operários que lhe ofereciam por 3

m il escudos pôr sua casa num tal estado que os vizinhos não m ais teriam a

vista que tinham : “Dar-vos-ei 6 m il”, disse ele, “e fazei que cada um ali vej a

todas as partes”. Com enta-se honrosam ente a prática de Agesilau de, ao

viaj ar, aloj ar-se nas igrej as a fim de que o povo e m esm o os deuses o vissem em seus atos privados. Um hom em pode ter sido extraordinário no m undo e

sua m ulher e seu criado nele nada enxergarem de, pelo m enos, digno de nota.

Poucos hom ens foram adm irados por seus dom ésticos. Ninguém foi profeta

não só em sua casa m as em seu país, diz a experiência das histórias. O

m esm o se aplica às trivialidades. E nesse m eu m odesto exem plo vê-se a

im agem dos grandes. Em m inha terra da Gasconha acham engraçado m e

verem im presso. Quanto m ais se afasta de m inha m orada o conhecim ento que

têm de m im , tanto m ais eu valho. Em Guy enne pago aos editores; em outras

partes eles m e pagam . Nessa particularidade fundam -se os que se escondem ,

vivos e presentes, para ter fam a, m ortos e ausentes. Prefiro ter m enos fam a.

E só m e j ogo ao m undo pela parte que dele tiro. Quando eu partir, ele estará

quite com igo. Aquele que o povo conduz com adm iração até sua porta depois

de um ato público se despe, j unto com sua toga, desse papel, e torna a cair

tanto m ais baixo quanto m ais alto se elevara. Dentro dele tudo é tum ulto e

vileza. Se ali houvesse um regulam ento, seria preciso um j ulgam ento vivo e

bem sutil para percebê-lo naquelas ações m odestas e privadas. Acresce que

a ordem é um a virtude som bria e obscura. Conquistar um a brecha, conduzir um a em baixada, dirigir um povo são ações brilhantes; ralhar, rir, vender,

pagar, am ar, odiar e conversar com os seus e consigo m esm o, de m odo

suave e j usto, não relaxar, não se desm entir é coisa m ais rara, m ais difícil e

m enos notável. As vidas reclusas enfrentam , pouco im porta o que se diga,

deveres tão ou m ais severos e extensos do que enfrentam as outras vidas. E

as pessoas privadas, diz Aristóteles, servem à virtude com m ais dificuldade e

de m odo m ais elevado do que o fazem os que exercem um a m agistratura.

Preparam o-nos para as ocasiões em inentes m ais pela glória do que por

consciência. O m odo m ais curto de chegar à glória seria fazer por consciência

o que fazem os pela glória. E a virtude de Alexandre, em seu teatro, parece-

m e apresentar bem m enos vigor que a de Sócrates naqueles exercícios

m odestos e obscuros. Im agino facilm ente Sócrates no lugar de Alexandre;

Alexandre no de Sócrates, não consigo: a quem perguntar àquele o que sabe

fazer, ele responderá: “Subj ugar o m undo”; a quem perguntar a este,

responderá: “Levar um a vida hum ana de acordo com sua condição natural”,

ciência bem m ais geral, m ais dificil e m ais legítim a. O valor da alm a não

consiste em ir alto, m as ir ordenadam ente. Sua grandeza não se exerce na

grandeza m as na m ediocridade. Assim com o os que nos j ulgam e nos avaliam

internam ente não fazem m uito caso do brilho de nossas ações públicas e

veem que são apenas filetes e pingos de água lim pa brotados de um fundo,

afinal, lodoso e pesado, assim tam bém os que nos j ulgam por essa bela

aparência externa concluem o m esm o de nossa constituição interna, e não

conseguem acoplar faculdades ordinárias e sem elhantes às suas com essas

outras faculdades que os espantam , tão distantes de seu alcance. Por isso

dam os aos dem ônios form as selvagens. E quem não dá a Tam erlão

sobrancelhas alteadas, narinas alargadas, um rosto pavoroso e um tam anho

desm esurado, com o é o tam anho da ideia que fazem os pela reputação de seu

nom e? Se outrora m e tivessem feito ver Erasm o, teria sido difícil que eu não

tom asse com o adágios e apotegm as tudo o que ele dissesse a seu criado e à

sua anfitriã. Mais provavelm ente im aginam os na latrina ou sobre sua m ulher um artesão do que um grande presidente, venerável por seu com portam ento e

com petência. Parece-nos que daqueles altos tronos não se rebaixam para

sim plesm ente viver. Com o as alm as viciosas são m uitas vezes incitadas a agir

bem por algum im pulso externo, tam bém o são as virtuosas para agir m al.

Portanto é preciso j ulgá-las por seu estado sereno, quando estão em casa

consigo m esm as, se por vezes o estão; ou ao m enos quando estão m ais

próxim as do repouso e em estado natural. As tendências naturais se aj udam e

se fortificam pela educação, m as não se m odificam nem se superam . Em

m inha época, m il naturezas escaparam para a virtude ou para o vício apesar de um a educação oposta.

Sic ubi desuetae silvis in carcere clausae

Mansuevere ferae, et vultus posuere minaces,

Atque hominem didicere pati, si torrida parvus

Venit in ora cruor, redeunt rabiesque furorque,

Admonitaeque tument gustato sanguine fauces,

Fervet, et a trepido vix abstinet ira magistro. 332

Assim , quando longe de suas florestas as feras trancadas em suas j aulas

am ansaram , desistiram de seus ares am eaçadores e aprenderam a

suportar a presença hum ana, se um a gota de sangue fresco correr em sua

garganta ardente, voltam a raiva e a ferocidade; despertada pelo gosto de

sangue a garganta incha, a cólera ferve e m al poupa o dom ador todo

trêm ulo.

Não extirpam os essas m aneiras originais, m as as cobrim os, escondem os. A

língua latina é para m im com o que natural: com preendo-a m elhor que o francês, m as há quarenta anos que praticam ente não m ais a uso para falar

nem para escrever. No entanto, sob em oções extrem as e repentinas, em que

caí duas ou três vezes na vida, e um a ao ver m eu pai perfeitam ente saudável

cair para trás, sobre m im , desm aiado, sem pre as prim eiras palavras que m e

saíram do fundo das entranhas foram em latim : a natureza surdindo e

expressando-se à força apesar de um a prática tão longa e contrária. E esse

exem plo vale para m uitos outros. Em m eu tem po, os que tentaram reform ar

os costum es do m undo por novas opiniões reform aram os vícios da aparência,

os da essência os deixam lá, se não os aum entam : e o aum ento é de tem er.

Dispensam os de bom grado qualquer outra ação correta em vista dessas

reform as externas, de m enor custo e m aior m érito; e com isso satisfazem os

por baixo preço os outros vícios naturais, consubstanciais e internos. Olhai um

pouco o que nossa experiência m ostra a esse respeito. Não há ninguém que,

se escutar a si m esm o, não descubra em si um a form a sua, um a form a

dom inante que luta contra a educação e contra a tem pestade das paixões que

lhe são contrárias. Quanto a m im , não m e sinto m uito sacudido por abalos:

m antenho-m e quase sem pre em m eu lugar, com o fazem os corpos pesados e

vagarosos. Se não estou “em casa”, estou sem pre por perto: m eus excessos

não m e levam m uito longe: neles não há nada de extrem o e estranho, e,

tam bém , m udo de opinião de m odo saudável e vigoroso. A verdadeira

condenação, e que afeta o com portam ento com um de nossos hom ens, é que

m esm o seu afastam ento do m undo é cheio de corrupção e suj eira; a ideia de se em endarem é confusa, sua penitência, doentia e culposa, m ais ou m enos

tanto quanto seu pecado. Alguns, por estarem presos ao vício por um laço

natural ou longo hábito, não m ais enxergam sua feiura. A outros (em cuj o

regim ento estou), o vício pesa m as o contrabalançam com o prazer que dão

ou com outra coisa, e o suportam e a ele se prestam , por certo preço.

Viciosam ente, porém , e covardem ente. Talvez se pudesse im aginar, contudo,

um a extrem a desproporção em que, com j ustiça, o prazer desculparia o

pecado, com o dizem os a respeito da utilidade. Não só quando o prazer fosse

fortuito e não fizesse parte do pecado, com o no furto, m as quando o prazer

reside em exercer o pecado, com o na relação carnal com as m ulheres, em

que a incitação é violenta e, dizem , às vezes invencível. Outro dia, quando

estava em Arm agnac, na terra de um parente m eu, vi um cam ponês que todos

cham am de O Ladrão. Ele fazia assim o relato de sua vida: tendo nascido

m endigo e achando que ao ganhar o pão com o trabalho de suas m ãos j am ais

conseguiria precaver-se o suficiente contra a indigência, resolveu virar ladrão e

em pregou nesse ofício toda a sua j uventude, em total segurança, graças à

sua força corporal; fazia a colheita e a vindim a nas terras de outros, m as

aquilo era longe e chegava em quantidades tão grandes que era inim aginável

que um hom em tivesse carregado tanta coisa nas costas, num a só noite; e

além disso tom ava o cuidado de dispersar por igual o prej uízo que causava,

de tal m odo que cada um em particular achasse a perda m ais suportável. A

essa hora, j á na velhice, ele está rico para um hom em de sua condição graças

a esse tráfico, que confessa abertam ente. E para arranj ar-se com Deus por

suas aquisições, diz estar todos os dias querendo satisfazer com boas ações

os sucessores dos que roubou; e, se não term inar (pois não consegue satisfazer todos ao m esm o tem po), encarregará seus herdeiros de fazê-lo,

com base no conhecim ento que só ele tem do m al que fez a cada um . Por

essa descrição, sej a verdadeira ou falsa, ele vê o furto com o um a ação

desonesta e o odeia, m as m enos que a indigência: arrepende-se bem

sinceram ente, m as não se arrepende um a vez que o furto era assim

contrabalançado e com pensado. Esse não é aquele hábito que nos incorpora

ao vício e a ele adapta nosso próprio entendim ento; nem é o vento im petuoso

que vai perturbando e cegando nossa alm a com seus abalos e precipita-nos

num instante, com j ulgam ento e tudo, no poder do vício. Faço habitualm ente a

fundo aquilo que faço, e cam inho por inteiro: não tenho em oção que se

esconda e se furte à m inha razão, que não se conduza m ais ou m enos com o

consentim ento de todos os m eus elem entos, sem divisão, sem sedição

intestina; a m eu j ulgam ento cabe totalm ente a culpa ou o elogio; e a culpa que

sentiu um a vez sente sem pre, pois quase desde seu nascim ento é uno, com a m esm a inclinação, a m esm a rota, a m esm a força. E em m atéria de opiniões

gerais, desde a infância aloj ei-m e no ponto em que devia m e m anter.

Deixem os de lado os pecados im petuosos, rápidos e súbitos. Mas esses

outros pecados, tantas vezes repetidos, exam inados e m editados, ou os

pecados que podem os cham ar de tem peram ento, ou pecados de profissão ou

de vocação, não posso conceber que estej am plantados tanto tem po num

m esm o coração sem que a razão e a consciência de quem os possui os

desej em constantem ente e os aceitem assim . E o arrependim ento que esse

indivíduo se vangloria de lhe vir em determ inado instante é, para m im , um

pouco duro de im aginar e conceber. Não sigo a escola de Pitágoras, em que

os hom ens adotam um a alm a nova quando se aproxim am das estátuas dos

deuses para recolher seus oráculos; a não ser que ele tenha desej ado dizer

isto m esm o: que essa alm a deve ser diferente, nova e em prestada por um

tem po, j á que a nossa m ostra tão poucas m arcas de purificação e lim peza que

convenham a essa cerim ônia. Eles fazem tudo ao contrário dos preceitos

estoicos, que nos ordenam corrigir as im perfeições e vícios que

reconhecem os em nós m as nos proíbem de alterar o repouso de nossa alm a.

Estes hom ens aqui nos fazem crer que interiorm ente sentem grande

desagrado e rem orso m as nada nos m ostram para se em endar, nem um a

m elhora nem um a interrupção. Não há cura, porém , se não nos livrarm os do

m al: se o arrependim ento pesasse no prato da balança, venceria o pecado.

Não encontro nenhum a qualidade tão fácil de contrafazer quanto a devoção, a

não ser que o com portam ento e a vida estej am de acordo com ela: sua

essência é abstrusa e oculta, as aparências, fáceis e pom posas. Quanto a

m im , posso desej ar ser inteiram ente outro, posso condenar m eu m odo de ser

geral e desgostar de m im , e suplicar a Deus que m e reform e por com pleto e

m e desculpe por m inha fraqueza natural: m as a isso não devo cham ar de

arrependim ento, parece-m e, com o tam pouco o desagrado de não ser anj o

nem Catão. Minhas ações são reguladas pelo que sou e estão em harm onia

com m inha condição. Não posso fazer m elhor e o arrependim ento não toca

propriam ente as coisas que não estão em nosso poder, m as o rem orso, sim .

Im agino infinitas naturezas m ais elevadas e m ais regradas que a m inha. Mas

ao fazer isso não m elhoro m inhas faculdades, assim com o nem m eu braço nem m eu espírito se tornam m ais vigorosos porque im agino outros que o

sej am . Se im aginar e desej ar um m odo de agir m ais nobre que o nosso

produzissem o arrependim ento do nosso, teríam os de nos arrepender de

nossas ações m ais inocentes, tanto m ais que bem vem os que na natureza

excelente teriam sido conduzidas com m ais perfeição e dignidade; e

gostaríam os de fazer o m esm o. Quando com paro m eus com portam entos na

m ocidade e na velhice, acho que em geral os conduzi com ordem , a m eu ver.

É tudo de que sou capaz. Não m e vanglorio: em circunstâncias parecidas

sem pre seria assim . Não é um a m ancha, é m ais um a tinta geral que m e cobre.

Não conheço arrependim ento superficial, m édio e cerim onioso. Ele tem de m e

tocar em todas as partes antes que eu o cham e assim , e pegar m inhas

entranhas e afetá-las tão profunda e globalm ente com o Deus m e vê. Quanto

aos negócios, escaparam -m e várias boas ocasiões por falta de um a condução

feliz: m inhas escolhas, porém , eram certas, segundo as circunstâncias que se

apresentavam . Elas sem pre pegam o partido m ais fácil e seguro. Creio que

em m inhas decisões passadas procedi sensatam ente, de acordo com m inha

regra, visto o estado do negócio que m e propunham ; e faria o m esm o daqui a

m il anos, em ocasiões sem elhantes. Não olho com o ele é a esta hora, m as

com o era quando eu decidia. A força de qualquer decisão reside no tem po: as

ocasiões e condições alteram -se e m udam sem cessar. Incorri em certos

erros graves e im portantes em m inha vida, não por falta de bom j ulgam ento

m as por falta de sorte. Há partes secretas e im previsíveis nos obj etos que

m anej am os, em especial na natureza dos hom ens: condições m udas, invisíveis, desconhecidas às vezes do próprio possuidor, que se produzem e

despertam por acontecim entos que surgem . Se m inha sabedoria não

conseguiu penetrá-las nem prevê-las, não a critico por isso: sua tarefa atém -

se a seus lim ites. Se o acontecim ento m e derrota e se favorece o partido que

recusei, não há rem édio, não m e recrim ino, acuso m inha fortuna, não m inha

obra: isso não se cham a arrependim ento. Fócio dera aos atenienses certo

conselho que não foi seguido; no entanto, com o o caso se passava

exitosam ente contra sua opinião, alguém lhe disse: “Então, Fócio, estás

contente que a coisa ande tão bem ?”. “Sim , m uito contente”, disse, “que tenha

acontecido isso m as não m e arrependo de ter aconselhado aquilo. Quando

m eus am igos se dirigem a m im para ser aconselhados, faço-o livre e

claram ente, sem m e deter, com o faz quase todo m undo, em que, sendo a

coisa arriscada, pode acontecer o contrário de m eu conselho, e por aí eles

tenham de criticar m eu conselho: não m e preocupo. Pois estarão errados, e

eu não devia ter lhes recusado esse serviço.” Não posso culpar por m eus

erros ou infortúnios outro que não eu. Pois de fato raram ente m e sirvo dos

conselhos de outros, a não ser por reverência cerim oniosa ou quando preciso

de inform ação sobre a ciência ou o conhecim ento do fato. Porém , nas coisas

em que só tenho de em pregar o j ulgam ento, as razões externas podem servir

para m e apoiar m as pouco para m e desviar. Escuto-as todas, polida e

favoravelm ente. Mas, que m e lem bre, até agora só acreditei nas m inhas. A

m eu ver são apenas m oscas e átom os que distraem m inha vontade. Prezo

pouco m inhas opiniões, m as prezo igualm ente pouco as dos outros, e a fortuna m e paga dignam ente. Se não recebo conselho, tam bém dou pouco.

Sou pouco indagado e m enos ainda acreditado, e não sei de nenhum a

iniciativa pública nem privada que m eu conselho tenha reerguido e endireitado.

Mesm o aquelas pessoas que o acaso de certo m odo ligou a m eu j uízo

deixaram de m elhor grado m anipular-se por outro que não o m eu. Com o sou

cioso tanto dos direitos de m eu sossego com o dos direitos de m inha

autoridade, prefiro assim . Deixando-m e fora, agem conform e m eu desej o, que

é estabelecer-m e e conter-m e inteiram ente em m im m esm o: é um prazer estar

desinteressado dos negócios dos outros e desobrigado de defendê-los. Tenho

pouco a lam entar todos esses negócios, e pouco im porta com o term inaram ,

pois j á se passaram . A ideia de que deviam acontecer assim retira-m e

qualquer pesar: ei-los no grande curso do universo e no encadeam ento das

causas estoicas. Nosso pensam ento não pode, por desej o e im aginação,

m exer num ponto, pois toda a ordem das coisas desaba, e tanto o passado

com o o futuro. Aliás, detesto esse arrependim ento acidental que vem com a

idade. Aquele que, na Antiguidade, dizia estar em dívida com os anos por o

terem livrado da volúpia tinha opinião diferente da m inha: j am ais serei grato à

im potência por qualquer bem que ela m e faça. Nec tam aversa unquam

videbitur ab opere suo providentia, ut debilitas inter optima inventa sit. 333 E

j am ais a providência parecerá odiar tanto sua obra que a im potência sej a

contada entre as perfeições.] Na velhice nossos apetites são raros: depois

que acabam invade-nos um a profunda saciedade. Nisso nada vej o ligado à

consciência. A tristeza e a fraqueza im prim em -nos um a virtude covarde e catarrenta. Não devem os nos deixar levar tão com pletam ente pelas

degenerescências naturais a ponto de alterar nosso j ulgam ento. A j uventude e

o prazer não m e im pediram outrora de reconhecer na volúpia o rosto do vício,

nem o desgosto que os anos m e trazem m e im pede de reconhecer o da

volúpia no vício. Agora que não estou m ais nela, j ulgo-a com o se estivesse.

Eu, que sacudo m inha razão tão viva e atentam ente, acho que ela é a m esm a

que eu tinha na idade m ais licenciosa, a m enos que, talvez, ao envelhecer

tenha enfraquecido e piorado. E acho que ela não se recusaria a em brenhar-

m e nesses prazeres em consideração ao interesse de m inha saúde física,

assim com o outrora não o fez por m inha saúde espiritual. Por vê-la fora de

com bate, não a estim o m ais valorosa. Minhas tentações andam tão

com balidas e m ortificadas que não m erecem que ela se oponha: conj uro-as

apenas esticando as m ãos à frente. Que recoloquem em presença dela m inha

antiga concupiscência e tem o que ela teria m enos força a contê-la do que teve

outrora. Não a vej o j ulgar nada por si m esm a que não j ulgasse então, nem nenhum a nova luz. Por isso, se há convalescença, é um a convalescença

defeituosa. Miserável tipo de rem édio é dever à doença a sua saúde. Não

cabe à nossa desdita prestar esse serviço, cabe à felicidade de nosso

j ulgam ento. Nada m e obrigam a fazer por m eio de desgraças e aflições,

senão am aldiçoá-las; elas são para as pessoas que só despertam a

chicotadas. Minha razão corre m ais livrem ente na prosperidade, fica bem m ais

distraída e ocupada ao digerir os m ales que os prazeres. Vej o bem m ais claro

em tem po sereno. A saúde é para m im um a advertência m ais alegre e

tam bém m ais útil que a doença. Avancei tão longe quanto pude no cam inho de

m inha reparação e de um a vida regrada quando podia usufruí-la. Ficaria

envergonhado e insatisfeito se tivesse de preferir o infortúnio de m inha velhice

a m eus bons anos saudáveis, alertas, vigorosos. E se tivessem de m e j ulgar

não pelo que fui m as pelo que cessei de ser. Em m inha opinião, e não com o

dizia Antístenes, é viver venturosam ente, e não m orrer venturosam ente, que

faz a felicidade hum ana. Não m e esforcei para am arrar m onstruosam ente a

cauda de um filósofo na cabeça e no corpo de um hom em perdido, nem para

que esse m ísero final tivesse de renegar e desm entir a m ais bela, saudável e

longa parte de m inha vida. Quero apresentar-m e e m ostrar-m e uniform em ente

por todos os lados. Se tivesse de reviver, reviveria com o vivi. Nem m e queixo

do passado nem tem o o futuro; e, se não m e engano, aconteceu por dentro

m ais ou m enos o que aconteceu por fora. Um a das principais dívidas que

tenho com m inha fortuna é que o curso de m eu estado físico tenha trazido

cada coisa em sua época: vi a erva, as flores e o fruto, e agora os vej o secar.

Felizm ente, j á que é natural. Suporto bem m ais pacientem ente as doenças que

tenho, pois estão no seu tem po e que tam bém m e fazem lem brar m ais

favoravelm ente a longa felicidade de m inha vida passada. Da m esm a form a,

m inha sabedoria pode ser de tam anho idêntico, num e noutro tem po, m as era

bem brilhante e m ais graciosa, viçosa, alegre, ingênua do que é atualm ente,

alquebrada, resm ungona, trabalhosa. Renuncio, portanto, a essas m elhoras

ocasionais e dolorosas. É preciso que Deus toque nosso coração. É preciso

que nossa consciência se corrij a por si m esm a, com o fortalecim ento de nossa

razão e não com o enfraquecim ento de nossos apetites. A volúpia não é em si pálida nem descolorida por ser vista por olhos rem elentos e turvos. Devem os

am ar a tem perança por si m esm a, com o a castidade, e por respeito a Deus,

que isso nos ordenou; o que devem os às m azelas e o que devo ao benefício

de m inha cólica não é castidade nem tem perança. Não podem os nos

vangloriar de desprezar e com bater a volúpia se não a vem os, se ignoram os

tanto suas graças com o suas forças e sua beleza m ais atraente. Conheço

um a e outra, cabe a m im dizê-lo. Mas parece-m e que na velhice nossas alm as ficam suj eitas a doenças e im perfeições m ais inoportunas do que na

m ocidade. Eu o dizia sendo j ovem , e então m e obj etavam que ainda não tinha

barba no queixo; digo-o ainda, agora que m inha barba grisalha m e dá

credibilidade: cham am os sabedoria ao enfado de nossos hum ores, ao

desinteresse pelas coisas presentes. Mas na verdade não abandonam os tanto

os vícios e sim os m udam os, e, em m inha opinião, para pior. Além de um a

vaidade tola e caduca, de um a tagarelice enfadonha, desses hum ores

espinhosos e insociáveis, e da superstição e de um gosto ridículo pelas

riquezas quando perdem os o uso delas, acho que há na velhice m ais invej a,

inj ustiça e m aldade. Ela nos coloca m ais rugas no espírito do que no rosto; e

não vem os alm as, ou raríssim as, que ao envelhecer não cheirem a azedo e a

m ofo. O hom em m archa por inteiro para seu crescim ento e seu encolhim ento.

Ao ver a sabedoria de Sócrates e as várias circunstâncias de sua

condenação, eu ousaria crer que, de certo m odo, ele m esm o se prestou a

isso, por prevaricação, propositadam ente, estando tão perto de sofrer, aos

setenta anos, o entorpecim ento dos esplêndidos dotes de seu espírito e a

ofuscação de sua clareza costum eira. Quantas m etam orfoses vej o a velhice