Os Ensaios
Sobre a semelhança dos filhos com os pais
excelentes com o foi sua conduta.
Sobre a semelhança dos filhos
com os pais
Capítulo XXXVII
Este capítulo conclui o Livro II e, portanto, até 1588 era o texto final da obra,
que terminava com duas noções dominantes: a de que Os ensaios são um
retrato da personalidade de Montaigne e de suas opiniões, destinando-se a
seus descendentes imediatos e amigos; a de que as características mais
marcantes da natureza são a diversidade e a discordância. Aqui ele também
faz uma ampla sátira da medicina, apresentada como uma grande
impostura. Montaigne estava convencido de ter herdado dos antepassados
não só uma antipatia pela medicina como também os cálculos renais. Fala
da própria experiência de homem doente, retoma e amplia um conjunto de
tópicos tirados do livro de Cornelio Agrippa, De incertitudine et vanitate
scientiarum, lido em latim. Além do tratado de Laurent Joubert, médico do rei
de Navarra, cuja apologia da medicina é publicada em Bordeaux em 1578,
Montaigne conhecia os tratados de Galeno, Ambroise Paré e Leonardo
Fioravanti. Também pinta um retrato alegre da vida nas estações de águas.
Sendo naturais, as águas podem curar os cálculos, e provavelmente mal não
fazem. Na edição póstuma houve um acréscimo em que analisa os efeitos
da dor que sentia durante as crises de cólicas nefríticas.
Este feixe de peças tão diversas300 faz-se sob a condição de que só ponho a m ão nelas quando um ócio m uito relaxado m e pressiona, e em nenhum lugar
que não em m inha casa. Assim , ele foi construído em diversos m om entos e intervalos, pois às vezes as circunstâncias m e retêm vários m eses em outros
lugares. De resto, não corrij o m eus prim eiros pensam entos com os segundos,
ou talvez um a palavra, m as para diversificar, não para retirar. Quero m ostrar o
avanço de m eus hum ores e que se vej a cada parte com o em seu nascim ento.
Teria sido um prazer com eçar m ais cedo e reconhecer em m im o ritm o de
m inhas m udanças. Um criado que m e servia para escrevê-los sob m eu ditado
pensou em conseguir um grande butim ao m e roubar várias partes escolhidas
a seu gosto. Consola-m e que disso não tirará lucro m aior do que o que tive
com a perda. Envelheci sete ou oito anos desde que com ecei. Isso não se deu
sem algum novo ganho: tom ei conhecim ento da cólica301 pela liberalidade dos anos, cuj o com ércio e longo convívio não se passam facilm ente sem um fruto
com o esse. Gostaria m uito que, entre os vários outros presentes que eles têm
para dar aos que os frequentam m uito tem po, tivessem escolhido um que m e
fosse m ais aceitável, pois não poderiam ter m e dado um de que tivesse m aior
horror desde m inha infância: de todos os m ales da velhice, era j ustam ente o
que eu m ais tem ia. Muitas vezes pensara com igo m esm o que avançava
dem ais na idade e que ao percorrer um cam inho tão longo não deixaria de, no
final, envolver-m e em algum encontro desagradável. Senti, e m uitas vezes
proclam ei, que era hora de partir e que era preciso cortar a vida na carne viva
e saudável, segundo a regra dos cirurgiões quando têm de am putar um
m em bro. Que a natureza tinha o costum e de cobrar j uros usurários a quem
não a devolvesse a tem po. Mas faltava tanto para que eu estivesse pronto
que, nos dezoito m eses ou cerca disso em que estou nesse desgradável
estado, j á aprendi a m e adaptar a ele. Já cheguei a um acordo com essa vida
de cólicas: aí encontro com que m e consolar e o que esperar. Os hom ens são
tão ligados à sua existência m iserável que não há condição tão dura que não
aceitem para conservá-la. Ouçam os Mecenas:
Debilem facito manu,
Debilem pede, coxa,
Lubricos quate dentes:
Vita dum superest, bene Est. 302
Torna im potente m inha m ão, im potentes m eu pé e m eu quadril, faz cair
m eus dentes de m inha boca babosa, enquanto restar vida vai tudo bem .
E Tam erlão encobria com um a tola hum anidade a fantástica crueldade que
exercia contra os leprosos, m andando m atar tantos quantos chegavam a seu
conhecim ento, para (dizia) livrá-los da vida tão penosa que viviam . Pois não
havia nenhum deles que não preferisse ser três vezes leproso a não existir. E
Antístenes, o estoico, estando m uito doente, exclam ava: “Quem m e livrará
desses m ales?”. E Diógenes, que fora vê-lo, ao apresentar-lhe um a faca
dizendo: “Esta, se quiseres, e bem depressa”, o outro replicou: “Não falo da
vida, falo dos m ales”. Os sofrim entos que nos tocam sim plesm ente pela alm a
afligem -m e m uito m enos que para a m aioria dos outros hom ens. Em parte por
j ulgam ento, pois o m undo considera horríveis ou evitáveis, m esm o à custa da
vida, m uitas coisas que m e são m ais ou m enos indiferentes. Em parte por m eu
tem peram ento pouco vulnerável e insensível diante das desgraças que não m e
dizem respeito diretam ente: tem peram ento que estim o com o um dos m elhores
elem entos de m inha condição natural. Mas os sofrim entos de verdade essenciais e corporais, sinto-os bem vivam ente. Entretanto, ao prevê-los
outrora com um a visão fraca, delicada e suavizada pelo gozo dessa longa e
feliz saúde e tranquilidade que Deus m e concedeu durante a m elhor parte de
m inha vida, eu os concebera na im aginação com o tão insuportáveis que, na
verdade, o m edo que tinha deles era m aior do que o m al que m e causaram .
Razão pela qual sem pre reforço essa crença de que a m aioria das faculdades
de nossa alm a, da form a com o as em pregam os, m ais perturbam o repouso da
vida do que lhe servem . Estou às voltas com a pior de todas as doenças, a
m ais súbita, a m ais dolorosa, a m ais m ortal e a m ais irrem ediável. Já sofri
cinco ou seis crises bem longas e dolorosas; todavia, ou m e iludo ou ainda há
nesse estado um m eio de resistir para quem tem a alm a desem baraçada do
tem or da m orte e desem baraçada das am eaças, conclusões e consequências
com que a m edicina nos entontece. Mas o próprio efeito da dor não tem essa
veem ência tão dura e tão lancinante que um hom em ponderado deva afundar
em loucura e desespero. Ao m enos tiro da cólica o proveito de que o que eu
ainda não conseguira por m im m esm o para m e conciliar totalm ente e
entender-m e com a m orte, ela o fará. Pois quanto m ais m e pressionar e m e
im portunar, m enos a m orte m e será tem ível. Eu j á conseguira m e prender à
vida só pelo que a vida oferece: a doença tam bém desfará esse bom
entendim ento, e queira Deus que no final, se sua severidade vier a superar
m inhas forças, ela não m e rej eite para o outro extrem o, não m enos vicioso, de
preferir e desej ar m orrer.
Summum nec metuas diem, nec optes. 303
Não tem as teu últim o dia nem o desej es.
São duas paixões a tem er, m as um a tem seu rem édio bem m ais à m ão que a
outra. Aliás, sem pre achei form al esse preceito que m anda, com tanta
exatidão, m anter a com postura e um a atitude desdenhosa e pausada diante
do sofrim ento dos m ales. Por que a filosofia, que só olha para a substância e
a realidade, perderia tem po com essas aparências externas? Que deixe esse
cuidado para os atores e os m estres de retórica, que dão tanto valor a nossos
gestos. Que conceda coraj osam ente ao m al a covardia verbal, se esta não
vier do coração nem das entranhas; e que atribua essas queixas voluntárias
ao gênero dos suspiros, soluços, palpitações, em palidecim entos que a
natureza pôs fora de nosso controle. Desde que o coração se m antenha sem
pavor, as palavras sem desespero, deixem os que a filosofia fique contente.
Que im porta se torcem os nossos braços, contanto que não torçam os nossos
pensam entos? Ela nos form a para nós m esm os, não para o outro, para
serm os, não para parecerm os. Que se lim ite a governar nossa inteligência, a
qual se incum biu de instruir. Que nos ataques da cólica m antenha a alm a
capaz de se reconhecer, seguir sua m archa habitual, com batendo a dor e
suportando-a, e não prosternando-se vergonhosam ente a seus pés: alm a
atiçada e aquecida pelo com bate, não com balida e derrubada, capaz de
conversar e em certa m edida cuidar de outras ocupações. Em circunstâncias
tão extrem as, é crueldade requerer de nós um a atitude tão estudada. Se
dom inarm os o j ogo, pouco im porta se estiverm os com m á cara. Se o corpo se
alivia queixando-se, que o faça; se lhe agrada a agitação, que se revire e se debata segundo sua fantasia; se lhe parece que, de certa form a, o m al se
evapora ao soltar a voz com m ais violência (com o certos m édicos dizem que
isso aj uda o parto das m ulheres grávidas), ou se isso distrai seu torm ento, que
grite com vontade. Não ordenem os à voz que ela se faça ouvir, m as
perm itam os que o faça. Epicuro não só perdoa seu sábio por gritar nos
torm entos, com o o aconselha a fazê-lo. Pugiles etiam quum feriunt, in
jactandis caestibus ingemiscunt, quia profundenda voce omne corpus
intenditur, venitque plaga vehementior. 304 Os pugilistas tam bém , quando golpeiam , quando proj etam os cestos, gem em , porque, soltando um som , todo
o corpo se retesa e o golpe é dado com m ais força. Já tem os bastante
sofrim ento com o m al para sofrerm os com essas regras supérfluas. Digo isso para desculpar os que vem os, em geral, esbravej ar nos ataques e investidas
dessa doença, pois quanto a m im passei por elas, até agora, com um a
com postura um pouco m elhor e contento-m e em gem er, sem berrar. Não,
porém , que m e esforce para m anter essa decência exterior, pois faço pouco
caso de tal vantagem . Nisso, concedo ao m al tanto quanto ele quiser, m as
m inhas dores não são tão excessivas ou suporto-as com m ais firm eza que os
m ortais. Queixo-m e, enfureço-m e quando as pontadas agudas m e
atravessam , m as não chego ao desespero, com o este:
Ejulatu, questu, gemitu, fremitibus
Resonando multum flebiles voces refert. 305
Grito, queixa, gem ido, arquej os, ressoa o eco de sua voz queixosa.
No auge do m al testo-m e, e sem pre achei que era capaz de falar, pensar,
responder tão sadiam ente com o em outra hora, m as não com tanta constância: a dor m e perturba e m e desvia. Quando creem que estou m ais
prostrado e os que m e assistem m e poupam , costum o testar m inhas forças, e
eu m esm o os entretenho sobre os assuntos m ais afastados de m eu estado.
Consigo tudo num esforço súbito, m as contanto que não dure. Oh, por que
não tenho a faculdade desse sonhador de Cícero que, sonhando abraçar um a
m oça, achou que descarregava sua pedra entre os lençóis! As m inhas m e
desviam estranham ente das m oças. Nos intervalos dessa dor excessiva,
enquanto m eus ureteres enlanguescem sem m e corroer, retorno prontam ente
a m eu estado habitual, porquanto m inha alm a não percebe outro alarm e que
não o sensível e corporal, o que certam ente devo ao cuidado que tive em m e
preparar, por reflexões, para tais acidentes:
laborum
Nulla mihi nova nunc facies inopinaque surgit,
Omnia praecepi, atque animo mecum ante peregi. 306
a dor não apresenta m ais um rosto novo e inesperado para m im , previ tudo
e tudo percorri de antem ão em m eu espírito.
No entanto, sou testado um pouco duram ente para um aprendiz, e a m udança
foi bem repentina e rude: de um a condição de vida m uito doce e m uito feliz caí
de repente na m ais dolorosa e m ais penosa que se possa im aginar, pois além
de ser um a doença tem ível por si m esm a, teve em m im um com eço m uito
m ais áspero e difícil do que costum a. As crises voltam a atacar-m e com tanta
frequência que quase j á não m e sinto em plena saúde; todavia, m antenho até agora m eu espírito em tal equilíbrio que, contanto que possa conferir-lhe
constância, acho-m e em condições de vida bem m elhores que m il outros que não têm febre nem outra doença além da que eles m esm os se causam por
culpa de seus raciocínios. Há certo m odo de hum ildade sutil que nasce da
presunção, com o este aqui: adm itim os nossa ignorância em várias coisas e
som os bastante honestos para confessar que há nas obras da natureza
algum as qualidades e condições que nos são im perceptíveis, e cuj os m eios e
causas nossa capacidade não consegue descobrir. Com essa declaração
honesta e conscienciosa, esperam os obter que acreditem em nós tam bém a
respeito daquelas que pretendem os com preender. Não tem os por que ir
selecionar m ilagres e dificuldades que nos são alheios: parece-m e que entre
as coisas que vem os com um ente há estranhezas tão incom preensíveis que
ultrapassam toda a dificuldade dos m ilagres. Que prodígio é esse que aquela
gota de sêm en de que som os feitos traga em si as m arcas não só da form a
corporal m as dos pensam entos e inclinações de nossos pais? Onde aquela
gota d’água aloj a esse núm ero infinito de form as? E com o trazem elas essas
sem elhanças de um a m aneira tão arbitrária e tão desregulada que o bisneto
se parecerá com o bisavô, o sobrinho com o tio? Em Rom a, na fam ília de
Lépido houve três, não em seguida m as com intervalos, que nasceram com o
m esm o olho coberto de cartilagem . Em Tebas havia um a fam ília que trazia
desde o ventre da m ãe a m arca de um a ponta de lança, e quem não a trazia
era tido com o ilegítim o. Aristóteles diz que em certa nação, onde as m ulheres
eram com uns a todos, os filhos eram atribuídos a seus pais pela sem elhança.
É de crer que devo a m eu pai essa predisposição para os cálculos, pois
m orreu extrem am ente afligido por um a pedra grande que tinha na bexiga. Só se deu conta de seu m al no 67o ano de vida, e antes disso não tivera nenhum a
am eaça ou sintom as nos rins, nem nas costas nem em outro lugar, e vivera
até então num a venturosa saúde e bem pouco suj eita a doenças, e ainda
durou sete anos com esse m al, arrastando um fim de vida bem doloroso.
Nasci m ais de 25 anos antes de sua doença, durante seu m elhor estado, o
terceiro de seus filhos por ordem de nascim ento. Onde estava incubada por
tanto tem po a predisposição para esse distúrbio? E enquanto ele estava tão
longe do m al, com o aquela pequena parte da substância com que m e fez
trazia, por sua vez, m arca tão forte dela? E com o ainda estava tão encoberta
que, 45 anos depois, eu tivesse com eçado a senti-la, o único até agora entre
tantos irm ãos e irm ãs, e todos da m esm a m ãe? Acreditarei em quem m e
esclarecer esse processo, tanto quanto em outros m ilagres que ele quiser,
desde que não m e dê (com o fazem ) um a explicação m uito m ais difícil e
fantástica do que a própria coisa. Que os m édicos desculpem um pouco m inha liberdade, pois foi por aquela m esm a instilação e insinuação do destino que
recebi o ódio e o desprezo pela ciência deles. Essa antipatia que tenho por
sua arte é hereditária. Meu pai viveu 74 anos, m eu avô, 69, m eu bisavô, perto
de oitenta sem terem experim entado nenhum tipo de m edicam ento. E entre
eles tudo o que não era de uso corrente era visto com o droga. A m edicina se
form a por exem plos e experiência: o m esm o faz m inha opinião. E não é essa
um a experiência bem clara e bem convincente? Não sei se os m édicos
encontrarão em seus registros três pessoas nascidas, criadas e m ortas no
m esm o lar, sob o m esm o teto, tendo vivido tanto segundo as regras deles.
Precisam m e adm itir isto: se não for a razão, pelo m enos a sorte está do m eu
lado; ora, entre os m édicos a sorte vale bem m ais que a razão. Que agora,
prostrado com o estou, não queiram tirar proveito de m im : seria um a trapaça.
Assim , para falar a verdade ganhei suficiente vantagem sobre eles com m eus
exem plos dom ésticos, ainda que estes parem em m im . As coisas hum anas
não têm tanta constância: há duzentos anos (faltam só dezoito anos) que essa
experiência nos dura, pois o prim eiro nasceu no ano de 1402. É realm ente um
tanto razoável que essa experiência com ece a nos falhar; que não m e
critiquem os m ales que agora m e pegam pelo pescoço: não basta, de m eu
lado, ter vivido saudável por 47 anos? E m esm o que fosse o fim de m eu
cam inho, seria dos m ais longos. Meus antepassados tinham aversão pela
m edicina por algum a propensão natural oculta, pois a visão m esm a das
drogas dava horror a m eu pai. O senhor de Gaviac, m eu tio paterno, hom em
da Igrej a, doentio desde o nascim ento, e que fez porém durar essa vida
debilitada até os 67 anos, tendo apanhado outrora um a grande e violenta
febre perm anente, foi avisado pelos m édicos de que, se não quisesse ser
aj udado (eles cham am de aj uda o que, no m ais das vezes, é um transtorno),
m orreria infalivelm ente. Esse bom hom em , por m ais apavorado que estivesse
com a terrível sentença, respondeu porém : “Então estou m orto”. Mas logo
depois Deus inutilizou esse prognóstico. O últim o dos irm ãos (eram quatro),
senhor de Bussaguet, e de bem longe o caçula, foi o único que se subm eteu a
essa arte: creio que pelo convívio que m antinha com as outras artes, pois era
conselheiro na Corte do Parlam ento, e isso lhe fez tão m al que, sendo
aparentem ente de com pleição m ais forte, m orreu porém m uito antes dos outros, salvo um , o senhor de Saint-Michel. É possível que eu tenha recebido
deles essa antipatia natural pela m edicina; m as se fosse apenas essa
consideração eu tentaria vencê-la. Pois todas as tendências que nascem em
nós sem razão são viciosas: é um a espécie de doença que se deve com bater.
É possível que eu tivesse essa propensão m as a tenha apoiado e fortalecido
pelos raciocínios que instalaram em m im a opinião que tenho da m edicina.
Pois tam bém detesto essa m aneira de recusar o m edicam ento só pelo
am argor do gosto. Mais facilm ente eu m e disporia a considerar a saúde digna
de ser resgatada por todos os cautérios e incisões m ais dolorosos que se
façam . E seguindo Epicuro, parece-m e que os prazeres devem ser evitados
se trazem em seu rastro dores m aiores, e que as dores devem ser
procuradas se trazem em seu rastro prazeres m aiores. A saúde é um a coisa
preciosa e a única que, na verdade, m erece que em preguem os em seu
encalço não só o tem po, o suor, o esforço, os bens, m as tam bém a vida;
tanto m ais que sem ela a vida nos vem a ser penosa. Sem ela, a volúpia, a
sabedoria, a ciência e a virtude em baçam e desfalecem ; e aos m ais firm es e
sólidos raciocínios contrários a isso, com os quais a filosofia desej a nos
im pregnar, devem os opor unicam ente a im agem de Platão caso fosse atingido
pela epilepsia ou por um a apoplexia, e então, diante dessa pressuposição,
desafiá-lo a cham ar em seu auxílio as ricas faculdades de sua alm a. Para
m im , nenhum cam inho que nos conduza à saúde pode ser cham ado de duro ou
caro. Mas tenho algum as outras razões que m e fazem estranham ente
desconfiar de toda essa m ercadoria. Não digo que nela não possa haver algum a arte: que haj a entre tantas obras da natureza coisas próprias à
preservação de nossa saúde, isso é certo. Bem entendo que há alguns
sím plices que um edecem , outros que ressecam ; sei por experiência tanto que
a raiz-forte produz flatulências com o que as folhas de sene soltam o ventre;
com o sei que o carneiro m e alim enta e o vinho m e esquenta. E dizia Sólon que
a com ida era, com o as outras drogas, um m edicam ento contra a doença da
fom e. Não desaprovo o uso que tiram os das coisas do m undo nem duvido da
força e da fartura da natureza e de sua aplicação às nossas necessidades.
Bem vej o que os lúcios e as andorinhas tiram proveito dela. Desconfio é das
invenções de nosso espírito, de nossa ciência e da arte, em favor das quais
abandonam os a natureza e suas regras e às quais não sabem os m anter
m oderação nem lim ite. Cham am os de j ustiça a m iscelânea das prim eiras leis
que nos caem na m ão, não raro aplicadas e praticadas de m odo m uito inepto
e m uito iníquo; e os que dela escarnecem e os que a acusam não pretendem
com isso insultar essa nobre virtude m as apenas condenar o abuso e a
profanação dessa palavra sagrada. Da m esm a form a, na m edicina honro esse
nom e glorioso, sua proposta, sua prom essa, tão útil ao gênero hum ano, m as o
que, entre nós, ela designa, não honro nem estim o. Em prim eiro lugar, a
experiência m e faz tem ê-la, pois pelo que tenho de conhecim ento não vej o
nenhum grupo de pessoas tão cedo doentes e tão tarde curadas com o as que
estão sob a j urisdição da m edicina. A própria saúde delas é alterada e
estragada pela obrigação das dietas. Os m édicos não se contentam em ter a doença sob seu governo: tornam a saúde doente para evitar que não se possa
em nenhum m om ento escapar da autoridade deles. Pois de um a saúde
constante e integral não extraem o sinal de um a grande doença futura? Estive
doente com m uita frequência: sem o socorro deles achei m inhas doenças tão
doces de suportar (e experim entei de quase todos os tipos) e tão curtas com o
em m ais ninguém . E no entanto não lhes acrescentei o am argor de suas
receitas. Tenho a saúde desim pedida e com pleta, sem regra, e sem outra
disciplina além de m eus costum es e m eu prazer. Para m im , qualquer lugar é
bom para ficar, pois estando doente não preciso de outras com odidades além
daquelas de que preciso estando saudável. Não m e atorm ento por estar sem
m édico, sem boticário e sem socorro, com o que vej o a m aioria afligir-se m ais
que com a doença. Ora! Eles m esm os nos m ostram em suas vidas um a
felicidade e um a longevidade que nos possam atestar um resultado aparente
de sua ciência? Não há povo que não tenha ficado vários séculos sem a
m edicina, e eram os prim eiros séculos, isto é, os m elhores e m ais felizes; e a
décim a parte do m undo ainda não se serve dela atualm ente. Inúm eras nações,
onde se vive tão m ais saudável com o longam ente do que aqui, não a
conhecem , e, entre nós, o povo com um a dispensa alegrem ente. Os rom anos
passaram seiscentos anos antes de adotá-la; m as depois de tê-la
experim entado expulsaram -na de sua cidade, por interm édio de Catão, o
Censor, que m ostrou com o era fácil dispensá-la, ele que viveu 85 anos e fez
sua m ulher viver até a extrem a velhice, não sem m edicam entos, m as, sim ,
sem m édico, pois qualquer coisa que se revele salubre para nossa vida pode
se cham ar de m edicam ento. Ele m antinha, diz Plutarco, sua fam ília com saúde
pelo consum o (parece-m e) da lebre. Assim com o os árcades, diz Plínio, curam todas as doenças com leite de vaca; e os líbios, diz Heródoto, gozam
popularm ente de um a rara saúde por este costum e que têm : quando os filhos
chegam aos quatro anos, queim am -lhes as veias da cabeça e das têm poras
com cautérios, e com isso cortam para toda a vida o cam inho de qualquer
defluxo de catarro. E os aldeões deste país, em qualquer acidente, só
em pregam vinho, o m ais forte que conseguem , m isturado com m uito açafrão e
especiarias: tudo isso com o m esm o êxito. E para falar a verdade, de toda
essa diversidade e confusão de receitas, qual outro fim e resultado existem ,
afinal de contas, além de esvaziar o ventre? O que m il sím plices caseiros
podem fazer. E não sei se isso é tão útil com o dizem , e se nossa natureza não
precisa conservar seus excrem entos, até certa m edida, assim com o o vinho
tem sua borra para a conservação. Costum am os ver hom ens saudáveis cair
com vôm itos ou diarreia por causa externa e ter um a grande evacuação
intestinal sem nenhum a necessidade anterior e sem nenhum benefício
posterior, e até com certa piora e dano. Foi com o grande Platão que aprendi
outrora que, dos três tipos de m ovim entos que nos pertencem , o últim o e o
pior é o das purgações: nenhum hom em , se não for louco, deve em preendê-lo
a não ser em necessidade extrem a. Vam os perturbando e despertando o m al
por oposições contrárias: a form a de viver é que deve, suavem ente,
enfraquecê-lo e conduzi-lo a seu fim . Os violentos em bates entre o rem édio e
a doença são sem pre em detrim ento nosso, j á que é em nós que se decide a
contenda e que o rem édio não é um socorro fiável: por natureza é inim igo de
nossa saúde e só tem acesso a nosso estado por m eio do distúrbio.
Deixem os um pouco as coisas se passarem : a ordem que cuida das pulgas e
das toupeiras tam bém cuida dos hom ens, que têm a m esm a paciência para se
deixarem governar quanto as pulgas e as toupeiras. Por m ais que gritem os:
“eia!”, isso é bom para deixar-nos roucos, m as não para que essa ordem
avance. A ordem que nos rege é altiva e im placável. Nosso tem or, nosso
desespero, a repugnam e retardam sua aj uda, em vez de convidá-la a isso.
Ela deve deixar a doença, assim com o a saúde, seguir seu curso. Deixar-se
corrom per em favor de um a em prej uízo dos direitos da outra, isso não fará,
pois cairia na desordem . Sigam o-la, por Deus, sigam os. Ela conduz os que
seguem : os que não a seguem , arrasta-os, j unto com sua dor intensa e seu
rem édio. Fazei prescrever um a purga para vosso cérebro: será m ais bem
em pregada do que em vosso estôm ago. Perguntava-se a um lacedem ônio
quem o fizera viver saudável por tanto tem po: “a ignorância da m edicina”,
respondeu. E o im perador Adriano gritava sem parar, ao m orrer, que a
profusão de m édicos o m atara. Um m au lutador se tornou m édico: “Coragem ”,
disse-lhe Diógenes, “tens razão, agora j ogarás à terra os que te j ogaram
outrora”. Mas eles têm essa sorte, segundo Nícocles, de que o sol ilum ina
seus êxitos e a terra esconde seus erros. E além disso têm um m odo bem
vantaj oso de se servirem de todo tipo de acontecim entos, pois o que a sorte,
o que a natureza ou qualquer outra causa alheia (cuj o núm ero é infinito) produz
em nós de bom e salutar é privilégio da m edicina atribuir a si. Todos os felizes
êxitos que ocorrem com o paciente que está sob seu controle sem pre se deve
a ela. As circunstâncias que m e curaram , a m im , e que curam m il outros que não cham am os m édicos em seu socorro, são, em seus pacientes, por eles
usurpadas. E quanto aos acidentes desagradáveis, ou os renegam totalm ente
ou atribuem a culpa ao paciente, por razões tão vãs que não podem deixar de
sem pre encontrar um bom núm ero delas: “ele descobriu o braço, ele ouviu o
barulho de um coche:
rhedarum transitus arcto
Vicorum inflexu, 307
a passagem dos carros no dédalo das ruas,
entreabiram sua j anela, ele se deitou sobre o lado esquerdo, ou algum
pensam ento doloroso passou por sua cabeça”. Em sum a, um a palavra, um
sonho, um a olhadela lhes parece desculpa suficiente para se livrarem de
culpa. Ou, se isso lhes agrada, servem -se tam bém dessa piora e dela tiram
proveito por este outro m eio que j am ais pode falhar: é fazer crer, quando a
doença se encontra estim ulada por seus cuidados, na garantia que nos dão de
que ela teria piorado bem m ais sem seus rem édios. Aquele a quem j ogaram
de um resfriado a um a febre recorrente teria tido, sem eles, um a febre
contínua. Não receiam fazer m al suas tarefas, j á que tiram proveito dos
danos. Decerto têm razão de exigir do doente um a dem onstração favorável de
confiança: só m esm o um a confiança de verdade e bem flexível para se aplicar
a invenções em que é tão difícil acreditar. Platão dizia bem a propósito que só
aos m édicos cabia m entir em absoluta liberdade, j á que nossa salvação
depende da vanidade e da falsidade de suas prom essas. Esopo, autor de
raríssim a excelência, e de quem poucas pessoas descobrem todas as belezas, é engraçado ao representar-nos essa autoridade tirânica que os
m édicos usurpam das pobres alm as enfraquecidas e com balidas pela doença
e pelo tem or; pois conta que um doente, sendo interrogado por seu m édico
sobre que efeito sentia dos m edicam entos que lhe dera, respondeu: “Suei
m uito”. “Isso é bom ”, disse o m édico. Um a outra vez lhe perguntou com o
passara desde então: “Senti um frio extrem o”, disse, “e trem i m uito”. “Isso é
bom ”, prosseguiu o m édico. Na terceira vez, perguntou-lhe de novo com o se
sentia: “Sinto-m e”, disse, “inchar e intum escer, com o se fosse hidropisia”.
“Isso é m uito bom ”, acrescentou o m édico. A um de seus dom ésticos que foi
depois perguntar-lhe sobre seu estado, respondeu: “Na verdade, m eu am igo,
de tanto ir bem estou m orrendo”. Havia no Egito um a lei m ais j usta pela qual o
m édico se encarregava do paciente nos três prim eiros dias por conta e risco
do paciente; m as, passados os três dias, era por sua conta e risco. Pois qual
a razão para que Esculápio, patrono deles, tenha sido atacado por um raio por
ter reconduzido Hipólito da m orte à vida,
Nam pater omnipotens aliquem indignatus ab umbris
Mortalem infernis, ad lumina surgere vitae,
Ipse repertorem medicinae talis, et artis
Fulmine Phoebigenam stygias detrusit ad undas:308
Quando o Pai todo-poderoso, indignado que um sim ples m ortal tivesse
em ergido das som bras para as luzes da vida, fulm inou com seu raio o filho
de Febo, o inventor da arte adm irável da m edicina, para j ogá-lo nas águas
do Estige:
e sej am absolvidos seus sucessores, que enviam tantas alm as da vida à
m orte? Um m édico se vangloriava com Nícocles de que sua arte tinha grande
poder: “De fato, sem a m enor dúvida, pois pode m atar im punem ente tantas
pessoas”. Aliás, se tivessem pedido m eu conselho, eu teria tornado essa
disciplina ainda m ais sagrada e m isteriosa. Eles com eçaram bem m as não
term inaram da m esm a form a. Foi um bom com eço ter feito dos deuses e
dem ônios os autores de sua ciência, ter adotado um a linguagem à parte, um a
escrita à parte. Pouco im porta se a filosofia pensa que é loucura aconselhar
um hom em em proveito próprio, e de m odo ininteligível:
Ut si quis medicus imperet ut sumat: Terrigenam, herbigradam,
domiportam, sanguine cassam. 309
Com o se um m édico ordenasse que ele tom e: “Um filho da terra, que
cam inha na relva, carrega sua casa e sej a desprovido de sangue”.
Era um a boa regra da arte deles (e que acom panha todas as artes
m isteriosas, vãs e sobrenaturais) a de que a fé do paciente precisa preparar
com firm e esperança e segurança o efeito de suas operações. Regra que
respeitam a ponto de o m édico m ais ignorante e grosseiro ser considerado
m ais adequado para quem nele confia do que o m ais experim entado m as
desconhecido. A própria escolha da m aioria de seus rem édios tem algo de
m isterioso e divino. O pé esquerdo de um a tartaruga, a urina de um lagarto, o
excrem ento de um elefante, o fígado de um a toupeira, o sangue tirado de sob
a asa esquerda de um pom bo branco; e para nós, os das cólicas (tanto eles
abusam desdenhosam ente de nossa m iséria), caganitas de rato pulverizadas e outras m acaquices que m ais parecem um sortilégio m ágico do que ciência
sólida. Deixo de lado o núm ero ím par de suas pílulas, a virtude de certos dias
e festas do ano, a distinção das horas a colher as ervas e seus ingredientes, e
essa careta rebarbativa e prudente do rosto e da atitude deles, de que o
próprio Plínio caçoa. Mas falharam , quero dizer, quando a esse belo com eço
não acrescentaram isto: tornar suas assem bleias e deliberações m ais
religiosas e secretas. Nenhum hom em profano devia ter acesso a elas com o
tam pouco às cerim ônias secretas de Esculápio. Pois desse erro decorre que,
vindo a ser descobertas por todos a irresolução, a fraqueza de seus
argum entos, adivinhações e princípios, a aspereza de seus desacordos,
cheios de ódio, invej a e considerações particulares, é preciso ser incrivelm ente
cego para não se sentir m uito em perigo em suas m ãos. Quem j á viu um
m édico servir-se da receita de seu colega sem cortar ou acrescentar algum a
coisa? Com isso eles traem bastante sua arte e fazem -nos ver que levam
m ais em consideração sua reputação, e por conseguinte seu proveito, do que
o interesse do paciente. O m ais sábio de seus doutores foi aquele que,
antigam ente, prescreveu que cada paciente sej a tratado por um só: pois se
não fizer nada que preste, a crítica à arte da m edicina não será m uito forte j á
que é erro de um só hom em ; e inversam ente, a glória será grande se
conseguir sair-se bem . Ali onde são m uitos, desacreditam todas as vezes o
ofício, tanto m ais que lhes ocorre fazer m ais frequentem ente m al do que bem .
Devem se satisfazer com o perpétuo desacordo que existe entre as opiniões
dos principais m estres e autores antigos dessa ciência, o que só é conhecido dos hom ens versados nos livros, sem que o povo saiba das controvérsias e
inconstâncias de j ulgam ento que alim entam e m antêm entre si. Querem os um
exem plo do antigo debate da m edicina? Hierófilo localiza a causa original das
doenças nos hum ores; 310 Erasístrato, no sangue das artérias; Asclepíades, nos átom os invisíveis que escoam de nossos poros; Alcm éon, na exuberância
ou na falta das forças corporais; Díocles, na desigualdade dos elem entos do
corpo e na qualidade do ar que respiram os; Estráton, na abundância, na
crueza e na deterioração dos alim entos que com em os; Hipócrates a coloca
nos espíritos. 311 Há um de seus am igos, que eles conhecem m elhor que eu, que exclam a a esse propósito que infelizm ente a ciência m ais im portante que
existe para nosso uso, pois tem a responsabilidade de nossa conservação e
saúde, é a m ais incerta, a m ais obscura e sacudida por m ais m udanças. Não
há grande perigo se nos enganarm os sobre a altura do Sol ou na fração de
um cálculo astronôm ico; m as aqui, em que se trata de todo o nosso ser, não é
sensato nos abandonarm os à m ercê da agitação de tantos ventos contrários.
Antes da Guerra do Peloponeso não havia grandes novidades nessa ciência:
Hipócrates deu-lhe crédito. Tudo o que este havia estabelecido, Crísipo
derrubou. Depois Erasístrato, neto de Aristóteles, derrubou tudo o que Crísipo
tinha escrito. Depois destes, vieram os em píricos, que tom aram um cam inho
m uito distinto dos antigos no m anej o dessa arte. Quando o crédito destes
últim os com eçou a envelhecer, Hierófilo pôs em uso outro tipo de m edicina,
que Asclepíades veio a com bater e, por sua vez, aniquilar. Ao lado deles
ganharam autoridade as opiniões de Têm isson, e depois de Musa, e tam bém ,
m ais tarde, as de Vécio Valente, m édico fam oso pelo relacionam ento que tinha com Messalina. No tem po de Nero, o im pério da m edicina coube a
Téssalo, que aboliu e condenou tudo o que tinha sido dito até ele. A doutrina deste foi abatida por Crinas de Marselha, que trouxe com o novidade o m étodo
de regular todas as operações m edicinais pelas efem érides e m ovim entos dos
astros, com er, dorm ir, beber na hora que aprouvesse à Lua ou a Mercúrio.
Sua autoridade foi suplantada, pouco depois, por Carino, m édico dessa
m esm a cidade de Marselha. Este com batia não só a m edicina antiga m as
tam bém o uso público, e hábito de tantos séculos antes, dos banhos quentes.
Fazia os hom ens se banharem na água fria, até no inverno, e m ergulhava os
doentes na água natural dos riachos. Até o tem po de Plínio, nenhum rom ano
ainda se dignara a exercer a m edicina: ela era praticada pelos estrangeiros e
gregos, com o se faz entre nós, franceses, por esses que só falam em latim . 312
Pois, com o diz um grande m édico, não aceitam os facilm ente a m edicina que
com preendem os, não m ais que a droga que nós m esm os colhem os. Se as
nações de onde retiram os o guáiaco, a salsaparrilha e a raiz-da-china313 têm m édicos, im aginarem os que, graças a essa m esm a recom endação de
exotism o, raridade e preço elevado, eles festej em nossos repolhos e nossa
salsa? Pois quem ousaria desprezar as coisas buscadas tão longe, ao acaso
de um a peregrinação tão longa e tão perigosa? Desde essas antigas
m utações da m edicina, houve até nós infinitas outras: e, no m ais das vezes,
m utações integrais e universais, com o são as que produzem , em nosso
tem po, Paracelso, Fioravanti e Argenterius; pois não m udam apenas um
rem édio, m as, pelo que m e dizem , toda a contextura e a organização do corpo
m édico, acusando de ignorância e im postura os que a professaram antes deles. Deixo-vos pensar com o fica o pobre paciente. Se ainda tivéssem os
certeza de que, quando se enganam , não nos prej udicam m esm o que não nos
tragam benefício, seria um acordo bastante razoável arriscar-se a adquirir um
bem sem correrm os o perigo da perda. Esopo conta a história daquele que
tinha com prado um escravo m ouro, considerando que sua cor lhe tivesse vindo
por acidente e m au tratam ento de seu prim eiro senhor; m andou-o m edicar-se
cuidadosam ente com vários banhos e bebidas. Aconteceu que o m ouro não
m elhorou nem um pouco sua cor m orena m as perdeu toda a saúde anterior.
Quantas vezes nos acontece ver os m édicos im putando uns aos outros a
m orte de seus pacientes? Lem bro-m e de um a epidem ia que houve nas
cidades de m eus arredores, há alguns anos, m ortal e m uito perigosa; tendo
passado essa tem pestade, que levara um núm ero infinito de hom ens, um dos
m ais fam osos m édicos de toda a região veio a publicar um livreto sobre o
assunto, no qual se dá conta de que tinham usado a sangria e confessa que é
um a das causas principais do desastre que decorrera. E m ais, seus autores
afirm am que não há rem édio que não tenha um a parte nociva. E se m esm o
aqueles que nos aj udam de certa form a nos prej udicam , que devem fazer os que nos aplicam rem édios totalm ente descabidos? Quanto a m im , e ainda que
não houvesse outra coisa, penso que para os que detestam o gosto do
m edicam ento é um esforço perigoso e prej udicial engoli-lo num a hora tão
inapropriada e tão a contragosto; e creio que isso esgota trem endam ente o
doente, num a fase em que ele tanto precisa de repouso. Além do m ais, a
considerar as circunstâncias em que em geral baseiam a causa de nossas
doenças, vem os que são tão leves e tão delicadas que daí concluo que um
erro bem pequeno na prescrição de suas drogas pode trazer-nos m uito dano.
Ora, se o erro do m édico é perigoso, isso nos faz m uito m al, pois é bem difícil
que ele não recaia frequentem ente no m esm o: para acertar seu alvo, precisa
de elem entos, considerações e circunstâncias dem ais. Precisa conhecer a
com pleição do doente, seu tem peram ento, seus hum ores, suas tendências,
suas ações e até seus pensam entos e im aginações. Precisa inform ar-se
sobre as circunstâncias externas, a natureza do lugar, a condição do ar e do
tem po, a posição dos planetas e suas influências. Que saiba da doença as
causas, os sintom as, as afecções, os dias críticos; da droga, o peso, a força,
o país, a aparência, a idade, o m odo de usar; e é preciso que os saiba
harm onizar e aproxim ar um do outro para gerar um a perfeita sim etria. No que,
se errar por pouco que sej a, se em tantas engrenagens houver só um a a
puxar para a esquerda, eis o suficiente para nos pôr a perder. Deus sabe
com o é difícil o conhecim ento da m aioria desses elem entos; pois, por
exem plo, com o encontrará o sintom a próprio da doença, j á que cada um a
com porta um núm ero infinito de sintom as? Quantos debates entre si e dúvidas
eles têm sobre a interpretação da urina? Do contrário, de onde viria essa
altercação contínua que vem os entre eles acerca do conhecim ento da
doença? Com o desculparíam os esse erro em que caem tão frequentem ente
de confundir m arta com raposa? Nos m ales que tive, por pouco que houvesse
algum a dificuldade, nunca encontrei três de acordo. Observo m ais facilm ente
os exem plos que m e tocam . Ultim am ente, em Paris, um fidalgo foi talhado314
por ordem dos m édicos, e nele não se achou m ais pedra na bexiga do que na m ão; e, lá m esm o, um bispo que era m eu grande am igo fora insistentem ente
solicitado, pela m aioria dos m édicos que ele cham ara para um conselho, a se
fazer talhar; eu m esm o, confiando em outra pessoa, o persuadi; quando
m orreu e foi aberto, descobriu-se que só sofria dos rins. Eles são m enos
desculpáveis nessa doença, que pode ser sentida pela palpação. É nisso que
a cirurgia m e parece m uito m ais segura, porque ela vê e m anipula o que faz;
há m enos o que conj ecturar e adivinhar quando os m édicos não têm speculum
matricis315 que lhes revele nosso cérebro, nosso pulm ão e nosso fígado. As
próprias prom essas da m edicina são inacreditáveis, pois tendo os m édicos que cuidar de afecções diversas e opostas que costum am nos atacar j untas, e
que têm quase necessariam ente um a relação entre si, com o o calor do fígado
e a frieza do estôm ago, convencem -nos de que, de seus ingredientes, este
aquecerá o estôm ago, aquele refrescará o fígado; um tem a m issão de ir
direto aos rins, e m esm o até a bexiga, sem estender m ais longe seus efeitos
e conservando suas forças e virtude nesse longo cam inho cheio de desvios até
o local a que está destinado por sua propriedade oculta; o outro ressecará o
cérebro; aquele um edecerá o pulm ão. Tendo feito de todo esse am ontoado
um a m istura para beberagem , não é um a espécie de loucura esperar que
essas virtudes vão se dividir e se separar, em m eio a essa confusa
m iscelânea, para responder a funções tão diversas? Eu tem eria infinitam ente
que elas se perdessem ou trocassem suas etiquetas e confundissem suas
destinações. E quem poderia acreditar que nessa confusão líquida tais
faculdades não se corrom pem e alteram um a a outra? Depois, a execução
dessa receita depende de outro oficiante, à boa-fé e à m ercê do qual
abandonam os m ais um a vez nossa vida! Assim com o tem os coleteiros e
calceiros para nos vestir, e som os tão m ais bem servidos na m edida em que
cada um só se ocupa de seu negócio e tem sua ciência m ais restrita e m ais
delim itada do que um alfaiate, que tudo abarca; e assim com o para nos
alim entar com m ais com odidade os grandes senhores utilizam os ofícios
distintos dos m estres em assados e em sopas, pois um cozinheiro, cuj a tarefa
é m ais geral, não consegue executar tão perfeitam ente; assim tam bém , para
nos curar, os egípcios tinham razão em rej eitar esse ofício de m édico geral e
dividir a profissão estabelecendo um operário para cada doença, para cada
parte do corpo. Pois essa parte era tratada de form a m ais adequada e m enos
confusa j á que só se olhava para ela especialm ente. Os nossos não percebem
que quem se ocupa de tudo não se ocupa de nada, que a organização global
desse pequeno m undo lhes é indigerível. Enquanto tem iam parar a evolução
de um a disenteria para não lhe causar febre, m ataram -m e um am igo que valia
m ais que todos, tantos quantos são. 316 Põem na balança suas adivinhações sobre os m ales presentes, e para não curar o cérebro em prej uízo do
estôm ago fazem m al ao estôm ago e pioram o cérebro com essas drogas que
provocam tum ulto e desacordo. Quanto à variedade e fragilidade das razões
dessa arte, são m ais aparentes do que em qualquer outra arte. As
substâncias aperitivas317 são úteis para um hom em com cólicas, pois abrindo as passagens e dilatando-as elas encam inham essa m atéria viscosa com que
se form am a areia e a pedra e conduzem para baixo o que com eça a
endurecer e acum ular-se nos rins. As substâncias aperitivas são perigosas
para um hom em com cólicas, tanto m ais que abrindo as passagens e
dilatando-as elas encam inham para os rins a m atéria própria para form ar
areia, e os rins, apossando-se com gosto dessa propensão que têm ,
dificilm ente não retêm m uito do que para lá se transportou. Adem ais, se por
acaso ali se encontrar um corpo um pouco m aior que o necessário para
circular por todas essas passagens estreitas que restam a cruzar para que ele
sej a expelido, esse corpo, m ovendo-se com as substâncias aperitivas e
j ogado nesses canais estreitos, vindo a entupi-los conduzirá a um a m orte certa
e m uito dolorosa. Eles têm a m esm a firm eza nos conselhos que nos dão sobre
nosso regim e de vida: é bom “soltar água” com frequência, pois vem os por
experiência que, deixando-a estagnar, lhe dam os ocasião de se livrar de seus
excrem entos e de sua borra que servirão de m atéria para form ar a pedra na
bexiga. É bom não “soltar água” com frequência porque os pesados
excrem entos que ela arrasta consigo não serão evacuados se não houver
violência, com o se vê por experiência num a torrente que corre com força e
varre bem m ais profundam ente o lugar onde passa do que o faz o curso de
um riacho lento e fraco. Da m esm a m aneira, é bom ter relação com as
m ulheres com frequência, pois isso abre as passagens e encam inha a areia e
a pedra. Isso tam bém é m au pois esquenta os rins, cansa-os e os enfraquece.
É bom banhar-se nas águas quentes porque isso relaxa e am olece os lugares
onde se estagnam a areia e a pedra; tam bém é m au, porque essa aplicação
de calor externo aj uda os rins a cozer, endurecer e petrificar a m atéria que ali
se encontra. Para os que estão nos banhos, é m ais salubre com er pouco à
noite a fim de que as águas que têm de beber na m anhã seguinte façam m ais
efeito, encontrando o estôm ago vazio e não obstruído. Inversam ente, é m elhor
com er pouco no alm oço para não perturbar a ação da água, que ainda não
está concluída, e não carregar o estôm ago tão repentinam ente depois desse outro trabalho, deixando a tarefa de digerir para a noite, que sabe m elhor
fazê-lo que o dia, quando o corpo e o espírito estão em perpétuo m ovim ento e
em ação. Eis com o vão nos em baindo e ludibriando à nossa custa com todos
os seus discursos em que não seriam capazes de m e fornecer um a
proposição à qual eu não rebatesse com um a contrária, de força parecida.
Portanto, que j á não se grite contra os que nessa confusão se deixam
suavem ente conduzir por gosto e seguindo os desígnios da natureza,
entregando-se à sorte com um . Vi, por ocasião de m inhas viagens, quase
todos os banhos fam osos da cristandade, e há alguns anos com ecei a utilizá-
los. Pois em geral estim o o banho salubre e creio que nos arriscam os a não
pequenos distúrbios em nossa saúde por term os perdido esse hábito que
costum ava ser observado no passado, em quase todas as nações, e ainda é
em várias, de lavar o corpo todos os dias; e não consigo im aginar que não estam os m uito piores ao m anter assim nossos m em bros encrostados e
nossos poros entupidos de suj eira. E quanto às águas, a fortuna fez que,
prim eiram ente, não sej am de j eito nenhum inim igas de m eu paladar; e em
segundo lugar, são naturais e sim ples, pelo m enos se forem inúteis não são
perigosas. Disso tenho com o prova a infinidade de pessoas de todos os tipos
e com pleições que ali se reúnem . E em bora eu não tenha percebido nenhum
efeito extraordinário e m ilagroso, m as ao contrário, inform ando-m e um pouco
m ais detalhadam ente do que se faz, tenha achado infundados e falsos todos
os rum ores de tais efeitos que se espalham naqueles lugares, e em que se
creem (com o o m undo vai se enganando facilm ente com o que desej a),
tam bém não vi pessoas que essas águas tenham piorado, e não podem os
sem m aldade recusar-lhes o fato de que despertam o apetite, facilitam a
digestão e fornecem -nos um a nova alegria se lá não form os dem asiado
abatidos por falta de forças, o que desaconselho fazer. Não são para
soerguer um a com pleta ruína, m as podem apoiar um a leve inclinação ou
cuidar da am eaça de algum a degradação. Quem não leva bastante alegria
para poder desfrutar do prazer das com panhias que lá se encontram , e dos
passeios e exercícios a que nos convida a beleza dos lugares onde essas
estações de águas estão geralm ente situadas, perde sem dúvida a parte
m elhor e m ais segura de seu efeito. Por isso escolhi até agora visitar e m e
servir das águas onde houvesse um local m ais am eno, conforto de aloj am ento,
com idas e com panhias, com o são na França os banhos de Bagnères e os de
Plom bières, na fronteira com a Alem anha e a Lorena; na Suíça, os de Baden;
na Toscana, os de Lucca, e especialm ente os Della Villa, que usei com m ais
frequência e em diversas estações do ano. Cada nação tem opiniões
particulares relativas a seu uso, e leis e form as bem diversas de usá-las; e
segundo m inha experiência o resultado é quase o m esm o. Na Alem anha, não é
nada corrente bebê-las. Para todas as doenças eles se banham e ficam ali a
chafurdar na água, quase de um sol a outro. Na Itália, se bebem nove dias,
banham -se pelo m enos trinta; e com um ente bebem a água m isturada com
outras drogas, para reforçar sua ação. Aqui nos ordenam passear para digeri-
la; ali os pacientes ficam presos ao leito onde a tom aram , até que a evacuem ,
e aquecendo-se continuam ente o ventre e os pés; os alem ães têm de
particular que geralm ente todos se fazem aplicar ventosas com cartuchos, escarificadas no banho; os italianos têm assim suas doccie, que são um as
tubulações dessa água quente que eles transportam por canos, e ficam
banhando, um a hora de m anhã e outra depois do alm oço, durante um m ês, a
cabeça ou o estôm ago, ou outra parte do corpo de que estão tratando. Há
infinitas outras diferenças de costum es em cada região; ou m elhor, quase não há sem elhança entre uns e outros. Eis com o essa parte da m edicina, a única
pela qual m e deixei levar, em bora sej a a m enos artificial, tem todavia sua boa
parte da confusão e da incerteza que se veem em todos os pontos dessa
arte. Os poetas dizem tudo o que querem , com m ais ênfase e graça; com o
provam esses dois epigram as:
Alcon hesterno signum Jovis attigit. Ille
Quamvis marmoreus, vim patitur medici.
Ecce hodie jussus transferri ex aede vetusta,
Effertur, quamvis sit Deus atque lapis. 318
Álcon, ontem , tocou na estátua de Júpiter. Este, em bora sej a de m árm ore,
fez a experiência do poder do m édico. E hoj e, obrigado a sair de seu velho
tem plo, em bora sej a Deus e de pedra, o retiram .
E o outro,
Lotus nobiscum est hilaris, coenavit et idem,
Inventus mane est mortuus Andragoras.
Tam subitae mortis causam Faustine requiris?
In somnis medicum viderat Hermocratem. 319
Andrágoras banhou-se conosco, todo alegre, depois ceou, e esta m anhã
m orreu. Queres saber a causa de m orte tão repentina, Faustino? Ele viu em sonho o m édico Herm ócrates.
Sobre isso quero contar duas histórias. O barão de Caupène e eu tínham os
em com um , em Chalosse, o direito de patronato de um benefício320 de grande extensão, ao pé de nossas m ontanhas, e que se cham a Lahontan. É típico
dos habitantes desse canto o que se diz daqueles do vale de Angrougne;
tinham um a vida à parte, m odos, traj es e costum es à parte, regulam entados e
guiados por certas regras e costum es particulares, herdados de pai para filho,
aos quais se dobravam sem nenhum a obrigação além do respeito por seu uso.
Esse pequeno Estado m antivera-se desde a m ais alta antiguidade num a
condição tão feliz que nenhum j uiz vizinho se dera ao trabalho de inform ar-se
sobre seus negócios, nenhum advogado fora solicitado a dar-lhes um a opinião
nem estrangeiro fora cham ado a resolver suas contendas; e nunca se vira
ninguém desse lugar pedir esm ola. Fugiam dos casam entos e das relações
com o m undo exterior para não alterar a pureza de sua sociedade, até que,
com o contam , no tem po de seus pais, um deles, tendo a alm a aguilhoada por
um a nobre am bição, teve a ideia, para dar crédito e reputação a seu nom e, de
fazer um de seus filhos Maître Jean ou Maître Pierre; 321 e tendo-o feito aprender a escrever em algum a cidade vizinha, tornou-o enfim um belo
tabelião de aldeia. Este, ao ficar adulto, com eçou a m enosprezar os antigos
costum es dos habitantes e a pôr-lhes na cabeça a pom pa das regiões do lado
de cá. Ao prim eiro de seus com panheiros a quem descornaram um a cabra,
aconselhou pedir reparação aos j uízes reais das redondezas; e depois deste,
outro, até que abastardou tudo. Em seguida a essa corrupção, dizem que
aconteceu outra, incontinente e de consequência pior, por interm édio de um m édico que desej ou se casar com um a de suas filhas e instalar-se entre eles.
Com eçou a ensinar-lhes, prim eiram ente, o nom e das febres, dos resfriados e
dos abscessos, o estado do coração, do fígado e dos intestinos, o que era
um a ciência até então m uito afastada do conhecim ento deles; e em vez do
alho com que haviam aprendido a com bater todos os tipos de m ales, por m ais
graves e extrem os que fossem , os acostum ou, para um a tosse ou um a gripe,
a tom ar m isturas estrangeiras, e com eçou a fazer com ércio não só da saúde
m as tam bém da m orte deles. Juram que só desde então perceberam que o
sereno os deixava de cabeça pesada, que beber quando sentiam calor era
nocivo, e que os ventos de outono eram m ais perigosos que os da prim avera:
desde o uso daquela m edicina estão prostrados por um a legião de doenças
inabituais e percebem um a degradação geral em seu antigo vigor, e suas
vidas foram reduzidas à m etade. Esta é a prim eira de m inhas histórias. A
outra é que, antes de m inha suj eição à gravela, ouvi m uitos terem em conta o
sangue de bode com o um m aná celeste enviado nestes últim os séculos para a
proteção e a preservação da vida hum ana; e ouvindo falar por pessoas de
inteligência com o sendo um a droga adm irável e de ação infalível, eu, que
sem pre pensei ser alvo de todos os infortúnios que podem acontecer com
qualquer outro hom em , tom ei gosto, estando em plena saúde, de m unir-m e
desse m ilagre; e ordenei em m inha casa que m e criassem um bode segundo a
receita. Pois é preciso pô-lo à parte nos m eses m ais quentes do verão e dar-
lhe para com er apenas ervas aperitivas, e para beber apenas vinho branco.
Casualm ente voltei para casa no dia em que ele devia ser m orto; vieram m e dizer que m eu cozinheiro encontrara em sua pança duas ou três grandes
bolas, que se chocavam no m eio de sua gororoba. Fiquei curioso para
trazerem toda aquela tripalhada à m inha presença e m andei abrir a grossa e
larga pele; dali saíram três corpos grandes, leves com o esponj as, de m odo
que pareciam ser ocos, duros, e m esm o firm es na parte de cim a, com m atizes
de várias cores m ortas: um perfeitam ente redondo, do tam anho de um a
pequena bola, os outros dois, um pouco m enores, im perfeitam ente redondos e
parecendo incom pletos. Indagando daqueles que se habituaram a abrir esses anim ais, soube que é um acidente raro e inusitado. É provável que sej am
pedras prim as das nossas. E se é assim , é um a esperança um tanto vã para
os doentes de gravela tirarem sua cura do sangue de um anim al que ia, ele
m esm o, m orrer do m esm o m al. Pois m ais do que dizer que o sangue não se
ressente desse contato e não altera sua virtude habitual, é de crer que nada
se engendre num corpo senão pela influência e com unicação de todas as
partes: a m assa age por inteiro, em bora um a parte contribua m ais que a
outra, segundo a diversidade das ações. Assim , há grande probabilidade de
que todas as partes daquele bode tivessem um a característica petrificante.
Não é tanto por m im e por tem or do futuro que eu estava curioso com essa
experiência; era para fazer com o as m ulheres que, na m inha e em várias
casas, acum ulam um m onte dessas m ezinhas para socorrer o povo, usando o
m esm o rem édio para cinquenta doenças, e tal rem édio não tom am elas
m esm as, em bora exultem com os bons resultados. De resto, honro os
m édicos, não pela necessidade, segundo o preceito322 (pois essa passagem se opõe a outra do profeta, repreendendo o rei Asa por ter recorrido ao m édico), m as por am or a eles m esm os, tendo visto m uitos hom ens honestos e
dignos de ser am ados. Não são eles que censuro, é sua arte, e não lhes faço
grande crítica por tirarem proveito de nossa tolice, pois a m aior parte do
m undo faz assim . Diversos ofícios, tanto os inferiores com o os m ais dignos
que o deles, só têm fundam ento e esteio nos abusos do público. Cham o-os
para m inha com panhia quando estou doente, caso se encontrem pelas
redondezas, e peço para conversar com eles e pago-lhes com o aos outros.
Perm ito que m e m andem abrigar-m e sob o calor se prefiro assim a outro j eito;
podem escolher entre os alhos-porós e as alfaces com que lhes aprouver que
sej a feito m eu caldo, e que m e ordenem o vinho branco ou o clarete; e assim
com todas as coisas, que são indiferentes para m eu apetite e m eu costum e.
Entendo que, para eles, isso não significa nada, porquanto o am argor e a
estranheza são particularidades da própria essência dos m edicam entos.
Licurgo prescrevia o vinho aos espartanos doentes. Por quê? Porque,
saudáveis, eles detestavam seu uso, assim com o um fidalgo m eu vizinho se
serve dele com o rem édio m uito salutar para suas febres, porque por natureza
detesta m ortalm ente seu gosto. Quantos vem os, entre eles, que têm o m eu
hum or? Que desprezam a m edicina para seu próprio uso e adotam um a form a
de vida livre e totalm ente contrária à que ordenam aos outros? O que é isso
senão abusar abertam ente de nossa sim plicidade? Pois não estim am m ais a
vida e a saúde do que nós, e acom odariam seus atos à sua doutrina se eles
m esm os não conhecessem sua falsidade. É o tem or da m orte e da dor, a
im paciência com o m al, um a furiosa e irreprim ível sede de cura que nos cegam assim : é pura covardia o que torna nossa crença tão frouxa e
m anipulável. A m aioria das pessoas, porém , não acredita tanto na m edicina,
m as a suporta e deixa-se levar, pois ouço-as se queixarem e com entarem ,
com o nós. Mas no final se decidem : “Que farei eu, então?”. Com o se a
im paciência fosse em si um rem édio m elhor do que a paciência. Dos que se
deixaram levar por essa suj eição m iserável, há algum que não se renda
igualm ente a todo tipo de im postura? Que não se ponha à m ercê de alguém
que tem essa im pudência de lhe prom eter sua cura? Os babilônios levavam os
doentes para a praça: o m édico era o povo, cada um dos passantes devia,
por hum anidade e civilidade, indagar sobre seu estado; e, segundo a própria
experiência, dar-lhe um a opinião salutar. Nós não fazem os m uito diferente: não
há um a sim ples m ulher cuj as crendices e bentinhos não utilizem os. E segundo
m eu hum or, se eu devesse aceitar um a m edicina, aceitaria de m elhor grado
essa do que qualquer outra, pois ao m enos não há nenhum dano a tem er. O
que Hom ero e Platão diziam dos egípcios, que eles todos eram m édicos,
deve-se dizer de todos os povos. Não há ninguém que não se gabe de um
rem édio e que não o arrisque no vizinho, se ele quiser acreditar. Outro dia
estava eu em um grupo em que não sei quem de m inha confraria trouxe a
notícia de um a espécie de pílulas com postas de cento e tantos ingredientes,
bem contados: foi um a festa e um consolo singular, pois que rochedo
aguentaria o esforço de um a bateria tão num erosa? Sei, porém , pelos que as
experim entaram , que a m enor pedrinha não se dignou m exer-se. Não posso
m e afastar deste papel sem dizer ainda um a palavra sobre as experiências que fazem e que nos apresentam com o prova da eficiência de suas drogas. A
m aioria e, creio, m ais de dois terços das virtudes m edicinais consistem na
quinta-essência ou propriedade oculta dos sím plices, da qual não podem os ter
outro conhecim ento a não ser pelo uso, pois quinta-essência é apenas um a
qualidade cuj a causa não sabem os encontrar por nossa razão. As provas que
eles dizem ter adquirido por inspiração de algum dem ônio, contento-m e em
aceitá-las (pois, quanto aos m ilagres, j am ais toco neles); assim com o as
provas que se tiram das coisas que volta e m eia usam os por outras razões.
Com o se na lã com que nos acostum am os a nos vestir se encontrasse por
acidente um a propriedade oculta dessecativa que curasse as frieiras do
calcanhar; e na raiz-forte que com em os com o alim ento se encontrasse algum a
propriedade aperitiva. Galeno conta que ocorreu a um leproso receber a cura
por m eio do vinho que bebera de um j arro, para onde casualm ente um a víbora
escorregara. Encontram os nesse exem plo um m eio e um a m aneira plausíveis
para essa experiência. Com o tam bém naquelas a que os m édicos dizem ter
sido conduzidos pelo exem plo de certos anim ais. Mas na m aioria das outras experiências, a que dizem ter sido conduzidos pela sorte, sem outro guia além
do acaso, acho pouco crível o m odo com o se desenvolveu a investigação.
Im agino o hom em olhando em torno de si para o núm ero infinito de coisas,
plantas, anim ais, m etais. Não sei por onde fazê-lo com eçar seu ensaio; e
quando sua prim eira fantasia se j ogar sobre o chifre de um alce, o que nossa
credulidade bem côm oda e fácil deve supor, ele ainda terá dificuldade para
realizar a segunda operação. A ele são propostas tantas doenças e tantas
circunstâncias, que antes de chegar à certeza sobre esse ponto o espírito
hum ano perde seu latim ; e antes de encontrar entre aquela infinidade de
coisas o que é aquele chifre; entre aquela infinidade de doenças, a epilepsia;
entre tantos tem peram entos, o m elancólico; entre tantas estações, o inverno;
entre tantos povos, o francês; entre tantas idades, a velhice; entre tantas
m utações celestes, a conj unção de Vênus e Saturno; entre tantas partes do
corpo, o dedo; e em tudo isso não sendo guiado por raciocínio nem por
conj ectura, nem por exem plo, nem por inspiração divina, m as só pelo
m ovim ento da fortuna, seria preciso que a fortuna fosse perfeitam ente
artística, ordenada e m etódica. E depois, quando se obteve a cura, com o
pode ele garantir que não foi porque a doença chegara a seu fim , ou que foi
efeito do acaso? Ou a ação de algum a outra coisa que o paciente tivesse
com ido, ou bebido, ou tocado naquele dia? Ou o m érito das preces de sua
avó? Adem ais, se essa prova tivesse sido perfeita, quantas vezes foi
reiterada, e essa longa enfiada de acasos e encontros foi repercorrida para
se concluir por um a regra? E quando ela for concluída, por quem o será? De
tantos m ilhões, há apenas três hom ens que se m etem a registrar suas
experiências. A sorte terá encontrado j ustam ente um desses? E o que seria
se um outro e se cem outros fizessem experiências contrárias? Talvez
enxergássem os algum a luz se todos os j ulgam entos e raciocínios dos hom ens
nos fossem conhecidos. Mas que três testem unhas e três doutores
representem o gênero hum ano não é razoável: seria preciso que a natureza
hum ana os tivesse eleito e escolhido e que fossem declarados nossos
representantes por procuração expressa.
À SENHORA DE DURAS323
Senhora, encontrastes-m e nesta passagem324 quando viestes ultim am ente m e ver. Com o é possível que essas inépcias se encontrem um dia em vossas
m ãos, quero tam bém que deem testem unho de que o autor se sente m uito
honrado com o favor que lhes fareis. Reconhecereis essa m esm a atitude e
esse m esm o ar que vistes em sua conversação. Ainda que eu pudesse ter
adotado outro m odo que não o m eu corrente, e algum a outra form a m ais
honrosa e m elhor, não o teria feito, pois não quero destes escritos senão que m e representem ao natural em vossa lem brança. Essas m esm as condições e
faculdades que conhecestes e acolhestes, senhora, com m uito m ais honra e
cortesia do que elas m erecem , quero aloj á-las (m as sem alteração e
m udança) num corpo sólido, que possa durar alguns anos, ou alguns dias
depois de m im , e nas quais as encontrareis quando vos aprouver refrescar
vossa m em ória sem vos dar ao trabalho de recordá-las de outra form a: elas
não m erecem tanto. Desej o que continueis o favor de vossa am izade por m im ,
com essas m esm as qualidades por m eio das quais ela se produziu. Não
procuro de j eito nenhum que m e am em e m e estim em m ais m orto do que vivo.
A atitude de Tibério é ridícula e no entanto com um : ele tinha m ais cuidado em
estender sua fam a ao futuro do que em tornar-se estim ável e agradável aos
hom ens de seu tem po. Se eu fosse destes para quem o m undo deve render
hom enagens, m e consideraria quite com a m etade, m as que ele m e pagasse
de antem ão; que elas se apressassem e se am ontoassem ao m eu redor, m ais
espessas que longas, m ais plenas que duradouras. E que desvanecessem
coraj osam ente ao m esm o tem po que m inha consciência e quando seu doce som não m ais atingisse m eus ouvidos. Nesta hora em que estou prestes a
abandonar o convívio dos hom ens, seria um a ideia tola m ostrar-m e a eles com
um novo m érito. Não considero com o um ganho os bens que não pude
em pregar em m inha vida. Quem quer que eu sej a, quero sê-lo em outro lugar
que não apenas no papel. Minha arte e m inha indústria foram em pregadas em
valorizar a m im m esm o. Meus estudos, a m e ensinarem a agir, não a
escrever. Eis m eu ofício e m inha obra. Sou m enos um fazedor de livros do que
de nenhum a outra tarefa. Desej ei ter com petência para servir às m inhas
com odidades presentes e essenciais, não para arm azená-la com o reserva
para m eus herdeiros. Quem tem valor que o faça conhecer em seus hábitos,
em suas conversas correntes, a tratar do am or ou das contendas, no j ogo, na
cam a, na m esa, na conduta de seus negócios, na sua adm inistração
dom éstica. Aqueles que vej o fazer bons livros dentro de calças rasgadas
teriam prim eiram ente feito suas calças se tivessem acreditado em m im .
Perguntai a um espartano se prefere ser bom retórico a bom soldado: e eu
tam bém , preferiria ser cozinheiro se não tivesse quem m e servisse. Meu
Deus, senhora!, com o detestaria tal reputação de ser hom em hábil por escrito
e hom em nulo e tolo em outros assuntos! Ainda prefiro ser um tolo aqui e
acolá a ter escolhido tão m al onde em pregar m eu valor. Assim , longe de
querer procurar um a nova honra com essas tolices, terei feito m uito se não
perder um pouco desse pouco que adquiri. Pois além daquilo que este retrato
m orto e m udo esconderá de m eu ser natural, ele não representa m eu m elhor
estado, m as m uito m ais aquele em que j á decaíram m eu prim eiro vigor e m inha vivacidade, agora tirando para o m urcho e o rançoso. Estou no fundo do
barril, que cheira a fim e a borra. De resto, senhora, não teria ousado agitar
tão atrevidam ente os m istérios da m edicina visto o crédito que vós e tantos
outros lhe dais se não tivesse sido levado a isso por seus próprios autores.
Creio que entre os latinos só há dois deles, Plínio, o Velho, e Celso. Se os
virdes um dia, pensareis que falam bem m ais duram ente sobre a arte deles do
que faço: apenas a belisco, eles a degolam . Plínio zom ba, entre outras coisas,
de que, quando j á gastaram todo o seu latim , inventam essa bela esquiva de
despachar os doentes, que eles agitaram e atorm entaram à toa com suas
drogas e dietas, uns para irem se socorrer com os votos e m ilagres, outros
para as águas term ais. (Não vos enfureceis, senhora, ele não fala das daqui,
que estão sob a proteção de vossa casa e que são todas devotas aos
Gram ont.) Têm um terceiro m odo de escapar para afastar-nos deles e
livrarem -se das críticas que podem os lhes fazer sobre a pouca m elhora de
nossos m ales que ficaram tanto tem po sob seu controle a ponto de não lhes
restar m ais nenhum a invenção para nos distrair: é m andar-nos procurar o bom
clim a em algum a outra região. Senhora, j á basta: haveis de m e dar licença
para retom ar o fio de m eu assunto do qual m e desviei para entreter-m e
convosco.
Foi, parece-m e, Péricles que, tendo sido indagado com o estava passando,
disse: “Podeis j ulgar por isto”, e m ostrou os am uletos que prendera no
pescoço e no braço. Queria indicar que estava bastante doente j á que
chegara ao ponto de recorrer a coisas tão vãs e deixar-se guarnecer daquele j eito. Não digo que um dia eu não possa ser levado a essa ideia ridícula de
confiar m inha vida e m inha saúde à m ercê e à orientação dos m édicos;
poderei cair nessa loucura, não posso responder por m inha firm eza futura;
m as, então, se alguém indagar de m im com o estou passando, tam bém
poderei dizer, com o Péricles: “Podeis j ulgar por isto”, m ostrando m inha m ão
carregada de seis dracm as de opiato: será um sinal bastante evidente de um a
doença violenta e estarei com m eu j uízo com pletam ente deteriorado. Se o
pavor e a intolerância com a dor ganharem isso de m im poderá se concluir por
um a febre bem violenta em m inha alm a. Dei-m e ao trabalho de defender essa
causa, que conheço um tanto m al, para apoiar e confortar um pouco a
propensão natural contra as drogas e a prática de nossa m edicina, que em
m im derivou de m eus ancestrais, a fim de que não fosse apenas um a
tendência estúpida e tem erária e que tivesse um pouco m ais de form a.
Tam bém a fim de que os que m e veem tão firm e contra as exortações e
am eaças que m e fazem quando m inhas doenças m e atacam não pensem que
sej a sim ples obstinação; ou que não haj a alguém tão m aldoso para ainda
pensar que sej a um aguilhão da glória: seria um desej o bem despropositado
querer vangloriar-m e de um a atitude que tenho em com um com m eu j ardineiro
e m eu arreeiro. Certam ente não tenho o coração tão fátuo nem tão cheio de
vento para que eu fosse trocar um prazer tão sólido, carnudo e substancial,
com o a saúde, por um prazer im aginário, espiritual e aéreo. A glória, m esm o a
dos quatro filhos de Ay m on, 325 custa caro dem ais para um hom em de m eu tem peram ento se lhe custar três boas crises de cólica. Saúde, por Deus! Os
que am am nossa m edicina podem ter tam bém suas considerações boas,