Os Ensaios
Por meios diversos se chega ao mesmo fim
adeus. De Montaigne, neste prim eiro de m arço de m il quinhentos e oitenta.
LIVRO PRIMEIRO
Por meios diversos
se chega ao mesmo fim
Capítulo I
O primeiro capítulo trata da guerra e da história, assuntos apropriados para
um nobre. Montaigne introduz em suas reflexões o irracional (a surpresa, o
êxtase e a fúria da batalha) e mostra como são imprevisíveis as reações
perante esses sentimentos, até mesmo em homens virtuosos, grandes e
corajosos. As explicações dos motivos são mera conjectura. Cita o exemplo
de Conrado III, a partir da introdução do livro Methodus, de Jean Bodin, que
estava lendo por volta de 1578. Provavelmente este primeiro capítulo não foi
o primeiro a ser escrito, mas sua composição — histórias de diversas fontes
em torno de um mesmo tema e seguidas de curtos comentários — dá um
dos tons da obra. Dedicado à compaixão e ao perdão, o capítulo terminava,
na edição de 1580, com uma oposição entre a clemência de Pompeu e a
dureza de Sila. Os dois acréscimos seguintes, que exploram a lenda negra
de Alexandre, acentuam o caráter insondável do comportamento humano.
O m odo m ais com um de am olecer os corações daqueles a quem ofendem os,
quando, tendo em m ãos a vingança, eles nos m antêm à sua m ercê, é por
nossa subm issão m ovê-los à com iseração e à piedade. Contudo, a bravura, a
constância e a resolução, m eios totalm ente contrários, às vezes tiveram esse
m esm o efeito. Eduardo, príncipe de Gales, aquele que por tanto tem po reinou
sobre nossa Guy enne, 14 personagem cuj as condições e fortuna têm feitos m uitos notáveis de grandeza, tendo sido fortem ente ofendido pelos lim usinos,
tom ou-lhes a cidade à força. Os gritos do povo, e das m ulheres e crianças
abandonadas à carnificina, suplicando-lhe m isericórdia e prostrando-se a seus
pés, não conseguiram detê-lo; até que, prosseguindo a investida pela cidade,
avistou três fidalgos franceses que com inacreditável intrepidez resistiam ,
sozinhos, ao esforço de seu exército vitorioso. A consideração e o respeito
por virtude tão notável em botaram , prim eiram ente, a ponta de sua cólera: e
ele com eçou por esses três a conceder m isericórdia a todos os outros
habitantes da cidade. Scanderberch, príncipe do Épiro, perseguiu um de seus
soldados para m atá-lo, e esse soldado, depois de tentar acalm á-lo por toda
espécie de hum ildade e súplicas, decidiu-se pelo recurso extrem o de esperá-
lo de espada em punho; essa sua resolução sustou de chofre a fúria de seu
senhor que, por tê-lo visto tom ar tão honroso partido, lhe concedeu seu
perdão. O exem plo poderá prestar-se a outra interpretação por parte
daqueles que não tiverem lido sobre a prodigiosa força e valentia desse
príncipe. O im perador Conrado III sitiou Guelfo, duque da Baviera, e não quis
aceitar condições m ais suaves, por m ais vis e covardes fossem as reparações
que lhe ofereciam , a não ser perm itir que as senhoras que estavam sitiadas
j unto com o duque saíssem com sua honra salva, a pé, levando consigo o que
pudessem . Com coração m agnânim o, elas tiveram a ideia de carregar nos
om bros seus m aridos, filhos, e até o duque. O im perador teve tanto prazer em
ver a gentileza dessa nobreza de coração que chorou de contentam ento e
abrandou todo aquele azedum e da inim izade m ortal e capital que votara contra
o duque; e daí em diante tratou hum anam ente a ele e aos seus. Um ou outro
desses dois m eios m e arrebataria facilm ente, pois tenho um fraco espantoso pela m isericórdia e pela clem ência. Tanto assim que, a m eu ver, eu tenderia a
m e render m ais naturalm ente à com paixão do que à estim a. No entanto, para
os estoicos a piedade é paixão viciosa: querem que socorram os os aflitos,
m as não que nos enterneçam os e com padeçam os deles. Ora, esses
exem plos parecem -m e m ais a propósito por verm os essas alm as acom etidas
e postas à prova pelos dois m étodos resistirem a um , inabaláveis, e se
curvarem ao outro. Pode-se dizer que partir o coração com a com paixão é
efeito da afabilidade, da com placência e da frouxidão, donde resulta que estão
m ais suj eitas a isso as naturezas m ais fracas, com o as das m ulheres, das
crianças e do vulgo. Mas (tendo dem onstrado desprezo pelas lágrim as e pelos
prantos) render-se som ente à reverência da im agem santa da virtude é ato de
um a alm a forte e inquebrantável, que aprecia e honra o vigor m ásculo e
obstinado. Todavia, em alm as m enos generosas o espanto e a adm iração
podem produzir efeito parecido. Prova disso é o povo tebano, que, tendo
cham ado a j uízo seus com andantes sob a acusação capital de terem
prosseguido o m andato além do tem po que lhes fora prescrito e preordenado,
a m uito custo absolveu Pelópidas, que vergava sob o fardo de tais obj eções e
para defender-se só recorria a petições e súplicas; e, ao contrário, quando
Epam inondas veio a contar m agnificam ente os atos por ele realizados e com
eles exprobou o povo orgulhosa e arrogantem ente, o povo tebano não teve
ânim o de pegar em m ãos as fichas de votação e a assem bleia se dissolveu, louvando grandem ente o nível de coragem daquele personagem . Dionísio, o
Velho, que depois de delongas e dificuldades extrem as tom ara a cidade de
Rege, e nesta o com andante Fíton, grande hom em de bem que a defendera
com tanta obstinação, quis disso tirar um trágico exem plo de vingança.
Prim eiram ente disse-lhe que, na véspera, m andara afogar seu filho e todos os
de sua parentela. Ao que Fíton respondeu apenas que eram , por um dia, m ais
felizes que ele. Depois m andou que o despissem e entregou-o aos carrascos
para que fosse arrastado pela cidade, açoitando-o m uito ignom iniosa e
cruelm ente; e, adem ais, acusando-o com palavras pérfidas, m alvadas e
inj uriosas. Mas ele m anteve a coragem sem pre constante, sem desistir. E,
com rosto firm e, ia, ao contrário, rem em orando em voz alta a honrosa e
gloriosa causa de sua m orte, por não ter desej ado entregar seu país nas
m ãos de um tirano; e am eaçando-o com um a pronta punição dos deuses.
Lendo isso nos olhos de sua soldadesca, que, em vez de se irritar com as
bravatas desse inim igo vencido e com o desprezo que m ostrava pelo chefe e
seu triunfo, se enternecia de espanto diante de um a virtude tão rara e
deliberava em vista de se am otinar, e até de arrancar Fíton das m ãos de seus
guardas, Dionísio m andou parar esse m artírio e às escondidas ordenou que o afogassem no m ar. Na verdade, o hom em é um suj eito m aravilhosam ente vão,
diverso e ondulante: é árduo estabelecer sobre ele um j ulgam ento constante e
uniform e. Eis Pom peu, que perdoou a toda a cidade dos m am ertinos, contra a
qual andava m uito irritado, em consideração à virtude e à m agnanim idade de
Zenão, um cidadão que assum iu sozinho o erro público e não requereu outra
graça além de suportar sozinho a punição por este. E o anfitrião de Sila, tendo
dem onstrado na cidade de Perúgia bravura sem elhante, nada ganhou, nem
para si nem para os outros. E diretam ente contra m eus prim eiros exem plos,
Alexandre, o m ais intrépido dos hom ens e tão bondoso com os vencidos, ao
tom ar pela força a cidade de Gaza, depois de grandes dificuldades, encontrou
Bétis, que ali com andava e de cuj o valor tivera, durante esse cerco, provas
m aravilhosas; agora Bétis estava só, abandonado pelos seus, com as arm as
estraçalhadas, todo coberto de sangue e chagas, ainda com batendo no m eio
de vários m acedônios que o atorm entavam de todos os lados; e Alexandre,
m uito irritado com um a vitória tão cara (pois, entre outros danos, recebera
duas feridas recentes em seu corpo), disse-lhe: “Não m orrerás com o quiseste,
Bétis; sabe que tens de sofrer todos os tipos de torm entos que poderão ser
inventados contra um cativo”. O outro, com sem blante não só firm e m as
desdenhoso e altivo, ficou sem dizer um a palavra diante dessas am eaças.
Então, vendo sua obstinação e m utism o, disse: “Ele dobrou um j oelho?
Escapou-lhe algum a palavra suplicante? Realm ente, vencerei esse silêncio, e
se dele não puder arrancar um a palavra, arrancarei no m ínim o um gem ido”. E,
sua cólera transform ando-se em furor, m andou que lhe perfurassem os
calcanhares, e assim vivo o fez dilacerar e desm em brar, e se arrastar preso a
um a carroça. Seria porque a força da coragem lhe fosse tão natural e com um
que, por não m ais adm irá-la, a respeitava m enos? Ou porque a considerasse
tão propriam ente sua que, em tal grau, não conseguiu suportar vê-la em outro
sem o despeito de um a paixão invej osa? Ou porque a im petuosidade natural
de sua cólera fosse incapaz de aceitar um a oposição? Na verdade, se sua cólera tivesse sido freada, é de crer que teria feito o m esm o durante o saque