Os Ensaios

Michel de Montaigne · Capítulo 10 de 33

Páginas do PDF

Os Ensaios

Sobre a punição da covardia

Quem m ora por todo lado, Máxim o, não m ora em lugar nenhum .

Ultim am ente, que m e recolhi em casa decidido tanto quanto puder a não m e

m eter em outra coisa e passar em repouso, e à parte, este pouco de vida que m e resta, pareceu-m e não poder fazer m aior favor a m eu espírito do que

deixá-lo em plena ociosidade, a entreter-se consigo m esm o, parar e sossegar:

o que esperava que ele pudesse doravante fazer m ais facilm ente, tendo se

tornado com o tem po m ais ponderado e m ais m aduro. Mas descubro que,

variam semper dant otia mentem, 19

a ociosidade sem pre torna o espírito inconstante,

ao contrário, agindo com o um cavalo fugido, ele dá cem vezes m ais livre curso

a si m esm o do que daria a outros, e engendra-m e tantas quim eras e m onstros

fantásticos, uns sobre os outros, sem ordem e sem propósito, que para

contem plar à vontade sua inépcia e sua estranheza com ecei a assentá-los

num rol, esperando, com o tem po, que ele se envergonhe de si m esm o.

Sobre a punição da covardia

Capítulo XV20

Jurisconsultos do Renascimento, como Tiraquelo, estavam preocupados em

temperar a severidade da lei, partindo do exame dos motivos e das

limitações humanas. É o que Montaigne faz aqui, sendo esse um assunto

que muito preocupava os fidalgos em tempos de guerra como aqueles em

que ele vivia. O capítulo mostra um paradoxo em que a extrema bravura é

punida com a morte, enquanto a covardia é apenas amaldiçoada. O texto

termina com uma reviravolta: a extrema covardia não seria indício de uma

malícia, afinal, nociva?

Ouvi outrora um príncipe e m uito grande com andante afirm ar que um soldado não podia ser condenado à m orte por covardia; estando ele à m esa, fez o

relato do processo do senhor de Vervins, que foi condenado à m orte por ter

entregado Boulogne. Na verdade, é j usto que se faça grande diferença entre

os erros que vêm de nossa fraqueza e os que vêm de nossa m aldade. Pois

nestes inclinam o-nos cientem ente contra as regras da razão que a natureza

im prim iu em nós; e naqueles parece que podem os invocar com o desculpa

essa m esm a natureza por nos ter deixado de tal m odo im perfeitos e falhos.

De m aneira que m uitas pessoas pensaram que só podíam os ser criticados

pelo que fazem os contra nossa consciência; e é sobre essa regra que se

assentam em parte a opinião dos que condenam as punições capitais para os

hereges e descrentes, e a que estabelece que um advogado e um j uiz não

podem ser incrim inados se, por ignorância, falharem em sua tarefa. Mas

quanto à covardia, é certo que o m odo m ais com um é castigá-la pela

vergonha e pela ignom ínia. E pensa-se que essa regra foi prim eiram ente

posta em prática pelo legislador Carondas, e que antes dele as leis da Grécia

castigavam com a m orte os que tinham fugido de um a batalha, ao passo que

ele ordenou apenas que ficassem sentados no m eio da praça pública, vestidos

com roupa de m ulher, esperando que, tendo-os feito recuperar a coragem por

essa vergonha, ainda pudesse se servir deles. Suffundere malis hominis

sanguinem quam effundere. 21Fazer antes subir o sangue às faces do acusado do que derram á-lo.] Parece tam bém que antigam ente as leis rom anas puniam

com a m orte os que tinham desertado. Pois Am iano Marcelino conta que o

im perador Juliano condenou dez de seus soldados, que viraram as costas a um ataque contra os partos, a ser degradados e depois a sofrerem m orte,