Os Ensaios

Michel de Montaigne · Capítulo 14 de 33

Páginas do PDF

Os Ensaios

É loucura atribuir o verdadeiro e o falso à nossa competência

acusei de despropósito os que condenam esses divertim entos, e de inj ustiça os que recusam a entrada dos com ediantes de valor em nossas boas cidades

e negam ao povo esses prazeres públicos. Os bons governos tratam de unir

os cidadãos e j untá-los nos exercícios e nos j ogos, com o nos ofícios sérios da

devoção; a sociabilidade e a am izade aum entam e, além disso, não seria

possível conceder passatem pos m ais regrados que os que acontecem em

presença de todos, e m esm o à vista do m agistrado; e acharia razoável que o

príncipe, às suas expensas, gratificasse certas vezes a população com um a

afeição e bondade com o que paternal; e que nas cidades populosas houvesse

lugares destinados e preparados para esses espetáculos: algo para desviar

das ações piores e ocultas. Para voltar ao m eu propósito, não há nada com o

aliciar o apetite e o am or do m enino pelo estudo, do contrário apenas

produzim os burros carregados de livros: dão-lhes para guardar, a chicotadas,

um a m aleta cheia de ciência. A qual, para fazer algum bem , não deve som ente

ser guardada em casa; é preciso desposá-la.

É loucura atribuir o verdadeiro

e o falso à nossa competência

Capítulo XXVI142

Quando aplicada a acontecimentos estranhos ou milagrosos, a curiosidade é

a um só tempo vã e arrogante. Os homens tendem a julgar por sua própria

experiência paroquial o que é milagroso e o que não é. Mas só a autoridade

da Igreja católica romana pode reconhecer milagres. Montaigne evoca dois

erros de julgamento: a credulidade, e seu contrário, a presunção, que consiste em condenar como falso o que não nos parece verossímil. Este

capítulo curto, que parece confirmar a ordem aleatória de Os ensaios, tem

uma importância especial que dá coerência ao livro, pois é o primeiro

capítulo apologético. Aqui Montaigne utiliza pela primeira vez, de forma

sistemática, a referência ao De natura rerum, de Lucrécio, lido em 1564.

Revela que ele mesmo conheceu a tentação do protestantismo, na juventude;

afirma sua submissão à ortodoxia religiosa e deplora as concessões feitas

pelos católicos, preocupados com a conciliação, em matéria de dogmas.

Não é talvez sem razão que atribuím os à ingenuidade e à ignorância a

facilidade de crer e de se deixar convencer, pois m e parece que aprendi

outrora que a crença era com o um a im pressão gravada em nossa alm a; e à

m edida que ela estava m ais m ole e com m enor resistência, m ais fácil era

im prim ir-lhe algum a coisa. Ut necesse est lancem in libra ponderibus

impositis deprimi: sic animum perspicuis cedere. 143Assim com o o prato da balança pende necessariam ente quando foi carregado, assim o espírito cede

às coisas evidentes.] Quanto m ais vazia a alm a, e sem contrapeso, m ais

facilm ente se verga sob a carga da prim eira persuasão. Eis por que as

crianças, o vulgo, as m ulheres e os doentes são m ais suj eitos a ser levados

pelo beiço. Mas tam bém , por outro lado, é um a tola presunção ir

desdenhando e condenando com o falso o que não nos parece verossím il: o

que é um vício habitual dos que pensam ter algum a com petência além da

com um . Assim eu fazia antigam ente, e se ouvia falar dos espíritos que voltam

ou do prognóstico das coisas futuras, dos encantam entos, das feitiçarias, ou

contar um a outra história em que não conseguia acreditar, Somnia, terrores magicos, miracula, sagas,

Nocturnos lemures, portentaque Thessala, 144

Sonhos, terrores m ágicos, m ilagres, feiticeiras, espectros noturnos,

prodígios da Tessália,

vinha-m e com paixão pelo pobre povo iludido por essas loucuras. E atualm ente

acho que eu m esm o era, no m ínim o, igualm ente digno de pena. Não que a

experiência tenha desde então m e feito ver algum a coisa acim a de m inhas

prim eiras crenças; e no entanto não foi por falta de curiosidade; m as a razão

ensinou-m e que condenar assim , resolutam ente, um a coisa por ser falsa e

im possível é pretender ter na cabeça as fronteiras e os lim ites da vontade de

Deus e do poder de nossa m ãe natureza; e que não há no m undo loucura m ais

notável do que reduzi-los à m edida de nossa capacidade e com petência. Se

cham am os de m onstros ou m ilagres coisas a que nossa razão não consegue

chegar, quantos deles se apresentam continuam ente aos nossos olhos?

Considerem os com o é em m eio de brum as e às apalpadelas que som os

levados ao conhecim ento da m aioria das coisas que tem os em m ãos: sem

dúvida, descobrirem os que é m ais o hábito do que a ciência que nos retira a

estranheza delas,

iam nemo fessus saturusque videndi,

Suspicere in caeli dignatur lucida templa, 145

e ninguém agora, cansado e farto de ver, se digna a levantar os olhos para

os tem plos lum inosos do céu,

e que essas coisas, se nos fossem apresentadas pela prim eira vez, as acharíam os tão ou m ais inacreditáveis que quaisquer outras,

si nunc primium mortalibus adsint

Ex improviso, ceu sint objecta repente,

Nil magis his rebus poterat mirabile dici,

Aut minus ante quod auderent fore credere gentes. 146

se esses obj etos se apresentassem agora pela prim eira vez aos m ortais,

ou se aparecessem subitam ente, não se poderia dizer m ais nada de

adm irável ou antes de vê-los os hom ens não teriam acreditado que isso

pudesse existir.

Quem nunca viu um rio, o prim eiro que encontrou pensou que fosse o oceano;

e as coisas que para nosso conhecim ento são as m aiores, j ulgam o-las serem

os lim ites do que a natureza faz nesse gênero.

Scilicet et fluvius qui non est maxima, ei est

Qui non ante aliquem majorem vidit, et ingens

Arbor homoque videtur, et omnia de genere omni

Maxima quae vidit quisque, haec ingentia fingit. 147

Da m esm a m aneira, um rio que não é m uito grande o é para quem não viu

m aior antes, e um a árvore ou um hom em parecem im ensos, e pensam os

que são im ensas todas as coisas que vem os m uito grandes, de todo

gênero.

Consuetudine oculorum assuescunt animi, neque admirantur, neque

requirunt rationes earum rerum, quas semper vident. 148É por hábito dos olhos que os espíritos se habituam e não se espantam com as coisas que veem

sem pre, nem procuram suas razões.] A novidade das coisas, m ais que sua grandiosidade, incita-nos a procurar-lhes as causas. É preciso j ulgar esse

infinito poder da natureza149 com m ais reverência e m ais reconhecim ento de nossa ignorância e fraqueza. Quantas coisas pouco verossím eis existem ,

testem unhadas por pessoas dignas de fé; se não podem os convencer-nos, ao

m enos devem os deixá-las em suspenso; pois condená-las com o im possíveis é

pretender conhecer, por um a tem erária presunção, até onde vai a

possibilidade. Se com preendêssem os bem a diferença que há entre o

im possível e o inusitado, e entre o que é contra a ordem do curso da natureza

e contra a opinião com um dos hom ens, não acreditando tem erariam ente nem

descrendo facilm ente, observaríam os a regra do “Nada em excesso”, de

Quílon. Quando lem os em Froissart que o conde de Foix soube no Béarn da

derrota do rei João de Castela em Alj ubarrota, no dia seguinte em que ela

aconteceu, e os m eios que alega ter usado para saber, podem os rir; 150 e igualm ente do que dizem nossos Anais, que no m esm o dia em que o rei Filipe

Augusto m orreu em Mantes o papa Honório lhe fez funerais públicos e

proclam ou-os em toda a Itália. Pois a autoridade desses testem unhos talvez

não tenha alcance suficiente para im por-se a nós. Mas o que m ais? Se

Plutarco, além de vários exem plos que tira da Antiguidade, diz saber de

ciência certa que, na época de Dom iciano, a notícia da batalha perdida por

Antônio na Alem anha, a vários dias de lá, foi publicada em Rom a e espalhada

pelo m undo inteiro no m esm o dia em que foi perdida; e se César pretende que

várias vezes aconteceu de a notícia preceder o fato, direm os que essas

pessoas são ingênuas e deixaram -se enganar com o o vulgo, por não serem

clarividentes com o nós? Existe algo m ais delicado, m ais claro e m ais vivo do que o j ulgam ento de Plínio quando lhe apraz exercitá-lo? Algo m ais afastado

da trivialidade? Deixo de lado a excelência de seu saber, que levo m enos em

conta: em qual dessas duas qualidades o superam os? Todavia, qualquer

pequeno estudante o convence de m entira e pode lhe dar um a lição sobre a

m archa das obras da natureza. Quando lem os em Bouchet os m ilagres das

relíquias de santo Hilário, ainda passa: seu crédito não é grande o suficiente

para tirar-nos a liberdade de contradizê-lo; m as condenar de um só golpe

todas as histórias sem elhantes m e parece singular im pudência. Esse grande

santo Agostinho testem unha ter visto nas relíquias de são Gervásio e são

Protásio, em Milão, um a criança cega recuperar a vista; um a m ulher em

Cartago ser curada de um câncer pelo sinal da cruz feito por um a m ulher

recém -batizada; Hespério, um íntim o seu, expulsar com um pouco de terra do

Sepulcro de Nosso Senhor os espíritos que infestavam sua casa; e essa terra, depois transportada à Igrej a, ter subitam ente curado um paralítico; um a

m ulher, num a procissão, tendo tocado o relicário de santo Estêvão com um

ram alhete, e com esse ram alhete tendo esfregado os olhos, ter recuperado a

vista perdida há m uito tem po; e vários outros m ilagres a que diz ter assistido

pessoalm ente. De que o acusarem os, a ele e a dois santos bispos, Aurélio e

Maxim ino, que ele cita com o testem unhas? Será ignorância, ingenuidade,

condescendência, ou m alícia e im postura? Existe hom em em nosso século tão

im pudente que pense ser com parável a eles, sej a em virtude e piedade, sej a

em saber, j uízo e com petência? Qui ut rationem nullam afferent, ipsa

autoritate me frangerent. 151Que, m esm o se não fornecessem nenhum a explicação racional, quebrariam m eus argum entos por sua sim ples autoridade.] Além da absurda tem eridade que isso supõe, é um a ousadia

perigosa de grande consequência desprezar o que não com preendem os. Pois,

quando segundo vosso belo entendim ento tiverdes estabelecido os lim ites da

verdade e da m entira, e quando deveis necessariam ente acreditar em coisas

em que há ainda m ais estranheza que naquelas que negais, j á estais obrigado

a abandoná-los. Ora, o que m e parece trazer tanta desordem a nossas

consciências nesses distúrbios de religião em que estam os é esse abandono

que os católicos fazem de sua fé. Pensam agir com o m oderados e hábeis

quando cedem aos adversários certos artigos de fé que estão em disputa.

Mas, além do fato de que não veem que vantagem representa para quem vos

ataca com eçar a lhe ceder e a recuar, e o quanto isso o anim a a prosseguir

sua investida, esses artigos que escolhem por ser os de m enor peso são às

vezes m uito im portantes. Precisam os nos subm eter totalm ente à autoridade

de nossa lei eclesiástica ou dispensá-la totalm ente: não nos cabe estabelecer

o grau de obediência que lhe devem os. E adem ais, posso dizê-lo por ter

experim entado, tendo outrora usado essa liberdade de escolha e de seleção

pessoais para negligenciar certos pontos na observância de nossa Igrej a que

m e parecem m ais vazios ou m ais estranhos, e vindo a discutir a respeito com

hom ens sábios, descobri que essas coisas têm um fundam ento m aciço e

m uito sólido, e que são apenas a besteira e a ignorância que nos levam a

acatá-las com m enos reverência que o resto. Por que não nos lem bram os das

contradições que sentim os em nosso próprio j ulgam ento? Quantas coisas

ontem nos serviam de artigos de fé e hoj e nos parecem fábulas? A vanglória e a curiosidade são os flagelos de nossa alm a. Esta nos leva a pôr o nariz em