Os Ensaios
É loucura atribuir o verdadeiro e o falso à nossa competência
acusei de despropósito os que condenam esses divertim entos, e de inj ustiça os que recusam a entrada dos com ediantes de valor em nossas boas cidades
e negam ao povo esses prazeres públicos. Os bons governos tratam de unir
os cidadãos e j untá-los nos exercícios e nos j ogos, com o nos ofícios sérios da
devoção; a sociabilidade e a am izade aum entam e, além disso, não seria
possível conceder passatem pos m ais regrados que os que acontecem em
presença de todos, e m esm o à vista do m agistrado; e acharia razoável que o
príncipe, às suas expensas, gratificasse certas vezes a população com um a
afeição e bondade com o que paternal; e que nas cidades populosas houvesse
lugares destinados e preparados para esses espetáculos: algo para desviar
das ações piores e ocultas. Para voltar ao m eu propósito, não há nada com o
aliciar o apetite e o am or do m enino pelo estudo, do contrário apenas
produzim os burros carregados de livros: dão-lhes para guardar, a chicotadas,
um a m aleta cheia de ciência. A qual, para fazer algum bem , não deve som ente
ser guardada em casa; é preciso desposá-la.
É loucura atribuir o verdadeiro
e o falso à nossa competência
Capítulo XXVI142
Quando aplicada a acontecimentos estranhos ou milagrosos, a curiosidade é
a um só tempo vã e arrogante. Os homens tendem a julgar por sua própria
experiência paroquial o que é milagroso e o que não é. Mas só a autoridade
da Igreja católica romana pode reconhecer milagres. Montaigne evoca dois
erros de julgamento: a credulidade, e seu contrário, a presunção, que consiste em condenar como falso o que não nos parece verossímil. Este
capítulo curto, que parece confirmar a ordem aleatória de Os ensaios, tem
uma importância especial que dá coerência ao livro, pois é o primeiro
capítulo apologético. Aqui Montaigne utiliza pela primeira vez, de forma
sistemática, a referência ao De natura rerum, de Lucrécio, lido em 1564.
Revela que ele mesmo conheceu a tentação do protestantismo, na juventude;
afirma sua submissão à ortodoxia religiosa e deplora as concessões feitas
pelos católicos, preocupados com a conciliação, em matéria de dogmas.
Não é talvez sem razão que atribuím os à ingenuidade e à ignorância a
facilidade de crer e de se deixar convencer, pois m e parece que aprendi
outrora que a crença era com o um a im pressão gravada em nossa alm a; e à
m edida que ela estava m ais m ole e com m enor resistência, m ais fácil era
im prim ir-lhe algum a coisa. Ut necesse est lancem in libra ponderibus
impositis deprimi: sic animum perspicuis cedere. 143Assim com o o prato da balança pende necessariam ente quando foi carregado, assim o espírito cede
às coisas evidentes.] Quanto m ais vazia a alm a, e sem contrapeso, m ais
facilm ente se verga sob a carga da prim eira persuasão. Eis por que as
crianças, o vulgo, as m ulheres e os doentes são m ais suj eitos a ser levados
pelo beiço. Mas tam bém , por outro lado, é um a tola presunção ir
desdenhando e condenando com o falso o que não nos parece verossím il: o
que é um vício habitual dos que pensam ter algum a com petência além da
com um . Assim eu fazia antigam ente, e se ouvia falar dos espíritos que voltam
ou do prognóstico das coisas futuras, dos encantam entos, das feitiçarias, ou
contar um a outra história em que não conseguia acreditar, Somnia, terrores magicos, miracula, sagas,
Nocturnos lemures, portentaque Thessala, 144
Sonhos, terrores m ágicos, m ilagres, feiticeiras, espectros noturnos,
prodígios da Tessália,
vinha-m e com paixão pelo pobre povo iludido por essas loucuras. E atualm ente
acho que eu m esm o era, no m ínim o, igualm ente digno de pena. Não que a
experiência tenha desde então m e feito ver algum a coisa acim a de m inhas
prim eiras crenças; e no entanto não foi por falta de curiosidade; m as a razão
ensinou-m e que condenar assim , resolutam ente, um a coisa por ser falsa e
im possível é pretender ter na cabeça as fronteiras e os lim ites da vontade de
Deus e do poder de nossa m ãe natureza; e que não há no m undo loucura m ais
notável do que reduzi-los à m edida de nossa capacidade e com petência. Se
cham am os de m onstros ou m ilagres coisas a que nossa razão não consegue
chegar, quantos deles se apresentam continuam ente aos nossos olhos?
Considerem os com o é em m eio de brum as e às apalpadelas que som os
levados ao conhecim ento da m aioria das coisas que tem os em m ãos: sem
dúvida, descobrirem os que é m ais o hábito do que a ciência que nos retira a
estranheza delas,
iam nemo fessus saturusque videndi,
Suspicere in caeli dignatur lucida templa, 145
e ninguém agora, cansado e farto de ver, se digna a levantar os olhos para
os tem plos lum inosos do céu,
e que essas coisas, se nos fossem apresentadas pela prim eira vez, as acharíam os tão ou m ais inacreditáveis que quaisquer outras,
si nunc primium mortalibus adsint
Ex improviso, ceu sint objecta repente,
Nil magis his rebus poterat mirabile dici,
Aut minus ante quod auderent fore credere gentes. 146
se esses obj etos se apresentassem agora pela prim eira vez aos m ortais,
ou se aparecessem subitam ente, não se poderia dizer m ais nada de
adm irável ou antes de vê-los os hom ens não teriam acreditado que isso
pudesse existir.
Quem nunca viu um rio, o prim eiro que encontrou pensou que fosse o oceano;
e as coisas que para nosso conhecim ento são as m aiores, j ulgam o-las serem
os lim ites do que a natureza faz nesse gênero.
Scilicet et fluvius qui non est maxima, ei est
Qui non ante aliquem majorem vidit, et ingens
Arbor homoque videtur, et omnia de genere omni
Maxima quae vidit quisque, haec ingentia fingit. 147
Da m esm a m aneira, um rio que não é m uito grande o é para quem não viu
m aior antes, e um a árvore ou um hom em parecem im ensos, e pensam os
que são im ensas todas as coisas que vem os m uito grandes, de todo
gênero.
Consuetudine oculorum assuescunt animi, neque admirantur, neque
requirunt rationes earum rerum, quas semper vident. 148É por hábito dos olhos que os espíritos se habituam e não se espantam com as coisas que veem
sem pre, nem procuram suas razões.] A novidade das coisas, m ais que sua grandiosidade, incita-nos a procurar-lhes as causas. É preciso j ulgar esse
infinito poder da natureza149 com m ais reverência e m ais reconhecim ento de nossa ignorância e fraqueza. Quantas coisas pouco verossím eis existem ,
testem unhadas por pessoas dignas de fé; se não podem os convencer-nos, ao
m enos devem os deixá-las em suspenso; pois condená-las com o im possíveis é
pretender conhecer, por um a tem erária presunção, até onde vai a
possibilidade. Se com preendêssem os bem a diferença que há entre o
im possível e o inusitado, e entre o que é contra a ordem do curso da natureza
e contra a opinião com um dos hom ens, não acreditando tem erariam ente nem
descrendo facilm ente, observaríam os a regra do “Nada em excesso”, de
Quílon. Quando lem os em Froissart que o conde de Foix soube no Béarn da
derrota do rei João de Castela em Alj ubarrota, no dia seguinte em que ela
aconteceu, e os m eios que alega ter usado para saber, podem os rir; 150 e igualm ente do que dizem nossos Anais, que no m esm o dia em que o rei Filipe
Augusto m orreu em Mantes o papa Honório lhe fez funerais públicos e
proclam ou-os em toda a Itália. Pois a autoridade desses testem unhos talvez
não tenha alcance suficiente para im por-se a nós. Mas o que m ais? Se
Plutarco, além de vários exem plos que tira da Antiguidade, diz saber de
ciência certa que, na época de Dom iciano, a notícia da batalha perdida por
Antônio na Alem anha, a vários dias de lá, foi publicada em Rom a e espalhada
pelo m undo inteiro no m esm o dia em que foi perdida; e se César pretende que
várias vezes aconteceu de a notícia preceder o fato, direm os que essas
pessoas são ingênuas e deixaram -se enganar com o o vulgo, por não serem
clarividentes com o nós? Existe algo m ais delicado, m ais claro e m ais vivo do que o j ulgam ento de Plínio quando lhe apraz exercitá-lo? Algo m ais afastado
da trivialidade? Deixo de lado a excelência de seu saber, que levo m enos em
conta: em qual dessas duas qualidades o superam os? Todavia, qualquer
pequeno estudante o convence de m entira e pode lhe dar um a lição sobre a
m archa das obras da natureza. Quando lem os em Bouchet os m ilagres das
relíquias de santo Hilário, ainda passa: seu crédito não é grande o suficiente
para tirar-nos a liberdade de contradizê-lo; m as condenar de um só golpe
todas as histórias sem elhantes m e parece singular im pudência. Esse grande
santo Agostinho testem unha ter visto nas relíquias de são Gervásio e são
Protásio, em Milão, um a criança cega recuperar a vista; um a m ulher em
Cartago ser curada de um câncer pelo sinal da cruz feito por um a m ulher
recém -batizada; Hespério, um íntim o seu, expulsar com um pouco de terra do
Sepulcro de Nosso Senhor os espíritos que infestavam sua casa; e essa terra, depois transportada à Igrej a, ter subitam ente curado um paralítico; um a
m ulher, num a procissão, tendo tocado o relicário de santo Estêvão com um
ram alhete, e com esse ram alhete tendo esfregado os olhos, ter recuperado a
vista perdida há m uito tem po; e vários outros m ilagres a que diz ter assistido
pessoalm ente. De que o acusarem os, a ele e a dois santos bispos, Aurélio e
Maxim ino, que ele cita com o testem unhas? Será ignorância, ingenuidade,
condescendência, ou m alícia e im postura? Existe hom em em nosso século tão
im pudente que pense ser com parável a eles, sej a em virtude e piedade, sej a
em saber, j uízo e com petência? Qui ut rationem nullam afferent, ipsa
autoritate me frangerent. 151Que, m esm o se não fornecessem nenhum a explicação racional, quebrariam m eus argum entos por sua sim ples autoridade.] Além da absurda tem eridade que isso supõe, é um a ousadia
perigosa de grande consequência desprezar o que não com preendem os. Pois,
quando segundo vosso belo entendim ento tiverdes estabelecido os lim ites da
verdade e da m entira, e quando deveis necessariam ente acreditar em coisas
em que há ainda m ais estranheza que naquelas que negais, j á estais obrigado
a abandoná-los. Ora, o que m e parece trazer tanta desordem a nossas
consciências nesses distúrbios de religião em que estam os é esse abandono
que os católicos fazem de sua fé. Pensam agir com o m oderados e hábeis
quando cedem aos adversários certos artigos de fé que estão em disputa.
Mas, além do fato de que não veem que vantagem representa para quem vos
ataca com eçar a lhe ceder e a recuar, e o quanto isso o anim a a prosseguir
sua investida, esses artigos que escolhem por ser os de m enor peso são às
vezes m uito im portantes. Precisam os nos subm eter totalm ente à autoridade
de nossa lei eclesiástica ou dispensá-la totalm ente: não nos cabe estabelecer
o grau de obediência que lhe devem os. E adem ais, posso dizê-lo por ter
experim entado, tendo outrora usado essa liberdade de escolha e de seleção
pessoais para negligenciar certos pontos na observância de nossa Igrej a que
m e parecem m ais vazios ou m ais estranhos, e vindo a discutir a respeito com
hom ens sábios, descobri que essas coisas têm um fundam ento m aciço e
m uito sólido, e que são apenas a besteira e a ignorância que nos levam a
acatá-las com m enos reverência que o resto. Por que não nos lem bram os das
contradições que sentim os em nosso próprio j ulgam ento? Quantas coisas
ontem nos serviam de artigos de fé e hoj e nos parecem fábulas? A vanglória e a curiosidade são os flagelos de nossa alm a. Esta nos leva a pôr o nariz em