Os Ensaios

Michel de Montaigne · Capítulo 15 de 33

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Os Ensaios

Sobre os canibais

tudo, e aquela nos proíbe de nada deixar sem solução nem decisão.

Sobre os canibais

Capítulo XXX152

Os canibais do título são os índios do Brasil. Montaigne leu muitos relatos da

conquista do Novo Mundo, inclusive o de Girolamo Benzoni, Historia del

mondo nuovo (Veneza, 1565), na tradução francesa de 1579, obra cujo

subtítulo enfatizava o terrível tratamento dado aos nativos pelos

conquistadores. Ele pretende se apoiar em testemunhos diretos, recolhidos

junto aos atores do episódio da França Antártica, a colônia que os franceses

tentaram implantar na baía de Guanabara a partir de 1555; junto a

marinheiros e até mesmo a alguns índios que estavam no porto de Rouen

em 1562. O “primitivismo” de Montaigne tem pouco a ver com o “bom

selvagem” dos séculos seguintes. Seus índios são sanguinários e cruéis,

antropófagos e polígamos. Estes dois últimos traços, longamente analisados,

levam a pensar no caráter paradoxal e provocador do ensaio, muito

trabalhado em sua eloquência. Se aqueles povos são de fato cruéis, nós

também somos. Mas seus métodos simples têm muito a nos ensinar: podem

servir de padrão para julgarmos a República de Platão, o mito da Idade de

Ouro, a crueldade, a corrupção e a cultura da Europa. O que seduz

Montaigne nos habitantes da costa brasileira é sua coragem, sua virtude, seu

ascetismo espartano: cidadãos ideais de uma Grécia onírica que uniria

Esparta e Atenas. Com seu título chamativo, este capítulo seduzirá

Shakespeare (que o ecoa em A tempestade) e Rousseau.

Quando o rei Pirro passou pela Itália, depois de ter reconhecido a organização do exército que os rom anos enviavam contra ele, declarou: “Não sei que

bárbaros são estes”, pois os gregos assim cham avam a todas as nações

estrangeiras, “m as o ordenam ento deste exército que vej o não tem nada de

bárbaro.” O m esm o disseram os gregos a respeito daquele que Flam ínio fez

passar pelo país deles; e Filipe, ao ver de um outeiro de seu reino a ordem e

a disposição do cam po rom ano, na época de Públio Sulpício Galba. Eis com o

devem os evitar nos ater às opiniões correntes e com o devem os j ulgá-las pela

razão, não pela voz do povo. Tive por m uito tem po com igo um hom em que

m orara dez ou doze anos nesse outro m undo que foi descoberto em nosso

século, no lugar onde Villegaignon veio a terra e que batizou de França

Antártica. 153 Essa descoberta de um país infinito parece de grande im portância. Não sei se posso garantir que se faça no futuro algum a outra, j á

que tantos foram os personagens m aiores que nós a se enganarem sobre

esta. Receio que tenham os os olhos m aiores que a barriga, e m ais

curiosidade que capacidade. Tudo abraçam os, m as só vento agarram os.

Platão m ostra-nos Sólon contando ter aprendido com os sacerdotes da cidade

de Sais, no Egito, que antigam ente, antes do dilúvio, havia um a grande ilha

cham ada Atlântida, bem na boca do estreito de Gibraltar, e que tinha m ais

terras do que a África e a Ásia j untas; e que os reis dessas paragens, que não

possuíam só essa ilha m as tinham avançado tão longe em terra firm e que

reinavam num a extensão da largura da África, até o Egito, e do com prim ento

da Europa, até a Toscana, em preenderam ir até a Ásia e subj ugar todas as

nações que m argeiam o m ar Mediterrâneo, até o golfo do m ar Negro; e que para isso atravessaram a Espanha, a Gália, a Itália, até a Grécia, onde os

atenienses sustaram sua investida; m as que algum tem po depois tanto os

atenienses com o eles e sua ilha foram engolidos pelo dilúvio. É bem provável

que essa vasta inundação tenha produzido m udanças estranhas nas áreas

habitadas da Terra, assim com o se diz que o m ar separou a Sicília da Itália,

Haec loca vi quondam, et vasta convulsa ruina

Dissiluisse ferunt, cum protinus utraque tellus

Uma foret, 154

Essas duas regiões, outrora um a só e m esm a terra, um dia, dizem , se

separaram violentam ente nas convulsões de um vasto desm oronam ento,

Chipre da Síria, a ilha de Negroponto da terra firm e da Beócia; e em outros

lugares se j untaram terras que estavam divididas, enchendo de lodo e areia os

fossos entre elas:

sterilisque diu palus aptaque remis

Vicinas urbes alit, et grave sentit aratrum. 155

um pântano, por m uito tem po estéril e percorrido a rem o, alim enta as

cidades ao redor e ressente-se do peso do arado.

Mas não há grandes indícios de que essa ilha sej a esse novo m undo que

acabam os de descobrir, pois ela quase tocava a Espanha e seria um efeito

inacreditável da inundação tê-la recuado, com o está, m ais de 1200 léguas;

além disso, as navegações m odernas praticam ente j á verificaram que não é

um a ilha, m as terra firm e e continente, contígua à Índia Oriental, de um lado, e

com terras que estão sob os dois polos, de outro; ou que, se está separada, é por um estreito tão pequeno que não m erece ser cham ada de ilha. Parece

que há nesses grandes corpos m ovim entos com o nos nossos, uns naturais,

outros febris. Quando considero a erosão que m eu rio, o Dordogne, sofreu,

em m eu tem po, em direção à m argem direita de seu curso; e que em vinte

anos se alastrou tanto a ponto de escavar os alicerces de várias construções,

bem vej o que se trata de um abalo extraordinário, pois se tivesse ido sem pre

nesse ritm o, ou se devesse ir no futuro, a face do m undo estaria às avessas.

Mas os rios sofrem m udanças: ora se espraiam de um lado, ora de outro, ora

se contêm . Não falo das súbitas inundações cuj as causas com preendem os.

No Medoc, ao longo do m ar, m eu irm ão, o senhor de Arsac, viu um as terras

suas soterradas sob as areias que o m ar vom ita bem em frente. A cum eeira

de algum as de suas construções ainda aparece, m as suas terras de

arrendam ento e seus dom ínios transform aram -se em pastagens bem m agras.

Os m oradores dizem que há algum tem po o m ar avança tão fortem ente para

cim a deles, que perderam quatro léguas de terra: essas areias são

precursoras. E vem os grandes dunas de areia m ovediça que andam m eia

légua à frente do m ar e ganham terreno. O outro testem unho da Antiguidade

com que se desej a relacionar essa descoberta está em Aristóteles, pelo

m enos se for dele esse livrinho intitulado Maravilhas inauditas. Aí ele conta que certos cartagineses, tendo se j ogado no m ar Atlântico, m ais além do

estreito de Gibraltar, e navegado m uito tem po, haviam descoberto enfim um a

grande ilha fértil, toda coberta de bosques e regada por rios grandes e

profundos, m uito afastada de todas as terras firm es; e que eles, e depois

outros, atraídos pela beleza e fertilidade do terreno, para lá foram com

m ulheres e filhos e com eçaram a habitá-la. Os senhores de Cartago, vendo

que seu país pouco a pouco se despovoava, proibiram expressam ente, sob

pena de m orte, que m ais alguém fosse para lá, de onde expulsaram os novos

habitantes, tem erosos, ao que se diz, de que com o passar do tem po viessem

a m ultiplicar-se tanto que suplantassem a eles m esm os e arruinassem seu

Estado. Essa narração de Aristóteles tam bém não corresponde a nossas

terras novas. Esse hom em que eu tinha era hom em sim ples e rústico, o que é

condição própria a tornar verdadeiro o testem unho, pois as pessoas finas

observam com bem m ais curiosidade, e m ais coisas, m as glosam -nas; e para

fazerem valer sua interpretação e convencer não conseguem deixar de alterar

um pouco a história: nunca nos relatam as coisas puras; curvam -nas e

m ascaram -nas para adequá-las aos próprios pontos de vista; e para dar

crédito a seu j ulgam ento e atrair-nos, gostam de aum entar sua própria

participação no assunto, am pliando-a e estendendo-a. Precisa-se de um

hom em m uito fiável ou tão sim ples que não tenha com que construir e tornar

plausíveis invenções falsas, e que nada tenha a defender. O m eu era assim ,

e, além disso, várias vezes m e m ostrou diversos m arinheiros e com erciantes

que conhecera naquela viagem . Assim , contento-m e com essa inform ação,

sem indagar o que dizem os cosm ógrafos. Precisaríam os de topógrafos que

nos fizessem um relato particular dos lugares onde estiveram . Mas, por terem

sobre nós a vantagem de ter visto a Palestina, querem gozar do privilégio de

nos dar notícias de todo o resto do m undo. Eu gostaria que cada um

escrevesse o que sabe e o tanto que sabe, não só sobre isso m as sobre todos os outros assuntos. Pois um hom em pode ter certo conhecim ento

especial ou experiência da natureza de um rio, ou de um a fonte, e só saber do

resto o que cada um sabe. Todavia, para discorrer sobre seu pequeno

dom ínio tentará escrever toda a física. Desse vício surgem vários e grandes

inconvenientes. Ora, para voltar a m eu assunto, e pelo que dela m e contaram ,

acho que não há nada de bárbaro e de selvagem nessa nação, a não ser que

cada um cham a de barbárie o que não é seu costum e. Assim com o, de fato,

não tem os outro critério de verdade e de razão além do exem plo e da form a

das opiniões e usos do país em que estam os. Nele sem pre está a religião

perfeita, o governo perfeito, o uso perfeito e consum ado de todas as coisas.

Eles são selvagens assim com o cham am os selvagens os frutos que a

natureza produziu por si m esm a e por seu avanço habitual; quando na verdade

os que alteram os por nossa técnica e desviam os da ordem com um é que

deveríam os cham ar de selvagens. Naqueles são vivas e vigorosas, e m ais

úteis e naturais, as virtudes e propriedades verdadeiras, e, nestes, nós as

abastardam os adaptando-os ao prazer de nosso gosto corrom pido. E por

conseguinte, o próprio sabor e a delicadeza de diversos frutos daquelas

paragens que não são cultivados são excelentes até para nosso próprio gosto,

se com parados com os nossos: não é razão para que o artifício sej a m ais

reverenciado que nossa grande e poderosa m ãe natureza. Sobrecarregam os

tanto a beleza e a riqueza de suas obras com nossas invenções que a

sufocam os totalm ente. Sej a com o for, em qualquer lugar onde sua pureza

reluz ela envergonha esplendidam ente nossos vãos e frívolos em preendim entos:

Et veniunt bederae sponte sua melius,

Surgit et in solis formosior arbutus antris,

Et volucres nulla dulcius arte canunt. 156

A hera cresce m elhor por si só nas grutas solitárias; o m edronheiro cresce

m ais bonito e os pássaros têm um canto m ais m elodioso sem trabalho.

Todos os nossos esforços não conseguem sequer reproduzir o ninho do

m enor passarinho, sua contextura, sua beleza e sua utilidade; tam pouco a teia

da m iserável aranha. Todas as coisas, diz Platão, são produzidas pela

natureza ou pela fortuna ou pela arte. As m aiores e m ais belas, por um a ou

outra das duas prim eiras; as m enores e im perfeitas, pela últim a. Portanto,

essas nações parecem assim bárbaras por terem sido bem pouco m oldadas

pelo espírito hum ano e ainda estarem m uito próxim as de sua ingenuidade

original. As leis naturais ainda as com andam , m uito pouco abastardadas pelas

nossas; m as a pureza delas é tam anha que, por vezes, m e dá desgosto que

não tenham sido descobertas m ais cedo, na época em que havia hom ens que,

m elhor que nós, teriam sabido j ulgar. Desagrada-m e que Licurgo e Platão não

as tenham conhecido, pois parece-m e que o que vem os por experiência

naquelas nações ultrapassa não som ente todas as pinturas com que a poesia

em belezou a Idade de Ouro, e todas as suas invenções para im aginar um a

feliz condição hum ana, com o tam bém a concepção e o próprio desej o de

filosofia. Eles não conseguiram im aginar um a ingenuidade tão pura e sim ples

com o a que vem os por experiência e nem conseguiram acreditar que nossa sociedade conseguisse m anter-se com tão pouco artifício e solda hum ana. É

um a nação, eu diria a Platão, em que não há nenhum a espécie de com ércio, nenhum conhecim ento das letras, nenhum a ciência dos núm eros, nenhum

term o para m agistrado nem para superior político, nenhum a prática de

subordinação, de riqueza, ou de pobreza, nem contratos nem sucessões, nem

partilhas, nem ocupações além do ócio, nenhum respeito ao parentesco

exceto o respeito m útuo, nem vestim entas, nem agricultura, nem m etal, nem

uso de vinho ou de trigo. As próprias palavras que significam m entira, traição,

dissim ulação, avareza, invej a, difam ação, perdão são desconhecidas. Com o

ele consideraria distante dessa perfeição a república que im aginou!

Hos natura modos primum dedit. 157

Eis as prim eiras leis que oferece a natureza.

Adem ais, vivem num país m uito agradável e de clim a am eno, de m odo que

pelo que m e disseram m inhas testem unhas é raro ver ali um hom em doente; e

garantiram -m e não ter visto nenhum trêm ulo, rem elento, desdentado, ou

curvado de velhice. Estão instalados ao longo do m ar e cercados do lado da

terra por grandes e altas m ontanhas, tendo entre os dois um a extensão de

cerca de cem léguas de largura. Têm grande abundância de peixe e carnes,

sem nenhum a sem elhança com os nossos; e os com em sem outro artifício

além de cozinhá-los. O prim eiro que para lá levou um cavalo, em bora j á os

tivesse encontrado em várias outras viagens, causou-lhes tanto horror naquela

posição que o m ataram a flechadas antes de chegarem a reconhecê-lo. Suas

construções são m uito com pridas e com capacidade para duzentas ou

trezentas alm as; são cobertas de casca de grandes árvores, presas à terra por um a ponta e sustentando-se e apoiando-se um a na outra pela cum eeira, à

m oda de algum as de nossas granj as, cuj a cobertura pende até o chão e serve

de m uro. Têm m adeiras tão duras que as usam para cortar, e com elas fazem

suas espadas e espetos para grelhar os alim entos. Seus leitos são de um

tecido de algodão, suspensos no teto, com o os de nossos navios, cada um

com o seu, pois as m ulheres dorm em separadas dos m aridos. Levantam -se

com o sol e com em logo depois de se levantarem , para o dia todo, pois não

fazem outra refeição além dessa. Não bebem nesse m om ento, com o

Suídas158 conta sobre alguns outros povos do Oriente, que só bebem fora da refeição; bebem várias vezes ao dia, em profusão. Sua bebida é feita de certa

raiz e é da cor de nossos vinhos claretes. Só a tom am m orna: essa

beberagem se conserva apenas dois ou três dias, tem um gosto um pouco

picante, nada inebriante, é salutar para o estôm ago e laxativa para os que não

estão acostum ados; é um a bebida m uito agradável para quem está habituado.

Em vez do pão com em um a substância branca, parecida com coriandro em

conserva. Provei-a, o gosto é doce e um pouco insosso. Passam o dia

dançando. Os m ais m oços vão à caça dos bichos, com arcos. Enquanto isso,

um a parte das m ulheres se ocupa de aquecer a bebida, o que é sua principal

função. Há um dos velhos que, de m anhã, antes de com eçarem a com er,

prega ao m esm o tem po para todos os m oradores, passeando de um a ponta à

outra e repetindo a m esm a frase várias vezes, até que tenha com pletado a

volta (pois são construções que têm bem uns cem passos de com prim ento), e

só lhes recom enda duas coisas, a valentia contra os inim igos e a am izade por

suas m ulheres. E j am ais deixam de salientar essa obrigação, com o um refrão,

de que são elas que lhes m antêm a bebida m orna e tem perada. Vê-se em

vários lugares, e entre outros em m inha casa, a form a de seus leitos, cordões,

espadas, e pulseiras de m adeira com que cobrem os punhos nos com bates, e

grandes caniços abertos num a ponta, cuj o som m arca a cadência de sua

dança. São inteiram ente raspados e barbeiam -se m uito m ais rente que nós,

sem outra navalha que não de m adeira ou pedra. Creem que as alm as são

eternas e aquelas que bem m ereceram dos deuses estão aloj adas no lugar do

céu onde o sol se levanta: as m alditas, do lado do poente. Têm não sei que

sacerdotes e profetas, que aparecem raram ente ao povo e m oram nas

m ontanhas. Ao chegarem , faz-se um a grande festa e um a assem bleia solene

de várias tabas (cada granj a, com o descrevi, constitui um a taba, e distam um a

da outra cerca de um a légua francesa). Esse profeta lhes fala em público,

exortando-os à virtude e ao dever, m as toda a m oral deles só contém estes

dois artigos: coragem na guerra e afeição por suas m ulheres. Prognostica-

lhes as coisas vindouras e os resultados que devem esperar de seus

em preendim entos: encam inha-os ou os dissuade da guerra, m as com a

condição de que, caso se engane em suas previsões e lhes aconteça

diferentem ente do que lhes predisse, ele é picado em m il pedaços, se o

agarrarem , e condenado com o falso profeta. Por isso, quem um a vez se

enganou não é m ais visto. A adivinhação é dom de Deus: eis por que abusar

dela deveria ser um a im postura punível. Entre os citas, quando os adivinhos

falhavam eram deitados com ferros nos pés e nas m ãos em cim a de carroças

cheias de urze, puxadas por bois, onde eram queim ados. Aqueles que m anipulam as coisas suj eitas ao governo da com petência hum ana são

desculpáveis se fizeram o que podiam . Mas esses outros, que vêm nos em bair

com garantias de um a faculdade extraordinária, que está fora de nosso

conhecim ento, não devem os puni-los por não m anterem suas prom essas e

pela tem eridade de sua im postura? Eles têm suas guerras contra as nações

que ficam além das m ontanhas, m ais adiante na terra firm e, para as quais vão

inteiram ente nus, não tendo outras arm as além dos arcos ou de espadas de m adeira, afiadas num a ponta, à m oda das ponteiras de nossas lanças. É

adm irável a firm eza de seus com bates, que sem pre term inam em m orte e

efusão de sangue, pois eles não sabem o que é fuga e pavor. Cada um traz

com o troféu a cabeça do inim igo trucidado e a pendura à entrada de sua

casa. Depois de tratar bem por m uito tem po seus prisioneiros, e com todas as

com odidades que podem im aginar, quem for o dono deles faz um a grande

assem bleia com seus conhecidos. Prende um a corda num dos braços do

prisioneiro, por cuj a ponta o segura, afastado alguns passos, tem endo ser

ferido por ele, e dá ao m ais querido am igo o outro braço para que o segure da

m esm a form a; e os dois, em presença de toda a assem bleia, o m atam a

golpes de espada. Feito isso, assam -no e o devoram j untos, e m andam

pedaços aos am igos ausentes. Não é, com o se pensa, para se alim entarem ,

assim com o faziam antigam ente os citas, m as para sim bolizar um a vingança

extrem a. E, com o prova, tendo visto que os portugueses, aliados de seus

inim igos, usavam contra eles, quando os agarravam , outro tipo de m orte, que

consistia em enterrá-los até a cintura e darem no restante do corpo m uitas

flechadas e enforcá-los depois, pensaram que os hom ens desse outro m undo

(pessoas que tinham espalhado pela vizinhança o conhecim ento de m uitos

vícios e que eram m estres m uito m aiores que eles em toda espécie de

m aldade) não em pregavam sem m otivo esse m étodo de vingança, que devia

ser m ais cruel que o deles, tanto assim que com eçaram a abandonar sua

m aneira antiga para seguirem essa outra. Não fico triste por observarm os o

horror barbaresco que há em tal ato, m as sim por, ao j ulgarm os corretam ente

os erros deles, serm os tão cegos para os nossos. Penso que há m ais

barbárie em com er um hom em vivo do que em com ê-lo m orto, em dilacerar

por torm entos e suplícios um corpo ainda cheio de sensações, fazê-lo assar

pouco a pouco, fazê-lo ser m ordido e esm agado pelos cães e pelos porcos

(com o não apenas lem os m as vim os de fresca m em ória, não entre inim igos

antigos, m as entre vizinhos e com patriotas, e, o que é pior, a pretexto de

piedade e religião) do que em assá-lo e com ê-lo depois que está m orto.

Crísipo e Zenão, chefes da escola estoica, pensaram que não havia nenhum

m al em usar nosso cadáver, no que fosse para nossa necessidade, e dele

tirar alim ento, assim com o nossos ancestrais, estando sitiados por César na

cidade de Alésia, decidiram enfrentar a fom e desse cerco com os corpos dos

velhos, das m ulheres, das crianças e de outras pessoas inúteis ao com bate.

Vascones ( fama est) alimentis talibus usi

Produxere animas. 159

Os gascões, dizem , prolongaram sua vida com alim entos sem elhantes.

E os m édicos não tem em servir-se dele para todo tipo de uso, para nossa

saúde; para aplicá-lo sej a interna, sej a externam ente. 160 Mas nunca se encontrou nenhum a opinião tão desregrada que desculpasse a traição, a

deslealdade, a tirania, a crueldade, que são nossos erros habituais. Portanto,

podem os m uito bem cham á-los de bárbaros com relação às regras da razão,

m as não com relação a nós, que os ultrapassam os em toda espécie de

barbárie. A guerra deles é toda nobre e generosa e tem tanta desculpa e

beleza quanto possa perm itir essa doença hum ana; não tem outro fundam ento

entre eles além da busca da virtude. Não estão em luta pela conquista de

novas terras, pois ainda desfrutam dessa fertilidade natural que os abastece,

sem trabalho e sem pena, de todas as coisas necessárias, em tal abundância

que não têm m otivo para aum entar seus lim ites. Ainda estão nesse ponto feliz

de só desej ar tanto quanto suas necessidades naturais lhes ordenam : tudo o

que vai além é, para eles, supérfluo. Em geral, os da m esm a idade cham am -

se m utuam ente de “irm ãos”; de “filhos”, os que são m ais m oços; e os velhos

são “pais” para todos os outros. Estes deixam para os herdeiros a plena

posse dos bens, indivisa, sem outra titulação além daquela m uito pura que a

natureza dá às suas criaturas ao pô-las no m undo. Se seus vizinhos cruzam as

m ontanhas para ir atacá-los e arrebatam -lhes a vitória, a recom pensa do

vitorioso é a glória e o privilégio de ter sido m estre em valentia e virtude, pois

do contrário não ligam para os bens dos vencidos e voltam para seu país onde

não lhes falta nenhum a coisa necessária, tam pouco falta essa grande

qualidade de saber desfrutar de sua condição com felicidade e de se

contentar com ela. Os daqui, por sua vez, fazem o m esm o. Não pedem a seus

prisioneiros outro resgate além da confissão e do reconhecim ento de estarem vencidos; m as não se encontra um , em todo um século, que não prefira a

m orte a abrir m ão, por atitude ou por palavra, de um só ponto da grandeza de

um a invencível coragem . Não se vê nenhum que não prefira ser m orto e

com ido a apenas pedir que não o sej a. Eles os tratam em total liberdade a fim

de que a vida lhes sej a ainda m ais valiosa, e habitualm ente os entretêm com

as am eaças de sua m orte futura, com os torm entos que terão de sofrer, com

os preparativos que se fazem para esse fim , com o destroncam ento de seus

m em bros e com o banquete que farão à sua custa. Faz-se tudo isso com a

única finalidade de arrancar de sua boca um a palavra covarde ou vil, ou dar-

lhes vontade de fugir, de m odo a ganhar o privilégio de tê-los apavorado e

vencido sua firm eza. Pois, bem considerado, é neste único ponto que consiste

a verdadeira vitória:

victoria nulla est

Quam quae confessos animo quoque subjugat hostes. 161

só há vitória quando se obriga o inim igo a confessar-se vencido tam bém

em sua alm a e consciência.

Os húngaros, com batentes m uito belicosos, não prosseguiam outrora sua

vantagem além de ter rendido o inim igo à sua m ercê. Pois, tendo arrancado

essa confissão, deixavam -nos ir sem m aus-tratos, sem resgate; salvo, no

m áxim o, para arrancar-lhes a prom essa de, dali em diante, não se arm arem

contra eles. Muitas das vantagens que ganham os de nossos inim igos são

vantagens em prestadas, não nossas: é qualidade de um carregador ter

braços e pernas m ais rij os, não valentia; a boa constituição física é qualidade im utável e corporal; fazer nosso inim igo tropeçar e ofuscar-lhe os olhos pela

luz do sol é um golpe de sorte; ser hábil na esgrim a, o que pode acontecer a

um a pessoa insignificante e covarde, é um golpe de arte e do saber. O valor e

o preço de um hom em residem no seu coração e na sua vontade: é aí que

está sua verdadeira honra; a valentia é a firm eza, não das pernas e dos

braços, m as do coração e da alm a, não consiste no valor de nosso cavalo

nem de nossas arm as, m as no nosso. Aquele que cai, obstinado em sua

coragem , si succiderit, de genu pugnat. 162se cair, luta de j oelhos.] Quem , por algum perigo de m orte próxim a, não relaxa nenhum grau de sua convicção,

quem ainda olha, ao render a alm a, para o inim igo com olhar firm e e

desdenhoso é derrotado, não por nós, m as pela sorte; é m orto, m as não

vencido: os m ais valentes são por vezes os m ais desafortunados. Assim , há

derrotas triunfantes, com paráveis a vitórias. Nem essas quatro vitórias irm ãs,

as m ais belas que o sol j á viu com seus olhos, as de Salam ina, Plateia, Micala

e Sicília, j am ais ousariam com parar toda a sua glória com a derrocada do rei

Leônidas e dos seus no passo das Term ópilas. Quem j am ais correu com m ais

gloriosa e m ais am biciosa vontade de ganhar no com bate do que o capitão

Íscolas o fez para perdê-lo? Quem m ais engenhosa e cuidadosam ente se

assegurou de sua salvação quanto ele de sua ruína? Estava encarregado de

defender certa passagem do Peloponeso contra os arcadianos; para fazê-lo

se achava totalm ente incapaz, dadas a natureza do lugar e a desigualdade de

forças, e considerando que todo hom em que enfrentasse os inim igos ali

necessariam ente m orreria; por outro lado, estim ando indigno tanto de sua

própria valentia com o de sua m agnanim idade e do nom e lacedem ônio falhar

em sua m issão, tom ou, entre esses dois extrem os, um partido interm ediário,

de tal sorte que m anteve para a proteção e serviço de seu país os m ais

j ovens e bem -dispostos de sua tropa e m andou-os de volta, e com aqueles

cuj a perda pesava m enos deliberou defender o desfiladeiro, e pela m orte

deles cobrar dos inim igos a entrada m ais cara que lhe fosse possível,

conform e aconteceu. Pois estando agora cercado de todos os lados pelos

arcadianos, depois de ter feito deles um a grande carnificina, ele e os seus

foram todos subm etidos ao fio da espada. Existe algum troféu atribuído aos

vencedores que não sej a m ais devido a esses vencidos? A verdadeira vitória

reside no com bate, não na salvação, e a honra da virtude consiste em

com bater, não em abater. Para voltar à nossa história, aqueles prisioneiros

estão tão longe de se renderem , apesar de tudo o que lhes fazem ; ao

contrário, durante esses dois ou três m eses em que ali são m antidos m ostram

um sem blante alegre, pressionam seus donos para se apressarem e subm etê-

los a essa prova, desafiam -nos, insultam -nos, criticam -lhes a covardia e o

núm ero de batalhas perdidas contra os seus. Tenho um a canção com posta

por um prisioneiro, em que há essa ironia: “que eles venham intrepidam ente,

todos sem exceção, e se reúnam para j antá-lo, pois com erão ao m esm o

tem po seus pais e seus ancestrais, que serviram de alim ento e sustento a seu

corpo; esses m úsculos”, diz a canção, “essa carne e essas veias são os

vossos, pobres loucos que sois; não reconheceis que a substância dos

m em bros de vossos ancestrais ainda se m antém aí: saboreai-os bem ,

encontrareis o gosto de vossa própria carne”. Isso não cheira a barbárie de j eito nenhum . Aqueles que os pintam m orrendo e representam essa ação

quando são executados, pintam o prisioneiro cuspindo no rosto dos que os

m atam e fazendo-lhes careta. Na verdade, até o últim o suspiro não cessam de

enfrentá-los e desafiá-los com palavras e gestos. Não é m entir dizer que, em

com paração conosco, esses hom ens são bem selvagens: pois ou é preciso

que o sej am verdadeiram ente, ou que o sej am os; há um a incrível distância

entre o com portam ento deles e o nosso. Lá, os hom ens têm várias m ulheres,

e em núm ero tanto m aior quanto m aior for sua reputação de valentia. É um a

beleza digna de nota que, em seus casam entos, o m esm o ciúm e que nossas

m ulheres têm para im pedir-nos o am or e a benevolência de outras m ulheres,

as deles o têm sem elhante a fim de obtê-las para eles. Sendo m ais

cuidadosas com a honra dos m aridos do que com qualquer outra coisa,

buscam e em pregam sua solicitude para que tenham o m áxim o de

com panheiras que puderem , pois isso é prova da virtude do m arido. Os

nossos gritarão que é m ilagre: não é. É um a virtude propriam ente m atrim onial,

do m ais alto quilate. E na Bíblia, Lea, Raquel, Sara e as m ulheres de Jacó

forneceram suas belas servas aos m aridos, e Lívia facilitou as luxúrias de

Augusto, em detrim ento de si m esm a; e Estratonice, m ulher do rei Dej ótaro,

não só em prestou para uso do m arido um a j ovem cam areira m uito bonita que

a servia com o criou cuidadosam ente os filhos deles e aj udou-os a suceder o pai na posição que ocupava. E a fim de que não se pense que tudo isso se faz

por um a sim ples e servil suj eição à prática dos hom ens, e pela pressão da

autoridade de seus antigos costum es, sem reflexão nem j ulgam ento, e por

terem a alm a estúpida e não poderem tom ar outro partido, é preciso m ostrar

alguns traços de capacidade deles. Além do que acabo de relatar sobre um a

de suas canções guerreiras, tenho outra, de am or, que com eça desta form a:

“Cobra, para, para, cobra, a fim de que m inha irm ã tire do m olde da tua

pintura a form a e o feitio de um rico cordão que darei à m inha am ada; assim ,

sej am para sem pre tua beleza e teu porte preferidos aos de todas as outras

serpentes”. Essa prim eira estrofe é o refrão da canção. Ora, tenho bastante

trato com a poesia para j ulgar: não só não há nada de barbárie nessa

im aginação com o ela é totalm ente anacreôntica. A linguagem deles, de resto,

é um a linguagem doce e de som agradável, parecendo as term inações

gregas. Três dentre eles, ignorando quanto custará um dia ao seu repouso e à

sua felicidade o conhecim ento das corrupções daqui, e que desse com ércio

nascerá sua ruína, com o pressuponho que j á estej a avançada (por terem

m iseravelm ente se deixado em bair pelo desej o da novidade e terem largado a

suavidade de seu céu para virem ver o nosso), estiveram em Rouen na época

em que o finado rei Carlos IX lá estava. O rei falou com eles por m uito tem po,

fizeram -nos ver nossos m odos, nossa pom pa, a form a de um a bela cidade;

depois disso, alguém lhes pediu sua opinião e quis saber o que tinham achado

de m ais adm irável. Responderam três coisas, e estou m uito aborrecido por ter

esquecido a terceira, m as ainda tenho duas na m em ória. Disseram que em

prim eiro lugar achavam m uito estranho que tantos hom ens grandes usando

barba, fortes e arm ados, que estavam em volta do rei (é provável que

falassem dos suíços de sua guarda), se suj eitassem a obedecer a um a

criança, e que não escolhessem , de preferência, alguém entre eles para com andar. Em segundo (eles têm um a tal m aneira de se expressar na sua