Os Ensaios
Sobre a inconstância de nossas ações
nossa língua e nossa razão disparatam .
Ora é o corpo que prim eiro se rende à velhice, ora tam bém é a alm a. E vi
m uitos que ficaram com o cérebro enfraquecido antes do estôm ago e das
pernas; e com o é um m al pouco sensível para quem dele sofre, e difícil de
ver, é m ais perigoso ainda. Por isso m esm o, queixo-m e das leis, não porque
nos m antêm tarde dem ais no trabalho, m as porque nele nos colocam m uito
tarde. Parece-m e que, considerando a fraqueza de nossa vida, e a quantos
escolhos costum eiros e naturais está exposta, não se deveria dar tão grande
im portância ao crescim ento, aos j ogos infantis e ao aprendizado.
LIVRO SEGUNDO
Sobre a inconstância de nossas ações
Capítulo I
No francês de Montaigne, inconstance é um termo que engloba volubilidade,
variabilidade e inconsistência de comportamento. Em latim, constantia era
um dos ideais da filosofia estoica. Se terminou o Livro I com a noção de
aprendizado, agora se volta corajosamente para novas áreas de exploração
de si mesmo e da natureza do homem, considerando que estamos sujeitos à
volubilidade e marcados por qualidades inconsistentes. Este capítulo
corresponderia ao primeiro capítulo do Livro I. Centrado numa reflexão sobre
o método, visa a refletir sobre como conseguimos conhecer o homem. A
tarefa se complica com a inconstância de nossas ações, a ausência de
qualquer continuidade e coerência. Montaigne tenta responder a essa aporia
introduzindo uma lógica mais sutil, a do distingo, termo da lógica neoescolástica que consiste em dividir os argumentos em binaridades, de
acordo com princípios de oposição. Ele pode ter se inspirado no método de
raciocínio de seu professor Nicolas de Grouchy, cujo livro Praeceptiones
dialecticae estava no programa do Colégio de Guyenne, e em Jacques
Dubois, cujos cursos seguiu em Paris.
Os que se em penham em exam inar as ações hum anas j am ais ficam tão
atrapalhados com o para j untá-las e apresentá-las sob a m esm a luz, pois
com um ente elas se contradizem de m odo tão estranho que parece im possível
que venham da m esm a m atriz. O j ovem Mário ora parece filho de Marte, ora
filho de Vênus. Dizem que o papa Bonifácio VIII assum iu seu cargo com o um a
raposa, portou-se com o um leão e m orreu com o um cão. E quem diria que foi
Nero, essa verdadeira im agem de crueldade, quem respondeu, quando lhe
apresentaram para assinar, seguindo a praxe, a sentença de um crim inoso
condenado: “Prouvera a Deus que eu j am ais tivesse aprendido a escrever”, de
tal form a lhe apertava o coração condenar à m orte um hom em ? Tudo está tão
cheio de exem plos assim , e até m esm o qualquer um de nós pode encontrar
tantos outros por si m esm o, que estranho ver gente de bom -senso ter às
vezes trabalho para j untar essas peças, visto que a irresolução m e parece o
vício m ais com um e aparente de nossa natureza, com o o atesta este fam oso
verseto de Públio, o satírico,
Malum consilius est, quot mutari non potest. 209
Mau proj eto este que não se pode m udar.
Há algum a razão em fazer o j ulgam ento de um hom em pelos aspectos m ais com uns de sua vida; m as, tendo em vista a natural instabilidade de nossos
costum es e opiniões, m uitas vezes m e pareceu que m esm o os bons autores
estão errados em se obstinarem em form ar de nós um a ideia constante e
sólida. Escolhem um caráter universal e, seguindo essa im agem , vão
arrum ando e interpretando todas as ações de um personagem , e, se não
conseguem torcê-las o suficiente, atribuem -nas à dissim ulação. Augusto
escapou-lhes, pois encontra-se nesse hom em , durante toda a sua vida, um a
variedade de ações tão clara, súbita e contínua, que os m ais ousados j uízes
renunciaram a j ulgá-lo em seu conj unto e tiveram de deixá-lo indefinido, sem
veredicto a seu respeito. Creio m ais dificilm ente na constância dos hom ens do
que em qualquer outra coisa, e em nada m ais facilm ente do que na
inconstância. Quem os j ulgasse nos porm enores e separadam ente, peça por
peça, teria m ais ocasiões de dizer a verdade. Em toda a Antiguidade é difícil
escolher um a dúzia de hom ens que tenham ordenado sua vida num proj eto
definido e seguro, que é o principal obj etivo da sabedoria. Pois para resum i-la
por inteiro num a só palavra e abranger em um a só todas as regras de nossa
vida, a sabedoria, diz um antigo, “é sem pre querer a m esm a coisa, é sem pre
não querer a m esm a coisa”; “eu não m e dignaria”, diz ele, “a acrescentar
‘contanto que a tua vontade estej a certa’, pois se não está certa, é im possível
que sem pre sej a um a só e a m esm a”. 210 Na verdade, aprendi outrora que o vício é apenas o desregram ento e a falta de m oderação; e, por conseguinte, é
im possível o im aginarm os constante. É um a frase de Dem óstenes, dizem , que
“o com eço de toda virtude são a reflexão e a deliberação, e seu fim e sua
perfeição, a constância”. Se, guiados pela reflexão, pegássem os certa via,
pegaríam os a m ais bela, m as ninguém pensa antes de agir,
Quod petiit, spernit, repetit quod nuper omisit,
Aestuat, et vitae disconvenit ordine toto. 211
O que ele pediu, desdenha; exige o que acaba de abandonar; agita-se e
sua vida não se dobra a nenhum a ordem .
Nosso m odo habitual é seguir as inclinações de nosso desej o, para a
esquerda, para a direita, para cim a, para baixo, conform e nos leva o vento
das ocasiões: não pensam os no que querem os a não ser no instante em que o
querem os, e m udam os com o esse anim al que tom a a cor do lugar onde o
colocam os. O que nos propusem os há pouco, ora logo m udam os, e ora, de
novo, voltam os atrás: tudo não passa de oscilação e inconstância.
Ducimur ut nervis alienis mobile lignum. 212
Som os levados com o um a m arionete de m adeira pelos m úsculos de outro.
Não vam os, som os levados: com o as coisas que flutuam , ora suavem ente, ora
com violência, dependendo se a água está revolta ou serena.
Nonne videmus
Quid sibi quisque velit nescire, et quaerere semper,
Commutare locum quasi onus deponere possit? 213
Então não vem os que ninguém sabe o que quer, e que procuram os sem
cessar, m udam os de lugar, com o se pudéssem os assim descarregar o
fardo?
Cada dia um a nova fantasia, e nossos hum ores se m ovem j unto com os
m ovim entos do tem po:
Tales sunt hominum mentes, quali pater ipse
Juppiter auctifero lustravit lumine terras. 214
Os espíritos dos hom ens são sem elhantes ao raio com que o próprio pai,
Júpiter, banhou a terra com um a luz fecunda.
Flutuam os entre diversas opiniões: nada querem os livrem ente, nada
absolutam ente, nada constantem ente. Em quem tivesse prescrito e
estabelecido no espírito certas leis e certo proj eto, veríam os tudo, em toda a
sua vida, reluzir um a uniform idade de com portam entos, um a ordem e um a
relação infalível de um as coisas com as outras. (Em pédocles observava essa
deform idade entre os agrigentinos, que se entregavam às delícias com o se
devessem m orrer am anhã, e construíam com o se nunca devessem m orrer.)
Seria m uito fácil dar um a explicação a isso. Com o se vê com Catão, o Moço,
quem nele toca um a tecla toca todas, pois há um a harm onia de sons m uito
bem afinados que ninguém pode negar. Conosco, ao contrário, são tantas
ações quantos j uízos particulares. O m ais seguro, a m eu ver, seria referi-las
às circunstâncias próxim as, sem entrar em pesquisa m ais longa e sem disso
tirar outra conclusão. Durante as desordens de nosso pobre país, contaram -
m e que um a m oça, bem perto daqui onde m e encontro, se j ogara do alto de
um a j anela para evitar a brutalidade do soldado pulha acam pado em sua casa;
não m orreu na queda e, para repetir a tentativa, quis enfiar um a faca na
garganta m as a im pediram ; depois de ter se ferido bastante, ela m esm a
confessou que o soldado ainda não a havia pressionado a não ser com
pedidos, solicitações e presentes, m as que ela ficara com m edo de que no final ele a violentasse. Daí os gritos, a atitude e aquele sangue, prova de sua
virtude, à verdadeira m oda de um a outra Lucrécia. 215 Ora, eu soube que, na verdade, antes e depois ela fora m oça não tão difícil nem arisca. Com o diz o
conto, “por m ais belo e honesto que sej as, quando tiveres falhado em teu
ataque não concluas, incontinente, por um a castidade inviolável de tua am ante:
isso não quer dizer que o arreeiro não tenha vez com ela”. Antígono, que se
afeiçoara a um de seus soldados por sua virtude e valentia, m andou seus
m édicos tratarem dele por um a doença longa e interna que o atorm entara
m uito tem po; percebendo que, depois da cura, ele cum pria as tarefas m uito
m ais friam ente, perguntou-lhe quem o m odificara assim e o acovardara: “Vós m esm o, senhor”, respondeu-lhe, “tendo m e aliviado dos m ales que m e faziam
não levar em conta m inha vida”. Um soldado de Lúculo, ao ser roubado pelos
inim igos, organizou contra eles, para se vingar, um belo ataque. Quando se
recuperou da perda, Lúculo, que o tinha em boa conta, em pregou-o em um a
façanha perigosa, com todas as exortações m ais belas que podia im aginar:
Verbis quae timido quoque possent addere mentem:216
Com palavras que poderiam dar coragem até m esm o ao covarde:
“Mandai para isso”, ele respondeu, “algum pobre soldado roubado.”
quantumvis rusticus ibit,
Ibit eu, quo vis, qui zonam perdidit, inquit217
por m ais rústico que fosse, ele respondeu: “Irá, irá aonde queres aquele
que perdeu sua bolsa”
e recusou-se term inantem ente a ir. Lem os que Maom é, 218 tendo inj uriosam ente m altratado Xasan, chefe dos seus j anízaros, por ver sua tropa
derrotada pelos húngaros e por ter ele se portado covardem ente no com bate,
teve com o única resposta ver Xasan precipitar-se furioso, sozinho, no estado
em que se encontrava, arm as em punho, sobre o prim eiro pelotão inim igo que
se apresentou, pelo qual foi repentinam ente tragado. Talvez não o tenha
m ovido tanto o desej o de se j ustificar com o um a reviravolta de sentim entos;
não tanto a valentia natural com o um despeito. Quem ontem vistes tão
coraj oso, não achais estranho vê-lo no dia seguinte tão poltrão: ou a cólera,
ou a necessidade, ou a com panhia, ou o vinho, ou o som de um a trom beta,
infundiram -lhe coragem no coração; não foi o raciocínio que lhe deu coragem ,
m as aquelas circunstâncias que o fortaleceram ; não espanta se for
transform ado em outro por outras circunstâncias contrárias. Essa variação e
essa contradição que vem os em nós, tão m utáveis, levaram alguns a im aginar
que tem os duas alm as, outros, duas forças que nos acom panham e atuam ,
cada um a à sua m aneira, um a para o bem , outra para o m al: um a diversidade
tão brusca não pode associar-se a um suj eito sim ples. Não só o vento dos
acontecim entos m e agita conform e sua inclinação, com o, além disso, eu
m esm o m e agito e m e atorm ento pela instabilidade de m inha postura; e quem
se observa de perto raram ente se vê duas vezes no m esm o estado. Dou à
m inha alm a ora um aspecto, ora outro, segundo o lado por onde a exam ino.
Se falo de m im de diversos m odos é porque m e observo de diversos m odos.
Em m im encontram -se, de um j eito ou de outro, todas as contradições:
envergonhado, insolente, casto, libidinoso, tagarela, taciturno, trabalhador,
lânguido, engenhoso, tolo, triste, j ovial, m entiroso, sincero, sábio, ignorante, e
generoso, e avarento e pródigo: vej o tudo isso em m im de um a certa m aneira, conform e eu m e exam ino. E quem se estuda bem atentam ente encontra em si,
e até em seu próprio j ulgam ento, essa volubilidade e essa discordância. Não
tenho nada a dizer de m im , integralm ente, sim plesm ente, e solidam ente, sem
confusão e sem m istura, nem num a só palavra. Distingo219 é o term o m ais geral de m inha lógica. Ainda que eu sej a sem pre da opinião de falar bem do
bem e interpretar de m odo favorável as coisas que podem sê-lo, a
singularidade de nossa condição resulta, contudo, em que não raro o próprio
vício nos leva a bem -fazer, se o bem -fazer não se definisse apenas pela
intenção que o determ ina. Por isso um feito coraj oso não deve nos levar a
concluir que um hom em valente o praticou: quem o foi naquele ato o seria
sem pre, em todas as ocasiões; se fosse um hábito de virtude e não um
ím peto, esse hom em se tornaria igualm ente decidido em todas as
circunstâncias, tanto sozinho com o acom panhado, tanto em cam po de duelo
com o num a batalha. Pois, diga-se o que se disser, não há um a valentia na
cidade e outra no cam po de guerra. Tão coraj osam ente ele suportaria um a
enferm idade em seu leito com o um ferim ento no cam po, e não tem eria m ais a
m orte em casa do que num a investida. Não veríam os um m esm o hom em
atirar-se num a brecha com destem ida bravura e, em seguida, atorm entar-se
com o um a m ulher pela perda de um processo ou de um filho. Quando é
covarde diante da infâm ia e firm e diante da pobreza; quando, frouxo diante
das navalhas dos barbeiros, encontra-se teso diante das espadas dos
adversários, o ato é louvável, não o hom em . Vários gregos, diz Cícero, não
conseguem ver os inim igos m as m ostram -se firm es nas doenças. Os cim bros
e celtiberos, j usto o contrário. Nihil enim potest esse aequabile, quod non a
certa ratione proficiscatur. 220 Com efeito, nada pode ser estável que não parta de um princípio determ inado.] Não há valentia m ais extrem a, em seu gênero,
que a de Alexandre, m as só no seu gênero, nem com pleta o suficiente nem
universal. Por m ais incom parável que sej a, ainda tem suas falhas, o que nos
faz vê-lo tão perdidam ente perturbado com as m ais leves suspeitas de
conspirações dos seus contra sua vida; e portar-se, nessa investigação, com
um a inj ustiça tão veem ente e indiscreta, e um tem or que subverte sua razão
natural. A superstição que o atingia com tanta força traz um a im agem de
pusilanim idade. E a exagerada penitência que dem onstrou no assassínio de
Clito tam bém é prova da desigualdade de sua coragem . Nosso
com portam ento são apenas peças costuradas e querem os que nos honrem
quando não m erecem os. A virtude só quer ser praticada por si m esm a; e se às vezes para outro fim tom am os sua m áscara, ela logo a arranca de nosso
rosto. É um verniz vivo e forte, que quando im pregna nossa alm a não se vai
sem levar-lhe um pedaço. Eis por que, para j ulgar um hom em , é preciso seguir
longa e cuidadosam ente seu rastro; se sua constância não se m antém por si
só, Cui vivendi via considerata atque provisa est, 221Àquele que refletiu sobre sua vida, que a prem editou,] se a variedade das circunstâncias o faz m udar de
passo (digo de cam inho, pois é possível apressar ou dim inuir o passo), deixai-
o correr: este aí vai ao sabor do vento, com o reza a divisa de nosso Talbot. 222
Não é de espantar, diz um antigo, que o acaso tenha tanto poder sobre nós,
pois vivem os ao sabor do acaso. Para quem não orientou, de m odo geral, sua
vida para certo fim , é im possível organizar seus atos em particular. Para quem
não tem na cabeça um a form a do todo, é im possível arrum ar os elem entos.
Para que fazer provisão de tintas quem não sabe o que deve pintar? Ninguém
faz o plano exato de sua vida, e só deliberam os m om ento a m om ento. O
arqueiro deve prim eiram ente saber onde m ira, e depois aj ustar a m ão, o arco,
a corda, a flecha e os m ovim entos. Nossos proj etos desencam inham -se
porque não têm direção nem obj etivo. Nenhum vento serve para quem não tem
porto de chegada. Não concordo com a sentença dada em favor de Sófocles
no processo feito contra ele por seu filho, que o acusava; não é por ter visto
um a de suas tragédias que era possível considerá-lo capaz para a
adm inistração das coisas dom ésticas. Nem acho a conclusão dos pários,
enviados para reform ar o governo dos m ilésios, suficiente para a
consequência que daí tiraram . Ao visitarem a ilha, observaram as terras m ais
bem cultivadas e as casas cam pestres m ais bem governadas; e tendo
registrado o nom e de seus donos, quando fizeram a assem bleia dos cidadãos
na cidade os nom earam com o novos governadores e m agistrados,
considerando que, cuidadosos com seus negócios privados, o seriam com os
públicos. Som os todos feitos de peças separadas, e num arranj o tão disform e
e diverso que cada peça, a todo instante, faz seu próprio j ogo. E há tanta
diferença entre nós e nós m esm os com o entre nós e outro. Magnam rem
puta, unum hominem agere.223 Considera que é um grande negócio ser sem pre um m esm o hom em .] Se a am bição pode ensinar aos hom ens tanto a
coragem com o a tem perança, e a liberalidade, e m esm o a j ustiça; se a
cupidez pode infundir no coração de um caixeiro, criado na indolência e no
ócio, a confiança de se lançar tão longe do lar dom éstico, à m ercê das ondas
e de Netuno enfurecido, num frágil barco, e ainda lhe ensina o discernim ento e