Os Ensaios
Sobre a educação das crianças
m orte pela qual um criado ou um a cam areira passaram ultim am ente sem
m edo. Feliz a m orte que não deixa tem po para os aprestos de tal viagem .
Sobre a educação das crianças
À senhora Diane de Foix, condessa de Gurson
Capítulo XXV76
Trata-se do capítulo mais longo e mais conhecido do Livro I. Muito cedo este
ensaio teve uma divulgação à parte, contemporânea da edição póstuma: foi
traduzido para o inglês em 1598, cinco anos antes da publicação da versão
completa de Os ensaios. O desenvolvimento do capítulo se inscreve num
duplo debate, aquele que opõe as armas e as letras, verdadeiro fio condutor
de Os ensaios, e o debate pedagógico sobre a educação da nobreza. Propõe
um plano de educação aristocrática, que tem como objetivo a formação da
virtude, junto com a civilidade. Montaigne toma posição contra a formação
meramente escolar, ministrada no colégio, que então recebiam os filhos da
nobreza. Encorajado a escrever mais detidamente sobre como educar os
meninos, fala de sua própria educação. Ao pensar nos métodos delicados
com que seu pai o educou, baseados em estimular o amor e o entusiasmo
das crianças pelo aprendizado, faz uma digressão sobre reis e magistrados,
que são os pais do povo, portanto devem usar métodos similares. Demonstra
seu crescente respeito por Platão, para quem os livros eram os “filhos”
preferidos das mentes superiores.
Nunca vi um pai que, por m ais corcunda ou tinhoso que fosse seu filho,
deixasse de reconhecê-lo com o seu, não sem porém perceber seu defeito, a m enos que estej a totalm ente inebriado por esse afeto; m as, sej a com o for, é
o seu. O m esm o se aplica a m im : vej o m elhor que qualquer outro que estes
m eus escritos não passam de devaneios de hom em que das ciências provou
apenas a prim eira casca, na infância, e delas só reteve um a ideia geral e
disform e: de cada coisa um pouco, de profundo, nada, à francesa. Pois, em
sum a, sei que há um a m edicina, um a j urisprudência, quatro partes na
m atem ática, 77 e grosseiram ente a que elas visam . E possivelm ente tam bém conheço a am bição das ciências em geral a serviço de nossa vida; m as
em brenhar-m e m ais adiante, ter roído as unhas no estudo de Aristóteles,
m onarca da doutrina m oderna, ou m e obstinado em algum a ciência, isso nunca
fiz, nem isso é arte de que eu pudesse pintar sequer os prim eiros lineam entos.
E não há aluno dos cursos m édios que não possa se dizer m ais sábio que eu,
que não tenho sequer com o interrogá-lo sobre sua prim eira lição. E se a isso
m e forçam , sou obrigado, um tanto ineptam ente, a dela derivar algum assunto
de cunho universal, com o qual exam ino seu discernim ento natural: lição que
lhe é tão desconhecida com o para m im a dele. Não travei relações com
nenhum livro sólido, a não ser Plutarco e Sêneca, em que m e abasteço com o
as Danaides, enchendo-m e deles e os despej ando sem parar. Deles fixo
algum a coisa neste papel, em m im , quase nada. A história é m inha caça em
m atéria de livros, ou a poesia, que am o com especial pendor, pois, com o dizia
Cleanto, assim com o o som com prim ido no tubo estreito de um a trom beta sai
m ais agudo e m ais forte, assim m e parece que a frase, com prim ida pelo
núm ero de pés da poesia, se lança bem m ais abruptam ente e golpeia-m e com
m ais vivo abalo. Quanto às faculdades naturais que existem em m im , de que
faço aqui a prova, sinto-as vergar sob a carga: m inhas concepções e m eu
j ulgam ento andam sem pre às apalpadelas, cam baleando, tropeçando e dando
passos em falso; e quando fui o m ais longe que pude, não fiquei, porém , nem
um pouco satisfeito. Ainda avisto terra m ais além , que com m eus olhos turvos
e nublados não consigo decifrar. E em preendendo falar indiferentem ente de tudo o que se apresente à m inha im aginação, e só em pregando m eus m eios
próprios e naturais, se m e acontece, com o costum a acontecer, de porventura
encontrar nos bons autores esses m esm os tem as que decidi tratar, com o
agora m esm o acabo de ver em Plutarco seu discurso sobre a força da
im aginação, e nesse caso, ao reconhecer que sou tão fraco e irrisório, tão
lerdo e tão indolente, com parado com essas pessoas, sinto pena ou desprezo
de m im m esm o. Assim , felicito-m e por m inhas opiniões terem a honra de
quase sem pre coincidir com as deles, e de, em bora de longe, pelo m enos
segui-las e aprová-las. E tam bém tenho isso que nem todos têm , que é
conhecer a extrem a diferença entre m im e eles: e deixo, entretanto, correr
m inhas ideias fracas e m odestas tal com o as produzi, sem rebocá-las nem
rem endar os defeitos que essa com paração m e fez descobrir. É preciso ter
costados bem firm es para decidir andar om bro a om bro com essas pessoas.
Os escritores insensatos de nosso século, que entre suas obras nulas vão
sem eando trechos inteiros dos autores antigos para honrar a si próprios,
fazem o contrário. Pois essa infinita dessem elhança de brilho dá ao que é
deles um sem blante tão pálido, tão apagado e tão feio que com isso perdem
m uito m ais do que ganham . Houve duas concepções opostas: o filósofo Crísipo m isturava em seus livros não só passagens m as obras inteiras de
outros autores, e, num deles, a Medeia de Eurípides. Dizia Apolodoro que
caso se suprim isse o que ele tinha de alheio, seu papel ficaria em branco.
Epicuro, ao contrário, em trezentos volum es que deixou não pôs um a só
citação. Aconteceu-m e, outro dia, cair num desses trechos; eu m e arrastara
languidam ente atrás de palavras francesas, tão exangues, tão descarnadas e
tão vazias de m atéria e de sentido que realm ente não eram senão palavras
francesas; ao fim de um longo e tedioso cam inho, vim a encontrar um trecho
superior, rico e elevado até as nuvens. Se eu tivesse achado a ladeira suave e
a subida um pouco longa, ainda teria sido desculpável, m as era um precipício
tão abrupto e tão escarpado que desde as seis prim eiras palavras com preendi
que m e alçava a um outro m undo; de lá descobria o atoleiro de onde vinha,
tão baixo e tão profundo, que nunca m ais tive coragem de descer ali de novo.
Se eu estofasse com esses ricos despoj os um de m eus discursos, ele
ilum inaria dem ais a tolice dos outros. Repreender em outro m eus próprios
erros parece-m e tão pouco incom patível quanto repreender, com o costum o
fazer, os dos outros em m im . É preciso condená-los em qualquer lugar e tirar-
lhes toda ocasião de ficar im punes. Assim , bem sei com que atrevim ento eu
m esm o m e em penho, todas as vezes, em igualar-m e às m inhas pilhagens, ir
par a par com elas, não sem um a tem erária esperança de que consiga
enganar os olhos dos j uízes que as discernem . Mas é m ais por m inha m aneira de utilizá-las do que pelo m odo de descobri-las ou por algum a força m inha. E
depois, não enfrento abertam ente e no corpo a corpo esses velhos cam peões:
é por ataques m iúdos e leves, repetidos. Não m e choco com eles, apenas os
apalpo e j am ais vou tão longe quanto m e disponho a ir. Se pudesse j ogar de
igual para igual com eles, seria hom em hábil, pois só os enfrento por onde são
os m ais fortes. Fazer o que apontei em alguns, que é proteger-se sob as
arm as de outro a ponto de não m ostrar nem m esm o a ponta dos dedos, levar
adiante seu plano (com o é fácil para os eruditos, em assunto corrente) à
som bra dos tem as tratados pelos antigos, rem endados aqui e ali, querendo
escondê-los e apropriar-se deles, digo que isso é, prim eiram ente, inj ustiça e
covardia, pois, não tendo nada de seu com que possam se m ostrar, procuram
apresentar-se com valores totalm ente alheios; e depois, isso é um a grande
tolice, pois contentam -se, por trapaça, em conquistar a ignorante aprovação
do vulgo, desacreditando-se j unto às pessoas cultas, as únicas cuj o elogio tem
peso e que torcem o nariz para essa incrustação de em préstim o. De m inha
parte, não há nada que queira m enos fazer. Só falo dos outros para m elhor
falar de m im . Isso não diz respeito aos centões, 78 que são publicados com o centões, e de que vi, no m eu tem po, alguns m uito engenhosos, entre outros
um com o nom e de Capilupo, além dos antigos. São autores que se fazem
notar tanto por outros m odos com o por este, a exem plo de Justo Lipsio nessa
douta e laboriosa tessitura de suas Políticas. Sej a com o for, quero dizer, e
quaisquer que sej am estas inépcias, 79 que decidi não escondê-las, com o tam pouco esconderia um retrato m eu calvo e grisalho em que o pintor tivesse
posto não um rosto perfeito m as o m eu. Pois bem , aqui estão m eus hum ores
e opiniões: escrevo-os por serem aquilo em que creio, não por serem aquilo
em que se deva crer. Aqui só tenciono descobrir a m im m esm o, que am anhã
porventura será outro se nova aprendizagem m e m udar. Não tenho nenhum a
autoridade para que creiam em m im , nem o desej o, sentindo-m e m uito m al
instruído para instruir os outros. Alguém , pois, tendo visto o ensaio
precedente, 80 dizia-m e em m inha casa, outro dia, que eu deveria ter m e estendido um pouco sobre o discurso da educação das crianças. Ora, m inha
senhora, tivesse eu algum a com petência nesse assunto e não poderia m elhor
em pregá-la senão oferecendo-a a este que am eaça fazer, breve, um a bela
irrupção dentro de vós (sois m uito nobre para com eçar de outra form a que
não por um varão). Pois tendo tido tão grande participação na conclusão de
vosso casam ento, tenho algum direito e interesse pela grandeza e
prosperidade de tudo o que dele vier; além do que, a velha possessão que
tendes de m eu serviço81 obriga-m e bastante a desej ar honra, bens e êxito a
tudo o que vos toca. Mas na verdade, do assunto só entendo isto: a m aior e m ais im portante dificuldade da ciência hum ana parece estar nesse ponto em
que se trata da criação e da educação dos filhos. Assim com o na agricultura
as operações anteriores ao plantio são precisas e fáceis, e até m esm o o
plantio, m as, desde que a planta com eça a tom ar vida, são grandes a
variedade de m odos de cultivá-la e as dificuldades, assim tam bém com os
hom ens há pouca arte para plantá-los, m as desde que nascem encarregam o-
nos de cuidados diferentes, cheios de preocupações e tem or para criá-los e
educá-los. As m anifestações de suas tendências são tão delicadas e tão
obscuras nessa tenra idade, as prom essas são tão incertas e falsas, que é
difícil estabelecer um j ulgam ento sólido. Vej a-se Cím on, vej am -se Tem ístocles
e m il outros, com o se revelaram diferentes do que prom etiam . Os filhotes dos
ursos e dos cães m ostram sua propensão natural; m as os hom ens, apegando-
se incontinente a costum es, opiniões, leis, m udam ou se dissim ulam
facilm ente. Assim , é difícil forçar as propensões naturais; e disso decorre que,
por falta de bem ter escolhido seu cam inho, frequentem ente se trabalha para
nada e perde-se m uito tem po em criar as crianças para coisas em que não
conseguem tom ar pé. Todavia, sobre essa dificuldade m inha opinião é que
sej am sem pre encam inhadas para as coisas m elhores e m ais proveitosas, e
que se deve dar pouco crédito a esses presságios levianos e prognósticos
que form am os do com portam ento da infância. Platão, em sua República,
parece-m e dar-lhe dem asiada im portância. Minha senhora, o conhecim ento é
um grande ornam ento e um instrum ento de m aravilhosa utilidade, em especial
para as pessoas criadas em tão alto grau de fortuna, com o vós. Na realidade,
ele não encontra seu verdadeiro uso em m ãos ignóbeis e baixas. É bem m ais
orgulhoso ao em prestar seus recursos para se conduzir um a guerra,
com andar um povo, granj ear a am izade de um príncipe ou de um a nação
estrangeira, do que para com por um argum ento dialético ou para pleitear num
tribunal de recursos ou prescrever um am ontoado de pílulas. Assim , senhora,
porque creio que não havereis de esquecer essa parte na educação dos
vossos, vós, que saboreastes sua doçura e que sois de um a fam ília letrada
(pois ainda possuím os os escritos dos antigos condes de Foix, de quem o
senhor conde, vosso m arido, e a senhora descendeis; e François, senhor de
Candale, vosso tio, na verdade faz surgirem outros todos os dias, que
estenderão a vários séculos o conhecim ento dessa qualidade de vossa
fam ília), quero dizer-vos a esse respeito um a só concepção que tenho, contrária à regra com um : é tudo o que posso oferecer a vosso serviço nessa
m atéria. A m issão do preceptor que dareis a vosso filho, de cuj a escolha
depende todo o resultado de sua educação, tem vários outros elem entos m as
neles não toco por não saber m ostrar-vos nada que valha; e quanto ao ponto em que m e introm eto e vos dou um a opinião, ele há de m e acreditar na
m edida em que lhe for convincente. Para um a criança de fam ília nobre que
procura as letras, não pelo ganho (pois um obj etivo tão abj eto é indigno da
graça e do favor das Musas, e além disso diz respeito a outros, de quem
depende) e nem tanto pelas vantagens externas, m as pelas suas próprias, e
para se enriquecer e ornar-se por dentro, tendo m ais vontade de tornar-se
hom em hábil do que hom em erudito, gostaria tam bém que se tivesse o
cuidado de lhe escolher um preceptor com a cabeça m ais benfeita do que
bem recheada; e que dele se exigissem essas duas coisas, porém m ais os
costum es e a inteligência do que o conhecim ento, e que em seu cargo ele se
conduzisse de um a nova m aneira. Os professores não param de gritar em
nossos ouvidos, com o quem entornasse o conhecim ento num funil: nossa
tarefa seria apenas repetir o que nos disseram . Gostaria que ele corrigisse
essa prática e que desde o início, segundo a capacidade do espírito que tem
em m ãos, com eçasse a pô-lo na raia, fazendo-o provar, escolher e discernir
as coisas por si m esm o. Ora abrindo-lhe o cam inho, ora deixando-o abrir. Não
quero que só o preceptor invente e fale: quero que, quando chegar a vez de
seu discípulo, o escute falar. Sócrates e m ais tarde Arcesilau m andavam
prim eiram ente seus discípulos falarem , e só depois lhes falavam . Obest
plerumque iis, qui discere volunt, auctoritas eorum, qui docent. 82A autoridade dos que querem ensinar é, no m ais das vezes, nociva para os que querem
aprender.] É bom que o faça trotar à sua frente para j ulgar sua andadura e
avaliar até que ponto deve se pôr em seu nível para adaptá-lo à sua força. Se
não respeitam os esse equilíbrio, estragam os tudo. E saber escolhê-lo e
conduzir-se com edidam ente é um a das m ais árduas tarefas que conheço; e é
ato de um a alm a m uito elevada e forte saber condescender com esses
passos pueris e guiá-los. Meu passo é m ais firm e e m ais seguro subindo que
descendo. Para aqueles que, com o é nosso costum e, em preendem com a
m esm a lição e o m esm o grau de com ando ensinar a vários espíritos de
form as e capacidades tão diversas, não é espantoso se em toda um a
população de crianças encontrem apenas duas ou três que tiram algum
m erecido fruto do ensino. Que ele não lhe peça contas som ente das palavras
de sua lição m as do sentido e da substância. E que j ulgue o proveito que a
criança terá tirado, não pelo testem unho de sua m em ória m as pelo de sua
vida. Que a faça m ostrar com cem feições diferentes o que tiver acabado de
aprender, adaptando-o a outros tantos diversos assuntos para ver se
aprendeu realm ente e assim ilou, avaliando sua progressão por m eio dos
pedagogism os de Platão. Regurgitar a com ida tal com o a engolim os é sinal de
sua crueza e de indigestão: o estôm ago não fez seu trabalho se não m udou o estado e a form a do que lhe foi dado a digerir. Nosso espírito só se m ove sob
a influência de outro, ligado e vinculado ao bom prazer das fantasias alheias,
servo e escravizado à autoridade da lição de quem lhe ensinou. Tanto nos
subm eteram às andadeiras que j á não tem os os passos soltos: nosso vigor e
nossa liberdade se extinguiram . Numquam tutelae suae fiunt. 83Nunca eles se tornam seus próprios tutores.] Vi pessoalm ente (em privado) em Pisa um
hom em honrado, m as tão aristotélico que o m ais básico de seus dogm as é: a
pedra de toque e a regra de todos os pensam entos sólidos e de qualquer
verdade são a conform idade à doutrina de Aristóteles, que tudo viu e tudo
disse, e fora daí há apenas quim eras e inanidade. Essa sua proposição, por
ter sido interpretada de form a iníqua e um tanto am pla dem ais, o pôs outrora
em grande perigo diante da Inquisição em Rom a. 84 Que o preceptor faça o m enino tudo passar pelo próprio crivo e que nada aloj e em sua cabeça por
sim ples autoridade ou confiança. Que os princípios de Aristóteles não lhe
sej am princípios, não m ais que os dos estoicos ou dos epicuristas; que lhe
proponham essa diversidade de j ulgam entos e ele escolherá, se puder, do
contrário perm anecerá na dúvida.
Che non men che saper dubbiar m’aggrada. 85
E, não m enos que saber, duvidar m e agrada.
Pois se adotar as opiniões de Xenofonte e Platão por seu próprio raciocínio, não serão m ais as deles, serão as suas. Quem segue um outro não segue
nada; não encontra nada: quiçá, não procure nada. Non sumus sub rege, sibi
quisque se vindicet.86Não estam os sob um rei, que cada um disponha livrem ente de si m esm o.] Que ele saiba, ao m enos, que sabe. Precisa
im pregnar-se de seus hum ores, e não aprender seus preceitos; e que
esqueça ousadam ente, se quiser, onde os obtém , m as que deles saiba se
apropriar. A verdade e a razão são com uns a toda a gente e pertencem tanto
a quem as disse prim eiro com o a quem as disse depois. E um a coisa não é
m ais segundo Platão do que segundo eu m esm o: pois ele e eu
com preendem os e vem os da m esm a form a. As abelhas libam as flores aqui e
ali m as depois fazem o m el, que é todo delas; não é m ais tom ilho nem
m anj erona. Assim , ele transform ará os elem entos em prestados de outro e os
fundirá para fazer um a obra toda sua, a saber, seu j ulgam ento, sua educação,
seu trabalho e seu estudo, que só visam a form á-lo. Que esconda tudo a que
recorreu e só exiba aquilo que fez. Os que pilham e tom am em prestado fazem
praça de suas construções e de suas aquisições, e não do que tiraram dos
outros. Não se veem as “propinas” dadas a um m em bro do Parlam ento: veem -
se os casam entos que fizeram e as honrarias feitas a seus filhos. Ninguém
lança em conta pública a própria receita, m as todos exibem o que adquiriram .
O ganho de nosso estudo é term o-nos tornado m elhores e m ais sábios. É a
inteligência (dizia Epicarm o) que vê e ouve; é a inteligência que tudo aproveita,
que tudo arrum a, que age, que dom ina e que reina: todas as outras coisas
são cegas, surdas e sem alm a. Decerto nós a tornam os servil e covarde não
lhe deixando a liberdade de fazer algo por si só. Quem j am ais pergunta a seu
discípulo o que pensa da retórica e da gram ática, desta ou daquela frase de
Cícero? Elas são plantadas em nossa m em ória com todas as suas plum as,
com o oráculos em que as letras e as sílabas constituem a substância da
coisa. Saber não é saber de cor: é m anter o que se entregou à guarda da
m em ória. Quem sabe corretam ente dispõe do que sabe, sem olhar para o
m odelo, sem voltar os olhos para seu livro. Incôm oda com petência, a
com petência puram ente livresca! Espero que ela sirva de ornam ento, não de
fundam ento, seguindo a opinião de Platão, que diz: a firm eza, a fé, a
sinceridade são a verdadeira filosofia; as outras ciências, e que visam a outros
elem entos, são apenas artifício. Gostaria que o Paluel e Pom peu, 87 esses belos bailarinos de m eu tem po, ensinassem cam balhotas som ente as
m ostrando a nós, sem que saíssem os do lugar, com o esses que querem
instruir nossa inteligência sem pô-la em m ovim ento; ou que nos ensinassem a
m anej ar um cavalo, ou um a lança, ou um alaúde, ou a voz sem nos
exercitarm os; com o esses que querem ensinar a bem j ulgar e a bem falar sem
nos exercitarem a falar nem a j ulgar. Ora, para essa aprendizagem tudo o que
se apresenta aos nossos olhos serve de livro: a astúcia de um paj em , a
estupidez de um criado, um a conversa à m esa, são todas m atérias novas.
Para isso o convívio com os hom ens é adm iravelm ente favorável, assim com o
a visita aos países estrangeiros: não apenas para de lá trazer, à m oda de
nossa nobreza francesa, conhecim ento a respeito de quantos passos há em
Santa Rotonda, 88 ou da riqueza dos calções da Signora Livia, ou, com o outros, de com o o rosto de Nero é m ais com prido ou m ais largo em um a velha
ruína do que em certa m edalha parecida. Mas para trazer principalm ente os
hum ores dessas nações e seus costum es; e para esfregar e polir nossos
m iolos contra os dos outros. Eu gostaria que se com eçasse a passear com
nosso pupilo desde sua tenra infância; e prim eiram ente, para m atar dois
coelhos de um a caj adada, pelas nações vizinhas, onde a língua é m ais
afastada da nossa, e com a qual, se não o form arm os desde cedo, nossa
língua pode não se adaptar. Assim , é opinião aceita por todos que não é bom
criar um filho no regaço dos pais. Esse am or natural os enternece dem ais,
relaxa-os, m esm o o dos pais m ais aj uizados: não são capazes de castigar
seus erros nem de vê-lo criado duram ente, com o convém , e correndo riscos.
Não seriam capazes de suportar que ele voltasse do exercício suando e
em poeirado, que bebesse isso quente, que bebesse aquilo frio, nem de vê-lo
sobre um cavalo recalcitrante, nem em face de um rude atirador com o florete
em punho, nem m anipulando seu prim eiro arcabuz. Pois não há outro rem édio:
quem quer torná-lo um hom em de bem , sem a m enor dúvida não deve poupá-
lo durante a m ocidade, e am iúde deve ir contra as regras da m edicina:
vitamque sub dio et trepidis agat
in rebus. 89
que ele passe sua vida ao relento e na ação.
Não basta fortalecer-lhe a alm a, tam bém é preciso endurecer-lhe os
m úsculos. A alm a é pressionada dem ais se não for am parada; e j á tem m uito
a fazer para acudir, sozinha, a duas tarefas. Sei quanto labuta a m inha em
com panhia de um corpo tão tenro, tão sensível, que se deixa abandonar tão
fortem ente sobre ela. E m uitas vezes percebo em m inha leitura que m eus m estres celebram em seus escritos, com o exem plos de m agnanim idade da
alm a e força de coragem , o que decorre m ais da espessura da pele e da
dureza dos ossos. Vi hom ens, m ulheres e crianças assim nascidos para quem
um a paulada é m enos que um piparote em m im ; que não m exem a língua nem
o cenho sob as pancadas que recebem . Quando os atletas igualam os
filósofos em resistência, isso é m ais vigor dos m úsculos que do ânim o. Ora, o
hábito de aguentar o trabalho é hábito de aguentar a dor: labor callum obducit
dolori. 90o trabalho calej a contra a dor.] É preciso acostum á-lo ao sofrim ento e à dureza dos exercícios, a fim de treiná-lo para o sofrim ento e a dureza da
luxação, da cólica, do cautério: e tam bém da prisão, e da tortura. Pois ele
pode ser exposto a estas últim as, que nestes tem pos atingem os bons com o
os m aus. É o que estam os sofrendo:91 quem com bate as leis am eaça as pessoas de bem com o azorrague e a corda. E depois, a autoridade do
preceptor, que deve ser soberana sobre ele, é interrom pida e entravada pela
presença dos pais. Acresce que o respeito que a fam ília m anifesta pelo
m enino, o conhecim ento dos recursos e grandezas de sua casa, não são, em
m inha opinião, inconvenientes pequenos para essa idade. Nessa escola de
com ércio com os hom ens, volta e m eia reparei nessa perversão de que, em
vez de aprenderm os sobre os outros, só nos em penham os em ensinar-lhes
coisas sobre nós, e preocupam o-nos bem m ais em vender nossa m ercadoria
do que em adquirir novas. O silêncio e a m odéstia são qualidades m uito úteis
na conversação. Essa criança será educada para poupar e m oderar seu
saber, quando o adquirir, para não se m elindrar com as tolices e fábulas que
serão ditas em sua presença; pois é descortês e inoportuno criticar tudo o que não é de nosso gosto. Que se contente em corrigir a si m esm o. E não
aparente recrim inar o outro por tudo o que se nega a fazer, nem se oponha
aos costum es públicos. Licet sapere sine pompa, sine invidia. 92Pode-se ser sábio sem pom pa nem arrogância.] Que fuj a dessas m aneiras m agistrais e
indelicadas; e dessa am bição pueril de querer parecer m ais arguto para ser
diferente; e com o se críticas e novidades fossem m ercadoria delicada, querer
usá-las para criar um nom e de valor singular. Assim com o só aos grandes
poetas convém usar as licenças da arte, assim só nas grandes e ilustres
alm as é suportável dar-se privilégios acim a dos costum es. Siquid Socrates et
Aristippus contra morem et consuetudinem fecerunt, idem sibi ne arbitretur
licere: Magnis enim illi et divinis bonis hanc licentiam assequebantur.93Se Sócrates e Aristipo agiram contra os costum es e o uso, que ele não creia que
a m esm a coisa lhe sej a perm itida: essa licença era-lhes perm itida em razão
de suas grandes qualidades, de certa form a divinas.] Que lhe ensinem a só
entrar em discussão e em contestação onde vir um cam peão digno de sua
luta; e, m esm o ali, não em pregará todas as m anhas que lhe possam servir,
m as som ente aquelas que lhe possam m ais servir. Que lhe ensinem certo
refinam ento na escolha e seleção de seus argum entos, e que goste da
pertinência e, por conseguinte, da brevidade. Que o instruam sobretudo para
render-se e depor as arm as diante da verdade, sem dem ora, assim que a
perceber, quer ela surj a das m ãos de seu adversário, quer surj a nele m esm o
por algum a reconsideração. Pois ele não sentará num a cátedra para exercer
um papel prescrito, e não está com prom etido com nenhum a causa a não ser
por aprová-la. Nem praticará esse ofício em que se vende, por dinheiro de contado, a liberdade de poder se arrepender e reconhecer. Neque ut omnia,
quae praescripta et imperata sint, defendat, necessitate ulla cogitur. 94E ele não é forçado por nenhum a necessidade a defender tudo o que foi prescrito e
ordenado.] Se seu preceptor tiver m eu tem peram ento, há de form ar sua
vontade de ser servidor m uito leal a seu príncipe, e m uito zeloso e m uito
coraj oso; m as há de esfriar-lhe a vontade de prender-se a ele que não por um
dever público. Além de vários outros inconvenientes que ferem nossa
liberdade, o j ulgam ento de um hom em rem unerado e com prado por essas
obrigações particulares é m enos im parcial e m enos livre ou é tachado de
im prudência e ingratidão. Um cortesão só pode ter o direito de falar e pensar
sobre seu am o de form a favorável, pois este o escolheu, entre tantos m ilhares
de outros súditos, para sustentá-lo e enobrecê-lo por sua m ão. Não sem
algum a razão, esse favor e essa vantagem corrom pem sua liberdade e o
deslum bram . Por isso vê-se costum eiram ente que a linguagem dessa gente é
diferente de qualquer outra linguagem de um Estado, e pouco fidedigna em tal
m atéria. Que sua consciência e sua virtude reluzam em suas palavras, e
tenham apenas a razão com o guia. Que o façam com preender que confessar
o erro que descobrir em seu próprio argum ento, ainda que só sej a notado por
ele m esm o, é consequência de um j ulgam ento e de um a sinceridade que são
as principais qualidades; a teim osia e o gosto da contestação são qualidades
vulgares, m ais aparentes nas alm as m ais baixas. Que reconsiderar e corrigir-
se, abandonar um a posição errada, em pleno ardor, são qualidades raras,
fortes e filosóficas. Que sej a aconselhado a ter os olhos em toda parte
quando estiver em sociedade, pois creio que os prim eiros assentos são
ocupados com um ente por hom ens m enos capazes, e que as grandezas de
fortuna pouco são associadas às capacidades. Tenho visto, enquanto na
cabeceira da m esa se conversava sobre a beleza de um a tapeçaria, ou sobre
o sabor da m alvasia, 95 perderem -se belos pensam entos na outra ponta. Ele sondará o alcance de cada um : um vaqueiro, um pedreiro, um passante. É
preciso tudo explorar e com prar de cada um segundo sua m ercadoria, pois
em casa tudo serve; e até a tolice e a fraqueza alheia o instruirão. Ao avaliar
as atitudes e as m aneiras de cada um , ele gerará em si m esm o desej o pelas
boas e desprezo pelas m ás. Que lhe inculquem na m ente um a curiosidade
honesta de indagar sobre todas as coisas; verá tudo o que houver de singular
ao seu redor: um a construção, um a fonte, um hom em , o lugar de um a batalha
antiga, a passagem de César ou de Carlos Magno.
Quae tellus sit lenta gelu, quae putris ab aestu,
Ventus in Italiam quis bene vela ferat. 96
Que terra está entorpecida pelo gelo, qual está corrom pida pelo calor, qual
vento sopra favoravelm ente as velas para a Itália.
Ele se inform ará sobre os costum es, os m eios e as alianças desse e daquele
príncipe. São coisas m uito agradáveis de aprender e m uito úteis de saber.
Nessa frequentação dos hom ens entendo incluir, e principalm ente, os que
vivem apenas na m em ória dos livros. Ele frequentará, por m eio das histórias,
essas grandes alm as dos m elhores séculos. É um estudo inútil, se quiserm os,
m as tam bém é, se assim quiserm os, um estudo de fruto inestim ável; e o único
estudo, com o diz Platão, que os lacedem ônios teriam conservado para si. Que proveito não tirará da leitura das Vidas de nosso Plutarco? Mas que m eu guia
se lem bre do que visa sua tarefa; e que inculque em seu discípulo m enos a
data da ruína de Cartago do que os costum es de Aníbal e de Cipião; nem
tanto onde m orreu Marcelo com o por que foi indigno de seu dever e lá m orreu.
Que lhe ensine não tanto as histórias com o a j ulgá-las. A m eu ver, é, entre
todas, a m atéria a que nossos espíritos se aplicam de m odo m ais diverso. Li
em Tito Lívio cem coisas que outro não leu. Plutarco leu cem outras além das
que eu soube ler, e talvez além do que o autor ali colocou. Para uns é um
m ero estudo gram atical; para outros, é anatom ia da filosofia, penetrando nas
partes m ais abstrusas de nossa natureza. Há em Plutarco m uitos discursos
extensos digníssim os de ser conhecidos, pois a m eu ver é ele o m estre
artífice de tal labor; m as há m il outros que ele sim plesm ente aflorou: sinaliza
só com o dedo por onde irem os, se isso nos agrada, e por vezes se contenta
em dar apenas um toque no ponto m ais vivo de um assunto. Precisam os
arrancá-los dali e pô-los na vitrine. Com o essa sua afirm ação de que “os
habitantes da Ásia eram escravos de um único senhor porque não sabiam
pronunciar um a só palavra, que é não”, e que talvez tenha fornecido a m atéria
e a ocasião para La Boétie escrever seu Discurso sobre a servidão
voluntária. O próprio fato de ver Plutarco observar um a ação m enor na vida
de um hom em , ou um a palavra, é um a reflexão. É pena que as pessoas cultas
am em tanto a brevidade: sem dúvida é m elhor para sua reputação, m as para
nós é pior. Plutarco preferia que o elogiássem os m ais por seu j ulgam ento que
por seu saber; preferiria nos deixar m ais desej osos que saciados. Sabia que até sobre as coisas boas pode-se dizer dem ais, e que Alexandridas criticou
corretam ente o orador que fazia aos éforos boas declarações, m as longas
dem ais: “Ó estrangeiro, dizes o que se deve m as não com o se deve”. Os que
têm o corpo delgado o engordam com enchim entos; os que têm a m atéria
m irrada, enchem -na com palavras. Da frequentação do m undo tira-se um a luz
m aravilhosa para o j uízo hum ano. Todos nós estam os fechados e encolhidos
em nós m esm os e tem os a visão lim itada ao com prim ento de nosso nariz.
Perguntava-se a Sócrates de onde era, e ele não respondia “de Atenas”, m as
“do m undo”. Ele, que tinha a im aginação m ais plena e m ais extensa, abarcava
o universo com o sendo sua cidade, estendia seus conhecim entos, sua
sociedade e seus afetos a todo o gênero hum ano: não com o nós, que só
olham os ao nosso redor. Quando gelam os vinhedos em m inha aldeia, m eu
pároco argum enta com a ira de Deus sobre a raça hum ana e j ulga que a
singam ose97 j á tenha atacado os canibais. 98 Ao ver nossas guerras civis, quem não exclam a que esta m áquina terrestre está se desarranj ando e que o dia do
j uízo nos agarra pela gola, sem perceber que várias coisas bem piores se
passaram e que em 10 m il partes do m undo ainda se leva, porém , um a vida
boa? Adm iro-m e que nossas guerras sej am tão suaves e tão indulgentes,
tendo em vista sua licenciosidade im pune. Para aquele em cuj a cabeça cai o granizo, todo o hem isfério parece estar sob a tem pestade e a torm enta. E,
com o dizia aquele cam ponês da Savoia, “se esse tolo rei da França tivesse
sabido usar direito sua sorte, seria hom em para se tornar m ordom o de seu
duque” .99 Sua im aginação não concebia grandeza m ais elevada que a de um duque, seu próprio senhor. Todos nós com etem os, insensivelm ente, esse erro: erro de grande consequência e prej uízo. Mas quem sabe representar, com o
num quadro, essa grande im agem de nossa m ãe natureza em toda a sua
m aj estade; quem lê em seu sem blante um a variedade tão geral e constante;
quem ali dentro vê não a si m esm o m as todo um reino, com o o traço de um a
ponta m uito fina, só este avalia as coisas em sua j usta dim ensão. Este grande
m undo, que uns ainda dividem em m últiplas espécies de um só gênero, é o
espelho em que devem os nos m irar para nos conhecerm os de um bom ângulo.
Em sum a, quero que sej a este o livro de m eu aluno. Tantos tem peram entos,
escolas de pensam ento, opiniões, leis e costum es nos ensinam a j ulgar
saudavelm ente os nossos, e ensinam a reconhecer a im perfeição e a natural
fraqueza de nosso j uízo: isto não é um aprendizado leve. Tantas reviravoltas,
tantas m udanças na fortuna de um Estado nos ensinam a não nos
espantarm os dem ais com a nossa. Tantos nom es, tantas vitórias e conquistas
soterradas no esquecim ento tornam ridícula a esperança de eternizar nosso
nom e com a captura de dez arqueiros e o assalto a um a praça m al fortificada,
que só é conhecida porque caiu. O orgulho e a vaidade de tantas pom pas
estrangeiras, a m aj estade tão enfunada de tantas cortes e grandezas dão
firm eza e segurança à nossa vista para suportar, sem piscar, o brilho das
nossas. Tantos m ilhões de hom ens enterrados antes de nós encoraj am -nos a
não tem er ir ao encontro de tão boa com panhia no outro m undo: e assim por
diante. Nossa vida, dizia Pitágoras, assem elha-se à grande e populosa
assem bleia dos j ogos olím picos. Uns exercitam seus corpos para conquistar a
glória nos j ogos; outros levam m ercadorias para vender, pelo ganho. Há (e não são os piores) os que ali não procurem outro fruto além de olhar com o e
por que cada coisa se faz; são espectadores da vida dos outros hom ens,
pelas quais hão de j ulgar e dirigir as deles. Todos os m ais proveitosos
discursos da filosofia, pedra de toque e regra das ações hum anas, poderão
ser reduzidos a esses exem plos. Dirão ao m enino:
quid faz optare, quid asper
Utile nummus habet, patriae charisque propinquis
Quantum elargire deceat, quem te Deus esse
Jussit, et humana qua parte locatus es in re
Quid summus, aut quidnam victuri gignimur; 100
o que é perm itido desej ar, para que serve o dinheiro novo, o que convém
devotar à sua pátria e aos próxim os queridos, o que Deus te m andou ser, e
que lugar te designou no m undo, o que nós som os, ou para que vida fom os
gerados;
o que é saber e ignorar, qual deve ser o obj etivo do estudo; o que é coragem ,
tem perança e j ustiça; qual a diferença entre am bição e avareza, servidão e
suj eição, licença e liberdade; por quais sinais se conhece o verdadeiro e sólido
contentam ento; até onde se devem tem er a m orte, a dor e a vergonha,
Et quo quemque modo fugiatque feratque laborem, 101
E com o evitar ou suportar cada sofrim ento,
que engrenagens nos m ovem , e por que m eio tantos m ovim entos diversos nos
agitam . Pois parece-m e que as prim eiras lições que devem os dar de beber à
inteligência devem ser as que regulam seus costum es e seu j ulgam ento, que lhe ensinam a se conhecer e a saber bem m orrer e bem viver. Entre as artes
liberais, com ecem os pela arte que nos faz livres. Na verdade, todas servem ,
de certa m aneira, para a form ação e o com portam ento de nossa vida, com o
tam bém servem , de certa m aneira, todas as outras coisas. Mas escolham os
aquela que serve direta e expressam ente. Se soubéssem os restringir o cam po
de nossa vida a seus lim ites corretos e naturais, descobriríam os que a m elhor
parte das ciências que estão em prática está fora de nossa prática. E, m esm o
nessas que o estão, há extensões e recantos inúteis, que m elhor faríam os
deixar onde estão; e seguindo o ensinam ento de Sócrates, delim itaríam os em
nosso estudo o curso daquelas sem utilidade:
sapere aude,
Incipe: vivendi qui recte prorogat horam,
Rusticus expectat dum defluat amnis, at ille
Labitur, et labetur in omne volubilis aevum. 102
ousa ser sábio, com eça: quem adia o m om ento de levar um a vida j usta
espera com o um cam ponês que o rio cesse de correr, m as este corre e
correrá o tem po todo.
É grande tolice ensinar aos nossos filhos
Quid moveant pisces, animosaque signa leonis,
Lotus et Esperia quid capricornus aqua, 103
Qual é a influência dos Peixes, e a do signo do Leão furioso, e a do
Capricórnio que se banha nas águas do Hespéria,
a ciência dos astros e os m ovim entos da oitava esfera, 104 antes que os seus próprios:
Τί Πλειάδεσσι χάμοί;
Τί δἄστράσι βοώτεω. 105
Que m e im portam as Plêiades, as estrelas do vaqueiro?
Escrevendo a Pitágoras, Anaxím enes perguntou: “Com que propósito posso
divertir-m e com os segredos das estrelas, tendo a m orte ou a servidão
sem pre presentes diante dos olhos?”. Pois nesse m om ento os reis da Pérsia
preparavam a guerra contra seu país. E cada um deve perguntar assim :
“Estando assaltado pela em oção, avareza, tem eridade, superstição, e tendo
dentro de m im tais inim igos da vida, irei sonhar com o m ovim ento do m undo?”.
Depois que tiverem ensinado ao m enino de que lhe serve tornar-se m ais sábio
e m elhor, que lhe exponham o que é a lógica, a física, a geom etria, a retórica;
e j á tendo form ado o j ulgam ento, breve dom inará a ciência que escolher. Sua
lição se fará ora por um a discussão, ora por livros; ora seu preceptor lhe
fornecerá trechos do próprio autor adaptados a essa finalidade de sua
educação, ora lhe dará a m edula e a substância m astigada. E se ele m esm o
não for bastante fam iliar dos livros para encontrar tantos belos discursos que
servirão à realização de seu obj etivo, será possível a ele j untar um letrado que
lhe forneça, a cada necessidade, as m unições necessárias para distribuí-las e
dispensá-las a sua cria. E que essa lição sej a m ais fácil e natural que a de
Gaza, 106 quem pode ter dúvida? Na deste, os preceitos são espinhosos e pouco divertidos, as palavras inúteis e descarnadas, em que não há por onde
pegar, nada que desperte o espírito; nesta aqui a alm a encontra onde m order,
onde se nutrir. E esse fruto é incom paravelm ente m aior e por isso terá
am adurecido m ais cedo. É espantoso que as coisas tenham chegado, em
nosso século, ao ponto de a filosofia ser até para as pessoas inteligentes algo
vão e fantástico, considerado de nenhum a utilidade e de nenhum valor tanto
para a opinião geral com o para a prática. Creio que a causa disso são essas
sutilezas que ocuparam suas avenidas. É grande erro pintá-la com o
inacessível às crianças, e de sem blante carrancudo, austero e terrível: quem a
m ascarou com esse falso rosto pálido e m edonho? Não há nada m ais alegre,
m ais j ovial, divertido, e por pouco não digo galhofeiro. Ela não prega senão a festa e os bons m om entos. Um sem blante triste e abatido m ostra que não é
esta a sua m orada. Dem étrio, o gram ático, ao encontrar no tem plo de Delfos
um grupo de filósofos sentados, disse-lhes: “Ou m e engano ou, ao vê-los com
a fisionom ia tão tranquila e tão alegre, não estais em grande discussão entre
vós”. Ao que um deles, Heráclio de Mégara, respondeu: “São os que
investigam se o futuro do verbo βαλλω tem duplo λ ou os que investigam a
derivação dos com parativos χειρον e βελτοϖ e dos superlativos χειριστον e
βελτιστον que franzem o cenho quando discutem sua ciência; m as quanto aos
discursos da filosofia, eles costum am alegrar e divertir os que os praticam , e
não enrugá-los e contristá-los”. 107
Deprendas animi tormenta latentis in aegro
Corpore, deprendas et gaudia, sumit utrumque
Inde habitum facies. 108
Podes surpreender os torm entos da alm a no fundo de um corpo doente,
podes surpreender tam bém as alegrias, e o rosto assum e essa ou outra
expressão.
A alm a que aloj a a filosofia deve, por sua própria saúde, tornar saudável o
corpo tam bém ; sua tranquilidade e seu bem -estar devem reluzir até m esm o
fora de si; ela deve form ar por seu m olde a aparência externa e, por
conseguinte, m uni-la com um a graciosa altivez, um a atitude ativa e alegre, e
um sem blante contente e am eno. A m arca m ais expressiva da sabedoria é um
constante regozij o; seu estado é com o o das coisas acim a da Lua, sem pre
sereno. São Baroco e Baralipton109 que tornam seus devotos tão encardidos e enfum açados; não é a sabedoria, que eles só conhecem por ouvir dizer.
Com o? Ela se gaba de serenar as tem pestades da alm a, ensina a rir da fom e
e das febres; não por alguns epiciclos110 im aginários, m as por argum entos naturais e palpáveis. Seu obj etivo é a virtude, que não está, com o diz a
escolástica, plantada no alto de um m onte abrupto, escarpado e inacessível.
Os que dela se aproxim aram sabem que está, ao contrário, aloj ada num a bela
planície fértil e florescente: de onde vê bem abaixo de si todas as coisas; m as
quem conhece o endereço pode lá chegar por cam inhos som breados, relvosos
e suavem ente floridos; agradavelm ente, e por um a encosta fácil e lisa, com o é
a das abóbadas celestes. Por não terem frequentado essa virtude suprem a,
bela, triunfante, am orosa, igualm ente deliciosa e coraj osa, inim iga professa e
irreconciliável do azedum e, do desprazer, do tem or e da coação, e que tem
por guia a natureza, e por com panheiras a ventura e a volúpia, eles se
puseram , por fraqueza, a fantasiar essa tola im agem , triste, briguenta,
rabugenta, am eaçadora, carrancuda, e a colocá-la sobre um rochedo erm o,
no m eio dos espinheiros: um fantasm a para espantar as pessoas. Meu
preceptor, que sabe que deve preencher a vontade de seu discípulo com tanto ou m ais afeto quanto com reverência diante da virtude, saberá lhe dizer que os
poetas seguem os sentim entos com uns; e fazê-lo ver com clareza que os
deuses puseram o suor m ais nos cam inhos das alcovas de Vênus que nos que
levam a Palas. E quando ele com eçar a despertar, apresente-lhe Bradam ante
ou Angélica111 com o am antes de prazer; a prim eira, de um a beleza natural, ativa, generosa, não m asculinizada m as viril, por oposição a um a beleza
branda, afetada, delicada, artificial; um a, fantasiada de rapaz, traj ando um
m orrião reluzente; a outra, vestida com o m oça, levando à cabeça um a coifa
de pérolas. E então seu am or será considerado m ásculo se ele escolher de
m odo totalm ente diverso daquele efem inado pastor da Frígia.112 O preceptor lhe dará essa nova lição, de que o preço e a grandeza da verdadeira virtude
estão na facilidade, na utilidade e no prazer de seu exercício; tão longe de ser
difícil que tanto as crianças com o os hom ens a alcançam , tanto os sim ples
com o os espertos. Seu instrum ento é a m oderação, não a força. Sócrates,
seu prim eiro favorito, abandona deliberadam ente o esforço para deslizar na
ingenuidade de sua fácil progressão. Ela é a m ãe nutriz dos prazeres
hum anos. Tornando-os j ustos, torna-os seguros e puros. Moderando-os,
m antém -lhes o alento e o apetite. Suprim indo-nos aqueles que recusa, aguça-
nos para aqueles que nos deixa; e deixa-nos em abundância todos os que a
natureza nos prodigaliza; e até a saciedade, se não até a lassidão,
m aternalm ente, se porventura não quiserm os dizer que sua regra é inim iga de
nossos prazeres, pois detém o beberrão antes da bebedeira, o guloso antes
da indigestão, o libertino antes da sífilis. Se falta à virtude o prazer com um ,
ela se evade ou o dispensa, e forj a para si um outro, todo seu, não m ais flutuante nem m utável. Sabe ser rica e poderosa, e sábia, e dorm ir em
colchões alm iscarados. Am a a vida, am a a beleza, a glória e a saúde. Mas
seu ofício próprio e particular é saber usar esses bens com m oderação e
sabê-los perder com firm eza: ofício bem m ais nobre que árduo, sem o qual
todo o curso da vida é desnaturado, turbulento e deform ado; e então é de fato
possível am arrar a ele aqueles escolhos, aqueles m atagais espinhosos e
aqueles m onstros. Se esse discípulo se revelar em tão estranha condição que
prefira ouvir um a fábula à narração de um a bela viagem ou um sábio
propósito, quando o com preender; se ao som do tam bor conclam ando o j ovem
ardor de seus com panheiros ele se desviar para outro que o cham a para o
j ogo dos saltim bancos; se por acaso não achar m ais prazeroso e agradável
voltar, em poeirado e vitorioso, de um com bate do que, depois de ganhar um prêm io, do j ogo da pela ou de um baile, não vej o outro rem édio a não ser o
estabelecerem com o pasteleiro em algum a boa cidade, m esm o sendo filho de
um duque, seguindo o preceito de Platão de que é preciso conseguir um a
colocação para os filhos não conform e os recursos do pai m as conform e os
recursos da alm a deles. Já que a filosofia é a arte que nos ensina a viver, e
que a infância, assim com o as outras idades, nela aprende sua lição, por que
não a transm itirm os?
Udum et molle lutum est, nunc nunc properandus, et acri
Fingendus sine fine rota. 113
A argila é úm ida e m ole, é agora que é preciso apressar-se em m oldá-la
na roda que gira sem fim .
Ensinam -nos a viver quando a vida j á passou. Cem estudantes contraíram sífilis antes de terem chegado à lição de Aristóteles sobre a tem perança.
Cícero dizia que m esm o que vivesse a vida de dois hom ens não perderia
tem po estudando os poetas líricos. E considero essas sutilezas ainda m ais
tristem ente inúteis. Nossa criança é bem m ais apressada: só deve à instrução
escolar os prim eiros quinze ou dezesseis anos de sua vida; o resto se deve à
ação. Em preguem os esse tem po tão curto nos ensinam entos necessários.
Livrai-vos de todas essas m inudências espinhosas da dialética: são abusos
com que nossa vida não pode m elhorar; pegai os sim ples discursos da
filosofia, sabei escolhê-los e tratá-los com o se deve, são m ais fáceis de
com preender do que um conto de Boccaccio. Um a criança é capaz disso
assim que largar a am a de leite; é m uito m ais fácil do que aprender a ler ou
escrever. A filosofia tem argum entos tanto para o nascim ento dos hom ens
com o para sua decrepitude. Sou da opinião de Plutarco, de que Aristóteles
nunca ocupou m uito seu grande discípulo114 com o artifício de com por silogism os ou com os princípios de geom etria, e sim ensinando-lhe os bons
preceitos sobre valentia, bravura, m agnanim idade e tem perança, e a
segurança de nada tem er: e com essa m unição o m andou, ainda criança, 115
subj ugar o Im pério do m undo com 30 m il hom ens de infantaria, 4 m il cavalos e
apenas 42 m il escudos. As outras artes e ciências, dizia Plutarco, Alexandre
as honrava e louvava-lhes a excelência e a engenhosidade, m as apesar do
prazer que nelas encontrava não se deixava surpreender facilm ente pelo
desej o de praticá-las.
Petite hinc juvenesque senesque
Finem animo certum, miserisque viatica canis. 116
Fixai-vos, j ovens e velhos, um a regra firm e para vosso espírito, um viático
para as m isérias da idade dos cabelos brancos.
É o que dizia Epicuro no com eço de sua carta a Meniceu: “Nem o m ais m oço
se recusa a filosofar, nem o m ais velho se cansa com isso. Quem age de
outra form a parece dizer que ainda não é época de viver com felicidade, ou
que j á não é m ais época”. Por tudo isso não quero que aprisionem esse rapaz,
não quero que o abandonem à raiva e ao hum or m elancólico de um furioso
m estre-escola; não quero corrom per seu espírito m antendo-o na tortura e no
trabalho, à m oda dos outros, catorze ou quinze horas por dia, com o um
carregador. Quando o virem dem asiadam ente aplicado ao estudo dos livros,
devido a um tem peram ento solitário e m elancólico, não m e parece bom
alim entar essa tendência: os m eninos tornam -se ineptos para a convivência
social e são desviados de ocupações m elhores. E, no m eu tem po, quantos
hom ens vi em brutecidos por tem erária avidez de ciência? Carnéades ficou tão
alucinado que não teve m ais tem po de cortar a barba nem as unhas! Nem
quero estragar a nobreza de seu com portam ento com a incivilidade e barbárie
dos outros. Antigam ente se dizia que a sabedoria francesa era proverbial por
ser um a sabedoria boa no início m as, em seguida, sem constância. 117 Na verdade, ainda vem os que não há nada tão cavalheiresco com o as crianças
pequenas na França, m as geralm ente elas decepcionam a esperança
suscitada, não dem onstrando nenhum a excelência quando hom ens-feitos. Ouvi
dizer por pessoas inteligentes que esses colégios, de que existe um a profusão
e para onde as enviam , em brutecem -nas assim . Para o nosso m enino, um
gabinete, um j ardim , a m esa e a cam a, a solidão, a com panhia, de m anhã ou
à tarde, todas as horas lhe serão equivalentes, todos os lugares lhe serão de
estudo: pois a filosofia, que com o form adora de j ulgam entos e costum es será
sua principal lição, tem esse privilégio de se im iscuir em tudo. Quando
Isócrates, o orador, foi instado a falar de sua arte num a festa, todos acharam
que tinha razão ao responder: “Agora não é o m om ento para o que sei fazer,
e aquilo de que é o m om ento agora, eu não sei fazer”. Pois apresentar
arengas ou debates de retórica a um grupo de pessoas reunidas para rir e
com er seria um a boa m istura de péssim a harm onia. E o m esm o se poderia
dizer de todas as outras ciências; m as quanto à filosofia, na parte em que
trata do hom em e de seus deveres e ofícios, foi opinião com um de todos os
sábios que, pela suavidade de sua conversação, não devia ser recusada nos
festins nem nos j ogos. E tendo sido convidada por Platão para seu banquete,
vem os com o ela entretém a plateia de form a agradável e de acordo com a
hora e o lugar, em bora seus tem as sej am dos m ais sublim es e m ais salutares.
Aeque pauperibus prodest, locupletibus aeque,
Et neglecta aeque pueris senibusque nocebit. 118
Ela é útil igualm ente aos pobres e aos ricos, e, se a negligenciarem ,
prej udicará igualm ente crianças e velhos.
Portanto, ele terá, sem dúvida, m enos folga que os outros. Mas assim com o
os passos que dam os ao cam inhar por um a galeria, em bora sej am três vezes
m ais, não nos cansam com o os que dam os em um traj eto estipulado, assim
tam bém nossa lição, passando-se com o por acaso, sem obrigação de tem po
e lugar, e m isturando-se a todas as nossas ações, decorrerá sem se fazer sentir. Os próprios j ogos e exercícios serão um a boa parte do estudo: a
corrida, a luta, a m úsica, a dança, a caça, o m anej o dos cavalos e das arm as.
Quero que a boa conduta física e a civilidade social, e a disposição de seu
tem peram ento se m oldem passo a passo com o espírito. Não é um a alm a que
se form a, não é um corpo que se form a, é um hom em . Não se deve separá-
los. E, com o diz Platão, não devem os adestrar um sem o outro, m as conduzi-
los j untos, com o um a parelha de cavalos atrelados no m esm o tim ão. E ao
ouvi-lo, ele não parece conferir m ais tem po e solicitude aos exercícios do
corpo, considerando que o espírito se exercita ao m esm o tem po, e não o
contrário? No m ais, essa educação deve ser conduzida por um a severa
doçura e não com o se faz. Em vez de convidar as crianças às letras, na
verdade a elas só se apresentam o horror e a crueldade; suprim am -se a
violência e a força: não há nada, a m eu ver, que abastardize e em bruteça tão
fortem ente um a natureza bem -nascida. Se pretendeis que ele tem a a
vergonha e o castigo, não o calej ais para isso: calej ai-o contra o suor e o frio,
o vento, o sol e os perigos que ele deve desprezar; tirai-lhe toda a m oleza e a
delicadeza no vestir e no deitar-se, no com er e no beber. Acostum ai-o a tudo:
que não sej a um belo rapaz e adam ado, m as um rapaz viçoso e vigoroso.
Criança, hom em , velho, sem pre acreditei e j ulguei da m esm a m aneira. Mas,
entre outras coisas, essa organização da m aioria de nossos colégios sem pre
m e desagradou. Talvez falhassem m enos prej udicialm ente caso se inclinassem
para a indulgência. São verdadeiras prisões da j uventude cativa. Tornam -na
depravada punindo-a por isso antes que ela o sej a. Chegai lá no m om ento em que eles estudam : não ouvireis m ais que gritos, os das crianças supliciadas e
os dos m estres inebriados em sua cólera. É m aneira de despertar o apetite
pela lição nessas alm as tenras e tem erosas guiá-las com um a carantonha
assustadora, as m ãos arm adas de chicotes? Iníqua e perniciosa form a. Além
do m ais, o que Quintiliano notou m uito bem , essa autoridade im periosa tem consequências perigosas, e especialm ente quanto à nossa m aneira de
castigar. Com o seriam m ais apropriadas essas aulas se j uncadas de flores e
folhas do que de pedaços de varas ensanguentadas! Ali eu m andaria pôr
retratos da alegria, do j úbilo, de Flora e das Graças, com o fez em sua escola
o filósofo Espeusipo. Ali onde as crianças encontram seu proveito, que
encontrem tam bém seu prazer. Devem os adoçar os alim entos saudáveis para
as crianças: e pôr fel nos que lhes são nocivos. É m aravilhoso com o Platão se
m ostra, em suas Leis, cuidadoso com a alegria e os passatem pos da
j uventude de sua cidade; e com o se detém em suas corridas, j ogos, canções,
saltos e danças, cuj o com ando e patrocínio, diz, foi dado pela Antiguidade a
seus próprios deuses, com o Apolo, as Musas, Minerva. Ele se estende em m il
preceitos para seus ginásios. Pelas ciências letradas m uito pouco se
interessa, e parece só recom endar a poesia para, especificam ente, a m úsica.
Toda bizarrice e particularidade em nossos costum es e m odos de ser devem
ser evitadas, por serem inim igas de sociedade. Quem não se espantaria com
a com pleição de Dem ofonte, m ordom o de Alexandre, que suava à som bra e
trem ia ao sol? Vi outros fugirem do odor das m açãs m ais que dos tiros de
arcabuzes; outros se apavorarem com um cam undongo; outros vom itarem ao
ver crem e; outros ao verem sacudir-se um colchão de plum as, assim com o
Germ ânico não conseguia suportar a visão nem o canto dos galos. Pode haver
nisso, quem sabe, algum a causa oculta, m as a m eu ver quem disso se
ocupasse bem cedo conseguiria extingui-la. Em m im a educação resultou, é
verdade que não sem algum cuidado, em que o apetite se acom oda
indiferentem ente com todas as coisas de que nos nutrim os, salvo a cervej a.
Quando o corpo ainda é m aleável devem os dobrá-lo a todas as m aneiras e
hábitos; e desde que se possam m anter as rédeas do apetite e da vontade,
tornem os atrevidam ente o rapaz apto a se adaptar a todas as nações e
com panhias, e até ao desregram ento e aos excessos, se necessário for. Que
sua conduta siga o costum e. Que ele possa fazer todas as coisas e só goste
de fazer as boas. Os próprios filósofos não consideram louvável em
Calístenes o fato de ter perdido as boas graças do grande Alexandre, seu
senhor, por não desej ar beber tanto quanto ele. Ele há de rir, galhofar, farrear
com seu príncipe. Quero que na própria bebedeira supere em vigor e em
firm eza os com panheiros, e que renuncie a fazer o m al, não por falta de força
nem de conhecim ento, m as por falta de vontade. Multum interest, utrum
peccare quis nolit, aut nesciat. 119Há um a distância entre não querer e não saber fazer o m al.] Pensei estar honrando a um senhor, um dos m ais distantes
desses excessos que existem na França, ao indagar dele, quando estávam os
em boa com panhia, quantas vezes na vida tinha se em briagado por
necessidade, para os negócios do rei na Alem anha. Ele entendeu bem a coisa
e respondeu-m e que tinham sido três vezes, as quais nos contou. Sei de
outros que, por falta dessa habilidade, viram -se em grande em baraço quando frequentavam essa nação. Muitas vezes reparei com grande adm iração a
m aravilhosa natureza de Alcibíades para se adaptar tão facilm ente, sem
prej uízo de sua saúde, a form as tão diversas, superando ora a suntuosidade e
a pom pa persas, ora a austeridade e a frugalidade lacedem ônias, tão austero
em Esparta com o voluptuoso na Jônia:
Omnis Aristippum decuit color, et status et res. 120
Toda form a de vida convinha a Aristipo, toda condição, toda fortuna.
Assim eu gostaria de form ar m eu discípulo,
quem Duplici panno patienta velat,
Mirabor, vitae via si conversa decebit,
Personamque feret non inconcinnus utramque. 121
adm irarei aquele cuj a resistência está coberta com dois trapos de um
andraj o, se essa m udança de vida lhe convier e se ele assum ir sem
discordância esses dois papéis.
Essas são m inhas lições: m elhor as aproveita quem as aplica do que quem as
sabe. Vê-las é com preendê-las; com preendê-las é vê-las. “Não perm ita
Deus”, diz alguém em Platão, “que filosofar sej a aprender várias coisas e
tratar das artes.” Hanc amplissimam omnium artium bene vivendi
disciplinam, vita magis quam literis persequuti sunt. 122 Saber viver bem , a m ais im portante de todas as artes, eles aprenderam m ais por sua vida que
pelos livros.] Leão, príncipe dos fliásios, perguntou a Heráclides do Ponto que
ciência e que arte professava, e ele respondeu: “Não sei arte nem ciência,
m as sou filósofo”. Criticava-se Diógenes por, sendo ignorante, m eter-se na
filosofia. “Eu m e m eto”, ele dizia, “e m ais ainda por isso m esm o.” Hegésias pediu-lhe que lhe lesse certo livro: “És engraçado”, respondeu, “escolhes os
figos de verdade e naturais, e não pintados; por que não escolhes tam bém as
ações naturais, verdadeiras, e não escritas?”. O aluno não recitará tanto sua
lição com o a praticará. Há de ensaiá-las em seus atos. Verem os se há
prudência em seus em preendim entos; se há bondade, j ustiça em seu
com portam ento; se tem discernim ento e graça em sua linguagem , vigor em
suas doenças, m odéstia em seus j ogos, tem perança em suas volúpias, ordem
na gestão de seus bens, indiferença em seu gosto, sej a carne, peixe, vinho ou água. Qui disciplinam suam non ostentationem scientiae, sed legem vitae
putet: quique obtemperet ipse sibi, et decretis pareat. 123Quem considera seu saber não com o exibição de um a ciência m as com o regra de vida, que
portanto se subm eta a si m esm o e obedeça aos próprios princípios.] O
verdadeiro espelho de nossos discursos é o curso de nossas vidas. A alguém
que lhe perguntou por que os lacedem ônios não redigiam por escrito as regras
de bravura e davam para seus j ovens ler, Zeuxidam o respondeu que era
porque queriam acostum á-los aos fatos, não às palavras. Ao cabo de quinze
ou dezesseis anos, com pare-se com ele um desses latinizadores de colégio,
que terá levado todo esse tem po apenas para aprender a falar! O m undo não
passa de tagarelice, e nunca vi hom em que não diga m ais, e não m enos, do
que deve; no entanto, a m etade de nossa vida vai-se nisso. Mantêm -nos por
quatro ou cinco anos ensinando-nos a com preender as palavras e a costurá-
las em frases, m ais outros tantos para arrum á-las de m odo proporcional num a
grande com posição organizada em quatro ou cinco partes, outros cinco, pelo
m enos, para aprender a m isturá-las e entrelaçá-las rapidam ente de form a sutil. Deixem os tudo isso para os que o professam expressam ente. Indo um
dia a Orléans, encontrei naquela planície, antes de Cléry, a cerca de cinquenta
passos um do outro, dois m estres que vinham a Bordeaux; m ais longe, atrás
deles, vi um grupo tendo à frente um chefe, que era o finado senhor conde de
La Rochefoucauld. Um de m eus hom ens perguntou ao prim eiro desses
m estres quem era aquele fidalgo que vinha atrás dele; o m estre, que não tinha
visto o cortej o e pensava que lhe falassem de seu com panheiro, respondeu
gracej ando: “Ele não é fidalgo, é um gram ático, e eu sou um lógico”. Ora, nós
que aqui procuram os, ao contrário, form ar não um gram ático ou um lógico
m as um fidalgo, deixem o-los abusar de seu tem po livre: tem os o que fazer em
outro lugar. Mas que nosso discípulo estej a bem provido de coisas, e as
palavras virão, m ais que suficientes; e se não quiserem vir facilm ente, puxará
por elas. Ouço uns que se desculpam por não conseguir se expressar; e
fazem de conta que têm a cabeça cheia de várias belas coisas, m as por falta
de eloquência não conseguem pô-las em evidência: é um a bobagem . Sabeis,
a m eu ver, o que é isso? São ilusões, que lhes vêm de certos conceitos
disform es que eles não conseguem desem aranhar e esclarecer dentro de
suas cabeças, nem , por conseguinte, produzir externam ente. Eles m esm os
ainda não se com preendem : vede-os gaguej ando um pouco no m om ento de
dar à luz e com preendereis que o trabalho deles não está no parto m as na
concepção, e que não fazem m ais que lam ber essa m atéria im perfeita. De
m inha parte afirm o, e Sócrates ordena, que quem tem no espírito um a ideia
viva e clara há de expressá-la, sej a em bergam asco sej a por m ím icas, se for m udo:
Verbaque praevisam rem non invita sequentur. 124
E as palavras seguirão sem dificuldade a coisa bem concebida.
E com o dizia um outro em sua prosa, tão poeticam ente, cum res animum
occupavere, verba ambiunt. 125as palavras estão ali quando a coisa está presente
no espírito.] E m ais este: ipsae res verba rapiunt. 126as próprias coisas arrastam as palavras.] “Mas ele não sabe o que é ablativo, conj untivo,
nem substantivo, nem gram ática.” Seu lacaio tam pouco, e m uito m enos um a
vendedora de arenques do Petit Pont; e no entanto vos entreterão até fartar,
se quiserdes, e sem dúvida vão se em brulhar tão pouco nas regras de sua
linguagem quanto o m elhor Mestre de Artes da França. “Mas ele não sabe
retórica, nem no seu prólogo sabe captar a benevolência do cândido leitor.”
Nem precisa sabê-lo. Na verdade, toda essa bela pintura se ofusca facilm ente
com o brilho de um a verdade sim ples e ingênua: essas delicadezas só servem
para divertir o vulgo, incapaz de consum ir a carne m ais sólida e m ais firm e,
com o Afer m ostra bem claram ente em Tácito: os em baixadores de Sam os
foram ver Cleôm enes, rei de Esparta, tendo preparado um a bela e longa
oração para incitá-lo à guerra contra o tirano Polícrates; ele os deixou falar
bastante e depois respondeu: “Quanto a vosso preâm bulo e exórdio, não m e
lem bro m ais dele, nem , por conseguinte, do m eio; e quanto à vossa
conclusão, não quero fazer nada disso”. Eis um a bela resposta, parece-m e, e
arengadores bem atrapalhados. E que tal este outro? Os atenienses estavam
a escolher entre dois arquitetos para dirigir um a grande construção; o
prim eiro, m ais afetado, apresentou-se com um belo discurso preparado sobre
o trabalho a ser feito, e ia puxando a seu favor o j ulgam ento do povo; m as o
outro só retrucou com um as três palavras: “Senhores atenienses, o que ele
disse eu farei”. No auge da eloquência de Cícero, várias pessoas punham -se
a adm irá-lo, m as Catão só fazia rir: “Tem os”, dizia, “um cônsul divertido”. Que
venha antes ou depois, um a frase útil, um a bela tirada é sem pre bem -vinda.
Se não com binar com o que vem antes nem com o que vem depois, é boa em
si m esm a. Não sou desses que pensam que a boa rim a faz o bom poem a:
deixai o poeta alongar um a sílaba curta, se quiser, isso pouco im porta; se as
invenções sorriem , se o espírito e o j ulgam ento fizeram bem sua tarefa, eis um
bom poeta, direi, m as um m au versej ador,
Emunctae naris, durus componere versus. 127
Com por versos duros m as tendo um bom faro.
Que se faça, diz Horácio, sua obra perder todas as costuras e m edidas,
Tempora certa modosque, et quod prius ordine
verbum est,
Posterius facias, praeponens ultima primis,
Invenias etiam disjecti membra poetae; 128
As m edidas precisas e os ritm os; e que se ponha no fim a palavra
colocada antes, trocando as últim as pelas prim eiras; encontrar-se-ão ainda
os m em bros separados do poeta;
nem por isso ela perderá o valor: os próprios fragm entos serão belos. Foi o
que respondeu Menandro quando, aproxim ando-se o dia para o qual
prom etera um a com édia em que ainda não tinha posto a m ão, o criticaram :
“Ela está com posta e pronta, basta acrescentar os versos”. Com o tem a e a m atéria arrum ados na alm a, ele tinha o restante em pouca conta. Desde que
Ronsard e Du Bellay deram credibilidade à nossa poesia francesa, não vej o
aprendiz, por pequeno que sej a, que não em pole as palavras, que não alinhe
as cadências m ais ou m enos com o eles. Plus sonat quam valet. 129Ele faz m ais barulho do que vale.] Para o vulgo, nunca houve tantos poetas, m as assim
com o para estes foi bem fácil im itar os ritm os daqueles, assim tam bém são
incapazes de im itar as ricas descrições de um e as delicadas invenções do
outro. Que sej a, m as o que fará o aluno se o pressionarem com a sutileza
sofisticada de um silogism o: presunto faz beber, beber m ata a sede, portanto
presunto m ata a sede? Que ele ria. É m ais inteligente rir do que responder a
isso. Que tom e de Aristipo esta réplica j ocosa: “Por que desatar o que, atado,
j á é intrincado?”. A alguém que desafiava Cleanto com m inudências dialéticas,
Crisipo declarou: “Vai brincar de passes de m ágica com as crianças, e não
desvies para isso os pensam entos sérios de um hom em m aduro”. Se essas
tolas argúcias, contorna et aculeata sophismata, 130sofism as tortuosos e espinhosos] devem persuadi-lo a aceitar um a m entira, isso é perigoso: m as se
perm anecem sem efeito e só lhe dão vontade de rir, não vej o por que deve
precaver-se. Há uns tão bobos que se desviam do cam inho um quarto de
légua para correr atrás de um a bonita frase: aut qui non verba rebus aptant,
sed res extrisecus arcessunt, quibus verba conveniant. 131ou que não adaptam as palavras aos assuntos, m as que procuram assuntos aos quais suas
palavras possam convir.] E outro: Qui alicujus verbi decore placentis vocentur
ad id quod non proposuerant scribere. 132Que para colocar um a palavra bonita
são atraídos para o que não tinham previsto escrever.] Com m uito m ais gosto torço um a bela sentença para costurá-la em m im do que destorço o fio de m eu argum ento para ir procurá-la. Ao contrário, cabem às palavras servir e
seguir, e se o francês não conseguir chegar lá, que o gascão consiga. Quero
que as coisas dom inem e encham a im aginação de quem escuta, de tal m odo
que o ouvinte não tenha nenhum a lem brança das palavras. A linguagem que
am o é um a linguagem sim ples e natural, tanto no papel com o na boca: um a
linguagem suculenta e nervosa, curta e concisa, não tanto delicada e penteada
com o veem ente e brusca.
Haec demum sapiet dictio, quae feriet. 133
A expressão que fere é a certa.
Antes difícil que tediosa, afastada da afetação, sem regra, descosida e
ousada: que cada trecho form e um a unidade; não pedantesca, não padresca,
não legalesca, m as antes soldadesca, com o Suetônio cham a a de Júlio César.
E não percebo m uito bem por que a cham a assim . De bom grado im itei esse
desleixo que se vê em nossa j uventude no traj ar de suas roupas. Um m anto
que parece um xale, a capa sobre um om bro, um a m eia m al esticada, o que
representa um a altivez desdenhosa em face desses ornam entos externos e
um a negligência em face dos artifícios; m as acho-o ainda m ais bem
em pregado na form a de falar. Toda afetação, em especial na alegria e na
liberdade francesas, é m al vinda no cortesão. E em um a m onarquia, todo
fidalgo deve ser form ado para ter a postura de um cortesão. Por isso bem
fazem os ao nos desviarm os um pouco para o natural e para o desprezo das
conveniências. Não gosto de texturas em que as j unções e as costuras
aparecem , assim com o num belo corpo não devem os conseguir contar os ossos e as veias. Quae veritati operam dat oratio, incomposita sit et
simplex. 134O discurso que se prende à verdade deve ser sim ples e sem requinte.
Quis accurate loquitur, nisi qui vult putide loqui?135 Quem cuida de seu discurso senão aquele que quer falar com afetação? Quando a eloquência
nos desvia para si m esm a, é prej udicial às coisas. Assim com o nos vestuários
é infantilidade querer se distinguir de algum a m aneira particular e inusitada,
assim tam bém na linguagem a procura de frases novas e palavras pouco
conhecidas decorre de um a am bição escolar e pueril. Possa eu m e servir
apenas daquelas em pregadas nos m ercados de Paris! Aristófanes, o
gram ático, nada com preendia quando criticava em Epicuro a sim plicidade de
suas palavras e a finalidade de sua arte oratória, que era apenas clareza de
linguagem . Por sua facilidade, a im itação do falar ganha incontinente todo um
povo. A im itação do j ulgar, do inventar, não vai tão depressa. A m aioria dos leitores, quando encontra um a roupa igual, pensa m uito falsam ente possuir um
corpo igual. Mas a força e os nervos não se em prestam : os adornos e o
m anto em prestam -se. A m aioria dos que m e frequentam fala da m esm a
m aneira que estes Ensaios; m as não sei se pensa da m esm a m aneira. Os
atenienses (diz Platão) têm , por seu lado, preocupação com a abundância e a
elegância do falar, os espartanos, com a brevidade, e os de Creta, com a
fecundidade das ideias m ais que da linguagem : estes são os m elhores. Zenão
dizia possuir dois tipos de discípulos: uns, a que cham ava ϕ ιλολογουξ,
curiosos de aprender as coisas, eram seus favoritos; os outros, λογοϕ ιλουξ, 136
que só cuidavam da linguagem . Não significa isso que falar bem não sej a um a
bela e boa coisa, m as não tão boa com o se pretende, e irrita-m e que toda a nossa vida sej a ocupada nisso. Gostaria de, prim eiram ente, saber bem m inha
língua, e a de m eus vizinhos com quem m antenho contato m ais habitual. Não
há dúvida de que o grego e o latim são um belo e grande ornam ento, m as por
eles paga-se m uito caro. Contarei aqui um a m aneira de pagar m ais barato que
de costum e e que foi testada em m im m esm o: há de utilizá-la quem quiser.
Meu finado pai, tendo feito todas as buscas que um hom em pode fazer entre
pessoas sábias e cultivadas a respeito de um a form a excelente de educação,
foi advertido do inconveniente do sistem a tradicional na época. E diziam -lhe
que essa dem ora que levávam os para aprender as línguas, que para os
antigos gregos e rom anos não custavam nada, era o único m otivo de não
conseguirm os chegar à grandeza de alm a e de conhecim ento deles; não creio
que essa sej a a única causa. O fato é que o expediente encontrado por m eu
pai foi, quando eu ainda estava com a am a de leite e antes que m inha língua
se soltasse, confiar-m e a um alem ão,137 que depois m orreu na França com o fam oso m édico, ignorando totalm ente nossa língua m as m uito bem versado na
latina. Este, que m eu pai m andara buscar especialm ente e que era m uito bem
rem unerado, m e tinha continuam ente nos braços. Meu pai tam bém contratou,
ao lado dele, dois outros, de m enor saber, para m e seguir e aliviar o prim eiro:
estes só conversavam com igo em latim . Quanto ao resto da casa, era um a
regra inviolável que nem ele nem m inha m ãe, nem criado nem cam areira
falassem em m inha presença a não ser com palavras em latim , que todos
aprenderam para conversar com igo. Foi um a m aravilha o fruto que cada um
tirou disso: m eu pai e m inha m ãe aprenderam latim o bastante para
com preendê-lo e adquiriram o suficiente para o falarem se necessário, com o
tam bém fizeram os outros dom ésticos m ais ligados ao m eu serviço. Em sum a,
nós nos latinizam os tanto que transbordou latim até para as nossas aldeias ao
redor, onde criaram raízes e onde ainda há vários nom es latinos para
artesãos e ferram entas. Quanto a m im , eu tinha seis anos antes de
com preender o francês m ais que o perigordino ou o árabe; e sem m étodo,
sem livro, sem gram ática ou preceito, sem chicote e sem lágrim as, tinha
aprendido o latim , tão puro com o o que sabia m eu m estre-escola, pois eu não
tinha com o m isturá-lo ou alterá-lo. Se à guisa de exercício queriam m e dar um
tem a, à m oda dos colégios, davam aos outros em francês m as a m im deviam
dar em m au latim para que eu passasse para o bom . E Nicholas Grouchy, que
escreveu De comitiis romanorum, Guillaum e Guérente, que com entou
Aristóteles, Georges Buchanan, esse grande poeta escocês, Marc Antoine
Muret (que a França e a Itália reconhecem com o o m elhor orador da época),
m eus preceptores dom ésticos, disseram -m e m uitas vezes que em m inha
infância eu tinha essa linguagem tão pronta e tão à m ão que tem iam m e
abordar. Buchanan, que depois vi no séquito do falecido senhor m arechal de
Brissac, disse-m e que estava ocupado em escrever sobre a educação das
crianças e que tom ava a m inha com o exem plo, pois era então encarregado
desse conde de Brissac que m ais tarde vim os tão valoroso e tão bravo.
Quanto ao grego, de que não tenho quase nenhum conhecim ento, m eu pai
tencionou que eu o aprendesse m etodicam ente. Mas de um j eito novo, em
form a de brincadeira e exercício: pelotávam os138 nossas declinações, com o os que, por certos j ogos de tabuleiro, aprendem aritm ética e geom etria. Pois entre outras coisas, ele fora aconselhado a m e fazer apreciar a ciência e o
dever, sem forçar m inha vontade e por m eu próprio desej o; e a educar m inha
alm a em absoluta doçura e liberdade, sem rigor nem coação. E porque alguns
pretendem que acordar as crianças de m anhã aos sobressaltos e arrancá-las
de repente do sono (em que estão m ergulhadas m uito m ais que nós), e com
violência, perturba seu tenro m iolo, ele chegou, digo eu, a tal superstição que
m andava m e acordar ao som de um instrum ento, e nunca fiquei sem alguém
que m e prestasse esse serviço. Esse exem plo bastará para j ulgar o resto e
tam bém para valorizar a sabedoria e a afeição de um pai tão bom , a quem
não se deve culpar se não recolheu nenhum fruto correspondente a cultura tão
requintada. Duas foram as causas disso: prim eiro, um terreno estéril e
desfavorável. Pois em bora eu tivesse a saúde firm e e intacta, e ao m esm o
tem po um a natureza suave e afável, era ao m esm o tem po tão lerdo, m ole e
sonolento que não conseguiam m e arrancar da ociosidade, salvo para m e
fazer brincar. O que eu via, via bem ; e sob essa com pleição pesada, nutria
ideias ousadas e opiniões acim a de m inha idade. O espírito era preguiçoso e
só avançava até onde o levavam ; a com preensão, tardia; a im aginação,
frouxa, e além de tudo havia um a incrível falta de m em ória. Não espanta se de
tudo isso ele não tenha sabido tirar nada que valesse. Em segundo lugar,
assim com o os apressados que têm um desej o frenético de encontrar a cura
se deixam levar por todo tipo de conselho, o bom hom em , tendo um m edo
extrem o de falhar num a coisa que tanto tom ara a peito, deixou-se enfim levar
pela opinião com um , que sem pre segue os que vão na frente, com o os grous, e subm eteu-se ao costum e, j á não tendo ao seu redor aqueles que lhe tinham
dado as prim eiras ideias sobre educação que ele trouxera da Itália; e enviou-
m e, quando eu tinha cerca de seis anos, para o Colégio de Guy enne, m uito
florescente nesse tem po e o m elhor da França. E lá tam bém nada é possível
acrescentar ao cuidado que teve ao m e escolher preceptores particulares
com petentes, e em relação a todos os outros detalhes de m inha educação,
preservando várias práticas particulares contrárias ao costum e dos colégios;
m as, de qualquer m aneira, m esm o assim era um colégio. Meu latim degenerou
de im ediato e, por falta de prática, dele perdi todo o uso. E essa m inha
educação inabitual só serviu para m e fazer pular, logo ao chegar, as prim eiras
turm as; pois aos treze anos, quando saí do colégio, tinha com pletado m eu
curso (com o o cham am ) e, na verdade, sem nenhum fruto que agora eu possa
levar em conta. O prim eiro gosto que tive pelos livros veio-m e do prazer com
as fábulas da Metamorfose de Ovídio. Pois por volta dos sete ou oito anos eu
m e furtava de qualquer outro prazer para lê-las, tanto m ais que o latim era
m inha língua m aterna e que era o livro m ais fácil que eu conhecia e o m ais
adaptado à m inha pouca idade, devido ao assunto; pois dos Lancelot du Lac,
Amadis, Huon de Bordeaux, e de tais m ixórdias de livros com que a infância se distrai, eu não conhecia nem sequer os nom es e ainda nem conheço o
conteúdo, de tão exata era m inha disciplina. Com isso, tornava-m e m ais
displicente para o estudo de m eus outros livros prescritos. Foi quando m e veio
singularm ente a propósito o contato com um hom em inteligente, um preceptor
que soube com habilidade tolerar esse desregram ento e outros parecidos.
Pois graças a ele li de enfiada a Eneida, de Virgílio, e depois Terêncio, e
depois Plauto, e as com édias italianas, sem pre seduzido pela doçura do tem a.
Se ele tivesse sido tão louco para rom per esse ritm o, estim o que eu só teria
trazido do colégio o ódio pelos livros, com o faz quase toda a nossa nobreza.
Agiu com perspicácia, fazendo de conta que nada via; aguçava m inha fom e, só
m e deixando saborear aqueles livros furtivam ente, m antendo-m e com
suavidade no bom cam inho para os outros estudos regulam entares. Pois as
principais qualidades que m eu pai buscava naqueles a quem m e confiava eram
a benevolência e o tem peram ento fácil. Assim , o m eu próprio não tinha outro
defeito além da m orosidade e da preguiça. O perigo não era que eu fizesse
m al, m as que não fizesse nada. Ninguém prognosticava que eu devesse m e
tornar m au, e sim inútil: previa-se vadiação, não m aldade. Sinto que foi isso
m esm o que aconteceu. As queixas que zunem em m eus ouvidos são estas:
“Ele é preguiçoso, frio nos deveres da am izade e de parentesco; e para as
funções públicas, m uito pessoal, m uito desdenhoso”. Mesm o os m ais
insultantes não dizem “Por que tom ou? Por que não pagou?”, m as “Por que
não perdoa a dívida? Por que não dá?”. Eu consideraria um favor se só
desej assem de m im tais atitudes que excedem m inhas obrigações. Mas são
inj ustos ao exigir o que não devo, com m uito m ais rigor do que exigem de si
m esm os o que devem . Condenando-m e, suprim em o caráter desinteressado
da ação e a gratidão que m e seria devida, ao passo que a boa ação deveria
pesar m ais por ser de m inha m ão, considerando-se que nada tenho no
passivo. Posso tanto m ais dispor livrem ente de m inha fortuna na m edida em
que é inteiram ente m inha; e dispor de m im quanto m ais sou eu. Todavia, se eu desse grande lustre às m inhas ações, talvez refutasse bastante essas
críticas; e a alguns ensinaria que não estão ofendidos porque não faço o
suficiente por eles m as sim porque poderia fazer m uito m ais do que faço.
Porém , ao m esm o tem po m inha alm a não deixava de ter em si em oções fortes
e j ulgam entos seguros e abertos sobre os obj etos que conhecia; e digeria-os
sozinha, sem com unicar a ninguém . E entre outras coisas creio, de verdade,
que ela teria sido totalm ente incapaz de se render à força e à violência.
Deverei dem onstrar essa faculdade de m inha infância, um a segurança no
sem blante, um a m aleabilidade de voz e gesto, aplicando-m e aos papéis que
interpretava? Pois, antes da idade,
Alter ab undecimo tum me vix ceperat annus, 139
Eu tinha apenas chegado ao décim o segundo ano,
representei os principais personagens em tragédias latinas de Buchanan,
Guérente e Muret, que foram encenadas dignam ente no nosso Colégio de
Guy enne. Nisso, assim com o em todos os outros aspectos de seu cargo,
Andreas Goveanus, 140 nosso diretor, foi sem com paração o m aior diretor da França; e consideravam -m e seu operário-m estre. O teatro é um exercício que
não desaconselho aos m eninos de boas fam ílias; e vi depois nossos príncipes
se entregarem pessoalm ente a ele, a exem plo de certos antigos, de form a
honrosa e louvável. Na Grécia, era perm itido até m esm o às pessoas nobres
fazer disso sua profissão, Aristoni tragico actori rem aperit: huic et genus et
fortuna honesta erant: nec ars quia nihil tale apud Graecos pudori est, ea
deformabat. 141Abriu-se ao ator de tragédia Ariston; este era de um nascim ento e de um a fortuna em inentes, que não tinham rebaixado sua arte, considerada entre os gregos com o nada m enos que desonrosa.] Pois sem pre