Os Ensaios

Michel de Montaigne · Capítulo 17 de 33

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Os Ensaios

Sobre a solidão

seus raios, e quem erguer os olhos para receber um a luz m aior em seu

próprio corpo, que não ache estranho se, com o castigo de sua petulância,

perder a visão. Quis hominum potest scire consilium Dei? aut quis poterit

cogitare, quid velit Dominus?167 Qual é o hom em que pode conhecer os desígnios de Deus? Ou quem poderá penetrar o querer de Deus?

Sobre a solidão

Capítulo XXXVIII168

Como muitos filósofos da Antiguidade, Montaigne retirou-se do mundo e, na

solidão de suas propriedades, teve tempo de ir em busca da sabedoria, da

bondade e da tranquilidade de espírito. Sua opinião de que deveríamos ter

uma arrière-boutique (um cantinho) para nos isolarmos é um lembrete de

que a verdadeira solidão é retirar-se espiritualmente do mundo. Viver na

solidão não significa viver como um eremita mas viver com distanciamento

— se possível longe das cortes e da agitação do mundo. Montaigne faz uma

nítida distinção entre a solidão do santos, que chegam ao êxtase, e a dos

homens comuns. A reflexão sobre a solidão inscrevia-se num debate entre a

vida ativa e a vida contemplativa, ilustrado por uma rica tradição filosófica e

retórica que data de Aristóteles e Platão. A edição póstuma traz, além de

certas máximas e exemplos tirados em especial de Antístenes, um

desenvolvimento pessoal em forma de exortação, quando Montaigne fala da

própria velhice como sendo uma verdadeira arte de estar sozinho consigo

mesmo.

Deixem os de lado essa longa com paração entre a vida solitária e a ativa; e quanto ao belo adágio sob o qual se encobrem a am bição e a cupidez, que “não nascem os para nosso interesse particular, m as para o público”,

invoquem os ousadam ente os que estão na dança; e que, com a m ão na

consciência, eles digam se, ao contrário, não procuram as situações, os

cargos e esse alvoroço m undano, antes, para tirar do público seu proveito

particular. Os m eios errados pelos quais avançam os em nosso século bem

m ostram que seus obj etivos não valem m uito. E respondam os à am bição que

é ela m esm a que nos dá o gosto pela solidão. Pois do que ela foge tanto

quanto da sociedade? Que procura tanto senão sua liberdade de agir? Pode-

se fazer o bem e o m al em qualquer lugar; no entanto, se é verdadeiro o dito

de Bias, que “a pior parte é a m aior”, ou o que diz o Eclesiástico, que “entre

m il não há um bom ”,

Rari quippe boni numero vix sunt totidem, quot

Thebarum portae vel divitis ostia Nili, 169

Na verdade raros são os hom ens bons, o núm ero deles é apenas o das

portas de Tebas ou das em bocaduras do Nilo próspero,

então, o contágio é m uito perigoso na m ultidão. É preciso im itar ou odiar os

viciosos: as duas coisas são perigosas, tanto parecer-se com eles, porque

são m uitos, com o odiar m uitos deles, porque não se parecem . E os

m ercadores que vão para o m ar têm razão de zelar para que os que se

m etem na m esm a nau não sej am dissolutos, blasfem adores, perversos,

estim ando que tal sociedade é m al-aventurada. Por isso Bias disse,

divertidam ente, aos que passavam com ele o perigo de um a grande torm enta

e apelavam para o socorro de Deus: “Calai-vos, que eles não sintam que estais aqui com igo”. E, exem plo m ais im pressionante: Albuquerque, vice-rei na

Índia para o rei Manuel de Portugal, num extrem o perigo de tem pestade

m arítim a pegou em seus om bros um rapazinho com o único obj etivo de que,

associado o perigo de am bos, sua inocência lhe servisse de garantia e

recom endação j unto ao favor divino, para que o pusesse a salvo. Não é que o

sábio não possa viver feliz em qualquer lugar, e nem m esm o sozinho na

m ultidão de um palácio; m as, se puder escolher, dela fugirá, até da vista, diz

Bias. Suportará aquilo, se for preciso, m as, se puder, escolherá isto. Não lhe

parece ter se separado o suficiente dos vícios se ainda tiver de lutar com os

de outro. Carondas castigava por serem m aus aqueles que frequentavam as

m ás com panhias. Não há nada tão insociável com o o hom em , e nada m ais

sociável: um por vício, o outro por natureza. E Antístenes não m e parece ter

bem respondido àquele que o censurava por seu convívio com os m aus, ao

dizer que os m édicos vivem bem entre os doentes. Pois se os m édicos servem

à saúde dos doentes, deterioram a própria, pelo contágio, pela visão contínua

e contato com as doenças. Ora, o obj etivo, creio eu, é um só: viver m ais à

vontade e a gosto. Mas nem sem pre procuram os bem o cam inho: volta e m eia

pensam os ter abandonado os negócios e apenas os m udam os. Não há m enos

torm ento no governo de um a fam ília que no de um Estado inteiro; onde quer

que a alm a estej a ocupada, ali está por inteiro; e por serem os afazeres

dom ésticos m enos im portantes, nem por isso são m enos im portunos. E m ais,

por term os nos livrado da Corte e do m ercado, não nos livram os dos principais

torm entos de nossa vida:

ratio et prudentia curas,

Non locus effusi late maris arbiter aufert. 170

são a razão e a prudência que elim inam as preocupações, não um lugar

aberto sobre a vasta extensão do m ar.

A am bição, a cupidez, a indecisão, o m edo e as concupiscências não nos

abandonam só por term os m udado de paisagem :

Et post equitem sedet atra cura. 171

E a negra tristeza está sentada na garupa do cavaleiro.

Muitas vezes nos seguem até nos claustros e nas escolas de filosofia. Nem os

desertos nem as covas nos rochedos, nem o cilício nem os j ej uns nos libertam

deles:

haeret lateri lethalis arundo.172

a flecha m ortal está plantada no flanco.

Diziam a Sócrates que alguém não tinha se em endado durante um a viagem :

“Bem creio”, disse, “levou a si m esm o j unto consigo”.

Quid terras alio calentes

Sole mutamus? patria quis exul

Se quoque fugit? 173

Por que m udam os para terras queim adas por um outro sol? Quem deixa

sua pátria foge tam bém de si m esm o?

Se prim eiram ente não nos aliviam os, a nós e a nossa alm a, do peso que a

oprim e, m ovê-la a esm agará m ais ainda, assim com o num navio as cargas

estorvam m enos quando estão bem calçadas. Causa-se m ais m al do que bem ao doente fazendo-o m udar de lugar. O m al penetra quando ele é m exido,

assim com o as estacas se cravam m ais fundo e firm am -se ao serem

balançadas e sacudidas. Por isso não basta m udar de lugar, é preciso

rem over os atributos do povo que existem em nós, é preciso sequestrar a si

m esm o e reaver a si m esm o:

rupi iam vincula, dicas

Nam luctata canis nodum arripit, attamen illa

Cum fugit, a collo trahitur pars longa catenae. 174

rom pi m eus laços, dirás, com o com um longo esforço o cão arrancou o nó

que o am arra, e no entanto, enquanto foge, ele arrasta pelo pescoço um

longo pedaço da corrente.

Levam os nossos grilhões j unto conosco. Nossa liberdade não é total, ainda

viram os os olhos para aquilo que abandonam os e que ainda enche nossa

im aginação:

Nisi purgatum est pectus, quae praelia nobis

Atque pericula tunc ingratis insinuandum?

Quantae conscidunt hominem cuppedinis acres

Sollicitum curae, quantique perinde timores?

Quidve superbia, spurcitia, ac petulantia, quantas

Efficiunt clades, quid luxus desidiesque?175

Se nosso coração não é purificado, quais com bates, quais perigos terem os

de enfrentar sem proveito? Quantas ásperas preocupações dilaceram o

hom em agitado pelas paixões, quantos tem ores? E o orgulho, a luxúria, a

im pudência, quantos desastres não causam , e o luxo e a preguiça?

Nosso m al está em nossa alm a; ora, ela não pode escapar de si m esm a,

In culpa est animus, qui se non effugit unquam. 176

Assim , é preciso trazê-la de volta e refugiá-la em si: essa é a verdadeira

solidão, e que pode ser desfrutada no m eio das cidades e das cortes dos reis;

m as a desfrutam os m ais convenientem ente à parte. Ora, j á que decidim os

viver sós e dispensar com panhia, façam os com que nosso contentam ento

dependa de nós: libertem o-nos de todos os laços que nos prendem aos

outros, conquistem os de nós m esm os o poder de viver sós, em conhecim ento

de causa, e assim viverm os a nosso gosto. Tendo Estílpon escapado do

incêndio de sua cidade, em que perdera m ulher, filhos e bens, Dem étrio

Poliorcetes, ao vê-lo em m eio a tam anha destruição de sua pátria, e com o

rosto nada assustado, perguntou-lhe se não tinha sofrido prej uízo; ele

respondeu que não e que graças a Deus não perdera nada de seu. É o que

dizia, brincando, o filósofo Antístenes: que o hom em devia m unir-se de

provisões que boiassem na água e pudessem , a nado com ele, escapar do

naufrágio. Sem dúvida, o hom em de bom entendim ento nada perdeu se tiver a

si m esm o. Quando a cidade de Nola foi destruída pelos bárbaros, Paulino, que

era seu bispo, tendo tudo perdido e sendo prisioneiro deles, rezava assim a

Deus: “Livrai-m e, Senhor, de sentir essa perda, pois sabeis que eles ainda

não tocaram em nada do que é m eu”. As riquezas que o faziam rico e os bens

que o tornavam bom ainda estavam por inteiro. Eis o que é escolher direito os

tesouros que podem escapar do estrago e escondê-los em lugar aonde

ninguém vá e que só possa ser revelado por nós m esm os. É preciso ter m ulheres, filhos, bens e sobretudo saúde, se possível, m as não se apegar a

eles de m aneira que nossa felicidade disso dependa. É preciso reservar um

canto todo nosso, todo livre, e lá estabelecer nossa verdadeira liberdade e

nosso principal retiro e solidão. Aí devem os praticar nossa conversa habitual,

de nós para nós m esm os, e tão privada que nenhum convívio ou com unicação

com as coisas externas encontre espaço: discorrer e rir, com o se sem m ulher,

sem filhos e sem bens, sem séquito, sem criados, a fim de que, quando

chegar o m om ento de sua perda, não nos sej a novidade dispensá-los. Tem os

um a alm a capaz de recolher-se em si m esm a; ela pode se fazer com panhia,

tem com que atacar e com que se defender, com que receber e com que dar:

não tem am os nessa solidão em botar-nos em um a penosa ociosidade,

In solis sis tibi turba locis. 177

Nesses locais solitários sê para ti m esm o a m ultidão.

A virtude contenta-se consigo m esm a: sem disciplina, sem palavras, sem

ações. Em nossas ações costum eiras, de m il não há um a só que nos diga

respeito. Este que vês escalando o alto das ruínas daquele m uro, furioso e

fora de si, alvo de tantos arcabuzes; e aquele outro todo coberto de cicatrizes,

transido e pálido de fom e, decidido a m orrer m ais que a abrir-lhe a porta,

pensas que aí estão para si m esm os? Para um outro talvez, que j am ais viram ,

e que, m ergulhado enquanto isso na ociosidade e nas delícias, pouco se

im porta com o que fazem . E este aqui, todo pituitoso, rem elento e im undo, que

vês sair depois da m eia-noite de um gabinete de trabalho, pensas que procura

entre os livros com o se tornar um hom em de bem , m ais feliz e m ais sábio? De j eito nenhum . Ali m orrerá, ou ensinará à posteridade a m edida dos versos de

Plauto e a verdadeira grafia de um a palavra latina. Quem não troca de bom

grado a saúde, o repouso e a vida pela reputação e pela glória? A m ais inútil,

vã e falsa m oeda que há em circulação entre nós? Nossa m orte não nos

am edrontava o suficiente, encarreguem o-nos ainda da de nossas m ulheres, de

nossos filhos e de nossos serviçais. Nossos negócios não nos davam trabalho

suficiente, cuidem os tam bém , para nos atorm entarm os e quebrarm os a

cabeça, dos de nossos vizinhos e am igos.

Vah! quemquamne hominem in animum instituere, aut

Parare, quod sit charius, quam ipse est sibi? 178

Ora essa! Um hom em poria no espírito ou acolheria algum a coisa que lhe

fosse m ais estim ada do que si m esm o?

Parece-m e que a solidão é m ais verossím il e m ais razoável para os que

dedicaram ao m undo seus anos m ais ativos e florescentes, a exem plo de

Tales. Já vivem os bastante para o outro, vivam os para nós ao m enos neste

fim de vida, voltem os para nós e para nosso bem -estar nossos pensam entos

e intenções: não é j ogada fácil organizar a própria retirada com segurança; ela

j á nos é bastante pesada sem lhe m isturarm os outros proj etos. Visto que

Deus nos dá tem po para cuidar de nossa partida, preparem o-nos para ela;

arrum em os as m alas, façam os logo as despedidas da com panhia;

desvencilhem o-nos desses laços violentos que nos arrastam alhures e

afastam -nos de nós. Há que desatar essas obrigações tão fortes, e doravante

am ar isto ou aquilo m as só desposar a si m esm o; isto é, que o restante sej a

nosso, m as não unido e colado de m odo que não possam os soltá-lo sem nos

esfolarm os e arrancar um pedaço de nós m esm os. A m aior coisa do m undo é

saber ser de si m esm o. É tem po de desligarm o-nos da sociedade, posto que nada podem os lhe conceder. E quem não pode em prestar, que se livre de

pedir em prestado. Nossas forças estão nos faltando: retirem o-las e

estreitem o-las dentro de nós. Quem puder inverter e reunir em si os papéis da

am izade e da com panhia, que o faça. Nesse declínio, que torna o hom em

inútil, pesado e im portuno para os outros, que ele evite ser im portuno, pesado

e inútil para si m esm o. Que se louve e se afague, e sobretudo se governe,

respeitando e tem endo sua razão e sua consciência, de tal m odo que não

possa dar um passo em falso na presença dos outros sem se envergonhar.

Rarum est enim, ut satis se quisque vereatur.179De fato é raro quem respeita a si m esm o o suficiente.] Sócrates diz que os j ovens devem se instruir; os

hom ens, exercitar-se para bem agir; os velhos, retirar-se de toda ocupação

civil e m ilitar, vivendo com o bem quiserem , sem obrigações específicas. Há

índoles m ais aptas que outras para esses preceitos do retiro. As que têm a

com preensão frouxa e fraca, e sensibilidade e vontade delicadas, e que não

se suj eitam nem se deixam explorar facilm ente, entre as quais m e encontro,

tanto por condição natural com o por reflexão, hão de se curvar m elhor a esse

conselho do que as alm as ativas e ocupadas, que tudo abarcam e em penham -

se por todo lado, que se apaixonam por todas as coisas, que se oferecem , se

apresentam e se dão em todas as ocasiões. Devem os servir-nos dessas

vantagens acidentais e externas a nós na m edida em que nos são agradáveis;

m as sem torná-las nosso principal fundam ento, pois não o são, nem a razão

nem a natureza assim querem . Por que, indo contra suas leis, vam os fazer de

nossa felicidade um a escrava do poder dos outros? Tam bém é atitude de

excessiva virtude antecipar os golpes da fortuna, privar-se das com odidades

que tem os à m ão, com o vários fizeram por devoção e alguns filósofos por

convicção, servir a si m esm o, dorm ir no chão, furar os próprios olhos, j ogar

suas riquezas no m eio do rio, procurar a dor (aqueles, para ganharem a

beatitude na outra vida, pelo torm ento desta; estes, instalando-se no degrau

m ais baixo para evitar nova queda). Que as naturezas m ais rij as e m ais fortes

tornem até m esm o seu próprio retiro glorioso e exem plar:

tuta et parvula laudo,

Cum res deficiunt, satis inter vilia fortis:

Verum ubi quid melius contingit et unctius, idem

Hos sapere, et solos aio bene vivere, quorum

Conspicitur nitidis fundata pecunia villis. 180

louvo a segurança de beneficiar-m e de bens m odestos, quando a fortuna

m e falta, bastante coraj oso para m e contentar com pouco: m as quando a

situação é m elhor e m ais próspera, proclam o que só são sábios e felizes

aqueles que vem os com um a riqueza baseada em opulentas propriedades.

Quanto a m im , há m uito que fazer sem ir tão longe. Basta-m e, sob os favores

da fortuna, preparar-m e para seu desfavor, e, estando bem a m eu gosto,

retratar o m al por vir, tanto quanto a im aginação consiga alcançá-lo, assim

com o nos acostum am os a sim ular guerras em plena paz com as j ustas e os

torneios. Não considero o filósofo Arcesilau m enos austero por saber que usou

utensílios de ouro e prata, segundo lhe perm itia a condição de sua fortuna, e

estim o-o m ais por usá-los m oderada e generosam ente do que se tivesse se

privado disso. Vej o até que lim ites vão as necessidades naturais, e,

considerando o pobre m endigo à m inha porta, frequentem ente m ais alegre e

m ais sadio que eu, coloco-m e em seu lugar: tento adequar m inha alm a a seu

ponto de vista. E percorrendo assim outros exem plos, e em bora pensando

que a m orte, a pobreza, o desprezo e a doença estej am em m eus

calcanhares, decido-m e facilm ente a não m e aterrorizar com aquilo que um

inferior a m im suporta com tam anha paciência. E não quero crer que um a

inteligência debilitada possa m ais que um a vigorosa, ou que a razão não

consiga produzir os m esm os efeitos do hábito. E sabendo o quanto essas com odidades acessórias são precárias, não deixo, nem m esm o em pleno

desfrute delas, de suplicar a Deus m eu pedido m ais im portante, isto é, que ele

m e faça contente com igo m esm o e com os bens que nascem de m im . Vej o

j ovens saudáveis que, não obstante, carregam em seus baús um a profusão de

pílulas para tom á-las quando o resfriado os atacar, o qual tem em tanto m enos

porque pensam ter o rem édio à m ão. Assim é preciso fazer. E m ais: se nos

sentirm os suj eitos a um a doença m ais grave, m unir-se desses m edicam entos

que acalm am e adorm ecem a parte doente. A ocupação que se deve escolher

para um a vida com o essa deve ser um a ocupação não penosa nem

aborrecida, do contrário inutilm ente pretenderíam os ter ido em busca de

repouso. Isso depende do gosto particular de cada um : o m eu não se

acom oda de j eito nenhum aos afazeres dom ésticos. Os que os apreciam

devem dedicar-se a eles com m oderação,

Contentur sibi res, non se submittere rebus. 181

Que eles se esforcem para subm eter as coisas, e não a elas se

subm eterem .

Pois, do contrário, a adm inistração dom éstica torna-se um ofício servil, com o

a denom ina Salústio. Tem aspectos m ais suportáveis, com o o cuidado com a

j ardinagem , que Xenofonte atribui a Ciro; e pode-se encontrar um m eio-term o entre esse cuidado degradante e vil, tenso e cheio de solicitude, que se vê nos

hom ens que nele m ergulham por inteiro, e essa profunda e extrem a

negligência que deixa tudo ao abandono, que se vê em outros:

Democriti pecus edit agellos

Cultaque, dum peregre est animus sine corpore velox. 182

O gado devasta o pequeno cam po e as culturas de Dem ócrito, enquanto o

espírito deste, libertado do corpo, vagueia no espaço.

Mas escutem os o conselho que Plínio, o Moço, dá a Cornélio Rufo, seu

am igo, sobre esse tem a da solidão: “Aconselho-te, nesse pleno e farto retiro

em que estás, a passar a teus criados o baixo e abj eto cuidado dom éstico, e

a dedicar-te ao estudo das letras para daí tirar algum a coisa que sej a toda

tua”. Refere-se à reputação, assim com o Cícero, que diz querer em pregar sua

solidão e seu afastam ento dos negócios públicos na conquista de um a vida

im ortal graças a seus escritos:

usque adeo ne

Scire tuum nihil est, nisi te scire hoc sciat alter? 183

estás nesse ponto que teu saber não é nada, se um outro não sabe que

sabes?

Já que falam os em nos retirarm os do m undo, parece razoável olhar para fora

dele. Estes dois só o fazem pela m etade. Preparam bem seus papéis para

quando não estiverem m ais aqui, m as, por um a ridícula contradição, ainda

pretendem colher o fruto de seu proj eto no m undo do qual estarão ausentes. A

ideia dos que, por devoção, procuram a solidão, enchendo seu coração com a

certeza das prom essas divinas na outra vida, é bem m ais saudavelm ente

corrente. A finalidade deles é Deus, obj eto infinito em beleza e poder. A alm a

tem com que saciar seus desej os, em total liberdade. As aflições, as dores,

resultam -lhes proveitosas, sendo usadas na aquisição de um a saúde e de um

regozij o eternos. A m orte é desej ada: passagem a um estado tão perfeito. A severidade de suas regras é, incontinente, aplainada pelo hábito; e os apetites

carnais, reprim idos e adorm ecidos pela privação, pois nada os entretém tanto

com o o uso e a prática. Só essa finalidade de um a outra vida feliz na

im ortalidade m erece lealm ente que abandonem os as com odidades e doçuras

desta nossa vida. E quem consegue incendiar a alm a com o ardor dessa viva

fé e esperança, na realidade e com constância, constrói em sua solidão um a

vida prazerosa e deliciosa, m ais que toda outra form a de vida. Portanto, nem a finalidade nem os m eios desse conselho de Plínio, o Moço, m e contentam :

continuam os caindo da febre para um m al m ais agudo. A ocupação com os

livros é tão penosa com o qualquer outra; e igualm ente inim iga da saúde, que

deve ser considerada acim a de tudo. E não devem os nos deixar adorm ecer no

prazer que ela nos dá, esse m esm o prazer que é a perdição de quem se

ocupa dem ais de seus bens, do avarento, do voluptuoso e do am bicioso. Os

sábios ensinam -nos bastante a evitar a traição de nossos apetites e a

diferenciar os prazeres verdadeiros e integrais dos prazeres variegados e

m isturados com m ais trabalho. Pois a m aioria dos prazeres, dizem , nos

afagam e nos abraçam para nos estrangular, com o faziam os ladrões que os

egípcios cham avam de Filistas; e se a dor de cabeça nos viesse antes da

em briaguez, evitaríam os beber dem ais; m as, para nos enganar, a volúpia vai

na frente e esconde-nos seu séquito. Os livros são agradáveis, m as se por

frequentá-los perderm os, por fim , a alegria e a saúde, nossas m elhores

qualidades, abandonem o-los: sou dos que pensam que seus frutos não podem

com pensar essa perda. Assim com o os hom ens que se sentem há m uito

enfraquecidos por algum a indisposição entregam -se enfim à m ercê da

m edicina e fazem -se prescrever por essa arte certas regras de vida para não

m ais transgredi-las, assim quem se retira da vida pública entediado e

desgostoso deve conform ar a sua com as regras da razão, ordená-la e

arrum á-la com prem editação e reflexão. Deve dar adeus a toda espécie de

trabalho, qualquer que sej a sua aparência, e fugir em geral das paixões que

im pedem a tranquilidade do corpo e da alm a, e escolher o cam inho m ais

consoante a seu tem peram ento:

Vnusquisque sua noverit ire via. 184

Que cada um escolha o cam inho que escolheu para si.

Nos negócios do lar, no estudo, na caça e em qualquer outro exercício, é

preciso ir até os extrem os lim ites do prazer, e evitar aventurar-se m ais

adiante, quando o sofrim ento com eça a se pôr de perm eio. Devem os reservar

à nossa atividade e ocupação apenas tanto quanto for necessário para nos

m anterm os em form a e para nos preservar dos inconvenientes que arrasta

consigo o outro extrem o, o de um a ociosidade indolente e inerte. Há

conhecim entos estéreis e espinhosos, e na m aioria forj ados para a turba: há

que deixá-los para os que estão a serviço da sociedade. Quanto a m im , só

gosto dos livros agradáveis ou fáceis, que m e estim ulam , ou dos que m e

consolam e aconselham a controlar m inha vida e m inha m orte:

tacitum syvas inter reptare salubres,

Curantem quidquid dignum sapiente bonoque est. 185

vagar em silêncio no bom ar das florestas, ocupado com tudo o que é

digno de um sábio e de um hom em de bem .

As pessoas m ais sábias, tendo a alm a forte e vigorosa, podem im aginar um

repouso todo espiritual: eu, que a tenho com um , preciso aj udá-la a m e suster

pelos confortos corporais; e tendo-m e agora a idade roubado os que m elhor

convinham a m eu gosto, educo e aguço m eu apetite para os que perm anecem

m ais adaptados a essa outra estação. É preciso agarrar com unhas e dentes

o uso dos prazeres da vida que nossos anos nos arrancam das m ãos, uns

depois dos outros:

carpamus dulcia, nostrum est

Quod vivis, cinis et manes et fabula fies.186

colham os os prazeres pois só nos pertence o que vivem os, antes de nos

tornarm os cinza, espírito, palavra vã.

Ora, quanto ao obj etivo que Plínio e Cícero nos propõem , o da glória, está

bem longe de m inha conta: o hum or m ais contrário ao retiro é a am bição, a

glória e o repouso não podem m orar sob o m esm o teto. Pelo que vej o, esses

autores só têm os braços e as pernas fora da sociedade; sua alm a, suas

intenções, aí perm anecem m ais que nunca em brenhadas.

Tun’vetule auriculis alienis colligis escas? 187

Então, velho, acum ulas para apenas satisfazer os ouvidos dos outros?

Eles apenas recuaram para m elhor saltar, e para, num m ovim ento m ais forte,

fazer um a investida m ais profunda entre a m ultidão. Quereis ver com o erram

seu alvo por um triz? Ponham os na balança a opinião de dois filósofos e de

duas escolas m uito diferentes, escrevendo um a Idom eneu, o outro a Lucílio,

seus am igos,188 para que abandonassem o m anej o dos negócios e das grandezas e se retirassem na solidão. “Vivestes”, dizem eles, “até agora nadando e flutuando, vinde m orrer no porto. Destes vossa vida à luz, dai esta

à som bra. É im possível abandonar vossas ocupações se não abandonardes

seus frutos. Por isso desfazei-vos de toda preocupação com o nom e e a

glória. Há o perigo de que o clarão de vossas ações passadas vos ilum ine

dem ais e vos siga até em vossa toca. Abandonai j unto com as outras volúpias

essa que vem da aprovação de outrem . E quanto a vossa ciência e

com petência, não vos preocupeis, elas não perderão seu efeito se vós

m esm os estais valendo m ais por causa delas. Lem brai-vos daquele a quem se

perguntava com que finalidade se esforçava tanto num a arte que só podia

chegar ao conhecim ento de poucas pessoas: ‘Bastam -m e poucos’, respondeu,

‘basta-m e um , basta-m e nenhum ’. Ele disse a verdade: vós e um com panheiro

sois teatro suficiente um para o outro, ou vós para vós m esm os. Que o público

vos sej a um , e um vos sej a todo o público. É vil am bição querer tirar glória da

própria ociosidade e do próprio esconderij o. É preciso fazer com o os anim ais,

que apagam seu rastro na porta da toca. O que deveis procurar não é m ais o

que o m undo fala de vós m as com o deveis falar a vós m esm os. Retirai-vos em

vós, m as preparai-vos prim eiram ente para vos receber. Seria loucura fiar-vos

em vós m esm os se não sabeis vos governar. Há m aneira de falhar na solidão,

com o em sociedade, até que tenhais vos tornado alguém diante de quem não

ousaríeis claudicar, e até que tenhais vergonha e respeito por vós m esm os,

obversentur species honestae animo:189que se apresentem a vosso espírito nobres im agens:] representai-vos sem pre na im aginação Catão, Fócio e

Aristides, em cuj a presença até m esm o os loucos esconderiam seus erros, e

instituí-os com o os controladores de todas as vossas intenções; se elas se