Os Ensaios
Que filosofar é aprender a morrer
frente. Os que estão com o opressivo m edo de perder seus bens, de ser
exilados, de ser subj ugados, vivem em contínua angústia, perdendo a vontade
de beber, com er, descansar, enquanto os pobres, os banidos, os servos
vivem am iúde tão alegrem ente com o qualquer outro. E tantas pessoas, não
conseguindo suportar as estocadas do m edo, se enforcaram , se afogaram , se
precipitaram , nos ensinaram que o m edo é ainda m ais im portuno e m ais
insuportável que a m orte! Os gregos reconhecem um a outra espécie de m edo,
que não se explica nem m esm o por um extravagante raciocínio nosso: vindo,
dizem eles, de um im pulso celeste, e sem causa aparente. Volta e m eia povos
inteiros e exércitos inteiros veem -se atingidos por ele. Assim foi o que levou a
Cartago um a terrível desolação. Ali só se ouviam gritos e vozes apavoradas;
viam -se os habitantes saírem de suas casas, com o se tivesse soado o
alarm e; atacarem -se, ferirem e m atarem uns aos outros, com o se fossem
inim igos que tivessem vindo ocupar sua cidade. Tudo ficou em desordem e
tum ulto, até que, por orações e sacrifícios, aplacaram a ira dos deuses. A
isso cham am de terrores pânicos.
Que filosofar é aprender a morrer
Capítulo XIX26
Este é um dos capítulos mais conhecidos da obra, e desenvolve uma das
preocupações maiores de Montaigne, que é “morrer bem”. Trata-se de um
mosaico de exemplos e argumentos que lembram o caráter inevitável e
imprevisível da morte e justificam, assim, o fato de que ela seja “premeditada”, isto é, meditada com antecedência. Montaigne parece chegar
a um acordo com sua melancolia, agora, de certa forma, minimizada.
Continua preocupado com o medo da morte — medo do lancinante ato de
morrer. O tratamento que dá ao tema é retórico mas não impessoal. Os
pressupostos filosóficos deste capítulo são amplamente derrubados no final
de Os ensaios (em Livro III, XIII, “Sobre a experiência”). Montaigne está no
caminho de descobrir qualidades admiráveis nos homens e mulheres
comuns. Os acréscimos da edição póstuma provam, pelo exemplo pessoal
de Montaigne, o sucesso do exercício espiritual das meditações sobre a
morte, que é sobretudo um aprendizado do “viver bem”.
Diz Cícero que filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a m orte. É
assim porque, de certo m odo, o estudo e a contem plação retiram nossa alm a
de nós e a ocupam separada do corpo, o que constitui certo aprendizado da
m orte e tem sem elhança com ela; ou então, é porque toda a sabedoria e a
razão do m undo se concentram , afinal, nesse ponto de nos ensinar a não ter
m edo de m orrer. Na verdade, ou a razão está escarnecendo de nós ou seu
obj etivo deve ser apenas o nosso contentam ento, e todo o seu trabalho deve
tender, em sum a, a fazer-nos viver bem e a nosso gosto, com o dizem as
Sagradas Escrituras. Todas as opiniões do m undo chegam à conclusão de
que o prazer é nosso obj etivo, conquanto adotem m eios diversos, do contrário
as rej eitaríam os de início. Pois quem escutaria aquele que estabelecesse
com o obj etivo nosso pesar e sofrim ento? As dissensões das escolas
filosóficas, nesse caso, são verbais. Transcurramus solertissimas
nugas. 27Passem os sobre essas bagatelas tão solertes.] Há aí m ais teim osia e pirraça do que convém a um a nobre profissão. Mas, sej a qual for o
personagem que o hom em adote, ele sem pre representa, de perm eio, o seu.
Digam o que disserem , na própria virtude o obj etivo últim o que visam os é a
volúpia. Agrada-m e m artelar os ouvidos das pessoas com essa palavra que as
contraria tão fortem ente: e se ela significa um deleite suprem o e extrem o
contentam ento, é um m elhor acom panhante para a virtude do que qualquer
outra coisa. Por ser m ais viva, nervosa, robusta, viril, essa volúpia é m ais
seriam ente voluptuosa. E devíam os lhe dar o nom e de prazer, m ais favorável,
m ais suave e natural, e não o de vigor, a partir do qual o denom inam os. 28
Aquela outra volúpia, m ais baixa, se m erecesse esse belo nom e, não seria o
resultado de um privilégio, m as de um a concorrência. Acho-a m enos isenta de
inconvenientes e dificuldades do que a virtude. Além de ter um gosto m ais
m om entâneo, fluido e frágil, tem suas vigílias, seus j ej uns e seus trabalhos, e
o suor e o sangue. E adem ais, especialm ente, seus sofrim entos pungentes de
tantas espécies, e ao m esm o tem po um a saciedade tão pesada que equivale
à penitência. Com etem os grande erro ao pensar que seus obstáculos servem
de incentivo e condim ento à doçura desse prazer, assim com o na natureza os contrários se vivificam por seus contrários; e ao dizer, quando falam os da
virtude, que as m esm as consequências e dificuldades a oprim em , tornando-a
austera e inacessível. Pois no caso da virtude, bem m ais propriam ente que na
volúpia, elas enobrecem , aguçam e realçam o prazer divino e perfeito que ela
nos propicia. Quem opõe o custo ao fruto da virtude, este é, decerto, bem
indigno de sua com panhia e não conhece suas graças nem seu bom uso.
Esses que vão nos ensinando que sua busca é laboriosa e penosa, e que sua
fruição é agradável, o que nos dizem com isso a não ser que ela é sem pre
desagradável? Pois por qual m eio hum ano j á se chegou à sua fruição? Os
m ais perfeitos contentaram -se em aspirar a ela e dela se aproxim ar sem
possuí-la. Mas enganam -se, visto que a própria busca de todos os prazeres
que conhecem os é aprazível. A tarefa im pregna-se da qualidade do obj eto a
que visa, pois isso é um a boa parcela dele e é da m esm a natureza. A
felicidade e a beatitude que reluzem na virtude preenchem todas as suas
dependências e avenidas, da prim eira entrada até sua últim a barreira. Ora, um
dos principais benefícios da virtude é o desprezo pela m orte, o que fornece à
nossa vida a m ansa tranquilidade, dá-nos seu gosto puro e benfazej o sem o
qual todo outro prazer está extinto. Eis por que todas as regras se encontram
e convêm a esse item . E em bora todas tam bém nos levem , de com um acordo,
a desprezar a dor, a pobreza e outros infortúnios a que a vida hum ana está
suj eita, não é um a preocupação do m esm o tipo, tanto porque esses infortúnios
não são necessários (a m aioria dos hom ens passa a vida sem experim entar a
pobreza, e ainda outros sem sentim ento de dor e de doença, com o Xenófilo, o
Músico, que viveu 106 anos em perfeita saúde) com o tam bém , no pior dos
casos, a m orte pode pôr fim e atalhar, quando nos aprouver, todos os outros
infortúnios. Mas, quanto à m orte, é inevitável.
Omnes eodem cogimur, omnium
Versatur urna, serius ocius
Sors exitura, et nos in aeter-
Num exitium impositura cymbae. 29
Todos nós som os em purrados para um m esm o ponto, a urna de todos nós
é agitada, cedo ou tarde dali sairá a sorte que nos fará subir na barca para
nosso fim eterno.
E, por conseguinte, se ela nos am edronta, é um contínuo m otivo de torm ento
que nada consegue aliviar. Não há lugar de onde ela não nos venha. Podem os
virar incessantem ente a cabeça para cá e para lá, com o em terra suspeita:
quae quase saxum Tantalo Semper impendet. 30ela é com o o rochedo sem pre suspenso sobre Tântalo.] Frequentem ente nossos tribunais m andam executar
os crim inosos no local onde o crim e foi com etido: ao longo do cam inho,
passeai-os por belas casas, dai-lhes tantos banquetes quanto vos aprouver,
Non Siculae dapes
Dulcem elaborabunt saporem,
Non avium, cytharaeque cantus
Somnum reducent. 31
Os festins da Sicília não m ais oferecerão seu doce sabor, o canto dos
pássaros ou da cítara não m ais lhe devolverão o sono.
Pensais que podem se regozij ar com isso? E que a intenção final de sua
viagem , estando constantem ente diante de seus olhos, não lhes tenha alterado
e tornado insípido o gosto por todos esses confortos?
Audit iter, numeratque dies, spatioque viarum
Metitur vitam, torquetur peste futura. 32
Ele indaga o traj eto, conta os dias e m ede sua vida pelo com prim ento da
estrada, está atorm entado diante do m al que o espera.
A m orte é o fim de nossa cam inhada, é o obj eto necessário de nossa m ira; se nos apavora, com o é possível dar um passo à frente sem ser tom ado pela
ansiedade? O rem édio do vulgo é não pensar nela. Mas de que estupidez
brutal pode vir cegueira tão grosseira? É pôr a brida na cauda do burro,
Qui capite ipse suo instituit vestigia retro. 33
Ele, que decidiu andar com a cabeça virada para trás.
Não espanta que tão am iúde as pessoas caiam na arm adilha. Am edrontam os
nossa gente só em m encionar a m orte, e a m aioria se persigna, com o diante
do nom e do diabo. E porque a ela é feita m enção nos testam entos não
espereis que aí ponham a m ão antes que o m édico tenha com unicado a
sentença final. E, então, Deus sabe com que bom j ulgam ento, entre a dor e o
pavor, as pessoas hão de prepará-lo. Porque essas sílabas atingiam m uito
rudem ente seus ouvidos, e porque essa palavra lhes parecia de m au agouro,
os rom anos aprenderam a suavizá-la ou diluí-la em perífrases. Em vez de
dizer “ele m orreu”, dizem “ele parou de viver”, ou “ele viveu”. Consolam -se,
contanto que sej a vida, ainda que passada. Daí tiram os nosso “finado fulano de tal”. Talvez sej a, com o se diz, que “pagar com atraso significa dinheiro na
m ão”. Nasci entre onze horas e m eio-dia do últim o dia de fevereiro de 1533,
com o contam os agora, com eçando o ano em j aneiro. 34 Justam ente, faz apenas quinze dias que passei dos 39 anos. E faltam -m e pelo m enos outros
tantos. E enquanto isso seria loucura pensar em coisa tão distante. Mas qual!
Jovens e velhos abandonam a vida da m esm a m aneira. Dela ninguém sai de
outro j eito senão com o se tivesse entrado naquele instante, acrescentando-se
a isso que não há hom em tão decrépito que não pense ainda ter vinte anos no
corpo enquanto enxergar Matusalém diante de si. E adem ais, pobre louco que és, quem te fixou os prazos de tua vida? Tu te baseias nas histórias dos
m édicos. Observa, antes, a realidade e a experiência. Pelo andar com um das
coisas, vives há m uito tem po por favor extraordinário. Ultrapassaste os prazos
costum eiros de viver: e a prova é que, faz a conta entre teus conhecidos,
quantos m orreram antes de tua idade, m ais num erosos que os que a
alcançaram ? E m esm o entre aqueles que enobreceram suas vidas pela fam a,
faz o registro e apostarei que encontrarás m ais que m orreram antes do que
depois dos 35 anos. É plenam ente razoável e piedoso tom ar com o exem plo a
própria vida hum ana de Jesus Cristo. Ora, ele term inou sua vida aos 33 anos.
O m aior hom em , sim plesm ente hom em , Alexandre, tam bém m orreu nessa
idade. Quantos m odos de surpreender tem a m orte?
Quid quisque vitet, nunquam homini satis
Cautum est in horas. 35
Jam ais o hom em se protege o suficiente, de hora em hora, do perigo a
evitar.
Deixo à parte as febres e as pleurisias. Quem j am ais pensou que um duque de
Bretanha devesse ser sufocado pela m ultidão, com o foi aquele na entrada do
papa Clem ente, m eu vizinho, em Ly on? 36 Não viste um de nossos reis m orto em um j ogo? E um de seus ancestrais não m orreu derrubado por um
porquinho?37 De nada adiantou Ésquilo, am eaçado pela queda de um a casa, ficar em alerta, pois ei-lo abatido por um a carapaça de tartaruga, que
escapou das patas de um a águia no ar; o outro m orreu com um caroço de
uva; um im perador, do arranhão de um pente ao pentear-se; Em ílio Lépido,
por ter batido o pé na soleira de sua porta; e Aufídio, por ter se chocado, ao entrar, contra a porta da Câm ara do Conselho. E entre as coxas das
m ulheres, Cornélio Galo, pretor; Tigelino, com andante da Guarda de Rom a;
Ludovico, filho de Guy de Gonzaga, m arquês de Mântua. E, exem plo ainda
pior, Espêusipo, filósofo platônico, e um de nossos papas. 38 O pobre Bébio, j uiz, enquanto dá prazo de oito dias a um dos litigantes, ei-lo agarrado e seu
prazo de vida expirado. E com Caio Júlio, m édico que passava unguento nos
olhos de um paciente, eis que a m orte fecha os seus. E se devo m e
introm eter, um irm ão m eu, o capitão Saint-Martin, que j á dera excelentes
provas de seu valor, ao j ogar pela recebeu, na idade de 23 anos, um a bolada
que o acertou um pouco acim a da orelha direita, sem nenhum a aparência de
contusão ou ferim ento; nem se sentou nem repousou, m as cinco ou seis horas
depois m orreu de um a apoplexia causada por esse golpe. Com esses
exem plos tão frequentes e tão triviais nos passando diante dos olhos, com o é
possível conseguirm os nos desfazer do pensam ento da m orte, e que a cada
instante não nos pareça que ela nos agarra pela gola? “Que im porta com o ela
é”, m e direis, “contanto que não nos preocupem os com isso.” Sou dessa
opinião, e, sej a qual for a m aneira de nos protegerm os dos golpes, ainda que
sob a pele de um bezerro, não sou hom em de recuar, pois basta-m e passar
m eus dias com o m e apraz, e adoto o m elhor j ogo que posso, por m enos
glorioso e pouco exem plar que vos pareça:
Praetulerim delirus inersque videri,
Dum mea delectent mala me, vel denique fallant,
Quam sapere et ringi. 39
Eu preferiria passar por louco ou por insensato, contanto que m eus m ales m e agradem ou ao m enos que eu não os vej a, a ser sensato e enraivecer-
m e.
Mas é loucura pensar em ser bem -sucedido dessa form a. Uns vão, outros
vêm , trotam , dançam , e sobre a m orte nenhum a palavra. Tudo isso é m uito
bonito, m as quando ela chega, para eles ou para suas m ulheres, filhos e
am igos, surpreendendo-os de im proviso e sem defesa, que torm entos, que
gritos, que fúria e que desespero os dom inam ? Já vistes um dia alguém tão
cabisbaixo, tão m udado, tão confuso? É preciso preparar-se para ela m ais
cedo. E m esm o se essa despreocupação digna dos anim ais pudesse se
instalar na cabeça de um hom em inteligente (o que acho totalm ente
im possível), ela nos venderia m uito caras suas m ercadorias. Se a m orte fosse
um inim igo que se pode evitar, eu aconselharia em pregar as arm as da
covardia: m as j á que não se pode, j á que ela vos agarra, tanto ao fugitivo e ao
poltrão com o ao hom em de honra,
Nempe et fugacem persequitur virum
Nec parcit imbellis juventae
Poplitibus, timidoque tergo; 40
E, decerto, ela tam bém persegue o fuj ão e não poupa os j arretes nem o
dorso m edroso de um a j uventude sem valentia;
e que nenhum a couraça de aço tem perado vos cobre,
Ille licet ferro cautus se condat in aere,
Mors tamen inclusum protrablet inde caput; 41
Nada adianta a este proteger-se do ferro cobrindo-se de aço, pois a m orte, porém , descobrirá sua cabeça com capacete;
aprendam os a arrostá-la de pé firm e e a com batê-la. E para com eçar a tirar-
lhe sua grande vantagem sobre nós, tom em os um cam inho totalm ente oposto
ao com um . Tirem os-lhe a estranheza, frequentem o-la, acostum em o-nos com
ela, não tenham os nada de tão presente na cabeça com o a m orte: a todo
instante a representem os em nossa im aginação e em todos os aspectos. No
tropeção do cavalo, na queda de um a telha, na m enor picada de alfinete,
repisem os subitam ente: pois bem , e se fosse a própria m orte? E diante disso
nos enrij eçam os e nos fortaleçam os. Entre as festas e a alegria, tenham os
sem pre esse refrão da lem brança de nossa condição, e não nos deixem os
arrastar tão fortem ente pelo prazer que por vezes não nos volte à m em ória de
quantos m odos essa nossa alegria está na m ira da m orte, e por quantos
golpes ela nos am eaça. Assim faziam os egípcios, que no m eio de seus
festins e entre seus m elhores banquetes m andavam vir a anatom ia seca42 de um hom em para servir de advertência aos convivas.
Omnem crede diem tibi diluxisse supremum,
Grata superveniet, quae non sperabitur hora. 43
Considera com o teu últim o dia aquele que brilha para ti; a hora que não
esperas m ais virá para ti com o um a graça.
É incerto onde a m orte nos espera, aguardem o-la em toda parte. Meditar
previam ente sobre a m orte é m editar previam ente sobre a liberdade. Quem
aprendeu a m orrer desaprendeu a se subj ugar. Não há nenhum m al na vida
para aquele que bem com preendeu que a privação da vida não é um m al.
Saber m orrer liberta-nos de toda suj eição e im posição. Ao m ensageiro que o m iserável rei da Macedônia, seu prisioneiro, lhe enviou para pedir que não o
levasse em seu triunfo,44 Paulo Em ílio respondeu: “Que ele faça o pedido a si m esm o”. Na verdade, em qualquer coisa, se a natureza não aj uda um pouco é
difícil que a arte e o engenho avancem m uito. Por m im m esm o, não sou
m elancólico m as sonhador: não há nada de que m e haj a ocupado desde
sem pre com o dos pensam entos sobre a m orte, e até na época m ais
licenciosa de m inha vida,
Jucundum cum aetas florida ver ageret. 45
Quando m inha idade em flor vivia sua doce prim avera.
Entre as dam as e os j ogos, j ulgavam -m e ocupado em digerir com igo m esm o
algum ciúm e ou a incerteza de um a esperança, enquanto eu pensava em não
sei quem que fora surpreendido dias antes por um a febre alta, e em seu fim
ao sair de um a festa parecida, com a cabeça cheia de ócio, am or e bons
m om entos, com o eu: e eu m esm o m artelava em m eus ouvidos:
Jam fuerit, nec post unquam revocare licebit.46
O presente j á terá passado e nunca m ais poderem os cham á-lo de volta.
Não franzia m ais a fronte com esse pensam ento do que com outro. É
im possível não sentirm os desde o início as ferroadas dessas im aginações,
m as m anej ando-as e repassando-as, pelo longo cam inho, sem dúvida as
dom esticam os. Do contrário, de m inha parte estaria em contínuo pavor e
frenesi, pois nunca um hom em desconfiou tanto de sua vida, nunca um hom em
se iludiu m enos com sua duração. Nem a saúde, da qual gozei até o presente
m uito vigorosa e raram ente interrom pida, m e prolonga sua esperança, nem as
doenças a encurtam . A cada m inuto parece-m e que escapo de m im . E repito sem cessar: tudo o que pode ser feito um outro dia pode ser feito hoj e. Na
verdade, os acasos e perigos nos aproxim am pouco ou nada de nosso fim ; e
se pensarm os, afora esse infortúnio que m ais parece nos am eaçar, em
quantos m ilhões de outros perm anecem sobre nossas cabeças,
descobrirem os que o fim está igualm ente perto de nós quando estam os
vigorosos ou febris, no m ar e em nossas casas, na batalha e em repouso.
Nemo altero fragilior est: nemo in crastinum sui certior. 47Nenhum é m ais frágil que outro: nenhum tem o am anhã m ais garantido.] Para acabar o que tenho a
fazer antes de m orrer, todo o tem po vago m e parece curto, ainda que sej a
trabalho de um a hora. Outro dia, alguém folheava m eus apontam entos e
encontrou um a nota sobre algum a coisa que eu queria que fosse feita depois
de m inha m orte: eu lhe disse, com o era verdade, que, estando a apenas um a
légua de casa, e saudável e vigoroso, m e apressara em escrever aquilo ali por não ter certeza de chegar à m inha casa. Com o sou hom em que continuam ente
está incubando seus pensam entos e guardando-os dentro de si, a qualquer
m om ento estou preparado, tanto quanto possa estar, e nada de novo m e
anunciará a chegada inesperada da m orte. Devem os estar sem pre com as
botas calçadas e prontos para partir, tanto quanto de nós dependa, e
sobretudo nos precaverm os para que então só tenham os de tratar conosco
m esm os.
Quid brevi fortes jaculamur aevoMulta? 48
Por que bravam ente visar tantos obj etivos quando a vida é tão curta?
Pois terem os bastante trabalho sem outra sobrecarga. Um se queixa, m ais
que da m orte, de que ela lhe interrom pe o curso de um a bela vitória; outro, que deve partir antes de ter casado a filha, ou controlado a educação dos
filhos; um sente falta da com panhia da m ulher, outro, do filho, que eram os
principais confortos de sua existência. Por ora estou em tal situação, graças a
Deus, que posso m e ir quando Lhe aprouver, sem m e lam entar de coisa
nenhum a. Desligo-m e de tudo: m inhas despedidas de cada um estão quase
feitas, exceto de m im . Nunca um hom em se preparou para deixar o m undo
m ais pura e plenam ente, e desapegou-se m ais com pletam ente do que eu
tento fazer. As m ortes m ais m ortas são as m ais saudáveis.
Miser o miser ( aiunt) omnia ademit
Uma dies infesta mihi tot praemia vitae. 49
Infeliz que sou, ó infeliz, dizem eles, um só dia funesto m e tira todos os
bens da vida.
E o construtor diz:
Manent opera interrupta, minaeque
Murorum ingentes. 50
Restam trabalhos interrom pidos e im ensas m uralhas que am eaçam .
Nada se deve prever de tão longo fôlego, ou pelo m enos com a intenção de se
em polgar pensando em ver seu fim . Nascem os para agir:
Cum moriar, medium soluar et inter opus. 51
Quando eu m orrer, que parta no m eio de m eu trabalho.
Quero que se aj a, que se prolonguem as atividades da vida, tanto quanto
possível; e que a m orte m e encontre plantando m inhas couves, m as
despreocupado com ela e ainda m ais com m inha horta inacabada. Vi m orrer um que, estando nas últim as, queixava-se incessantem ente de que seu destino
cortava o fio da história que ele tinha em m ãos sobre o 15o ou 16o de nossos
reis.
Illud in his rebus non addunt, nec tibi earum
Jam desiderium rerum super insidet una. 52
Mas nesse ponto, eles não acrescentam isto: “E o pesar por esses bens
não perm anecerá j unto com teus restos”.
É preciso se livrar dessas crenças vulgares e nocivas. Assim com o fincaram
nossos cem itérios ao lado das igrej as e dos lugares m ais frequentados da
cidade, para acostum ar, dizia Licurgo, o baixo povo, as m ulheres e as
crianças a não se assustarem ao ver um hom em m orto, e a fim de que esse
espetáculo contínuo de ossuários, túm ulos e funerais nos advirta sobre nossa
condição,
Quin etiam exhilarare viris convivia caede
Mos olim, et miscere epulis spectacula dira
Certatum ferro, saepe et super ipsa cadentum
Pocula, respersis non parco sanguine mensis ;53
E m ais: outrora era costum e alegrar os festins com um a m orte e m isturar
os banquetes com os espetáculos cruéis de com batentes, que,
frequentem ente atingidos pelo gládio, tom bavam sobre as próprias taças,
espalhando copiosam ente seu sangue sobre as m esas;
e assim com o os egípcios, depois de seus festins, apresentavam aos convivas
um a grande im agem da m orte, segura por alguém que lhes gritava: “Bebe e alegra-te, pois m orto serás com o este”, assim peguei o costum e de ter a
m orte não apenas na im aginação m as continuam ente na boca. E não há nada
de que m e inform e com tanto gosto com o da m orte dos hom ens: que palavra,
que rosto, que atitude tiveram ; nem trecho de histórias que observe com tanta
atenção. Pela quantidade de m eus exem plos, parece que tenho afeição
particular por essa m atéria. Fosse eu um fazedor de livros e faria um registro
com entando as m ortes diversas. Quem ensinasse os hom ens a m orrer os
ensinaria a viver. Dicáiarcos54 fez um com título parecido, m as com outro e m enos útil alcance. Hão de m e dizer que a realidade da m orte ultrapassa de
tão longe o pensam ento que não há esgrim a, por m ais bela, que não se perca
quando lá se chega: deixai-os falar; a m editação prévia proporciona, sem
dúvida, grande vantagem . E depois, j á não significa bastante chegar lá sem
vacilação e sem inquietação? Há m ais: a própria natureza nos estende a m ão
e nos dá coragem . Se é um a m orte curta e violenta, não tem os tem po de
tem ê-la; se é outra, percebo que à m edida que m e afundo na doença caio
naturalm ente em certo desdém pela vida. Creio que tenho bem m ais
dificuldade em digerir essa aceitação de m orrer quando estou com saúde do
que quando estou com febre, m ais ainda porque j á não m e apego tanto às
com odidades da vida, e desde que com eço a perder seu uso e seu prazer
tenho da m orte um a visão de m uito m enos horror. Isso m e faz esperar que,
quanto m ais m e afastar daquela e m e aproxim ar desta, m ais facilm ente
estarei de acordo para trocar um a pela outra. Assim com o experim entei em
várias outras ocasiões o que diz César, que as coisas costum am nos parecer
m aiores de longe que de perto, verifiquei que, saudável, tinha m uito m ais
horror às doenças do que quando as senti. A alegria em que estou, o prazer e
a força m e fazem achar o outro estado tão desproporcional a este que, pela
im aginação, aum ento em m etade aqueles dissabores e considero-os m ais
pesados do que quando os carrego nas costas. Espero que o m esm o há de
m e ocorrer com a m orte. Observam os, por essas m udanças e declínios
habituais que sofrem os, com o a natureza nos dissim ula a visão de nossa
perda e decadência. O que resta a um velho do vigor de sua j uventude, de sua
vida passada?
Heu senibus vitae portio quanta manet! 55
Ai, que parcela de vida resta aos velhos!
A um soldado de sua guarda, exausto e alquebrado, que veio pela rua pedir-
lhe perm issão para se m atar, César respondeu gracej ando ao notar sua
aparência decrépita: “Pensas então que estás vivo?”. 56 Se caíssem os de repente nesse estado, não creio que seríam os capazes de suportar tal
m udança. Mas conduzidos pela m ão da natureza, por um a suave ladeira e
com o que insensível, pouco a pouco, de degrau em degrau nos envolvem os
nesse estado m iserável a que nos acostum am os, assim com o não sentim os
nenhum abalo quando a j uventude m orre dentro de nós, o que, no fundo e na
verdade, é m orte m ais dura que a m orte com pleta de um a vida languescente e
que a m orte de velhice. Tanto m ais que o salto do m al existir para o não existir não é tão árduo com o aquele de um a existência suave e florescente para um a
existência penosa e dolorosa. O corpo encurvado e dobrado tem m enos força
para suportar um fardo, nossa alm a tam bém . É preciso treiná-la e educá-la
contra o esforço desse adversário. Pois, com o é im possível que encontre o descanso enquanto o tem er, caso se fortaleça pode se vangloriar (o que é
coisa que ultrapassa a condição hum ana) de ser im possível que nela se
aloj em a inquietação, o torm ento e o m edo, e até a m ínim a insatisfação.
Non vultus instantis tyranni
Mente quatit solida, neque Auster
Dux inquieti turbidus Adriae,
Nec fulminantis magna Jouis manus. 57
O rosto de um tirano que am eaça não abala a firm eza de sua alm a, nem o
austro que reina furioso sobre o Adriático agitado, nem a grande m ão de
Júpiter fulm inando.
Tornou-se senhora de suas paixões e concupiscências; senhora da indigência,
da vergonha, da pobreza e de todas as outras inj úrias do destino. Ganhe essa
vantagem quem puder: esta é a verdadeira e soberana liberdade que nos dá
com que fazer figas à força e à inj ustiça, e zom bar das prisões e dos grilhões,
in manicis, et
Compedibus, saevo te sub custode tenebo.
Ipse Deus simul atque volam, me solvet: opinor,
Hoc sentit, moriar mors ultima linea rerum est. 58
m ontarei em torno de ti, entrevado, com os ferros nas m ãos e nos pés,
um a guarda severa. “É um Deus que m e libertará assim que eu quiser.”
Penso que ele quer dizer: “Morrerei”. A m orte é o últim o lim ite das coisas.
Nossa religião não teve fundam ento hum ano m ais seguro que o desprezo pela
vida. Não só o argum ento da razão nos convida a isso, pois por que
tem eríam os perder um a coisa que, perdida, não pode ser lam entada? Mas,
adem ais, j á que estam os am eaçados por tantas m aneiras de m orte, não é
m elhor enfrentar um a do que tem ê-las todas? Que im porta quando será, j á
que é inevitável? Àquele que dizia a Sócrates: “Os trinta tiranos te
condenaram à m orte”, ele respondeu: “E a natureza a eles”. Que tolice nos
atorm entarm os no m om ento em que se dá a passagem à isenção de todo
torm ento! Assim com o nosso nascim ento nos trouxe o nascim ento de todas as
coisas, assim nossa m orte trará a m orte de todas as coisas. Por isso é
igualm ente loucura chorar porque daqui a cem anos não viverem os m ais,
assim com o chorar porque não vivíam os há cem anos. A m orte é a origem de
outra vida: custou-nos entrar nesta aqui, e choram os; da m esm a form a, ao
entrarm os nos despoj am os de nosso antigo véu. Nada pode ser im portante se
o é só um a vez. É razoável tem er por tanto tem po coisa de tão curta duração?
Viver um a vida longa e viver um a vida curta tornam -se iguais pela m orte, pois
não há curto e longo nas coisas que não existem m ais. Diz Aristóteles que no
rio Hípanis há pequenos anim ais que só vivem um dia. Aquele que m orre às
oito horas da m anhã m orre na m ocidade; o que m orre às cinco horas da tarde
m orre em sua decrepitude. Quem de nós não riria ao ver considerar-se
ventura ou desventura esse m om ento de tão curta duração? O m ais e o
m enos em nossa vida, se com pararm os com a eternidade, ou ainda com a
duração das m ontanhas, dos rios, das estrelas, das árvores, e até de certos
anim ais, não são m enos ridículos. Mas a natureza nos força a isso. 59 Saí, diz ela, deste m undo com o nele entrastes. A m esm a passagem que fizestes da
m orte à vida, sem paixão e sem tem or, refazei-a da vida à m orte. Vossa m orte é um a das peças da ordem do universo, é um a peça da vida do m undo,
inter se mortales mutua viuunt,
Et quase cursores vitai lampada tradunt. 60
os m ortais partilham a vida assim com o os corredores se repassam sua
tocha.
Mudarei por vós esta bela organização das coisas? É a condição de vossa
criação; a m orte é um a parte de vós: fugis de vós m esm os. A existência de
que desfrutais é igualm ente dividida entre a m orte e a vida. O prim eiro dia de
vosso nascim ento vos encam inha para m orrer com o para viver.
Prima, quae vitam dedit, hora, carpsit. 61
A prim eira hora que nos deu a vida tom ou-a de nós.
Nascentes morimur, finisque ab origine pendet. 62
Ao nascerm os, m orrem os, e o fim decorre da origem .
Tudo o que viveis estais roubando da vida: e às expensas dela. A contínua
obra de vossa vida é construir a m orte. Estais na m orte enquanto estais em
vida, pois estais depois da m orte quando não m ais estais em vida. Ou, se
assim o preferis, estais m orto depois da vida, m as durante a vida estais
m orrendo, e a m orte toca bem m ais brutalm ente o m oribundo que o m orto, e
m ais viva e m ais essencialm ente. Se da vida tirastes proveito, estais saciado;
ide-vos satisfeito.
Cur non ut plenus vitae conviva recedis? 63
Por que não te retiras da vida qual um conviva saciado?
Se não soubestes usá-la, se ela vos foi inútil, que vos im porta tê-la perdido? Para que ainda a quereis?
Cur amplius addere quaeris
Rursum quod pereat male, et ingratum occidat omne? 64
Por que procuras lhe acrescentar um prazo que por sua vez se perderá
m iseravelm ente e desaparecerá inteiro sem fruto?
A vida não é em si nem bem nem m al: nela o bem e o m al têm o lugar que
lhes dais. E se vivestes um dia, vistes tudo: um dia é igual a todos os dias.
Não há outra luz nem outra noite. Esse Sol, essa Lua, essas Estrelas, essa
disposição é esta m esm a que vossos antepassados desfrutaram e que há de
entreter vossos tataranetos.
Non alium videre patres: aliumve nepotes
Aspicient. 65
Vossos pais não verão outras e vossos tataranetos não verão outras.
E, na pior hipótese, a distribuição e a variedade de todos os atos de m inha
com édia se com pletam em um ano. Se tivestes prestado atenção no
m ovim ento de m inhas quatro estações, tereis visto que abrangem a infância, a
adolescência, a idade m adura e a velhice do m undo. Ele j ogou seu j ogo: não
conhece outro ardil senão recom eçar; sem pre será assim .
Versamur ibidem, atque insumus usque, 66
Giram os no m esm o lugar onde estam os encarcerados,
Atque in se sua per uestigia volvitur annus. 67
E o ano gira sobre si, repassando sobre seus próprios rastros.
Não pretendo forj ar-vos outros novos passatem pos.
Nam tibi praeterea quod machiner, inveniamque
Quod placeat, nihil et, eadem sunt omnia semper. 68
Pois não há nada que eu ainda possa fabricar e inventar que te agrade;
são sem pre as m esm as coisas.
Cedei lugar aos outros, com o outros vos cederam . A igualdade é a prim eira
peça da equidade. Quem pode se queixar de ser incluído quando todos são
incluídos? Assim , por m ais que viverdes, não suprim ireis nada do tem po
durante o qual estareis m orto: nada adianta; estareis naquele estado que
tem eis por tanto tem po com o se tivésseis m orrido ainda bebê:
Licet, quod vis, vivendo vincere secla,
Mors aeterna tamen, nibilominus illa manebit. 69
Por m ais que venceres os séculos vivendo o que queres, a m orte é eterna
e perm anecerá com o tal.
E ainda hei de vos pôr em tal situação que não tereis nenhum
descontentam ento.
In vera nescis nullum fore morte alium te,
Qui possit vivus tibi te lugere peremptum,
Stansque jacentem. 70
Não sabes que não haverá na verdadeira m orte um outro tu m esm o que,
vivo e em pé, te possa chorar m orto e j acente?
Nem desej areis a vida que tanto lam entais.
Nec sibi enim quisquam tum se vitamque requirit,
Nec desiderium nostri nos afficit ullum. 71
E então ninguém reclam a a vida para si, e nenhum a saudade de nós m esm os nos toca.
A m orte é m enos tem ível que nada, se houvesse algum a coisa m enos que
nada,
multo mortem minus ad nos esse putandum,
Si minus esse potest quam quod nihil esse videmus. 72
tem os de pensar que a m orte é bem m enos ainda, se o que consideram os
com o nada pode ser ainda m enos.
Ela não vos diz respeito nem m orto nem vivo. Vivo, porque existis: m orto,
porque não m ais existis. Adem ais, ninguém m orre antes de sua hora. O tem po
que abandonais não era m ais vosso que o tem po que se passou antes de
vosso nascim ento: e tam pouco vos toca.
Respice enim quam nil ad nos ante acta vetustas
Temporis aeterni fuerit. 73
Olhai na verdade o quanto não é nada para nós a duração eterna do tem po
que houve antes de nós.
Onde quer que vossa vida acabe, ela está toda aí. A utilidade do viver não
está na duração: está no uso que dele fizem os. Um a pessoa viveu m uito
tem po e pouco viveu. Atentai para isso enquanto estais aqui. Ter vivido
bastante está em vossa vontade, não no núm ero dos anos. Pensáveis nunca
chegar ali aonde íeis incessantem ente? Não há cam inho que não tenha seu
fim . E se a com panhia pode consolar-vos, sabei que o m undo vai na m esm a
m archa que vós.
Omnia te vita perfuncta sequentur. 74
Todas as coisas te seguirão na m orte.
Tudo não se m exe com o vos m exeis? Há coisa que não envelheça convosco?
Mil hom ens, m il anim ais e m il outras criaturas m orrem neste m esm o instante
em que m orreis.
Nam nox nulla diem, neque noctem aurora sequuta est,
Quae non audierit mistos vagitibus aegris
Ploratus mortis comites et funeris atri.75
Pois nenhum a noite sucedeu ao dia, nenhum a aurora à noite em que não se
ouviram , m isturadas aos tristes vagidos, as lágrim as acom panhando a
m orte e os negros funerais.
Para que recuais se não podeis retroceder? Vistes m uitos que se deram bem
em m orrer, evitando com isso grandes infortúnios. Mas vistes alguém que se
tenha dado m al? É grande tolice condenar coisa que não experim entastes em vós nem em outro. Por que vos queixais de m im e de vosso destino?
Causam os-vos m al? Cabe a vós governar-nos ou nós a vós? Ainda que vosso
tem po não estej a concluído, vossa vida está. Um hom em pequeno é um
hom em com pleto, assim com o um grande. Nem os hom ens nem suas vidas se
m edem em varas. Quíron, inform ado das condições da im ortalidade pelo
próprio Deus do tem po e da duração, Saturno, seu pai, a recusou: com efeito,
im aginai com o um a vida perpétua seria m enos suportável para o hom em e
m ais sofrida do que é a vida que vos dei. Se não tivésseis a m orte, m e
am aldiçoaríeis sem cessar por dela vos ter privado. Cientem ente a ela m esclei
um pouco de am argura para vos dissuadir de, ao verdes a com odidade de seu
uso, adotá-la com dem asiada avidez e sem discernim ento; para aloj ar-vos nessa m oderação que vos peço, nem fugindo da vida nem recuando diante da
m orte, tem perei um a e outra entre a doçura e a am argura. Ensinei a Tales, o
prim eiro de vossos sábios, que o viver e o m orrer eram indiferentes: por isso,
àquele que então lhe perguntou por que não m orria, ele respondeu com m uita
sensatez: porque é indiferente. A água, a terra, o ar e o fogo, e outros
elem entos deste m eu edifício, são tanto os instrum entos de vossa vida quanto
os instrum entos de vossa m orte. Por que tem eis vosso últim o dia? Ele não
conduz à vossa m orte m ais que cada um dos outros. O últim o passo não vos
traz a lassidão: revela-a. Todos os dias levam à m orte: o últim o a alcança. Eis
as boas advertências de nossa m ãe Natureza. Ora, m uitas vezes pensei por
que o rosto da m orte, se o vem os sej a em nós sej a em outro, nos parece sem
com paração m enos assustador nas guerras do que em nossas casas, do
contrário seria um exército de m édicos e chorões; e por que, sendo ela
sem pre a m esm a, há todavia m uito m ais resignação entre as pessoas das
aldeias e de baixa condição do que entre as outras. Na verdade, creio que são
esses sem blantes e as cerim ônias assustadoras de que nos cercam os que
nos am edrontam , m ais que ela: um a form a totalm ente nova de viver; os gritos
das m ães, das m ulheres e das crianças, a visita de pessoas em ocionadas e
transidas, a presença num erosa de criados pálidos e chorosos, um quarto
sem luz, velas acesas, nossa cabeceira invadida por m édicos e pregadores,
em sum a, todo o horror e o pavor em torno de nós. Eis-nos j á sepultados e
enterrados. As crianças têm m edo até de seus am igos quando os veem
m ascarados; nós tam bém . É preciso tirar a m áscara tanto das coisas com o das pessoas. Quando for retirada, só encontrarem os em baixo essa m esm a