Os Ensaios

Michel de Montaigne · Capítulo 19 de 33

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Os Ensaios

Sobre a idade

Immunis aram si tetigit manus,

Non sumptuosa blandior hostia

Mollivit aversos Penates,

Farre pio et saliena mica. 206

Se a m ão pura tocou no altar, não há necessidade de um a suntuosa vítim a

para adular e acalm ar os penates hostis: bastam farinha consagrada e um

grão de sal estalando.

Sobre a idade

Capítulo LVII

Montaigne publicou os dois primeiros livros de Os ensaios quando tinha 47

anos. Aqui ele olha para trás, para sua juventude, e vê que os trinta anos são

o divisor de águas entre o vigor e o declínio. Por volta dos 47 anos tem início

o sofrimento das cólicas renais que o atormentarão até a morte. Diz que

chegou a uma idade a que poucos chegaram e renuncia à esperança de

viver oitenta anos, o que expressava no Livro I, XIX. Sua idade atual é vivida

como uma perda, que em contraste confere à juventude prestígio e brilho,

ilustrados nas figuras de Augusto, Cipião e Aníbal. Montaigne se insurge,

assim, contra o fato de que desde a Antiguidade as leis confiscam os direitos

dos jovens. A seu ver, eles devem entrar muito cedo nos negócios. A última

palavra deste ensaio, e portanto do Livro I, é “aprendizado”. Aos trinta anos o

aprendizado de um homem sábio deveria, sem a menor dúvida, estar

terminado, mas para aqueles que fazem bom uso de seu tempo, poderão o

conhecimento e a experiência crescer com os anos?

Não posso aceitar o m odo com o estabelecem os a duração de nossa vida.

Vej o que os sábios a encurtam m uito em relação à opinião com um . “Com o”,

diz o j ovem Catão aos que queriam im pedi-lo de se m atar, “estarei ainda na

idade em que possam m e repreender por abandonar a vida cedo dem ais?” No

entanto, tinha apenas 48 anos. Estim ava essa idade bem m adura e bem

avançada, considerando que poucos hom ens a atingem . E os que se iludem

com não sei qual “curso”, a que cham am de “natural”, que prom ete alguns

anos m ais, bem poderiam fazê-lo se tivessem o privilégio de ser isentados de

um núm ero tão grande de infortúnios de que cada um de nós é alvo por natural

suj eição e que podem interrom per esse curso que prom etem a si m esm os.

Que loucura é esperar m orrer de um enfraquecim ento de forças trazido pela

velhice extrem a e propor-se esse obj etivo com o term o de nossa vida, visto

que é o tipo de m orte m ais rara de todas e a m enos usual! Nós a cham am os

de única natural, com o se fosse antinatural ver um hom em quebrar o pescoço

num a queda, afogar-se num naufrágio, deixar-se surpreender pela peste ou

por um a pleurisia, com o se nossa reles condição não apresentasse esses

inconvenientes a todos. Não nos iludam os com essas belas palavras; devem os

talvez cham ar de natural o que é genérico, com um e universal. Morrer de

velhice é um a m orte rara, singular e extraordinária, e portanto m enos natural

que as outras; é a últim a e extrem a m aneira de m orrer: m ais está afastada de

nós, m enos é esperável; é até m esm o o lim ite além do qual não irem os e que

a lei da natureza prescreveu para não ser ultrapassado; m as é um privilégio

dela nos fazer durar até lá. É um a isenção que ela dá por favor particular, a um só no espaço de dois ou três séculos, desobrigando-o dos reveses e das

dificuldades que ela m esm a j ogou nessa longa estrada. Assim , m inha opinião

é que devem os considerar que a idade a que chegam os é um a idade a que

poucas pessoas chegam . Posto que no ritm o norm al os hom ens não chegam

até aqui, é sinal de que estam os bem à frente deles. E j á que ultrapassam os

os lim ites habituais, que são a verdadeira m edida de nossa vida, não devem os

esperar ir além ; tendo escapado de tantas ocasiões de m orrer em que vem os

todo m undo tropeçar, devem os reconhecer que um a sorte extraordinária com o esta que nos m antém e está além da norm a usual não deve durar m uito. É um

defeito das próprias leis apresentar esta ideia falsa: elas não querem que um

hom em sej a capaz de gerir seus bens antes que tenha 25 anos, e m al e m al

conservará até aí a gestão de sua vida. Augusto cortou cinco anos nos antigos

decretos rom anos e declarou que bastava, para os que assum iam um cargo

de j uiz, ter trinta anos. Sérvio Túlio dispensou das corveias da guerra os

cavaleiros que tinham passado dos 47 anos. Augusto reduziu essa idade para

45. Não m e parece haver m uita razão em m andar-se os hom ens para a

aposentadoria antes dos 55 ou sessenta anos. Eu seria de opinião de que se

estendesse nosso período de atividade e ocupação tanto quanto possível, no

interesse público. Mas considero que o erro está do outro lado: não

com eçarm os a trabalhar m ais cedo. Aquele que foi j uiz universal do m undo aos

dezenove anos207 quer que um hom em tenha trinta para poder decidir sobre o lugar de um a calha. Quanto a m im , considero que nossas alm as se tornaram

aos vinte anos o que devem ser e que aí prom etem tudo o que poderão.

Jam ais um a alm a que não tenha dado nessa idade garantia evidente de sua força deu prova disso desde então. As qualidades e virtudes naturais

produzem nesse prazo, ou nunca, o que têm de vigoroso e belo.

Si l’espine nou pique quand nai,

A pene que pique jamai,

Se o espinho não espeta quando nasce, dificilm ente um dia espetará.

dizem no Dauphiné. De todas as belas ações hum anas que chegaram ao m eu

conhecim ento, de qualquer tipo que sej am , eu pensaria que, ao designar as

que foram produzidas tanto nos séculos antigos com o no nosso, a m aioria foi

antes da idade de trinta anos e não depois. E, sim , frequentem ente na vida

dos m esm os hom ens. Não posso dizer isso, com toda a certeza, das de

Aníbal e de Cipião, seu grande adversário? A boa m etade de suas vidas eles

viveram da glória adquirida na j uventude: desde então, foram grandes hom ens

em com paração com todos os outros, m as de j eito nenhum se com parados

consigo m esm os. Quanto a m im , dou por certo que, desde essa idade, tanto

m eu espírito com o m eu corpo m ais dim inuíram que aum entaram e m ais

recuaram que avançaram . É possível que para os que em pregam bem seu

tem po, o saber e a experiência cresçam com a vida, m as a vivacidade, a

presteza, a firm eza e outras qualidades bem m ais nossas, m ais im portantes e

essenciais, fenecem e enlanguescem .

Ubi iam validis quassatum est viribus aevi

Corpus, et obtusis ceciderunt viribus artus,

Claudicat ingenium, delirat linguaque mensque. 208

Um a vez que as rudes forças do tem po abalaram nosso corpo, que nossos m em bros se prostraram , suas forças gastaram -se, nosso espírito claudica,