Os Ensaios
Sobre a idade
Immunis aram si tetigit manus,
Non sumptuosa blandior hostia
Mollivit aversos Penates,
Farre pio et saliena mica. 206
Se a m ão pura tocou no altar, não há necessidade de um a suntuosa vítim a
para adular e acalm ar os penates hostis: bastam farinha consagrada e um
grão de sal estalando.
Sobre a idade
Capítulo LVII
Montaigne publicou os dois primeiros livros de Os ensaios quando tinha 47
anos. Aqui ele olha para trás, para sua juventude, e vê que os trinta anos são
o divisor de águas entre o vigor e o declínio. Por volta dos 47 anos tem início
o sofrimento das cólicas renais que o atormentarão até a morte. Diz que
chegou a uma idade a que poucos chegaram e renuncia à esperança de
viver oitenta anos, o que expressava no Livro I, XIX. Sua idade atual é vivida
como uma perda, que em contraste confere à juventude prestígio e brilho,
ilustrados nas figuras de Augusto, Cipião e Aníbal. Montaigne se insurge,
assim, contra o fato de que desde a Antiguidade as leis confiscam os direitos
dos jovens. A seu ver, eles devem entrar muito cedo nos negócios. A última
palavra deste ensaio, e portanto do Livro I, é “aprendizado”. Aos trinta anos o
aprendizado de um homem sábio deveria, sem a menor dúvida, estar
terminado, mas para aqueles que fazem bom uso de seu tempo, poderão o
conhecimento e a experiência crescer com os anos?
Não posso aceitar o m odo com o estabelecem os a duração de nossa vida.
Vej o que os sábios a encurtam m uito em relação à opinião com um . “Com o”,
diz o j ovem Catão aos que queriam im pedi-lo de se m atar, “estarei ainda na
idade em que possam m e repreender por abandonar a vida cedo dem ais?” No
entanto, tinha apenas 48 anos. Estim ava essa idade bem m adura e bem
avançada, considerando que poucos hom ens a atingem . E os que se iludem
com não sei qual “curso”, a que cham am de “natural”, que prom ete alguns
anos m ais, bem poderiam fazê-lo se tivessem o privilégio de ser isentados de
um núm ero tão grande de infortúnios de que cada um de nós é alvo por natural
suj eição e que podem interrom per esse curso que prom etem a si m esm os.
Que loucura é esperar m orrer de um enfraquecim ento de forças trazido pela
velhice extrem a e propor-se esse obj etivo com o term o de nossa vida, visto
que é o tipo de m orte m ais rara de todas e a m enos usual! Nós a cham am os
de única natural, com o se fosse antinatural ver um hom em quebrar o pescoço
num a queda, afogar-se num naufrágio, deixar-se surpreender pela peste ou
por um a pleurisia, com o se nossa reles condição não apresentasse esses
inconvenientes a todos. Não nos iludam os com essas belas palavras; devem os
talvez cham ar de natural o que é genérico, com um e universal. Morrer de
velhice é um a m orte rara, singular e extraordinária, e portanto m enos natural
que as outras; é a últim a e extrem a m aneira de m orrer: m ais está afastada de
nós, m enos é esperável; é até m esm o o lim ite além do qual não irem os e que
a lei da natureza prescreveu para não ser ultrapassado; m as é um privilégio
dela nos fazer durar até lá. É um a isenção que ela dá por favor particular, a um só no espaço de dois ou três séculos, desobrigando-o dos reveses e das
dificuldades que ela m esm a j ogou nessa longa estrada. Assim , m inha opinião
é que devem os considerar que a idade a que chegam os é um a idade a que
poucas pessoas chegam . Posto que no ritm o norm al os hom ens não chegam
até aqui, é sinal de que estam os bem à frente deles. E j á que ultrapassam os
os lim ites habituais, que são a verdadeira m edida de nossa vida, não devem os
esperar ir além ; tendo escapado de tantas ocasiões de m orrer em que vem os
todo m undo tropeçar, devem os reconhecer que um a sorte extraordinária com o esta que nos m antém e está além da norm a usual não deve durar m uito. É um
defeito das próprias leis apresentar esta ideia falsa: elas não querem que um
hom em sej a capaz de gerir seus bens antes que tenha 25 anos, e m al e m al
conservará até aí a gestão de sua vida. Augusto cortou cinco anos nos antigos
decretos rom anos e declarou que bastava, para os que assum iam um cargo
de j uiz, ter trinta anos. Sérvio Túlio dispensou das corveias da guerra os
cavaleiros que tinham passado dos 47 anos. Augusto reduziu essa idade para
45. Não m e parece haver m uita razão em m andar-se os hom ens para a
aposentadoria antes dos 55 ou sessenta anos. Eu seria de opinião de que se
estendesse nosso período de atividade e ocupação tanto quanto possível, no
interesse público. Mas considero que o erro está do outro lado: não
com eçarm os a trabalhar m ais cedo. Aquele que foi j uiz universal do m undo aos
dezenove anos207 quer que um hom em tenha trinta para poder decidir sobre o lugar de um a calha. Quanto a m im , considero que nossas alm as se tornaram
aos vinte anos o que devem ser e que aí prom etem tudo o que poderão.
Jam ais um a alm a que não tenha dado nessa idade garantia evidente de sua força deu prova disso desde então. As qualidades e virtudes naturais
produzem nesse prazo, ou nunca, o que têm de vigoroso e belo.
Si l’espine nou pique quand nai,
A pene que pique jamai,
Se o espinho não espeta quando nasce, dificilm ente um dia espetará.
dizem no Dauphiné. De todas as belas ações hum anas que chegaram ao m eu
conhecim ento, de qualquer tipo que sej am , eu pensaria que, ao designar as
que foram produzidas tanto nos séculos antigos com o no nosso, a m aioria foi
antes da idade de trinta anos e não depois. E, sim , frequentem ente na vida
dos m esm os hom ens. Não posso dizer isso, com toda a certeza, das de
Aníbal e de Cipião, seu grande adversário? A boa m etade de suas vidas eles
viveram da glória adquirida na j uventude: desde então, foram grandes hom ens
em com paração com todos os outros, m as de j eito nenhum se com parados
consigo m esm os. Quanto a m im , dou por certo que, desde essa idade, tanto
m eu espírito com o m eu corpo m ais dim inuíram que aum entaram e m ais
recuaram que avançaram . É possível que para os que em pregam bem seu
tem po, o saber e a experiência cresçam com a vida, m as a vivacidade, a
presteza, a firm eza e outras qualidades bem m ais nossas, m ais im portantes e
essenciais, fenecem e enlanguescem .
Ubi iam validis quassatum est viribus aevi
Corpus, et obtusis ceciderunt viribus artus,
Claudicat ingenium, delirat linguaque mensque. 208
Um a vez que as rudes forças do tem po abalaram nosso corpo, que nossos m em bros se prostraram , suas forças gastaram -se, nosso espírito claudica,