Os Ensaios

Michel de Montaigne · Capítulo 16 de 33

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Os Ensaios

Que é preciso prudência para se meter a julgar os decretos divinos

linguagem que cham am os hom ens de “m etade” uns dos outros) que tinham

visto que havia entre nós hom ens repletos e abarrotados de toda espécie de

com odidades, e que suas m etades eram m endigos às suas portas,

descarnados de fom e e pobreza; e achavam estranho com o essas m etades

daqui, necessitadas, podiam suportar tal inj ustiça, que não pegassem os

outros pela goela ou ateassem fogo em suas casas. Falei com um deles por

m uito tem po, m as eu tinha um intérprete que m e seguia tão m al, e cuj a

estupidez tanto o im pedia de entender m inhas ideias, que não pude tirar dessa

conversa nada que prestasse. Quando lhe perguntei que proveito tirava da

superioridade que tinha entre os seus (pois era um capitão, e nossos

m arinheiros o cham avam de rei), disse-m e que era estar à frente dos que

m archavam para a guerra; quando perguntei de quantos hom ens era seguido,

m ostrou-m e um espaço aberto para significar que era de tantos quantos

caberiam em tal espaço, podiam ser 4 m il ou 5 m il hom ens; quando perguntei

se fora da guerra toda a sua autoridade estava extinta, disse que lhe restava

o fato de que, quando visitava as aldeias que dependiam dele, abriam -lhe

picadas através das m oitas de seus bosques por onde pudesse passar bem

confortavelm ente. Tudo isso não é tão m au assim : m as ora! eles não usam

calças.

Que é preciso prudência para

se meter a julgar os decretos divinos

Capítulo

163

XXXI

Escrito pouco depois da batalha de Lepanto, em 1572, este ensaio é a

continuação de uma reflexão iniciada, a partir de Santo Agostinho, no Livro I,

XXVI, sobre a impostura ou a vã curiosidade dos homens que pretendem

penetrar os desígnios de Deus. Como católico “fideísta”, Montaigne

recomenda um abandono confiante à Providência, recusando qualquer

racionalização, qualquer vaticinação, sejam elas recebidas como tais (a

astrologia e a quiromancia), ou reputadas científicas, como a alquimia, a

astronomia e a medicina. O tema de que os conselhos de Deus são um

segredo que o homem não deve tentar desvendar era comum no

Renascimento. Montaigne aplica esse dogma aos altos e baixos das guerras

de religião: não podemos dizer que Deus está do lado de um dos vitoriosos

nos campos de batalha. Montaigne assevera que até mesmo os índios

pagãos do Novo Mundo conhecem isso melhor do que os soldados cristãos.

O verdadeiro cam po e assunto da im postura são as coisas desconhecidas,

tanto m ais que, em prim eiro lugar, a própria estranheza lhes dá crédito, e,

além disso, não estando m ais suj eitas a nossos raciocínios habituais, nos

retiram o m eio de com batê-las. Por isso, diz Platão, é bem m ais fácil

satisfazer as pessoas ao falar da natureza dos deuses que da natureza dos

hom ens, pois a ignorância dos ouvintes perm ite ao m anej o de tais m atérias

secretas um a bela e longa carreira, em absoluta liberdade. Daí resulta que em

nada se crê tão firm em ente com o naquilo que m enos se sabe, e que não há

pessoas tão seguras quanto as que nos contam fábulas, com o alquim istas, especialistas em prognósticos, astrólogos, quirom antes, m édicos, id genus

omne. 164todos os dessa espécie.] A eles, de bom grado eu acrescentaria, se m e atrevesse, um a profusão de pessoas, intérpretes e controladores com uns

dos desígnios de Deus, que pretendem encontrar as causas de cada

acontecim ento e ver nos segredos da vontade divina os m otivos

incom preensíveis de suas obras. E em bora a variedade e a discordância

contínuas dos acontecim entos os relegue de um canto a outro, e do Ocidente

ao Oriente, não param de correr, porém , atrás de sua bola e, com o m esm o

lápis, de pintar o branco e o preto. Num a nação indígena há a louvável

observância de que, quando m alsucedidos em um confronto ou num a batalha,

eles pedem publicam ente perdão ao Sol, que é o deus deles, com o se fosse

um a ação inj usta, atribuindo sua ventura ou desventura à razão divina e

subm etendo-lhe seu j ulgam ento e suas reflexões. Basta a um cristão crer que

todas as coisas vêm de Deus para recebê-las com o reconhecim ento de Sua

divina e inescrutável sapiência; por conseguinte, aceitá-las com gosto, sob

qualquer aspecto que lhe sej am enviadas. Mas acho errado o que vej o em

prática, de procurar firm ar e apoiar nossa religião na prosperidade de nossos

em preendim entos. Nossa fé tem m uitos outros fundam entos sem ser

necessário legitim á-la pelos acontecim entos; pois estando o povo acostum ado

com esses argum entos plausíveis e propriam ente a seu gosto, há o perigo de

que isso abale sua fé quando os acontecim entos, por sua vez, se apresentam

contrários e desvantaj osos, assim com o nas guerras de religião em que

estam os os que levaram vantagem na batalha de La Rochelabeille fizeram

grande festa desse acontecim ento e serviram -se dessa boa fortuna para um a

aprovação irrefutável de seu partido; m as quando depois vêm a desculpar

seus infortúnios de Montcontour e de Jarnac, 165 com o se fossem varas e castigos paternos, se não tiverem um povo totalm ente à sua m ercê o fazem

m uito facilm ente sentir que é pegar duas farinhas num m esm o saco, e com a

m esm a boca soprar o quente e o frio. Seria m elhor falar ao povo sobre os

verdadeiros fundam entos da verdade. Foi um a bela batalha naval que se

ganhou nestes últim os m eses contra os turcos, sob o com ando de dom João

da Áustria; m as Deus tam bém quis, outras vezes, fazer outras tantas à nossa

custa. 166 Em sum a, é difícil trazer as coisas divinas para a nossa balança sem que sofram depreciação. E quem quisesse dar razão ao fato de que Ário e

seu papa Leão, chefes principais dessa heresia, m orreram em m om entos

diferentes de m ortes tão parecidas e tão estranhas (pois, afastados de um

debate para ir à privada por causa de um a dor de barriga, lá os dois renderam

subitam ente a alm a) e exagerar essa vingança divina pela circunstância do

lugar, bem poderia acrescentar ainda a m orte de Heliogábalo, que tam bém foi

m orto num a latrina. Pois é! Irineu foi vítim a do m esm o infortúnio. Deus quer

ensinar-nos que os bons têm outra coisa a esperar e os m aus outra coisa a

tem er além das fortunas e dos infortúnios deste m undo, e m anej a-os e aplica-

os segundo suas intenções ocultas; e retira-nos o m eio de, tolam ente,

tirarm os proveito deles. E enganam -se os que querem prevalecer-se disso

pela razão hum ana. Pois j am ais dão um a estocada sem que recebam duas.

Santo Agostinho dá um a bela prova disso contra seus adversários. É um

conflito que se decide pelas arm as da m em ória, m ais que pelas da razão.

Devem os nos contentar com a luz que o sol se apraz de nos com unicar por