Os Ensaios
Que é preciso prudência para se meter a julgar os decretos divinos
linguagem que cham am os hom ens de “m etade” uns dos outros) que tinham
visto que havia entre nós hom ens repletos e abarrotados de toda espécie de
com odidades, e que suas m etades eram m endigos às suas portas,
descarnados de fom e e pobreza; e achavam estranho com o essas m etades
daqui, necessitadas, podiam suportar tal inj ustiça, que não pegassem os
outros pela goela ou ateassem fogo em suas casas. Falei com um deles por
m uito tem po, m as eu tinha um intérprete que m e seguia tão m al, e cuj a
estupidez tanto o im pedia de entender m inhas ideias, que não pude tirar dessa
conversa nada que prestasse. Quando lhe perguntei que proveito tirava da
superioridade que tinha entre os seus (pois era um capitão, e nossos
m arinheiros o cham avam de rei), disse-m e que era estar à frente dos que
m archavam para a guerra; quando perguntei de quantos hom ens era seguido,
m ostrou-m e um espaço aberto para significar que era de tantos quantos
caberiam em tal espaço, podiam ser 4 m il ou 5 m il hom ens; quando perguntei
se fora da guerra toda a sua autoridade estava extinta, disse que lhe restava
o fato de que, quando visitava as aldeias que dependiam dele, abriam -lhe
picadas através das m oitas de seus bosques por onde pudesse passar bem
confortavelm ente. Tudo isso não é tão m au assim : m as ora! eles não usam
calças.
Que é preciso prudência para
se meter a julgar os decretos divinos
Capítulo
163
XXXI
Escrito pouco depois da batalha de Lepanto, em 1572, este ensaio é a
continuação de uma reflexão iniciada, a partir de Santo Agostinho, no Livro I,
XXVI, sobre a impostura ou a vã curiosidade dos homens que pretendem
penetrar os desígnios de Deus. Como católico “fideísta”, Montaigne
recomenda um abandono confiante à Providência, recusando qualquer
racionalização, qualquer vaticinação, sejam elas recebidas como tais (a
astrologia e a quiromancia), ou reputadas científicas, como a alquimia, a
astronomia e a medicina. O tema de que os conselhos de Deus são um
segredo que o homem não deve tentar desvendar era comum no
Renascimento. Montaigne aplica esse dogma aos altos e baixos das guerras
de religião: não podemos dizer que Deus está do lado de um dos vitoriosos
nos campos de batalha. Montaigne assevera que até mesmo os índios
pagãos do Novo Mundo conhecem isso melhor do que os soldados cristãos.
O verdadeiro cam po e assunto da im postura são as coisas desconhecidas,
tanto m ais que, em prim eiro lugar, a própria estranheza lhes dá crédito, e,
além disso, não estando m ais suj eitas a nossos raciocínios habituais, nos
retiram o m eio de com batê-las. Por isso, diz Platão, é bem m ais fácil
satisfazer as pessoas ao falar da natureza dos deuses que da natureza dos
hom ens, pois a ignorância dos ouvintes perm ite ao m anej o de tais m atérias
secretas um a bela e longa carreira, em absoluta liberdade. Daí resulta que em
nada se crê tão firm em ente com o naquilo que m enos se sabe, e que não há
pessoas tão seguras quanto as que nos contam fábulas, com o alquim istas, especialistas em prognósticos, astrólogos, quirom antes, m édicos, id genus
omne. 164todos os dessa espécie.] A eles, de bom grado eu acrescentaria, se m e atrevesse, um a profusão de pessoas, intérpretes e controladores com uns
dos desígnios de Deus, que pretendem encontrar as causas de cada
acontecim ento e ver nos segredos da vontade divina os m otivos
incom preensíveis de suas obras. E em bora a variedade e a discordância
contínuas dos acontecim entos os relegue de um canto a outro, e do Ocidente
ao Oriente, não param de correr, porém , atrás de sua bola e, com o m esm o
lápis, de pintar o branco e o preto. Num a nação indígena há a louvável
observância de que, quando m alsucedidos em um confronto ou num a batalha,
eles pedem publicam ente perdão ao Sol, que é o deus deles, com o se fosse
um a ação inj usta, atribuindo sua ventura ou desventura à razão divina e
subm etendo-lhe seu j ulgam ento e suas reflexões. Basta a um cristão crer que
todas as coisas vêm de Deus para recebê-las com o reconhecim ento de Sua
divina e inescrutável sapiência; por conseguinte, aceitá-las com gosto, sob
qualquer aspecto que lhe sej am enviadas. Mas acho errado o que vej o em
prática, de procurar firm ar e apoiar nossa religião na prosperidade de nossos
em preendim entos. Nossa fé tem m uitos outros fundam entos sem ser
necessário legitim á-la pelos acontecim entos; pois estando o povo acostum ado
com esses argum entos plausíveis e propriam ente a seu gosto, há o perigo de
que isso abale sua fé quando os acontecim entos, por sua vez, se apresentam
contrários e desvantaj osos, assim com o nas guerras de religião em que
estam os os que levaram vantagem na batalha de La Rochelabeille fizeram
grande festa desse acontecim ento e serviram -se dessa boa fortuna para um a
aprovação irrefutável de seu partido; m as quando depois vêm a desculpar
seus infortúnios de Montcontour e de Jarnac, 165 com o se fossem varas e castigos paternos, se não tiverem um povo totalm ente à sua m ercê o fazem
m uito facilm ente sentir que é pegar duas farinhas num m esm o saco, e com a
m esm a boca soprar o quente e o frio. Seria m elhor falar ao povo sobre os
verdadeiros fundam entos da verdade. Foi um a bela batalha naval que se
ganhou nestes últim os m eses contra os turcos, sob o com ando de dom João
da Áustria; m as Deus tam bém quis, outras vezes, fazer outras tantas à nossa
custa. 166 Em sum a, é difícil trazer as coisas divinas para a nossa balança sem que sofram depreciação. E quem quisesse dar razão ao fato de que Ário e
seu papa Leão, chefes principais dessa heresia, m orreram em m om entos
diferentes de m ortes tão parecidas e tão estranhas (pois, afastados de um
debate para ir à privada por causa de um a dor de barriga, lá os dois renderam
subitam ente a alm a) e exagerar essa vingança divina pela circunstância do
lugar, bem poderia acrescentar ainda a m orte de Heliogábalo, que tam bém foi
m orto num a latrina. Pois é! Irineu foi vítim a do m esm o infortúnio. Deus quer
ensinar-nos que os bons têm outra coisa a esperar e os m aus outra coisa a
tem er além das fortunas e dos infortúnios deste m undo, e m anej a-os e aplica-
os segundo suas intenções ocultas; e retira-nos o m eio de, tolam ente,
tirarm os proveito deles. E enganam -se os que querem prevalecer-se disso
pela razão hum ana. Pois j am ais dão um a estocada sem que recebam duas.
Santo Agostinho dá um a bela prova disso contra seus adversários. É um
conflito que se decide pelas arm as da m em ória, m ais que pelas da razão.
Devem os nos contentar com a luz que o sol se apraz de nos com unicar por