Os Ensaios
Os ensaios, de Montaigne
homme que, em m eio ao palavrório m undano e ao fluxo de seus afazeres,
esquece rapidam ente a nudez de sua própria existência; que num átim o
inventa para a m orte form as e palavras capazes de retratá-la com o um a
função social, e com isso não m ais a encara de frente. Com Montaigne — o
leigo, o prim eiro escritor — isso não ocorre. Ainda é cristão o bastante para
lem brar sem pre da condition de l’homme. Mergulha a fundo, cheio de volúpia,
na ideia da m orte. Mas não trem e e espera não fazê-lo. Conduz seu cavalo à
beira do abism o, até que ele não sinta m ais m edo — não violentam ente, com
esporas e chicote, m as, suave e persistente, com a pressão de suas coxas.
Assim , seduz a liberdade com lisonj as, sem se esquecer de sua condição de
escravo; m antendo sem pre presente essa lem brança, desfruta com m ais
gosto da liberdade. Nisso ele está só, em si e consigo m esm o, no m eio do
m undo — e em perfeita solidão.
Os ensaios, de Montaigne
ROSA FREIRE D’AGUIAR
O texto de Os ensaios aqui traduzido é o da edição póstum a de 1595, a
m esm a que serviu de base para a edição publicada em 2007 pela editora
Gallim ard na coleção Pléiade. Não existe um a edição definitiva da obra de
Montaigne. A im portância e o caráter dos acréscim os que ele foi incorporando
ao texto, desde que escreveu o prim eiro ensaio, por volta de 1571, até
m orrer, em 1592, m ostram que seu proj eto não parou de evoluir e se adensar
ao fio das edições. A prim eira, de 1580, traz apenas os livros I e II. Dela j á
consta um dos m ais fam osos ensaios da obra, “Sobre os canibais”, que reconstitui o encontro de Montaigne com três índios brasileiros tupinam bás,
em Rouen, em outubro de 1562. Em 1588 sai a quinta edição, trazendo o Livro
III, cerca de quinhentas novas citações e outras tantas adições e m odificações.
É a últim a edição publicada com o autor em vida. Um dos exem plares dessa
edição de 1588, copiosam ente anotado por Montaigne, está conservado na
Biblioteca Municipal de Bordeaux: é o Exem plar de Bordeaux. Outro, com as
últim as intervenções de Montaigne e guardado pela fam ília, serviu de base à
edição de 1595, organizada por Marie de Gournay, a j ovem literata e
adm iradora de Montaigne, que a considerava um a filha adotiva. O trabalho
m inucioso de Gournay consistiu em fazer alterações de grafia e incorporar
centenas de correções e acréscim os feitos nas m argens e entrelinhas pelo
autor. A edição de 1595 conheceu sucesso im ediato e serviu para várias
outras edições, algum as clandestinas, outras expurgadas, durante pelo m enos
dois séculos, pois só no início do século XIX publicou-se o texto conform e o
Exem plar de Bordeaux. Foi a edição póstum a que leram os contem porâneos
de Montaigne, assim com o Pascal, Voltaire, Rousseau, e tantos outros
intelectuais que contribuíram para difundir o m onum ento literário de Montaigne.
Marie de Gournay tam bém fez inúm eras anotações ao texto, tendo rastreado
e traduzido as fontes das citações. Desde então, os especialistas sucessivos
acrescentaram notas próprias às das edições anteriores.
As notas introdutórias de cada ensaio e as notas de rodapé desta edição
foram feitas pela tradutora a partir da edição da Pléiade de 2007, organizada
por Jean Balsam o, Michel Magnien e Catherine Magnien-Sim onin, da Seleção dos Ensaios publicada em 2004 pela Penguin Classics, com organização e