Os Ensaios

Michel de Montaigne · Capítulo 5 de 33

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Os Ensaios

Os ensaios, de Montaigne

homme que, em m eio ao palavrório m undano e ao fluxo de seus afazeres,

esquece rapidam ente a nudez de sua própria existência; que num átim o

inventa para a m orte form as e palavras capazes de retratá-la com o um a

função social, e com isso não m ais a encara de frente. Com Montaigne — o

leigo, o prim eiro escritor — isso não ocorre. Ainda é cristão o bastante para

lem brar sem pre da condition de l’homme. Mergulha a fundo, cheio de volúpia,

na ideia da m orte. Mas não trem e e espera não fazê-lo. Conduz seu cavalo à

beira do abism o, até que ele não sinta m ais m edo — não violentam ente, com

esporas e chicote, m as, suave e persistente, com a pressão de suas coxas.

Assim , seduz a liberdade com lisonj as, sem se esquecer de sua condição de

escravo; m antendo sem pre presente essa lem brança, desfruta com m ais

gosto da liberdade. Nisso ele está só, em si e consigo m esm o, no m eio do

m undo — e em perfeita solidão.

Os ensaios, de Montaigne

ROSA FREIRE D’AGUIAR

O texto de Os ensaios aqui traduzido é o da edição póstum a de 1595, a

m esm a que serviu de base para a edição publicada em 2007 pela editora

Gallim ard na coleção Pléiade. Não existe um a edição definitiva da obra de

Montaigne. A im portância e o caráter dos acréscim os que ele foi incorporando

ao texto, desde que escreveu o prim eiro ensaio, por volta de 1571, até

m orrer, em 1592, m ostram que seu proj eto não parou de evoluir e se adensar

ao fio das edições. A prim eira, de 1580, traz apenas os livros I e II. Dela j á

consta um dos m ais fam osos ensaios da obra, “Sobre os canibais”, que reconstitui o encontro de Montaigne com três índios brasileiros tupinam bás,

em Rouen, em outubro de 1562. Em 1588 sai a quinta edição, trazendo o Livro

III, cerca de quinhentas novas citações e outras tantas adições e m odificações.

É a últim a edição publicada com o autor em vida. Um dos exem plares dessa

edição de 1588, copiosam ente anotado por Montaigne, está conservado na

Biblioteca Municipal de Bordeaux: é o Exem plar de Bordeaux. Outro, com as

últim as intervenções de Montaigne e guardado pela fam ília, serviu de base à

edição de 1595, organizada por Marie de Gournay, a j ovem literata e

adm iradora de Montaigne, que a considerava um a filha adotiva. O trabalho

m inucioso de Gournay consistiu em fazer alterações de grafia e incorporar

centenas de correções e acréscim os feitos nas m argens e entrelinhas pelo

autor. A edição de 1595 conheceu sucesso im ediato e serviu para várias

outras edições, algum as clandestinas, outras expurgadas, durante pelo m enos

dois séculos, pois só no início do século XIX publicou-se o texto conform e o

Exem plar de Bordeaux. Foi a edição póstum a que leram os contem porâneos

de Montaigne, assim com o Pascal, Voltaire, Rousseau, e tantos outros

intelectuais que contribuíram para difundir o m onum ento literário de Montaigne.

Marie de Gournay tam bém fez inúm eras anotações ao texto, tendo rastreado

e traduzido as fontes das citações. Desde então, os especialistas sucessivos

acrescentaram notas próprias às das edições anteriores.

As notas introdutórias de cada ensaio e as notas de rodapé desta edição

foram feitas pela tradutora a partir da edição da Pléiade de 2007, organizada

por Jean Balsam o, Michel Magnien e Catherine Magnien-Sim onin, da Seleção dos Ensaios publicada em 2004 pela Penguin Classics, com organização e