Os Ensaios
Sobre a embriaguez
a prudência; e se a própria Vênus arm a de resolução e intrepidez a j uventude
ainda suj eita à disciplina e à vara, e deixa aguerrido o terno coração das
donzelas no regaço de suas m ães,
Hac duce custodes furtim transgressa jacentes
Ad juvenem tenebris sola puella venit, 224
Sob sua conduta, passando furtivam ente entre os guardas adorm ecidos,
sozinha nas trevas, a m oça vai ao encontro do rapaz,
não dem onstra entendim ento experiente quem nos j ulga sim plesm ente por
nossas ações externas: cum pre sondar até o fundo e ver quais engrenagens
fazem as coisas se m overem . Mas com o é tarefa elevada e arriscada,
gostaria que m enos pessoas nela se introm etessem .
Sobre a embriaguez
Capítulo II
A embriaguez era considerada uma forma de arrebatamento em que corpo e
alma ficavam separados, e, desde os tempos antigos, uma característica dos
mais elevados êxtases (os dos místicos, poetas, profetas e amantes) e
também do êxtase do milagre, da bravura e do medo. (Nas Paráfrases do
Novo Testamento, Erasmo explica longamente o arrebatamento dos
discípulos em Pentecostes, por analogia com os efeitos da embriaguez de
que eram acusados.) Montaigne é cauteloso com o êxtase e despreza o
excesso de bebida, que a seu ver é um êxtase do corpo, e não da mente.
Essas considerações enquadram-se num rol da variedade e da
dessemelhança dos costumes à mesa que Montaigne observou em sua viagem à Itália. A embriaguez é um vício grosseiro que rebaixa o homem ao
estado animal. Os antigos não censuraram o vício com tanto exagero.
Estando afastado, por temperamento, do vinho e da embriaguez, Montaigne
contrapõe a sobriedade de César aos heróis amantes da bebida, como
Alexandre, Catão, Ciro. O maior acréscimo do capítulo, publicado no
Exemplar de Bordeaux, é uma longa passagem dedicada a seu pai, Pierre
Eyquem.
O m undo não passa de variedade e dessem elhança. Os vícios são todos
parecidos porque todos são vícios: e dessa m aneira talvez os com preendam
os estoicos. Mas, tam bém , por serem igualm ente vícios não são vícios iguais.
E não se pode crer que quem ultrapassou de cem passos os lim ites,
Quos ultra citraque nequit consistere rectum, 225
Além e aquém dos quais não se pode encontrar o cam inho certo,
não estej a em pior condição do que quem está apenas a dez passos deles, e
nem que o sacrilégio não sej a pior do que o roubo de um repolho em nossa
horta:
Nec vincet ratio, tantumdem ut peccet, idemque,
Qui teneros caules alieni fregerit horti,
Et qui nocturnus divum sacra legerit. 226
E j am ais se dem onstrará que com etem um crim e igual ou de m esm a
natureza aquele que pisoteou os tenros repolhos na horta de outrem e
aquele que roubou de noite os obj etos sagrados dos deuses.
Há nisso tanta diversidade com o em qualquer outra coisa. É perigoso
confundir a ordem e a im portância dos pecados: os assassinos, os traidores, os tiranos, têm m uito interesse nisso; não é j usto que possam aliviar suas
consciências porque um outro é ocioso, ou lascivo, ou m enos assíduo na
devoção. Cada um insiste no pecado do com panheiro e alivia o seu próprio.
Até m esm o os professores m uitas vezes os classificam m al para m eu gosto.
Com o Sócrates dizia, o principal papel da sabedoria era distinguir o bem e o
m al. Nós, para quem o m elhor está sem pre m isturado ao vício, devem os dizer
o m esm o da ciência de distinguir os vícios: sem ela, aplicada com exatidão, o
virtuoso e o m au perm anecem m isturados e irreconhecíveis. Ora, a
em briaguez parece-m e, entre todos os outros, um vício grosseiro e brutal. Há
outros em que nosso espírito participa m ais, e há vícios que têm não sei quê de nobre, se assim se pode dizer. Há aqueles em que se m isturam a
diligência, a valentia, a prudência, a habilidade e a fineza; a em briaguez é
absolutam ente corporal e terrestre. Assim , a nação m ais grosseira das que
hoj e existem é a única que a valoriza.227 Os outros vícios alteram o entendim ento, este o destrói e entorpece o corpo:
cum vini vis penetravit,
Consequitur gravitas membrorum, praepediuntur
Crura vacillanti, tardescit lingua, madet mens,
Nant oculi, clamor, singultus, jurgia gliscunt. 228
quando a força do vinho nos penetrou, nossos m em bros ficam pesados, as
pernas ficam am arradas e vacilam , a língua gaguej a, o espírito afoga-se,
os olhos pairam , os gritos, os soluços, as altercações, se seguem .
O pior estado do hom em é quando ele perde o conhecim ento e o controle de
si. E diz-se, entre outras coisas, que assim com o o m osto ferm entando num recipiente puxa à tona tudo o que há no fundo, assim o vinho faz
transbordarem os segredos m ais íntim os dos que o tom aram em excesso,
tu sapientium
Curas, et arcanum jocoso
Consilium retegis Liaeo. 229
foste tu que arrancaste dos sábios suas preocupações e seus
pensam entos secretos nos divertim entos de Liaeo.
Josefo230 conta que arrancou segredos de um certo em baixador que os inim igos tinham lhe enviado, fazendo-o beber m uito. Todavia, Augusto confiou-se a Lúcio Piso, que conquistou a Trácia, sobre os negócios m ais privados
que teve e j am ais ficou decepcionado; nem Tibério em relação a Cosso, a
quem confiava todos os seus proj etos, em bora saibam os que os dois eram
tão fortem ente dados ao vinho que, m uitas vezes, foi preciso trazer do Senado
um e outro, bêbados,
Hesterno inflatum venas de more Lyaeo. 231
As veias inchadas com o de costum e pelo vinho da véspera.
E no proj eto de m atar César dem onstraram tanta confiança em Cim ber,
em bora costum asse em briagar-se, com o em Cássio, bebedor de água. O que
o levou a responder, brincando: “Que eu suportasse um tirano, eu, que não
consigo suportar o vinho!”. E vem os nossos alem ães, afogados no vinho, se
lem brarem de seu quartel, de sua senha e de sua patente,
nec facilis victoria de madidis, et
Blaesis, atque mero titubantibus. 232
e não é fácil vencê-los, por m ais encharcados estej am , gaguej ando e titubeando sob o efeito do vinho puro.
Eu não teria acreditado num a em briaguez tão profunda, sufocante e
parecendo a m orte se não tivesse lido isso nas histórias: a fim de infligir-lhe
um a notável indignidade, Átalo convidou para cear aquele Pausânias que, por
esse m esm o m otivo, m atou depois Filipe, rei da Macedônia (rei que atestava,
por suas belas qualidades, a educação que recebera na casa, e em
com panhia, de Epam inondas). Ele o fez beber tanto que pôde levá-lo, um
tanto sem perceber o que estava acontecendo, a entregar seu belo corpo aos
arreeiros e inúm eros abj etos serviçais de sua casa, com o o corpo de um a
puta atrás de um a m oita. E há o que m e contou um a dam a a quem honro e
prezo m uito: que perto de Bordeaux, para os lados de Castres, onde fica sua
casa, um a rica arrendatária, viúva e de casta reputação, ao sentir os prim eiros
efeitos da gravidez disse às vizinhas que pensaria estar grávida se tivesse um
m arido. Mas, dia a dia, crescendo essa suspeita, e tornando-se afinal
evidente, ela chegou a declarar durante o serm ão de sua igrej a que prom etia
perdoar ao hom em que adm itisse esse fato, e, se ele achasse bom , desposá-
lo. Um j ovem lavrador seu, encoraj ado com essa declaração, declarou tê-la
encontrado num dia de festa, quando ela bebeu vinho fartam ente e adorm eceu
perto da lareira tão profunda e indecentem ente que ele pôde servir-se dela
sem despertá-la. Ainda vivem j untos, casados. É certo que a Antiguidade não
desabonou m uito esse vício: os próprios textos de vários filósofos o
m encionam com bastante indulgência e até entre os estoicos há os que
aconselham a, vez por outra, beber m uito e em briagar-se para relaxar a alm a: Hoc quoque virtutum quondam certamine magnum
Socratem palmam promeruisse ferunt. 233
Dizem que antigam ente, tam bém nesse com bate, o grande Sócrates
ganhou a palm a.
Catão, esse censor e corretor dos outros, foi criticado por beber bem .
Narratur et prisci Catonis
Saepe mero caluisse virtus. 234
Conta-se que a virtude de Catão, o Velho, am iúde se aquecia no vinho.
Ciro, rei tão renom ado, entre os outros elogios para m ostrar-se superior a seu
irm ão Ataxerxes alega que sabia beber m uito m elhor que ele. E nas nações
m ais organizadas e civilizadas essa experiência de beber tanto era m uito
usada. Ouvi Silvius, excelente m édico de Paris, dizer que, para evitar que as
forças de nosso estôm ago se tornem preguiçosas, é bom um a vez por m ês
despertá-las com esse excesso e atiçá-las para evitar que se entorpeçam . E
escreve-se que os persas, depois do vinho, deliberavam sobre seus principais
negócios. Meu paladar e m inha com pleição são m ais inim igas desse vício do
que m inha razão, pois, além de subm eter facilm ente m inhas crenças à
autoridade das opiniões dos antigos, acho-o m esm o um vício covarde e
estúpido, m as m enos m au e prej udicial que os outros, que, quase todos,
chocam m ais diretam ente a sociedade e o público. E se, com o se diz, não
podem os ter nenhum prazer sem que ele nos custe algum a coisa, acho que
esse vício custa m enos à nossa consciência do que os outros; adem ais, não é
m uito difícil providenciá-lo nem encontrá-lo: consideração nada desprezível. Dizia-m e um hom em de idade avançada e grande dignidade que, entre os três
principais prazeres que lhe restavam na vida, incluía esse aí; e onde se
espera encontrar esses prazeres senão j ustam ente entre os naturais? Mas
usava-o m al. Nisso, há que fugir da delicadeza do paladar e de um a seleção
cuidadosa do vinho. Se baseam os nosso prazer em beber um vinho de gosto
agradável, obrigam o-nos ao desprazer de beber outro desagradável. É
preciso ter o gosto m ais despretensioso e m ais livre. Para ser um bom
bebedor não se deve ter o paladar tão delicado. Os alem ães bebem qualquer
vinho com quase igual prazer: o obj etivo é engoli-lo m ais que saboreá-lo. Dão-
se m uito m elhor assim . O prazer deles é bem m ais abundante e m ais
acessível. Em segundo lugar, beber à francesa nas duas refeições, e
m oderadam ente, é restringir dem ais os favores desse deus. Para ele é
preciso m ais tem po e constância. Os antigos varavam noites inteiras nesse
exercício e costum avam consagrar-lhe os dias. E tam bém é preciso tornar o
consum o habitual m ais am plo e m ais forte. No m eu tem po vi um grande
cavalheiro, personagem de altas em preitadas e êxitos fam osos, que sem
esforço, e durante as refeições com uns, não bebia m enos de cinco lotes de
vinho, 235 e ao sair da m esa sem pre se m ostrou m uito com portado e prudente, em detrim ento de nossos negócios. Deveríam os dedicar m ais espaço ao
prazer que querem os ter em conta durante nossa vida. Haveria que não
recusar, com o os caixeiros de arm azéns e trabalhadores m anuais, nenhum a
ocasião de beber e ter sem pre esse desej o em m ente. Parece que todos os
dias reduzim os esse costum e e que em nossas casas, com o vi em m inha
infância, os alm oços, j antares e colações eram m ais frequentes e habituais do
que agora. Seria por estarm os nos encam inhando para um a m elhora em
algum a coisa? Certam ente não. Mas é possível que sej am os m uito m ais
dados à lascívia do que nossos pais. São duas ocupações que im pedem um a
a força da outra. De um lado, a lascívia enfraqueceu nosso estôm ago, de
outro, a sobriedade serve para nos tornar m ais dispostos, m ais galantes para
o exercício do am or. São espantosas as histórias que ouvi m eu pai contar a
respeito da castidade em seu tem po. Era bem dele falar sobre isso, sendo
m uito atencioso, por gosto e por natureza, em com panhia das m ulheres.
Falava pouco e bem , ainda que m isturasse à sua linguagem algum a referência
a livros vulgares, sobretudo espanhóis, e entre os espanhóis lhe era
costum eiro aquele a que cham avam Marco Aurélio. 236 Tinha o sem blante de um a gravidade suave, hum ilde e m uito m odesto. Singular cuidado com a
honestidade e a decência de sua pessoa e de suas roupas, fosse a pé, fosse
a cavalo. Monstruosa fidelidade às suas palavras, e um a consciência e um a
religião em geral pendendo m ais para a superstição do que para o outro lado.
Para um hom em de baixa estatura, era cheio de vigor, e de porte em pertigado
e bem -proporcionado, rosto agradável, tirante ao m oreno, hábil e excelente
em todos os nobres exercícios. Ainda vi as bengalas repletas de chum bo com
as quais dizem que ele exercitava os braços a fim de se preparar para lançar
a barra, ou a pedra, ou para a esgrim a, e sapatos de solas de chum bo para
ficar m ais leve ao correr e saltar. Do salto de pés j untos deixou na m em ória
pequenos prodígios. Vi-o com m ais de sessenta anos zom bar de nossos
exercícios de agilidade, j ogar-se em cim a de um cavalo com sua toga forrada, dar a volta sobre um a m esa sustentando-se apenas pelo polegar, sem pre
subir para seu quarto lançando-se de três em três ou de quatro em quatro
degraus. Sobre m eu assunto da castidade, ele dizia que em toda a província
havia apenas um a m ulher de caráter com m á reputação. Falava de estranhas
relações íntim as, especialm ente suas, com m ulheres honestas acim a de
qualquer suspeita. E quanto a ele, j urava com o um santo ter chegado virgem
ao casam ento, e depois de ter participado por longo tem po, contudo, das
guerras transalpinas das quais nos deixou um diário de próprio punho seguindo
ponto por ponto o que lá se passou, tanto nos negócios públicos com o nos
seus privados. Assim , casou-se num a idade bem avançada, no ano de 1528,
que era seu 33o, no cam inho de volta da Itália. Voltem os às nossas garrafas.
Os inconvenientes da velhice, que precisam de certo apoio e reconforto,
poderiam gerar em m im , com razão, o desej o desse expediente, pois é quase
o últim o prazer que o passar dos anos nos rouba. O calor natural, dizem os
bons com panheiros, chega prim eiram ente aos pés: esse está ligado à nossa
infância. Daí sobe para o m eio do corpo, onde se instala por m uito tem po e
produz, a m eu ver, os únicos verdadeiros prazeres da vida corporal: em
com paração, os outros prazeres ficam adorm ecidos. No fim , qual um vapor
que vai subindo e evaporando, chega à garganta, onde faz sua últim a pausa.
Não consigo, porém , com preender com o se consegue prolongar o prazer de
beber além da sede e forj ar na im aginação um apetite artificial e antinatural.
Meu estôm ago não chegaria a esse ponto: j á está bastante ocupado em dar
conta do que absorve para suas necessidades. Minha constituição é de só fazer caso da bebida para com pletar a com ida, e por isso sem pre o últim o
gole que bebo é o m aior. E porque na velhice nosso palato parece suj o pelo
resfriado ou alterado por algum a outra indisposição, o vinho nos parece
m elhor na m edida em que abrim os e lavam os nossas papilas. Pelo m enos é
raro m e acontecer de sentir bem seu gosto na prim eira vez. Anarcase
espantava-se que os gregos bebessem no fim da refeição em copos m aiores
que no com eço. É, com o penso, pela m esm a razão que os alem ães o fazem ,
com eçando então os desafios de quem bebe m ais. Platão proíbe as crianças
de beberem vinho antes dos dezoito anos e de se em briagarem antes dos
quarenta. Mas aos que passaram dos quarenta ele perdoa que se deleitem
assim e que levem am plam ente a seus convivas a influência de Dioniso, esse
bom deus que devolve aos hom ens a alegria, e a j uventude aos velhos, que
suaviza e am olece as paixões da alm a, assim com o o fogo am olece o ferro. E
nas suas Leis considera úteis tais assem bleias onde se bebe (contanto que no
grupo haj a um chefe para contê-las e regulam entá-las), pois a em briaguez é
um a prova boa e segura da natureza de cada um , ao m esm o tem po que é
capaz de dar às pessoas de idade a coragem de se divertirem em danças e
na m úsica, coisas úteis e que não ousam em preender em estado norm al. Pois
o vinho é capaz de fornecer à alm a tem perança, e ao corpo, saúde. Contudo,
ele aprecia essas restrições, em parte adotadas dos cartagineses: que se
evite vinho em expedição de guerra; que todo m agistrado e todo j uiz dele se
abstenham quando prestes a executar seu ofício e deliberar sobre os
negócios públicos; que a ele não se dedique o dia, tem po devido a outras ocupações, nem a noite que for destinada a gerar filhos. Dizem que o filósofo
Estilpo, prostrado pela velhice, apressou seu fim cientem ente bebendo vinho
puro. 237 Causa sem elhante, m as não por desej o próprio, sufocou tam bém as forças prostradas pela idade do filósofo Arcesilau. Mas é um a velha e
divertida questão saber se a alm a do sábio seria capaz de sucum bir à força do vinho,
Si munitae adhibet vim sapientiae. 238
Se este pode reprim ir um a virtude bem fortificada.
A que grau de vaidade nos leva essa boa opinião que tem os de nós m esm os!
A alm a m ais bem regrada do m undo e a m ais perfeita j á tem m uito o que fazer
para se m anter de pé e evitar que desm orone por sua própria fraqueza. De
m il, não há só um a que sej a tão reta e estável um só instante da vida, e até se
pode duvidar que, devido à sua condição natural, algum dia possa ser assim .
Mas j untar-lhe a constância seria sua perfeição extrem a, quero dizer, quando
nada a abalasse, o que m il acontecim entos podem fazer. Lucrécio, esse
grande poeta, por m ais que tenha filosofado e resistido, ei-lo entregue à
insensatez por um a poção de am or. Pensam eles que um a apoplexia não pode
fazer Sócrates perder a consciência, tanto quanto a um carregador? Uns
esqueceram o próprio nom e pela força de um a doença e outros tiveram o
j uízo destruído por um ferim ento leve. Um hom em é tão sábio quanto quiser,
m as é, afinal, um hom em : o que há de m ais fraco, m ais m iserável, m ais
insignificante? A sabedoria não fortalece nossas disposições naturais.
Sudores itaque et pallorem existere toto
Corpore, et infringi linguam, vocemque aboriri, Caligare oculos, sonere aures, succidere artus,
Denique concidere ex animi terrore videmus. 239
É por isso que vem os os suores e a palidez tom arem todo o corpo, a
língua se em baraçar, a voz não m ais sair, os olhos obscurecerem , as
orelhas tilintarem , os m em bros vergarem e, enfim , tudo desabar sob o
efeito do terror que se apodera do espírito.
Diante do golpe que o am eaça, ele tem de piscar os olhos; na beira do
precipício, tem de estrem ecer com o um a criança, pois a natureza desej ou
reservar-se esses ligeiros sinais de sua autoridade, inexpugnáveis para nossa
razão e para a virtude estoica, a fim de ensinar ao hom em sua m ortalidade e
nossa fraqueza. Ele estrem ece diante do m edo, enrubesce diante da
vergonha, gem e diante da cólica, se não com um a voz desesperada e
estrondosa, ao m enos com um a voz alquebrada e rouca.
Humani a se nihil alienum putet.240
Que ele pense que nada que é hum ano lhe sej a alheio.
Os poetas que tudo inventam a seu m odo não ousam ao m enos dispensar das
lágrim as os seus heróis:
Sic fatur lacrymans, classique immittit habenas. 241
Assim fala ele chorando, e faz sua frota içar as velas.
Que lhe baste refrear e m oderar suas inclinações, pois im pedi-las não está em
seu poder. Esse m esm o nosso Plutarco, tão perfeito e excelente j uiz das
ações hum anas, ao ver Bruto e Torquato m atarem os filhos ficou em dúvida se
a virtude podia chegar a esse ponto, ou se aqueles personagens não teriam , antes, sido m ovidos por algum a outra paixão. Todas as ações fora dos lim ites
habituais estão suj eitas a um a sinistra interpretação, porquanto nosso gosto
não se adapta nem ao que está acim a dele nem ao que está abaixo.
Deixem os essa outra escola que professa expressam ente o orgulho. 242 Mas quando na própria escola considerada a m ais indulgente ouvim os essas
bazófias de Metrodoro: Occupavi te, Fortuna, atque cepi: omnesque aditus
tuos interclusi, ut ad me aspirare non posses; 243Antecipei-te, Fortuna, e agarro-te; fechei todos os acessos e não podes m ais chegar a m im ;] quando
Anaxarco, por ordem de Nicocreonte, tirano de Chipre, posto num a tina de
pedra e abatido a golpes de m aça de ferro, não para de dizer: “Batei, quebrai,
não é Anaxarco, é seu invólucro que estais esm agando”; quando ouvim os
nossos m ártires gritarem ao tirano, no m eio das cham as: “Está bastante
assado deste lado: corta-o, com e-o, está cozido, recom eça do outro”; quando
ouvim os em Josefo aquela criança toda dilacerada pelas tenazes que m ordem
e perfurada pelas sovelas de Antíoco, ainda desafiá-lo, gritando com voz firm e
e segura: “Tirano, perdes tem po, continuo m e sentindo bem ; onde está essa
dor, onde estão essas torturas com que m e am eaçavas? Não conheces tudo
isso? Minha constância te dá m ais trabalho do que tua crueldade dá a m im ; ó
biltre covarde, tu te rendes e eu m e fortaleço; faz que eu m e queixe, faz que
m e vergue, faz que m e renda se puderes, dá coragem a teus guardas e a teus
carrascos, ei-los desprovidos de coragem , não aguentam m ais: arm a-os,
instiga-os”, então certam ente devem os adm itir que nessas alm as há algum a
alteração e algum furor, por m ais santo que sej a. Quando chegam os a esses
arroubos estoicos, “prefiro ser louco a voluptuoso”, palavras de Antístenes,
Mανειεῖν μᾶλλον ἡ ἡθείειν244 quando Sexto nos diz que prefere ser trespassado pelo ferro da dor a sê-lo pela volúpia; quando Epicuro decide ser
afagado pela gota e, recusando o repouso e a saúde, desafia de coração
alegre os m ales, e desprezando as dores m ais agudas, desprezando
com batê-las e lutar contra elas, conclam a e desej a dores fortes, lancinantes e
dignas dele:
Spumantemque dari pecora inter inertia votis
Optat aprum, aut fulvum descendere monte leonem, 245
Ele convoca com seus votos um j avali espum ando entre os rebanhos
tím idos, ou que um leão fulvo desça da m ontanha,
então quem não conclui que são arroubos lançados por um coração longe de
seu abrigo? Nossa alm a não conseguiria atingir tal altura enquanto não sai de
seu lugar. Ela tem de deixá-lo e elevar-se, e, pegando o freio nos dentes, que
leve e arrebate seu hom em para tão longe que, depois, ele m esm o se espante
do que fez. Com o nas façanhas da guerra, o calor do com bate costum a
im pelir os soldados coraj osos a passar por lugares tão arriscados que,
voltando a si, são os prim eiros a ficar transidos de espanto. Com o tam bém os
poetas costum am ser tom ados de adm iração por suas próprias obras e j á não
reconhecem o rastro por onde passaram em tão bela corrida: é o que neles
tam bém se cham a ardor e loucura. E assim com o diz Platão que em vão um
hom em equilibrado bate à porta da poesia, assim tam bém diz Aristóteles que
nenhum a alm a excelente está isenta de um grão de loucura. E tem razão de
cham ar de loucura qualquer arroubo, por m ais louvável que sej a, que
ultrapasse nosso próprio j ulgam ento e raciocínio, porquanto a sabedoria é um controle bem regulado de nossa alm a, conduzido, sob sua responsabilidade,