Os Ensaios

Michel de Montaigne · Capítulo 26 de 33

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Os Ensaios

Sobre três boas esposas

em parelhar tal grego a tal rom ano, j á que haveria outros m ais parecidos para

em parelhá-los e m ais adequados a um a com paração.

Sobre três boas esposas

Capítulo XXXV

Uma longa tradição da crítica quis ver neste capítulo a expressão de um

ressentimento conjugal de Montaigne, que aqui deploraria em termos

pessoais, embora velados, os dissabores do próprio casamento. Na verdade

o capítulo inscreve-se na arraigada tradição literária de misoginia, ou melhor,

de crítica ao casamento, ilustrada em especial no tratado de Jean de

Marconville, De l’heur et malheur de mariage, ensemble les loix connubiales

de Plutarque (1564). Montaigne renova a argumentação evocando três

exemplos de virtude feminina, paradoxais neste contexto. O capítulo se

destaca, sobretudo, por fazer uma brilhante celebração de mulheres fortes,

tradição que datava igualmente da Antiguidade. Termina com o relato da

morte de Sêneca e suas considerações sobre o heroísmo estoico que podia

haver no casamento. Também ilustra, mais genericamente, a vitória de um

heroísmo interiorizado, feito basicamente de moderação.

Não há dúzias delas, com o todos sabem , e notadam ente quanto aos deveres

do casam ento, pois é um negócio cheio de tantas circunstâncias espinhosas

que é difícil a boa vontade de um a m ulher se m anter intacta por m uito tem po.

Até os hom ens, em bora sua situação sej a um pouco m elhor, têm aí m uito que

fazer. A pedra de toque de um bom casam ento, e sua verdadeira prova,

refere-se ao tem po em que essa associação dura; e se foi constantem ente doce, leal e agradável. Em nosso século, m ais com um ente elas preferem

m ostrar seus bons ofícios e a veem ência de seu am or quando os m aridos j á

estão m ortos: então, procuram pelo m enos dar prova de sua boa vontade.

Tardia prova, e fora de época. Com isso, m ais dem onstram que só os am am

m ortos. A vida é cheia de m aterial inflam ável, a m orte, de am or e cortesia.

Assim com o os pais escondem o am or pelos filhos para se m anterem

honrados e respeitados, de bom grado elas escondem o seu pelo m arido.

Esse m istério não é de m eu gosto. Por m ais que se descabelem e se

arranhem , vej o-m e ao ouvido de um a cam areira ou de um secretário: “Com o

eles eram ? Com o viveram j untos?”. Sem pre m e lem bro desta tirada: jactantius

moerent, quae minus dolent. 295elas choram com m ais ostentação quanto m enos sentem tristeza.] Suas choradeiras são odiosas para os vivos e inúteis

para os m ortos; perm itirem os com gosto que riam depois, contanto que riam

para nós durante a vida. Não é para ressuscitar de raiva se quem tiver m e

cuspido na cara enquanto eu vivia vier m e esfregar os pés quando eu não

estiver m ais aqui? Se existe certa honra em prantear os m aridos, esta só

pertence àquelas que lhes sorriram ; as que choraram durante a vida deles,

então que riam na m orte, tanto por fora com o por dentro. Assim , não olheis

para aqueles olhos úm idos, para aquela voz triste: olhai para esse porte, essa

tez, essas faces rechonchudas sob os grandes véus: é por aí que elas nos

falam num francês que podem os entender. São poucas as que não vão

m elhorando a saúde, qualidade que não sabe m entir. E essa respeitosa

atitude não se refere tanto ao passado quanto ao futuro, é m ais um ganho que

um a perda. Em m inha infância, um a senhora honesta e m uito bonita, viúva de

um príncipe e ainda viva, tinha em seu traj e um não sei quê a m ais que não é perm itido por nossas regras de viuvez; aos que a criticavam por isso, dizia: “É

que não pratico m ais novas am izades e não tenho vontade de casar de novo”.

Para não ficar inteiram ente em desacordo com nossos costum es, escolhi aqui

três m ulheres que, em torno da m orte dos m aridos, m ostraram a força de sua

bondade e de seu am or; são, porém , exem plos um tanto diversos e tão

prem entes que põem , coraj osam ente, a vida em j ogo. Plínio, o Moço, tinha

perto de um a casa sua na Itália um vizinho trem endam ente atorm entado por

úlceras que haviam surgido nas partes pudendas. Sua m ulher, vendo-o sofrer

por tanto tem po, pediu-lhe para ver de perto e à vontade o estado de seu m al,

pois lhe diria m ais francam ente do que qualquer outro o que ele podia esperar.

Depois de obter isso dele e de exam iná-lo cuidadosam ente, achou que era

im possível que se curasse e que tudo o que podia esperar era arrastar por

m uito tem po um a vida dolorosa e lânguida; assim , aconselhou-o, com o o

rem édio m ais seguro e radical, a m atar-se. E achando-o um pouco m ole para

um a ação tão dura, disse-lhe: “Não penses, m eu am igo, que as dores que te

vej o sofrer não m e afetam tanto quanto a ti, e que para m e livrar delas eu

m esm a não queira m e servir desse rem édio que te receito. Quero

acom panhar-te na cura com o o fiz na doença; esquece esse tem or e pensa

que só terem os prazer nessa passagem que deve nos livrar de tais torm entos:

partirem os felizes, j untos”. Dito isso, e tendo aquecido a coragem do m arido,

resolveu que se j ogariam no m ar por um a j anela da casa que dava para lá. E a

fim de m anter até o fim esse am or leal e veem ente com que o cercara em vida, ainda quis que ele m orresse em seus braços; m as, tem endo que estes

lhe falhassem e que o aperto de seus abraços afrouxasse pela queda e pelo

m edo, atou-se e am arrou-se bem estreitam ente a ele, pela cintura, e assim

abandonou a vida, para o repouso da vida do m arido. Essa esposa era de

classe baixa, e entre pessoas de tal condição não é tão novidade assim ver

um traço de rara bondade,

extrema per illos

Justitia excedens terris vestigia fecit.296

a j ustiça, ao deixar a terra, deixou seus últim os vestígios entre essas

pessoas.

As duas outras são nobres e ricas, entre as quais os exem plos de virtude

raram ente se aloj am . Árria, m ulher de Cecina Peto, personagem consular, foi

m ãe de outra Árria, m ulher de Trásea Peto, cuj a virtude foi tão fam osa no

tem po de Nero; e através desse genro era avó de Fânia. A sem elhança dos

nom es e dos destinos desses hom ens e m ulheres fez m uitos se equivocarem .

Quando Cecina Peto foi preso pela gente do im perador Cláudio, depois da

derrota de Escriboniano, cuj a facção ele apoiara, sua m ulher, aquela prim eira

Árria, suplicou aos que o levavam com o prisioneiro a Rom a que a recebessem

no navio, onde ela lhes seria m uito m enos incôm oda e dispendiosa do que o

núm ero de pessoas de que precisariam para o serviço de seu m arido, pois ela

sozinha se ocuparia de seu quarto, sua cozinha e todos os outros afazeres.

Recusaram -na. E ela, tendo se j ogado num barco de pescador que alugou

im ediatam ente, seguiu-o assim desde a Esclavônia. Quando chegaram a Rom a, um dia, em presença do im perador, Júnia, viúva de Escriboniano,

aproxim ou-se dela com intim idade, por causa da sem elhança de seus

destinos, m as esta a rechaçou rudem ente com as palavras: “Eu, falar contigo,

escutar-te, a ti, em cuj o colo Escriboniano foi m orto? E ainda vives?”. Essas

palavras e vários outros sinais levaram seus parentes a com preender que ela

m esm a, incapaz de suportar o destino do m arido, estava decidida a se m atar.

E diante dessas palavras Trásea, seu genro, suplicou-lhe que não se m atasse,

dizendo-lhe assim : “O quê? Se eu tivesse o m esm o destino de Cecina,

gostaríeis que m inha m ulher, vossa filha, fizesse o m esm o?”. “Com o assim ?

Se eu gostaria?”, ela respondeu: “Sim , sim , gostaria se ela tivesse vivido tanto

tem po e em tanta harm onia contigo com o vivi com m eu m arido”. Essas

respostas aum entavam a preocupação que tinham com ela e faziam que

olhassem de m ais perto seu com portam ento. Um dia, disse aos que a

guardavam : “Por m ais que façais, podeis m e fazer m orrer de m odo pior, m as

não conseguiríeis m e im pedir de m orrer”. E lançando-se furiosam ente de um a

cadeira onde estava sentada, foi com toda a força bater a cabeça na parede

vizinha, e com esse golpe caiu no chão, desm aiada e m uito ferida. Depois que

a m uito custo a fizeram voltar a si, disse: “Eu bem vos disse que se m e

recusásseis um m odo fácil de m e m atar eu escolheria outro, por m ais

com plicado que fosse”. O fim de tão adm irável virtude foi assim : por si m esm o

seu m arido Peto não tinha a coragem bastante firm e para m atar-se, o que a

crueldade do im perador o obrigava a fazer. Certo dia, depois de

prim eiram ente em pregar os argum entos e as exortações adequadas ao conselho que lhe dava nesse sentido, ela pegou o punhal que o m arido portava

e, segurando-o firm e na m ão, disse com o conclusão à exortação: “Faz assim ,

Peto”. E, no m esm o instante, dando-se um golpe m ortal no estôm ago, e

depois arrancando do ferim ento o punhal, apresentou-o a ele, encerrando sua

vida com estas palavras nobres, generosas e im ortais: Paete, non

dolet. 297Peto, não dói.] Só teve tem po de dizer essas três palavras de um a bela substância: “Tom a, Peto, ele não m e doeu”.

Casta suo gladium cum traderet Arria Paeto,

Quem de visceribus traxerat ipsa suis:

Si qua fides, vulnus quod feci, non dolet, inquit,

Sed quod tu facies, id mihi Paete dolet. 298

Quando a casta Árria apresentou a seu querido Peto o gládio que retirara

das próprias entranhas, ela lhe disse: “Crê em m im , o golpe que m e dei

não m e doeu, m as o que te darás, Peto, este m e doerá”.

Essas palavras são bem m ais vivas e têm um sentido m ais rico no original,299

pois nem a ferida nem a m orte do m arido, nem as suas próprias, podiam ser

dolorosas para ela, que fora a conselheira e prom otora de tudo; m as tendo

tom ado essa iniciativa altam ente coraj osa apenas para o bem do m arido, foi

ainda com ele que se preocupou no últim o ato de sua vida, ao retirar-lhe o

m edo de segui-la na m orte. Peto logo se golpeou com o m esm o gládio,

envergonhado, a m eu ver, de ter precisado de um a lição tão cara e preciosa.

Pom peia Paulina, j ovem rom ana e dam a m uito nobre, casara-se com Sêneca

em sua extrem a velhice. Nero, o belo discípulo deste, enviou seus guardas

para anunciar-lhe o decreto de sua condenação à m orte, o que se fazia da seguinte m aneira: quando os im peradores rom anos dessa época tinham

condenado um hom em de qualidade, despachavam -lhe seus oficiais para que

escolhesse a m orte de sua preferência e vissem se ela acontecia em tal ou

qual prazo, prescrito de acordo com o grau de sua cólera, ora m ais curto, ora

m ais longo; davam -lhe assim um prazo para cuidar, enquanto isso, de seus

negócios, e às vezes retirando-lhe o m eio de fazê-lo pela brevidade do tem po;

e se o condenado resistisse à ordem , enviavam pessoas capazes de executá-

lo cortando-lhe as veias dos braços e das pernas ou fazendo-o engolir veneno

à força. Mas as pessoas honradas não esperavam esse extrem o e serviam -se

para tal fim dos próprios m édicos e cirurgiões. Sêneca ouviu a acusação com

um rosto tranquilo e firm e e depois pediu papel para fazer seu testam ento, o

que lhe foi recusado pelo capitão. Então virou-se para os am igos e disse: “Já

que não posso deixar-vos outra coisa com o reconhecim ento do que vos devo,

deixo-vos ao m enos o que tenho de m ais belo, a saber, a im agem de m eu

com portam ento e de m inha vida, a qual vos peço que conserveis em vossa

m em ória a fim de que, fazendo isso, adquirais a reputação de sinceros e

verdadeiros am igos”. E, ao m esm o tem po, ora acalm ava com palavras doces

a agrura da dor que os via sofrer, ora endurecia a voz para repreendê-los por

isso: “Onde estão”, dizia, “aqueles belos preceitos da filosofia? Que fim

levaram as provisões que por tantos anos fizem os contra os acasos do

destino? A crueldade de Nero era-nos desconhecida? Que podíam os esperar

daquele que m atara a m ãe e o irm ão, a não ser que tam bém fizesse m orrer o preceptor que o criou e educou?”. Depois de dizer essas palavras a todos,

virou-se para sua m ulher e, abraçando-a estreitam ente, quando pelo peso da

dor seu coração e suas forças desfaleciam , pediu-lhe que suportasse com um

pouco m ais de coragem , por am or a ele, esse infortúnio; e que chegara a hora

em que ele devia m ostrar, não m ais por argum entos e debates, m as por atos,

o fruto que tirara de seus estudos; e que sem a m enor dúvida ele abraçava a

m orte não só sem dor m as com alegria. “Por isso, m inha am iga”, disse, “não a

desonres com tuas lágrim as, a fim de que não pareça que am as m ais a ti

m esm a que à m inha reputação: acalm a tua dor e consola-te no conhecim ento

que tiveste de m im e de m inhas ações, prosseguindo no resto de tua vida as

honestas ocupações a que te dedicas.” Ao que, tendo recuperado um pouco

de ânim o e reforçado a m agnanim idade de seu coração por seu m ais nobre

afeto, Paulina respondeu: “Não, Sêneca, não sou alguém de deixar-vos sem

m inha com panhia em tal circunstância; não quero que penseis que os virtuosos

exem plos de vossa vida ainda não m e ensinaram a saber m orrer bem ; e

quando eu o poderia m elhor fazê-lo, m ais honestam ente e m ais a m eu grado,

senão convosco? Assim , considerai que partirei ao m esm o tem po que vós”.

Então Sêneca, apreciando um a decisão tão bela e gloriosa de sua m ulher, e

tam bém para se livrar do m edo de deixá-la depois de sua m orte à m ercê e

subm etida à crueldade dos inim igos, disse: “Aconselhei-te, Paulina, sobre o

que serviria para conduzir tua vida com m ais ventura. Preferes a honra da

m orte: realm ente não m e oporei a isso; que a constância e a resolução sej am

parecidas em nosso fim com um , m as que a beleza e a glória sej am m aiores

de tua parte”. Feito isso, cortaram -lhes ao m esm o tem po as veias dos braços;

m as porque as de Sêneca, endurecidas tanto pela velhice com o por seu j ej um , davam ao sangue um a circulação m uito lenta e m uito fraca, ele m andou que

lhe cortassem tam bém as veias das coxas; e de m edo que o torm ento que

isso lhe causava enternecesse o coração da m ulher, e tam bém para se

libertar ele m esm o da aflição que sentia ao vê-la em tão lastim ável estado,

depois de se despedir dela m uito am orosam ente pediu-lhe que perm itisse que

a levassem para o quarto vizinho, o que foi feito. Mas com o todas aquelas

incisões ainda foram insuficientes para fazê-lo m orrer, pediu a Estácio Aneu,

seu m édico, que lhe desse um a bebida com veneno; que tam pouco fez efeito,

pois não conseguiu chegar ao coração devido à fraqueza e frieza dos

m em bros. Assim , prepararam -lhe, adem ais, um banho m uito quente. E quando

sentiu o fim próxim o, enquanto teve fôlego continuou os excelentes discursos

sobre o estado em que se encontrava, que seus secretários recolheram

enquanto conseguiram ouvir sua voz; e suas derradeiras palavras

perm aneceram m uito tem po depois, com crédito e honra, nas m ãos dos

hom ens (é um a perda m uito lam entável que não tenham chegado a nós).

Com o ele sentisse as derradeiras agonias da m orte, pegou a água do banho

toda ensanguentada e m olhou a cabeça dizendo: “Dedico esta água a Júpiter,

o libertador”. Avisado de tudo isso e tem endo que lhe criticassem a m orte de

Paulina, que era das senhoras rom anas m ais bem aparentadas e contra a qual

ele não tinha nenhum a inim izade particular, Nero m andou com toda a presteza

que lhe suturassem os ferim entos, o que sua gente fez sem que ela soubesse,

pois j á estava sem im orta e sem consciência. E, contra a sua vontade, viveu

depois m uito honradam ente e de acordo com sua virtude, m ostrando pela cor pálida do rosto o quanto de sua vida se escoara por seus ferim entos. Eis

m inhas três histórias m uito verídicas, que acho tão belas e trágicas com o as

que inventam os a esse respeito para agradar ao público; e espanta-m e que os

que se dedicam a isso não pensem de preferência em escolher algum as assim

entre 10 m il histórias belíssim as que se encontram nos livros, pois teriam

m enos trabalho e tirariam m ais prazer e proveito. E quem quisesse construir

um a só obra interligada, teria apenas que fornecer de seu as transições, com o

a solda de um m etal com outro; e por esse m eio poderia com pilar

acontecim entos m uito verdadeiros de toda espécie, dispondo-os e

diversificando-os conform e as exigências da beleza da obra, m ais ou m enos

com o Ovídio costurou e arrum ou suas Metamorfoses com um grande núm ero

de fábulas diversas. Nesse últim o casal, ainda é digno de ser considerado que

Paulina oferece de bom grado deixar a vida por am or ao m arido, e que o

m arido outrora deixara a m orte por am or a ela. Não há para nós grande

equivalência nessa troca, m as segundo seu hum or estoico creio que ele

pensava ter feito tanto pela m ulher ao prolongar a vida em benefício dela

com o se tivesse m orrido por ela. Em um a das cartas que escreveu a Lucílio,

depois de lhe contar com o, ao ser tom ado pela febre em Rom a, subiu

prontam ente no coche para ir a um a de suas casas no cam po, contra a

opinião da m ulher, que quis retê-lo; e com o lhe respondera que a febre que

tinha não era febre física m as geográfica, prosseguiu assim : “Ela m e deixou ir

m as m e fazendo m uitas recom endações sobre m inha saúde. Ora, eu, que sei

que aloj o toda a sua vida na m inha, cuido prim eiro de m im para cuidar dela; o privilégio que m inha velhice m e dera, tornando-m e m ais firm e e m ais decidido

para várias coisas, perco-o quando m e lem bro que neste velho há um a j ovem

a quem sou necessário. Já que não posso levá-la a am ar-m e m ais

coraj osam ente, ela m e leva a am ar a m im m esm o m ais cuidadosam ente; pois

é preciso conceder algum a coisa às afeições verdadeiras, e às vezes, em bora

as ocasiões nos pressionem em sentido contrário, é preciso reconvocar a

vida, m esm o no torm ento; é preciso reter a alm a entre os dentes pois, para as pessoas de bem , a lei da vida não é ‘tanto quanto lhes apraz’ m as ‘tanto

quanto devem ’. Quem não estim a tanto sua m ulher ou um am igo para

prolongar a própria vida e obstina-se em m orrer é delicado e fraco dem ais; a

alm a precisa se im por a isso quando o interesse dos nossos exige; às vezes

devem os dedicar-nos a nossos am igos, e, quando quiséssem os m orrer por

nós, interrom per, por eles, nosso desígnio. É prova de grandeza de coração

retornar à vida em consideração a outro, com o fizeram vários e excelentes

personagens. E é um sinal de bondade singular preservar a velhice (cuj a m aior

vantagem é a indiferença diante de sua duração, e um uso da vida m ais

coraj oso e desdenhoso) se sentim os que esse dever é doce, agradável e

proveitoso para alguém m uito afeiçoado a nós. E recebem os um a recom pensa

m uito agradável, pois o que há de m ais delicioso do que ser tão querido à sua

m ulher que, em consideração a ela, nos tornam os m ais queridos a nós

m esm os? Assim , m inha Paulina com unicou-m e não só seu tem or m as tam bém

o m eu. Não m e foi suficiente considerar quão resolutam ente eu poderia

m orrer, m as tam bém considerei quão irresolutam ente ela poderia suportá-lo.

Obriguei-m e a viver e, às vezes, viver é m agnanim idade”. Eis suas palavras,