Os Ensaios
Sobre três boas esposas
em parelhar tal grego a tal rom ano, j á que haveria outros m ais parecidos para
em parelhá-los e m ais adequados a um a com paração.
Sobre três boas esposas
Capítulo XXXV
Uma longa tradição da crítica quis ver neste capítulo a expressão de um
ressentimento conjugal de Montaigne, que aqui deploraria em termos
pessoais, embora velados, os dissabores do próprio casamento. Na verdade
o capítulo inscreve-se na arraigada tradição literária de misoginia, ou melhor,
de crítica ao casamento, ilustrada em especial no tratado de Jean de
Marconville, De l’heur et malheur de mariage, ensemble les loix connubiales
de Plutarque (1564). Montaigne renova a argumentação evocando três
exemplos de virtude feminina, paradoxais neste contexto. O capítulo se
destaca, sobretudo, por fazer uma brilhante celebração de mulheres fortes,
tradição que datava igualmente da Antiguidade. Termina com o relato da
morte de Sêneca e suas considerações sobre o heroísmo estoico que podia
haver no casamento. Também ilustra, mais genericamente, a vitória de um
heroísmo interiorizado, feito basicamente de moderação.
Não há dúzias delas, com o todos sabem , e notadam ente quanto aos deveres
do casam ento, pois é um negócio cheio de tantas circunstâncias espinhosas
que é difícil a boa vontade de um a m ulher se m anter intacta por m uito tem po.
Até os hom ens, em bora sua situação sej a um pouco m elhor, têm aí m uito que
fazer. A pedra de toque de um bom casam ento, e sua verdadeira prova,
refere-se ao tem po em que essa associação dura; e se foi constantem ente doce, leal e agradável. Em nosso século, m ais com um ente elas preferem
m ostrar seus bons ofícios e a veem ência de seu am or quando os m aridos j á
estão m ortos: então, procuram pelo m enos dar prova de sua boa vontade.
Tardia prova, e fora de época. Com isso, m ais dem onstram que só os am am
m ortos. A vida é cheia de m aterial inflam ável, a m orte, de am or e cortesia.
Assim com o os pais escondem o am or pelos filhos para se m anterem
honrados e respeitados, de bom grado elas escondem o seu pelo m arido.
Esse m istério não é de m eu gosto. Por m ais que se descabelem e se
arranhem , vej o-m e ao ouvido de um a cam areira ou de um secretário: “Com o
eles eram ? Com o viveram j untos?”. Sem pre m e lem bro desta tirada: jactantius
moerent, quae minus dolent. 295elas choram com m ais ostentação quanto m enos sentem tristeza.] Suas choradeiras são odiosas para os vivos e inúteis
para os m ortos; perm itirem os com gosto que riam depois, contanto que riam
para nós durante a vida. Não é para ressuscitar de raiva se quem tiver m e
cuspido na cara enquanto eu vivia vier m e esfregar os pés quando eu não
estiver m ais aqui? Se existe certa honra em prantear os m aridos, esta só
pertence àquelas que lhes sorriram ; as que choraram durante a vida deles,
então que riam na m orte, tanto por fora com o por dentro. Assim , não olheis
para aqueles olhos úm idos, para aquela voz triste: olhai para esse porte, essa
tez, essas faces rechonchudas sob os grandes véus: é por aí que elas nos
falam num francês que podem os entender. São poucas as que não vão
m elhorando a saúde, qualidade que não sabe m entir. E essa respeitosa
atitude não se refere tanto ao passado quanto ao futuro, é m ais um ganho que
um a perda. Em m inha infância, um a senhora honesta e m uito bonita, viúva de
um príncipe e ainda viva, tinha em seu traj e um não sei quê a m ais que não é perm itido por nossas regras de viuvez; aos que a criticavam por isso, dizia: “É
que não pratico m ais novas am izades e não tenho vontade de casar de novo”.
Para não ficar inteiram ente em desacordo com nossos costum es, escolhi aqui
três m ulheres que, em torno da m orte dos m aridos, m ostraram a força de sua
bondade e de seu am or; são, porém , exem plos um tanto diversos e tão
prem entes que põem , coraj osam ente, a vida em j ogo. Plínio, o Moço, tinha
perto de um a casa sua na Itália um vizinho trem endam ente atorm entado por
úlceras que haviam surgido nas partes pudendas. Sua m ulher, vendo-o sofrer
por tanto tem po, pediu-lhe para ver de perto e à vontade o estado de seu m al,
pois lhe diria m ais francam ente do que qualquer outro o que ele podia esperar.
Depois de obter isso dele e de exam iná-lo cuidadosam ente, achou que era
im possível que se curasse e que tudo o que podia esperar era arrastar por
m uito tem po um a vida dolorosa e lânguida; assim , aconselhou-o, com o o
rem édio m ais seguro e radical, a m atar-se. E achando-o um pouco m ole para
um a ação tão dura, disse-lhe: “Não penses, m eu am igo, que as dores que te
vej o sofrer não m e afetam tanto quanto a ti, e que para m e livrar delas eu
m esm a não queira m e servir desse rem édio que te receito. Quero
acom panhar-te na cura com o o fiz na doença; esquece esse tem or e pensa
que só terem os prazer nessa passagem que deve nos livrar de tais torm entos:
partirem os felizes, j untos”. Dito isso, e tendo aquecido a coragem do m arido,
resolveu que se j ogariam no m ar por um a j anela da casa que dava para lá. E a
fim de m anter até o fim esse am or leal e veem ente com que o cercara em vida, ainda quis que ele m orresse em seus braços; m as, tem endo que estes
lhe falhassem e que o aperto de seus abraços afrouxasse pela queda e pelo
m edo, atou-se e am arrou-se bem estreitam ente a ele, pela cintura, e assim
abandonou a vida, para o repouso da vida do m arido. Essa esposa era de
classe baixa, e entre pessoas de tal condição não é tão novidade assim ver
um traço de rara bondade,
extrema per illos
Justitia excedens terris vestigia fecit.296
a j ustiça, ao deixar a terra, deixou seus últim os vestígios entre essas
pessoas.
As duas outras são nobres e ricas, entre as quais os exem plos de virtude
raram ente se aloj am . Árria, m ulher de Cecina Peto, personagem consular, foi
m ãe de outra Árria, m ulher de Trásea Peto, cuj a virtude foi tão fam osa no
tem po de Nero; e através desse genro era avó de Fânia. A sem elhança dos
nom es e dos destinos desses hom ens e m ulheres fez m uitos se equivocarem .
Quando Cecina Peto foi preso pela gente do im perador Cláudio, depois da
derrota de Escriboniano, cuj a facção ele apoiara, sua m ulher, aquela prim eira
Árria, suplicou aos que o levavam com o prisioneiro a Rom a que a recebessem
no navio, onde ela lhes seria m uito m enos incôm oda e dispendiosa do que o
núm ero de pessoas de que precisariam para o serviço de seu m arido, pois ela
sozinha se ocuparia de seu quarto, sua cozinha e todos os outros afazeres.
Recusaram -na. E ela, tendo se j ogado num barco de pescador que alugou
im ediatam ente, seguiu-o assim desde a Esclavônia. Quando chegaram a Rom a, um dia, em presença do im perador, Júnia, viúva de Escriboniano,
aproxim ou-se dela com intim idade, por causa da sem elhança de seus
destinos, m as esta a rechaçou rudem ente com as palavras: “Eu, falar contigo,
escutar-te, a ti, em cuj o colo Escriboniano foi m orto? E ainda vives?”. Essas
palavras e vários outros sinais levaram seus parentes a com preender que ela
m esm a, incapaz de suportar o destino do m arido, estava decidida a se m atar.
E diante dessas palavras Trásea, seu genro, suplicou-lhe que não se m atasse,
dizendo-lhe assim : “O quê? Se eu tivesse o m esm o destino de Cecina,
gostaríeis que m inha m ulher, vossa filha, fizesse o m esm o?”. “Com o assim ?
Se eu gostaria?”, ela respondeu: “Sim , sim , gostaria se ela tivesse vivido tanto
tem po e em tanta harm onia contigo com o vivi com m eu m arido”. Essas
respostas aum entavam a preocupação que tinham com ela e faziam que
olhassem de m ais perto seu com portam ento. Um dia, disse aos que a
guardavam : “Por m ais que façais, podeis m e fazer m orrer de m odo pior, m as
não conseguiríeis m e im pedir de m orrer”. E lançando-se furiosam ente de um a
cadeira onde estava sentada, foi com toda a força bater a cabeça na parede
vizinha, e com esse golpe caiu no chão, desm aiada e m uito ferida. Depois que
a m uito custo a fizeram voltar a si, disse: “Eu bem vos disse que se m e
recusásseis um m odo fácil de m e m atar eu escolheria outro, por m ais
com plicado que fosse”. O fim de tão adm irável virtude foi assim : por si m esm o
seu m arido Peto não tinha a coragem bastante firm e para m atar-se, o que a
crueldade do im perador o obrigava a fazer. Certo dia, depois de
prim eiram ente em pregar os argum entos e as exortações adequadas ao conselho que lhe dava nesse sentido, ela pegou o punhal que o m arido portava
e, segurando-o firm e na m ão, disse com o conclusão à exortação: “Faz assim ,
Peto”. E, no m esm o instante, dando-se um golpe m ortal no estôm ago, e
depois arrancando do ferim ento o punhal, apresentou-o a ele, encerrando sua
vida com estas palavras nobres, generosas e im ortais: Paete, non
dolet. 297Peto, não dói.] Só teve tem po de dizer essas três palavras de um a bela substância: “Tom a, Peto, ele não m e doeu”.
Casta suo gladium cum traderet Arria Paeto,
Quem de visceribus traxerat ipsa suis:
Si qua fides, vulnus quod feci, non dolet, inquit,
Sed quod tu facies, id mihi Paete dolet. 298
Quando a casta Árria apresentou a seu querido Peto o gládio que retirara
das próprias entranhas, ela lhe disse: “Crê em m im , o golpe que m e dei
não m e doeu, m as o que te darás, Peto, este m e doerá”.
Essas palavras são bem m ais vivas e têm um sentido m ais rico no original,299
pois nem a ferida nem a m orte do m arido, nem as suas próprias, podiam ser
dolorosas para ela, que fora a conselheira e prom otora de tudo; m as tendo
tom ado essa iniciativa altam ente coraj osa apenas para o bem do m arido, foi
ainda com ele que se preocupou no últim o ato de sua vida, ao retirar-lhe o
m edo de segui-la na m orte. Peto logo se golpeou com o m esm o gládio,
envergonhado, a m eu ver, de ter precisado de um a lição tão cara e preciosa.
Pom peia Paulina, j ovem rom ana e dam a m uito nobre, casara-se com Sêneca
em sua extrem a velhice. Nero, o belo discípulo deste, enviou seus guardas
para anunciar-lhe o decreto de sua condenação à m orte, o que se fazia da seguinte m aneira: quando os im peradores rom anos dessa época tinham
condenado um hom em de qualidade, despachavam -lhe seus oficiais para que
escolhesse a m orte de sua preferência e vissem se ela acontecia em tal ou
qual prazo, prescrito de acordo com o grau de sua cólera, ora m ais curto, ora
m ais longo; davam -lhe assim um prazo para cuidar, enquanto isso, de seus
negócios, e às vezes retirando-lhe o m eio de fazê-lo pela brevidade do tem po;
e se o condenado resistisse à ordem , enviavam pessoas capazes de executá-
lo cortando-lhe as veias dos braços e das pernas ou fazendo-o engolir veneno
à força. Mas as pessoas honradas não esperavam esse extrem o e serviam -se
para tal fim dos próprios m édicos e cirurgiões. Sêneca ouviu a acusação com
um rosto tranquilo e firm e e depois pediu papel para fazer seu testam ento, o
que lhe foi recusado pelo capitão. Então virou-se para os am igos e disse: “Já
que não posso deixar-vos outra coisa com o reconhecim ento do que vos devo,
deixo-vos ao m enos o que tenho de m ais belo, a saber, a im agem de m eu
com portam ento e de m inha vida, a qual vos peço que conserveis em vossa
m em ória a fim de que, fazendo isso, adquirais a reputação de sinceros e
verdadeiros am igos”. E, ao m esm o tem po, ora acalm ava com palavras doces
a agrura da dor que os via sofrer, ora endurecia a voz para repreendê-los por
isso: “Onde estão”, dizia, “aqueles belos preceitos da filosofia? Que fim
levaram as provisões que por tantos anos fizem os contra os acasos do
destino? A crueldade de Nero era-nos desconhecida? Que podíam os esperar
daquele que m atara a m ãe e o irm ão, a não ser que tam bém fizesse m orrer o preceptor que o criou e educou?”. Depois de dizer essas palavras a todos,
virou-se para sua m ulher e, abraçando-a estreitam ente, quando pelo peso da
dor seu coração e suas forças desfaleciam , pediu-lhe que suportasse com um
pouco m ais de coragem , por am or a ele, esse infortúnio; e que chegara a hora
em que ele devia m ostrar, não m ais por argum entos e debates, m as por atos,
o fruto que tirara de seus estudos; e que sem a m enor dúvida ele abraçava a
m orte não só sem dor m as com alegria. “Por isso, m inha am iga”, disse, “não a
desonres com tuas lágrim as, a fim de que não pareça que am as m ais a ti
m esm a que à m inha reputação: acalm a tua dor e consola-te no conhecim ento
que tiveste de m im e de m inhas ações, prosseguindo no resto de tua vida as
honestas ocupações a que te dedicas.” Ao que, tendo recuperado um pouco
de ânim o e reforçado a m agnanim idade de seu coração por seu m ais nobre
afeto, Paulina respondeu: “Não, Sêneca, não sou alguém de deixar-vos sem
m inha com panhia em tal circunstância; não quero que penseis que os virtuosos
exem plos de vossa vida ainda não m e ensinaram a saber m orrer bem ; e
quando eu o poderia m elhor fazê-lo, m ais honestam ente e m ais a m eu grado,
senão convosco? Assim , considerai que partirei ao m esm o tem po que vós”.
Então Sêneca, apreciando um a decisão tão bela e gloriosa de sua m ulher, e
tam bém para se livrar do m edo de deixá-la depois de sua m orte à m ercê e
subm etida à crueldade dos inim igos, disse: “Aconselhei-te, Paulina, sobre o
que serviria para conduzir tua vida com m ais ventura. Preferes a honra da
m orte: realm ente não m e oporei a isso; que a constância e a resolução sej am
parecidas em nosso fim com um , m as que a beleza e a glória sej am m aiores
de tua parte”. Feito isso, cortaram -lhes ao m esm o tem po as veias dos braços;
m as porque as de Sêneca, endurecidas tanto pela velhice com o por seu j ej um , davam ao sangue um a circulação m uito lenta e m uito fraca, ele m andou que
lhe cortassem tam bém as veias das coxas; e de m edo que o torm ento que
isso lhe causava enternecesse o coração da m ulher, e tam bém para se
libertar ele m esm o da aflição que sentia ao vê-la em tão lastim ável estado,
depois de se despedir dela m uito am orosam ente pediu-lhe que perm itisse que
a levassem para o quarto vizinho, o que foi feito. Mas com o todas aquelas
incisões ainda foram insuficientes para fazê-lo m orrer, pediu a Estácio Aneu,
seu m édico, que lhe desse um a bebida com veneno; que tam pouco fez efeito,
pois não conseguiu chegar ao coração devido à fraqueza e frieza dos
m em bros. Assim , prepararam -lhe, adem ais, um banho m uito quente. E quando
sentiu o fim próxim o, enquanto teve fôlego continuou os excelentes discursos
sobre o estado em que se encontrava, que seus secretários recolheram
enquanto conseguiram ouvir sua voz; e suas derradeiras palavras
perm aneceram m uito tem po depois, com crédito e honra, nas m ãos dos
hom ens (é um a perda m uito lam entável que não tenham chegado a nós).
Com o ele sentisse as derradeiras agonias da m orte, pegou a água do banho
toda ensanguentada e m olhou a cabeça dizendo: “Dedico esta água a Júpiter,
o libertador”. Avisado de tudo isso e tem endo que lhe criticassem a m orte de
Paulina, que era das senhoras rom anas m ais bem aparentadas e contra a qual
ele não tinha nenhum a inim izade particular, Nero m andou com toda a presteza
que lhe suturassem os ferim entos, o que sua gente fez sem que ela soubesse,
pois j á estava sem im orta e sem consciência. E, contra a sua vontade, viveu
depois m uito honradam ente e de acordo com sua virtude, m ostrando pela cor pálida do rosto o quanto de sua vida se escoara por seus ferim entos. Eis
m inhas três histórias m uito verídicas, que acho tão belas e trágicas com o as
que inventam os a esse respeito para agradar ao público; e espanta-m e que os
que se dedicam a isso não pensem de preferência em escolher algum as assim
entre 10 m il histórias belíssim as que se encontram nos livros, pois teriam
m enos trabalho e tirariam m ais prazer e proveito. E quem quisesse construir
um a só obra interligada, teria apenas que fornecer de seu as transições, com o
a solda de um m etal com outro; e por esse m eio poderia com pilar
acontecim entos m uito verdadeiros de toda espécie, dispondo-os e
diversificando-os conform e as exigências da beleza da obra, m ais ou m enos
com o Ovídio costurou e arrum ou suas Metamorfoses com um grande núm ero
de fábulas diversas. Nesse últim o casal, ainda é digno de ser considerado que
Paulina oferece de bom grado deixar a vida por am or ao m arido, e que o
m arido outrora deixara a m orte por am or a ela. Não há para nós grande
equivalência nessa troca, m as segundo seu hum or estoico creio que ele
pensava ter feito tanto pela m ulher ao prolongar a vida em benefício dela
com o se tivesse m orrido por ela. Em um a das cartas que escreveu a Lucílio,
depois de lhe contar com o, ao ser tom ado pela febre em Rom a, subiu
prontam ente no coche para ir a um a de suas casas no cam po, contra a
opinião da m ulher, que quis retê-lo; e com o lhe respondera que a febre que
tinha não era febre física m as geográfica, prosseguiu assim : “Ela m e deixou ir
m as m e fazendo m uitas recom endações sobre m inha saúde. Ora, eu, que sei
que aloj o toda a sua vida na m inha, cuido prim eiro de m im para cuidar dela; o privilégio que m inha velhice m e dera, tornando-m e m ais firm e e m ais decidido
para várias coisas, perco-o quando m e lem bro que neste velho há um a j ovem
a quem sou necessário. Já que não posso levá-la a am ar-m e m ais
coraj osam ente, ela m e leva a am ar a m im m esm o m ais cuidadosam ente; pois
é preciso conceder algum a coisa às afeições verdadeiras, e às vezes, em bora
as ocasiões nos pressionem em sentido contrário, é preciso reconvocar a
vida, m esm o no torm ento; é preciso reter a alm a entre os dentes pois, para as pessoas de bem , a lei da vida não é ‘tanto quanto lhes apraz’ m as ‘tanto
quanto devem ’. Quem não estim a tanto sua m ulher ou um am igo para
prolongar a própria vida e obstina-se em m orrer é delicado e fraco dem ais; a
alm a precisa se im por a isso quando o interesse dos nossos exige; às vezes
devem os dedicar-nos a nossos am igos, e, quando quiséssem os m orrer por
nós, interrom per, por eles, nosso desígnio. É prova de grandeza de coração
retornar à vida em consideração a outro, com o fizeram vários e excelentes
personagens. E é um sinal de bondade singular preservar a velhice (cuj a m aior
vantagem é a indiferença diante de sua duração, e um uso da vida m ais
coraj oso e desdenhoso) se sentim os que esse dever é doce, agradável e
proveitoso para alguém m uito afeiçoado a nós. E recebem os um a recom pensa
m uito agradável, pois o que há de m ais delicioso do que ser tão querido à sua
m ulher que, em consideração a ela, nos tornam os m ais queridos a nós
m esm os? Assim , m inha Paulina com unicou-m e não só seu tem or m as tam bém
o m eu. Não m e foi suficiente considerar quão resolutam ente eu poderia
m orrer, m as tam bém considerei quão irresolutam ente ela poderia suportá-lo.
Obriguei-m e a viver e, às vezes, viver é m agnanim idade”. Eis suas palavras,