Os Ensaios

Michel de Montaigne · Capítulo 29 de 33

Páginas do PDF

Os Ensaios

Sobre três relações

provocar todos os dias em vários conhecidos m eus? É um a poderosa doença

e que se espalha natural e im perceptivelm ente. Precisa-se de grande estoque

de esforço e grande precaução para evitar as im perfeições que ela nos

im põe, ou pelo m enos para enfraquecer-lhes o avanço. Sinto que, não

obstante todas as m inhas trincheiras, ela avança sobre m im , pé ante pé.

Resisto tanto quanto posso m as não sei, afinal, aonde m e levará. Sej a com o

for, estou contente que se saiba de onde terei caído.

Sobre três relações

Capítulo III

Este é um dos capítulos mais pessoais da obra. Fala dos três passatempos

favoritos: a conversa com amigos, a companhia de mulheres bonitas e

honestas, se possível inteligentes, e a leitura dos livros. São as três relações

examinadas por Montaigne: formas de convívio social que enriquecem a vida

privada e fazem com que valha a pena viver. Depois da morte de La Boétie,

o grande amigo, as amizades mais correntes não lhe suscitam entusiasmo,

são insípidas. O único adjetivo comum a amigos, mulheres e livros é

honnête (honrado e decente). A relação social ideal engajaria o homem por

inteiro, corpo e alma. Por si só nenhuma dessas três relações responde a

esse objetivo, pois as duas primeiras engajam o corpo e a alma em

proporções muito diferentes, enquanto os livros praticamente não engajam o

corpo. Ele insiste no fato de que a relação sexual é mais que uma

necessidade física e que, portanto, não deve ser mera fome a ser satisfeita

fisicamente sem o envolvimento de faculdades mais elevadas. O fidalgo que

se isolou no alto de sua torre está, porém, pronto para abandonar as delícias da reclusão e cultivar o corpo ou as relações sociais.

Não devem os nos agarrar tão fortem ente a nossos hum ores e

tem peram entos. Nosso principal talento é saber nos adaptarm os a situações

diversas. Viver ligado e subm etido por necessidade a um só m odo de ser é

existir m as não é viver. As m ais belas alm as são as que têm m ais variedade e

flexibilidade. Eis um honroso testem unho do velho Catão: Huic versatile

ingenium sic pariter ad omnia fuit, ut natum ad id unum diceres, quodcumque

ageret. 334Ele tinha um a natureza igualm ente adaptável a tudo: assim , o que fizesse pareceria ter nascido só para aquilo.] Se m e coubesse form ar-m e do

m eu j eito, não haveria nenhum feitio tão bom em que desej asse m e fixar a

ponto de não poder m e desprender dele. A vida é um m ovim ento desigual,

irregular e m ultiform e. Não é ser am igo de si, e m uito m enos senhor de si: é

ser escravo de si, seguir incessantem ente a si m esm o e estar tão preso às

próprias tendências que não sej a possível desviar-se, que não sej a possível

m udá-las. Digo isso agora por não poder facilm ente m e desvencilhar do

desagrado de m inha alm a, j á que ela só sabe se ocupar correntem ente do que

lhe cria dificuldade e só sabe se dedicar a isso de m odo intenso e por inteiro.

Por trivial que sej a o assunto que lhe dão, ela gosta de aum entá-lo e esticá-lo,

até o ponto de precisar tratá-lo com toda a sua força. Por isso, sua

ociosidade é para m im um a ocupação penosa e prej udicial à m inha saúde. A

m aioria dos espíritos precisa de m atéria externa para se desentorpecer e

exercitar-se: o m eu precisa disso m ais para repousar e acalm ar-se, vitia otii

negotio discutienda sunt; 335é preciso expulsar os vícios da inação pela ação;] pois o estudo principal e m ais trabalhoso é estudar a si m esm o. Para ele, os

livros são o gênero de ocupação que o desvia desse estudo. Aos prim eiros

pensam entos que lhe vêm , agita-se e atesta seu vigor em todas as direções;

exerce seu m anej o ora com força, ora com ordem e graça, acalm a-se,

m odera-se e fortifica-se. Tem com que despertar suas faculdades por si

m esm o: a natureza lhe deu, com o a todos, bastante m atéria própria para seu

uso e suficientes assuntos em que pensar e j ulgar. Meditar é um poderoso e

rico estudo para quem sabe exam inar-se e em penhar-se vigorosam ente.

Prefiro form ar m inha alm a a m obiliá-la. Não há ocupação m ais fraca nem m ais forte que a de entreter os próprios pensam entos, dependendo de com o for a

alm a. As m aiores fazem disso sua vocação, quibus vivere est cogitare. 336para elas viver é cogitar.] Pois a natureza favoreceu a alm a com esse privilégio:

não há nada que possam os fazer tanto tem po, nem ação a que nos

dediquem os m ais corrente e facilm ente. É a tarefa dos deuses, diz Aristóteles,

da qual nasce tanto sua beatitude com o a nossa. A leitura m e serve em

especial para despertar, por obj etos diversos, m inha reflexão; para fazer

trabalhar m eu j ulgam ento, não m inha m em ória. Portanto, sem vigor e sem

esforço poucas conversações m e prendem ; é verdade que a graça e a beleza

m e preenchem e m e ocupam tanto ou m ais que o peso e a profundidade. E

com o cochilo em qualquer outra conversa, a que só em presto a casca de

m inha atenção, volta e m eia m e ocorre, nesse tipo de conversas rasas e

inconsistentes, conversas convencionais, dizer e responder devaneios e tolices

indignos de um a criança e ridículos, ou m anter-m e obstinadam ente em

silêncio, de um m odo ainda m ais inepto e descortês. Tenho um j eito sonhador que m e leva a retirar-m e em m im m esm o, e, por outro lado, um a ignorância

pesada e pueril sobre várias coisas com uns. Por causa dessas duas

particularidades, consegui que cinco ou seis histórias verdadeiras sej am

contadas a m eu respeito, tão bobas quanto as de qualquer outro, sej a quem

for. Ora, retom ando m eu propósito, esse tem peram ento difícil torna-m e

delicado para o convívio com os hom ens; preciso selecioná-los a dedo, e

sinto-m e incôm odo para as atividades correntes. Vivem os e negociam os com

o povo: se sua conversa nos im portuna, se nos repugna dedicarm o-nos às

alm as baixas e vulgares, e as baixas e vulgares costum am ser tão regradas

com o as m ais sutis (e todo saber que não se adapta à insipiência com um é

insípido), não devem os m ais cuidar de nossos próprios negócios nem dos de

outros, pois tanto os públicos com o os privados nos envolvem com essas

pessoas. Os m ais belos aspectos de nossa alm a são os m enos tensos e m ais

naturais; as m elhores ocupações, as m enos forçadas. Meu Deus, com o a

sabedoria presta um bom serviço àqueles em quem subordina os desej os às

suas capacidades! Não há conhecim ento m ais útil. “Conform e se pode”, era o

refrão e a frase favorita de Sócrates. Frase de grande substância: precisam os

encam inhar e fixar nossos desej os nas coisas m ais fáceis e próxim as. Não é

um a tola atitude discordar de m il pessoas a quem m eu acaso m e j unta, e as

quais não posso dispensar, para ater-m e a um a ou duas que estão fora de

m eu convívio? Ou m elhor, a um desej o fantasioso de coisa que não posso

realizar? Meu caráter suave, inim igo de qualquer azedum e e aspereza, pode

facilm ente ter m e preservado das invej as e inim izades. De ser am ado, não digo, m as de não ser odiado nunca um hom em deu m ais ocasião. Mas a frieza de m inha conversa furtou-m e com razão a benevolência de vários, que são

desculpáveis por interpretá-la em outro e pior sentido. Sou m uito capaz de

adquirir e m anter am izades raras e requintadas. É por isso que m e agarro

com grande apetite às relações pessoais que correspondem a m eu gosto,

avanço, j ogo-m e tão avidam ente que é difícil não m e ligar a elas e causar

im pressão ali onde passo; disso fiz m uitas vezes a feliz experiência. Nas

am izades com uns sou um pouco árido e frio, pois m eu j eito não é natural se

não estiver com as velas a todo o pano. Além do que, tendo m inha sorte m e

exercitado e feito provar na j uventude um a am izade única e perfeita, fez-m e na

verdade desgostar das outras e m arcou dem ais em m inha im aginação que a

am izade é anim al de com panhia, não de rebanho, com o dizia aquele antigo. 337

Tam bém tenho, por natureza, dificuldade em m e com unicar pela m etade, com

dissim ulações e a prudência servil e suspeitosa que nos prescrevem na

conversa com essas am izades num erosas e im perfeitas. E prescrevem -nos

principalm ente nestes tem pos em que só se pode falar do m undo perigosa ou

falsam ente. No entanto, tam bém vej o claram ente que quem , com o eu, tem por

obj etivo as com odidades da vida (digo as com odidades essenciais), deve fugir

com o da peste dessas dificuldades e das sutilezas de hum or. Eu louvaria um a

alm a que tivesse diversos estágios e soubesse tanto se estender com o se

distender; que estivesse bem em qualquer lugar aonde sua sorte a levasse;

que pudesse falar com o vizinho sobre sua construção, a caça e seu processo

em curso; entreter com prazer um carpinteiro e um j ardineiro. Invej o os que

sabem travar conhecim ento com o m enor de seu séquito e entabular conversa

com a própria criadagem . E não m e agrada o conselho de Platão para falar

sem pre com um a linguagem m agistral a seus servidores, sem brincadeiras e

sem fam iliaridade, sej a com os hom ens, sej a com as m ulheres. Pois, à parte o

que m e diz m inha razão, é desum ano e inj usto dar tanto valor a essa

prerrogativa do acaso; e as sociedades onde m enos se sofre disparidade

entre os criados e os senhores parecem -m e as m ais equânim es. Os outros se

em penham em lançar e elevar o espírito; eu, em baixá-lo e deitá-lo: ele só é

vicioso quando se estende.

Narras et genus Aeaci,

Et pugnata sacro bella sub Ilio,

Quo Chium pretio cadum

Mercemur, quis aquam temperet ignibus,

Quo praebente domum, et quota

Pelignis caream frigoribus, taces.338

Contas tanto a raça de Éaco com o os com bates sob as m uralhas da santa

Ílio. Mas quanto pagam os por um a j arra de vinho de Quíos, quem vai

aquecer m eu banho, em casa de qual anfitrião e a que horas escaparei de

um frio digno dos Pelignos, não m e dizes.

Assim com o a valentia lacedem ônia precisava de m oderação e do som suave

e gracioso do toque de flautas para ser acalm ada na guerra, receando-se que

se j ogasse na tem eridade e na fúria (enquanto todas as outras nações

geralm ente em pregam sons e vozes agudas e fortes, que em ocionam e

aquecem ao m áxim o a coragem dos soldados), parece-m e que, da m esm a form a, no uso de nosso espírito a m aioria de nós precisa, contra o hábito

corrente, m ais de chum bo que de asas, m ais de frieza e repouso que de ardor

e agitação. Sobretudo, a m eu ver, bancar o entendido entre os que não o são

e falar sem pre doutam ente é fazer-se de tolo: favellar in punta di forchetta. 339

É preciso pôr-se no nível daqueles com quem estam os e, às vezes, afetar

ignorância: deixai de lado a força e a sutileza, no uso corrente basta observar

a ordem . E, aliás, arrastai-vos pelo chão se eles quiserem . Os sábios

costum am tropeçar nesta pedra: sem pre ostentam seu m agistério e difundem

seus livros por todo lado. Ultim am ente encheram de tal sorte os salões e os

ouvidos das senhoras que, ainda que elas não tenham retido a substância,

pelo m enos aparentam . Em todo tipo de conversa e m atéria, por baixa e

popular que sej a, elas em pregam um m odo de falar e escrever novo e erudito.

Hoc sermone pavent, hoc iram, gaudia, curas,

Hoc cuncta effundunt animi secreta, quid ultra?

Concumbunt docte. 340

É nesses term os que elas com ovem , que m anifestam sua raiva, suas

alegrias, suas preocupações e todos os segredos de sua alm a: que m ais

dizer? Elas sucum bem doutam ente.

E citam Platão e São Tom ás sobre coisas para as quais o prim eiro que

encontrassem serviria igualm ente bem de testem unha. A doutrina que não

conseguiu chegar-lhes à alm a ficou-lhes na língua. Se as bem -dotadas

acreditam em m im , hão de se contentar em valorizar as riquezas próprias e

naturais. Escondem e encobrem suas belezas sob belezas estrangeiras: é um a grande asneira abafar a própria claridade para brilhar com um a luz

em prestada. Elas são enterradas e sepultadas sob o artifício, De capsula

totae. 341Elas saem inteiras de sua caixinha de pó de arroz.] É que não se conhecem o suficiente: o m undo nada tem de m ais belo, e cabe a elas honrar

as artes e em belezar o que é belo. De que m ais precisam além de viver

am adas e honradas? Para isso, têm dem ais e sabem dem ais. Basta

despertar um pouco e realçar as qualidades que estão nelas. Quando as vej o

apegadas à retórica, ao direito, à lógica e a drogas sem elhantes, tão vãs e

inúteis para sua necessidade, m uito receio que os hom ens que as aconselham

a isso o façam por ter, com esse pretexto, a possibilidade de dom iná-las. Pois

que outra desculpa eu lhes encontraria? Basta que possam , sem nós,

subm eter a graça de seus olhos à alegria, à severidade e à doçura: tem perar

um “não” com aspereza, dúvida ou favor; e que não procurem intérprete para

os discursos que lhes fazem os por galanteria. Com esse conhecim ento elas

com andam com um a batuta e dirigem os professores e a escola. Se todavia

se contrariarem por nos ceder no que quer que sej a, e quiserem por

curiosidade ter acesso aos livros, a poesia é um a distração adequada à sua

necessidade: é um a arte frívola, e sutil e fantasiada, toda de palavras, toda de

prazer, toda de exibição, com o elas são. Tam bém da história tirarão diversos

benefícios. Na filosofia, da parte que serve à vida extrairão os argum entos que

as ensinarem a j ulgar nossos hum ores e tem peram entos, a se defenderem

contra nossas traições, a regular a tem eridade dos próprios desej os, a

controlar sua liberdade, a prolongar os prazeres da vida e a suportar

hum anam ente a inconstância de um am ante, a aspereza de um m arido e a

contrariedade dos anos e das rugas, e coisas sem elhantes. Eis, em sum a, a

parte que eu lhes atribuiria nas ciências. Há naturezas reservadas, fechadas e

introvertidas. A própria essência da m inha form a é a com unicação, é a

m anifestação: sou todo extrovertido e em evidência, nascido para a

com panhia e a am izade. A solidão que am o e que prego é, principalm ente,

trazer para m im m inhas afeições e m eus pensam entos: restringir e estreitar,

não m eus passos, m as m eus desej os e m inhas preocupações, recusando a

solicitude externa e fugindo m ortalm ente da servidão e da obrigação, e não

tanto da m ultidão dos hom ens com o da m ultidão dos negócios. Para falar a

verdade, m eu isolam ento m ais m e estende e m e expande para fora: com m ais

gosto m e atiro nos negócios do Estado e no universo quando estou sozinho.

No Louvre e na m ultidão m e fecho e m e contraio dentro de m inha pele. A

m ultidão im pele-m e a entrar em m im . E j am ais converso com igo m esm o m ais

loucam ente, m ais licenciosa e privadam ente que nos lugares de respeito e

prudência cerim oniosa. Nossas loucuras não m e fazem rir, m as sim nossas

sapiências. Meu tem peram ento não m e torna inim igo da agitação das cortes:

aí passei parte da vida, e fui feito para portar-m e alegrem ente com os

grandes grupos, contanto que sej a por intervalos, e na m inha hora. Mas esse

frouxo j ulgam ento de que falo força-m e à solidão. Mesm o em m inha casa, no

m eio de um a fam ília num erosa que é das m ais visitadas, vej o m uitas pessoas m as raram ente aquelas com quem gosto de com unicar-m e. E aí m e reservo,

tanto para m im com o para os outros, um a liberdade inusitada. Faz-se trégua

de etiqueta, de boas-vindas, de acom panham ento de grandes personagens e de tantas outras regras penosas de nossa cortesia (ó servil e inoportuno

costum e!), cada um se com porta a seu j eito e entretém seus pensam entos

quem quiser: m antenho-m e m udo, sonhador e fechado, sem ofender m eus

hóspedes. Os hom ens cuj a com panhia e fam iliaridade procuro são os que

cham am os hom ens am áveis e de qualidade: a im agem deles faz-m e perder o

gosto pelos outros. É, pensando bem , o m ais raro de nossos m odos de ser, e

m odo que se deve principalm ente à natureza. O obj etivo dessas relações é

sim plesm ente a intim idade, o convívio e a conversação: o exercício das alm as,

sem outro fruto. Em nossas conversas, todos os assuntos m e são iguais:

pouco im porta que não tenham peso nem profundidade: a graça e a

pertinência estão sem pre presentes, tudo é colorido por um j ulgam ento

m aduro e constante, e m esclado de bondade, franqueza, alegria e am izade.

Não é som ente nos casos de fideicom isso ou nos negócios dos reis que nosso

espírito m ostra sua beleza e sua força: m ostra-as igualm ente nas discussões

privadas. Conheço m inha gente até pelo silêncio e por seu sorriso e descubro-

os m elhor talvez à m esa do que num conselho. Hipôm aco bem dizia que

conhecia os bons lutadores ao vê-los sim plesm ente andar pela rua. Se a

erudição quiser se m eter em nossas conversas, não será recusada: não

m agistral, im periosa e im portuna, com o de costum e, m as subordinada e dócil.

Só procuram os passar o tem po: na hora de serm os instruídos e doutrinados,

irem os procurá-la em seu trono. Que ela desça até nós dessa vez, se lhe

agradar, pois por m ais útil e desej ável que sej a pressuponho que, m esm o se

dela necessitássem os, poderíam os dispensá-la de todo e chegar ao nosso obj etivo sem ela. Um a alm a bem -nascida e exercitada em lidar com os

hom ens torna-se plenam ente agradável por si m esm a. A arte não é outra

coisa senão o inventário e o registro das produções de tais alm as. É tam bém

para m im um doce convívio este com as belas e honestas m ulheres: nam nos

quoque oculos eruditos habemus. 342pois tam bém nós tem os olhos conhecedores.] Se nele o espírito não tem tanto a desfrutar quanto no

prim eiro, os sentidos corporais que tam bém participam m ais deste levam -no a

um nível vizinho do outro, em bora, a m eu ver, não igual. Mas é um a relação

em que devem os ficar um pouco com pé atrás, e em especial aqueles em

quem o corpo pode m uito, com o eu. Fiquei escaldado em m inha j uventude e

sofri todos os ardores que os poetas dizem advir aos que se deixam levar por

isso, sem ordem e sem j ulgam ento. É verdade que desde então essa

chicotada m e serviu de lição:

Quicumque Argolica de classe Capharea fugit,

Semper ab Euboicis vela retorquet aquis. 343

Quem , na frota grega, um a vez escapou de Cafareu sem pre vira de bordo

para fugir das águas da Eubeia.

É loucura fixar nisso todos os seus pensam entos e engaj ar-se com um a

paixão furiosa e sem discernim ento. Mas, por outro lado, m eter-se nisso sem

am or e sem subj ugar a própria vontade, com o atores, para desem penhar um

papel convencional correspondente à idade e ao costum e, e só pôr de si as

palavras, é de verdade garantir sua segurança m as bem covardem ente, com o

quem abandonasse sua honra, seus bens ou seu prazer por tem er o perigo.

Pois é certo que de tal relação os que a praticam não podem esperar nenhum fruto que afete ou satisfaça um a bela alm a. É preciso ter desej ado

cientem ente um a m ulher que se quer cientem ente ter o prazer de desfrutar.

Quero dizer, m esm o quando a fortuna favorecesse inj ustam ente essa m áscara

teatral, o que costum a acontecer, pois não há m ulher, por desgraciosa que

sej a, que não pense ser digna de ser am ada e que não se faça notar por sua

idade ou por seu cabelo, ou por seus gestos (pois não há as totalm ente feias,

não m ais que as totalm ente belas). E as m oças brâm anes que não têm nada

que as recom ende vão para a praça diante do povo reunido por pregoeiros

públicos para esse fim , e exibem seus órgãos do m atrim ônio, para ver se, ao

m enos por aí, não m erecem conseguir um m arido. Por conseguinte, não há

um a que não se deixe convencer com facilidade pelo prim eiro j uram ento que

lhe fazem os de ser seu servidor. Ora, dessa traição com um e corrente dos

hom ens de hoj e resulta necessariam ente o que j á nos m ostra a experiência: é

que elas se aliam e se fecham em si m esm as, ou entre si, para fugir de nós;

ou então, de seu lado, tam bém adotam esse exem plo que lhes dam os e

representam seu papel na farsa e prestam -se a essa negociação, sem paixão,

sem cuidado e sem am or: Neque affectui suo aut alieno obnoxiae. 344 Sem estarem ligadas nem por sua afeição nem pela de outrem .] É que consideram ,

seguindo o conselho de Lísias em Platão, que podem se dedicar útil e

com odam ente a nós, m ais ainda quanto m enos as am am os. Será com o nas

com édias, o povo terá tanto ou m ais prazer que os com ediantes. Quanto a

m im , não conheço m ais Vênus sem Cupido do que um a m aternidade sem

progenitura. São coisas interdependentes e que se devem m utuam ente sua

essência. Assim , essa im postura repercute no hom em que a faz: não lhe custa

m uito, m as ele tam bém não adquire nada que valha. Os que fizeram de Vênus

um a deusa consideraram que sua principal beleza era incorporal e espiritual.

Mas essa coisa que os am antes procuram não é só hum ana, nem m esm o

bestial: os anim ais não a querem tão pesada e tão terrestre. Vem os que a

im aginação e o desej o aquecem e solicitam os anim ais, antes m esm o do

corpo; vem os em um e outro sexos que eles escolhem e selecionam na

m ultidão suas afeições e que m antêm entre si relações de longa benquerença.

Mesm o esses aos quais a velhice recusa a força corporal ainda frem em ,

relincham e estrem ecem de am or. Vem o-los antes do ato, cheios de

esperança e ardor, e quando o corpo j ogou seu j ogo ainda se deleitam com a

doçura da lem brança; e vem os os que se inflam de orgulho ao partir, e que

produzem cantos de festa e triunfo, cansados e saciados. Aquele que só

precisa descarregar o corpo de um a necessidade natural não tem por que

incom odar o outro com preparativos tão delicados. Isso não é carne para um a

fom e grande e pesada. Com o sou alguém que não pede que m e achem

m elhor do que sou, direi isto sobre os erros de m inha j uventude: não só pelo

perigo que há para a saúde (não soube agir tão bem que não tivesse dois

acessos, leves todavia, e pream bulares) m as tam bém por desprezo, quase

não m e dediquei às relações venais e públicas. Quis aguçar esse prazer pela

dificuldade, pelo desej o e por algum a glória. E gostava do estilo do im perador

Tibério, que era atraído em seus am ores tanto pela m odéstia e pela nobreza

com o por outra qualidade. E da atitude da cortesã Flora, que não se oferecia

a ninguém que não fosse ao m enos ditador, ou cônsul, ou censor, e que se deliciava com a dignidade de seus am antes. Certam ente, as pérolas e o

brocado, e os títulos e os serviçais conferem algo ao prazer. Por sinal, eu

levava m uito em consideração o espírito, m as desde que o corpo não

deixasse a desej ar. Pois, para responder em sã consciência, se um a ou outra

das duas belezas devesse necessariam ente faltar, preferiria abandonar a

espiritual: ela encontra uso em coisas m elhores. Mas no assunto do am or,

assunto que se refere principalm ente à visão e ao tato, faz-se algum a coisa

sem as graças do espírito, e nada sem as graças corporais. A beleza é a

verdadeira vantagem das dam as: é tão delas que a nossa, em bora requeira

traços um pouco distintos, só na perfeição de um a criança e de um im berbe

pode ser confundida com a fem inina. Dizem que no palácio do grão-turco os

que lhe servem por sua beleza são em núm ero infinito m as dispensados, no

m áxim o, aos 22 anos. Os j ulgam entos, a prudência e os deveres de am izade

são m ais encontrados entre os hom ens; por isso governam os negócios do

m undo. Essas duas relações345 são fortuitas e dependentes de outros: um a é difícil pela raridade, a outra m urcha com a idade; assim , não preencheram o

suficiente as necessidades de m inha vida. A dos livros, que é a terceira, é

bem m ais segura e m ais nossa. Cede às prim eiras as outras vantagens, m as tem , por sua vez, a constância e a facilidade de seu uso: acom panha todo o

m eu percurso e assiste-m e por todo lado; consola-m e na velhice e na solidão;

descarrega-m e do peso de um ócio enfadonho; e a todo instante m e livra das

com panhias que m e aborrecem ; atenua as pontadas da dor se não for

extrem a e soberana. Para m e distrair de um a ideia im portuna, basta recorrer

aos livros, eles m e desviam facilm ente para si e a esquivam de m im . E não se am otinam ao ver que só os procuro na ausência dessas outras com odidades

m ais reais, vivas e naturais: recebem -m e sem pre com o m esm o sem blante. É

m uito bonito andar a pé quando se leva seu cavalo pela rédea, dizem . E nosso

Jaim e, rei de Nápoles e da Sicília, que, belo, j ovem e saudável, fazia-se

transportar pelo país num a padiola, deitado sobre um ordinário travesseiro de

penas, vestindo um a túnica de pano cinza e um gorro do m esm o tipo, m as

seguido por um a grande pom pa real, com liteiras, cavalos de todo tipo levados

pela m ão, fidalgos e oficiais, m anifestava um tipo de austeridade que ainda

era delicada e vacilante. O doente que tem sua cura na m anga não m erece

com paixão. Todo fruto que tiro dos livros consiste em experim entar e praticar

essa m áxim a, que é m uito verdadeira. Na verdade, praticam ente não m e sirvo

deles m ais que os que não os conhecem . Desfruto deles, com o os avarentos

de seus tesouros, para saber que desfrutarei quando m e aprouver: m eu

espírito sacia-se e contenta-se com esse direito de posse. Não viaj o sem

livros, nem na paz nem na guerra. Todavia, hão de se passar m uitos dias, e

m eses, sem que m e sirva deles; digo que será dali a pouco, ou am anhã, ou

quando m e der vontade: enquanto isso, o tem po corre e se vai, m as não m e

inquieta. Pois é im possível dizer quanto m e repouso e m e tranquilizo com essa

ideia de que estão a m eu lado para m e dar prazer quando eu desej ar; e

reconhecer quanto trazem de socorro à m inha vida: é a m elhor provisão que

encontrei nesta viagem hum ana e com padeço-m e ao extrem o dos hom ens

inteligentes que não os têm . Aceito qualquer outro tipo de distração, por

frívola que sej a, desde que essa não possa m e faltar. Em casa, desvio-m e um pouco m ais frequentem ente para m inha biblioteca, de onde, com um a só m ão,

com ando m inha residência. Estou acim a da entrada e descortino, abaixo de

m im , o j ardim , o galinheiro, o pátio e a m aior parte dos côm odos de m inha

casa. Ali folheio, a tal hora, um livro, a tal hora, outro, sem ordem e sem

obj etivo, por trechos disparatados. Ora devaneio, ora registro e dito,

cam inhando, m eus sonhos que aqui estão. Ela fica no terceiro andar de um a

torre. No prim eiro está m inha capela, no segundo, um quarto com suas

dependências, onde não raro durm o, quando quero ficar sozinho. Acim a, há

um grande depósito. Era, no passado, o lugar m ais inútil de m inha casa. Ali

passo a m aioria dos dias de m inha vida e a m aioria das horas do dia. Nunca estou lá à noite. Ao lado há um gabinete bem instalado, que pode receber um a

lareira no inverno, e m uito agradavelm ente ilum inado por um a j anela. E se eu

não tem esse m ais os aborrecim entos que a despesa, os aborrecim entos que

m e afastam de qualquer trabalho, poderia facilm ente anexar de cada lado um a

galeria de cem pés de com prim ento e doze de largura, no m esm o nível, pois

encontrei todas as paredes construídas (para outro uso) na altura de que

preciso. Todo lugar isolado requer um deam bulatório. Meus pensam entos

cochilam se os deixo sentados. Meu espírito não anda sozinho se as pernas

não o agitam . Os que estudam sem livro são todos assim . A form a da

biblioteca é circular e só é plano o espaço necessário para m inha m esa e

m inha cadeira; ao curvar-se, ela vai m e oferecendo com um só olhar todos os

m eus livros arrum ados em estantes de cinco prateleiras em toda a volta. Tem

três j anelas com bela perspectiva livre e um espaço vazio de dezesseis

passos de diâm etro. No inverno ali perm aneço m enos tem po, pois m inha casa

fica em poleirada num a m ontanha, com o diz seu nom e, e não tem aposento

m ais exposto ao vento do que esse, que por ser um pouco afastado, de difícil

acesso, m e agrada tanto pelo exercício a que m e obriga com o por m e afastar

da m ultidão. Esta é a m inha sede. Tento ter sobre ela um dom ínio

absolutam ente puro, subtraindo esse único recanto da com unidade conj ugal,

filial e social. Em todos os outros lugares m inha autoridade é m ais verbal que

real: essencialm ente vaga. Em m inha opinião, ai de quem não tem em casa

onde estar consigo, onde falar privadam ente consigo m esm o, onde se

esconder! A am bição paga bem a seus servidores por m antê-los sem pre à

vista, com o a estátua de um a praça do m ercado. Magna servitus est magna

fortuna. 346Um a grande servidão é um grande destino.] Eles não têm privacidade nem m esm o na privada. Na austeridade de vida que nossos

religiosos adotam j am ais encontrei nada tão rude com o o que vej o em

algum as de suas com panhias: a regra de estar perpetuam ente em com panhia

de alguém e em num erosa presença dos outros, em qualquer ação que sej a.

E, em sum a, acho m ais suportável estar sem pre só do que nunca poder estar.

Se alguém m e diz que é aviltar as m usas usá-las som ente com o brinquedo ou

passatem po, é que não sabe, com o eu, quanto vale o prazer, o j ogo e o

passatem po: eu quase poderia dizer que qualquer outra finalidade é ridícula.

Vivo dia a dia, e, com o devido respeito, só vivo para m im : m eus obj etivos

term inam aí. Quando j ovem , estudava por ostentação; depois, um pouco para

tornar-m e sábio; agora, para m e divertir, nunca pelo proveito. O gosto vão e

gastador que eu tinha por essa espécie de obj eto, não para satisfazer apenas m inha necessidade m as, três passos adiante, para atapetar e adornar m inhas