Os Ensaios
Sobre as orações
extraviarem , a reverência por eles há de repô-las no rum o certo: eles vos
conservarão nessa via de vos contentardes convosco, de nada tom ar
em prestado senão de vós, de reter e fortalecer vossa alm a em cogitações
precisas e lim itadas em que ela possa se com prazer; e, tendo ouvido os
verdadeiros bens de que gozam os à m edida que os com preendem os,
contentar-vos com eles, sem desej ar prolongar a vida nem o nom e.” Eis o
conselho da verdadeira e pura filosofia, e não de um a filosofia ostentatória e
palavrosa, com o é a daqueles dois prim eiros.
Sobre as orações
Capítulo LVI
Para tratar desse assunto delicado, na fronteira do sagrado e do profano,
Montaigne retrabalhou muito o texto, tornando o capítulo três vezes maior
desde a primeira edição da obra, em 1580. A clareza se ressente um pouco
desses sucessivos acréscimos, mas sua profissão de fé católica é
claríssima. Temos aqui um enfoque mais aprofundado da austeridade e do
rigor do catolicismo de Montaigne. Os numerosos acréscimos foram em
parte uma resposta às críticas do Vaticano sobre a asserção de Montaigne
de que quando um homem reza deve estar purgado de seus pecados, sem
hipocrisia, e em lugar e circunstâncias próprios a essa prática. Os censores
do Vaticano examinaram particularmente este capítulo, e finalmente
recomendaram algumas correções. Tanto quanto em “Sobre o
arrependimento” (III, II), vemos que o catolicismo de Montaigne era exigente.
Ele condena, assim como Rabelais e, claro, Calvino, a oração mecânica que se faz sem um recolhimento especial. Sua ortodoxia rejeita toda tentativa de
tradução dos textos sagrados, para ele fonte de erros e de heresia.
Proponho noções disform es e inconclusas, com o fazem os que publicam
questões duvidosas, para serem debatidas nas escolas: não para estabelecer
a verdade, m as para procurá-la. E subm eto-as ao j ulgam ento daqueles a
quem cabe j ulgar não só m inhas ações e m eus escritos m as tam bém m eus
pensam entos. Ser-m e-ão igualm ente aceitáveis e úteis sua condenação com o
sua aprovação, considerando absurdo e ím pio se nessa rapsódia se encontrar
algo escrito que sej a contrário, por ignorância ou inadvertência, às santas
resoluções e prescrições da Igrej a Católica, Apostólica e Rom ana, na qual
m orro e na qual nasci. E no entanto, entregando-m e sem pre à autoridade de
sua censura, que tudo pode sobre m im , introm eto-m e assim , tem erariam ente,
e com o faço aqui, em propósitos de todo tipo. Não sei se m e engano m as, j á
que por um favor particular da bondade divina certo tipo de oração nos foi
prescrita e ditada, palavra por palavra, pela boca de Deus, sem pre m e
pareceu que devíam os fazer dela uso m ais corrente do que fazem os; e se
acreditassem em m im , no início e no fim de nossas refeições, em nosso
levantar e deitar, e em todas as ações particulares em que nos acostum am os
a incluir orações, gostaria que fosse o padre-nosso que os cristãos usassem ,
se não som ente, pelo m enos sem pre. A Igrej a pode estender e diversificar as
orações segundo sua necessidade de nos instruir, pois bem sei que é sem pre
a m esm a substância e a m esm a coisa. Mas àquela deveria se dar este
privilégio: que o povo a tivesse continuam ente na boca, pois é certo que diz tudo o que é preciso, e que é m uito adequada a todas as ocasiões. É a única
oração da qual m e sirvo para tudo, e repito-a em vez de trocá-la. Disso
resulta que não tenho outra tão bem na m em ória com o aquela. Estava
recentem ente pensando de onde nos vinha esse erro de recorrer a Deus em
todos os nossos proj etos e em preendim entos, e de cham á-Lo em toda sorte
de necessidade, e em qualquer lugar em que nossa fraqueza desej a aj uda,
sem considerar se a ocasião é j usta ou inj usta; e de invocar Seu nom e e Seu
poder em qualquer situação e ação que pratiquem os, por m ais pecadora que
sej a. Ele é de fato nosso só e único protetor, e para aj udar-nos pode todas as
coisas, m as, conquanto se digne a honrar-nos com essa doce aliança paterna, é, porém , tão j usto com o bom e poderoso. Mas usa bem m ais frequentem ente
Sua j ustiça do que Seu poder, e favorece-nos de acordo com essa j ustiça e
não segundo nossos pedidos. Em suas Leis, Platão distingue três tipos de
crença inj uriosa com relação aos deuses: que eles não existem , que não se
m etem nos nossos assuntos, que nada recusam a nossos votos, oferendas e
sacrifícios. O prim eiro erro, em sua opinião, j am ais perdurou, im utável, em um
hom em da infância à velhice. Os dois seguintes podem ser constantes. A
j ustiça e o poder de Deus são inseparáveis, em vão im ploram os Sua força em
um a causa m á: precisam os estar com a alm a lim pa, ao m enos naquele
m om ento em que rezam os a Ele, e esvaziada de paixões viciosas, do
contrário nós m esm os Lhe apresentam os as varas com que nos castigar. Em
vez de repararm os nossa falta, nós a redobram os, apresentando àquele a
quem devem os pedir perdão um sentim ento cheio de irreverência e ódio. Eis
por que não m e agrada louvar os que vej o rezar a Deus m ais frequente e
constantem ente, se os atos próxim os da oração não m e dem onstram
nenhum a em enda ou correção,
si nocturnus adulter
Tempora sanctonico velas adoperta cucullo. 190
se para com eter teus adultérios noturnos tu te escondes e envolves tuas
têm poras num capuz santônico.
E a posição de um hom em que m istura a devoção com um a vida execrável
parece ser bem m ais condenável que a de um hom em coerente consigo
m esm o e inteiram ente dissoluto. Por isso, nossa Igrej a recusa todos os dias
aos que se obstinam em fazer algum a insigne m aldade o favor de adm iti-los
em sua com unidade. Rezam os por hábito e por costum e, ou m elhor, lem os ou
pronunciam os nossas preces: não é, enfim , m ais que um a m ím ica. E
desagrada-m e ver fazerem três sinais da cruz no Benedicite, outros tantos
nas Graças191 (e desagrada-m e m ais por ser um sinal que reverencio e utilizo constantem ente, m esm o quando bocej o) e, no entanto, todas as outras horas
do dia vê-los dedicados ao ódio, à avareza, à inj ustiça. Hora para os vícios,
hora para Deus, com o por com pensação e arranj o. É um m ilagre ver
sucederem -se ações tão incom patíveis, de teor tão parecido, a ponto de não
se sentir interrupção e hesitação nem m esm o nas fronteiras e na passagem
de um a à outra. Que m onstruosa consciência pode encontrar descanso
enquanto nutre num m esm o lugar, em convívio tão harm onioso e tão pacífico,
o crim e e o j uiz? Um hom em cuj a licenciosidade governa incessantem ente sua
cabeça, e que a j ulga m uito odiosa aos olhos divinos, que diz ele a Deus quando lhe fala disso? Recupera-se, m as subitam ente torna a cair. Se, com o diz, o conceito de j ustiça divina e sua presença golpearam e castigaram sua
alm a, por m ais curta que fosse a penitência o sim ples tem or volveria seu
pensam ento para ela, tão am iúde que, de im ediato, ele dom inaria esses vícios
que lhe são habituais e lhe estão incrustados. Mas qual! E os que fundam um a
vida inteira nos frutos e nos lucros do pecado que sabem ser m ortal? Quantos
ofícios e profissões socialm ente reconhecidas tem os cuj a essência é viciosa?
E aquele que, confiando-se a m im , recitava-m e ter toda a sua vida professado
e praticado o ritual de um a religião condenável, segundo ele m esm o, e
contraditória com a que tinha no coração, para não perder seu crédito e a
honra de seus cargos, com o conciliava esses pensam entos em seu
coração?192 Com que linguagem conversam com a j ustiça divina a respeito desse assunto? Com o seu arrependim ento requer um a reparação visível e
tangível, perdem o direito de evocá-lo, tanto perante Deus com o perante nós.
São tão ousados para pedir perdão sem satisfação193 e sem arrependim ento?
Penso que é o caso daqueles prim eiros194 com o destes, m as daqueles não é tão fácil m ostrar a obstinação. Essa contradição e essa volubilidade tão
súbitas, tão violentas, que fingem diante de nós m e cheiram a m ilagre.
Revelam o estado de um indigerível conflito. E com o m e parecia fantástica a
concepção daqueles que, nesses últim os anos, tinham o costum e de criticar
qualquer um em quem reluzisse certa clareza de espírito e que professasse a
religião católica, dizendo que era fingim ento! E até afirm avam , para honrá-lo,
que pouco im portava o que dissesse externam ente, pois não podia deixar de
ter, internam ente, sua fé reform ada pelos padrões deles. Fastidiosa
enferm idade, a de se crer tão forte a ponto de persuadir-se de que não é possível acreditar no contrário, e m ais fastidiosa ainda quando a pessoa se
convence de que um espírito assim prefere não sei qual m elhora de sua sorte
atual às esperanças e am eaças da vida eterna! Eles podem crer em m im : se
algo tivesse m e tentado na j uventude, boa parte disso teria sido o gosto pelos
riscos e as dificuldades que acom panhavam esse recente em preendim ento. 195
Não é sem boa razão, parece-m e, que a Igrej a proíbe o uso prom íscuo,
tem erário e leviano dos salm os sagrados e divinos que o Espírito Santo ditou
a Davi. 196 Não devem os m isturar Deus às nossas ações a não ser com reverência e atenção plena de dignidade e respeito. Essa palavra é divina
dem ais e deve ter outro uso que não exercitar os pulm ões e agradar a nossos
ouvidos. É na consciência que deve ser produzida e não na língua. Não é
correto perm itir que um caixeiro de arm azém se entretenha e brinque com ela,
entre seus pensam entos vãos e frívolos. Nem decerto é correto ver largado na
sala ou na cozinha o Livro Sagrado dos m istérios de nossa fé. Outrora eram m istérios, agora são divertim entos e passatem pos. Não é de passagem , nem
de form a tum ultuada que devem os m anipular um estudo tão sério e venerável.
Deve ser um a ação prem editada e séria, à qual sem pre há que acrescentar
este prefácio do nosso ofício, sursum corda, [elevem os os corações,] e tendo
o próprio corpo disposto em atitude que ateste um a particular atenção e
reverência. Não é estudo para todo m undo: é estudo para pessoas que a isso
se dedicaram , que Deus cham a para tal; os m aus, os ignorantes tornam -se
piores com isso. Não é um a história para contar; é um a história para
reverenciar, tem er e adorar. Engraçadas essas pessoas que pensam tê-la
tornado m anej ável pelo povo, por tê-la posto em linguagem popular. 197 Quando não entendem tudo o que encontram por escrito a culpa seria só das
palavras? Direi m ais? Quando trazem para um pouco m ais perto deles essa
história, na verdade a afastam . A m era ignorância, que se entrega
inteiram ente a outrem , era bem m ais salutar e m ais sábia do que é essa
ciência verbal e vã e que nutre presunção e tem eridade. Creio tam bém que a
liberdade de cada um de difundir um a palavra tão religiosa e im portante em
tantos tipos de idiom as apresenta m uito m ais perigo que utilidade. Os j udeus,
os m aom etanos e quase todos os outros desposaram e reverenciam a língua
em que originalm ente seus m istérios foram concebidos, e são proibidas sua
alteração e m udança: não sem razão. Sabem os se há de fato no País Basco
e na Bretanha j uízes suficientes para estabalecer um a tradução feita em suas
línguas? A Igrej a universal não tem decisão m ais árdua e solene a tom ar, pois
pregada e falada a interpretação é vaga, livre, variável e fragm entada, m as
quando escrita não é a m esm a coisa. Um de nossos historiadores gregos
acusa j ustam ente seu século de ter espalhado na praça os segredos da
religião cristã, em m ãos dos artesãos m enores: cada um podia debater e falar
segundo sua interpretação. E que deveria ser grande vergonha para nós, nós
que pela graça de Deus desfrutam os dos puros m istérios da piedade, deixá-
los ser profanados na boca de pessoas ignorantes e populares, visto que os
pagãos proibiam Sócrates, Platão e os m ais sábios de inquirir e falar das
coisas confiadas aos sacerdotes de Delfos. Diz tam bém que as facções dos
príncipes, em m atéria de teologia, são arm adas não de zelo m as de cólera;
que o zelo decorre da razão divina e da j ustiça, quando se conduz m oderada e ordenadam ente, m as que se torna ódio e invej a e produz, em vez de trigo e
uva, j oio e urtigas quando conduzido por um a paixão hum ana. E tam bém ,
j ustam ente, há esse outro, conselheiro do im perador Teodósio, que dizia que
as disputas não acalm am tanto os cism as da Igrej a m as os despertam e
anim am as heresias. Que por isso era preciso fugir de todas as controvérsias
e argum entações dialéticas e reportar-se m eram ente às prescrições e
fórm ulas da fé estabelecidas pelos Antigos. E o im perador Andrônico, tendo
encontrado em seu palácio dois hom ens im portantes às voltas com palavras
contra Lopádio, sobre um de nossos pontos de m aior im portância,
repreendeu-os até am eaçar j ogá-los no rio se continuassem . Em nossos dias,
crianças e m ulheres ensinam aos hom ens m ais velhos e experientes as leis
eclesiásticas, enquanto a prim eira das leis de Platão as proíbe de
sim plesm ente indagar a razão das leis civis, que devem fazer as vezes de
decretos divinos. E perm itindo que os velhos discutissem entre si sobre isso, e
tam bém com o m agistrado, acrescenta: “contanto que não sej a em presença
dos j ovens e de pessoas profanas”. Um bispo deixou por escrito que, no outro
lado do m undo, há um a ilha que os antigos cham avam de Dioscórida, 198
apreciável em fertilidade, com todos os tipos de árvores e frutas, e em
salubridade do ar; seu povo é cristão, tendo igrej as e altares que só são
param entados de cruzes, sem outras im agens; grandes observadores de
j ej uns e de festas, pagadores perfeitos dos dízim os aos sacerdotes, e tão
castos que nenhum deles pode conhecer m ais de um a m ulher em sua vida.
Aliás, tão contentes com sua fortuna, no m eio do m ar, ignoram o uso de navios; e tão sim ples que da religião que observam com tanto cuidado não
entendem um a só palavra. Coisa inacreditável, para quem não soubesse, os
pagãos, idólatras tão devotos, só conhecem de seus deuses, sim plesm ente, o
nom e e a estátua. O com eço original de Melanipe, tragédia de Eurípides, era
assim :
O Juppiter, car de toy rien sinon
Je ne cognois seulement que le nom. 199
Ó Júpiter! Porque de ti nada sei além do nom e.
Tam bém vi em m inha época reclam arem de certos textos porque são
m eram ente hum anos e filosóficos, sem m istura de teologia. Quem dissesse o
contrário não estaria, porém , sem algum a razão: que a doutrina divina
preserva m elhor sua posição se colocada à parte, com o rainha e governadora;
que deve ser a principal em tudo, e não sufragânea e subsidiária. E que talvez
a gram ática, a retórica e a lógica tirassem exem plos m ais adequados de outro
lugar que de tão santa m atéria, assim com o os argum entos dos teatros, j ogos
e espetáculos públicos. Que as razões divinas são consideradas com m ais
veneração e reverência se expostas isoladam ente e em seu estilo do que
em parelhadas com os discursos hum anos. Que é falta m ais frequente ver
teólogos que escrevem hum anam ente dem ais do que hum anistas que
escrevem pouco teologicam ente: a filosofia, diz são Crisóstom o, está há m uito tem po banida da escola sacra, com o serva inútil, e é considerada indigna de
avistar, ainda que de passagem e da entrada, o sacrário dos tesouros santos
da doutrina celeste. Que a linguagem hum ana tem suas form as m ais baixas e
não deve servir-se da dignidade, da m aj estade, da suprem acia do verbo
divino. Quanto a m im , deixo-a dizer, verbis indisciplinatis, 200em term os não aprovados,] fortuna, destino, acidente, ventura e desventura, e os deuses, e
outras expressões, à sua m oda. Proponho m eus pensam entos hum anos com o
sim ples pensam entos hum anos, e considerados separadam ente: não com o
decretados e regulados por m andam ento divino, incapaz de dúvida e
controvérsia. Matéria de opinião, não m atéria de fé. O que penso segundo eu
m esm o, não o que creio segundo Deus, e de um m odo laico, não clerical, m as
sem pre m uito religioso. Com o os m eninos leem seus ensaios para ser
instruídos e não para instruir. E tam bém não se poderia dizer, aparentem ente
com razão, que o decreto proibindo a todos de escrever sobre religião (senão
bem reservadam ente), exceto aos que disso fazem profissão específica, não
deixaria de ter certo sem blante de utilidade e j ustiça? E que eu, j unto com
eles, talvez devesse m e calar? Disseram -m e que aqueles m esm os que não
são dos nossos proíbem porém , entre eles, o uso do nom e de Deus em suas
conversas com uns: não querem que sej a em pregado com o interj eição ou
exclam ação, nem com o testem unho nem com o com paração, no que creio têm
razão. E, sej a qual for a m aneira com o invocam os Deus para nossa
com panhia e convívio, é preciso ser séria e devotam ente. Parece-m e que há
em Xenofonte um discurso assim , em que ele m ostra que devem os rezar a
Deus m ais raram ente, tanto m ais que não é fácil conseguirm os tão am iúde pôr
nossa alm a nessa atitude correta, com pungida e devota em que precisa estar
para fazê-lo: do contrário, nossas orações não são apenas vãs e inúteis, m as
viciosas. “Perdoa-nos”, dizem os, “com o perdoam os aos que nos ofenderam .”
O que dizem os com isso, senão que Lhe oferecem os nossa alm a isenta de
vingança e rancor? Todavia, invocam os Deus e Sua aj uda para ser cúm plice
de nossos erros, e O convidam os à inj ustiça.
Quae nisi seductis nequeas committere divis. 201
O que só poderíam os confessar aos deuses à parte.
O avarento reza a Deus pela conservação vã e supérflua de seus tesouros; o
am bicioso, por suas vitórias e pela condução de seu destino; o ladrão recorre
à Sua aj uda para vencer o perigo e as dificuldades que se opõem à execução
de seus atos nefandos, ou agradece-Lhe pela facilidade que encontrou em
degolar um passante. Ao pé da casa que vão escalar ou explodir os hom ens fazem suas orações, enquanto suas intenções e esperanças estão cheias de
crueldade, luxúria e cupidez.
Hoc ipsum quo tu Jovis aurem impellere tentas,
Dic agedum, Staio, prob Juppiter, o bone, clamet,
Juppiter, at sese non clamet Juppiter ipse?202
O m esm o que queres confiar ao ouvido de Júpiter diz, afinal, a Staio: “Por
Júpiter, ó bom Júpiter!”, ele invocaria; e Júpiter não se invocaria por si
m esm o?
A rainha de Navarra, Margarida, evoca um j ovem príncipe (e, em bora não diga
seu nom e, sua grandeza o tornou bastante reconhecível) que, indo a um
encontro am oroso para dorm ir com a m ulher de um advogado de Paris, e
havendo em seu cam inho um a igrej a, ele nunca passava por esse lugar santo,
ao ir e ao voltar de sua escapada, sem fazer suas preces e orações. Deixo-
vos j ulgar em que ele em pregava, com a alm a repleta desse belo pensam ento, o favor divino. Todavia, ela cita isso com o prova de singular devoção. Mas não
é apenas por essa prova que poderíam os verificar que as m ulheres não são
m uito aptas a tratar das m atérias de teologia. Um a verdadeira oração e um a
reconciliação religiosa entre nós e Deus não podem cair num a alm a im pura e
subm issa, no m esm o m om ento, à dom inação de Satã. Quem invoca Deus em
seu auxílio enquanto está no cam inho do vício faz com o o gatuno de bolsas
que invocaria a j ustiça em seu auxílio; ou com o os que apelam para o nom e de
Deus com o testem unha de um a m entira;
tacito mala vuta susurro,
Concipimus. 203
em voz baixa, form ulam os nossos votos crim inosos.
Há poucos hom ens que ousariam trazer a público as súplicas secretas que
fazem a Deus.
Haud cuivis promptum est, murmurque humilesque susurros
Tollere de templis, et aperto vivere voto. 204
Não é perm itido a qualquer um expulsar dos tem plos os m urm úrios e os
cochichos furtivos e proferir a descoberto seus votos.
Eis por que os pitagorianos queriam que elas fossem públicas e ouvidas por todos, a fim de que não Lhe pedissem coisa indecente e inj usta, com o fez
este:
clare cum dixit Apolo,
Labra movet metuens audiri:pulchra Laverna
Da mihi fallere, da justum sanctumque videre.
Noctem peccatis, et fraudibus obiice nubem. 205 ele diz em voz alta: “Apolo”, e depois, tem endo ser ouvido, sopra baixinho:
“Bela Laverna, concede-m e que eu engane, concede-m e parecer j usto e
piedoso, faz noite sobre m eus pecados e m inhas falcatruas, oculta-as com
um a nuvem !
Os deuses puniram cruelm ente os iníquos votos de Édipo, ao acatá-los. Ele
pedira que seus filhos decidissem entre si, pelas arm as, a disputa da
sucessão de seu trono, e foi bastante infeliz ao ser atendido ao pé da letra.
Não devem os pedir que todas as coisas sigam nossa vontade, m as que esta
siga a sensatez. Na verdade, parece que nos servim os de nossas orações
com o de um j argão, e com o os que em pregam as palavras sacras e divinas
em feitiçarias e efeitos m ágicos; e que esperam os que o efeito dependa do
arranj o entre elas, ou de seu som , ou da sequência das palavras, ou de nossa
atitude. Pois, tendo a alm a repleta de concupiscência, não tocada pelo
arrependim ento nem por nenhum a nova reconciliação com Deus, vam os
apresentar-Lhe essas palavras que a m em ória em presta à nossa língua: e
delas esperam os obter a expiação para nossas faltas. Não há nada tão fácil,
tão doce e tão favorável com o a lei divina: cham a-nos a si, por m ais culpados
e detestáveis que form os, estende-nos os braços e recebe-nos em seu colo,
por m ais vis, suj os e enlam eados que estej am os e que estarem os no futuro.
Mas tam bém , em contrapartida, é preciso enxergá-la com o olhar certo;
tam bém é preciso receber esse perdão com um a ação de graças, e pelo
m enos, nesse instante em que nos dirigim os a ela, ter a alm a contrita de suas
faltas, e inim iga das paixões que nos levaram a ofendê-la: nem os deuses nem as pessoas de bem , diz Platão, aceitam o presente de um m au.