Os Ensaios

Michel de Montaigne · Capítulo 18 de 33

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Os Ensaios

Sobre as orações

extraviarem , a reverência por eles há de repô-las no rum o certo: eles vos

conservarão nessa via de vos contentardes convosco, de nada tom ar

em prestado senão de vós, de reter e fortalecer vossa alm a em cogitações

precisas e lim itadas em que ela possa se com prazer; e, tendo ouvido os

verdadeiros bens de que gozam os à m edida que os com preendem os,

contentar-vos com eles, sem desej ar prolongar a vida nem o nom e.” Eis o

conselho da verdadeira e pura filosofia, e não de um a filosofia ostentatória e

palavrosa, com o é a daqueles dois prim eiros.

Sobre as orações

Capítulo LVI

Para tratar desse assunto delicado, na fronteira do sagrado e do profano,

Montaigne retrabalhou muito o texto, tornando o capítulo três vezes maior

desde a primeira edição da obra, em 1580. A clareza se ressente um pouco

desses sucessivos acréscimos, mas sua profissão de fé católica é

claríssima. Temos aqui um enfoque mais aprofundado da austeridade e do

rigor do catolicismo de Montaigne. Os numerosos acréscimos foram em

parte uma resposta às críticas do Vaticano sobre a asserção de Montaigne

de que quando um homem reza deve estar purgado de seus pecados, sem

hipocrisia, e em lugar e circunstâncias próprios a essa prática. Os censores

do Vaticano examinaram particularmente este capítulo, e finalmente

recomendaram algumas correções. Tanto quanto em “Sobre o

arrependimento” (III, II), vemos que o catolicismo de Montaigne era exigente.

Ele condena, assim como Rabelais e, claro, Calvino, a oração mecânica que se faz sem um recolhimento especial. Sua ortodoxia rejeita toda tentativa de

tradução dos textos sagrados, para ele fonte de erros e de heresia.

Proponho noções disform es e inconclusas, com o fazem os que publicam

questões duvidosas, para serem debatidas nas escolas: não para estabelecer

a verdade, m as para procurá-la. E subm eto-as ao j ulgam ento daqueles a

quem cabe j ulgar não só m inhas ações e m eus escritos m as tam bém m eus

pensam entos. Ser-m e-ão igualm ente aceitáveis e úteis sua condenação com o

sua aprovação, considerando absurdo e ím pio se nessa rapsódia se encontrar

algo escrito que sej a contrário, por ignorância ou inadvertência, às santas

resoluções e prescrições da Igrej a Católica, Apostólica e Rom ana, na qual

m orro e na qual nasci. E no entanto, entregando-m e sem pre à autoridade de

sua censura, que tudo pode sobre m im , introm eto-m e assim , tem erariam ente,

e com o faço aqui, em propósitos de todo tipo. Não sei se m e engano m as, j á

que por um favor particular da bondade divina certo tipo de oração nos foi

prescrita e ditada, palavra por palavra, pela boca de Deus, sem pre m e

pareceu que devíam os fazer dela uso m ais corrente do que fazem os; e se

acreditassem em m im , no início e no fim de nossas refeições, em nosso

levantar e deitar, e em todas as ações particulares em que nos acostum am os

a incluir orações, gostaria que fosse o padre-nosso que os cristãos usassem ,

se não som ente, pelo m enos sem pre. A Igrej a pode estender e diversificar as

orações segundo sua necessidade de nos instruir, pois bem sei que é sem pre

a m esm a substância e a m esm a coisa. Mas àquela deveria se dar este

privilégio: que o povo a tivesse continuam ente na boca, pois é certo que diz tudo o que é preciso, e que é m uito adequada a todas as ocasiões. É a única

oração da qual m e sirvo para tudo, e repito-a em vez de trocá-la. Disso

resulta que não tenho outra tão bem na m em ória com o aquela. Estava

recentem ente pensando de onde nos vinha esse erro de recorrer a Deus em

todos os nossos proj etos e em preendim entos, e de cham á-Lo em toda sorte

de necessidade, e em qualquer lugar em que nossa fraqueza desej a aj uda,

sem considerar se a ocasião é j usta ou inj usta; e de invocar Seu nom e e Seu

poder em qualquer situação e ação que pratiquem os, por m ais pecadora que

sej a. Ele é de fato nosso só e único protetor, e para aj udar-nos pode todas as

coisas, m as, conquanto se digne a honrar-nos com essa doce aliança paterna, é, porém , tão j usto com o bom e poderoso. Mas usa bem m ais frequentem ente

Sua j ustiça do que Seu poder, e favorece-nos de acordo com essa j ustiça e

não segundo nossos pedidos. Em suas Leis, Platão distingue três tipos de

crença inj uriosa com relação aos deuses: que eles não existem , que não se

m etem nos nossos assuntos, que nada recusam a nossos votos, oferendas e

sacrifícios. O prim eiro erro, em sua opinião, j am ais perdurou, im utável, em um

hom em da infância à velhice. Os dois seguintes podem ser constantes. A

j ustiça e o poder de Deus são inseparáveis, em vão im ploram os Sua força em

um a causa m á: precisam os estar com a alm a lim pa, ao m enos naquele

m om ento em que rezam os a Ele, e esvaziada de paixões viciosas, do

contrário nós m esm os Lhe apresentam os as varas com que nos castigar. Em

vez de repararm os nossa falta, nós a redobram os, apresentando àquele a

quem devem os pedir perdão um sentim ento cheio de irreverência e ódio. Eis

por que não m e agrada louvar os que vej o rezar a Deus m ais frequente e

constantem ente, se os atos próxim os da oração não m e dem onstram

nenhum a em enda ou correção,

si nocturnus adulter

Tempora sanctonico velas adoperta cucullo. 190

se para com eter teus adultérios noturnos tu te escondes e envolves tuas

têm poras num capuz santônico.

E a posição de um hom em que m istura a devoção com um a vida execrável

parece ser bem m ais condenável que a de um hom em coerente consigo

m esm o e inteiram ente dissoluto. Por isso, nossa Igrej a recusa todos os dias

aos que se obstinam em fazer algum a insigne m aldade o favor de adm iti-los

em sua com unidade. Rezam os por hábito e por costum e, ou m elhor, lem os ou

pronunciam os nossas preces: não é, enfim , m ais que um a m ím ica. E

desagrada-m e ver fazerem três sinais da cruz no Benedicite, outros tantos

nas Graças191 (e desagrada-m e m ais por ser um sinal que reverencio e utilizo constantem ente, m esm o quando bocej o) e, no entanto, todas as outras horas

do dia vê-los dedicados ao ódio, à avareza, à inj ustiça. Hora para os vícios,

hora para Deus, com o por com pensação e arranj o. É um m ilagre ver

sucederem -se ações tão incom patíveis, de teor tão parecido, a ponto de não

se sentir interrupção e hesitação nem m esm o nas fronteiras e na passagem

de um a à outra. Que m onstruosa consciência pode encontrar descanso

enquanto nutre num m esm o lugar, em convívio tão harm onioso e tão pacífico,

o crim e e o j uiz? Um hom em cuj a licenciosidade governa incessantem ente sua

cabeça, e que a j ulga m uito odiosa aos olhos divinos, que diz ele a Deus quando lhe fala disso? Recupera-se, m as subitam ente torna a cair. Se, com o diz, o conceito de j ustiça divina e sua presença golpearam e castigaram sua

alm a, por m ais curta que fosse a penitência o sim ples tem or volveria seu

pensam ento para ela, tão am iúde que, de im ediato, ele dom inaria esses vícios

que lhe são habituais e lhe estão incrustados. Mas qual! E os que fundam um a

vida inteira nos frutos e nos lucros do pecado que sabem ser m ortal? Quantos

ofícios e profissões socialm ente reconhecidas tem os cuj a essência é viciosa?

E aquele que, confiando-se a m im , recitava-m e ter toda a sua vida professado

e praticado o ritual de um a religião condenável, segundo ele m esm o, e

contraditória com a que tinha no coração, para não perder seu crédito e a

honra de seus cargos, com o conciliava esses pensam entos em seu

coração?192 Com que linguagem conversam com a j ustiça divina a respeito desse assunto? Com o seu arrependim ento requer um a reparação visível e

tangível, perdem o direito de evocá-lo, tanto perante Deus com o perante nós.

São tão ousados para pedir perdão sem satisfação193 e sem arrependim ento?

Penso que é o caso daqueles prim eiros194 com o destes, m as daqueles não é tão fácil m ostrar a obstinação. Essa contradição e essa volubilidade tão

súbitas, tão violentas, que fingem diante de nós m e cheiram a m ilagre.

Revelam o estado de um indigerível conflito. E com o m e parecia fantástica a

concepção daqueles que, nesses últim os anos, tinham o costum e de criticar

qualquer um em quem reluzisse certa clareza de espírito e que professasse a

religião católica, dizendo que era fingim ento! E até afirm avam , para honrá-lo,

que pouco im portava o que dissesse externam ente, pois não podia deixar de

ter, internam ente, sua fé reform ada pelos padrões deles. Fastidiosa

enferm idade, a de se crer tão forte a ponto de persuadir-se de que não é possível acreditar no contrário, e m ais fastidiosa ainda quando a pessoa se

convence de que um espírito assim prefere não sei qual m elhora de sua sorte

atual às esperanças e am eaças da vida eterna! Eles podem crer em m im : se

algo tivesse m e tentado na j uventude, boa parte disso teria sido o gosto pelos

riscos e as dificuldades que acom panhavam esse recente em preendim ento. 195

Não é sem boa razão, parece-m e, que a Igrej a proíbe o uso prom íscuo,

tem erário e leviano dos salm os sagrados e divinos que o Espírito Santo ditou

a Davi. 196 Não devem os m isturar Deus às nossas ações a não ser com reverência e atenção plena de dignidade e respeito. Essa palavra é divina

dem ais e deve ter outro uso que não exercitar os pulm ões e agradar a nossos

ouvidos. É na consciência que deve ser produzida e não na língua. Não é

correto perm itir que um caixeiro de arm azém se entretenha e brinque com ela,

entre seus pensam entos vãos e frívolos. Nem decerto é correto ver largado na

sala ou na cozinha o Livro Sagrado dos m istérios de nossa fé. Outrora eram m istérios, agora são divertim entos e passatem pos. Não é de passagem , nem

de form a tum ultuada que devem os m anipular um estudo tão sério e venerável.

Deve ser um a ação prem editada e séria, à qual sem pre há que acrescentar

este prefácio do nosso ofício, sursum corda, [elevem os os corações,] e tendo

o próprio corpo disposto em atitude que ateste um a particular atenção e

reverência. Não é estudo para todo m undo: é estudo para pessoas que a isso

se dedicaram , que Deus cham a para tal; os m aus, os ignorantes tornam -se

piores com isso. Não é um a história para contar; é um a história para

reverenciar, tem er e adorar. Engraçadas essas pessoas que pensam tê-la

tornado m anej ável pelo povo, por tê-la posto em linguagem popular. 197 Quando não entendem tudo o que encontram por escrito a culpa seria só das

palavras? Direi m ais? Quando trazem para um pouco m ais perto deles essa

história, na verdade a afastam . A m era ignorância, que se entrega

inteiram ente a outrem , era bem m ais salutar e m ais sábia do que é essa

ciência verbal e vã e que nutre presunção e tem eridade. Creio tam bém que a

liberdade de cada um de difundir um a palavra tão religiosa e im portante em

tantos tipos de idiom as apresenta m uito m ais perigo que utilidade. Os j udeus,

os m aom etanos e quase todos os outros desposaram e reverenciam a língua

em que originalm ente seus m istérios foram concebidos, e são proibidas sua

alteração e m udança: não sem razão. Sabem os se há de fato no País Basco

e na Bretanha j uízes suficientes para estabalecer um a tradução feita em suas

línguas? A Igrej a universal não tem decisão m ais árdua e solene a tom ar, pois

pregada e falada a interpretação é vaga, livre, variável e fragm entada, m as

quando escrita não é a m esm a coisa. Um de nossos historiadores gregos

acusa j ustam ente seu século de ter espalhado na praça os segredos da

religião cristã, em m ãos dos artesãos m enores: cada um podia debater e falar

segundo sua interpretação. E que deveria ser grande vergonha para nós, nós

que pela graça de Deus desfrutam os dos puros m istérios da piedade, deixá-

los ser profanados na boca de pessoas ignorantes e populares, visto que os

pagãos proibiam Sócrates, Platão e os m ais sábios de inquirir e falar das

coisas confiadas aos sacerdotes de Delfos. Diz tam bém que as facções dos

príncipes, em m atéria de teologia, são arm adas não de zelo m as de cólera;

que o zelo decorre da razão divina e da j ustiça, quando se conduz m oderada e ordenadam ente, m as que se torna ódio e invej a e produz, em vez de trigo e

uva, j oio e urtigas quando conduzido por um a paixão hum ana. E tam bém ,

j ustam ente, há esse outro, conselheiro do im perador Teodósio, que dizia que

as disputas não acalm am tanto os cism as da Igrej a m as os despertam e

anim am as heresias. Que por isso era preciso fugir de todas as controvérsias

e argum entações dialéticas e reportar-se m eram ente às prescrições e

fórm ulas da fé estabelecidas pelos Antigos. E o im perador Andrônico, tendo

encontrado em seu palácio dois hom ens im portantes às voltas com palavras

contra Lopádio, sobre um de nossos pontos de m aior im portância,

repreendeu-os até am eaçar j ogá-los no rio se continuassem . Em nossos dias,

crianças e m ulheres ensinam aos hom ens m ais velhos e experientes as leis

eclesiásticas, enquanto a prim eira das leis de Platão as proíbe de

sim plesm ente indagar a razão das leis civis, que devem fazer as vezes de

decretos divinos. E perm itindo que os velhos discutissem entre si sobre isso, e

tam bém com o m agistrado, acrescenta: “contanto que não sej a em presença

dos j ovens e de pessoas profanas”. Um bispo deixou por escrito que, no outro

lado do m undo, há um a ilha que os antigos cham avam de Dioscórida, 198

apreciável em fertilidade, com todos os tipos de árvores e frutas, e em

salubridade do ar; seu povo é cristão, tendo igrej as e altares que só são

param entados de cruzes, sem outras im agens; grandes observadores de

j ej uns e de festas, pagadores perfeitos dos dízim os aos sacerdotes, e tão

castos que nenhum deles pode conhecer m ais de um a m ulher em sua vida.

Aliás, tão contentes com sua fortuna, no m eio do m ar, ignoram o uso de navios; e tão sim ples que da religião que observam com tanto cuidado não

entendem um a só palavra. Coisa inacreditável, para quem não soubesse, os

pagãos, idólatras tão devotos, só conhecem de seus deuses, sim plesm ente, o

nom e e a estátua. O com eço original de Melanipe, tragédia de Eurípides, era

assim :

O Juppiter, car de toy rien sinon

Je ne cognois seulement que le nom. 199

Ó Júpiter! Porque de ti nada sei além do nom e.

Tam bém vi em m inha época reclam arem de certos textos porque são

m eram ente hum anos e filosóficos, sem m istura de teologia. Quem dissesse o

contrário não estaria, porém , sem algum a razão: que a doutrina divina

preserva m elhor sua posição se colocada à parte, com o rainha e governadora;

que deve ser a principal em tudo, e não sufragânea e subsidiária. E que talvez

a gram ática, a retórica e a lógica tirassem exem plos m ais adequados de outro

lugar que de tão santa m atéria, assim com o os argum entos dos teatros, j ogos

e espetáculos públicos. Que as razões divinas são consideradas com m ais

veneração e reverência se expostas isoladam ente e em seu estilo do que

em parelhadas com os discursos hum anos. Que é falta m ais frequente ver

teólogos que escrevem hum anam ente dem ais do que hum anistas que

escrevem pouco teologicam ente: a filosofia, diz são Crisóstom o, está há m uito tem po banida da escola sacra, com o serva inútil, e é considerada indigna de

avistar, ainda que de passagem e da entrada, o sacrário dos tesouros santos

da doutrina celeste. Que a linguagem hum ana tem suas form as m ais baixas e

não deve servir-se da dignidade, da m aj estade, da suprem acia do verbo

divino. Quanto a m im , deixo-a dizer, verbis indisciplinatis, 200em term os não aprovados,] fortuna, destino, acidente, ventura e desventura, e os deuses, e

outras expressões, à sua m oda. Proponho m eus pensam entos hum anos com o

sim ples pensam entos hum anos, e considerados separadam ente: não com o

decretados e regulados por m andam ento divino, incapaz de dúvida e

controvérsia. Matéria de opinião, não m atéria de fé. O que penso segundo eu

m esm o, não o que creio segundo Deus, e de um m odo laico, não clerical, m as

sem pre m uito religioso. Com o os m eninos leem seus ensaios para ser

instruídos e não para instruir. E tam bém não se poderia dizer, aparentem ente

com razão, que o decreto proibindo a todos de escrever sobre religião (senão

bem reservadam ente), exceto aos que disso fazem profissão específica, não

deixaria de ter certo sem blante de utilidade e j ustiça? E que eu, j unto com

eles, talvez devesse m e calar? Disseram -m e que aqueles m esm os que não

são dos nossos proíbem porém , entre eles, o uso do nom e de Deus em suas

conversas com uns: não querem que sej a em pregado com o interj eição ou

exclam ação, nem com o testem unho nem com o com paração, no que creio têm

razão. E, sej a qual for a m aneira com o invocam os Deus para nossa

com panhia e convívio, é preciso ser séria e devotam ente. Parece-m e que há

em Xenofonte um discurso assim , em que ele m ostra que devem os rezar a

Deus m ais raram ente, tanto m ais que não é fácil conseguirm os tão am iúde pôr

nossa alm a nessa atitude correta, com pungida e devota em que precisa estar

para fazê-lo: do contrário, nossas orações não são apenas vãs e inúteis, m as

viciosas. “Perdoa-nos”, dizem os, “com o perdoam os aos que nos ofenderam .”

O que dizem os com isso, senão que Lhe oferecem os nossa alm a isenta de

vingança e rancor? Todavia, invocam os Deus e Sua aj uda para ser cúm plice

de nossos erros, e O convidam os à inj ustiça.

Quae nisi seductis nequeas committere divis. 201

O que só poderíam os confessar aos deuses à parte.

O avarento reza a Deus pela conservação vã e supérflua de seus tesouros; o

am bicioso, por suas vitórias e pela condução de seu destino; o ladrão recorre

à Sua aj uda para vencer o perigo e as dificuldades que se opõem à execução

de seus atos nefandos, ou agradece-Lhe pela facilidade que encontrou em

degolar um passante. Ao pé da casa que vão escalar ou explodir os hom ens fazem suas orações, enquanto suas intenções e esperanças estão cheias de

crueldade, luxúria e cupidez.

Hoc ipsum quo tu Jovis aurem impellere tentas,

Dic agedum, Staio, prob Juppiter, o bone, clamet,

Juppiter, at sese non clamet Juppiter ipse?202

O m esm o que queres confiar ao ouvido de Júpiter diz, afinal, a Staio: “Por

Júpiter, ó bom Júpiter!”, ele invocaria; e Júpiter não se invocaria por si

m esm o?

A rainha de Navarra, Margarida, evoca um j ovem príncipe (e, em bora não diga

seu nom e, sua grandeza o tornou bastante reconhecível) que, indo a um

encontro am oroso para dorm ir com a m ulher de um advogado de Paris, e

havendo em seu cam inho um a igrej a, ele nunca passava por esse lugar santo,

ao ir e ao voltar de sua escapada, sem fazer suas preces e orações. Deixo-

vos j ulgar em que ele em pregava, com a alm a repleta desse belo pensam ento, o favor divino. Todavia, ela cita isso com o prova de singular devoção. Mas não

é apenas por essa prova que poderíam os verificar que as m ulheres não são

m uito aptas a tratar das m atérias de teologia. Um a verdadeira oração e um a

reconciliação religiosa entre nós e Deus não podem cair num a alm a im pura e

subm issa, no m esm o m om ento, à dom inação de Satã. Quem invoca Deus em

seu auxílio enquanto está no cam inho do vício faz com o o gatuno de bolsas

que invocaria a j ustiça em seu auxílio; ou com o os que apelam para o nom e de

Deus com o testem unha de um a m entira;

tacito mala vuta susurro,

Concipimus. 203

em voz baixa, form ulam os nossos votos crim inosos.

Há poucos hom ens que ousariam trazer a público as súplicas secretas que

fazem a Deus.

Haud cuivis promptum est, murmurque humilesque susurros

Tollere de templis, et aperto vivere voto. 204

Não é perm itido a qualquer um expulsar dos tem plos os m urm úrios e os

cochichos furtivos e proferir a descoberto seus votos.

Eis por que os pitagorianos queriam que elas fossem públicas e ouvidas por todos, a fim de que não Lhe pedissem coisa indecente e inj usta, com o fez

este:

clare cum dixit Apolo,

Labra movet metuens audiri:pulchra Laverna

Da mihi fallere, da justum sanctumque videre.

Noctem peccatis, et fraudibus obiice nubem. 205 ele diz em voz alta: “Apolo”, e depois, tem endo ser ouvido, sopra baixinho:

“Bela Laverna, concede-m e que eu engane, concede-m e parecer j usto e

piedoso, faz noite sobre m eus pecados e m inhas falcatruas, oculta-as com

um a nuvem !

Os deuses puniram cruelm ente os iníquos votos de Édipo, ao acatá-los. Ele

pedira que seus filhos decidissem entre si, pelas arm as, a disputa da

sucessão de seu trono, e foi bastante infeliz ao ser atendido ao pé da letra.

Não devem os pedir que todas as coisas sigam nossa vontade, m as que esta

siga a sensatez. Na verdade, parece que nos servim os de nossas orações

com o de um j argão, e com o os que em pregam as palavras sacras e divinas

em feitiçarias e efeitos m ágicos; e que esperam os que o efeito dependa do

arranj o entre elas, ou de seu som , ou da sequência das palavras, ou de nossa

atitude. Pois, tendo a alm a repleta de concupiscência, não tocada pelo

arrependim ento nem por nenhum a nova reconciliação com Deus, vam os

apresentar-Lhe essas palavras que a m em ória em presta à nossa língua: e

delas esperam os obter a expiação para nossas faltas. Não há nada tão fácil,

tão doce e tão favorável com o a lei divina: cham a-nos a si, por m ais culpados

e detestáveis que form os, estende-nos os braços e recebe-nos em seu colo,

por m ais vis, suj os e enlam eados que estej am os e que estarem os no futuro.

Mas tam bém , em contrapartida, é preciso enxergá-la com o olhar certo;

tam bém é preciso receber esse perdão com um a ação de graças, e pelo

m enos, nesse instante em que nos dirigim os a ela, ter a alm a contrita de suas

faltas, e inim iga das paixões que nos levaram a ofendê-la: nem os deuses nem as pessoas de bem , diz Platão, aceitam o presente de um m au.