Os Ensaios
Sobre versos de Virgílio
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
paredes, há m uito tem po abandonei. Os livros têm m uitas qualidades
agradáveis para os que sabem escolhê-los. Mas não há bem que se obtenha
sem pena. É um prazer que não é m ais puro nem m ais fácil que os outros: tem
seus inconvenientes, e bem pesados. Neles a alm a se exercita m as o corpo,
cuj o cuidado tam bém não esqueci, perm anece enquanto isso sem ação,
degrada-se e se entristece. Não sei de excesso m ais prej udicial para m im ,
nem m ais a evitar neste declínio da idade. Essas são m inhas três ocupações
favoritas e particulares. Não falo das que devo ao m undo por obrigação civil.
Sobre versos de Virgílio
Capítulo V
Este longo capítulo mantém uma relação bastante frouxa com o título, que
permanece misterioso até que Montaigne comente os versos da Eneida cujo
realismo destituído de obscenidade Aulo Gélio já tinha louvado. O autor
explica, em tom quase professoral, a beleza da poesia latina e a força de
seu léxico sintético e sugestivo. Atribui a palma à Eneida, texto máximo de
Virgílio, que é então considerado, junto com Homero, o maior poeta de todos
os tempos. Aqui também se lerão as confidências mais íntimas sobre a
sexualidade de Montaigne, abertamente retratada; sobre sua velhice que
definha a potência física, sobre seu código do amor. A preocupação com o
casamento e a sexualidade era difundida no Renascimento, devido à
Reforma protestante e também à fermentação na Igreja católica, nas
universidades, nos círculos jurídicos e médicos. Montaigne contrapõe
constantemente o nós dos homens ao elas das mulheres; denuncia o paradoxo das sociedades modernas, em que a religião, a moral e as escolas
filosóficas refreiam e censuram as necessidades naturais do corpo, pedindo
às mulheres apenas o heroísmo de recalcar seus desejos segundo regras
que os homens fizeram sem elas. A conclusão é surpreendente: as mulheres
deveriam ter mais liberdade. Este capítulo foi suprimido na chamada edição
de Lyon, edição clandestina que saiu no mesmo ano da póstuma e visava o
público protestante de Genebra.
À m edida que os tem as de reflexão são m ais abundantes e sólidos, são
tam bém m ais dificultosos e m ais pesados. O vício, a m orte, a pobreza, as
doenças são assuntos graves que nos sobrecarregam . Precisam os ter um a
alm a instruída nas m aneiras de suportar e com bater os m ales, e instruída nas
regras de bem viver e de bem crer; e não raro precisam os despertá-la e
exercitá-la nesse belo estudo. Mas para um a alm a do tipo com um , cum pre
que isso sej a feito com pausas e m oderação: ela se cansa de ser m uito
continuam ente solicitada. Na j uventude, para m anter-m e no dever eu devia m e
precaver e aconselhar a m im m esm o: a alegria e a saúde não convivem m uito
bem , dizem , com esses pensam entos sérios e sensatos. Atualm ente encontro-
m e em outro estado. As condições da velhice advertem -m e até dem ais,
tornam -m e sensato e aconselham -m e. Do excesso de alegria caí no excesso
de severidade: m ais aborrecido. Por isso, a essa hora deixo-m e levar um
pouco pela libertinagem , de propósito, e às vezes em prego a alm a em
pensam entos de j uventude, brincalhões, em que ela descansa. Agora estou
até sereno dem ais, pesado dem ais e m aduro dem ais. Diariam ente os anos m e dão um a lição de frieza e tem perança. Este corpo foge do desregram ento e o
tem e: cabe-lhe, por sua vez, guiar o espírito para o aperfeiçoam ento; é ele
que, por sua vez, com anda, m ais dura e im periosam ente. Não m e deixa um a
só hora de folga, nem dorm indo nem velando, no ensino da m orte, do
sofrim ento e da penitência. Defendo-m e da tem perança com o outrora m e
defendi da volúpia: ela m e puxa m uito para trás, até m e deixar entorpecido.
Ora, quero ser senhor de m im , em todos os sentidos. A sabedoria tem seus
excessos e tem tanta necessidade de m oderação com o de loucura. Assim , de
m edo de que eu resseque, m e esgote, m e sobrecarregue de prudência, nos
intervalos que m eus m ales m e dão,
mens intenta suis ne siet usque malis, 347
de m edo de que m eu espírito estej a sem pre estendido para m eus m ales,
desvio-m e bem de m ansinho e escondo m inha vista desse céu tem pestuoso e
nublado que tenho à m inha frente. O qual, graças a Deus, considero sem
pavor m as não sem contenção e sem estudo. E vou m e divertindo com a
lem brança da m ocidade passada:
animus quod perdidit, optat,
Atque in praeterita se totus imagine versat. 348
m eu espírito desej a o que perdeu e vira-se inteiro para a representação do
passado.
Que a infância olhe diante de si, e a velhice, para trás: não era o que
significava a dupla face de Jano? Que os anos m e arrastem , se quiserem ,
m as de costas. Enquanto m eus olhos conseguem reconhecer essa bela quadra que expirou, dirij o-os a ela a intervalos. Se ela escapa de m eu sangue
e de m inhas veias, ao m enos sua im agem não quero desenraizar da m em ória,
hoc est,
Vivere bis, vita posse priore frui. 349
poder desfrutar de sua vida passada é viver duas vezes.
Platão prescreve aos velhos assistir aos exercícios, danças e j ogos da
j uventude para se deleitarem nos outros com a flexibilidade e a beleza do
corpo que neles j á não existem , e evocar em sua lem brança a graça e o favor
dessa idade verdej ante. E quer que nesses folguedos eles concedam a honra
da vitória ao j ovem que m ais tiver divertido e alegrado o m aior núm ero de
velhos. Antigam ente eu m arcava os dias pesados e tenebrosos com o sendo
extraordinários: estes são agora os m eus ordinários, os extraordinários são os
belos e serenos. Eis-m e a ponto de estrem ecer, com o por um novo favor,
quando algum a coisa não m e doer. Em bora eu m e faça cócegas, agora j á não
consigo arrancar um pobre riso deste pobre corpo. Só m e alegro em
im aginação e em sonho: para desviar, pela astúcia, a tristeza da velhice. 350
Mas, decerto, seria preciso outro rem édio além do sonho. Fraca luta da arte
contra a natureza. É grande bobagem prolongar e antecipar, com o todos
fazem , as m azelas hum anas. Prefiro ser velho m enos tem po a ser velho antes
de sê-lo. Agarro até m esm o as m enores ocasiões de prazer que posso
encontrar. Conheço bem , por ouvir dizer, várias espécies de volúpias,
prudentes, fortes e louváveis, m as o que sei não é suficiente para m e abrir o
apetite. Não as quero tão grandiosas, m agníficas e fastuosas, e sim as quero doces, fáceis e disponíveis. A natura discedimus: populo nos damus, nullius rei
bono auctori. 351 Afastam o-nos da natureza, abandonam o-nos à m ultidão, sem pre m á conselheira.] Minha filosofia está na ação, no uso natural e
presente: pouco na fantasia. Pudesse eu ter prazer em brincar de bolinhas e
de pião!
Non ponebat enim rumores ante salutem. 352
Pois ele não colocava o rum or popular acim a da salvação do Estado.
A voluptuosidade é qualidade pouco am biciosa: estim a-se bastante rica por si
m esm a, sem lhe ser acrescentado o prêm io da reputação, e prefere ficar na
som bra. Se um rapaz se diverte na j uventude em diferenciar o gosto dos
vinhos e dos m olhos, devem os aplicar-lhe o chicote; não há nada que eu
m enos tenha sabido e apreciado: a esta hora estou a aprendê-lo. Tenho
grande vergonha disso, m as que fazer? Tenho ainda m ais tristeza e vergonha
das causas que m e levam a isso. Cabe-nos devanear e peram bular, e à
j uventude, tentar conquistar um a reputação e os m elhores lugares. Ela vai
rum o ao m undo, rum o ao reconhecim ento: nós estam os voltando de lá. Sibi
arma, sibi equos, sibi hastas, sibi clavam, sibi pilam, sibi natationes et
cursus habeant: nobis senibus, ex lusionibus multis, talos relinquant et
tesseras. 353A eles as arm as, os cavalos, as lanças, a m aça, a bola, a natação e a corrida; a nós outros, os velhos, que nos deixem , entre tantas distrações,
os ossinhos e os dados.] As próprias leis nos m andam para casa. O m ínim o
que posso fazer para essa m ofina condição a que m inha idade m e im pele é
fornecer-lhe brinquedos e brincadeiras, com o na infância: assim , é nela que
recaím os. E a sabedoria e a loucura terão m uito a fazer para m e escorar e
socorrer, alternadam ente, com seus serviços nessa calam itosa idade.
Misce stultitiam consiliis brevem. 354
Mistura à tua sabedoria um grão de loucura.
Fuj o igualm ente das m ais leves ferroadas, e as que antigam ente nem sequer
m e arranhariam atualm ente m e transpassam . Meu m odo de ser com eça a
acostum ar-se naturalm ente à dor: in fragile corpore odiosa omnis offensio
est. 355para um corpo frágil qualquer agressão é insuportável.
Mensque pati durum sustinet aegra nihil.356
E um espírito doente não consegue suportar nada penoso.
Sem pre fui suscetível e delicado para as dores, sou m ais frágil ainda neste m om ento, e estou exposto de todos os lados.
Et minimae vires frangere quassa valent. 357
O m enor choque pode quebrar o que está rachado.
Meu j uízo im pede-m e de m e insurgir e resm ungar contra os inconvenientes
que a natureza m e m anda sofrer, m as não de senti-los. Eu, que não tenho
outro obj etivo além de viver e divertir-m e, correria de um extrem o do m undo
ao outro em busca de um bom ano de tranquilidade am ena e divertida. A
tranquilidade som bria e inerte não m e falta, m as ela m e adorm ece e aborrece:
não m e contento com isso. Se houver alguém , algum a boa com panhia, nos
cam pos, na cidade, na França ou em outro lugar, caseira ou viaj eira, que se
der bem com m eu tem peram ento, e eu com o dela, basta assobiar com os
dedos e irei, em carne e osso, fornecer-lhes m eus Ensaios. Já que é privilégio
do espírito escapar da velhice, aconselho-o, tanto quanto possível, a fazê-lo:
que enquanto isso ele vicej e, floresça se puder, com o o visgo sobre um a árvore m orta. Tem o que sej a um traidor: irm anou-se tão estreitam ente ao
corpo que m e abandona o tem po todo, para segui-lo em suas m isérias. Afago-
o à parte, persuado-o, em vão: por m ais que tenha tentado desviá-lo dessa
conivência e lhe apresentado tanto Sêneca com o Catulo, e as dam as e as
danças reais, se seu com panheiro sente cólicas parece que ele tam bém
sente. Até m esm o as atividades que lhe são peculiares e próprias não
conseguem então sublevar-se: cheiram , evidentem ente, a catarro; não há m ais
alegria em suas produções se não as há, ao m esm o tem po, no corpo. Nossos
m estres estão errados quando procuram as causas dos arroubos
extraordinários de nosso espírito: além do que atribuem a um ím peto divino,
ao am or, à acrim ônia guerreira, à poesia, ao vinho, não reconhecem neles a
parte representada pela boa saúde. Um a saúde transbordante, vigorosa,
plena, sem distúrbio, tal com o a que outrora o verdor dos anos e a segurança
m e forneciam por m om entos. Esse fogo da alegria suscita no espírito
fulgurâncias vivas e claras além de nosso alcance natural: e entre nossos
entusiasm os, os m ais prazenteiros se não os m ais desvairados. Assim , pois,
não é de espantar se um estado contrário prostre m eu espírito, o im obilize e
produza um efeito oposto.
Ad nullum consurgit opus cum corpore languet. 358
Nada o faz reerguer-se quando a força deixou seu corpo.
E m eu espírito ainda quer que eu lhe sej a grato porque m e confere, com o diz, m uito m enos im portância a esse entendim ento com o corpo do que a prática
usual entre os hom ens. Pelo m enos enquanto tem os um a trégua, expulsem os
os m ales e as dificuldades de nossa relação,
Dum licet obducta solvatur fronte senectus:359
Enquanto for possível, que a velhice desenrugue sua fronte preocupada:
tetrica sunt amaenanda jocularibus.360 suavizem os a tristeza com nossas brincadeiras. Gosto de um a sabedoria alegre e sociável e fuj o da dureza dos
costum es e da austeridade, considerando suspeita qualquer fisionom ia
rebarbativa.
Tristemque vultus tetrici arrogantiam. 361
E a som bria arrogância de um rosto triste.
Et habet tristis quoque turba cynaedos. 362
E a som bria tropa tem tam bém seus devassos.
Creio de coração em Platão, que diz que os hum ores fáceis ou difíceis são de
grande influência para a bondade ou m aldade da alm a. Sócrates tinha sem pre
o m esm o sem blante, m as sereno e risonho. Não desagradavelm ente
constante, com o o velho Crasso, que nunca se viu rir. A virtude é um a
qualidade am ena e alegre. Bem sei que pouquíssim as pessoas resm ungarão
diante da liberdade de m eus escritos que não tenham de resm ungar diante da
liberdade de seus pensam entos: estou de acordo com os sentim entos delas,
m as ofendo-lhes os olhos. Só m esm o um a cabeça m uito m etódica pode
folhear os textos de Platão e passar por alto suas pretensas relações com
Fédon, Díon, Estela, Arquianassa. Non pudeat dicere, quot non pudeat
sentire.363 Não nos envergonhem os de dizer o que não nos envergonham os de pensar.] Detesto um espírito rabugento e triste que resvala por cim a dos
prazeres da vida e apega-se aos infortúnios com que se alim enta. Com o as
m oscas, que não se aguentam em cim a de um corpo bem polido e bem liso, e agarram -se e descansam em lugares rugosos e ásperos. E com o as
sanguessugas, que só farej am e procuram o sangue ruim . De resto, im pus-m e
dizer tudo o que ouso fazer, e até m e desagrada ter pensam entos
im publicáveis. A pior de m inhas ações ou qualidades não m e parece tão feia
com o acho feio e covarde não poder confessá-la. Todo m undo é discreto na
confissão, na ação é que deveríam os ser. A ousadia de com eter um erro é de certa form a com pensada e refreada pela ousadia de confessá-lo. Quem se
obrigasse a tudo dizer obrigar-se-ia a nada fazer do que é forçado a calar.
Queira Deus que essa m inha excessiva licença atraia nossos hom ens para a
liberdade, por cim a dessas virtudes covardes e de fachada, nascidas de
nossas im perfeições: que à custa de m inha im oderação eu os atraia para o
auge da razão. Para criticar o próprio vício é preciso vê-lo e estudá-lo: os que
o escondem de outra pessoa, em geral o escondem de si m esm os: e, se o
veem , não o consideram oculto o suficiente. Eles o subtraem e o dissim ulam
de sua própria consciência. Quare vitia sua nemo consitetur? Quia etiam
nunc in illis est, somnium narrare, vigilantis est. 364 De onde vem isso de que ninguém confessa seus vícios? É que ainda estam os sob sua influência: é
preciso estar desperto para contar seus sonhos.] Os m ales do corpo aclaram -
se ao se am pliarem . Acham os que é gota o que cham ávam os de reum atism o
ou entorse. Os m ales da alm a se obscurecem ao se fortalecerem : o m ais
doente é o que m enos os sente. Por isso precisam os frequentem ente trazer à
luz os m ales da alm a com m ão im piedosa: abri-los e arrancá-los do fundo de
nosso peito. Com o em m atéria de boas ações, tam bém em m atéria de m ás
ações o único j eito de ficar quite com elas é confessá-las. Há no erro certa fealdade que nos dispense de confessá-lo? Sofro um a punição ao fingir, a tal
ponto que evito receber sob m inha guarda os segredos alheios, não tendo o
gosto de dissim ular o que sei. Posso calá-los, m as negá-los não posso sem
esforço e desprazer. Para ser bem secreto, há que sê-lo por natureza, não
por obrigação. No serviço dos príncipes, ser secreto é pouco se não form os
tam bém m entirosos. Se o hom em que perguntou a Tales de Mileto se devia
negar solenem ente ter caído na libertinagem tivesse se dirigido a m im , eu lhe
teria respondido que não devia fazê-lo, pois m entir ainda m e parece pior que a
libertinagem . Tales aconselhou j usto o contrário, e que ele o j urasse para
esconder um grande vício debaixo de um m enor. Todavia, esse conselho não
era tanto um a escolha entre dois vícios, m as um a m ultiplicação. A esse
respeito, diga-se de passagem , propom os um bom negócio a um hom em de
consciência quando lhe oferecem os um a dificuldade com o contrapeso de um
vício; m as quando o aprisionam os entre dois vícios, colocam o-lo diante de
um a dura escolha. Com o se fez com Orígenes: que ele com etesse idolatria ou
que sofresse o gozo carnal de um grande patife etíope que lhe apresentaram .
Subm eteu-se à prim eira condição, e erradam ente, dizem . No entanto, não
seriam sem discernim ento essas m ulheres que atualm ente pretendem que, em
virtude de sua fé errada, prefeririam carregar na consciência dez hom ens a
um a m issa. Se é indiscrição divulgar assim os próprios erros, não há grande
perigo de que sirvam de exem plo e se tornem costum e. Pois Aríston dizia que os ventos que os hom ens m ais tem em são os que os deixam despidos. Tem os
de arregaçar esses tolos farrapos que escondem nossos costum es: os
hom ens enviam a própria consciência ao bordel m as m antêm em ordem a
aparência. Até m esm o os traidores e os assassinos desposam as leis da
etiqueta e im põem -se o dever de respeitá-las. Porém , não cabe à inj ustiça
queixar-se da descortesia, nem à m alícia queixar-se da indiscrição. É pena
que um hom em m au não sej a tam bém um tolo, e que a decência atenue seu
vício. Esses estuques só são feitos para um a parede boa e firm e, que m ereça
ser preservada e caiada. Concordo com os huguenotes, que criticam nossa
confissão privada e auricular, e confesso-m e em público, escrupulosa e
com pletam ente. Santo Agostinho, Orígenes e Hipócrates publicaram os erros
de suas opiniões: eu, de m eus costum es. Tenho fom e de m e dar a conhecer,
e pouco im porta a quantos, contanto que sej a verdadeiram ente. Ou m elhor,
não tenho fom e de nada: m as fuj o m ortalm ente de ser visto com o quem não
sou pelas pessoas a quem suceda conhecer-m e de nom e. Quem faz tudo pela
honra e pela glória, o que pensa em ganhar m ostrando-se m ascarado ao
m undo, escondendo seu ser verdadeiro do conhecim ento do povo? Elogie-se
um corcunda por sua bela estatura, e ele o receberá com o inj úria: se sois
covarde e vos honram com o a um hom em valente, será que é de vós que
estão falando? Confundem -vos com um outro. Eu tam bém m e divertiria com
quem se felicitasse pelos salam aleques que lhe fazem , pensando que é o
chefe do grupo, quando é dos m enores do séquito. Quando Arquelau, rei da
Macedônia, passou por um a rua, alguém despej ou-lhe água: os que assistiam
disseram que ele devia puni-lo. “É possível”, disse, “m as ele não j ogou água
em m im , e sim naquele que pensava ser eu.” Sócrates disse a quem lhe
avisou que falavam m al dele: “De j eito nenhum . Não há nada de m im no que dizem ”. Quanto a m im , a quem m e elogiasse por ser bom navegador, por ser
tão m odesto ou tão casto, eu não deveria dizer m uito obrigado. E da m esm a
form a, se m e cham assem de traidor, ladrão ou bêbado, eu m e estim aria m uito
pouco ofendido. Os que não se conhecem bem podem repastar-se de falsos
elogios: não eu, que m e vej o e m e procuro até nas entranhas, que bem sei o
que m e pertence. Agrada-m e ser m enos elogiado, contanto que sej a m ais
conhecido. Poderiam m e ter com o um sábio, m as m e atribuindo um a
sabedoria que considero um a tolice. Aborreço-m e que m eus Ensaios sirvam
às senhoras apenas com o elem ento do m obiliário e m óvel de sala: este
capítulo m e fará passar à sua alcova. Gosto de ter com elas relações um
pouco privadas: as públicas são sem favor e sem sabor. Nas despedidas
sentim os um afeto m ais quente, além do habitual, pelas coisas que
abandonam os. Estou dando um últim o adeus aos j ogos m undanos: aqui estão
nossos últim os abraços. Mas voltem os ao m eu tem a. O que terá feito aos
hom ens o ato genital, tão natural, tão necessário e tão j usto, para que não se
ouse falar dele sem vergonha e para ser excluído das conversas sérias e
convencionais? Pronunciam os coraj osam ente: matar, roubar, trair, e aquilo só o ousaríam os entre os dentes. Isso quererá dizer que quanto m enos o
expressarm os em palavras, m ais terem os direito de engrandecê-lo em
pensam ento? Pois é bom que as palavras m enos usadas, m enos escritas e
m ais caladas sej am as m ais sabidas e m ais geralm ente conhecidas. Nenhum a
idade, nenhum costum e as ignora, tanto quanto ao pão. Sem que sej am
expressas, im prim em -se em cada um , sem voz e sem form a. E o sexo que
m ais pratica esse ato tem a tarefa de m ais calá-lo. É um ato que pusem os
sob a proteção do silêncio, de onde é crim e arrancá-lo, até m esm o para
acusá-lo e j ulgá-lo. Nem ousam os fustigá-lo a não ser em perífrase e im agem .
É um grande favor para um crim inoso ser tão execrável que a j ustiça
considere inj usto tocá-lo e vê-lo: ele fica livre e salvo pelo benefício da
gravidade de sua condenação. Não é o m esm o em m atéria de livros, que se
tornam m ais vendáveis e públicos por serem proibidos? Quanto a m im , vou
tom ar à letra a opinião de Aristóteles, que diz que ter vergonha disso serve de
ornam ento à j uventude m as de m otivo de crítica na velhice. Estes versos são
recitados na escola da Antiguidade, escola a que m e atenho bem m ais que à
m oderna: suas virtudes parecem -m e m aiores, seus vícios, m enores:
Os que, fugindo demais, a Vênus resistem,
Enganam-se tanto quanto os que muito a seguem.
Tu Dea, tu rerum naturam sola gubernas,
Nec sine te quicquam dias in luminis oras
Exoritur, neque fit laetum, nec amabile quicquam. 365
Tu, Deusa, só tu governas a natureza, sem ti nada nasce nas m argens
divinas do dia; sem ti, nada de alegre, nada de am ável.
Não sei quem pôde m isturar m al Palas e as Musas com Vênus e esfriá-las em
relação ao Am or; m as não vej o divindades que m elhor se com binem nem que
m ais devam um as às outras. Quem privar as Musas de suas im aginações
am orosas lhes subtrairá o m ais belo assunto que têm e a m ais nobre m atéria
de suas obras: e quem fizer o Am or perder contato com a poesia e com o
serviço que esta lhe presta há de destituí-lo de suas m elhores arm as. Assim , o deus da intim idade e do bem -querer e as deusas protetoras da hum anidade
e da j ustiça são acusados do vício da ingratidão e da falta de reconhecim ento.
Não estou há tanto tem po assim riscado da lista e do séquito desse deus para
não ter a m em ória ainda inform ada de suas forças e valores:
agnosco veteris vestigia flammae. 366
de m eu antigo ardor reconheço o vestígio.
Ainda há algum vestígio de em oção e calor depois da febre:
Nec mihi deficiat calor hic, hyemantibus annis. 367
Que no inverno de m eus anos esse calor m e reste.
Por m ais ressecado que eu estej a, e pesado, ainda sinto certos restos
arrefecidos desse ardor passado:
Qual l’alto Aegeo per che Aquilone o Noto
Cessi, che tutto prima il vuolse et scosse,
Non s’accheta ei pero, ma’l sono e’l moto,
Ritien de l’onde anco agitate è grosse. 368
Qual o profundo m ar Egeu, quando o aquilão ou o noto se acalm am depois
de agitá-lo e sacudi-lo, e que não se aquieta, porém , m as retém o barulho
e o m ovim ento das ondas ainda agitadas e grandes.
Mas, pelo que sei a respeito, as forças e o valor desse deus encontram -se
m ais vivas e m ais anim adas na poesia do que em sua própria essência.
Et versus digitos habet. 369
O verso tam bém tem dedos.
A poesia representa não sei que ar m ais am oroso que o próprio am or. Vênus não é tão bela toda nua, viva e ofegante, com o o é aqui em Virgílio:
Dixerat, et niveis hinc atque hinc diva lacertis
Cunctantem amplexu molli fovet: Ille repente
Accepit solitam flammam, notusque medullas
Intravit calor, et labefacta per ossa cucurrit.
Non secus atque olim tonitru cum rupta corusco
Ignea rima micans percurrit lumine nimbos.
…Ea verba loquutus,
Optatos dedit amplexus, placidumque petivit
Conjugis infusus gremio per membra soporem. 370
A deusa tinha falado assim ; com seus braços de neve ela cerca e aquece
num doce abraço Vulcano, hesitante; de repente, ele reconhece um ardor
fam iliar; o calor bem conhecido invade sua m edula e percorre seus
m em bros cheios de languidez. Assim , às vezes, no estrondo do trovão um
sulco inflam ado cheio de brilho percorre as nuvens ilum inadas. Diante
dessas palavras, ele lhe oferece o abraço esperado, e tendo-se
abandonado em seu seio deixa um sono sereno invadir todo o seu corpo.
O que encontro aqui para m editar é que ele a pinta um pouco excitada dem ais
para um a Vênus m atrim onial. Nesse com portado m ercado os apetites não se
m ostram tão desvairados, m as som brios e em botados. O am or detesta
quando nos ligam os por outros laços que não os seus, e introm ete-m e
frouxam ente nas relações que se travam e são m antidas sob outros auspícios,
com o o casam ento. Neste, a aliança e as posses pesam , com razão, tanto ou
m ais que as graças e a beleza. Casam o-nos não por nós, apesar do que se diz; casam o-nos tanto ou m ais por nossa posteridade, por nossa fam ília. O
costum e e o interesse do casam ento afetam nossa linhagem , bem m ais além
de nós. Por isso agrada-m e esse m odo de o conduzirem antes por m ãos de
um terceiro do que pelas próprias: e antes pelo j ulgam ento dos outros que
pelo seu. Com o tudo isso é o oposto das convenções am orosas! Tam bém é
um a espécie de incesto ir em pregar nesse parentesco venerável e sagrado os
esforços e as extravagâncias da licenciosidade am orosa, com o m e parece ter
dito em outro lugar. É necessário (diz Aristóteles) tocar a própria m ulher de
m odo prudente e severo, de m edo de que, acariciando-a m uito lascivam ente,
o prazer a faça perder as estribeiras da razão. O que ele diz pela consciência
os m édicos dizem pela saúde: que um prazer excessivam ente inflam ado,
voluptuoso e assíduo altera o sêm en e im pede a concepção. Por outro lado,
dizem que num a união carnal lânguida, com o essa o é por natureza, para
enchê-la de um j usto e fértil calor é preciso apresentar-se raram ente, e com
notáveis intervalos;
Quo rapiat sitiens venerem interiusque recondat. 371
A fim de que, sedenta, ela se apodere do presente de Vênus e o esconda
no m ais profundo.
Não vej o m uitos casam entos que fracassem e se desfaçam m ais depressa do
que os que se guiam pela beleza e pelos desej os am orosos. Precisa-se de
fundam entos m ais sólidos e m ais estáveis, e cam inhar com circunspecção:
essa fervilhante exultação de nada vale. Os que pensam honrar o casam ento
acrescentando-lhe o am or agem , parece-m e, igual aos que, para honrar a virtude, afirm am que a nobreza nada m ais é senão um a virtude. São coisas
que têm certo parentesco, m as há m uita diversidade: é inútil m isturar seus
nom es e seus títulos. Confundi-las prej udica um a e outra. A nobreza é um a
bela qualidade e foi instituída com razão: m as com o é um a qualidade que
depende de outros e pode recair num hom em vicioso e nulo, fica, num a
avaliação, bem longe abaixo da virtude. É um a virtude, se o for, artificial e
visível, dependente do tem po e do acaso, diversa em sua form a segundo as
regiões, viva e m ortal: sem m ais nascente que o rio Nilo; genealógica e
com um ; baseada na sucessão e na sem elhança; sim ples consequência, e
consequência um tanto fraca. A ciência, a força, a bondade, a beleza, a
riqueza, todas as outras qualidades entram em com unicação e em com ércio:
esta se consom e em si m esm a, sem nenhum préstim o a serviço de outrem .
Propunha-se a um de nossos reis a escolha entre dois com petidores para um
m esm o cargo, dos quais um era fidalgo e o outro não; ele ordenou que, sem
respeito a essa qualidade, escolhessem aquele que tivesse m ais m érito, m as
se o valor fosse inteiram ente igual, que então se considerasse a nobreza: era
isso conferir-lhe exatam ente sua posição. Disse Antígono a um j ovem
desconhecido que lhe pedia o cargo de seu pai, hom em de valor que acabava
de m orrer: “Meu am igo, em tais fatos não olho tanto a nobreza de m eus
soldados com o olho sua valentia”. Na verdade, isso não deve ser com o para
os oficiais dos reis de Esparta, trom beteiros, m enestréis, cozinheiros, em
cuj os cargos eram sucedidos pelos filhos, por ignorantes que fossem m as que
passavam na frente dos m ais experim entados do ofício. O povo de Calicute faz dos nobres um a espécie acim a da hum ana. O casam ento lhes é proibido,
e qualquer outra ocupação que não a bélica. Concubinas, podem ter à
vontade, e as m ulheres, outros tantos am antes, sem ciúm es uns dos outros.
Mas é um crim e capital e irrem issível copular com pessoa de outra condição
que não a deles. E consideram -se conspurcados se apenas forem por ela
tocados de passagem ; e com o sua nobreza foi extraordinariam ente inj uriada e
lesada, m atam os que m al se aproxim aram um pouco perto dem ais. De
m aneira que os párias são obrigados a gritar nas curvas das ruas, quando
cam inham , assim com o os gondoleiros de Veneza, para não se
entrechocarem ; e os nobres ordenam -lhes j ogar-se para onde bem
entenderem . Com isso, estes evitam essa ignom ínia que consideram eterna;
aqueles, um a m orte certa. Nenhum lapso de tem po, nenhum favor de um
príncipe, nenhum em prego ou virtude ou riqueza podem levar um plebeu a
tornar-se nobre. Para isso, aj uda esse costum e de os casam entos serem
proibidos entre um ofício e outro. Um a m ulher de fam ília de sapateiros não
pode desposar um carpinteiro, e os pais são obrigados a educar os filhos na
ocupação dos pais, j ustam ente, e não em outra: por aí se m antêm a distinção
e a continuação de seus destinos. Um bom casam ento, se é que existe,
recusa a com panhia e as condições do am or: tenta im itar as da am izade. É
um a doce sociedade de vida, cheia de constância, de confiança, e de um
núm ero infinito de úteis e sólidos serviços e obrigações m útuas: nenhum a
m ulher que saboreia seu gosto
optato quam junxit lumine taeda, 372 aquela que a cham a do casam ento uniu com sua luz esperada,
quereria fazer as vezes de am ante do m arido. Se está aloj ada em sua afeição
com o esposa, está aloj ada com m uito m ais honra e segurança. Ainda que ele
se m eta a apaixonado e obsequioso em outro lugar, que então lhe perguntem
a quem preferiria ver acontecer um a vergonha, à sua m ulher ou à sua am ante,
e de quem o afligiria m ais o infortúnio, e a quem desej aria m ais grandeza?
São perguntas que não deixam nenhum a dúvida em um casam ento sadio. O
fato de verm os tão poucos bons é sinal de seu m érito e de seu valor. Sendo
bem m oldado e bem conduzido, não há elem ento m ais belo em nossa
sociedade. Não podem os dispensá-lo e o vam os, porém , aviltando. Com ele
acontece o que se vê nas gaiolas, os pássaros que estão fora se desesperam
para entrar, e, com igual ânsia, os que estão dentro querem sair. Indagado
sobre o que era m ais conveniente, tom ar ou não tom ar m ulher, Sócrates
respondeu: “Qualquer dos dois que façam os nos arrependerem os”. É um
contrato a que se aplica m uito bem o que se diz: homo homini, ou Deus, ou lupus. [O hom em é para o hom em um deus ou um lobo.
É preciso a reunião de m uitas qualidades para construí-lo. Atualm ente ele é
m ais conveniente às alm as sim ples e populares, para quem as delícias, a
curiosidade e a ociosidade não o perturbam tanto. Os hum ores desregrados,
com o é o m eu, que odeia qualquer tipo de ligação e obrigação, não são m uito
adaptados a ele.
Et mihi dulce magis resoluto vivere collo. 373
E para m im é m ais doce viver sem j ugo no pescoço.
Por m eu propósito, eu teria fugido de desposar a sabedoria em pessoa se ela m e quisesse. Mas, por m ais que disserm os, o costum e e o uso da vida em
com um nos arrastam . A m aioria de m inhas ações guia-se pelo exem plo, não
pela escolha. Todavia, não o escolhi propriam ente: conduziram -m e, e a ele fui
levado por causas externas. Pois não são apenas as coisas incôm odas que
podem tornar-se aceitáveis em certas condições e circunstâncias: o m esm o
acontece com as que são tão feias e viciosas e evitáveis, de tal form a é vã a
situação hum ana. E a isso fui levado m ais m al preparado, com certeza, e m ais
reticente do que sou agora, depois de tê-lo experim entado. E por m ais
licencioso que m e considerem , na verdade observei m ais severam ente as leis
do casam ento do que prom etera e esperara. Já não é hora de escoicear
depois que nos deixam os pear. Há que preservar prudentem ente a própria
liberdade: m as depois que som os subm etidos à obrigação, tem os de nos
m anter sob as leis do dever com um , ao m enos nos esforçarm os para isso. Os
que fecham esse acordo para depois se com portarem com ódio e desprezo
agem inj usta e prej udicialm ente. E essa bonita regra que vej o passar de m ão
em m ão entre as esposas, com o um santo oráculo,
Sers ton mary comme ton maistre,
Et t’en garde comme d’un traistre:
Serve teu m arido com o teu senhor, e dele desconfia com o de um traidor:
que significa dizer: “com porta-te com ele com um a reverência forçada, inim iga
e desafiadora” (grito de guerra e de desafio) é igualm ente inj usta e difícil. Sou
m uito m ole para desígnios tão espinhosos. Para falar a verdade, ainda não
cheguei a essa perfeição de habilidade e galanteria espiritual que confunde a razão com a inj ustiça e põe em ridículo toda ordem e regra que não com binem
com m eu apetite: não é por odiar a superstição que m e j ogo incontinente na
irreligião. Se nem sem pre cum prim os nosso dever, pelo m enos precisam os
sem pre reconhecê-lo e prezá-lo: é traição casar sem desposar. Vam os
adiante. Nosso poeta nos m ostra um casam ento pleno de harm onia e boa
convivência, no qual porém não há m uita lealdade. Quis ele dizer que não é
im possível entregar-se aos em bates do am or e preservar, porém , certo dever
com o casam ento? E que sej a possível feri-lo sem rom pê-lo por com pleto?
Um criado pode depenar seu am o sem no entanto detestá-lo. A beleza, a
oportunidade, o destino (pois o destino tam bém põe a m ão nisso)
fatum est in partibus illis
Quas sinus abscondit: nam si tibi sidera cessent,
Nil faciet longi mensura incognita nervi, 374
a fatalidade se liga a essas partes que as pregas das vestes dissim ulam ;
se os astros na verdade te abandonam , de nada te servirá o tam anho
avantaj ado e invisível de teu longo m em bro,
uniram a esposa a um estranho: talvez não tão inteiram ente que não lhe possa
sobrar um laço que ainda a prenda a seu m arido. São dois destinos cuj os
cam inhos diferentes não se confundem : um a m ulher pode entregar-se a tal
personagem com quem j am ais gostaria de ter se casado; não digo pelas
condições de fortuna, m as por aquelas m esm as da pessoa. Poucos hom ens
desposaram suas am antes sem que não tenham se arrependido. E até no
outro m undo, que m au casam ento faz Júpiter com a m ulher que prim eiram ente frequentara e possuíra em nam oricos! É, com o se diz, evacuar no cesto para
depois colocá-lo na cabeça. Vi em m eu tem po, em certa fam ília nobre, curar-
se o am or vergonhosa e desonestam ente pelo casam ento: as considerações
são bem diferentes. Am am os, sem que isso nos em barace, duas coisas
diferentes e que se contrariam . Isócrates dizia que a cidade de Atenas nos
agradava da m esm a m aneira que as dam as que servem para o am or: todos
gostavam de ir lá a passeio e ali passar seu tem po; ninguém a am ava para
desposá-la: isto é, para ali habitar, m orar. Vi com desgosto m aridos odiarem
suas m ulheres j ustam ente porque se com portam m al com elas: quando nada,
não devem os am á-las m enos por causa de nosso erro; por arrependim ento e
com paixão, no m ínim o, elas deveriam nos ser m ais queridas. São finalidades
diferentes, e no entanto, de certa form a, com patíveis, diz Isócrates. De seu
lado, o casam ento tem a utilidade, a j ustiça, a honra e a estabilidade: um
prazer insípido, porém m ais universal. O am or funda-se só no prazer: e esse
prazer é na verdade m ais excitante, m ais vivo e m ais agudo; um prazer
atiçado pela dificuldade, que exige ferroadas e queim aduras: não é m ais am or
se for sem flechas e sem fogo. A condescendência das dam as é profusa
dem ais no casam ento e em bota a ponta da afeição e do desej o. Para fugir a
esse inconveniente, vede o trabalho a que se deram Licurgo e Platão em suas
leis. As m ulheres não estão nada erradas quando recusam as regras de vida
que se introduzem no m undo, porquanto foram os hom ens que as fizeram sem
elas. Há, naturalm ente, litígio e disputa entre elas e nós. O m ais estreito
entendim ento que tiverm os com elas ainda é tum ultuado e tem pestuoso. Na opinião de nosso autor, nós as tratam os sem consideração no seguinte:
depois de term os reconhecido que elas são, sem com paração, m ais sensíveis
e ardentes nos feitos do am or, assim com o atestou aquele sacerdote da
Antiguidade, que fora ora hom em ora m ulher, 375
Venus huic erat utraque nota; 376
Ele conhecera um a e outra Vênus;
e, adem ais, depois que soubem os por suas próprias bocas a prova que disso
deram outrora, em séculos diferentes, um im perador e um a im peratriz de
Rom a, 377 m estres operários e fam osos nessa m atéria, ele deflorando num a noite dez virgens sárm atas, suas cativas, m as ela realm ente atendendo num a
noite a 25 investidas, trocando de parceiro segundo sua necessidade e seu
gosto,
adhuc ardens rigidae tentigine vulvae:
Et lassata viris, nondum satiata recessit, 378
com a vulva tensa e queim ando ainda de excitação, ela se retirou, cansada
pelos am antes, m as não saciada,
e depois da desavença ocorrida na Catalunha entre um a m ulher que se
queixava dos esforços assíduos dem ais do m arido (a m eu ver, não tanto
porque isso a incom odasse, pois só acredito em m ilagres da fé, m as para
cercear, com esse pretexto, e m esm o refrear a autoridade dos m aridos sobre
suas m ulheres até nesse aspecto fundam ental do casam ento; e para m ostrar
que as rixas entre eles e a m aldade vão além do leito nupcial e espezinham as
próprias graças e doçuras de Vênus), queixa à qual o m arido, hom em
verdadeiram ente brutal e desnaturado, respondia que m esm o nos dias de
j ej um não conseguiria fazer m enos de dez, interveio esse notável decreto da
rainha de Aragão, pelo qual, após m adura deliberação do conselho, e a fim de
estabelecer, para qualquer época, regras e exem plos da m oderação e da
m odéstia requeridas num casam ento correto, essa boa rainha ordenou com o
lim ites legítim os e necessários o núm ero de seis por dia, abandonando m uito
da necessidade e do desej o de seu sexo, m as criando, dizia ela, um a norm a
fácil e por conseguinte perm anente e im utável. Diante disso, exclam aram os
doutores: “Quais devem ser o apetite e a concupiscência fem inina para que a
razão, o sentido m oral e a virtude delas sej am m edidas por esse núm ero?”,
considerando os j ulgam entos diversos de nossos apetites, pois Sólon, chefe
da escola j urídica, fixa em apenas três vezes por m ês, para não falhar, essa
frequentação conj ugal. Depois de term os acreditado e pregado tudo isso (dizia
eu), fom os im por às m ulheres, particularm ente, a continência sob pena de
castigos suprem os e extrem os. Não há paixão m ais prem ente do que esta, à
qual querem os que só elas resistam , não sim plesm ente com o a um vício
corrente m as com o à abom inação e à execração, m ais do que à irreligião e ao
parricídio; e no entanto, nós nos entregam os a essa paixão sem culpa e
recrim inação. Mesm o aqueles entre nós que tentaram vencê-la confessaram
quanta dificuldade, ou m elhor, im possibilidade havia nisso, quando se usam
rem édios m ateriais para dom ar, enfraquecer e esfriar o corpo. Nós, ao
contrário, as querem os saudáveis, vigorosas, bem -dispostas, bem
alim entadas, e castas para com pletar: isto é, tanto quentes com o frias. Pois o
casam ento, que dizem os ter a função de im pedi-las de arder, traz-lhes pouco refrigério devido a nossos costum es. Se pegam um m arido cuj o vigor da idade
ainda ferve, ele se vangloriará de espalhá-lo em outros lugares:
Sit tandem pudor, aut eamus in jus,
Multis mentula millibus redempta,
Non est haec tua, Basse, vendidisti. 379
Um pouco de pudor, enfim , ou irem os à j ustiça: esse m em bro com prado
por vários m ilhares de escudos não é teu, Basso, vendeste-o.
O filósofo Pólem on foi com toda a razão convocado perante a j ustiça por sua
m ulher porque andava sem eando em cam po estéril o fruto devido ao cam po
genital. Se o m arido for desses inválidos, ei-las em pleno casam ento em
condição pior que as virgens e as viúvas. Nós as consideram os com o bem
providas porque têm um hom em perto de si: assim com o os rom anos
consideraram violada a vestal Clódia Laeta, que Calígula violentara, em bora
tenha se verificado que ele apenas se aproxim ara. Mas, ao contrário, com
isso reforçam os a necessidade delas, porque o contato e a com panhia de
qualquer hom em que sej a lhes desperta o calor, que ficaria m ais tem perado
na solidão. E com essa finalidade Boleslau e sua m ulher Kinge, reis da
Polônia, fizeram de com um acordo voto de castidade quando estavam
deitados lado a lado no próprio dia das núpcias e o m antiveram , nas barbas
das com odidades conj ugais: essas circunstâncias e considerações tornaram a
castidade m ais m eritória, com o é plausível. Educam os as m ulheres desde a
infância para os preparativos do am or: sua graça, seus adereços, seu saber,
suas palavras, toda a instrução delas só tende a esse obj etivo. Suas governantas não lhes inculcam outra coisa que não o rosto do am or,
figurando-o continuam ente, ainda que sej a para enfastiá-las dele. Minha filha
(é tudo quanto tenho de filhos) está na idade em que as leis autorizam as m ais
ardorosas a se casarem . Ela é franzina e indolente, por com pleição é m ais
criança que sua idade e foi educada por sua m ãe de acordo com esse
tem peram ento, de m odo isolado e privado, de tal form a que apenas com eça a
perder o acanham ento da ingenuidade da infância. Estava lendo diante de m im
um livro em francês: ali se encontrava a palavra fouteau, nom e de um a árvore
conhecida:380 a m ulher que lhe serve de governanta interrom peu-a de chofre, um pouco brutalm ente, e a fez pular aquele trecho em baraçoso. Deixei-a agir
para não atrapalhar suas regras, pois não m e envolvo de j eito nenhum nessa
educação. A sociedade fem inina tem um ritm o m isterioso, deve-se deixá-lo
com elas. Mas, se não m e engano, o convívio com vinte lacaios durante seis
m eses não poderia ter m arcado em sua im aginação a ideia e o em prego e
todas as consequências do som daquelas sílabas celeradas, com o o fez essa
boa velha com sua reprim enda e proibição.
Motus doceri gaudet Ionicos
Natura virgo, et frangitur artubus
Jam nunc, et incestos amores
De tenero meditatur ungui. 381
A virgem núbil tem prazer em aprender as danças j ônicas e nelas j á
requebra os m em bros; desde sua tenra idade sonha com am ores
im pudicos.
Que elas dispensem um pouco a cerim ônia, que se ponham a conversar livrem ente, e nós não passam os de crianças nessa ciência, em com paração
com elas. Ouçam o-las descrever nossos assédios e nossas conversas:
m ostram -nos m uito bem que não lhes oferecem os nada que não saibam e
tenham assim ilado sem nós. Seria isso que diz Platão, que outrora elas foram
rapazes libertinos? Um dia, m eus ouvidos estavam num lugar onde podiam
extorquir, sem suspeita, cada um a das conversas tidas por elas: o que não
posso dizer! “Nossa Senhora”, pensei, “agora vam os estudar frases de
Am adis e coletâneas de Boccaccio e Aretino para bancarm os os sabidos:
realm ente, estam os perdendo nosso tem po.” Não há palavra nem exem plo
nem atitude que não saibam m elhor que nossos livros: é um a ciência que lhes
nasce nas veias,
Et mentem Venus ipsa dedit, 382
E a própria Vênus lhes deu esse espírito,
que esses bons m estres-escolas que são a natureza, a j uventude e a saúde
lhes instilam constantem ente na alm a: elas não têm por que aprendê-la:
engendram -na.
Nec tantum niveo gavisa est ulla columbo,
Compar, vel si quid dicitur improbius,
Oscula mordenti semper decerpere rostro:
Quantum praecipue multivola est mulier. 383
E j am ais a com panheira enam orada do pom binho branco com o neve ou
qualquer outro pássaro m ais lascivo sente tanto prazer em colher beij os
com seu bico m ordiscando do que um a m ulher loucam ente insaciável.
Se não tivéssem os refreado um pouco essa violência natural de seu desej o,
pelo tem or e pela honra que lhes foram inculcadas, estaríam os difam ados.
Todo o m ovim ento do m undo conduz e se reduz a esse acasalam ento: é
m atéria infusa em toda parte: é um centro para o qual todas as coisas
convergem . Ainda vem os ordenações da velha e sábia Rom a feitas para o
serviço do am or, e os preceitos de Sócrates para a instrução das cortesãs.
Necnon libelli Stoici inter sericos,
Jacere pulvillos amant. 384
Certos pequenos tratados estoicos gostam de ficar entre as alm ofadas de
seda.
Entre suas leis, Zenão regulam entava tam bém o afastam ento385 e os espasm os do defloram ento. Qual era o significado do livro do filósofo
Estráton, Sobre a conjunção carnal? E do que tratava Teofrasto naqueles que
intitulou, um O amoroso, o outro, Sobre o amor? De que tratava Aristipo no seu Antigas delícias? Que pretendem as descrições tão extensas e vivas em
Platão sobre os am ores de seu tem po? E o livro Sobre o amoroso, de
Dem étrio de Falero? E Clínias, ou Namorado à força, de Heráclides do
Ponto? E, de Antístenes, Sobre como gerar filhos, ou Sobre as bodas? E o outro, Sobre o mestre ou Sobre o amante? E, de Aristo, Sobre exercícios amorosos? De Cleanto, um Sobre o amor, o outro, Sobre a arte de amar? Os Diálogos amorosos, de Esfero? E a Fábula de Júpiter e Juno, de Crísipo, insuportavelm ente despudorada? E suas cinquenta Epístolas tão lascivas?
Quero deixar de lado os escritos dos filósofos que seguiram a escola de
Epicuro, protetora da volúpia. Cinquenta divindades estavam , no passado,
destinadas ao serviço do am or. E houve nações onde, para adorm ecer a
concupiscência dos que iam à devoção, m antinham -se nos tem plos raparigas para o prazer, e era um ato da cerim ônia servir-se delas antes de ir ao ofício.
Nimirum propter continentiam incontinentia necessaria est, incendium ignibus
extinguitur. 386 Seguram ente a incontinência é necessária à continência e o incêndio é extinto pelo fogo.] Quase no m undo todo esse m em bro do nosso
corpo era deificado. Num a m esm a região, uns o esfolavam para oferecer e
consagrar um pedaço dele: outros ofereciam e consagravam o próprio sêm en.
Em outra, os rapazes o transpassavam publicam ente e o abriam em diversos
pontos entre a carne e a pele, e por essas aberturas atravessavam espetos,
os m ais longos e grossos que conseguissem tolerar: e depois faziam fogo
com esses espetos, para oferenda a seus deuses, e eram considerados
pouco vigorosos e pouco castos se viessem a desm aiar pela violência dessa
dor cruel. Em outro lugar, o m agistrado m ais sagrado era reverenciado e
reconhecido por essas partes. E em várias cerim ônias a efígie delas era
carregada em pom pa, em hom enagem a diversas divindades. As senhoras
egípcias, durante a festa das bacanais, traziam ao pescoço um m em bro de