Os Ensaios

Michel de Montaigne · Capítulo 32 de 33

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Os Ensaios

Sobre os coxos

m ortos: de m odo que j am ais conseguiram abatê-lo, por m aior m orticínio que

se fizesse daquelas pessoas, até que um hom em a cavalo foi agarrá-lo pelo

corpo e o j ogou no chão.

Sobre os coxos

Capítulo XI

A mente humana é capaz de grandes decepções consigo mesma. É capaz

de encontrar razões para qualquer coisa, até mesmo para fenômenos

inexistentes e “fatos” irreais. A experiência não é uma proteção contra o erro,

pois pode ser condicionada por expectativas prévias. Aqui Montaigne fala da

feitiçaria e mostra-se determinado a subordinar as próprias opiniões aos

ensinamentos da Igreja católica. É um dos ensaios pelos quais Montaigne foi

celebrado como o protótipo do homem das Luzes: um intelectual que

desconfia dos rumores públicos, incrédulo em assuntos de bruxaria, numa

sociedade em que a maioria acreditava nisso e em que parte da intelligentsia

escrevia ou lia livros de demonologia; um ex-parlamentar partidário da

exclusão da pena de morte se houvesse a menor dúvida sobre a culpa ou o

grau de culpa dos réus. Como as opiniões dos homens nunca são certezas,

deveríamos queimar pessoas baseando-nos nelas? O problema era mais

sério ainda na medida em que os tribunais, temerosos de perder a

autoridade, evitavam reconhecer os próprios erros.

Na França, há dois ou três anos encurtaram o ano em dez dias. 492 Quantas m udanças devem se seguir a essa reform a! Foi propriam ente revirar o céu e a

terra ao m esm o tem po. No entanto, nada saiu de seu lugar. Meus vizinhos

encontram no m esm o ponto, exatam ente onde os haviam fixado desde sem pre, a hora das sem eaduras e da colheita, a oportunidade de seus

negócios, os dias nocivos e os propícios. Nem o erro afetava nosso m odo de

fazer, nem sua m elhora nos afeta. De tal form a há incerteza em tudo, de tal

form a nossa percepção é grosseira, obscura e obtusa. Dizem que esse aj uste

podia ser conduzido de m aneira m enos incôm oda: a exem plo de Augusto,

subtraindo por alguns anos o dia do ano bissexto, pois é um dia de em baraço

e confusão, até que se tivesse chegado a equilibrar esse descom passo. O

que nem sequer se fez com essa correção, pois ainda perm anecem os

atrasados de alguns dias. E, sej a com o for, pelo m esm o m eio se poderia

prever o futuro, ordenando que, depois de com pletado este ou aquele núm ero

de anos, esse dia extraordinário fosse sem pre eclipsado, de tal m odo que

nosso erro de cálculo não pudesse, daí em diante, exceder 24 horas. Não

tem os outra m edida do tem po além dos anos. Há tantos séculos o m undo se

serve deles! E é, porém , um a m edida que ainda não term inam os de fixar. E a

tal ponto que todo dia tem os dúvida sobre a form a que as outras nações lhe

deram , diferente da nossa, e com o costum am aplicá-la. Que pensar do que

dizem alguns, que os céus, ao envelhecer, estão se contraindo em nossa

direção e nos j ogam na incerteza quanto às próprias horas e os dias? E

quanto aos m eses, j á que Plutarco diz que ainda em seu tem po a astrologia

não soubera determ inar o m ovim ento da Lua? Estam os bem -arranj ados para

fazer o registro das coisas passadas! Recentem ente eu devaneava, com o

costum o fazer, sobre com o a razão hum ana é um instrum ento livre e vago. Em

geral vej o que os hom ens se distraem com m ais gosto ao procurar a razão dos fatos que lhes são propostos do que ao procurar saber se são verdade.

Passam por cim a das pressuposições m as exam inam cuidadosam ente suas

consequências. Deixam as coisas e correm para as causas. Engraçados

causadores! O conhecim ento das causas afeta som ente aquele que tem o

governo das coisas: não a nós, que devem os apenas suportá-las. E que

tem os o pleno uso delas, em função de nossas necessidades, sem penetrar-

lhes na origem e na essência. Nem sequer o vinho é m ais agradável para

quem conhece suas qualidades prim eiras. Ao contrário: alegando pretensões

de ciência, tanto o corpo com o a alm a infringem e alteram por si m esm os o

direito que têm de desfrutar das coisas do m undo. Os efeitos nos afetam , m as

os m eios, de j eito nenhum . Determ inar e distribuir as coisas cabe aos m estres

e aos que com andam , assim com o aceitá-las cabe aos subordinados e aos

aprendizes. Retornem os aos nossos costum es. Em geral eles com eçam

assim : “Com o é que isso se faz?”. Deveriam perguntar: “Mas isso se faz?”.

Nossa razão é capaz de tecer cem outros m undos, e depois de descobrir seus

princípios e sua construção. Não precisa de m atéria nem de suporte. Deixai-a

correr: ela constrói tanto no vazio com o no pleno, e tanto com a inanidade

com o com a m atéria,

dare pondus idonea fumo. 493

capaz de dar peso à fum aça.

Acho que em quase tudo seria preciso dizer: “Não é nada disso”. E eu

em pregaria m uitas vezes essa resposta, m as não m e atrevo porque eles

gritam que é um a evasiva produzida pela fraqueza de espírito e pela ignorância. Habitualm ente, em sociedade preciso fingir-m e de ator, tratando

de assuntos e de relatos frívolos dos quais descreio totalm ente. Acresce que,

para falar a verdade, é um tanto brutal e provocativo negar secam ente um fato

que nos apresentam . E poucas pessoas deixam de afirm ar, em especial nas

coisas difíceis de se crer, que elas as viram , ou de citar testem unhas cuj a

autoridade sustará nossa contradição. Seguindo esse costum e, sabem os os

fundam entos e os m eios de m il coisas que j am ais existiram . E o m undo se

escaram uça em m il questões cuj os prós e contras são falsos. Ita finitima sunt

falsa veris, ut in praecipitem locum non debeat se sapiens committere.494O

falso é tão próxim o do verdadeiro que o sábio não deve se aventurar em

terreno escarpado.] A verdade e a m entira têm rostos conform es, o porte, o

gosto e o j eito iguais: olham os para elas com os m esm os olhos. Acho que não

som os apenas frouxos ao nos defenderm os contra a im postura, m as que

procuram os nos afundar nela e convidam os os outros a fazê-lo. Gostam os de

nos em brulhar no que é vão, pois é algo que corresponde a nosso ser. Em

m inha época, vi o nascim ento de vários prodígios. Ainda que sej am sufocados

ao nascer, não deixam os de prever o curso que tom ariam se tivessem

sobrevivido. Pois basta encontrar a ponta do fio para o desenrolarm os tanto quanto quiserm os. E há m ais distância entre o nada e a m enor coisa do

m undo do que há entre esta e a m aior. Ora, os prim eiros que bebem esse

com eço de coisas estranhas, vindo a difundir sua história, sentem , pelas

resistências que lhes são feitas, onde se aloj a a dificuldade da persuasão e

vão calafetando esse local com algum falso elem ento. Além do m ais, insita

hominibus libidine alendi de industria rumores, 495pela tendência natural dos hom ens a alim entar deliberadam ente os rum ores,] naturalm ente tem os

escrúpulos em devolver o que nos foi em prestado sem nenhum j uro nem

acréscim os de nossa lavra. Prim eiram ente, o erro individual gera o erro

público, e depois, por sua vez, o erro público gera o erro particular. Assim , de

m ão em m ão, vai toda essa construção tom ando corpo e se form ando, de

m aneira que a testem unha m ais longínqua está m ais bem inform ada que a

m ais próxim a: e a últim a inform ada, m ais convencida que a prim eira. É um

avanço natural. Pois quem quer que acredite em algum a coisa considera que é

obra de caridade convencer o outro. E para fazê-lo não receia acrescentar

algo de sua invenção, tanto quanto im agina ser necessário à sua história, para

vencer a resistência e suprir a falha que pensa existir no j ulgam ento do outro.

Eu m esm o, que tenho singular escrúpulo em m entir e que pouco m e preocupo

em dar crédito e autoridade ao que digo, percebo todavia que nos assuntos

que tenho em m ãos, inflam ando-m e com a resistência do outro ou com o

próprio calor de m inha narração, aum ento e incho m eu assunto, pela voz,

pelos gestos, pelo vigor e força das palavras, e tam bém por extensão e

am plificação: e não sem prej uízo da sim ples verdade. Mas o faço com a

ressalva de que deixo de lado m inha exaltação e apresento a verdade, sem

exagero, sem ênfase e sem conversa fiada, ao prim eiro que m e acalm ar e

pedir-m e a verdade nua e crua. A fala viva e ruidosa, com o é a m inha usual,

deixa-se levar de bom grado para a hipérbole. Não há nada a que os hom ens

com um ente sej am m ais inclinados do que a transm itir suas opiniões. Quando

nos faltam os m eios correntes, acrescentam os o com ando, a força, o ferro e o fogo. É um a infelicidade estarm os nessa situação em que o m elhor critério

de verdade sej a a profusão das pessoas que acreditam , e num a m ultidão

onde os loucos ultrapassam de m uito o núm ero dos sensatos. Quasi vero

quidquam sit tam valde, quam nil sapere vulgare. Sanitatis patrocinium est,

insanientium turba. 496Com o se seguram ente não houvesse nada m ais com um que ser desprovido de j ulgam ento. Com o avalistas do bom -senso, um a

m ultidão de insensatos.] É coisa difícil m anter seu j ulgam ento contra as

opiniões com uns. A prim eira convicção que se apodera das pessoas sim ples

resulta do próprio assunto: daí se expande aos que têm certo saber e

j ulgam ento, com a autoridade que adquiriu pelo núm ero e pela antiguidade dos testem unhos. Quanto a m im , se não acreditasse em um não acreditaria em

cem . E não j ulgo as opiniões por sua antiguidade. Há pouco tem po, um de

nossos príncipes, cuj a gota o fizera perder um a bela constituição e um caráter

alegre, se deixou fortem ente convencer pelo relato que se fazia das

m aravilhosas intervenções de um sacerdote que, pela via das palavras e dos

gestos, curava todas as doenças, e fez um a longa viagem para ir encontrá-lo.

E pela força de sua im aginação persuadiu e adorm eceu as pernas por

algum as horas, tanto assim que conseguiu que lhe prestassem o serviço que

tinham desaprendido m uito tem po antes. Se o acaso tivesse deixado

acum ularem -se cinco ou seis aventuras assim , seria suficiente para dar vida a

um m ilagre. Depois, descobriram tanta ingenuidade e tão pouca arte no

arquiteto dessas obras que não o consideraram digno sequer de castigo.

Com o faríam os com a m aioria dessas coisas se as observássem os ali onde

ocorrem . Miramur ex intervallo fallentia. 497Nós nos adm iram os, enganados pela distância.] Nossa vista costum a produzir, assim de longe, im agens

estranhas que se desvanecem quando se aproxim am . Nunquam ad liquidum

fama perducitur. 498Nunca o rum or atinge a verdade lím pida.] É espantoso com o convicções tão fortes nascem em geral de com eços vãos e causas

frívolas. É exatam ente isso que im pede que nos inform em os a respeito delas,

pois enquanto procuram os as causas e os fins de peso e im portantes, e

dignos de um tão grande nom e, perdem -se as verdadeiras. Elas escapam de

nossa vista por sua pequenez. E na verdade tais investigações dem andam um

inquiridor bem prudente, atento e sutil: indiferente e sem prevenção. Até esta

hora, todos os m ilagres e acontecim entos estranhos têm se escondido de

m im . Não vi no m undo m onstro e m ilagre m ais m anifesto do que eu m esm o. O

costum e e o tem po nos fam iliarizam com qualquer estranheza: quanto m ais m e

exam ino e m e conheço, m ais m inha deform idade m e espanta e m enos m e

com preendo. O principal direito de suscitar e propagar tais acontecim entos

está reservado ao acaso. Passando anteontem por um a aldeia a duas léguas

de m inha casa, encontrei o lugar ainda inflam ado por um m ilagre que acabava

de fracassar, m as que ocupara a vizinhança por vários m eses e levara as

províncias vizinhas a com eçarem a se agitar e acorrer em grandes grupos de

todas as condições. Num a noite, em sua casa, um rapaz do lugar se divertira

em sim ular a voz de um espírito, sem pensar em outro obj etivo além do de se

distrair com um a brincadeira; com o a coisa lhe saiu um pouco m elhor do que

esperava, para reforçar sua farsa com m ais recursos associou-se a um a

m oça da aldeia absolutam ente sim plória e boba: e no final eram três, da

m esm a idade e igualm ente estúpidos: e das pregações dom ésticas passaram

às pregações públicas, escondendo-se sob o altar da igrej a, só falando de noite e proibindo que para lá se levasse qualquer luz. Das palavras que

visavam a conversão do m undo e da im inência do dia do j uízo final (pois a

im postura esconde-se m ais facilm ente atrás de nosso respeito pela autoridade

desses assuntos), chegaram a certas visões e a atos tão bobos e tão

ridículos que nem nos j ogos das crianças pequenas há nada tão grosseiro. No

entanto, se a fortuna tivesse desej ado conceder um pouco de seus favores,

quem sabe até onde iria essa brincadeira? Atualm ente esses pobres-diabos

estão na prisão; e receberão talvez o castigo pela estupidez geral: e não sei

se algum j uiz se vingará neles da sua própria. Nesse incidente que foi

descoberto, vem os claram ente, m as em várias coisas do m esm o tipo, que

superam nosso conhecim ento, sou da opinião de que devem os suspender

nosso j ulgam ento, nem as rej eitando nem as aceitando. Com ete-se m uito

abuso no m undo: ou, para dizer m ais ousadam ente, todos os abusos do

m undo são gerados pelo fato de que nos ensinam a tem er confessarm os

nossa ignorância; e som os obrigados a aceitar tudo o que não conseguim os

refutar. Falam os de todas as coisas por preceitos e form as categóricas. O

estilo j urídico em Rom a rezava que até m esm o o depoim ento de um a

testem unha que viu com os próprios olhos e a sentença de um j uiz baseada

em seu m ais seguro saber fossem expressos com esta form a de falar:

“parece-m e”. Fazem -m e odiar as coisas verossím eis quando as apresentam

com o infalíveis. Gosto destas palavras que am olecem e m oderam a

tem eridade de nossas proposições: “talvez”, “de certa form a”, “algum ”, “dizem ”, “penso”, e sem elhantes. E se tivesse de educar crianças, tanto lhes

teria posto na boca esse m odo de responder inquiridor e não decisivo: “o que

quer dizer?”, “não estou entendendo”, “poderia ser”, “é verdade?”, que elas

m ais teriam conservado o j eito de aprendizes aos sessenta anos do que se

apresentado com o doutores aos dez anos, com o fazem . Quem quer curar a

ignorância deve confessá-la. Íris é filha de Taum ante. O assom bro é o

fundam ento de toda filosofia; a inquirição é com o ela avança; a ignorância, seu

final. Mas há, sim , certa ignorância forte e digna que em honra e em coragem

nada deve ao conhecim ento. Ignorância que exige tanto conhecim ento para

ser concebida quanto se exige para conceber o conhecim ento. Vi em m inha

infância um processo que Coras, conselheiro de Toulouse, m andou im prim ir de

um acontecim ento estranho, dois hom ens que se apresentavam um se

passando pelo outro:499 lem bro-m e (e não m e lem bro de m ais outra coisa) de que m e pareceu que ele fez da im postura daquele que j ulgou culpado algo tão

espantoso e ultrapassando de tão longe nosso conhecim ento e o dele, que era

j uiz, que achei grande ousadia a sentença que o condenara a ser enforcado.

Adm itam os um a form a de sentença que diga: “A Corte não está entendendo

nada”. Mais livre e ingenuam ente do que fizeram os areopagitas, que, vendo-

se pressionados por um a causa que não conseguiam elucidar, ordenaram que

as partes retornassem dali a cem anos. As bruxas de m inha vizinhança correm

risco de vida segundo a opinião de cada nova autoridade que vem dar

substância às visões delas. A palavra de Deus oferece-nos exem plos de tais

fenôm enos, exem plos m uito seguros e irrefutáveis, m as para adaptá-los e

ligá-los aos nossos acontecim entos m odernos, j á que não vem os suas causas

nem seus m eios, precisam os de outro talento que não o nosso. Talvez caiba a

essa todo-poderosa testem unha nos dizer: “Este é um feiticeiro; e aquela;

m as não aquela outra”. Nisso, devem os acreditar em Deus: o que, de fato,

está m uito certo. Mas não em um dentre nós, que se espanta com a própria

narrativa (e espanta-se necessariam ente se não estiver fora de seu j uízo),

sej a que conte um fato de outro, sej a que conte de si m esm o. Sou lento e

apego-m e um pouco ao sólido e ao verossím il, evitando essas recrim inações

antigas: Majorem fidem homines adhibent iis quae non intelligunt. Cupidine

humani ingenii libentius obscura creduntur. 500Os hom ens creem m ais no que não com preendem . A propensão do espírito hum ano faz que se atribua m ais

facilm ente fé aos m istérios.] Bem vej o que os outros se enfurecem e proíbem -

m e de duvidar dessas coisas, sob pena de inj úrias execráveis. Novo m odo de

persuasão! Graças a Deus, ninguém m anej a m inha crença a socos. Que

repreendam os que acusam de falsidade suas opiniões: só as acuso de

atrevim ento e de serem difíceis de se crer. E condeno a afirm ação oposta,

j untam ente com eles, em bora de m odo m enos im perioso. Quem im põe seu

discurso com o um desafio e um com ando m ostra que sua razão é fraca. Num a

altercação verbal e escolástica, que eles tenham tanta aparência de razão

quanto seus obj etores. Videantur sane, non affirmentur modo. 501 Que se atenham às aparências, sem nada afirm ar.] Mas quanto à consequência

efetiva que daí tiram , os segundos levam m uita vantagem . Para m atar as

pessoas precisa-se de um a clareza lum inosa e pura. E nossa vida é

dem asiado real e essencial para avalizar esses acontecim entos sobrenaturais

e fantásticos. Quanto às drogas e aos venenos, excluo-os de m inha

consideração: são hom icídios, e da pior espécie. Todavia, até nisso dizem que

nem sem pre devem os nos prender à própria confissão dessas pessoas, pois

vez por outra as vim os se acusarem de ter m atado gente que era encontrada

saudável e viva. Quanto a outras acusações extravagantes, eu diria de bom

grado que é suficiente que um hom em , sej a qual for sua reputação, sej a

acreditado a respeito do que é hum ano. A respeito do que está além de sua

com preensão e que tenha um efeito sobrenatural ele só deve ser acreditado

quando um a autoridade sobrenatural o confirm ar. Esse privilégio que aprouve a Deus dar a alguns testem unhos nossos não deve ser aviltado e com unicado

levianam ente. Tenho os ouvidos m artelados por m il histórias assim : “Três o

viram tal dia, a leste: três o viram no dia seguinte, a oeste: a tal hora, em tal

lugar, vestido assim ”. Na verdade, eu m esm o não acreditaria em m im . E com o

é m ais natural e m ais plausível dois hom ens que m entem do que um hom em

que em doze horas passa, com o os ventos, do oriente para o ocidente! Com o

é m ais natural que nosso entendim ento sej a transportado de seu lugar pela

volubilidade de nosso espírito avariado, do que, devido a um espírito estranho,

um de nós em carne e osso poder voar num a vassoura ao longo do conduto

de sua cham iné! Nós, que som os perpetuam ente transtornados por ilusões

internas e nossas, não procurem os as ilusões externas e desconhecidas.

Parece-m e que som os perdoáveis por não acreditar num a m aravilha, pelo

m enos tanto quanto som os perdoáveis por recusar e eludir a prova de que ela

se realizou por um cam inho não m ilagroso. E sigo a opinião de Santo

Agostinho: m ais vale tender para a dúvida do que para a certeza nas coisas de difícil com provação e perigosa crença. Há alguns anos, eu passava pelas

terras de um príncipe soberano que, para m e fazer um favor e com bater

m inha incredulidade, m e fez a graça de m e m ostrar em sua presença e em

local particular dez ou doze prisioneiros desse gênero, e entre outros um a

velha, realm ente um a bruxa pela feiura e pela disform idade, e m uito fam osa

de longa data nessa profissão. Vi tanto provas com o confissões voluntárias e

tam bém um a m arca insensível502 naquela pobre velha: e indaguei e falei o quanto quis, prestando a m ais saudável atenção que pude: e não sou hom em

que m e deixe garrotear o j ulgam ento por preconceito. No final e em sã

consciência, eu m ais teria lhes prescrito o heléboro do que a cicuta. 503

Captisque res magis mentibus, quam consceleratis similis visa.504O caso parecia lim itar-se m ais à loucura do que ao crim e.] A j ustiça tem seus próprios

corretivos para tais doenças. 505 Quanto às obj eções e aos argum entos que hom ens honestos m e apresentaram , tanto lá com o, m uitas vezes, em outros

lugares, não os ouvi que m e tenham convencido: para eles, não há explicação

m ais convincente do que suas conclusões. É bem verdade que as provas e

razões que se baseiam na experiência e no fato, estas não as desato; elas

não têm ponta, e costum o cortá-las, assim com o Alexandre a seu nó. 506 Afinal de contas, pôr um hom em para ser queim ado vivo é conferir um preço bem

alto às próprias conj ecturas. Diz Prestâncio, e tem os diversos exem plos

dessas histórias, que seu pai, sonolento e adorm ecido m uito m ais

pesadam ente do que num sono perfeito, fantasiou ser um j um ento e servir de

burro de carga a seus soldados: e ele se tornava aquilo que fantasiava. Se os

sonhos dos feiticeiros assim se m aterializam , se os sonhos às vezes podem incorporar-se em realidades, ainda assim não creio que nossa vontade possa ser responsável por isso perante a j ustiça. Digo-o com o quem não é j uiz nem

conselheiro dos reis, e que se considera bem longe de ser digno disso, m as

com o hom em com um , nascido e educado para a obediência à razão pública,

tanto em seus feitos com o em seus ditos. Quem levasse em conta m eus

devaneios, em prej uízo da m ais m ísera lei de sua aldeia, ou de sua opinião, ou

de seu costum e, faria grande m al a si m esm o e outro tanto a m im . Pois do

que digo não garanto outra certeza senão que é o que naquele m om ento eu

tinha no pensam ento. Pensam ento tum ultuado e vacilante. É por m eio da

conversa que falo de tudo, e de nada por m eio de opinião. Nec me pudet, ut

istos, fateri nescire, quod nesciam. 507Nada de vergonha, com o aquelas pessoas, em confessar ignorar o que ignoro.] Eu não seria tão ousado para

falar se m e coubesse ser acreditado. E foi o que respondi a um grande

personagem , que se queixava da dureza e do ardor de m inhas exortações.

“Com o vos sinto propenso e preparado de um lado, proponho-vos o outro com

todo o cuidado que posso, para esclarecer vosso j ulgam ento, não para forçá-

lo: Deus detém vossos sentim entos e vos fornecerá a escolha.” Não sou tão

presunçoso para desej ar sequer que m inhas opiniões possam pesar para as

pessoas em coisa de tam anha im portância. Meu destino não as preparou para

conclusões tão poderosas e tão elevadas. Certam ente, tenho não só hum ores

em grande núm ero, m as tam bém opiniões suficientes das quais eu gostaria de

desinteressar m eu filho, se tivesse um . Por quê? Pois se as m ais verdadeiras

nem sem pre são as m ais agradáveis para o hom em , de tal form a ele é de

natureza selvagem ! Se a propósito ou fora de propósito, pouco im porta. Dizem

na Itália, num provérbio corrente, que não conhece Vênus em sua perfeita

doçura quem não se deitou com um a m ulher coxa. A fortuna ou algum fato

particular puseram , há m uito tem po, essas palavras na boca do povo; e isso

se diz tanto dos m achos com o das fêm eas. Pois a rainha das am azonas

respondeu ao cita que a convidava para o am or: ᾶριστα χολὸζ οὶφεῖ, “o coxo

é quem faz isso m elhor”. E nessa república das m ulheres, para fugir da

dom inação dos m achos elas os estropiam desde a infância, braços, pernas e

outros m em bros que lhes davam vantagem sobre si, e serviam -se deles

apenas para aquilo de que nos servim os delas em nossa terra. Eu diria que o

m ovim ento defeituoso da m ulher m anca forneceria um novo prazer à função e

um a ponta de doçura aos que a ensaiam : m as acabo de aprender que até

m esm o a filosofia antiga decidiu sobre isso. Ela diz que as pernas e coxas das

m ancas não recebem , por causa de sua im perfeição, o alim ento que lhes é

devido, e então ocorre que as partes genitais que ficam acim a são m ais

desenvolvidas, m ais nutridas e vigorosas. Ou então que aqueles que são

m arcados por esse defeito, com o estão im pedidos para o exercício, dissipam

m enos suas forças e chegam m ais inteiros aos j ogos de Vênus. Que é

tam bém a razão pela qual os gregos proclam avam que as tecelãs eram m ais

quentes que as outras m ulheres: devido ao ofício sedentário que exercem ,

sem grande exercício do corpo. Nessa toada, a que não podem os dar razão?

Destas eu tam bém poderia dizer que o vaivém que o trabalho delas im põe,

quando estão assim sentadas, desperta-as e as solicita, com o fazem com as

senhoras o balanço e os solavancos de seus coches. Esses exem plos não

servem para o que eu dizia no com eço: que frequentem ente nossas razões antecipam o fato e que sua j urisdição é tão extensa e infinita que elas são

usadas até para fazer j ulgam entos da própria inanidade e da inexistência!

Além da flexibilidade de nosso poder inventivo ao forj ar razões para sonhos de

toda espécie, nossa im aginação acha-se igualm ente apta a receber

im pressões de falsidade quando se apresentam sob aparências bem frívolas.

Pois só pela autoridade do uso antigo e corrente desse provérbio acreditei

outrora ter recebido m ais prazer de um a m ulher pelo fato de ser ela

deform ada, o que pus na conta de suas graças. Torquato Tasso, na

com paração que faz entre a França e a Itália, diz ter observado que tem os as

pernas m ais finas que as dos fidalgos italianos; o que atribui a estarm os

continuam ente a cavalo. É a m esm a constatação da qual Suetônio tira um a

conclusão totalm ente oposta. Pois diz ele, ao contrário, que Germ ânico

engrossara as suas pela prática constante desse m esm o exercício. Não há

nada tão m aleável e errático quanto nosso entendim ento. É o sapato de

Terâm enes, bom para qualquer pé. 508 E é duplo e diverso, e as m atérias são duplas e diversas. “Dá-m e um dracm a de prata”, dizia um filósofo cínico a

Antígono. “Não é um presente de rei”, ele respondeu. “Dá-m e então um

talento.” “Não é presente para um cínico.”

Seu plures calor ille vias, et caeca relaxat

Spiramenta, novas veniat qua succus in herbas:

Seu durat magis, Et venas astringit hiantes,

Ne tenues pluviae, rapidive potentia solis

Acrior, aut Boreae penetrabile frigus adurat. 509

Sej a que esse calor abre [na terra] passagens m ais num erosas e poros im perceptíveis por onde sobe a seiva nas plantas novas; sej a que ele