Prazer e desejo em Aristóteles
Capítulo II: Interpretação dos problemas
Capítulo 2 - Interpretação dos
problemas
Problema I: A função do prazer
Como o prazer é um efeito que retroage à sua causa, a atividade, e, ao retroagir, ele é capaz de causar certa perfeição da realização da atividade, seria válido recorrer à teoria das quatro causas para explicar o fenômeno do prazer, como fizeram, em geral, os comentadores? Se for válido proceder à análise fazendo uso da grelha conceitual das quatro causas, a título de esclarecimento, então o problema consiste em determinar o tipo de causa que o prazer exerce para que a atividade seja realizada de modo perfeito.
Parece-nos que o prazer não é aquilo em vista do qual uma atividade é aperfeiçoada, mas o que produz tal aperfeiçoamento, operando como causa eficiente não da natureza da atividade, mas do aperfeiçoamento de sua realização. Isso porque a causa de a atividade ter uma natureza completa (teleia) é o fato de a atividade ser, ela mesma, um todo completo cuja atualização de sua natureza
ou forma ( 1 eîdos ) é completa desde o instante em que surge. Isso significa que a forma da atividade não poderia ser aperfeiçoada ou completada ao longo do tempo. Tampouco o prazer é a causa de a atividade ser boa ou bem realizada. A causa, já nos disse Aristóteles em EN X 5, é a condição adequada da faculdade e seu respectivo
objeto. Esta adequação gera uma boa2 atividade acompanhada de prazer, o qual, por sua vez, causa o aperfeiçoamento de sua execução. Em poucas palavras: o prazer é um efeito que torna a atividade perfeita em sua realização. A seguir, faremos a exposição das quatro causas envolvidas na constituição da atividade simplesmente e da perfeita atividade, fazendo uso, assim como o fez Aristóteles, da atividade perceptiva como paradigma. Contudo, é preciso antes distinguir três maneiras de ser causa da atividade: (i) é possível ser causa da atividade, (i) é possível ser causa da perfeita atividade, e (iii) é possível ser causa da realização perfeita da atividade. O que pretendo mostrar é que o prazer é causa da perfeita realização da atividade.
Quanto à causa formal da atividade, dizemos que é aquilo que faz
com que a atividade seja uma atividade, portanto, aquilo que a define enquanto tal. Atividade (energeia), em termos gerais, é uma ação completa, isto é, a atualização de sua forma é completa (energeia teleia) desde o instante em que passou a existir. O prazer, certamente, não poderia ser a causa formal da atividade, pois ele não é aquilo que faz com que a forma da atividade seja completa desde sempre; mesmo porque uma atividade não deixa de ser atividade por não se prazerosa. Assim, a causa formal da percepção é ser capaz de receber a forma sensível sem a matéria.
Quanto à causa final da atividade, dizemos que é a sua própria
realização, portanto, a própria realização de sua forma, ou seja: as causas formal e final da atividade coincidem, pois o fim da atividade é a própria realização de sua forma. Ora, não poderíamos dizer que o prazer é causa final da atividade. A atividade se caracteriza por ter o fim em si mesma, ao contrário do movimento cuja finalidade lhe é
extrínseca. 3 Assim, o fim primário ou essencial da atividade é a sua própria realização. É claro que o desejo pode estabelecer diversos outros fins para a realização desta ou daquela atividade, por exemplo, o fim de obter prazer. Podemos, sem dúvida, orientar a realização de certa atividade em vista do prazer subsequente; todavia, esta finalidade é secundária e acrescida por aquele que assim deseja. A finalidade primeira ou a natureza própria da atividade é simplesmente a sua realização. Denomino de fim primário quando a realização da atividade é o seu próprio fim, e secundário quando a realização da atividade se faz em vista de um fim posto conforme o desejo particular daquele que age. Com efeito, a finalidade da atividade de perceber é simplesmente atualizar da melhor maneira possível a capacidade de receber a forma sensível sem a matéria. Por exemplo, contemplar o pôr do sol é primeiramente contemplar de modo perfeito e, secundariamente, se assim for o desejo de quem contempla, ter prazer com esta contemplação.
Quanto à causa material da atividade, dizemos que é o órgão materialmente capaz de apreender e o objeto materialmente capaz de ser apreendido pelo respectivo sentido, por exemplo, apenas a cor é materialmente perceptível pela visão. Quanto à causa eficiente desta atividade, sabemos que o objeto sensível atualiza sua respectiva faculdade, e assim engendra a atividade perceptiva. Se tal atividade for perfeita, então dizemos que a causa eficiente são a faculdade e o objeto quando estes se encontram em condições materiais adequadas, pois quanto em melhor estado estiver o objeto sensível e a sua respectiva faculdade, melhor será a percepção. Por exemplo, para que a perfeita visão ocorra, o percipiente deve enxergar bem e estar com os olhos em bom estado, assim como o objeto visível deve estar em boas condições, como nem muito longe ou perto, nem sob intensa ou débil luminosidade etc.
Todas essas causas expostas acima engendram a perfeita atividade, mas não a perfeita realização desta atividade. Assim, é preciso ter em mente a distinção entre (i) a realização da atividade, (ii) a realização da perfeita atividade e (iii) a realização perfeita da atividade. O prazer, assim nos parece, é causa eficiente da realização perfeita da atividade. Entendemos que o prazer não é causa da completude da natureza da atividade, mas da sua perfeita realização ou execução. Ou seja, executamos melhor, isto é, mais perfeitamente, quando temos prazer, pois desejamos mais realizar a atividade que atualmente estamos realizando. Por isso, acreditamos que se tivermos que fazer uso da teoria das quatro causas para explicar em que sentido o prazer é causa da perfeição da atividade, devemos pressupor, em primeiro lugar, como já foi dito, que ele é causa não da perfeição da atividade, mas da perfeição da realização da atividade, e, em segundo lugar, que o tipo de causa que expressa a ação do prazer sobre a realização da atividade é a eficiente. Em suma, o prazer não é causa de a atividade ser perfeita, mas é causa de sua perfeita realização.
Não constatamos que qualquer comentador fizesse a necessária distinção entre completar (teleioî) a natureza da atividade e aperfeiçoar (teleioî) a sua realização. Ora, de nenhum modo a natureza da atividade seria completada (teleioî) pelo prazer, visto que ela é completa (teleia) desde seu surgimento. Tampouco o prazer seria causa da perfeita atividade, isto é, da atividade realizada em condições perfeitas, ou seja, quando o agente e o paciente, a faculdade e o objeto encontram-se em condições adequadas ou as melhores possíveis. Se o prazer não poderia causar nem a completude (teleioî) da atividade nem a sua perfeição (teleia), então ele é tão somente causa da perfeição de sua realização. Sem estas distinções primárias, toda sorte de confusão é possível e qualquer interpretação parece ser válida.
De modo algum o prazer poderia ser o fim da natureza da
atividade, nem de seu aperfeiçoamento ou completude, como
afirmam alguns. Assim o faz Festugière, 4 sobretudo porque o prazer foi definido como um fim (telos) que sobrevém. Porém, telos pode ser entendido como perfeição ou acabamento. Porém, para Festugière, o objeto sensível e a faculdade sensível são causas eficientes do fenômeno perceptível e o prazer, a causa formal e final, ou seja, o prazer é a causa final e formal em vista do qual a atividade é propriamente aperfeiçoada. Tal interpretação, por sua vez, nitidamente contradiz a tese de que o prazer é aquilo que é próprio à atividade e não a sua finalidade (causa final) ou identidade (causa formal). Em discordância com Festugière, Tomás de Aquino,
Gauthier e Jolif, e Gosling e Taylor5 concebem o prazer antes como a causa formal do que a final, pois pensam que ele é antes a perfeição de uma atualização ou condição para tal perfeição do que o seu fim. O problema dessa interpretação é admitir a possibilidade de o prazer ser, ele próprio, a perfeição da atividade, pois ele não poderia ser outra coisa senão um tipo de causa da perfeição na execução. Riel expõe em detalhe a querela dos comentadores sobre o tipo de causa que seria o prazer, porém ele mesmo não opta por nenhuma das interpretações, dizendo apenas que “o prazer não é
uma causa, já que ele é apenas um elemento superveniente”.6
A meu ver, o fim da atividade é a sua boa realização. Ou seja, o
prazer não pode ser a causa final nem da perfeita atividade, nem do aperfeiçoamento de sua execução, pois a finalidade da execução perfeita é a própria perfeição na execução, ou seja, o aperfeiçoamento promovido pelo prazer serve para que a atividade seja executada do melhor modo possível. Em suma, sabemos que a atividade deve ser perfeita para que o prazer se siga em grau máximo. Ele é um efeito da atividade perfeita que, por sua vez, retroage revigorando sua causa. Afinal, ao retroagir, ele não poderia ser causa do que lhe causou; logo, ele é apenas causa de um revigoramento da execução e não da existência da atividade tal qual ela é. Neste ponto, concordamos com Riel, para o qual o prazer não é nenhum tipo de causa que faz com que a atividade seja perfeita. Como ele diz:
O prazer não pode ser estritamente considerado como uma causa final: ele
não é o fim ao qual aspira a atividade. Claramente, não é sempre que nós
realizamos todas as nossas atividades com vistas a obter prazer. Parece até
mesmo ser o caso de que uma aspiração estritamente direcionada para
obter prazer, na verdade, nos preveniria de obter qualquer prazer que seja.7
O prazer, portanto, é uma perfeição suplementar acrescida à perfeição que a atividade tem em si mesma e que foi gerada por outras causas que não o prazer. Por isso, não o prazer, mas ser o que se é será o fim da atividade e de sua perfeita execução. O prazer será apenas uma perfeição (telos) que sobrevém à realização da atividade. Como conclui belamente Riel:
O prazer é deste tipo: ele não é uma perfeição intrínseca a uma atividade,
mas antes um excedente (surplus), uma qualidade que lhe sobrevém.
Aristóteles, portanto, claramente reconhece que atividade e prazer não são
idênticos. O prazer pode ser um excedente extremamente desejável e
gratificante, mas a atividade enquanto tal pode ser realizada sem prazer.8
Ademais, conceber o prazer como fim da atividade perfeita é querer atribuir uma tese excessivamente hedonista a Aristóteles que, claramente, se dedicou a distinguir prazer e atividade com vistas a mostrar que o prazer não é senão uma sensação que acompanha a ação moral. Mais ainda, agir sempre em vista do prazer é agir de modo intemperante e ter prazeres excessivos. O prazer excessivo parece cumprir bem tal função de finalidade última da ação, uma vez que não importa o valor moral da ação, mas sim se ela dá prazer ou não. E se alguém toma o prazer como fim último de suas ações, isto é, como o critério para agir, inevitavelmente essa pessoa se tornará um intemperante. Por isso, não apenas pelo fato de o prazer ser uma propriedade da atividade e não ser seu fim, mas também por razões morais, não seria possível admitir que ele seja, em termos absolutos, a finalidade da atividade. Ou seja, devemos antes desejar fazer o bem e do melhor modo possível do que desejar ter prazer.
Podemos inferir que a concepção aristotélica do prazer como
sendo condição para a perfeita execução da atividade pretende enfraquecer o estatuto do prazer como causa final da atividade, uma vez que ele não deve ser valorizado nem perseguido em detrimento do que é verdadeiramente bom. E se o prazer não é de modo algum causa da boa atividade, então ele não deve ser desejado acima dela; ao contrário, é a boa atividade que deve ser desejada em preferência do prazer que dela possa resultar, como veremos no “Problema II: prazer e virtude”.
Tomemos a analogia feita entre prazer e saúde e façamos um
breve exame à luz da teoria das quatro causas. Quando interpretamos, na análise feita do segundo Tratado do prazer, que Aristóteles diz que a função da saúde que vem adquirindo o paciente otimiza o processo de cura e que, portanto, funciona como uma espécie de fortalecimento da cura, faz-se necessário distinguir entre a saúde que ainda residia no paciente, a saúde que o paciente passou a adquirir durante o processo de cura e a saúde completamente restabelecida ao fim do processo. Por conseguinte, vemos três momentos distintos no processo de convalescença: um antes de se iniciar a cura, outro durante e outro ainda posterior. O prazer, assim nos parece, opera como a saúde (isto é, o melhoramento físico) que veio por acréscimo (epigignomenon) durante o próprio processo de cura e que acabou por auxiliá-lo. Assim, a analogia consiste em dizer que o prazer é certa perfeição que sobrevém à finalidade da atividade, como a saúde adquirida sobrevém à cura (finalidade do processo de convalescença). Ou seja, o prazer é uma perfeição na realização da finalidade da atividade e não a própria finalidade da atividade.
O prazer é como uma saúde por acréscimo. Esta saúde por
acréscimo não é responsável pela execução adequada do tratamento, isto é, o tratamento não deixaria de ser adequado e nem deixaria de ser executado adequadamente sem tal acréscimo, nem a cura deixaria de ser obtida. A única diferença é que o tratamento seria otimizado, tornado mais eficiente, pois a sua execução seria aperfeiçoada na medida em que o paciente fosse ganhando saúde durante o processo de cura. Segundo esta interpretação, o prazer é como a saúde acrescida à convalescença, a qual opera como causa eficiente na efetivação da cura. A causa material da cura é o corpo ainda saudável do paciente, a formal é a própria cura ou restabelecimento da saúde, a final é a realização da cura, a eficiente é o tratamento. Com relação não à natureza da cura, mas à qualidade de sua realização, a saúde que vem adquirindo o paciente é causa eficiente.
Em analogia, para que haja a atividade perceptiva perfeita, a causa material é o corpo daquele que percebe possíveis objetos exteriores em condições adequadas, a formal é o que faz da atividade ser uma atividade perceptiva, a final é a realização perfeita da percepção, e a eficiente é o encontro entre a faculdade e seu objeto em perfeitas condições. Dadas as causas que geram uma perfeita atividade, segue-se necessariamente o prazer, o qual, por sua vez, aperfeiçoa a execução da perfeita atividade. Trata-se aqui, de uma atividade perfeita sendo executada perfeitamente. O prazer é apenas causa eficiente da perfeita execução da atividade. Do ponto de vista moral, como toda atividade virtuosa realizada virtuosamente é necessariamente acompanhada de prazer, então ela é necessariamente executada de modo perfeito. Ou seja, o próprio modo virtuoso de agir implica a perfeita execução da ação virtuosa.
Para finalizar o Problema I, acreditamos ser preciso fazer o seguinte adendo, a saber, a atividade que é acompanhada de um prazer excessivo ou ruim também é aperfeiçoada. Assim, é possível ter a sensação de prazer ao fazer algo vil, e isso também significa agir perfeitamente. Com efeito, da mesma maneira que uma atividade boa, ao ser feita com prazer, torna-se melhor do ponto de vista moral, visto que sua execução será perfeita, uma atividade vil torna-se pior quando executada com prazer, isto é, perfeitamente. Neste caso, basta termos em mente o exemplo do crime perfeito. O crime perfeito é um crime, uma ação ruim, executada da melhor maneira possível, o que implica dizer que o criminoso teve prazer ao realizar o crime. O crime é uma atividade ruim que se torna pior quando realizada com prazer. Pensemos agora em uma ação justa, como a de um rei que deve distribuir os espólios da guerra entre os guerreiros. Esta ação de distribuição pode ser justa se justa for a intenção do rei, se o mesmo assim estiver agindo em conformidade com as normas ou leis. Todavia, será a mais justa possível se o rei for justo, desejar e realizar tal ação em vista dela mesma e tiver prazer em realizá-la. O corajoso, por exemplo, pode agir corajosamente porque deseja obter a glória de seu heroísmo. Todavia, se for um verdadeiro guerreiro, ele agirá corajosamente em vista da própria ação corajosa e sentirá prazer em agir assim, independentemente do reconhecimento glorioso posterior. Neste caso, a sua ação será a mais corajosa possível. Em suma, uma ação virtuosa será a mais virtuosa possível se for realizada de modo virtuoso, isto é, perfeitamente, com prazer. Como diz o filósofo: