Prazer e desejo em Aristóteles

Juliana Ortegosa Aggio · Capítulo 32 de 34

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Prazer e desejo em Aristóteles

O pudor

Ter bom-humor significa, portanto, gozar de prazeres em situações divertidas como se deve, colocando a educação e a gentileza acima de seu prazer em se divertir. Assim, podemos dizer que o bem-humorado terá o seu apetite educado para agir bem nessas situações.

 

O pudor

 

Já falamos do pudor (aidos) na exposição geral sobre as virtudes particulares e ressaltamos o fato de ele ser uma emoção e não uma virtude propriamente. Assim, no livro IV, capítulo 9 (1128b10-36), onde o pudor foi examinado ex professo, Aristóteles também afirma que ele é antes uma emoção (pathos) que uma disposição (hexis), ou seja, ele é um tipo de medo da desonra que se manifesta por sensações físicas. Não devemos desenvolver o pudor, ou seja, não se trata de passar a ser pudico ou envergonhado no processo de formação do caráter, pois o virtuoso, ao contrário, não deve sentir vergonha de suas belas e boas ações. O pudor é antes considerado algo bom enquanto a introjeção de um mecanismo de autocensura, por isso extremamente importante para os jovens. Ele é uma emoção que refreia o erro, uma vez que se deve ter vergonha de ser censurado ou desonrado. Sentimo-nos envergonhados quando somos censurados por alguém pelo que não deveríamos ter feito. Também podemos sentir vergonha de querer agir mal e de sermos posteriormente censurados por tal ato. Com efeito, esta internalização da censura pelo medo da desonra não é senão um meio de conter a si mesmo de modo a evitar a realização de uma ação vil. Ou seja, por evitar a dor futura da desonra, o jovem deixa de fazer ações vis e assim o apreço pela honra vai se instilando em

seu caráter.22 Um adulto, por sua vez, que não seja virtuoso e que se controle por pudor será um adulto controlado (encratês). Este certamente não é um bom exemplo, pois nenhum adulto deveria ter de se controlar para não agir erradamente. Ninguém poderia ser dito verdadeiramente corajoso se sua ação for corajosa por medo da desonra e não por amor ao belo. O pudor, portanto, deve existir apenas no momento de formação do caráter, em que o jovem tem de refrear as suas ações vis por medo da desonra. De certo, essa emoção tem um caráter positivo apenas do ponto de vista pedagógico, pois, por constrangimento, o jovem é forçado a enfrentar certos medos, como no caso do corajoso, e agir bem. Em suma, ele é apenas um sentimento provisório que deve ser superado com a aquisição da virtude.