Prazer e desejo em Aristóteles

Juliana Ortegosa Aggio · Capítulo 28 de 34

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Prazer e desejo em Aristóteles

A tolerância

generosidade.16 Enquanto a grandeza de espírito diz respeito a grandes honras, o amor à honra diz respeito a pequenas honras. Trata-se de ter uma boa disposição em relação ao desejo (orexis) pela honra, pois “é também possível desejar a honra mais ou menos do que se deve, de onde e como se deve” (1125b8-9). O problema é que os extremos possuem nomes: o amor excessivo à honra (philotimia) é chamado de ambição, ou, como costumamos dizer em português, ganância; já a ausência de tal amor denominamos de falta de ambição ou humildade (aphilotimia). O meio termo, por sua vez, encontra-se sem nome. Porém, como há extremos, diz o filósofo, deve haver um meio termo e nós elogiamos aquele que deseja a honra ou que tem ambição na medida certa e pelas fontes certas. Em suas palavras:

 

Com efeito, é possível desejar honrarias como se deve, bem como mais e

menos do que se deve, e quem excede em seus desejos é dito ambicioso

(philotimos), quem está em falta é humilde (aphilotimos); quem está no meio

termo não tem nome. Os estados também não têm nome, exceto o do

ambicioso: ambição (philotimia). Por isto os que estão nos extremos

outorgam-se o espaço do meio termo, e nós também chamamos quem está

no meio termo por vezes de ambicioso, por vezes de humilde; por vezes

louvamos o ambicioso; por vezes, o humilde (EN II 7: 1107b27-1108a1).

 

Diante de tal ambiguidade referente à denominação do meio

termo, poderíamos designar o meio termo de 17 ambição própria . Já o extremo por excesso, que também pode ser chamado de ambição, seria, no caso, melhor designado por ambição imprópria, ou ganância. Com efeito, visto se tratar de uma virtude moral, é preciso haver a educação do desejo por honras. Este deve existir na justa medida, portanto, sempre subordinado ao desejo pelo belo, sendo o verdadeiro ambicioso aquele que ama o belo (philokalos), faz o belo e, por isso, é honrado.

 

A tolerância

 

Se, como vimos, com relação ao prazer, a educação do apetite deve, sobretudo, engendrar a disposição mediana chamada temperança, com relação à dor, a educação do impulso deve constituir fundamentalmente duas disposições medianas: a coragem e a tolerância (praotês), virtude examinada no livro IV, capítulo 5 (1125b27-1126b10).

A coragem diz respeito, principalmente, ao enfrentamento da dor

na batalha, portanto, ela é uma disposição virtuosa própria ao guerreiro. Já a tolerância ou o bom temperamento diz respeito ao enfrentamento da dor em situações ordinárias relativas aos insultos e ofensas recebidos imerecidamente. Tendo em conta essas duas disposições, podemos inferir que, grosso modo, o enfrentamento da dor se refere às dores temíveis, que virão futuramente, ou às dores padecidas injustamente. Diante da dor futura ou iminente, é preciso coragem para enfrentá-la. Diante da dor passada, já sofrida, é preciso ter cólera na boa medida para enfrentá-la, pois é após ter sofrido com um “manifesto desprezo contra si mesmo ou contra alguém próximo, sem que o desprezo seja merecido” (Ret. II 2: 1378a32), que a cólera surge enquanto um desejo de vingança.

A pessoa tolerante é aquela que enfrenta a dor sofrida como é

preciso, tendo cólera com o que se deve, como, quando, contra quem e por quanto tempo se deve segundo as circunstâncias envolvidas. Por isso, o impulso educado é aquele que é orientado conforme a reta razão. Neste sentido, o filósofo afirma que “a pessoa tolerante quer ser tranquila e não guiada pela emoção, mas

pelo que ordena a razão ( 18 hôs an ho logos tazêi )” (1125b34-35).

Trata-se antes de querer ser orientado pela razão e evitar ser guiado pela emoção do que simplesmente saber o que deve ser feito em uma dada situação. O desejo precisa desejar o que diz a razão, o que pressupõe um esforço contínuo para a obtenção e manutenção da disposição mediana (1126b9).

O excesso é chamado de irascibilidade (orgilotês). Já a

deficiência é chamada de falta de espírito (aorgêsia). A falta de cólera, a excessiva passividade parece provir da falta de sofrimento com um insulto ou ofensa que normalmente provocaria dor, pois, segundo Aristóteles, é preciso sofrer como se deve sofrer, ou seja, é preciso encolerizar-se com certas injustiças e enfrentar a dor sofrida com moderação.