Prazer e desejo em Aristóteles

Juliana Ortegosa Aggio · Capítulo 29 de 34

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Prazer e desejo em Aristóteles

A amabilidade

Quanto ao excesso de cólera, há três tipos de manifestações pelas quais o impulso encontra vazão contrariando a justa medida: o irascível ou colérico em excesso (orgiloi); o ressentido ou vingativo em excesso (pikroi dusdialutoi) e o de temperamento ruim (chalepoi). O irascível encoleriza-se por qualquer motivo, liberando de modo indiscriminado e desorientado o seu impulso, porém seu sentimento colérico extingue-se tão rapidamente quanto começou. O ressentido, por sua vez, retém sua cólera por muito tempo e, quando a libera, por ela ter sido demasiadamente contida, a sua força é tamanha que ela só diminuirá se houver vingança ou, passado certo tempo, se ela tiver sido bem digerida, esquecida, sublimada. Já a pessoa de temperamento ruim consegue ser pior do que o ressentido, pois ele só aplaca a sua cólera com o prazer da vingança ou da punição, ou seja, ele não é capaz de superar a dor sofrida sem que ele não provoque sofrimento em troca e ainda sinta prazer nisso. Por fim, a gravidade moral, como vimos, encontra-se antes no excesso do que na falta de cólera, sendo o acerto a mediedade.

 

A amabilidade

 

A disposição para se dedicar ao outro e causar-lhe prazer como convém, examinada no livro IV, capítulo 6 (1126b11-1127a11), por não ter um nome na língua grega, pensamos ser o caso de denominá-la com um termo em nossa língua que parece ser

adequado ao caso: a amabilidade.19 Se as outras disposições eram tendências saudáveis na busca do prazer e no enfrentamento da dor com relação a si mesmo e ao outro, esta disposição, como veremos, tem como objeto exclusivamente o outro, ou seja, ela se refere ao que é agradável na vida em geral (peri to hêdu en tôi biôi) (1108a26) e não apenas em situações divertidas, como é o caso do bom-humor, mas, como veremos, no que diz respeito ao outro, portanto, em situações de sociabilidade.

Enquanto o obsequioso ou o excessivamente complacente (areskos) exagera em apenas querer dar prazer e jamais provocar dor, mesmo que seja simplesmente por ter prazer em dar prazer, sem ter em vista a obtenção de dinheiro, como faz o bajulador (kolax). O beligerante ou quereloso (duseris) e o grosso ou intratável (duskolos) excedem por não se importarem em provocar dor ao outro ou, simplesmente, por não fazerem questão alguma de serem agradáveis. Como diz o filósofo: “quem excede, se não visa a nada, obsequioso, mas, se visa à sua própria vantagem, adulador; quem está em falta e é desagradável em tudo é um tipo quereloso e intratável” (1108a28-30). O amável ou afetuoso, por sua vez, sabe dar prazer e provocar dor ao outro na justa medida e pelas boas razões. Ele é como um “bom amigo”, diferenciando-se deste por se comportar com a mesma propriedade com os estranhos. Isso significa que esta virtude não pode ser um tipo de amizade, apesar de se aproximar dela no aspecto do zelo ao outro, de querer