Prazer e desejo em Aristóteles

Juliana Ortegosa Aggio · Capítulo 14 de 34

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Prazer e desejo em Aristóteles

Solução: é possível desejar corretamente

Solução: é possível desejar

 

corretamente

 

Mesmo não sendo possível escolher deliberadamente o que

iremos desejar, devemos compreender o que significa desejar conforme a deliberação (oregometha kata ten bouleusin) (1113a13).

Remontando a ordem que vai do fim à ação, podemos inferir que,

diante de certo fim, investigamos os meios para realizá-lo. Uma vez concluída a deliberação, escolhemos realizar ou não este fim. Se for escolhido, então significa que o que havíamos desejado foi aprovado como sendo moralmente bom e realizável por bons meios. Isso não significa que constituímos o fim desejado a partir do que foi deliberado, mas que, ao concluirmos a deliberação e escolhermos realizar o fim, o nosso desejo foi avaliado como estando em conformidade com a deliberação. Nas palavras do filósofo:

 

Dado que o objeto de escolha deliberada é o objeto de desejo do que está

em seu poder após a deliberação, a escolha deliberada será, então, o desejo

deliberado do que está em nosso poder, pois, julgando em função de ter

deliberado, desejamos conformemente à deliberação (EN III 5: 1113a11-12).

 

O desejo pelo fim é o início da deliberação, caso contrário, não se

deliberaria sobre nada. Ora, a deliberação não é senão encontrar os meios para um fim já dado. Uma vez concluída a deliberação e escolhidos os meios para se agir, passamos a desejar tais meios com vistas a realizar o fim desejado. Em suma, passamos a “desejar conformemente à deliberação”. Esta frase, portanto, parece se referir ao desejo pelo meio, isto é, à escolha deliberada. Isso porque o fim desejado, uma vez escolhido, passa a ser realizável por meios encontrados pela deliberação. Se o próprio fim fosse objeto de

deliberação, como diz Aristóteles, 49 iríamos ao infinito e a deliberação seria vazia. Isso porque, se o fim fosse objeto de deliberação, então ele seria um meio para um fim que, por sua vez, seria um meio para outro fim e assim ad infinitum.

Do que foi argumentado até o momento, concluímos que à razão

não cabe criar os próprios desejos, 50 mas que o desejo pode apreender a desejar o que dita a razão e ser aprovado pela deliberação, portanto, escolhido. Desse modo, afirmamos haver a possibilidade de se desejar corretamente, o que significa dizer que o desejo, enquanto próprio da parte não racional da alma, pode participar da racional. Ou seja, ele é capaz de ser educado, de passar a ter como objeto com o que a razão lhe diz que é preciso ter.

Com efeito, para que o desejo seja educado, é preciso haver uma racionalidade capaz de educá-lo, visto que somente a razão é capaz de apreender verdadeiramente o que é bom. Tal racionalidade, no início da formação do caráter, é externa ao agente, pois a criança possui a razão apenas em potência;, mas com o caráter já constituído, ela passa a estar sob o domínio do agente. Esta racionalidade prática própria ao agente moral adulto possui, ao menos, duas funções essenciais: uma responsável pela apreensão dos meios, a deliberativa, e outra que deve ser responsável pela apreensão correta do fim. Afinal, pressupõe-se que apenas uma operação racional pode apreender verdadeiramente o bom fim. Esta última, a título de distinção da função deliberativa e faux de mieux, nós a chamaremos de razão persuasiva.

O virtuoso é aquele que faz uso maximamente da racionalidade prática em ambas as funções, pois ele apreende verdadeiramente tanto o bom fim, como os bons meios. Por isso, que o desejo seja capaz de ser educado é evidente a partir da figura do virtuoso. Sabemos que, para nos tornarmos virtuosos, temos tanto que incutir o hábito de desejar o que se deve, o que significa ter prazer e dor com o que se deve, como também sabermos escolher deliberadamente os melhores meios para se realizar o fim

desejado.51 O virtuoso delibera sobre como e quando se deve realizar um fim já posto e correto; caso contrário, se a deliberação não partisse de um fim belo (kalos) e bom (agathos), não poderíamos dizer que a deliberação pudesse ser boa no sentido

moral do termo.52 Portanto, para que um fim seja belo, o desejo deve ser educado a obedecer ao que a reta razão apreende como sendo belo. A virtude, neste sentido, não é senão a realização de bons desejos a partir de meios também moralmente bons. Trata-se de compreender a virtude como uma disposição para sentir emoções e desejos adequados de modo a permitir que o virtuoso