Prazer e desejo em Aristóteles
A sinceridade
verdadeiramente o bem do outro.20 Trata-se de “ter em mira o belo e o conveniente (sumpheron) para provocar a dor ou o prazer” (1126b29-31); por isso, os impulsos e os apetites direcionados ao outro devem se orientar pelo que é belo e conveniente e não pelo que é simplesmente prazeroso ou doloroso. Em suma, devemos agir e falar de modo agradável ou desagradável tendo em vista o que é belo ou conveniente e não o prazer ou a dor que será provocada no outro. Portanto, a pessoa amável jamais seria agradável por simplesmente agradar, e muito menos por interesse, como faz o bajulador. Quanto a si mesmo, a pessoa amável é capaz de recusar um prazer que seja desonesto, preferindo a dor; quanto ao outro, ela sempre terá em conta quem é ele, diferindo o seu tratamento conforme cada tipo de pessoa. Se causar alguma dor será em vista de um prazer futuro muito maior. Tampouco desejará dar prazer que cause injúria ou prejuízo a si mesmo, ainda que provoque alguma dor não excessiva; o que o distancia da figura contemporânea do altruísta, pois ele não age apenas levando em conta o bem do outro, mesmo que para isso ele tenha que sofrer o que não deveria sofrer. Esta disposição não é senão ter os apetites e impulsos educados quando direcionados ao outro sem desconsiderar a si mesmo.
A sinceridade
Assim como a disposição em ser amável, esta disposição, examinada no livro IV, capítulo 7 (1127a12-b33), também não tem nome. O filósofo apenas nos diz que o seu objeto é a verdade (peri talêthes) no que diz respeito às palavras e ações nas relações sociais e que ela se localiza entre duas disposições extremadas, cuja característica é a mentira, a saber: uma em que a pessoa orgulhosamente atribui mais crédito a si mesmo do que deveria e outra que se autodeprecia indevidamente. Tendo em vista que aquele que encontra o meio termo é o homem sincero ou verdadeiro (alêtheutikos), sem hesitar, poderíamos denominar a disposição mediana de sinceridade. Mesmo porque, se no livro IV ele diz que ela é anônima, em II 7 é exatamente este nome que Aristóteles lhe atribui: “A respeito do que é verdadeiro, seja dito veraz quem está no meio termo e a mediedade, veracidade (alêtheia); a afetação para mais, presunção (alazoneia) e que a tem, presunçoso; a para menos, dissimulação (eirôneia) e quem a tem, dissimulado” (1108a20-22).
O orgulhoso ou presunçoso (alazôn) mente ao atribuir-se mais mérito do que devia, isto é, ele pretende ser reputado por aquilo que ele não é ou não tem, ou tem menos do que diz ter. Como diz nosso provérbio: “ele aumenta a verdade”. Já o dissimulado (eirôn), como ele se deprecia mais do que devia, negando ser ou ter as qualidades que lhe reputam, pode ser visto como um homem de falsa modéstia, ou como um pretensioso insolente ao desprezar todas as distinções recebidas. De qualquer forma, certamente ele é menos maléfico do que o tipo orgulhoso ao qual o homem sincero parece mais se opor. O orgulhoso mente para obter reputação ou lucro, pois coloca a reputação e o lucro acima da verdade. Ademais, ele sente prazer em dizer falsidades se esta for um meio para o reconhecimento. Por isso, o meio termo é o que conhecemos como ser sincero, transparente, franco ao se apresentar para os outros, mostrando-se tal como se é e dizendo com verdade o que se é. Veja que o objeto da sinceridade é bastante restrito e diz respeito a não angariar para si uma reputação maior ou menor daquela que é a sua verdadeira reputação por meio de discursos ou comportamentos. Por isso, Aristóteles diz explicitamente que esta virtude não concerne em ser verdadeiro em acordos feitos (homologiais), nem onde se exige ser justo, pois este será o objeto de outra virtude: a justiça (1127a33-b4).