Prazer e desejo em Aristóteles

Juliana Ortegosa Aggio · Capítulo 18 de 34

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Prazer e desejo em Aristóteles

O conhecimento em si

Em suma, quando há conflito moral, temos tanto um fim desejado conforme a reta razão como outro contrário a ela. Por isso, quando Aristóteles diz que há conflito entre escolha deliberada e apetite, mas não entre apetites, devemos entender que há conflito entre querer certo fim (enquanto um desejo conforme a reta razão, portanto, conforme a própria escolha deliberada por ter sido aprovado por ela) e ter apetite por outro fim (enquanto um desejo contrário à reta razão, portanto, contrário à própria escolha

deliberada).83 Para que haja harmonia e o conflito cesse, o apetite e o impulso devem estar suficientemente habituados a ouvir a razão, de modo que o desejo em geral (orexis), o que inclui os três tipos, esteja habituado a desejar conformemente à reta razão. Em suma, para entender o conflito moral não há necessidade de supor a existência de um desejo próprio da parte racional, basta supor a existência de um desejo conforme e outro contrário à parte racional. Por isso, mesmo que o conflito seja sempre um conflito de desejos, daí não se autoriza inferir que um seja próprio da parte racional; basta que ele seja o mais obediente a ela.

Por fim, vimos que é por meio do hábito que a razão penetra no desejo educando-o, persuadindo-o com mais intensidade e facilidade, afinal o hábito prepara o desejo para ouvir a razão e segui-la. Vejamos agora o papel do autoconhecimento para a educação dos desejos.

 

O conhecimento de si

 

Uma das coisas mais difíceis é ter controle sobre a própria mente e uma das coisas mais perigosas é não ter controle sobre ela. Nada mais explica tão bem a razão pela qual o governo de si mesmo é o principal mote da ética antiga, mote este que, em verdade, não deixa de ser absolutamente atual e sempre. O governo de si implica conhecimento e cuidado de si. Embora esses dois temas não tenham o mesmo peso e desenvolvimento na ética aristotélica como na platônica, segue abaixo algumas linhas sobre o que Aristóteles compreendia por conhecimento de si e sua importância para a educação moral.

Como foi dito, há um segundo modo pelo qual a razão pode atuar

sobre o desejo além daquele que é próprio do processo formativo do caráter. Este segundo modo se caracteriza pela possibilidade de o adulto mudar as disposições já adquiridas, ou seja, de aperfeiçoar o seu caráter através da mudança de hábito, o que implica ter conhecimento de si. Para tanto, é fundamental que ele saiba para quais desejos ele tende, quais hábitos engendram tais desejos e como é possível efetivamente mudar de hábito.

Assim sendo, este segundo modo de atuação da razão, que

parece ser primordialmente avaliativo e controlador, se expressa pelo que chamamos de conhecimento de si e cura pelo contrário. Nas breves palavras do filósofo dedicadas a esta questão, temos o que se segue:

 

Devemos ficar atentos aos erros aos quais somos mais propensos: alguns

tendem para uns; outros, para outros. Isto torna-se conhecido pelo prazer e

pela dor por que passamos. Devemos puxar a nós mesmos em direção ao

ponto oposto, pois chegaremos ao meio termo afastando-nos tanto quanto

possível do erro, como fazem os que endireitam a madeira empenada (EN II

9: 1109b2-8).

 

Visto que a virtude moral é um meio termo nas emoções e nas

ações, conhecer a si mesmo nada mais é do que conhecer se as disposições são excessivas ou estão em falta, portanto, se sentimos emoções e agimos de modo excessivo ou em falta. Conhecendo primeiramente nossas tendências ou propensões, podemos realizar o que ficou conhecido na exegese por “cura pelo contrário”. O autoconhecimento não serve senão para que possamos mudar de hábito de modo a nos direcionarmos para a mediania e adquirirmos a disposição mediana, isto é, virtuosa. Em suma, toda cura pelo contrário implica conhecimento de si.

Há outras passagens em que Aristóteles acentua a necessidade

do conhecimento de si para não cairmos em falta ou em excesso. Por exemplo, quanto à virtude da grandeza de espírito (megalopsuchia), o conhecimento de si é importante para não nos tornarmos alguém de baixa autoestima, de alma pequena (mikropsuchos), tampouco nos estimarmos em excesso e nos

tornarmos presunçosos e ignorantes de nós mesmo. 84 Outro exemplo é o do esbanjador, pois Aristóteles nos diz que aquele que erra por excesso de generosidade pode se autoconhecer e se curar

ao agir contrariamente ao seu hábito, já o avaro é incurável. 85 Da mesma maneira, sabemos que o controlado ou o descontrolado são curáveis, já o intemperante não.

O conhecimento de si significa ter consciência sobre as próprias disposições e de que as disposições provêm do exercitar-se nos atos particulares, o que implica saber a quais desejos tendemos mais. Conhecer a regularidade dos desejos não é senão se dar conta da repetição de nossas ações. Uma vez tendo consciência desta tendência, deve-se procurar mudar, agindo no sentido contrário até encontrar o meio termo nas ações, assim como nas emoções e desejos. Tendo tais cuidados consigo mesmo, mais se é capaz de atingir o meio termo quanto ao prazer e à dor no que concerne às emoções e às ações, portanto, mais se é capaz de governar a si mesmo.

Por isso, a educação do desejo daquele que ainda pode mudar de caráter implica autoconhecimento. Conhecer seus desejos, avaliá-los, corrigi-los, controlá-los quando preciso, parecem ser funções próprias de nossa racionalidade. Como diz o filósofo, uma vez tendo

conhecimento de suas tendências, não basta querer mudar,86 deve-se agir para tanto, ou seja, deve-se cultivar bons hábitos de modo a educar o desejo para o meio termo. Ou seja, não basta querer (boulêsis) mudar para se mudar de fato; assim como não basta ao doente simplesmente querer se curar e não fazer nada para tanto. A percepção de si e a ação parecem ser as principais vias de acesso da razão ao desejo. Olhar para os próprios desejos e agir para transformá-los dando a si mesmo as boas razões para tanto são as condições necessárias para que a persuasão e a mudança efetivamente ocorram. Afinal, ninguém muda se não estiver convencido de que é preciso mudar e assim agir para que a mudança se efetive. O processo certamente é gradual e árduo.

Podemos concluir que não basta querer a mudança para mudar de fato, pois é preciso educar o desejo a desejar as atividades que conduzem a esta mudança, o que pressupõe começar a agir no sentido contrário ao que se costuma agir. Somente assim será possível passar a desejar no sentido contrário ao que se costuma desejar. Isso porque, o querer, tendo como objeto o que julgamos ser um bem, não é capaz de vencer o desejo pelo prazeroso (epithumia) ou o impulso de aversão ao doloroso (thumos). É preciso incutir o hábito de se desejar bem, incluindo aí os três tipos de desejo, mas, sobretudo, aqueles que são mais avessos à razão: