Prazer e desejo em Aristóteles
O bom-humor
Trata-se, portanto, de educar o apetite em ser verdadeiro e dizer
verdades a respeito de si mesmo. A educação, como sabemos, não se faz com a imposição de imperativos morais, mas com a habituação. Por isso, como diz o filósofo: é preciso se tornar amante da verdade (philalêthês), isto é, é preciso aprender a ter prazer em ser sincero por ser sincero. Se assim nos habituarmos a recusar naturalmente falsidades a respeito de nós mesmos, ainda mais estaremos dispostos a recusar quando a falsidade for moralmente censurável.
O bom-humor
O relaxamento (anapausis) e a diversão (paidia) são necessários
para a vida, afinal, não somos capazes de trabalhar sem intervalo. Em EN X 6, Aristóteles mostra que a diversão, que é um tipo de relaxamento, não deve ser concebida como o fim último da vida, mas não deixa ser necessária para a vida; mais precisamente, ela é um meio para a realização de uma atividade posterior e não um fim em si mesma (1176b30-1177a3). Por isso, nestes momentos de lazer, é preciso estar bem disposto para fruir de conversas e ações agradáveis, sabendo agradar e divertir na boa medida, sem ofender ou insultar. Esta disposição, examinada no livro IV, capítulo 8 (1127b34-1128b9), pode ser traduzida por bom-humor
( 21 eutrapelos ), uma vez que o homem que assim se dispõe é bem-humorado na medida certa, ou seja, sabe ser sagaz, de bom tato (epidexios), pois tem tino para as boas piadas, sem perder a elegância própria ao homem gentil (eleutheriôi), nem a educação ao se divertir. Por outro lado, o excesso na diversão transforma-se em grosseria e ridicularização e é próprio ao tipo bufão (bômoloxos) e vulgar (phortikos), pois este tipo busca o riso a qualquer preço, mesmo que para tanto coloque a si mesmo em situações ridículas, ou seja ofensivo e constrangedor com os outros. Já o extremo oposto caracteriza-se pelo mal-humorado (sklêros), que também pode ser considerado rude, mal-educado, antissocial (agroikos), enfim, este tipo é aquele sujeito intratável, incapaz de apreciar uma piada ou se deleitar com algo divertido. Enquanto o bufão busca, sem restrições, o prazer nas brincadeiras, o mal-humorado toma toda brincadeira como uma ofensa. Já o bem-humorado difere sobretudo do bufão ou do zombador por preferir a educação e a gentileza antes do que a piada, o que significa que ele não dirá palavras ofensivas ou fará brincadeiras abusivas para simplesmente se divertir. Como diz resumidamente Aristóteles: “Quanto ao agradável na diversão (peri to hêdu to en paidiâi), quem está no meio termo é bem-humorado e o estado, bom-humor; o excesso é a bufonaria e quem o tem, bufão; quem está em falta é um tipo rústico e a disposição, rusticidade” (EN II 7: 1108a24-26).