Prazer e desejo em Aristóteles
A grandeza de espírito
A megalopsiquia, examinada no livro IV, capítulo 3 (1123a34-1125a35), que pode ser traduzida por grandeza de espírito ou
magnanimidade, explica-se pela figura do homem de altaestima. 15 Aquele que honra o que faz ou que busca a honra merecida pelo que faz na justa medida, pois se trata de uma mediedade na busca da honra. Enquanto o homem de grandeza de espírito valoriza o que faz e merece ser valorizado pelo que faz, o presunçoso (chaunos), em sua vaidade, valoriza excessivamente o que faz, exigindo mais honra do que mereceria. Já o humilde, que peca pela pequeneza de espírito (mikropsuchos), valoriza o que faz menos do que merece. Enquanto o humilde não é vil por se diminuir, pois sua opinião apenas o torna pior do que o que ele é atualmente, o presunçoso é vil, pois a suposta falta de percepção de si é maliciosa. Ele é do tipo que vive querendo ostentar o que não é ou o que não tem, apenas para ser admirado ou bajulado. Assim sendo, o homem de grandeza de espírito tem a boa disposição quanto às honras e desonras; enquanto o presunçoso erra por excesso, o humilde, por falta.
Como a honra é o “prêmio” da virtude, ser honrado é como o coroamento de quem é virtuoso. Por isso, o homem de grandeza de espírito é honrado por ser virtuoso e, como diz Aristóteles, ele não pode ser senão um homem bom (1124a25). Ademais, como o homem magnânimo é completamente virtuoso, uma vez que a honra e a grandeza de espírito não existem sem a virtude completa (aneu aretês pantelous) (1124a29-30), ele terá a coragem, a temperança e todas as demais virtudes. Com relação ao exame do desejo, neste caso, basta dizer que o magnânimo consegue o perfeito equilíbrio entre a razão e o desejo. Como ele tem a boa disposição para a honra, ele sabe desejá-la como e quando convém. Portanto, ele não tem a honra como finalidade de suas ações, mas sim a própria virtude. Ou seja, ele jamais valorizará a honra acima da própria virtude, o que implica uma constante disciplina e governo sobre o prazer em receber honra. Sendo assim, é evidente que ele possui um prazer moderado em receber apenas aquilo que em verdade lhe pertence, a honra que de fato ele merece (1124a5-8). Por isso, com relação à boa e má fortuna, aos bens e males externos, sendo a honra o maior bem externo, ele não sente nem dor nem prazer excessivos (1124a12-20).