Prazer e desejo em Aristóteles
Primeira Parte: O prazer segundo Aristóteles
Capítulo 1 - Análise conceitual
do prazer
Educar o desejo significa, sobretudo, se habituar a ter prazer com o que se deve e do modo que se deve. Digo sobretudo, pois, como veremos no decorrer deste livro, para Aristóteles, outros elementos são fundamentais para a educação do desejo e mesmo para que os bons hábitos sejam adquiridos, a saber: a força compulsória da lei, a força persuasiva do conselho do outro e a atuação da própria razão quando está já se tornou capaz de orientar corretamente o desejo.
Se educar o desejo significa, sobretudo, criar o hábito de ter prazer com o que se deve, como e quando se deve, então, compreender o desejo e, mais ainda, a educação do desejo, pressupõe o exame do conceito de prazer. Ademais, em algum sentido, ter prazer corretamente sinaliza o desejo correto (orthê) ou virtuoso. Tendo em vista o que foi dito, evidentemente, o prazer pode ser bom, caso contrário, Aristóteles não poderia ter concordado com Platão ao dizer que “é preciso ser educado de certo modo desde novo, para que se tenha prazer (chairen) e dor (lupeîsthai) com o que se deve: esta é a educação correta” (EN II, 3, 1104b11-12).
Eis dois pressupostos da educação do desejo segundo o filósofo estagirita: o desejo pode ser bom, uma vez educado, e, o prazer também pode ser bom, uma vez que é preciso sentir prazer corretamente. Se, ao contrário, nem o desejo, nem o prazer pudessem ser bons, se não pudéssemos ter desejo e prazer com o que é preciso ter e do modo com que é preciso ter, nenhuma educação moral seria possível nos termos de aquisição de virtude.
Não parece ser sem relevância para o projeto educativo proposto pelo filósofo a sua concepção hedonista moderada, em que o prazer, embora não seja o bem, possa ser um bem, uma vez que esteja acompanhando uma boa atividade. Certamente, o prazer não poderia ser o bem supremo, pois ele é causa necessária, mas não suficiente da felicidade, como é declaradamente dito no primeiro
livro da 1 Ética Nicomaqueia . Se o prazer fosse o bem, agir bem seria simplesmente perseguir tudo o que fosse prazeroso. Ora, a filosofia aristotélica nos alertou e nossa experiência ordinária continuamente nos mostra que nem sempre o que nos dá prazer é bom e deve ser perseguido.
Por outro lado, se o prazer fosse um mal em absoluto, ele não
poderia ser considerado uma das causas da felicidade, e, se jamais pudéssemos ter prazer com o que é bom, com o que é preciso ter, tampouco poderíamos admitir que a educação correta é primordialmente uma educação dos prazeres. O projeto da educação moral, frente ao anti-hedonismo e ao hedonismo extremos, estaria fadado ao fracasso e já não poderíamos conceber a ética aristotélica como uma ética das virtudes. E uma ética das virtudes nada mais é do que uma ética que pressupõe a realização plena da natureza humana, isto é, que o homem possa vir a ser capaz de realizar da melhor maneira possível suas capacidades anímicas. Portanto, virtude nada mais é do que o excelente funcionamento de certa operação. E para a capacidade mais especificamente humana – a razão – possa operar da melhor maneira possível, o desejo deve ter sido educado previamente de modo a ser facilmente persuadido por ela. Para tanto, o prazer não pode ser um elemento desviante como comumente é para a maioria das pessoas.
Delineado este horizonte conceitual, no primeiro capítulo desta
primeira parte, a nossa investigação consistirá em mostrar como Aristóteles critica as opiniões anteriores sobre o prazer de modo que ele possa defender a tese de que o prazer não é nem o bem nem o mal em absoluto, mas que, cumpridas certas exigências, ele possa ser considerado um bem. Assim, pretendemos verificar em que sentido a definição de prazer como uma atividade desimpedida é fundamental para refutar a tese anti-hedonista do prazer como sendo o mal em absoluto, conforme o primeiro tratado do prazer. Em seguida, mostraremos como a definição de prazer do segundo tratado do prazer – o prazer como uma atividade acompanhante de outra atividade – é necessária para evitar um possível hedonismo suscitado pela primeira definição, visto que a eudaimonia também é uma atividade desimpedida. Ademais, não deixaremos de elencar alguns dos principais problemas filosóficos suscitados a partir da análise de ambos os Tratados sobre o prazer.
Em seguida, no segundo capítulo desta primeira parte, nos dedicaremos a elaborar interpretações a respeito do que consideramos os principais problemas éticos que envolvem, primeiramente, o atributo do prazer como uma perfeição acrescida à boa atividade, isto é, como um efeito da boa atividade que retroage sobre a mesma aperfeiçoando-a. Nesse caso, como veremos, tal atributo parece valer apenas para o prazer que acompanha uma boa atividade. Outro problema fundamental cuja resolução permanecerá como objeto de incessante disputa nas questões de filosofia moral será a relação entre prazer e virtude. Que o prazer é um fenômeno de peso na conduta moral, é bem sabido por todos. A dificuldade, porém, reside em saber o quão determinante ele é para a aquisição e exercício da virtude.
Tendo em vista tanto a determinação da natureza, como o papel moral do prazer, far-se-á necessário esclarecer a relação entre desejo e prazer e, neste ponto, nos direcionaremos para uma tese de maior fôlego filosófico, a saber: a possibilidade da educação do desejo. Não se trata de dar conta dessa tese por inteiro neste primeiro momento, mas de esclarecer, a partir da concepção aristotélica de prazer, em que sentido o prazer constitui o desejo e em que sentido ele é peça chave na educação moral.
Perguntaremos pelo objeto de desejo: afinal, tudo o que é tomado como objeto de desejo também é objeto de prazer? Há uma coincidência necessária entre parecer ser bom (objeto de desejo) e parecer ser prazeroso (objeto de prazer)? Ou nem tudo o que parece ser prazeroso é objeto de meu desejo? Mais ainda: nem tudo o que desejo me parece ser prazeroso? O que me faz desejar algo coincide ou não com o que me apetece? A resposta de Aristóteles parece ser negativa por dois motivos. Em primeiro lugar, visto que há mais de um tipo de desejo e não apenas o desejo pelo prazeroso (epithumia), nem sempre o objeto de desejo coincide com o objeto de prazer, sobretudo no que concerne aos outros dois tipos de desejo: impulso (thumos) e querer (boulêsis). Em termos gerais, podemos dizer que o objeto do impulso é uma dor sofrida e do querer é o bem simplesmente. Em segundo lugar, é tese bem estabelecida na ética aristotélica, que o virtuoso não age por prazer, mas por algo ser verdadeiramente um bem, embora sinta prazer ao agir, isto é, não é por parecer ser prazeroso que o virtuoso o desejará, mas o que é preciso ser feito nas circunstâncias particulares: este é o bem segundo a verdade. Todavia, mesmo que o desejo reto ou virtuoso não seja aquele por um objeto simplesmente tomado como prazeroso, ainda assim, tudo o que ele deseja lhe agrada, pois a ação virtuosa necessariamente lhe aparece como prazerosa.