Prazer e desejo em Aristóteles
A generosidade
No livro IV da Ética Nicomaqueia, capítulo 1 (1119b22-1122a18), Aristóteles analisa a virtude da generosidade (eleutheria), que é o meio termo entre o esbanjamento (asôtia) e a avareza (aneleutheria). Trata-se da virtude da boa medida quanto aos bens materiais, da disposição para dar e ganhar bens adequadamente, o que pressupõe saber para quem se deve dar, quando se deve dar e de onde se deve tirar. Para tanto, é preciso, sobretudo, educar a parte apetitiva. Isso é evidente se tomarmos o vício pelo excesso: o esbanjamento. O esbanjador se aproxima do intemperante ao agir por apetite e contrariamente ao que é belo (kalos). Ele dá bens, muitas vezes, não com vistas ao belo, mas esperando receber prazer em troca (1121b3-11). Por isso, “o esbanjador erra com relação a essas coisas, pois ele não sente prazer nem dor com o que se deve e como se deve” (1121a8-9). Já o vicioso por falta, o avaro, caracteriza-se por não dar nada e ainda retirar o que pode, mesmo que seja de fontes impróprias. É aquele que possui uma ganância sórdida e não mede esforços para obter os bens desejados. Como nos resume Aristóteles:
A respeito do dar e receber bens, a mediedade é a generosidade, o excesso
e a falta são o esbanjamento e a avarícia. Excedem e estão em falta quanto
a isso em direção contrária, pois o esbanjador excede em oferecimento e
está em falta em recebimento, o avaro excede em recebimento e está em
falta em oferecimento (EN II 7: 1107b9-14).
Segundo a análise desta virtude, parece plausível afirmar que o ávaro age por apetite, isto é, pelo prazer da avareza ou mesquinharia, portanto, contrariamente à razão. E se ele agir contrariando o seu apetite pela ação mesquinha, dando e recebendo conforme o que é correto e belo (to deon kai to kalôs), ele sentirá dor acima do normal. Já o generoso, “se acontecer de ele gastar de uma maneira contrária ao devido e belo, ele sentirá dor na medida certa e como se deve; pois é próprio da virtude sentir prazer e dor com o que se deve e como se deve” (1121a2-4).