Shirley

Charlotte Brontë · Capítulo 9 de 38

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Shirley

Capítulo IX

 

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Briarmains

 

Mr. Helstone e Mr. Sykes mostraram-se extremamente alegres e felicitaram calorosamente Mr. Moore quando este voltou para junto deles, depois de dispensar a delegação. Mr. Moore, no entanto, mostrou-se tão pouco receptível aos elogios e lia-se claramente em seu semblante que ele estava em um dos seus dias mais tempestuosos. O reverendo, depois de o olhar com seus olhos perspicazes, abotoou suas felicitações, juntamente com seu casaco, e disse a Mr. Sykes – cujos sentidos não eram aguçados ao ponto de descobrir sozinho que sua presença e conversas eram um incômodo – que estava na hora de partirem:

– Venha, senhor. Vamos pelo mesmo caminho e faremos companhia um ao outro.

– E onde está Sugden? – exigiu Mr. Moore, erguendo a cabeça.

– Ah! Ah! – exclamou Mr. Helstone. – Não fui totalmente inativo e ajudei um pouco. Enquanto você estava parlamentando com Farren, pensei que era melhor não perder tempo. Abri esta janela e gritei por Murgatroyd, que estava no estábulo, para trazer o cabriolé de Mr. Sykes. Depois fiz passar pela janela Sugden e Moisés com sua perna de madeira. Sugden tomou as rédeas, ele conduz como o diabo. Antes de um quarto de hora, Barraclough estará em segurança na cadeia de Stilbro.

– Muito bom! Muito obrigado – disse Mr. Moore. – Bom dia, meus senhores – acrescentou, enquanto os conduzia educadamente até a porta.

Mr. Moore esteve taciturno e sombrio durante o resto do dia. Ele nem sequer respondia a Joe Scott, que, por sua vez, não lhe dirigia a palavra senão quando o trabalho o exigia. Não obstante, interpelou Mr. Moore:

– Joe, você conhece os Farren? Eles não devem ter uma situação desafogada, creio.

– Desafogada? Não mesmo. Há três meses está sem trabalho. O senhor mesmo pôde ver como William está mudado. Venderam toda a mobília da casa.

– Não era um mau operário?

– Nunca teve um melhor desde que trata de negócios.

– São pessoas honestas, isto é, toda a família?

– Mais do que eles, não se pode ser. A mulher é a decência em pessoa, muito limpa, o senhor pode comer no soalho da casa. Mas eles estão muito infelizes, patrão. Eu ficaria muito feliz se o William arranjasse algum trabalho. Ele é um excelente jardineiro, pois viveu algum tempo com um escocês que lhe ensinou os segredos do ofício, como eles dizem.

– Vá embora, Joe. Pare de olhar para mim – disse Mr. Moore, aborrecido. Joe não esperou que o patrão repetisse a ordem.

 

*******

 

As tardes de primavera eram, por vezes, frias e úmidas e, apesar desse dia ter sido belo, o ar estava frio ao pôr do sol. Antes de cair a noite, uma geada branca infiltrava-se insidiosamente nos botões entreabertos da erva que começava a despojar. Cobriu de branco o lajeado que se estendia em frente a Briarmains, residência de Mr. Yorke.

Na obscuridade da noite estrelada, contudo sem luar, as luzes das janelas destacavam-se nitidamente. Esse cenário não era triste, nem sombrio, nem mesmo silencioso. Briarmains estava situada perto da estrada principal; a capela Wesleyana de Briar, grande, nua e desprovida de ornamentos, elevava-se a cem metros dali e, como neste momento nela se realizava uma reunião, as luzes das suas janelas lançavam viva claridade na

estrada, enquanto um hino assaz extravagante[9] fazia ressoar alegremente os ecos nos arredores. Pouco a pouco a cantoria variou-se, seguiram-se gritos, ou uivos mais aterradores, e era preciso que o teto da capela fosse sólido o bastante para não voar em cacos com semelhantes explosões.

Se a capela estava animada, Briarmains não estava menos, embora de maneira diferente. Algumas das janelas estavam iluminadas; o andar inferior dava para um relvado e um cortinado velava o brilho das luzes, mas não impedia absolutamente de se ouvir as vozes e os risos.

Não era a presença de visitas o que excitava a alegria da morada de Mr. Yorke, pois não estava ali senão a sua família reunida na mais retirada ala esquerda. Reuniam-se nesta sala de estar sempre à noite. Estas janelas, se vistas à luz do dia, mostrariam suas vidraças brilhantemente manchadas de roxo e âmbar, predominantes nesses tons, que brilhavam em torno de um medalhão gravemente tingido no centro de cada uma representando a cabeça suave de William Shakespeare e a serena de um John Milton. Algumas paisagens canadenses estavam penduradas nas paredes; o verde da floresta e o azul da água, e no meio delas ardia uma noturna erupção do Vesúvio; ardentemente brilhava em contraste com a espuma fria e azul das cataratas e as profundezas escuras de madeiras.

O fogo que iluminava este cômodo era tal como não tereis visto muitas vezes numa casa particular. Era um fogo quente e brilhante que enchia um amplo fogão. Mr. Yorke gostava de um fogo assim, mesmo com o calor da época de estiagem. Ele estava sentado junto dele com um livro na mão e o cotovelo apoiado em uma pequena mesa onde ardia uma vela. Contudo, não lia; mas, sim, vigiava seus filhos. Na frente dele estava sentada uma senhora corpulenta, de fisionomia grave, a preocupação visível na fronte, essa preocupação voluntária, própria de pessoas que se julgam obrigadas a parecer sempre melancólicas. Ah! Era certo que Mrs. Yorke pertencia a esse grupo de pessoas: de manhã, à tarde e à noite estava sempre com ar grave e taciturna. Tinha uma triste opinião sobre qualquer pessoa, em especial do sexo feminino que, em sua presença, ousava mostrar boa disposição ou um caráter jovial. Entretanto, era uma excelente esposa, mãe vigilante, tendo sem cessar os olhos nos seus filhos, e sinceramente afeiçoada ao marido. Somente, se ela pudesse, não permitiria que ele tivesse outro amigo no mundo a não ser ela. Todos os parentes dele lhe eram insuportáveis e mantinha-os a uma distância respeitosa.

Mr. Yorke e ela entendiam-se perfeitamente, embora ele fosse naturalmente sociável, hospitaleiro, pregasse a união das famílias e na sua juventude não gostava senão de mulheres espirituosas e joviais. Por qual razão a escolhera como esposa e se entenderam mutuamente, é problema bastante embaraçoso. Basta dizer que o caráter de Mr. Yorke tinha um lado sombrio, assim como tinha um alegre, e que o seu lado sombrio havia encontrado afinidade e simpatia na lúgubre natureza forte que era a da sua mulher, a qual nunca dizia uma palavra fútil ou ociosa e se julgava a perfeição em pessoa. O seu principal defeito era uma inquieta, eterna e invencível desconfiança de qualquer homem, qualquer crença, qualquer partido que se aproximasse do marido. Para qualquer lado que ela se voltasse ou olhasse, tal desconfiança erguia-se diante de seus olhos como um nevoeiro.

Podia-se supor que os filhos de tal casal não seriam vulgares e, com efeito, não eram. Eis cinco diante de vós, leitor. O mais novo estava no colo da mãe. Este ainda era todo dela. Por enquanto ela não duvidava, não desconfiava dele e nem o condenava ainda. Era dela que ele tirava a subsistência, agarrava-se a ela, amava-a acima de tudo no mundo. Ela tinha a certeza disso, porque, vivendo dela, ele não poderia ser de outra maneira. Era por isso que ela o amava.

As duas a seguir eram as jovens Rose e Jessy e, neste momento, ladeavam o pai. Rose, a mais velha das duas, com 12 anos, era, de todo o grupo, a que mais se parecia com Mr. Yorke. Contudo, era a reprodução em marfim de uma cabeça de granito: as linhas e a cor eram mais doces, pois Mr. Yorke tinha um rosto duro; o da filha, no entanto, era suave. Não era absolutamente belo, mas simples. Seus traços eram infantis, suas faces redondas e saudáveis. Quanto aos olhos cinzentos, não eram como os de uma criança. O seu brilho indicava uma alma grave, que amadurecerá se o corpo lhe der tempo, mas que, participando da essência de seu pai e de sua mãe, será um dia melhor do que uma e outra, mais forte, mais pura e mais nobre. Rose amava o pai e ele era todo bondade para com ela. Às vezes, ele temia pela vida dela, tão ardente eram as centelhas de inteligência que lhe brilhavam nos olhos e se revelavam no modo de falar.

Pela vida da pequena Jessy, contudo, ele não receava que fosse curta. Ela era tão alegre, comunicativa, esperta e mesmo original. Era impaciente se provocada, mas cheia de afeição se acariciada. Algumas vezes era tão calma, noutras violenta. Exigente, porém generosa. Não temia ninguém, nem mesmo a mãe, cuja dura e injusta severidade afrontara por vezes, mas era dedicada com aqueles que a defendiam. Jessy, com sua figurinha aliciante, sua encantadora tagarelice, maneiras atraentes, era uma criança bastante mimada pelo pai. Parecida fisicamente com a mãe, coisa singular, que diferença de fisionomias!

Mr. Yorke, se lhe fosse apresentado um espelho mágico e pudesse ver nele suas filhas, tais como elas seriam daqui a vinte anos, o que pensaria? Pois bem, esse espelho mágico, aqui o tem: vai saber seus destinos e, para começar, o do seu idolozinho, Jessy.

Conhece este lugar? Não, decerto que não, mas conhece as árvores, as folhagens, o cipreste, o salgueiro e o teixo. As cruzes de pedra também não são desconhecidas, assim como os desbotados festões de perpétua, as guirlandas de flores eternas. Aqui estão o gramado verde e a lápide de mármore cinza, debaixo dos quais dorme Jessy. Ela viveu até um dia de abril; amou muito e foi muito amada. Ela, muitas vezes, em sua breve vida, derramou lágrimas, pois tinha dores frequentes. Contudo, sorriu mais do que chorou, alegrando a vida de quem convivia com ela. Sua morte foi tranquila e feliz nos braços de Rose, pois Rose era o seu apoio e proteção nas provações.

Agora, olhem para Rose dois anos depois daquele acontecimento. As cruzes, as guirlandas, as montanhas e os bosques lhe parecem estranhos. Este lugar é longe da Inglaterra, remotas devem ser essas margens, tão selvagens e luxuriantes. É como a solidão virgem, na qual pássaros desconhecidos esvoaçavam na orla da floresta. O rio, à beira do qual se encontra a contemplativa Rose, não é europeu. A menina quieta de Yorkshire é uma emigrante solitária em alguma região do hemisfério sul. Será que voltará um dia?

Os três filhos mais velhos da família eram todos rapazes: Matthew, Mark e Martin. Eles estavam sentados, entretidos com um jogo em um canto qualquer. Observe estas três cabeças: muito parecidas à primeira vista, contudo, diferentes se observadas por mais de um segundo e, após analisadas por um longo tempo, um contraste nítido. Cabelos escuros, olhos escuros, faces rosadas e traços delicados eram comuns ao trio. Pequenas características inglesas que todos possuíam. Todos os três tinham certa semelhança com o pai e a mãe e, ainda assim, cada qual tinha uma fisionomia distinta, marca de um caráter diferente.

Não vou dizer muito sobre Matthew, o primogênito da casa, embora fosse impossível olhar este rosto sem conjecturar as qualidades que ele escondia ou indicava. Não era rapaz de aparência vulgar: os cabelos negros, esta fronte branca, faces coradas, olhos escuros e vivos, eram bons pontos em seu caminho. De luz e sombra parecia ser formada a sua alma. Ele tinha a moldura de um inglês, mas aparentemente não tinha a mente inglesa. Parecia um estilete italiano em uma bainha de fabricação britânica. Ele estava jogando, porém contrariado. O ar de aborrecimento era visível. Mr. Yorke observava-o e denotava no semblante do filho a insatisfação. Em voz baixa, ele pediu: – Mark e Martin, não irritem seu irmão. E era esse sempre o tom adotado pelo pai e pela mãe. Teoricamente, eles criticavam a parcialidade. Embora nenhum direito de primogenitura fosse reconhecido nessa casa, não se devia contrariar nem fazer oposição a Matthew. Os pais evitavam provocações da mesma forma que evitavam fagulhas próximas a um barril de pólvora. Conceder e conciliar eram as máximas sempre que Matthew estava em causa. Os republicanos estavam rapidamente se tornando um tirano de sua própria carne e sangue. Os descendentes mais jovens sabiam e sentiam e, no coração, se rebelavam contra a injustiça. Eles não podiam ler os motivos de seus pais, pois eles só viam a diferença do tratamento. Dentes do dragão já estavam semeados entre os jovens Yorkes, a discórdia um dia será a colheita.

Mark era um rapaz de aparência agradável. Era o que possuía os traços mais regulares da família. Ele era extremamente pacífico. Seu sorriso, porém, era astuto; ele podia dizer as coisas mais secas e mais mordentes com o tom mais calmo. Apesar de sua tranquilidade, a sua fronte inquieta anunciava temperamento e caráter fortes e fazia lembrar que as águas mais tranquilas nem sempre são as mais seguras. Além disso, ele era muito impassível e fleumático para ser feliz. A vida nunca trará muita alegria para ele. Mark perguntava-se por que as pessoas sempre estavam sorrindo e as achava tolas. A poesia nunca vai existir para ele, seja na Literatura ou na vida; suas melhores efusões vão soar como mero jargão. Terá aversão e desprezo pelo entusiasmo. Ele nunca será jovem. O seu corpo tinha catorze anos, mas a alma trinta.

Martin, o mais novo dos três, era dono de outra natureza. Para ele a existência poderá ser breve ou longa, mas será, certamente, brilhante. Atravessará todas as ilusões da vida, sem dúvida, gozando-as e só meio iludido e, ainda assim, sobreviverá a elas. Ele não era bonito, mas feio. Não possuía a beleza de qualquer um de seus irmãos. Era simples, havia uma casca seca em cima dele, uma crisálida, e ele vai usá-la até que esteja perto dos vinte anos, então a beleza se desabrochará. Sobre esse período, ele vai usar modos grosseiros para vencer o complexo; vai precisar de gozo, instrução, e beber avidamente destas duas fontes. Contudo, a crisálida vai manter o poder de transfigurar-se em borboleta e, tal transfiguração, no devido tempo, terá seu lugar. Atualmente era um rapazote francamente ansioso por prazer, desejoso de admiração e sede de conhecimento. Que a sua sede seja satisfeita. O que vem depois, eu não sei. Martin pode ser um homem notável. Se ele vai ser ou não, o vidente é impotente para prever, pois sobre esse assunto não há visão aberta.

Olhe para o conjunto familiar Yorke. Havia nas seis jovens mentes tanto poder intelectual, originalidade, atividade e vigor de pensamento como numa dúzia de mentes acima do comum, pois eram acima da média em capacidade. Mr. Yorke sabia disso e se orgulhava de sua raça. Em Yorkshire havia outras famílias similares entre suas montanhas e planícies. Pessoas cuja natureza era peculiar, vigorosa e até mesmo estranha. Eram pessoas de sangue quente e cérebros poderosos. Era gente turbulenta no orgulho da sua força, intratável na sua energia nativa, falta de elegância, de polidez, de docilidade, porém honesta. Eram pessoas como a águia do penhasco e o cavalo das estepes.

Um toque baixo se fez ouvir na porta da sala. O barulho que os meninos faziam no jogo e o canto da pequena Jessy (Mr. Yorke era louco pela doce música escocesa e italiana e ensinara algumas das melhores à filha, com as quais ele se deleitava tomando seu uísque), eram tamanhos que por pouco ninguém ouviu o tilintar do anel na porta externa.

– Entre – convidou Mrs. Yorke, com sua voz solene, beirando a fúnebre, que sempre modulava em qualquer circunstância, mesmo que fosse para dar ordens à cozinheira que fizesse um pudim, aos filhos que pendurassem seus chapéus no vestíbulo e às meninas que pegassem nos trabalhos de costura. Robert Moore entrou.

A gravidade habitual de Mr. Moore, assim como sua sobriedade, tinha-o tornado tão recomendável a Mrs. Yorke que ela não julgava necessário intrigá-lo com seu marido. Ela ainda não descobrira nele nada que o impedisse de se casar, tampouco o via como um lobo sob a pele de cordeiro, como tinha acontecido algumas vezes com vários amigos do marido, dos quais ela excluía a sua placa de conformidade, pois parte da conduta de Mrs. Yorke, de fato, pode-se dizer assim, além de justa e até sensata, tendia para a crueldade.

– Bem, é o senhor – disse ela a Mr. Moore quando ele se aproximou estendendo-lhe a mão. – O que faz por aqui a esta hora da noite? Devia estar em casa.

– Pode um celibatário dizer que tem casa, senhora? – respondeu ele.

– Ora essa! Para mim o senhor não precisa dizer semelhante asneira. Um celibatário pode ter um lar, se quiser. Está me dizendo que a sua irmã não cuida da casa tão bem como se fosse uma esposa?

– Não é a mesma coisa – comentou Mr. Yorke, intervindo na conversa. – Hortense é uma boa moça, mas quando eu tinha a idade de Robert, eu tinha cinco ou seis irmãs, todas tão decentes e adequadas como ela. E, como a Hesther vê, isso não me impediu de procurar uma esposa.

– Do que ele bem se arrependeu dolorosamente – acrescentou Mrs. Yorke, que, ocasionalmente, gostava de fazer uma brincadeira sobre seu matrimônio e seus filhos. – Ele se arrependeu, Robert, como pode muito bem acreditar quando olha seu castigo – ela apontou para seus filhos. – Quem iria querer aturar um bando de rapazes tão grandes e fortes como este? Não basta colocá-los no mundo, o que já é suficientemente ruim, mas tem que alimentá-los, vesti-los e estabelecê-los na vida. Meu caro, quando se sentir tentado a se casar, lembre-se dos nossos filhos e das filhas e pense duas vezes antes de dar esse salto.

– Neste momento não tenho nenhuma tentação desse gênero. Acho que não são tempos para se casar ou animar alguém a fazê-lo.

Um sentimento lúgubre deste tipo não podia deixar de ser simpático a Mrs. Yorke e garantir sua total aprovação. Ela assentiu de leve com a cabeça em sinal de aprovação e produziu um breve murmúrio de satisfação.

– Sente-se, Robert. Parece-me que pode falar tão bem sentado quanto em pé.

Logo que Mr. Moore se sentou, a pequena Jessy saltou dos joelhos de seu pai e correu para seus braços, que foram muito prontamente estendidos para recebê-la.

– Minha mãe está querendo casar você com alguém? – disse ela, bastante indignada, logo que se sentou nos joelhos de Mr. Moore. – Mas, ele é casado ou é como se fosse, pois está comprometido. No verão passado me prometeu que eu seria a sua esposa quando ele me viu pela primeira vez no meu vestido branco de faixa azul, aquele novo. Não é verdade, meu pai? (estas crianças não estavam acostumadas a dizer ‘papa’ e ‘mamã’, pois sua mãe não permitia tal coisa).

– É verdade, minha pequena. Ele prometeu e eu sou testemunha. Mas, obrigue-o a repetir agora tal promessa. Quero ver se ele vai ser falso o bastante para negar fazê-lo – brincou o anfitrião, sorrindo.

– Ele não é falso. Ele é demasiado gentil para ser falso – disse Jessy, olhando para seu apaixonado com olhos que exprimiam a mais plena confiança.

– Gentil? – exclamou Mr. Yorke. – Essa é a razão pela qual ele deve ser mesmo um canalha.

– Mas ele parece muito triste para ser falso – replicou a doce voz que se elevou por de trás da cadeira do pai. – Se ele estivesse sempre rindo, isso poderia fazer-me pensar que é do tipo que se esquece das promessas que faz, mas Mr. Moore nunca ri – disse Rose.

– O seu fanfarrão sentimental é o maior dos velhacos, Rose – comentou Mr. Yorke.

– Ele não é sentimental – contestou Rose.

Mr. Moore virou-se para ela, surpreso, e perguntou, sorrindo.

– Como você sabe que eu não sou sentimental, Rose?

– Porque eu ouvi isso de uma senhora.

– Isso está começando a ficar muito interessante! – exclamou Mr. Yorke, pegando sua cadeira e levando-a para mais perto do fogo. – Uma senhora! Isso tem um sotaque muito romântico. Devemos adivinhar quem é, Rose? Diga-me baixinho aqui para o seu pai quem é essa moça, mas não deixe que ele nos ouça.

– Rose, não se atreva a falar – interrompeu Mrs. Yorke, em sua forma habitual de matar a alegria. – Nem você, Jessy. As crianças, especialmente as meninas, devem ficar em silêncio na presença dos mais velhos.

– Por que então nos serve a língua? – perguntou Jessy, com vivacidade, ao passo que Rose se limitava a olhar para a mãe com uma expressão que parecia dizer que ela deveria tomar essa máxima e pensar sobre isso em seu lazer. Após dois minutos de grave reflexão e silêncio sepulcral, Jessy perguntou: – E por que especialmente as meninas, mãe?

– Em primeiro lugar porque eu digo que é assim e, em segundo, porque discrição e reserva são as melhores qualidades em uma menina.

– Minha cara senhora – observou Mr. Moore – o que diz é excelente, mas não se aplica a essas crianças. Vamos! Deixe que Rose e Jessy falem comigo à vontade, ou tirará de mim o maior prazer que sinto quando venho visitá-los. Gosto de ouvi-las tagarelar. Isso me faz bem.

– Melhor nós do que se aqueles brutais rapazes estivessem aqui ao seu lado, não é? – perguntou Jessy. – A mãe mesmo diz que eles são ásperos, não é mesmo?

– Sim, queridinha, mil vezes melhor. Tenho rapazes brutais ao meu lado o dia inteiro. Chega! É mais do que suficiente para mim.

– Há muitas pessoas – continuou ela – que só gostam dos rapazes. Todos os meus tios e tias parecem pensar que seus sobrinhos são melhores do que as sobrinhas, e quando vêm aqui para jantar, é sempre com Matthew, com Mark e até com Martin que eles falam, nunca comigo ou com Rose. Mr. Moore é nosso amigo e queremos que seja sempre assim. Mas não se esqueça, Rose, ele não é muito seu amigo como ele é meu. Ele é o meu amigo particular. Lembre-se disso! – ela levantou a pequena mão num gesto de advertência.

Rose estava bastante acostumada a ser admoestada por aquela mãozinha. As suas vontades eram dobradas todos os dias pelas manias e desejos da impetuosa pequena Jessy. Ela deixava-se anular em mil coisas pela irmãzinha. Em todas as ocasiões Jessy assumia a liderança e Rose ficava silenciosamente em segundo plano privando-se, instintivamente, de seus desejos. Não é raro essas coisas acontecerem entre duas irmãs, ainda mais quando uma é bela e a outra nem tanto. Mas, aqui, se havia alguma diferença desse gênero, era a favor de Rose. O seu rosto era mais regular do que o da picante Jessy. Esta, porém, estava destinada a possuir, ao mesmo tempo, a vivacidade da inteligência, o ardor dos sentimentos e o dom da fascinação. Rose tinha uma alma bela e generosa, uma inteligência nobre e profunda, um coração fiel como o aço, mas não tinha a ciência de encantar e atrair, por isso ela decidiu que deveria ser uma solteirona para viver com Jessy e cuidar dos seus filhos e manter a casa da irmã.

– Agora, Rose, diga-me o nome dessa senhora que negou que eu fosse sentimental – pediu Mr. Moore.

– Eu não posso. Bem, não devo.

– Ah! Você é ou não minha amiga? Então a descreva para mim. Como é ela? Onde você a viu?

– Fui com Jessy e com Kate e Susan Pearson a Whinbury, havia uma festa na casa de Mrs. Pearson. Eu estava andando a esmo pela casa e ouvi seu nome. Algumas senhoras que estavam sentadas em um canto o mencionaram. 

– Não conhece nenhuma delas?

– Miss Hannah, Miss Harriet, Miss Dora e Miss Mary Sykes.

– Ótimo. Então elas falavam mal de mim, Rose?

– Alguns delas o chamaram de misantropo. Lembro-me dessa palavra. Procurei-a no dicionário quando cheguei em casa. Isso significa um homem que odeia o gênero humano.

– O que mais elas disseram?

– Miss Hannah Sykes disse que o senhor era um filhote de cachorro solene e presumido.

– Cada vez melhor! – exclamou, rindo, Mr. Yorke. – Oh, excelente! Miss Hannah é aquela dos cabelos ruivos, uma garota de espírito imbecil.

– Parece que tem inteligência suficiente para mim – disse Mr. Moore. – Um filhote de cachorro solene, de fato! Bem, Rose, siga em frente. O que mais diziam do seu amigo aqui?

– Miss Pearson disse que o senhor tinha uma boa dose de afetação e que, com seus cabelos negros e rosto pálido, tinha ar de pateta, uma espécie de macarrão sentimental.

Mr. Yorke deu uma gargalhada e dessa vez Mrs. Yorke juntou-se a ele e riu também. – Você vê quantas estimas são realizadas pelas suas costas? – disse Mr. Yorke – Mas eu acredito mesmo que Miss Pearson gostaria de fisgar você como marido. Ainda mais, velha como ela é.

– E quem a contradisse, Rose? – indagou Mr. Moore.

– Uma moça que eu não sei o nome, mas a vejo todos os domingos na igreja. Ela se senta no banco perto do púlpito. Geralmente eu tenho os olhos postos mais nela do que no meu livro de orações, por ela se parecer com o quadro que está na nossa sala de jantar: a mulher com a pomba na mão, pelo menos ela tem os olhos parecidos e o nariz também, um nariz reto, que dá ao seu rosto uma expressão de serenidade.

– E você não a conhece! – exclamou Jessy, em tom de profunda surpresa. – Ah! A Rose é assim mesmo, discreta. Mas, julgo que ela seja continuamente e completamente ignorante em algum assunto de que todo mundo já sabe. Veja bem, a pessoa em questão que vai à igreja solenemente todos os domingos e se parece com o quadro que está na nossa sala, é Miss Helstone, a sobrinha do reverendo. Lembro-me muito bem de tudo isso. Miss Helstone estava bastante irritada com Miss Anne Pearson e lhe disse: “Robert Moore não é afetado nem sentimental, você confundiu totalmente o seu caráter, ou melhor, nenhuma de vocês aqui o conhece.” Agora, quer que eu lhe diga como ela é? Eu posso dizer melhor do que a Rose como as pessoas são e como andam vestidas.

– Deixe-nos ouvi-la, então, Jessy – disse Mr. Moore, sorrindo e ajeitando-se confortavelmente na cadeira, estendendo as pernas e cruzando os braços sobre o peito.

– Ela é legal, é justa, gentil, tem um lindo pescoço muito branco, é esbelta, tem longos cachos, soltos e sedosos; é morena clara, ela fala com voz baixa e nítida; os seus movimentos não são rudes e ela está sempre vestida de seda cinza. Ela é de uma elegância perfeita: os seus vestidos, os seus sapatos e as suas luvas sempre se encaixam maravilhosamente nela. Ela é o que eu chamo de uma senhora e, quando eu for grande, é com ela que eu quero me parecer. Você gostará de mim se eu me parecer com ela? Será que, realmente, se casará comigo?

Mr. Moore acariciou os cabelos de Jessy. Por um minuto, ele pareceu querer atraí-la para mais perto de si, mas, em vez disso, afastou-a um pouco.

– Oh! Não me quer? Você está me empurrando.

– Você não se importa comigo, Jessy. Nunca foi me visitar em Hollow – desconversou Mr. Moore.

– Porque nunca me convidou. Por isso eu não fui.

Posto isto, Mr. Moore convidou as duas meninas a lhe fazerem uma visita no dia seguinte, prometendo, como tinha que ir pela manhã a Stilbro, comprar um presente para cada uma delas, que não lhes declarou o que seria para terem o prazer da surpresa. Jessy estava prestes a responder, quando um dos meninos inesperadamente interrompeu:

– Conheço essa Miss Helstone de que tanto falam. Ela é uma garota feia. Eu a detesto. Aliás, odeio todas as fêmeas. Gostaria de saber para que servem elas.

– Martin! – disse-lhe o pai, pois fora Martin que acabara de falar assim e que olhava para o pai com seu ar cínico, meio travesso e meio zangado.

– Martin, meu rapaz, por enquanto você não passa de um filhote arrogante, nada mais. Mas um dia será um grande homem, não terá mais esses sentimentos nem se lembrará mais dessas palavras tolas. Aliás, vou anotá-las no meu livro de bolso para lembrá-lo mais tarde (e deliberadamente começou a escrever em um pequeno livro marrom encadernado). Daqui a dez anos, Martin, se nós dois estivermos vivos, eu vou lembrá-lo do que acabou de dizer.

– Direi então a mesma coisa: detestarei sempre as mulheres. Não passam de bonecas que não pensam senão em se enfeitarem para serem admiradas. Nunca me casarei. Quero ficar solteiro.

– Persevera, persevera, meu filho! Hesther – dirigindo-se à esposa – eu era como ele quando tinha a mesma idade, um furioso e um misógino. Pois bem, quando tinha vinte e três anos, viajando pela França, Itália e Deus sabe mais por onde, eu enrolava meus cabelos com papelotes todas as noites antes de ir para a cama; usava uma argola nas orelhas e seria capaz de usar uma até no meu nariz se tivesse sido a moda na época. Enfim, fazia tudo o que era necessário para agradar às mulheres. Martin vai fazer o mesmo que eu.

– Nunca! Tenho mais senso do que isso! Que criançola o senhor foi, meu pai! Quanto ao vestuário, lhes prometo e pode anotar nesse seu livreto: nunca me vestirei mais elegantemente do que estou agora. Visto-me de azul dos pés à cabeça, e eles riem de mim na escola, chamam-me de marinheiro. Eu rio ainda mais alto do que eles e digo-lhes que eles se parecem com as araras e papagaios, com seus casacos de uma cor, o colete de outra e as calças duma terceira. Vou usar sempre tecido azul e nada mais do que azul. É abaixar demais a dignidade de um ser humano se vestir como um pavão.

– Daqui a dez anos, Martin, nenhuma loja de alfaiate terá cores variadas para o seu exigente gosto e nenhuma perfumaria terá essências suficientemente requintadas para os seus exigentes sentidos – disse-lhe o pai.

Martin conservou seu olhar de desdém, mas não deu nenhuma resposta. Mark, que se ocupava em desarrumar uma pilha de livros colocados em cima da mesa, tomou a palavra. Ele falou em uma voz peculiar, lenta, com uma expressão irônica na face, difícil de descrever.

– Mr. Moore – disse ele – acha que talvez tenha sido um elogio da parte de Miss Caroline Helstone ao dizer que ele não era sentimental. Parece-me que o senhor ficou perturbado quando minhas irmãs pronunciaram tais palavras, como se visse nelas alguma lisonja. Talvez não saiba, mas observei que corou como um rapaz vaidoso da nossa escola, que sempre fica vermelho como um tomate quando ele recebe uma boa nota na classe. Para seu benefício, Mr. Moore, eu estive procurando o significado da palavra ‘sentimental’ no dicionário, e achei o que ela quer dizer: ‘cheio de sentimento’. No exame adicional da palavra, sentimental é aquele que possui pensamentos, ideias e noções. Um homem não sentimental, então, é aquele que é incapaz de pensamentos, ideias e noções, isto é, é destituído de tais coisas – o rapaz fez uma pausa. Não sorriu, não voltou os olhos nem para a direita nem para a esquerda à espera de alguma admiração. Ele disse o que quis dizer e ficou em silêncio.

– Na verdade, meu amigo – observou Mr. Moore para Mr. Yorke – seus filhos são terríveis.

Rose, que tinha escutado com atenção o discurso do irmão, respondeu-lhe: – Há diferentes tipos de pensamentos, ideias e noções – disse ela – os bons e os maus. A palavra ‘sentimental’ deve se referir aos maus, ou Miss Helstone a tomou nesse sentido, pois ela defendia Mr. Moore e não o acusava.

– Vejam a minha amável defensora – gracejou Mr. Moore, tomando a mão de Rose.

– Miss Caroline Helstone o defendia – repetiu Rose – assim como eu o teria feito em seu lugar, porque as outras senhoras pareciam falar com maldade.

– Senhoras sempre falam com desdém – observou Martin. – É da natureza delas a maldade – completou.

Matthew, nessa altura, abriu a boca pela primeira vez: – Que idiota você é, Martin! Está sempre tagarelando sobre o que não entende.

– É o meu privilégio de homem livre, falar sobre qualquer assunto que eu gosto – respondeu Martin.

– Você o usa, ou melhor, abusa desse ‘privilégio’ – voltou o irmão mais velho. – Você apenas prova com isso que deveria ter sido um escravo.

– Escravo! Um escravo! Isso para um Yorke e dito por um Yorke! Este rapaz se esquece do que nem um rendeiro de Briarfield ignora: que todos os do nosso sangue têm aquele pé arqueado, sob o qual a água pode passar, prova de que não houve um escravo de tal estirpe há mais de três séculos.

– Charlatão! – replicou-lhe desdenhosamente Matthew.

– Rapazes, silêncio! – exclamou Mr. Yorke. – Martin, você é um desordeiro. Foi você quem iniciou essa bagunça.

– Tem certeza de que está correto? Eu comecei? Foi Matthew. Lembro-me de que eu não tinha lhe dito nada quando ele me acusou de tagarela e idiota.

– Um tolo presunçoso! – repetiu Matthew.

Aqui Mrs. Yorke começou a se agitar, movimento de mau agouro, porque muitas vezes, sobretudo quando Matthew estava envolvido em conflitos, era seguido de uma crise de histeria.

– Não vejo por que eu deveria suportar a insolência de Matthew Yorke, nem que direito ele tem de usar tal linguagem contra mim – observou Martin.

– Ele não tem direito nenhum, meu rapaz, mas perdoe o seu irmão até setenta vezes sete – disse Mr. Yorke, suavemente.

– Sempre a mesma coisa, sempre a teoria opondo-se à prática! – murmurou Martin, saindo da sala.

– Aonde vai, meu filho? – perguntou o pai.

– Para qualquer lugar onde não esteja sujeito a insultos, já que não posso encontrar semelhante lugar nesta casa.

Matthew ria com insolência. Martin lançou-lhe um olhar estranho, todo o seu corpo de criança tremia, porém, conteve-se.

– Acho que não há nenhuma objeção à minha retirada – continuou ele.

– Não. Vá, meu rapaz, mas não lhe guarde rancor – disse-lhe o pai e Martin se foi, e Matthew soltou de novo outra risada insolente. Rose, erguendo sua linda cabeça do ombro de Mr. Moore, sobre o qual tinha apoiado por um momento, disse, dirigindo um olhar firme para Matthew:

– Martin está triste e você está feliz, mas eu preferiria ser o Martin a você. Eu não gosto do seu caráter.

Neste momento, Mr. Moore, para evitar, ou, pelo menos, para escapar de uma cena que o soluço de Mrs. Yorke anunciava, levantou-se e, colocando Jessy no chão, beijou-a, assim como a Rose, e recomendou-lhes que não se esquecessem de ir a Hollow no dia seguinte à tarde. Depois de se despedir da dona da casa, disse a Mr. Yorke que desejava lhe falar em particular e saiu, seguido do anfitrião. No vestíbulo travou-se o seguinte diálogo:

– Tem trabalho para um excelente trabalhador? – perguntou Mr. Moore.

– Que pergunta absurda nestes tempos, quando você sabe que cada patrão tem muitos bons operários desocupados.

– Preciso que me faça um favor de dar trabalho a um homem, isto é, se possível.

– Meu rapaz, não posso contratar mais nenhum operário, nem que fosse para fazer favor a toda a Inglaterra.

– Seja como for, eu tenho que lhe arranjar um trabalho qualquer.

– Quem é ele?

– William Farren.

– Conheço o William. É um homem absolutamente honesto.

– Há três meses que está sem trabalho e tem uma família numerosa. Sei que não pode continuar vivendo sem salário. Ele fazia parte da delegação de operários que foi à minha fábrica essa manhã para reclamar e ameaçar. William não me ameaçou. Ele só me pediu que lhes concedesse mais um tempo e realizasse minhas reformas mais lentamente. Você sabe que eu não posso fazer isso. Empurrado de todos os lados como estou, não tenho outro recurso senão ir pra frente. Julguei que não devia parlamentar com eles. Enviei-os, depois de mandar prender um patife que estava entre eles, a quem espero fazer deportar, um sujeito que, às vezes, prega na capela lá embaixo.

– Não é o Moisés Barraclough?

– Sim.

– Ah! Você mandou prendê-lo? Bom! De um canalha você vai fazer um mártir. Que coisa sábia você fez!

– Fiz uma coisa justa. Bem, em resumo, estou determinado a conseguir um lugar para Farren e conto com você para lhe dar esse lugar.

– Isso é legal! – exclamou Mr. Yorke. – E que direito você tem de contar comigo para fornecer trabalho para os operários que você despede? O que eu sei sobre os seus Farrens e os seus Williams? Ouvi dizer que ele é um homem honesto, mas terei a obrigação de ajudar todos os homens honestos de Yorkshire? Poderá dizer que o encargo não seria enorme? Grande ou pequeno, eu não o quero.

– Vá, Mr. Yorke. Que ocupação lhe poderia dar?

– Acho que você vai me fazer usar uma linguagem com a qual eu não estou acostumado. Gostaria que você fosse para casa, a porta de saída é aquela.

Mr. Moore sentou-se em uma das cadeiras do vestíbulo.

– Tudo bem, não pode arrumar um trabalho para ele em sua fábrica, mas como possui terras, pode arranjar qualquer ocupação nas suas propriedades, Mr. Yorke.

– Rob, eu pensei que você não se importasse em nada com estes estúpidos aldeões. Eu não entendo essa mudança.

– Esse homem não me disse senão coisas justas e sensatas. Respondi-lhe tão rudemente quanto aos outros. Eu não podia fazer distinções naquele momento. Mas, a sua aparência me dizia, claramente, o que ele havia passado recentemente, muito mais do que suas palavras; mas para que tantas explicações? Dê-lhe o trabalho e pronto.

– Por que você mesmo não o emprega já que tem tanto empenho nisso?

– Se eu pudesse, o faria, mas recebi esta manhã cartas que me diziam claramente o ponto em que estou; e não estou longe do final da prancha. O meu mercado externo está completamente fechado. Se não acontecer uma mudança, se não aparecerem indícios de paz, não sei para que lado vou virar. De maneira que, pela minha parte, pretender assegurar a subsistência de alguém seria tornar-me culpado de um ato desonesto.

– Venha, vamos dar uma volta na frente da casa. Está uma bela noite – convidou Mr. Yorke.

Saíram fechando a porta da frente depois deles e puseram-se a percorrer a estrada de um lado para outro.

– Vejamos. Decida qualquer coisa a respeito de Farren de uma só vez – insistiu Mr. Moore. – Você tem um grande pomar e um jardim junto à sua fábrica; como ele é um bom jardineiro, empregue-o lá.

– Está bem, então que seja assim. Mandarei chamá-lo amanhã e vamos ver. E agora outra coisa, meu rapaz. Você está preocupado com o estado dos seus negócios?

– Sim. Uma segunda falência está em iminência e eu não posso adiá-la, isto é, neste momento, não vejo maneira para evitá-la. Desonraria completamente os nomes dos Moore e o senhor está ciente de que eu tinha a intenção de pagar todas as dívidas e de reconstituir a antiga empresa em sua base anterior.

– Falta-lhe capital, nada mais.

– Sim, mas poderia muito bem dizer que a respiração é tudo que falta a um homem morto para ele viver.

– Eu sei. Eu sei que não basta pedir o capital para obtê-lo. E se você fosse um homem casado, se tivesse uma família, como eu, julgaria o seu caso quase desesperado, mas o jovem livre tem outras probabilidades. Ouço falar, de tempos em tempos, do seu casamento com a menina tal e tal. Mas, suponho que não exista nenhuma verdade em nenhuma dessas fofocas. Não é?

– Nenhuma. Não estou em posição de me casar, Mr. Yorke. Soa tão bobo e até utópico.

– Se eu fosse você, pensaria no assunto. Deveria encontrar uma esposa com alguns milhares de libras.

– Eu me pergunto onde? – brincou Mr. Moore.

– Será que você teria coragem de se casar com uma velhota rica?

– Acho que não. Bem, eu já não sei de mais nada com tanta gente dependendo de mim para sobreviver. Isso depende, em suma, depende de muitas coisas. Mas, pensando bem, prefiro quebrar pedras na estrada.

Mr. Yorke soltou uma gargalhada e concordou com ele que seria melhor britar pedras.

– Então, desposaria uma feia?

– Ora! Odeio a feiura, e a beleza encanta meus olhos e meu coração como a qualquer pessoa, Mr. Yorke! Alegro-me em contemplar um rosto jovem, meigo e belo, assim como qualquer um se sente repelido por um rosto sinistro, robusto e enrugado. Você também não iria querer uma esposa feia.

– Mesmo se ela fosse rica? – Mr. Yorke insistiu.

– Fosse ela coberta de pérolas. Eu não poderia amá-la, não suportaria olhar para ela e saber que a tinha desposado por dinheiro. Eu não suportaria. Meu gosto deve ser satisfeito ou o desgosto transformar-me-ia em um déspota, ou, o que seria pior, numa frieza glacial.

– Então! Entendi. E se você se casasse com uma moça honesta, de boa índole e rica, apesar de um pouco desfavorecida de carne. Não poderia esquecer um pouco as faces ossudas, a boca um pouco grande e os cabelos avermelhados?

– Nunca vou tentar, eu lhe digo. Quero pelo menos a graça, a juventude e a harmonia. Sim, é o que eu chamo de beleza.

– Você quer saber é da pobreza, da falência, desistiu da luta ao longo da vida.

– Deixe-me sozinho, Mr. Yorke.

– Sim. Você é um romântico, Robert Moore! Sobretudo se já está apaixonado, é inútil lhe falar sobre isso.

– Eu não sou romântico e o meu coração está tão livre de ser romanesco como aquele varal está vazio de lençóis.

– Sempre se servindo de figuras de linguagem, meu rapaz, mas posso entendê-las. Bem, se não é o amor que lhe obscurece o juízo, o que é então?

– Pensei que tinha dito o suficiente sobre esse assunto. O amor para mim é uma ninharia.

– Muito bem, então. Se não é o mal do coração apaixonado e se sua cabeça está no lugar, não há motivo para não aproveitar caso surja uma oportunidade. Espere e verá.

– Fala como um oráculo, Mr. Yorke.

– Oráculo? Eu? Não! E no mais não tenho interesse algum nisso. Você não é meu parente e, se encontrar ou perder sua fortuna, para mim é a mesma coisa. Prometo não mais o aconselhar em nada. Agora volte para sua casa, pois Miss Hortense deve estar preocupada. Já são dez horas. Ah! Deixe seu coração ser guiado pelas circunstâncias.

 

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