Shirley
Capítulo XXIV
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No Vale da Sombra da Morte
O futuro, por vezes, parece chorar um sussurrado aviso dos eventos que está trazendo; como uma reunião de tempestades, embora ainda remota, que, pelo tom do vento no esplendor do firmamento, nas nuvens estranhamente rasgadas, anuncia uma forte explosão capaz de espalhar sobre o mar o naufrágio; ou trazer a névoa da mancha amarela da peste, que cobre brancas ilhas ocidentais com as exalações envenenadas do Oriente, escurecendo as treliças das casas inglesas com o sopro da praga indiana. Em outras ocasiões, este futuro explode de repente, como se uma pedra tivesse seu lugar programado para se precipitar, abrindo um grave estreito de onde emite o som de um corpo que dormia. E você está ciente de que vai ficar cara a cara com a encoberta e impensada calamidade, um novo Lázaro.
Miss Helstone, embora tivesse julgado que tinha voltado de Hollow em boa saúde, despertou no outro dia oprimida por um langor anormal. Não teve apetite no desjejum e em todas as demais refeições. Todos os alimentos pareceram a ela insípidos.
À noite sentiu-se febril, teve insônia e foi torturada por uma sede inesgotável. Ao amanhecer teve um sonho pavoroso e, ao despertar, sentiu e viu que estava doente.
De que maneira apanhara a febre, pois era febre, ela não podia dizer. Provavelmente acontecera no seu último passeio do presbitério à cottage de Hollow. Qualquer brisa envenenada carregada de miasmas entrara em seus pulmões e nas veias e, encontrando ali uma febre mental e tormenta de alma, deixara atrás de si um fogo aceso.
Esse fogo que parecia benigno, após dois dias ardentes e duas noites sem repouso, deixou de demonstrar qualquer violência. Tanto o tio, quanto o médico e Miss Keeldar quando a visitaram, não sentiram o menor receio pela sua vida. Todos pensaram que bastariam alguns dias e ela estaria completamente restabelecida.
Os dias, contudo, passaram-se e Miss Helstone não tinha melhorado. Mrs. Pryor, que a visitava todos os dias, estava em seu quarto certa manhã, quinze dias após o começo da doença, examinou-a atentamente durante alguns minutos; pegou-lhe as mãos, apoiou um dedo no pulso e depois, saindo tranquilamente do quarto, dirigiu-se ao gabinete de Mr. Helstone. Lá ficou trancada com ele durante metade da manhã. Ao voltar para junto da jovem doente, pousou seu xale e o chapéu, sentou-se ao lado da cama e disse por fim:
– Pedi a Fanny que fosse a Fieldhead buscar algumas pequenas coisas que serão necessárias durante uma breve estadia minha aqui. Desejo ficar até que se sinta melhor. O seu tio já autorizou e, dessa forma, posso lhe dedicar meu carinho e meus cuidados. Você também me autoriza, Caroline? – perguntou ela, segurando a mão da moça.
– Incomoda-me lhe dar tanto trabalho. Não me sinto muito doente, mas não posso recusar. Será para mim uma grande consolação saber que está na casa, vê-la às vezes em meu quarto, mas não se incomode por minha causa, minha querida senhora! A Fanny trata-me muito bem.
Mrs. Pryor, inclinando-se sobre a pálida doente, arrumava-lhe os cabelos e lhe ajeitava docemente os travesseiros. Miss Helstone, sorrindo, inclinou-se para beijá-la.
– Já não sofre? Sente-se bem? – perguntou numa voz doce e comovida a enfermeira voluntária, aceitando o carinho.
– Quase não desejo melhorar para poder conservá-la junto de mim.
Mrs. Pryor não sorriu ao ouvir tais palavras. Fora tomada de tremuras que, durante alguns minutos, em vão procurou se dominar.
– Não tenho jeito para nada, minha querida – disse ela. – Achar-me-á, muitas vezes, uma desastrada, mas nunca negligente.
E, com efeito, ela não era negligente. A partir daquele momento, Fanny e Eliza tornaram-se inúteis no quarto da doente. O quarto passou para o domínio de Mrs. Pryor. Ela fazia tudo quanto era necessário, não saía de perto da doente nem de dia nem de noite.
Com todos estes cuidados, parecia entranho que ela não melhorasse. Era, contudo, o que estava acontecendo. Miss Helstone definhava-se a olhos vistos, como um floco de neve no degelo. Vieram médicos, oradores, fizeram discursos obscuros, os médicos deixaram algumas prescrições, deram algumas indicações, tudo isso com ar de esmagadora autoridade. Todos colocaram nos bolsos os seus honorários e foram embora.
Na cottage de Hollow supunha-se que Miss Helstone estivesse constipada, pois ela escrevera nesse sentido para Miss Moore no início da sua doença. A prima limitou-se a enviar-lhe duas conservas de groselhas, uma receita feita com ervas medicinais e alguns conselhos por escrito.
Miss Helstone usava constantemente no pescoço uma fina trança de seda da qual pendia uma pequena joia. Mrs. Pryor percebeu, mas não detectou que objeto era aquele do qual a doente nunca se separava. Quando estava vestida, tinha-o escondido nos seios; quando deitada, conservava-o na mão.
Certa tarde quente, enquanto ela dormia, o que acontecia constantemente e abreviava os tamanhos dos dias longos, quando Mrs. Pryor inclinou-se sobre ela para ajeitá-la, viu uma mãozinha emagrecida e inerte estendida sobre o peito, segurando, como sempre, o precioso tesouro. Como estava dormindo, os seus dedos tinham afrouxado a pressão. Mrs. Pryor tirou docemente a trança e viu uma joia bem modesta, proporcional à pequena bolsa de quem a comprara. Debaixo da sua face de cristal, via-se uma mecha de cabelos negros, muita curta e frisada para ser de mulher.
Um movimento nervoso fez com que Mrs. Pryor repuxasse o cordão de seda e a adormecida estremecesse. Seus pensamentos, desde que adoecera, eram muitas vezes vagos ao acordar. Soerguendo-se da cama com dificuldade, como sob uma pressão de terror, exclamou:
– Não os leve de mim, Robert! Não os leve! São a minha última consolação! Deixe-os ficar comigo! Nunca disse a ninguém de quem eram esses cabelos, nunca os mostrei...
Mrs. Pryor, temendo deixá-la desconcertada, escondeu-se atrás das cortinas. Miss Helstone correu os olhos pelo quarto e, como não viu ninguém, e como as ideias vagabundas lhe voltavam lentamente, dando conta do vazio e do silêncio que a rodeavam, julgou-se só.
Quando tinha saúde, nunca fora seu costume pensar em voz alta, contudo, naquele momento, as palavras lhe escaparam dos lábios sem que ela tivesse qualquer controle sobre elas.
– Oh! Como eu queria vê-lo mais uma vez antes de tudo ter acabado! O Céu deveria conceder-me essa graça. Meu Deus, concedei-me essa consolação antes que eu abandone essa vida.
E ela continuou: – Grande Espírito, na bondade na qual deponho minha confiança; o Senhor, a quem, como meu Pai, invoquei noite e dia desde a minha mais tenra infância, vem em auxílio dessa fraca criatura saída das Tuas mãos! Dá-me forças na provação que temo e que tenho que sofrer! Dá-me forças! Dá-me paciência! Dá-me... Oh! Dá-me fé!
Deixou-se cair sobre o travesseiro olhando para o vazio da janela e Mrs. Pryor conseguiu deslizar silenciosamente para fora do quarto. Não tardou a voltar, tão calma na aparência como se não tivesse escutado aquele estranho monólogo.
No dia seguinte vieram diversas visitas. A notícia de que Miss Helstone tinha piorado tinha se espalhado. Chegaram Mr. Hall, sua irmã e Miss Hortense Moore. Durante o tempo em que a prima passou junto dela, a excitação fez voltar a cor ao rosto de Miss Helstone e ela parecia bem melhor.
– Como está Mr. Moore? – perguntou Mrs. Pryor quando Miss Moore se preparara para sair.
– Estava muito bem quando partiu – respondeu Miss Hortense, que explicou que certas informações sobre os arruaceiros o tinham obrigado a partir nessa mesma manhã para Birmingham e que, provavelmente, passaria uma quinzena por lá.
– Então ele não sabe que a prima dele está muito dente? – prosseguiu Mrs. Pryor.
– Oh! Não! Julgava, como eu, que ela tivesse apenas uma constipação muito forte, mas nada grave.
Depois da visita, Mrs. Pryor teve o cuidado de não se aproximar do leito de Miss Helstone durante mais de uma hora. Ouviu que ela chorava e não teve coragem de ver as lágrimas que, certamente, escorriam por sua face.
Ao cair da noite levou-lhe o chá. Miss Helstone, abrindo os olhos depois de uma leve modorra, não reconheceu a mulher e murmurou:
– Entrei a fim de chamar Robert para o almoço; fui com ele ao jardim, ele pediu que eu o acompanhasse; o orvalho tinha refrescado as flores, e os pêssegos estarão maduros ao amanhecer.
– Minha querida, não me reconhece? – perguntou Mrs. Pryor.
– Julgava que fosse dia, que o sol tinha se levantado há tempo, mas está escuro. A lua ainda não foi embora?
A lua, que acabava de se erguer, espalhava sobre ela a sua luz, cheia e suave, flutuando no espaço sem nuvens. Parecia velar a enferma.
– Então ainda não é manhã? Não estou em Hollow, na cottage? Quem está aí? Vejo alguém à minha cabeceira.
– Sou eu, a sua amiga, sua enfermeira, a sua... encoste a sua cabeça no meu ombro, volte a si – disse Mrs. Pryor e, em pensamento, continuou: “Oh! Deus! Tenha piedade dela! Dê-lhe vida e a mim forças! Conceda-me coragem, inspirai minhas palavras!”
Alguns minutos se passaram e o silêncio era total. A doente repousava imóvel sobre braços trêmulos e um coração agitado.
– Sinto-me melhor agora – murmurou, por fim, Miss Helstone – muito melhor. Sei onde estou. É Mrs. Pryor quem está comigo, eu estava sonhando. Ultimamente dei para falar quando acordo de meus sonhos. Como o coração da senhora bate com força! Não se aflija. Espero – acrescentou ainda – que não seja por minha causa que chora.
Mrs. Pryor não respondeu.
– A senhora acha que eu não vou melhorar? Não me sinto muito doente, sinto apenas fraqueza. Parece que os desgostos são o maior alimento da minha doença. Penso, às vezes, que um pouco de felicidade me faria reviver depressa.
– Mas deseja viver?
– Nada me prende à vida – respondeu Miss Helstone.
– Gosta de mim, Caroline?
– Muito, muito, por vezes de uma maneira indescritível. Neste momento eu desejo confundir o seu coração com o meu.
– Volto já, minha querida – disse Mrs. Pryor, deitando-a suavemente sobre o travesseiro.
Deslizou levemente para a porta, fez girar docemente a chave na fechadura, verificou se estava bem fechada e voltou para junto do leito. Afastou o cortinado para que o luar banhasse melhor o rosto da moça e olhou fixamente para ela.
– Então, se gosta de mim – disse ela com indecisão e numa voz transtornada – se deseja confundir o seu coração com o meu, não sentirá nem choque nem dor quando souber que este coração é a fonte que alimentou o seu; que das minhas veias saiu a vida que corre nas suas; que é minha, minha filha, minha própria filha...
– Minha senhora!
– Minha própria filha.
– Quer dizer... isso significa... que me adotou?
– Significa que, se nada mais lhe dei, dei-lhe, ao menos, a vida; que a trouxe ao meu seio, que a alimentei, que sou a sua verdadeira mãe. Nenhuma outra mulher pode reclamar esse título, pois ele é meu.
– Mas, Mrs. James Helstone, a mulher de meu pai, que eu não me lembro de alguma vez ter visto, não é a minha mãe?
– Sim, é a sua mãe... sou eu. James Helstone foi o meu marido. Assim o provei. Receei que fosse toda dele, o que seria muito doloroso para mim. Vi que não era assim. Deus permitiu-me ser a mãe do espírito de minha filha; ele pertence-me; é a minha propriedade, o meu direito. Essas feições são as próprias feições de James. Ele era belo quando jovem, antes que o vício o desgraçasse. Seu pai, minha querida, deu-lhe esses olhos, esses sedosos cabelos castanhos e a regularidade dos traços, mas o coração e o cérebro são meus.
– É verdade o que eu ouço? Não estou sonhando?
– Oxalá fosse tão verdade como se Caroline engordasse e que lhe voltasse a cor no rosto.
– Minha própria mãe! Tenho tanto amor pela senhora, não posso imaginar como não era amada, pelo menos foi o que me deram a entender.
– Disseram-lhe isso? Pois a sua mãe declara-lhe neste momento que não possuindo o dom de agradar às pessoas em geral, pouco lhe importa a aprovação delas. Os seus pensamentos e a sua afeição estão concentrados sobre sua filha. E sua filha irá acolhê-la ou repeli-la?
– Mas, se é a minha mãe, o mundo mudou inteiramente para mim. Com certeza agora posso viver. Gostaria de recuperar a saúde.
– Vai se recuperar, minha filha. Tirou do meu seio a vida e a força quando era uma criancinha, uma bela menina, sobre cujos olhos azuis eu tinha o costume de chorar, receando ver na beleza deles o próprio sinal de qualidades que tinham penetrado no meu coração como um ferro e traspassado a minha alma como uma espada. Minha filha! Estivemos muitos anos separadas, agora volto de novo para acariciá-la.
Levantou-a de encontro ao seio e apertou-a nos braços, embalou-a docemente, como se estivesse ninando um bebê.
– Minha mãe! Minha querida mãe!
Durante muito tempo reinou silêncio no quarto.
– O meu tio sabe o que acaba de me dizer?
– Seu tio sabe. Eu lhe contei quando me mudei para cá para cuidar de você.
– A senhora reconheceu-me da primeira vez que me viu em Fieldhead?
– Como poderia não a ter reconhecido? Anunciaram que Mr. Helstone e a sobrinha estavam chegando. Eu estava preparada para ver a minha filha.
– Foi então isso que a perturbou? Notei que estava muito comovida.
– Não viu nada, Caroline. Eu posso dominar as minhas emoções. Nunca poderá saber o século de estranhas sensações que atravessei nos dois minutos que se passaram desde que ouvi o seu nome até que entrasse na sala. Nunca poderá imaginar a impressão que em mim produziram o seu ar, o seu aspecto, o seu andar. ‘Com quem se parecerá ela?’ Tinha eu perguntado a mim mesma; e quando vi com quem se parecia, quase desmaiei.
– Por que, mamãe?
– Tinha as minhas razões para recear um exterior cheio de encantos, para desconfiar de um ar à vontade, de tremer à vista da distinção, da graciosidade, da cortesia. Ele era belo e afável. Eu vivia reclusa, desolada, era jovem e ignorante: uma pobre preceptora sucumbindo ao peso dum labor ingrato. Quando ele me sorriu, tomei-o por um anjo! Segui-o, e, depois de ter confiado nas mãos dele, sem reserva, todas as minhas probabilidades de felicidade futura, quis a sorte que eu presenciasse uma transformação no meu lar: a máscara caiu, o disfarce brilhante foi posto à parte. Oh, meu Deus! Como eu sofri!
Deixou cair a cabeça no travesseiro.
– Tenha coragem, minha mãe, tudo isso já passou.
– Já passou e não foi sem fruto. Pedi a Deus que me desse paciência. Ele amparou-me durante os meus dias de angústia. Mas, Caroline...
– Minha mãe!
– Ordeno-lhe que, quando olhar a capa de seu pai, respeite o nome que lá está gravado. A você, ele só fez bem. Deixou-lhe o tesouro inteiro das suas qualidades e não lhe acrescentou o menor defeito. Tudo o que recebeu dele é excelente. Deve-lhe ser grata. Deixe entre mim e ele a liquidação das nossas contas mútuas, não intervenha nelas. Deus é o árbitro. Ele dorme ali naquela igreja; esta noite digo às suas cinzas aquilo que antes nunca lhe dissera: ‘James, descanse em paz. Veja: a sua terrível dívida está saldada! Agora, será perdoado!’
– Minha querida mãe, é bonito assim! O espírito do meu pai poderá ouvir-nos? Sentirá alguma consolação por saber que o amamos ainda?
– Não falei de amor, falei de perdão. Não tenha ilusões, criança, pois eu não falei de amor. No limiar da eternidade, estivesse ele lá para me ver entrar, manteria aquilo que eu disse.
– Ah! Mãe! Como deve ter sofrido! Mas, vamos, acalme-se!
E a filha embalou ternamente a mãe como antes a mãe tinha embalado a filha. Por fim, Mrs. Pryor chorou e depois ficou mais calma. Voltou aos ternos cuidados que a sua agitação havia interrompido. Obrigou sua filha a se estender na cama, compôs-lhe o travesseiro e a roupa; arrumou seus cabelos, cujos cachos estavam esparsos, e refrescou a testa úmida com uma essência fresca e perfumada.
– Mamã, ceie aqui, não me deixe só esta noite.
– Oh! Caroline! Que força tem a sua gentileza! Herdou certas maneiras, além de certos traços.
– Parece tão natural, mamã, pedir-lhe isto e aquilo! Mas não me deixe ser inoportuna. Reprima-me se eu for longe demais.
– Não deve contar comigo para reprimi-la. Tenho pouca coragem moral. Este é o meu maior defeito. Foi isso que fez de mim uma mãe desnaturada, o que me conservou afastada da minha filha durante os dez anos decorridos desde a morte de meu marido que me teria permitido reclamá-la. Deixei-a ir embora ainda criança, porque era bonita, eu tinha medo de seu encanto, vendo nele a marca da perversidade. Não ousei empreender a sua educação e resolvi deixá-la aos cuidados de seu tio. Eu sabia que, se Matthewson Helstone era um homem austero, ele também era reto. Tanto ele como todas as pessoas julgaram severamente a minha estranha e pouco maternal decisão, e eu mereci ser mal julgada.
– Por que usa o nome Pryor?
– Era um nome que pertencia à família de minha mãe. Tomei-o para viver em paz. Tinham me ameaçado de que me obrigariam a voltar para o meu cativeiro, à mercê do vício e da violência. Eu não poderia suportar. Antes, preferiria a morte. O meu novo nome me protegeu. Ao abrigo dele, retomei minhas funções de preceptora.
– Mas a mamã já tinha vivido aqui. Como é que não a reconheceram quando voltou para cá com Miss Keeldar?
– Eu só vim aqui numa breve visita quando estava noiva há vinte anos. Eu era então bem diferente do que sou hoje. Era delgada, quase tão delgada como a minha filha. A minha tez, os meus traços, já não são os mesmos. O meu cabelo, o corte dos meus vestidos, tudo mudou. Pode imaginar a sua mãe magra e franzina, vestida de musselina branca, de braços nus, com colares e braceletes e os cabelos arranjados em caracóis?
– Na verdade, deve ter sido bem diferente. Mamã, ouço a porta da entrada abrir-se. Se for o tio que volta, peça-lhe que suba e que me venha dizer se estou, de fato, acordada, sonhando e não estou delirando de febre.
Espontaneamente, o pastor já subia a escada e Mrs. Pryor o chamou ao quarto da sobrinha.
– Ela não piorou, não é? – perguntou ele, apressadamente.
– Creio que está melhor. Está disposta a conversar e parece mais forte.
– Bom! – disse ele percorrendo o quarto a passos rápidos. – Ah, Caroline! Como está? Bebeu a minha xícara de chá? Eu a tinha preparado para você, tal como gosta.
– Bebi-a até a última gota e me fez muito bem, meu tio. Obrigada. Pedi a Mrs. Pryor que o chamasse, pois queria a sua companhia.
O respeitável eclesiástico parecia ao mesmo tempo contente e embaraçado. Estava bastante inclinado a consentir o pedido da sobrinha visto que esse era um capricho da doente; mas como empregar esses dez minutos, isso é o que ele não sabia. Tossia, agitava-se.
– Estará em pé num instante – disse ele, para dizer qualquer coisa. – Essa fraqueza não tardará a passar. Então beberá vinho do Porto, um tonel dele, se for capaz disso, e comerá caça e ostras. Vou consegui-las para você, se for possível irei buscá-las em qualquer parte. Se Deus quiser, não tardaremos a colocá-la tão forte como Sansão.
– Quem é esta senhora, meu tio, que está de pé ao seu lado, junto à minha cama?
– Santo Deus! – exclamou ele. – O espírito dela ainda está divagando, minha senhora?
Mrs. Pryor sorriu.
– Viajo num agradável mundo – disse ela numa voz doce e feliz – e preciso que me diga se é uma realidade ou uma visão. Quem é esta senhora? Dê-lhe um nome, meu tio?
– É preciso mandar chamar novamente o doutor Riles, ou, antes, Marc Turck, mas este é menos charlatão... É preciso que o Tomás sele o pônei e o vá procurar.
– Não, meu tio, não preciso de médico. O meu único médico será a minha mãe. Compreende agora, meu tio?
Mr. Helstone levantou os óculos para a testa, pegou na caixa de rapé e ministrou a si próprio uma parte de seu conteúdo. Assim fortalecido, respondeu rapidamente.
– Agora percebo. Então lhe disse, minha senhora?
– E é verdade? – perguntou Miss Helstone, erguendo-se. – Ela é realmente a minha mãe?
– Não vai chorar, não vai desmaiar, se eu lhe disser que sim?
– Chorar! Eu choraria se dissesse que não, pois o desapontamento seria terrível. Mas, dê-lhe um nome. Como ela se chama?
– A essa senhora gorda com um estranho vestido preto, que parece ser suficientemente jovem para poder usar vestidos mais alegres, chamo-a de Agnes Helstone. Foi casada com meu irmão, James, e é sua viúva.
– É a minha mãe?
– Que menina incrédula! Olhe para aquela pobre carinha, Mrs. Pryor, pouco maior do que a palma da minha mão, toda cheia de ardor – e dirigindo-se a Miss Helstone: – Ela teve pelo menos o trabalho de dá-la à luz. Lembre-se de que tem para com ela o dever de se restabelecer rapidamente e de recuperar os estragos desse rosto.
– Se o desejo da cura tem qualquer influência sobre mim, não ficarei muito tempo doente. Ainda esta manhã, eu não tinha nem cabeça nem força para o querer.
Neste momento Fanny anunciou que o jantar estava servido.
Mrs. Pryor declarou que passaria com a filha o restante da noite. Mr. Helstone, portanto, deixou-as a sós. Não tardou a voltar com um prato na mão e Fanny com outro.
– Isto é frango, mas amanhã teremos perdiz.
Miss Helstone fez o possível para comer. O tio ficou admirado, beijou-a e lhe disse num tom suave:
– Boa noite, pequena. Que Deus te abençoe!
Miss Helstone passou aquela noite em calmo repouso. Abandonada nos braços da mãe, com a cabeça apoiada em seu peito, ela se esqueceu de desejar outro destino.
Quanto à mãe, passou a noite toda em oração.
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