Shirley

Charlotte Brontë · Capítulo 36 de 38

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Shirley

Capítulo XXXVI

 

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Escrito na Sala de Estudos

 

As dúvidas de Louis Moore com respeito ao abandono imediato de Fieldhead por Mr. Sympson converteram-se em certeza. Logo no dia seguinte ao desentendimento por causa da recusa de Miss Keeldar ao pedido de casamento feito por Sir Philip Nunnely, houve uma espécie de reconciliação entre tio e sobrinha, portanto, a família ficou inteira.

As coisas correram regularmente durante algum tempo. Miss Keeldar estava bem, pois Louis Moore encontrara meios de lhe tirar as apreensões. Na verdade, a partir do momento em que ela lhe dera a sua confiança, todos os seus terrores pareciam ter-se evaporado. Seu coração se tornara tão alegre, seu caráter tão despreocupado como o de uma criança que deixa aos pais a responsabilidade pela sua existência. Louis e William Farren, que tinham levantado informações sobre o estado de Phoebe, concordaram em afirmar que a cadela não estava doente, mas apenas os maus tratos a tinham feito fugir de casa.

O mês de novembro passou voando e dezembro chegou branco de neve. Desta vez os Sympsons iam embora, pois tinham que estar em casa para o Natal. Numa tarde fria, durante a última semana da sua estada, Louis Moore pegou mais uma vez o seu caderninho e dialogou com ele:

“Ela está mais encantadora do que nunca. Desde que se dissipou aquela pequena nuvem, todo o langor desapareceu. Surpreendo-me ao ver com que rapidez recobrou o vigor, graças à sua exuberante mocidade. Ontem de manhã, quando a vi e a escutei, se assim posso dizer, senti-a em cada fibra de meu ser. Contudo, passei da sua presença deslumbrante à fria sala de estudos. Mas hoje a sala se tornou alegre para mim, pois encontrei por lá o Harry com Miss Keeldar. Estavam um ao lado do outro; ela o fazia repetir uma lição; uma mão segurava o livro e a outra estava apoiada nos braços do primo. Este rapaz tem mais do que a sua parte de privilégios. Vi quando suas pálpebras se agitaram quando eu entrei, porém, ela não ergueu seus olhos. Eu disse a mim mesmo: se eu fosse seu igual, poderia ver reserva nessa frieza, até mesmo amor..., mas, na minha situação, atrever-me-ei a procurar nela esse sentimento? Entretanto, ousei, finalmente, ter uma hora de conversa com ela. Não me contentei com pouco, quis uma entrevista. Com muita decisão, indiquei a porta ao Harry e, sem hesitar, disse-lhe: vá onde quiser, meu rapaz, mas até que o chame de volta, não retorne. O menino, conforme pude notar, ficou contente por ter sido mandado embora; este rapaz é muito novo, mas sabe enxergar e refletir. O seu olhar meditativo tem, às vezes, um brilho estranho. Ao olhar para mim, sente em parte o que me prende a Miss Keeldar. Adivinha que há uma delícia maior na reserva com que sou tratado do que a de todos os carinhos que ela dá a ele. Sentei-me à escrivaninha sem mostrar-me perturbado. Não estava nas minhas intenções pronunciar qualquer palavra de amor ou deixar aparecer o fogo que me devorava. De preferência mostrar-me simplesmente egoísta e interesseiro; havia resolutamente me decidido a me afastar dela; a ir procurar do outro lado do globo uma nova vida, fria e estéril. Nessa manhã, portanto, eu quis observá-la de perto antes de deixá-la para sempre. Estava decidido a conhecer aquela a quem eu deixaria; comecei a aparar algumas penas; minha mão não tremeu; a voz permaneceu firme enquanto se seguia o diálogo abaixo:”

– Dentro de uma semana, a partir de hoje, estará sozinha em Fieldhead, Miss Keeldar.

– Sim, creio que a intenção de meu tio é agora definitiva. E o senhor, deixará de ser preceptor de Harry?

– Sim. Vou me separar dele por algum tempo. Se vivermos, um dia nos reencontraremos, pois somos amigos, mas vou deixar para sempre a família Sympson. Felizmente, esta modificação não me pegou desprevenido, apenas vai apressar projetos que eu já tinha feito há muito tempo.

– Não existem acontecimentos que o apanhem desprevenido. Tenho sempre a impressão de que o senhor está no mundo como um arqueiro vigilante escondido atento atrás de um bosque. Na sua aljava há sempre mais de uma flecha e o seu arco tem uma corda suplementar. O seu irmão é como o senhor. Ambos seriam capazes de se aventurar, como caçadores sem pátria, em meio às vastas solidões do Oeste e nada lhes faltaria. A árvore que cortassem havia de lhes fornecer uma cabana; a floresta desbravada ceder-lhes-ia um campo; o búfalo, sentindo o poder das suas carabinas, viria, de cabeça baixa, prosternar-se aos seus pés.

– E talvez qualquer tribo indígena, de pés descalços, nos fornecesse uma esposa.

– Não – ela hesitou. – Os selvagens são sóbrios. Bem, é o que me parece. Espero que nem o senhor nem o seu irmão queiram partilhar o seu lar com uma mulher a qual não pudessem dar o coração.

– Quem lhe sugeriu a ideia das solidões selvagens do Oeste, Miss Keeldar? Como foi informada daquilo que parece ser a minha intenção?

– Não sei de nada, apenas falei ao acaso.

– O seu acaso parece adivinhação. Nunca mais serei preceptor. Depois do Harry e da miss não terei mais alunos. Tenho trinta anos e desde os dez nunca fui livre. Tenho tal sede de liberdade, um desejo tão violento de conhecê-la e desfrutá-la que, para possuí-la, não me recusaria a atravessar o Atlântico. Mas nunca terei qualquer jovem selvagem por escrava, pois ela não poderia ser uma esposa. Não conheço nenhuma mulher branca, a quem eu ame, que me queira acompanhar. Contudo, tenho a certeza de que a liberdade estará à minha espera, debaixo de um pinheiro. Quando eu a chamar, ela virá e se lançará em meus braços.

“Fora minha intenção comovê-la e o tinha conseguido. Ela não pôde responder-me nem sequer podia olhar para mim. Tinha o rosto vermelho como se tivesse acolhido um reflexo de uma flor púrpura inundada de sol. Podia ler-se em suas pálpebras brancas e nos cílios negros dos seus olhos baixos uma doce confusão, em parte penosa, em parte encantadora. Ela não tardou a dominar sua emoção e governar seus sentimentos. Sentou-se; eu podia ler o seu rosto. Conheço a linha que me serve de limite e nada fará com que eu a atravesse. Sinto, sei até que ponto posso revelar os meus sentimentos. Fui tão longe quanto a reserva e a altivez de uma mulher o permitem e não darei mais um único passo. O meu coração poderá se despedaçar se vir suas esperanças iludidas. Pois bem, que se despedace. Antes o sofrimento e a morte do que a degradação. Se ela fosse pobre, já estaria aos seus pés; se a sua condição fosse modesta, já a teria em meus braços; o seu ouro e a sua situação são dois dragões que a guardam, um de cada lado. Difícil ou não, era preciso tentar, era necessário dizer alguma coisa. Eu não podia, não queria ficar calado tendo aos meus pés tanta beleza, modesta e silenciosa. Falei e o fiz com calma. Embora falasse baixo, ouvia as minhas palavras saírem com um som nítido e profundo:”

– Sei que vou me encontrar numa situação estranha diante desta ninfa das montanhas: a liberdade. Suspeito disso por ser parente dessa solidão que eu outrora buscava e da qual agora quero me divorciar. Algumas vezes, a miss chamou-me de filósofo materialista. Certamente, sou matéria da cabeça aos pés, e, por muito gloriosa que seja a natureza, prefiro vê-la nos doces olhos humanos de uma mulher amada e amorosa do que no olhar da maior deusa do Olimpo.

– Juno[17] não seria capaz de lhe grelhar uma costeleta de búfalo como o senhor gosta...

– Não seria. Mas vou lhe dizer quem poderia fazê-lo: qualquer órfã sem fortuna e sem amigos. Gostaria de poder encontrar uma assim, suficientemente bela para que eu pudesse amá-la, com alguma coisa no espírito e no coração que correspondesse aos meus anseios. Que fosse educada, honesta e simples. Os talentos pouco me importam, mas gostaria de ver nela o germe daquelas qualidades naturais que nenhuma coisa adquirida pode igualar. Ela poderá ter o caráter e o temperamento que o destino quisesse, pois gosto até daqueles mais ardentes. Ensinar-lhe-ia a minha linguagem, os meus hábitos e os meus princípios e, em seguida, recompensá-la-ia com o meu amor.

– Recompensá-la, senhor da criação! Recompensá-la! – exclamou ela.

– Para ser reembolsado cem vezes mais.

– Se ela estiver disposta a isso, senhor.

– Estará.

– O senhor disse: “o caráter e o temperamento que o destino quisesse”. Ora, o constrangimento está para o metal de certas almas como o aço para a pedra.

– E o amor é o raio de luz que salta. Eu preciso encontrar a minha órfã. Quando encontrá-la, me casarei com ela.

– Não fará nada disso! – a voz dela teve, momentaneamente, um tom de desdém muito particular.

– Lógico que o farei. É evidente que posso fazê-lo e farei.

– O contrário é que é evidente, senhor.

“Eu a achava encantadora assim, com o ar meio desdenhoso, meio agressivo, orgulhoso, cheia de cólera, irônica, tudo misturado nos seus belos olhos, que, naquele momento, lembravam os de um melro.”

– A miss pode me fazer o favor de me dizer as razões dessa opinião?

– Aceite o celibato – ela fez um gesto com a mão como se me desse qualquer coisa. – Tome-o como seu dote.

– Não! Não pode me dar o que já possuo. O celibato foi o meu dote durante trinta anos. Se deseja oferecer-me um presente, uma dádiva de adeus, uma recordação, é preciso que a dádiva seja outra.

– Arranje uma pior então!

– Como o quê, por exemplo?

“Naquele momento eu sentia, olhava e falava com paixão. Fizera mal em deixar o meu calmo ancoradouro, ainda que por um só instante. Isso me privava de uma vantagem que ela agora possuía. A chispazinha de cólera transformou-se em sarcasmo e terminou em um sorriso de zombaria.”

– Arranje uma mulher que lhe tenha feito a corte para lhe salvar a modéstia e os escrúpulos.

– Diga-me onde ela está?

– Qualquer viúva gorda que já teve vários maridos sabe como se praticam essas coisas.

– É preciso que ela não seja rica. Oh! Essas mulheres ricas!

– Ah! Não é o senhor que teria colhido as maças do jardim das

Hespérides[18]. Não tem coragem para atacar o dragão vigilante? Não tem

habilidade para conseguir o auxílio de Atlas?[19]

– Acho-a violenta e altiva.

– Pois eu acho que o senhor é mais altivo. A sua altivez é um orgulho monstruoso coberto com o manto da humildade.

– Sou dependente e sei qual é o meu lugar.

– Eu sou mulher e sei qual é o meu.

– Sou pobre e por isso devo ser altivo.

– Eu estou sujeita às leis e tenho obrigações tão estritas como às suas.

“Tínhamos chegado a um ponto crítico. Paramos para nos olhar. Eu sentia que ela não cederia, mas era impossível eu ver e sentir, fosse o que fosse, além daquilo. Apenas alguns instantes me restavam: o desenlace se aproximava, mas não se dera ainda. Eu ia adiar; esperar; falar e, quando chegasse a inspiração, agir. Nunca sou apressado. As pessoas apressadas bebem o néctar da existência fervendo. Eu saboreio-o fresco como o orvalho da manhã. Continuei e lhe fiz uma pergunta inesperada:”

– Segundo todas as aparências, Miss Keeldar está tão pouco certa de se casar como eu. Sei que recusou três ou quatro ofertas vantajosas e creio que até uma quinta, se não estou enganado. Não rejeitou o pedido de Sir Philip de Nunnely?

– Tinha suposto que eu poderia aceitar?

– Era a minha impressão que sim.

– Por qual motivo?

– Conformidade de condição, de idade, agradável contraste de temperamento, visto ele ser terno e amável, e harmonia de gostos intelectuais.

– Que bela frase! Mas vamos decompô-la. Conformidade de condição: ele está muito acima de mim; compare, por favor, o meu palheiro com o palácio dele, sem falar que a sua família me desdenha. Conveniência de idade: ele não passa de um rapazinho ao passo que eu sou uma mulher, com mais vivência e maturidade que poderia, facilmente, ser colocado mais dez anos à minha existência sob todos os pontos de vista. Agradável contraste de temperamento: ele é terno e amável e eu sou... diga-me o quê?

– A irmã da leoparda mosqueada, brilhante, viva e feroz.

– E queria o senhor empalhar-me com um cabrito? Injusto e cruel! A harmonia dos gostos intelectuais: eu detesto as poesias dele!

– Poderia orientar seu talento para regiões mais elevadas, apurar-lhe o gosto.

– Orientar e apurar! Ensinar e emendar! Não quero um bebê como marido! Mas é próprio de um professor falar na satisfação do ensino. Aperfeiçoar o marido! Não! Quero, pelo contrário, que o meu marido me faça uma pessoa melhor, ou não poderíamos viver juntos. Se o senhor fosse uma mulher, estaria muito bem para ensinar ao seu marido, pois ensinar é a sua vocação.

– Posso lhe fazer uma pergunta, dada a disposição tão justa e amável em que está, ou pretende censurar a minha situação de preceptor?

– Pode perguntar o que quiser, sei amargamente de todos os meus defeitos, sinto-me dolorosamente consciente.

– A minha pobreza, por exemplo, lhe incomoda?

– Sim, isso o espedaça. A pobreza é o seu ponto ulcerado, pois o senhor gosta de voltar sempre a ela.

– A falta de beleza também?

– Precisamente. O senhor tem o hábito de se considerar feio. São sensíveis as linhas de seu rosto por não serem exatamente moldadas sobre as de Apolo. Critica-as mais do que necessário, na esperança de que os outros digam alguma coisa a favor delas, o que não acontecerá. O seu rosto não tem certamente nada de que se possa envaidecer. Parece-me com o de

um deus egípcio, ou, antes, com Tártaro. O senhor é primo do mastim[20] e creio que se parece tanto com ele quanto um homem se pode parecer com um cão.

– O Tártaro é o seu companheiro querido. É perigoso dizer que eu me pareço com ele. Isso me sugere o direito de querer ser tratado como ele.

– Talvez o senhor possa exigir outro tanto da sua órfã sem fortuna e sem amigos, quando a tiver encontrado.

– Oh! Se eu pudesse encontrá-la como a imagino! Primeiro eu teria que domesticá-la, depois a instruir. Domar primeiro, mimá-la e amá-la depois. Vê-la alternadamente irritada e apaziguada doze vezes em vinte e quatro horas. E, talvez, depois de educá-la, vê-la mãe exemplar e paciente de uma dúzia de filhos, dando, de vez em quando, uma pequena palmada com amor no pequeno Louis, como pagamento da vasta dívida que ela terá contraído para com o pai. Oh! A minha órfã não me negaria beijos e esperaria o meu regresso todas as tardes, no limiar da casa, e se precipitaria para os meus braços, cheia de amor. Conservaria o meu lar com o brilho do aconchego. Que doce ideia, santo Deus! Eu preciso encontrar a minha órfã.

“Os olhos dela lampejavam, os lábios se entreabriram, mas tornaram a se fechar; ela voltou bruscamente a cabeça.”

– Diga-me, diga-me onde ela está? Por que razão não pode me dizer onde eu posso encontrá-la?

– Nunca.

“E afastou-se para me deixar. Podia eu deixá-la agora se separar de mim como ela sempre tinha feito? Não. Eu tinha ido longe demais para não acabar com aquilo. As dúvidas tinham que ser dissipadas.”

– Um minuto, miss – disse eu pondo a mão no puxador da porta. – Tivemos esta manhã uma longa conversa, mas ainda não acabamos. Falta uma última palavra e ela compete à menina.

– Deixe-me passar.

– Não. Prefiro a morte a vê-la sair sem ter dito a palavra que lhe peço.

– O que espera que eu lhe diga? Como ousa?

– O que eu morro por ouvir. O que devo e quero ouvir. Aquilo que não ousará calar agora.

– Não sei o que o senhor quer dizer. Nem parece o mesmo!

“Creio, com efeito, que eu não devia estar o mesmo, pois a assustava. Eu sabia disso, mas era preciso causar-lhe medo para vencê-la.”

– Sabe o que eu quero dizer e pela primeira vez estou sendo eu mesmo. Desfiz-me do preceptor e peço licença para lhe apresentar o homem. E não se esqueça de que ele é um cavalheiro.

“Ela tremia. Pousou a mão na minha como se quisesse afastá-la do puxador. Sentiu a sua impotência e recuou, porém, continuava trêmula. A mudança que se deu em mim não pode ser explicada. Mas, a emoção dela comunicou novo ardor à minha alma. Eu não me sentia esmagado nem ofuscado pelas suas terras ou pelo seu ouro; eram-me indiferentes. Eu só via ela, seu encanto, a majestade, a modéstia de uma moça cheia de juventude e de beleza.”

– Minha aluna! – disse-lhe eu.

– Meu mestre! – respondeu ela numa voz débil.

– Tenho uma coisa para lhe dizer.

“Ela esperou, baixando a cabeça, sob os seus cachos em desalinho.”

– Tenho que lhe dizer, enfim, que durante quatro anos foi ocupando cada vez mais o coração de seu professor e que está agora enraizada nele. Tenho que lhe declarar que me enfeitiçou, a despeito da minha razão e da minha experiência, da diferença de posição e de fortuna. Era tal o seu ar, tais as suas palavras, os seus movimentos, mostrou-me tão bem os seus defeitos e suas virtudes, ou, antes, as suas belezas, porque elas não têm nada da severidade habitual. Amo-a, amo-a, com toda a minha vida e com todas as minhas forças. Pronto, está dito.

“Ela procurou, mas não encontrou uma palavra para responder. Queria rir, mas em vão. Eu repeti apaixonadamente que a amava.”

– Bom, Mr. Moore, e então?

“Foi a única resposta que pude obter dela e pronunciada num tom que teria sido petulante se não fosse demasiado indeciso.”

– Não tem nada para me dizer? Não sente amor por mim?

– Um pouquinho.

– Não quero ser torturado. Não quero sequer gracejar neste momento – disse eu, ríspido.

– Eu não quero gracejar, quero ir embora.

– Espanta-me que ouse falar agora em querer sair daqui. Ir-se embora! Com o meu coração na mão para levá-lo ao seu tocador e traspassá-lo com seus alfinetes? Não dará um passo daqui para fora. Não sairá do meu alcance sem deixar fiança, penhor, por penhor, o seu coração pelo meu.

– O objeto que me pede se perdeu há algum tempo. Deixe-me ir procurá-lo.

– Declare que ele está onde se encontram muitas vezes as suas chaves. Em meu poder.

– O senhor deve sabê-lo. E onde estão as minhas chaves, Mr. Moore? De fato, as perdi outra vez, e Mrs. Gill precisa de dinheiro e tenho apenas uma moeda que nada vale.

“Tirou a moeda do bolso do avental e mostrou-a na palma da mão. Mas não era momento para brincadeiras. A vida e a morte estavam em jogo. Apoderando-me ao mesmo tempo da moeda e da mão que a segurava, perguntei:”

– Deverei viver para você ou sem você?

– Faça como lhe parecer melhor. Não posso escolher pelo senhor.

– Vai dizer-me com seus próprios lábios se me condena ao exílio ou se me traz a esperança.

– Vá. A sua partida não será a causa da minha morte – disse-me ela.

– Talvez eu pudesse sobreviver à sua ausência, mas responda-me Shirley, minha aluna, minha rainha, responda-me.

– Morra sem mim, se quiser. Viva para mim, se o senhor se atreve.

– Não tenho medo de você, Shirley, minha leoparda. Atrevo-me a viver para você e com você, desde este momento até a minha morte. Agora, portanto, você é minha. Nunca mais a deixarei ir embora. Seja a minha casa onde for, a minha mulher está escolhida. Se eu ficar na Inglaterra, aqui ela ficará; se eu atravessar o Atlântico, ela também atravessará. As nossas vidas estão soldadas uma à outra e os nossos destinos estão agrilhoados um ao outro.

– E somos então iguais, Mr. Moore. Somos finalmente iguais.

– É mais nova, mais frágil e mais ignorante que eu...

– Será bom para mim? Não irá me tiranizar?

– Deixe-me respirar, não me atente, não sorria neste momento. Meu mundo gira e se modifica neste momento. O sol é de uma chama vermelha ofuscante, o firmamento um turbilhão violeta à minha volta.

“Sou forte, mas naquele momento eu titubeava ao falar. Tudo se amplificava diante de mim, as cores eram mais vivas, os movimentos mais rápidos e a própria vida ganhava cores inusitadas nunca vistas antes. Durante alguns segundos, quase não a vi, mas ouvi a sua voz implacavelmente doce.”

– Chamou-me de leoparda. Lembre-se de que a leoparda é indomável.

– Domada ou feroz, selvagem ou domesticada, você é minha.

– Sinto-me contente por conhecer o meu domador, pois estou habituada a ele. Somente a voz dele seguirei, apenas a sua mão me guiará e aos seus pés eu quero repousar.

“Fiz com que ela se sentasse novamente e sentei-me ao seu lado. Eu precisava continuar a ouvi-la. Eu não podia cansar-me daquela voz, das suas palavras.”

– Até que ponto me ama? – eu lhe perguntei.

– Ah! Bem, não o quero lisonjear.

– Não sei a metade do que se passa na sua mente. O meu coração lhe implora por alimento e, se soubesse como ele está faminto e feroz, apressar-se-ia em sossegá-lo com algumas palavras bondosas.

– Pobre Tártaro! – exclamou ela, tocando e batendo docemente na minha mão. – Pobre companheiro, fiel amigo, ídolo e o favorito de Shirley, deite-se aos meus pés.

– Mas não antes de ser saciado com uma palavra terna.

“E, por fim, ela cedeu.”

– Caro Louis, seja-me fiel, não me abandone nunca, porque pouco me importa a vida se não puder passá-la ao seu lado.

“E mudou de assunto. Não era seu costume, oferecer duas vezes o mesmo prato.”

– Mr. Moore – disse ela, levantando-se de repente – se alguma vez voltar a falar-me de coisas banais de dinheiro, de pobreza, de igualdade, será por sua conta e risco. Seria muito perigoso me atormentar com esses escrúpulos estúpidos. Proíbo-lhe que o faça.

“Uma onda de calor subiu à minha face. Uma vez mais desejei ser menos pobre ou que ela fosse menos rica. Ela viu a minha angústia e recebi uma carícia. No meu tormento senti o êxtase.”

– Mr. Moore – disse ela, fitando-me com uma expressão doce, franca e animada – ensine-me e ajude-me a ser boa. Não lhe peço para tirar de sobre os meus ombros todas as preocupações e os deveres da fortuna, mas peço-lhe que partilhe do meu fardo e que me mostre o que devo fazer para suportar como deve ser a minha parte. O senhor é sensato, tem um bom coração, tem bons princípios. Sei que é justo, sinto que é benevolente, creio que é consciencioso. Seja o meu companheiro pela vida afora, seja o meu guia nas coisas que ignoro, seja meu mestre quando eu errar e seja sempre meu amigo.

– Que Deus me ajude a ser assim!

 

*******

 

Segue mais um trecho do caderno de Louis Moore, leia-o se for do seu agrado, caso contrário, passem adiante:

“Os Sympsons foram embora, mas só depois de vários incidentes e peripécias. As minhas maneiras ou os meus olhares devem ter traído qualquer coisa. Eu estava calmo, mas, às vezes, esquecia-me de ser prudente. Ficava na sala mais tempo do que era meu costume, não podia mais viver longe da presença dela. Ontem, ao entardecer, tive-a ao meu lado, junto à lareira, durante cinco minutos. Estávamos sentados um ao lado do outro, ela a gracejar e eu deleitado com o som da sua voz, quando Mr. Sympson abriu a porta. Não nos afastamos e Shirley o pegou nos espionando. Ela cerrou os lábios e abanou a cabeça. O seu olhar continha uma explicação e um desafio: gosto da companhia de Mr. Moore e desafio-o a achar isso mau.”

“Eu perguntei a ela:”

– É sua intenção fazer-lhe compreender o que se passa?

– Sim – respondeu-me ela. – Mas entrego ao acaso a escolha do momento. Há de haver uma cena, que não procuro nem receio, simplesmente será necessário que esteja presente, pois estou horrivelmente cansada de me ver sozinha em frente dele.

“Esta manhã, imaginando tê-la ouvido descer bastante cedo, apareci imediatamente. Eu não estava enganado, pois lá estava ela trabalhando na pequena sala de estar que a criada acabara de limpar e de arrumar. Ela tinha levantado cedo para concluir uma pequena recordação que era destinada ao Harry. Tive apenas um acolhimento frio, que aceitei até a criada sair, acolhendo-me com um livro ao recanto de uma janela. Mesmo quando estávamos a sós não gostava de incomodá-la. Estar sentado no mesmo lugar em que ela se encontrava já era para mim uma extrema felicidade. Eu sabia que se eu me mostrasse inoportuno me expunha a alguma resposta torta. Lia-se claramente em seu rosto: Não estou em casa para os galanteadores. Então, pus-me a ler, arriscando de quando em quando um olhar. Via a sua expressão se tornar cada vez mais aberta quando notou que eu respeitava a sua disposição de espírito. Em menos de meia hora, eu estava ao seu lado, a vê-la coser, recolhendo-lhe os sorrisos e os seus ditos alegres. Estávamos sentados, como tínhamos o direito de estar, um ao lado do outro; o meu braço descansava na cadeira dela e eu estava suficientemente perto para poder contar os pontos do seu trabalho e distinguir o buraco da agulha. De repente, a porta se abriu. Creio que, se tivesse levantado em sobressalto, ela teria me desprezado. Graças à minha natureza calma, raramente estremeço. Quando estou bem instalado, não é fácil que me tirem do lugar. Eu estava bem, muito bem mesmo e, por consequência, imutável. Nenhum dos meus músculos se contraiu e mal olhei para a porta.”

– Bom dia, meu tio – disse ela, dirigindo-se à pessoa que se deteve no limiar, petrificada.

– Há muito que está aqui sozinha com Mr. Moore?

– Sim. Há muito. Descemos ambos cedo, o dia mal clareara.

– Essa maneira de proceder não é conveniente...

– A princípio não foi; eu comecei por ser desagradável e pouco delicada para com ele, mas pode ver que somos agora os melhores amigos do mundo.

– Estou a compreender mais do que a menina quereria.

– Não me parece, Mr. Sympson – respondi. – Nós nunca escondemos nada. Permita-me que lhe diga, senhor, que toda observação que tenha a fazer, pode ser feita a mim. A partir deste momento, interponho-me entre Miss Keeldar e toda a espécie de aborrecimentos.

– O senhor? Que tem o senhor a ver com Miss Keeldar?

– Tenho de protegê-la, de velar por ela, de servi-la.

– O senhor? O preceptor?

– Nada de palavras insultuosas, senhor! – interrompeu Miss Keeldar. – Nada de expressões de desprezo para com Mr. Moore nesta casa.

– Então ainda toma o partido dele?

– Oh, sim! Tomo o partido dele.

“Ela voltou-se para mim num repentino e terno movimento, ao qual eu correspondi, pondo o meu braço em volta dos seus ombros. Erguemo-nos ambos.”

– Com os demônios! – exclamou o homem que tiritava à porta, metido em um roupão.

– Entre, meu tio, vai saber de tudo. Diga-lhe tudo, Louis.

– Desafio-o a falar, esse mendigo, esse avarento, esse hipócrita, esse vil adulador, esse infame criado! Separe-se já da minha sobrinha. Largue-a!

“Ela apertou-se contra mim com energia.”

– Estou ao lado do meu futuro marido – disse ela – quem se atreverá a tocar nele ou em mim?

– Seu marido? – objetou ele.

“Ergueu os braços e se deixou cair numa cadeira.”

– Há algum tempo o senhor desejava saber com quem eu tencionava me casar. A minha intenção já estava tomada, mas ainda não era a hora de contá-la. Agora estou amadurecida. Louis Moore será o meu marido.

– Mas não será mesmo! Ele não a terá! – exclamou Mr. Sympson com raiva.

– Eu preferiria morrer a ter outro e morreria se não o tivesse.

“Ele então pronunciou palavras que nunca mancharão esta página. Shirley ficou pálida como a morte, tremia da cabeça aos pés e suas forças abandonaram-na. Estendi-a no sofá, lançando-lhe um olhar para ver se tinha desmaiado. Mesmo que fosse preciso dar a minha vida para salvá-la, eu não seria capaz de dizer o que se passou nos cinco minutos seguintes. Ela disse-me depois, chorando e rindo, que eu parecia possesso. Disse-me que a deixei e saltei sobre Mr. Sympson, que desapareceu da sala como se uma bala o tivesse levado. Eu desapareci também e ela ouviu Mrs. Gill gritar, aterrorizada. Mrs. Gill estava ainda aos gritos quando voltei a mim; encontrava-me noutra sala, aquela que tem as paredes forradas de castanho, creio eu. Tinha Mr. Sympson abatido diante de mim numa cadeira e havia-lhe deitado a mão à borda do roupão. Larguei-o e recuperei imediatamente o sangue frio, mas disse a Mrs. Gill para ir imediatamente buscar a carruagem da Casa Vermelha e avisei a Mr. Sympson de que teria de abandonar Fieldhead assim que a condução chegasse. Embora aterrado e fora de si, respondeu que não abandonaria. Repetindo a primeira ordem, acrescentei que chamassem um agente da polícia, e disse a ele:”

– Há de partir, quer queira quer não.

“Pedi a Mrs. Gill que buscasse as suas roupas, ordenei que as vestisse e fiquei junto dele até que a carruagem chegasse. Depois o acompanhei até a portinhola com ele me injuriando durante todo esse tempo, pois ele estava aterrado e enfurecido. Ele bem que quis opor resistência, mas não sabia como. A sua fúria era incapaz de qualquer ação. Este homem nunca invocará a lei contra mim. A mulher, que ele tiranizava nas pequenas coisas, dirige-o nas grandes. Ela e as filhas saíram num estado de consternação muda e irritada, mas ela respeitava-me. Quando Harry se lançou ao meu pescoço pareceu-me que chorava.”

Louis voltou a escrever uma semana após esse episódio:

“Habito em silêncio em Stilbro com um amigo a quem posso ser útil nos seus negócios. Todos os dias vou a cavalo até Fieldhead. Quanto tempo ainda demorará até que eu possa chamar Fieldhead de minha casa e sua dona de minha mulher? Sofro e, às vezes, as dúvidas me torturam. Ao vê-la, agora, qualquer pessoa pensaria que ela nunca encostou a cabeça no meu ombro ou se apertou contra meu corpo com ternura e confiança. Sinto-me em perigo; ela faz-me sofrer; sinto-me repelido quando a visito, ela foge do meu alcance. Hoje, em certo momento, ergui-lhe o rosto, decidido a fixar em cheio os seus olhos negros e profundos. É difícil descrever o que li neles. Pantera! Natureza selvagem! Indomável! Incomparável! Ela morde o cadeado que a prende. Queria que ela corresse o perigo de me perder, como eu corro o perigo de perdê-la. Não! Não é a perda que eu temo, mas a demora.”

“Agora é noite, meia-noite. Passei a tarde e o serão em Fieldhead. Há algumas horas ela passou por mim, vindo da escadaria de carvalho para o vestíbulo. Ela não sabia que eu estava junto à janela contemplando as constelações que brilhavam por entre a névoa. Segui-a até a sala de estar, Mrs. Pryor e Caroline também estavam lá. Ela lhes pediu que fossem viver com ela durante algum tempo. No seu vestido branco de noite, com os longos cabelos flutuantes, o andar leve, as faces pálidas, o olhar cheio de noite e de luz, parecia um espírito, um ser nascido de um único elemento, filha do ar e da chama, de um raio e de uma gota de chuva, uma coisa impossível de atingir, de deter, de fixar...”

 

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