Shirley
Capítulo II
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As Carroças
A noite era um breu. As estrelas e a lua apareciam veladas por grossas nuvens que, acinzentadas durante o dia, eram agora totalmente enegrecidas.
Mr. Malone não era um homem dado à observação da natureza, cujas mudanças passavam, em sua maior parte, despercebidas por ele. Ele podia andar quilômetros nos mais variados dias de abril e nunca ver a beleza da terra e do céu, nunca notar quando um raio de sol beijava as colinas, tornando-as cada vez mais verdes pela sua clara luz ou quando uma chuva caía sobre elas como tranças desgrenhadas de uma nuvem. Ele, portanto, não percebeu o contraste do céu de agora, que mais parecia um cofre abafado ou um córrego escuro, salvo para o Leste, onde os fornos da siderúrgica Stilbro jogavam um brilho trêmulo e lúgubre no horizonte dessa noite fria. Ele não se deu ao trabalho de perguntar a si mesmo para qual lugar as constelações e os planetas tinham ido.
Ele, obstinadamente, seguia seu caminho inclinando-se um pouco para a frente enquanto andava, com seu chapéu deitado para trás à maneira irlandesa, batendo com os pés na calçada, vangloriando-se pelo privilégio de sair dos buracos cheios de lama, ou marchando pelos atalhos quando o pavimento era substituído por cascalho. Não se preocupava senão com alguns pontos de referência, como a torre da igreja de Briarfield e, mais adiante, as luzes da Casa Vermelha. Esta era uma estalagem e, quando ali chegou, o brilho do fogo através de uma janela, cujas cortinas estavam meio abertas, deu-lhe a visão de copos em cima de uma mesa redonda e alegres foliões sentados num banco de carvalho, visão que lhe deu vontade de desviar seu curso. Sentiu saudade de um copo de uísque com água e, se fosse noutro lugar, teria saciado instantaneamente o seu desejo. Mas os indivíduos reunidos ali na cozinha eram paroquianos de Mr. Helstone e todos o conheciam. Soltou um longo suspiro e passou adiante.
Deveria deixar a estrada naquele ponto, pois a distância restante para a manufatura de Hollow podia ser consideravelmente reduzida desde que se cruzassem os campos que eram planos. Mr. Malone tomou esse rumo, escalando sebes e muros. Passou junto de um edifício de um só pavimento, largo e irregular, mergulhado em total escuridão; nenhuma luz brilhava nas janelas. O ruído da chuva escorrendo dos beirais e o silvo bastante selvagem do vento ao redor das chaminés e através dos ramos eram tudo o que se ouvia.
Depois de passar pelo edifício, os campos, até então planos, desciam em rápido declive. Havia, decerto, um vale abaixo através do qual se podia ouvir a água correr. Uma luz brilhava na profundidade do vale. Ele, portanto, tomou aquela direção.
Aproximou-se de uma pequena casa branca – via-se que era branca, mesmo através da densa escuridão – e bateu à porta. Uma criada ainda jovem veio abri-la. À luz da vela que ela segurava via-se uma passagem estreita que terminava em uma escada também estreita. Duas portas cobertas de sarja carmesim, uma passadeira da mesma cor nos degraus contrastando com as paredes de cores claras e o piso branco davam ao lugar um aspecto de frescor e limpeza.
– Mr. Moore está em casa, suponho.
– Sim, senhor, mas ele não está aqui dentro.
– Não está aqui? Onde ele está, então?
– No escritório da fábrica.
Neste momento, uma das portas carmesins abriu-se.
– Já chegaram as carroças, Sarah? – perguntou uma voz feminina, e, ao mesmo tempo, surgiu uma cabeça. Não era uma cabeça de uma deusa, os papelotes que se elevavam acima da face impediam tal suposição, mas também não era a cabeça de uma Górgona. Foi, contudo, o efeito que produziu sobre Mr. Malone. Grande como ele era, recuou de volta à chuva, intimidado e dizendo: – Vou procurá-lo – e precipitou-se através de um tapete de relva e de um pátio obscuro em direção a uma fábrica enorme e escura.
Já se passara a hora do trabalho e os operários tinham partido. O maquinário estava em repouso e a fábrica, fechada. Andou em volta do edifício até encontrar uma fresta de luz e bateu na porta com a ponta da bengala. Uma chave girou e a porta abriu-se.
– É você, Joe Scott? Quais são as notícias das carroças?
– Não, sou eu. Foi Mr. Helstone que me mandou.
– Ah! É Mr. Malone! – e a voz, ao pronunciar esse nome, teve uma leve inflexão de desapontamento. Depois de uma breve pausa, continuou, educadamente, mas um pouco formal: – Faça o favor de entrar, Mr. Malone. Lamento muito que Mr. Helstone tenha achado necessário incomodá-lo. Não era preciso. Até o momento não houve necessidade e eu lhe disse isso... e em uma noite como esta! Entre.
Através de uma sala escura, da qual não se distinguia o aspecto, Mr. Malone seguiu o seu interlocutor até outra sala clara e luminosa. Com exceção de um excelente fogo e de um elegante candeeiro que brilhava em cima da mesa, o lugar era muito simples. Não havia tapetes sobre o piso; três ou quatro cadeiras de espaldar, pintadas de verde, que pareciam ter pertencido a uma cozinha de alguma fazenda; uma escrivaninha sólida, a já referida mesa; nas paredes de cor de pedra, algumas molduras com planos de casas, de jardins, projetos de máquinas e outros objetos completavam todo o mobiliário.
Por mais simples que fosse, aquele mobiliário parecia satisfazer Mr. Malone, que, mal removera e pendurara o casaco e chapéu molhados, aproximou do fogo uma das grandes cadeiras e quase encostou seus joelhos nas barras da grade de ferro da lareira, no momento quase incandescente.
– Mr. Moore tem aqui uma sala confortável e muito cômoda para si mesmo.
– Sim, mas minha irmã ficaria feliz em vê-lo, se preferir, entrar em casa.
– Oh, não! As senhoras estarão bem melhor sozinhas. Nunca fui o favorito das damas. Não me confunde com o meu amigo Mr. Sweeting, não é verdade?
– Mr. Sweeting! Qual deles é ele mesmo? O cavalheiro de sobretudo cor de chocolate ou o baixinho?
– O baixinho, o de Nunnely, o cavaleiro andante das misses Sykes. Ele está apaixonado por todas as seis! Ah, ah!
– Mais vale, segundo me parece, amá-las todas do que uma em particular.
– Mas é que ele, além disso, está apaixonado por uma em particular, pois quando Mr. Donne e eu o incitamos a fazer uma escolha, ele nomeou uma delas. Adivinhe quem?
Com um sorriso calmo e fino, Mr. Moore respondeu:
– Miss Dora, naturalmente, ou Miss Harriet.
– Ha! Ha! O senhor tem um palpite excelente! Mas o que o fez pensar nessas duas?
– Porque, como são as mais altas e mais bonitas, Miss Dora, pelo menos, é a mais robusta, e como o seu amigo Mr. Sweeting é baixo e magro, concluí que, segundo o costume, teria escolhido a que faz maior contraste com ele.
– Tem razão, é Miss Dora. Mas, ele não tem chance, não acha Mr. Moore?
– O que Mr. Sweeting tem além de sua paróquia?
Esta questão, surpreendentemente, parecia agradar a Mr. Malone. Ele riu por três minutos antes de responder.
– O que Mr. Sweeting tem? David tem sua harpa, sua flauta, uma espécie de relógio, um anel e um par de óculos. É isso tudo que ele tem.
– Como é que ele se propõe a manter uma Miss Sykes? Pagar seus vestidos, por exemplo?
– Ha! Ha! Excelente! Vou perguntar-lhe da próxima vez que eu o vir e vou troçá-lo por sua presunção! Mas, sem dúvida, ele espera que o velho Mr. Christopher Sykes lhe seja generoso. Ele é rico, não é? Eles vivem em uma grande casa!
– Mr. Sykes é um grande negociante – respondeu Mr. Moore.
– Portanto, deve ser rico, não é?
– Portanto, ele deve saber perfeitamente como empregar sua riqueza, e nestes tempos, pensa tão pouco em retirar dinheiro da empresa para dar dotes às filhas como eu em derrubar minha casinha e construir sobre suas ruínas uma casa tão grande como Fieldhead.
– Sabe, Mr. Moore, o que eu ouvi dizer outro dia?
– Não. Talvez que eu tencionasse efetuar alguma mudança desse gênero. Os fofoqueiros de Briarfield são capazes de tolices dessas ou ainda maiores.
– Ouvi dizer que o senhor ia alugar Fieldhead. Esta noite, ao passar por lá, pareceu-me um lugar sombrio... e que a sua intenção seria se estabelecer lá, como senhora, uma Miss Sykes, e casar-se enfim. Ha! Ha! Então, qual delas escolheu? Miss Dora, eu tenho certeza. Disse que ela era a mais bonita.
– Estou admirado com a quantidade de vezes que me casaram desde que eu vim para Briarfield. Eles me designaram como marido de todas as moças do distrito. Agora, o que dá motivos para essas bisbilhotices, eu não sei. Só Deus sabe! Não vejo ninguém e procuro tão pouco o convívio das mulheres como você, Mr. Malone. Meus pensamentos estão tão ocupados com os tecidos que eu não posso vender, mãos que não posso empregar, com a fábrica que eu não posso colocar para trabalhar, o curso dos acontecimentos em geral, que, por ora, eu não posso alterar em demasiado o meu espírito para pensar em namoro, matrimônio, ninharias tipo paixonites e o resto.
– Sou absolutamente da sua opinião, Mr. Moore. Se há uma coisa que eu deteste acima de tudo, é a ideia de casamento, quero dizer, do casamento no sentido vulgar, como uma mera questão de sentimento: dois tolos desprezíveis concordando em unir sua indigência por algum laço de sentimento fantástico. Que absurdo! Mas, uma conexão vantajosa, baseada em sólidos interesses, não é assim uma coisa tão má, que lhe parece? Hein?
– Não – respondeu Mr. Moore, de um modo ausente. O assunto parecia não ter nenhum interesse para ele e deixou cair a conversa. Após fitar o fogo por algum tempo com um ar preocupado, voltou bruscamente a cabeça.
– Ouça! – disse ele. – Não ouviu ruído de rodas?
Levantando-se, foi até a janela, abriu-a e escutou. Fechou-a em seguida.
– É apenas o ruído do vento que aumentou – observou Mr. Moore – e o barulho das águas do riacho que aumentaram devido à chuva que engrossou. Eu esperava essas carroças às seis horas e já são quase nove.
– Sério? Acha mesmo que a instalação deste novo maquinário vai lhe trazer algum inconveniente? Mr. Helstone parece pensar que sim.
– O que eu quero é ver as máquinas e os teares em segurança aqui. Uma vez montados dentro das paredes deste moinho, desafio quem quer que seja que queira dar cabo deles. Deixe que me visitem e terão que arcar com as consequências. A minha fábrica é a minha fortaleza.
– Hum! Não se faz caso de semelhantes canalhas – observou Mr. Malone, em veia filosófica. – Eu quase desejo que um desses bandos apareça nesta noite, mas a estrada pareceu-me há pouco extremamente sossegada.
– Veio pela Casa Vermelha?
– Sim.
– Desse lado não há nada. O perigo está na direção de Stilbro.
– E acredita nesse perigo?
– O que eles têm feito aos outros, podem fazer comigo. Há apenas uma diferença: os fabricantes parecem paralisados quando são atacados. Não tomam medidas para descobrir ou punir os malfeitores. Dão-se mansamente como um coelho sob as mandíbulas de um furão. Quanto a mim, se eu me conheço, defenderei minha fábrica, meu comércio e minhas máquinas.
– Mr. Helstone diz que essas três coisas são os seus deuses; que as ordenações reais estão para você como os sete pecados capitais; que Castlereagh é o seu Anticristo e o partido da guerra, a sua legião.
– Sim, eu abomino todas essas coisas porque elas me arruinaram. Elas ficam no meu caminho. Por causa da guerra, eu não posso executar meus planos. Paro todo o momento por seus efeitos deploráveis.
– Mas o senhor, Mr. Moore, é rico e próspero.
– Sou rico em mercadoria que eu não posso vender. Se o senhor entrar em meus armazéns vai vê-los cheios; tecido empilhado até o teto. Mr. Roakes e Mr. Pearson estão na mesma condição; a América era o mercado deles, mas as ordens reais fecharam-no.
Mr. Malone, contudo, não parecia disposto a sustentar semelhante conversa. Começou a bater os saltos das botas um contra o outro e a bocejar. Mr. Moore, que parecia muito ocupado com a corrente de seus próprios pensamentos, depois de alguns segundos, notou o tédio de seu convidado e mudou de assunto.
– Pois bem, Mr. Malone, vamos voltar ao seu assunto inicial, as fofocas ridículas de Whinbury e Briarfield sobre com quem devo me casar! Como se não houvesse nada mais para ser feito na vida, devo ‘prestar atenção’ em uma jovem senhora e, depois, como eles dizem, ir à igreja com ela e então começar uma turnê de noiva, depois iniciar uma série de visitas e, então, suponho, montar uma família. Oh, Que le diable emporte! – ele tentou se acalmar, pois havia se lançado com certa energia naquele assunto e, portanto, acrescentou com mais calma: – Eu acredito que as mulheres falam e pensam somente nessas coisas e elas, naturalmente, fantasiam que as mentes dos homens sejam igualmente ocupadas com tais asneiras.
– Claro, claro – concordou Mr. Malone – enquanto assobiava, olhava impacientemente à sua volta. Parecia sentir um grande desejo ou falta de alguma coisa. Desta vez, Mr. Moore logo compreendeu.
– Mr. Malone, aceita um refresco depois de sua caminhada molhada? Desculpe-me, acabei esquecendo-me da hospitalidade.
– Não! Não! – voltou Mr. Malone, mas continuava agitado. Mr. Moore levantou-se e abriu um armário.
– Tenho o hábito – disse ele – de ter sempre qualquer coisa à mão para todas as conveniências e não ser dependente da feminilidade da casa. Costumo passar a noite aqui, pois, às vezes, sou o meu próprio vigia. Em outras, Joe Scott dorme aqui. O senhor sabe grelhar uma costeleta de carneiro, Mr. Malone?
– Ponha-me à prova. Já fiz isso centenas de vezes quando estava no colégio.
– Aqui estão as costeletas e a grelha. O segredo é manter os sucos dentro.
– Confie em mim e verá. Apenas me faça o favor de me dar um garfo e uma faca – respondeu o outro, mais entusiasmado.
O vigário arregaçou as mangas e aplicou-se à culinária com vigor. O fabricante colocou sobre a mesa pratos, pães, uma garrafa preta e dois copos. Tirou do armário uma pequena chaleira de cobre, encheu-a da água de uma jarra, colocou-a sobre o fogo ao lado da grelha, pegou um limão, açúcar e uma pequena taça de porcelana para o ponche, mas enquanto ele preparava a bebida, uma pancada na porta o interrompeu.
– É você, Sarah?
– Sim, sou eu. O jantar está servido, senhor.
– Não irei esta noite, Sarah. Vou dormir no moinho. Tranque as portas e diga à sua senhora para ir para a cama sem me esperar.
Mr. Moore voltou.
– O senhor tem sua casa em ordem – observou Mr. Malone, com aprovação e com o rosto corado como as brasas sobre as quais ele se curvava. Ele girava assiduamente as costeletas e tagarelava sem parar. – O senhor não está sob o governo de uma anágua como o pobre Mr. Sweeting! Como essa gordura espirra! – Mr. Malone queimou a mão, sacudiu-a e continuou: – Mr. Sweeting está destinado a ser governado por mulheres. Agora é conosco, Mr. Moore! Há um pedaço assado aqui cheio de molho! Nós não teremos éguas cinzentas em nossos estábulos quando nos casarmos.
– Não sei. Eu nunca penso sobre isso. Se a égua cinza for bonita e dócil, por que não? – respondeu Mr. Moore.
– As costeletas estão prontas. E o seu ponche?
– Aqui tem um copo, prove. Quando Joe Scott e seus ajudantes retornarem, terão a parte deles, desde que tragam os teares intactos.
Mr. Malone estivera exultante durante a ceia. Ele riu alto sobre ninharias, fez piadas ruins e aplaudiu a si mesmo, e, em suma, tornou-se barulhento como sempre. O seu anfitrião, pelo contrário, permanecera calmo como antes.
É tempo, leitor, de ter alguma ideia da aparência de Mr. Moore. Devo me esforçar para esboçar como ele se sentava à mesa.
Mr. Moore, à primeira vista, era aquilo que provavelmente se chamaria de um homem de aparência estranha. Ele era magro, moreno e pálido. Seus cabelos espessos eram negligenciados sobre a testa. Parecia que ele gastava muito pouco tempo com a sua pessoa e parecia também inconsciente da sua beleza e simetria meridional, pois as linhas de seu rosto eram regulares e perfeitamente belas. Nenhum espectador tomava consciência dessa vantagem até que ele o examinasse bem, pois um semblante ansioso e qualquer coisa de desnorteado e um pouco abatido no contorno do seu rosto, perturbava a ideia da beleza. Seus olhos eram grandes e cinzentos; sua expressão era grave e meditativa; o olhar mais perscrutador do que meigo; mais pensativo do que alegre. Quando ele entreabria seus lábios num sorriso, sua fisionomia tornava-se agradável; não que, mesmo assim, fosse franca e animada, mas dava a impressão de um encanto sossegado, sugestivo, de uma natureza reservada e talvez benévola; de um coração capaz de se mostrar abnegado, indulgente e fiel. Ele ainda era jovem, não mais do que trinta anos; sua estatura era elevada e sua figura, elegante. A sua maneira de falar, talvez, desagradasse alguns, devido a sua pronúncia estrangeirada: ele era filho de pai inglês com mãe francesa e ele próprio nascera em terras estrangeiras.
Mas Mr. Moore era meio britânico. De origem híbrida, era provável que seus sentimentos também fossem híbridos, particularmente seu patriotismo. Era incapaz de se ligar a um partido, a uma seita, até mesmo a clima e costumes determinados.
O comércio era a profissão hereditária de Mr. Moore. Os Gerards, da Antuérpia, tinham sido negociantes durante os dois últimos séculos e feito fortuna. Mas, as incertezas, as especulações desastrosas, tinham abalado os fundamentos do crédito da família. Havia doze anos que os alicerces da sua casa oscilavam e, finalmente, o choque da Revolução Francesa o tinha arrastado para a ruína total. Nesta queda, fora arrastada a empresa inglesa de Robert Moore, em Yorkshire, intimamente ligada, por interesses, a do pai na Antuérpia. O pai, que havia se casado com Hortense Gérard com a perspectiva de que sua noiva herdasse sua parte na herança do sogro, Constantino Gérard, no negócio, herdara apenas o passivo da empresa. Este passivo, embora devidamente liquidado por um acordo com os credores, dizia-se que seu filho, Robert Moore, o aceitara como herança, esperando extingui-lo um dia e restabelecer assim a casa dos Gérard e dos Moore num nível pelo menos igual à sua antiga grandeza.
Supunha-se que ele tomara o passado sob circunstâncias do coração. Passara a infância ao lado da mãe, sob o presságio das dificuldades financeiras, e uma masculinidade encharcada e marcada pela descida impiedosa da tempestade. Isso, de fato, poderia dolorosamente impressionar sua mente que, provavelmente, não ficou impressionada com caracteres dourados.
Se, no entanto, ele tinha em vista um ótimo motivo para restaurar a fortuna da família, não estava em seu poder empregar grandes meios para sua realização. Tinha se proposto a um grande fim, mas faltavam-lhe meios para atingi-lo e foi obrigado a se contentar com um negócio modesto.
Quando ele veio para Yorkshire, onde seus antepassados possuíram armazéns em portos e fábricas espalhados pelas aldeias, casas de campo e de cidade, não viu alternativa senão alugar um imóvel numa pequena aldeia retirada para sua fábrica de tecido e tomar uma simples cottage ao lado como residência. Arrendara ainda alguns acres de terra íngreme e árida, nas margens do ribeiro, que fazia mover as máquinas; e a terra, além de fornecer pasto para seu cavalo, servia-lhe como cenário para suas caminhadas rotineiras. Obtivera tudo isso por uma renda elevada (nesses tempos de guerra, tudo era difícil e muito caro) dos administradores do espólio Fieldhead que, então, era de propriedade de uma menor.
Na época em que se inicia esta história, Robert Moore habitava naquele distrito havia apenas dois anos, durante os quais tinha provado ser, pelo menos, um homem ativo e perseverante. A casa de campo suja fora convertida em uma residência limpa e de bom gosto. De uma parte do terreno acidentado tinha feito um jardim, que ele cultivava com singular cuidado. Quanto à fábrica, que no início era uma antiga estrutura provida de edifícios também antiquados e equipamentos ultrapassados, ele demonstrara profundo desprezo. Seu objetivo era efetuar uma reforma radical, que ele tinha executado tão rápido quanto seu capital muito limitado permitia. A insuficiência deste e a demora de ver algum melhoramento afetaram-no dolorosamente. “Para a frente” era sua divisa, porém a pobreza colocava freios ao seu entusiasmo. Às vezes, figurativamente, ele espumava à boca quando as rédeas estavam muito apertadas.
Neste estado de sentimento, não é de se esperar que ele fosse se preocupar se o seu avanço era, ou não, prejudicial aos outros. Não sendo um nativo, ele nunca se perguntara onde aqueles a quem ele já não pagava mais salários semanais encontravam o pão de cada dia. Lógico, ele não era negligente porque queria sê-lo; o que poderia fazer com os milhares de pobres morrendo de fome em Yorkshire? Contudo, era sobre ele que vinha a maior parte das reivindicações.
O período sobre o qual eu escrevo foi um dos mais sombrios da história britânica e, especialmente, da história das províncias do Norte. A guerra estava no seu auge e toda a Europa estava envolvida. A Inglaterra, se não estava cansada, pelo menos se encontrava esgotada pela longa resistência. Metade da população clamava pela paz em quaisquer condições. A honra nacional não passava de um mero nome vazio, sem nenhum valor aos olhos, cuja vista era obscurecida pela névoa da fome. Por um pedaço de carne ou pão teriam vendido até o direito à primogenitura, imagine a nacionalidade.
As Ordens do Conselho Real, provocadas pelos decretos promulgados por Bonaparte, em Milão e em Berlim, nos quais proibia que todas as potências neutras fizessem negócios com a França, tinham ofendido a América, fechando o principal mercado de tecidos de Yorkshire e deixando-os, consequentemente, à beira da ruína. Os menores mercados estrangeiros estavam saturados e não receberiam mais. Brasil, Portugal e Sicília estavam com estoques excessivos para consumo de cerca de dois anos.
Por volta desta crise, foram introduzidas nas manufaturas do Norte certas invenções em máquinas que deixaram sem trabalho alguns milhares de operários e, consequentemente, sem meios legítimos de se sustentar. Sobreviera ainda uma má colheita e a miséria atingiu seu clímax.
Os espasmos de uma espécie de terremoto moral foram sentidos nas colinas dos condados do Norte. Mas, como é habitual nesses casos, ninguém quase notou. Quando eclodira um motim em uma cidade industrial em que um armazém de um moinho fora queimado, a casa de um fabricante fora atacada, os móveis jogados nas ruas e a família forçada a fugir para salvar suas vidas, algumas medidas locais foram tomadas pela magistratura. Um líder foi detectado, mas fugiu para escapar da detenção. Parágrafos em jornais foram escritos sobre o assunto, mas a coisa parou por aí. Quanto aos doentes, cuja única herança era o trabalho, e que tinham perdido a herança e não poderiam mais trabalhar, consequentemente não poderiam ter salários e muito menos obter seu pão, foram esquecidos. Nada fariam para parar o progresso, para prejudicar a ciência e desencorajar melhorias. A guerra não poderia ser encerrada e o alívio eficiente não poderia ser levantado. Portanto, não houvera ajuda e o destino dos desempregados era comer o pão e beber a água da aflição.
A miséria engendra o ódio. Os infelizes odiavam as máquinas que, como diziam, tinham tomado seu pão; detestavam os edifícios que continham essas máquinas e odiavam os fabricantes que possuíam esses edifícios. Na freguesia de Briarfield, onde se passa esta história, ficava a Manufatura Hollow, que era considerada por eles o lugar mais abominável do mundo. Mr. Robert Gérard Moore, na dupla qualidade de semiestrangeiro e de ardente progressista, era o mais execrado. E, talvez, o seu temperamento dava-se melhor com esse ódio do que com qualquer outro sentimento, principalmente quando ele acreditava justo e necessário aquilo que o fazia odiado.
Foi com um sentimento de excitação bélica que, nesta noite, sentara-se em frente ao fogo esperando a chegada das carroças que traziam seus novos teares. Por conseguinte, a chegada e a companhia de Mr. Malone não podiam deixar de ser, para ele, desagradáveis. Teria preferido ficar sozinho, porque gostava da solidão silenciosa e perigosa. A arma de seu vigia teria sido companhia suficiente para ele: o ruído contínuo do ribeiro teria sido uma voz mais agradável aos seus ouvidos.
Havia dez minutos que o industrial, com um olhar estranho, observava o vigário irlandês que se servia de ponche sem cerimônia, quando, de repente, a expressão de seus olhos cinzentos mudou, como se outra visão se tivesse erguido entre ele e Mr. Malone. Mr. Moore levantou a mão.
– Silêncio – disse ele, pois Mr. Malone fazia um barulho com o copo. Ele escutou por um momento, levantou-se, colocou o chapéu e saiu.
A noite estava calma e sombria. Naquela estagnação, o riacho parecia uma torrente que inundaria tudo. O ouvido de Mr. Moore, no entanto, distinguiu outro som muito distante, mas que não se podia confundir com o primeiro, um ruído de pesadas rodas sobre um caminho pedregoso. Ele voltou ao escritório e acendeu uma lanterna, com a qual atravessou o pátio da fábrica e tratou de abrir os portões. As pesadas carroças aproximavam-se, ouviam-se os cascos dos cavalos chapinar na lama e na água. Mr. Moore chamou:
– Ei! Joe Scott! Está tudo bem?
Provavelmente Joe Scott ainda estava numa distância muito grande para poder ouvir, pois ele não respondeu.
– Está tudo bem? – perguntou novamente Mr. Moore, quando as ventas dilatadas do primeiro cavalo quase se chocaram com seu rosto.
Alguém pulou da carroça para a estrada, gritando: – Sim, sim! Está tudo bem! Esmagamos tudo.
Houve uma corrida. As carroças pararam. Não havia ninguém dentro.
– Murgatroyd! Pighills! Sykes, Joe! – Nenhuma resposta. Nenhum Joe Scott também respondeu.
Mr. Moore levantou a lanterna e olhou para dentro. Não havia nem homem nem máquinas. Elas estavam vazias e abandonadas. Mr. Moore amava seu maquinário, pois tinha arriscado seu último capital na compra dos teares que esperava naquela noite. Especulação da maior importância para os seus interesses dependia dos resultados que produzissem os novos utensílios. Onde eles estavam agora?
As palavras “nós esmagamos tudo” ressoavam em seus ouvidos. À luz da lanterna poder-se-ia ver que a catástrofe o afetara. Um estranho sorriso pairava em seu rosto: o riso de um homem determinado, chegado a um momento da vida no qual tem que fazer um apelo a toda a sua força; quando a luta é inevitável, a energia tem que triunfar ou aniquilar-se de vez. No entanto, ele permaneceu imóvel, pois naquele instante, ele não sabia o que dizer nem o que fazer. Pousou a lanterna no chão e cruzou os braços, olhando fixamente para o chão e refletindo.
Um movimento impaciente de um dos cavalos não tardou a fazê-lo erguer os olhos e distinguir um objeto branco anexado aos arreios. Aproximou a lanterna e viu que era um papel dobrado, um bilhete. Ele não tinha qualquer endereço, mas dentro continha este recado:
“Que o demônio confunda a Manufatura Hollow.” E, seguindo, estas linhas peculiares: “As suas máquinas infernais estão em cacos no pântano de Stilbro; os seus homens estão deitados, com pés e mãos amarrados, numa vala à beira da estrada. Tome isso como um aviso da parte dos homens que estão passando fome e vão encontrar em casa mulheres e filhos esfomeados como eles. Se mandar vir outras máquinas, terá notícias nossas novamente. Cuidado!”
– Ainda terei notícias de vocês? Sim, eu as terei novamente e vocês ouvirão falar de mim. Falarei com vocês diretamente no pântano de Stilbro! Não tardarei a dizer-lhes qualquer coisa.
Depois de ter levado as carroças para dentro dos portões, apressou-se em direção a casa. Abrindo a porta, dirigiu rapidamente, mas com calma, algumas palavras às duas mulheres que correram para encontrá-lo na passagem. Ele acalmou a visível inquietação de uma delas, contando-lhe de uma maneira atenuada o que tinha acontecido. Para a outra, ele disse: – Vá ao moinho, Sarah. Aqui está a chave. Toque o sino tão alto quanto você puder. Em seguida, procure a outra lanterna e ajude-me a iluminar a fachada.
Retornando aos seus cavalos, retirou os arreios e deu-lhes de comer, parando de vez em quando como se para ouvir o ruído do sino. Soou o toque de alarme, forte e irregular. O repique, apressado e agitado, parecia mais urgente do que se a convocação tivesse sido dada pessoalmente. Na noite calma, àquela hora avançada, ouvia-se longe, numa larga circunferência. Os clientes sentados na cozinha da Casa Vermelha foram surpreendidos pelo clamor de que algo extraordinário estava se passando na Manufatura Hollow. Pegaram apressadamente as lanternas e se dirigiram todos para lá. Mal tinham se aglomerado no pátio da fábrica, quando se ouviu o trote de um cavalo e um homenzinho com um chapéu de abas largas, sentado ereto na parte de trás de um pônei desgrenhado, entrando, seguido por um ajudante de campo montado em um corcel maior do que sua estatura.
Mr. Moore, entretanto, tinha selado seu cavalo e, com a ajuda de Sarah, a criada, tinha iluminado seu moinho, cuja vasta fachada espalhava sobre o pátio claridade suficiente para evitar qualquer risco de confusão. Já se ouvia um zumbido profundo de vozes.
Mr. Malone, por fim, saíra do escritório, depois de ter tomado a precaução de mergulhar o rosto em água, o que ocorreu justamente no momento do súbito toque do alarme, que quase lhe restituíra o uso dos sentidos que o ponche tinha entorpecido.
Mr. Moore encontrava-se frente a frente com o senhor de chapéu de abas largas e o pônei.
– Então, Moore, para que nos quer? Quando ouvi o sino, não pude ficar quieto e deixei Boultby acabar de cear sozinho. Mas onde está o inimigo? Já houve um ataque ou espera por um? – perguntou o reverendo Mr. Helstone.
– Oh! Nem uma coisa nem outra, espero – respondeu friamente Mr. Moore. – Mandei tocar o sino porque preciso de dois ou três vizinhos para ficar aqui em Hollow enquanto eu e os outros, dois ou três, iremos ao pântano de Stilbro.
– Ao pântano de Stilbro? Para quê? Para ir ao encontro das carroças?
– As carroças chegaram vazias e Joe Scott e os outros foram atirados ao pântano, assim como os teares. Tome, leia – Mr. Moore entregou o papel a Mr. Helstone.
Mr. Helstone pegou o papel e percorreu os olhos.
– Hum! Trataram-no exatamente com têm tratado os outros. Mas estes pobres diabos que estão no fosso devem estar esperando o socorro com impaciência! Tom e eu iremos com você. Malone deve ficar aqui e tomar conta da fábrica. Mas, o que tem ele? Parece que seus olhos estão esbugalhados.
– Comeu uma costeleta de carneiro.
– Ah, sim! – murmurou Mr. Helstone, impaciente. – Pedro Augusto, tenha cuidado! Não coma mais costeletas esta noite. A fábrica está sob sua guarda. É um posto honroso – disse Mr. Helstone.
– Ficará alguém comigo?
– Escolha entre os presentes. Meus rapazes, quem quer ficar aqui e quem quer ir comigo e o Moore ao pântano de Stilbro? Vamos procurar alguns homens que foram surpreendidos e atacados pelos destruidores de teares.
Só três se ofereceram para ir. O restante preferiu ficar. Enquanto Mr. Moore montava, o reverendo perguntou-lhe em voz baixa se ele tinha guardado as costeletas de maneira que Pedro Augusto não pudesse comê-las. O industrial fez um sinal afirmativo e o grupo se pôs a caminho.
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