Shirley
Capítulo VII
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O Chá dos Vigários
Miss Caroline Helstone tinha apenas dezoito anos e nesta idade a vida real está apenas começando. Antes desse tempo, vive-se na fantasia, numa maravilhosa ficção, às vezes encantadora, noutras triste, porém, quase sempre irreal. Antes dessa idade o mundo é heroico, seus habitantes são semideuses ou semidemônios e as paisagens são sonhos. Bosques mais sombrios, colinas mais estranhas, céus brilhantes, águas mais perigosas, flores e frutas mais doces e tentadoras; planícies mais vastas, desertos mais áridos, campos mais ensolarados do que os que se encontram na natureza embelezam o mundo encantado. Que lua se vê nesse tempo! Como o tremor dos corações à vista dela se revela! Que indescritível beleza! Quanto ao sol, é um ardente céu, a morada da divindade.
Naquela época, aos dezoito anos, Miss Caroline aproximava-se do limite das ilusões. A terra dos sonhos ficava para trás e os contornos da realidade divisavam-se no horizonte. Contudo, estas praias estavam ainda distantes, havia ainda muito tempo para alcançá-las. Elas lhe pareciam tão azuis, suaves e gentis.
Aos dezoito anos, ela acreditava na esperança que lhe sorria e lhe prometia felicidade; acreditava no amor que vinha vagando como um anjo exilado, esvoaçando à sua porta, que era ao mesmo tempo admitido, festejado e acarinhado. Sua aljava não era vista; suas flechas não penetravam, consequentemente, não havia ferida. Era apenas uma nova emoção em sua nova vida. Não havia veneno, nenhuma farpa que sua mão não pudesse extrair. Apenas a paixão, uma perigosa agonia que ela acreditava ser um bem incondicional.
Miss Helstone, depois de deixada em sua casa por Mr. Moore, não tinha vontade de passar o que restava da noite junto do tio. O quarto em que ele estava era sagrado para ela. Raramente entrava nele e, nessa noite, manteve-se distante até que o sino tocasse para as orações (forma de adoração observada na casa de Mr. Helstone), em que se ouvia a voz habitual da jovem: alta, clara, nasal e monótona. Como era seu costume, só depois se aproximou do tio.
– Boa noite, tio.
– Ei! Você foi foliar durante todo o dia, passou em visita e jantou fora, não é?
– Estive somente na casa de campo.
– E aprendeu suas lições?
– Sim.
– Fez uma camisa?
– Somente parte de uma.
– Está bem. Atenha-se à agulha, aprenda a fazer camisas, vestidos, a cozinhar e será um dia uma mulher notável. Agora vá para a cama. Estou ocupado com um livro.
Miss Helstone obedeceu e trancou-se em seu pequeno quarto. Vestiu seu roupão branco, soltou seus longos, espessos e sedosos cabelos que lhe caíam até a cintura como uma cascata ondulada e, como se quisesse descansar da tarefa de penteá-los, apoiou sua cabeça na mão e fixou os olhos no tapete.
Seus pensamentos falaram-lhe agradavelmente, pois ela sorria enquanto os ouvia. Estava linda, mais brilhante do que era; de fato, seu espírito juvenil resplandecia de esperança e sonhos. Se acreditasse para sempre naquele profeta lisonjeiro, em suas promessas, nunca conheceria a decepção, nunca sentiria o calafrio do desapontamento. Estava entrando no amanhecer de um dia de verão, não uma falsa aurora, mas o verdadeiro começo de uma manhã no qual o sol estava prestes a erguer-se. Era impossível para ela suspeitar que fosse um esporte da ilusão, suas expectativas pareciam-lhe firmes, pois o alicerce sobre o qual repousavam parecia-lhe sólido
“Quando duas pessoas se amam, a primeira coisa a se fazer é se casarem”, esse era o seu raciocínio. “Pois bem, eu amo o Robert e tenho certeza de que Robert me ama. Há muito que o penso, mas hoje o sinto. Tive certeza quando olhei para ele depois de repetir o poema de Chénier. Seus olhos (que olhos lindos ele tem!) enviaram-me a verdade para o meu coração. Às vezes, tenho medo de falar com ele, pois não devo ser muito franca para não parecer vulgar, para não me arrepender amargamente de ter transbordado de palavras supérfluas. Temi que tivesse dito mais do que ele esperava que eu dissesse, tive receio de que me desaprovasse e que me considerasse indiscreta. Mas, nesta noite, eu me aventurei a expressar meus pensamentos e ele foi tão indulgente para comigo, até enquanto caminhávamos. Ele não me bajulou e nem me disse coisas insanas, também não falou de amor (eu quero dizer, ele falou apenas de amizade. É claro que eu também não lhe contei do meu amor, mas espero dizê-lo algum dia). O amor não é como o que lemos nos livros: é muito melhor, mais original, tranquilo, viril e sincero. Ah, como eu gosto dele! Serei uma excelente esposa para ele se ele se casar comigo. Eu lhe direi os seus defeitos (porque ele tem algumas falhas), mas eu iria cuidar do seu conforto, fazer o meu melhor para fazê-lo feliz. Agora, eu tenho certeza de que ele não vai ter aquele ar frio para comigo. Tenho quase certeza de que virá aqui amanhã e me pedirá para ir lá.”
Ela começou a pentear os cabelos longos como os de uma sereia. Voltando à cabeça, ao arranjá-los, viu seu próprio rosto no espelho. Se uma jovem a quem não coube o dom da beleza não sente prazer em ver sua imagem, o mesmo não se dá com a que é fascinante. Para essa última, o reflexo era encantador. Miss Helstone viu uma silhueta que, se fosse pintada naquele instante, naquela atitude e com aquela expressão, teria sido arrebatadora. Ela não podia deixar de confirmar suas esperanças. Foi, então, com redobrada alegria que se jogou na cama.
E alegre ela se levantou no dia seguinte. Quando ela entrou na sala de jantar e encontrou seu tio, desejou-lhe um bom-dia com um modo tão doce e tão alegre que até mesmo o homenzinho de bronze pensou, por um instante, que sua sobrinha estava crescendo “uma menina encantadora”. Geralmente, ela era quieta, tímida e pouco comunicativa com ele, apesar de muito dócil. Contudo, nessa manhã, ela encontrou muitas coisas para dizer. Somente temas leves poderiam ser discutidos entre eles, pois uma mulher, isto é, uma garota Helstone, não tocaria em nenhum outro assunto. Ela, no entanto, havia acordado muito cedo e dado um passeio no jardim. Dessa forma, ela disse-lhe quais as flores que estavam começando a se abrir, perguntou quando o jardineiro viria para aparar as bordas de algumas arvorezinhas e informou que certos estorninhos estavam começando a construir seus ninhos na torre da igreja (a igreja de Briarfield ficava ao lado do presbitério), admirou-se que o repicar dos sinos não os assustasse e perguntou se o tio sabia por quê.
Mr. Helstone opinou que “eles se pareciam com os idiotas estouvados que tinham acabado de se casar e que, nos primeiros dias, entregues ao amor, nenhuma inconveniência e ninguém conseguia perturbá-los”. Miss Helstone ousou fazer uma observação que, até então, nunca se atrevera, pois requereria dela um pouco mais de coragem para contrariar o seu parente reverenciado.
– Querido tio – disse ela – quando fala em casamento, é sempre com desprezo. O senhor acha que as pessoas não deveriam se casar?
– É decididamente mais sábio e prudente permanecer solteiro, principalmente para as mulheres.
– Todos têm casamentos infelizes?
– Milhões de casamentos seriam infelizes se todo mundo confessasse a verdade. Aliás, talvez, todos sejam mesmo infelizes.
– O senhor fica sempre irritado e aborrecido quando vêm procurá-lo para celebrar um casamento. Por quê?
– Porque não gosto de colaborar e agir como acessório para um ato de loucura.
Mr. Helstone falava tão prontamente que parecia bastante feliz com a oportunidade de dar a conhecer à sua sobrinha o seu parecer sobre aquele assunto. Encorajada pela impunidade das primeiras perguntas, aventurou-se um pouco mais.
– Mas, por que o casamento é um “ato de pura loucura” como o senhor diz? Se duas pessoas se amam, por que não deveriam ter o consentimento para viverem juntas?
– Elas se cansam uma da outra ao fim de um mês. Um companheiro de trabalho não é um companheiro. Torna-se um sujeito em sofrimento e até mesmo doente.
– Quem o ouve falar dessa forma poderia pensar que o tio nunca foi casado, mas que é um velho celibatário – não foi uma simplicidade ingênua que inspirou o comentário de Miss Helstone, mas um profundo sentimento de antipatia por tais opiniões e de desagrado para com quem as professava.
– Realmente é o que sou.
– Mas o tio foi casado. Por que foi também inconsistente casando-se?
– Todo homem é um louco uma ou duas vezes na vida.
– Então tanto a minha tia como o tio se aborreceram um com o outro e foram ambos infelizes?
Mr. Helstone estendeu o seu lábio cínico, franziu a testa e proferiu um grunhido inarticulado.
– Caroline – disse ele, baixando lentamente as duas mãos sobre a mesa de mogno e, de repente, batendo-as com força. – Entenda isso. É vulgar e pueril confundir o geral com o particular. Em todo caso existe a regra e as exceções. Suas perguntas são estúpidas e infantis. Toque a campainha se já acabou o seu desjejum.
O café da manhã foi tirado. Era o costume geral do tio e da sobrinha se separarem e não se reunirem novamente até a hora do jantar, mas, naquele dia, a sobrinha, em vez de sair da sala, foi até uma poltrona próxima à janela e sentou-se ali. Mr. Helstone olhou em volta, inquieto, uma ou duas vezes, como se quisesse que ela saísse, mas Miss Helstone estava olhando pela janela e não parecia se importar com ele. Assim, ele continuou sua leitura e pouco sabia quais eram os pensamentos que ocupavam a mente de sua sobrinha.
A conversa de meia hora atrás tinha reavivado suas lembranças; agora, tumultuadas pela opinião do tio, eram como abelhas ao redor de uma colmeia. Miss Helstone analisava o caráter do reverendo, a sua disposição de espírito, os seus sentimentos a respeito do casamento. Muitas vezes os tinha analisado antes e sondara o abismo entre a sua própria mente e a dele. Então via, do outro lado do abismo largo e profundo, outra figura de pé ao lado dele: uma forma estranha, sinistra, sombria que não parecia terrestre, a vaga imagem do seu próprio pai, James Helstone, irmão de Matthewson Helstone.
Alguns rumores tinham chegado aos seus ouvidos a respeito do caráter do seu pai. Ouvira as murmurações dos velhos criados, ela sabia também que ele não fora um homem bondoso e que nunca tinha sido afetuoso para com ela. Ela recordou – triste lembrança! – das poucas semanas que tinha passado com ele em uma grande cidade em algum lugar. Lá não havia empregada para vesti-la ou tomar conta dela; ninguém para visitá-la quando o pai a trancava dia e noite em algum sótão alto, frio, sem nenhum tapete, com uma cama nua, sem cortinas, móveis ou qualquer outra coisa. Ele saía cedo todas as manhãs e, muitas vezes, esquecia-se de voltar para dar-lhe o almoço. À noite, quando ele voltava, parecia um louco, furioso, terrível ou, o que era mais doloroso, um idiota, imbecil e embrutecido. Ela sabia que tinha caído doente naquele lugar, e que, numa noite, quando ela estava muito mal, delirando na sala, ele disse que iria matá-la, pois ela era um fardo para ele. Seus gritos lhe trouxeram ajuda. A partir do momento que ela foi resgatada de suas mãos, nunca mais o tinha visto, a não ser morto, no caixão.
Eis quem fora seu pai. Além disso, ela também tinha uma mãe, embora seu tio nunca falasse nela; apesar de ela não se lembrar de tê-la visto, sabia, contudo, que ela existia e estava viva em algum lugar. Esta mãe fora esposa de um bêbado. Como teria sido aquele casamento?
Miss Helstone, voltando-se da janela onde estivera a observar os estorninhos (embora sem vê-los), rompeu o silêncio com uma voz baixa, porém triste e amarga.
– O senhor acha o casamento miserável; eu suponho que é pelo que sabe e viu dos meus pais. Se a minha mãe sofreu o que eu sofri quando eu estive com o papai, ela deve ter tido uma vida terrível.
Mr. Helstone, incrédulo, voltou-se da sua cadeira e olhou por cima dos óculos para sua sobrinha. Pego de surpresa, ele estava pasmado.
“Seu pai e sua mãe! Quem lhe teria falado deles? Tem doze anos que ela mora em minha companhia e ninguém lhe dissera uma só palavra a esse respeito”. Ele não podia imaginar que sua sobrinha tivesse amadurecido a ponto de ter qualquer lembrança ou mesmo fazer especulações sobre seus pais. Aquilo só podia ser fantasia.
– Quem lhe falou de seu pai e de sua mãe, Caroline? Quem tem falado com você sobre eles? – ele estava nervoso.
– Ninguém. Mas lembro-me de como era meu pai e tenho pena da minha mãe. Onde ela está?
Estas três palavras “onde ela está?” tinham estado centenas de vezes nos lábios da mocinha, mas nunca se atrevera a pronunciá-las.
– Não sei – respondeu Mr. Helstone. – Não a conhecia direito e há muitos anos que não tenho notícias dela, mas onde quer que ela esteja, não pensa na filha. Nunca perguntou de você e tenho razões para acreditar que ela não quer vê-la. Vá, já são dez horas e está na hora da lição com sua prima. Ande, eu já disse, o relógio já bateu dez horas.
Talvez ela fosse dizer mais alguma coisa, mas Fanny foi informá-lo que alguém queria falar com ele na sacristia da igreja. Ele apressou-se a se juntar a ela, e Miss Helstone partiu para sua aula.
A estrada que ligava o presbitério à fábrica de Hollow era um declive. Ela, portanto, correu quase todo o caminho. O exercício, o ar fresco, a ideia de ver o primo, pelo menos de estar nas suas instalações, na sua proximidade, reviveram seu espírito abatido. Quando avistou a casa branca e ouviu o ruído do moinho, a primeira pessoa que viu foi Mr. Moore, em pé, à porta do jardim. Lá estava ele, com uma camisa holandesa e de chapéu. Ele estava olhando para o lado oposto de onde ela vinha. Ela parou, escondeu-se atrás de um salgueiro e estudou-lhe a atitude.
“Não há outro como ele”, pensou. “Ele é tão bonito como é inteligente. Que olhar perspicaz! Que nitidez, que vivacidade nos seus traços! Gosto do seu rosto, gosto do seu aspecto, do seu ar espirituoso, fino e sério. Gosto da sua graciosidade! Gosto tanto dele! Muito mais do que de qualquer um desses marotos vigários, por exemplo. Mais do que de qualquer pessoa! Encantador Robert.”
Miss Helstone encaminhou-se para junto de seu “encantador Robert” rapidamente. Por sua vez, enquanto ela se aproximava, ele teria passado diante de seus olhos como um fantasma, se pudesse. Contudo, não podia se furtar a cumprimentar a prima e foi obrigado a suportar a saudação. Ele a fez breve. A maneira como Mr. Moore correspondeu a saudação dela foi como a de um primo, de um irmão, de um amigo ou qualquer outra coisa, menos como namorado. O encanto indizível das suas maneiras da véspera tinha desaparecido, ele já não era o mesmo homem ou não lhe batia no peito o mesmo coração. Cruel desilusão! Rude decepção! Cruz afiada! A ardente moça não podia acreditar naquela mudança, embora ela visse e sentisse. Foi difícil retirar sua mão da dele e era-lhe penoso desviar o olhar. Contudo, aquele olhar era frio, não havia afeição, apenas um gelado acolhimento que congelou sua alma.
Um namorado assim recebido podia pedir uma explicação e até mesmo exortar sua namorada, mas uma moça não podia dizer nada; se o fizesse, o resultado seria vergonha, angústia, remorso e autotraição. A natureza reprovaria tal manifestação como uma revolta contra seus instintos.
Guardar a mágoa, não fazer perguntas e não proferir protesto eram para Miss Helstone a melhor saída, até uma demonstração de sabedoria. Ela esperava o pão e recebera uma pedra, estendera a mão para pegar um ovo e o destino colocara nela um escorpião. A vida a ensinara a não demonstrar consternação, mas fechar os dedos, firmemente sobre tal presente, mesmo que este picasse a palma de sua mão. Resoluta, ela pensou: “Com o tempo, a mão e o braço inchados, trêmulos, toda essa tortura passará e o escorpião espremido também morrerá. Terei aprendido uma grande lição, a de como suportar a dor sem um soluço. Sobreviverei ao teste e serei mais forte, mais sábia e menos sensível.”
Disso ela estava ciente e para isso pediu coragem e esperança. A natureza, no entanto, como já foi insinuado, é uma excelente amiga em tais casos. Ela sela os lábios sofridos, interdita a expressão, comanda a plácida dissimulação, muitas vezes usando para isso um semblante alegre, até mesmo estabelecendo, no lugar da tristeza e da palidez, um estoicismo conveniente, menos fortificante e amargo. A amargura é a força, é um tônico. O vigor doce e suave, seguindo pelo sofrimento agudo, você encontra na ilusão. Se a energia permanecer, será, sim, uma perigosa energia mortal quando confrontada com a injustiça.
Quem leu a balada da “Pobre Mary Lee”[8], essa velha balada escocesa, escrita não se sabe onde ou por quem, na qual Mary foi enganada, provavelmente levada a crer numa mentira? Contudo, ela não se queixa, sentada sozinha numa tempestade de neve, ouvem-se seus pensamentos. Não são os pensamentos de uma heroína, mas são os sentimentos profundos, fortemente ressentidos, de uma menina do campo. A angústia a fez partir para os montes brancos e gelados e, agachada, ela recorda cada imagem do seu horror.
Mas qual relação tem tudo isso com os sentimentos de Miss Helstone ou com o estado das coisas entre ela e Mr. Moore? Ele não a tinha enganado, não tinha feito nada de errado com ela, não tinha dito nenhuma mentira, ela era a culpada. Ela que tinha amado sem que o seu amor lhe fosse pedido, acontecimento muito natural e, algumas vezes, inevitável, mas repleto de desilusões.
Mr. Moore, de fato, algumas vezes, parecera que estava apaixonado por ela, mas por quê? Talvez, devido ao fato dela ser tão agradável, ele não pôde, apesar de todos os esforços, dominar sentimentos que a sua razão reprovava. Ele estava prestes a retirar, definitivamente, toda a comunicação íntima com ela por temer que o seu coração se comprometesse numa afeição inextricável, ou se ver arrastado para um casamento que ele acreditava imprudente.
Agora, o que ela deverá fazer? Deixar-se vencer pela paixão ou vencê-la? Persegui-lo com o seu amor ou dominar-se? Se for fraca, vai tentar o primeiro expediente com o risco de perder a estima de Robert Moore e incorrer na sua aversão; se for forte, imporá silêncio ao seu coração e subjugará suas emoções.
Ela é quem determinará a forma como olhará a sua vida a partir desse momento. Começará a aprender suas verdades, estudará seus problemas conscientemente.
Parecia que ela tinha um pouco de senso, pois se afastou de Mr. Moore calmamente, sem se queixar, sem alterar um músculo sequer da face ou derramar uma lágrima, e dirigiu-se para a casa e seus estudos sob orientação de Miss Hortense. Como de costume, ficou até a hora da refeição e foi para casa sem forçar sua presença.
Depois do almoço, quando se encontrou sozinha na sua casa – na salinha do presbitério, enquanto o tio saboreava sua taça de vinho do Porto – a dificuldade que lhe ocorreu, além de uma vergonha que lhe consumia a alma, foi a questão de como passaria o restante daquele dia.
Tinha esperado fazer o mesmo que fizera na véspera, que a tarde seria novamente passada feliz ao lado de seu primo. Naquela manhã, contudo, reconhecera seu erro e, ainda assim, ela não podia habituar-se à ideia de que nenhum acaso a chamaria à cottage de Hollow ou traria Robert Moore novamente para junto dela.
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O tempo passava lentamente. Às vezes acontecia de Mr. Moore visitar o presbitério depois do chá e passar uma hora ou mais com seu tio. A campainha tocava, ouvia-se sua voz no corredor, ao crepúsculo, quando ela estava longe de esperar semelhante prazer; tinha acontecido isso duas vezes depois que ele a tinha tratado com aquela reserva peculiar e, embora ele raramente falasse com ela na presença do tio, sentado em frente à mesa na qual ela trabalhava, teve constantemente os olhos fixos nela durante sua permanência. As poucas palavras que ele havia lhe dirigido foram reconfortantes; deu-lhe um boa-noite de uma maneira afetuosa. “Quem sabe ele venha nesta noite!”, dizia a falsa esperança. Ela sabia que era a falsa esperança quem lhe sussurrava e ainda assim a escutava.
Neste tempo, ela tentou ler, mas seus pensamentos vagavam ansiosos. Tentou costurar, mas cada ponto era um aborrecimento tedioso, era-lhe insuportável qualquer ocupação. Abriu uma escrivaninha e tentou escrever uma composição francesa, mas nada lhe vinha à mente de construtivo.
De repente, a campainha da porta tocou fortemente, seu coração saltou, ela correu para a porta da sala, abriu-a suavemente e olhou pela abertura. Fanny estava admitindo um visitante, um cavalheiro, um homem alto, da mesma altura de Mr. Moore. Por um segundo, ela pensou que fosse ele e estremeceu de prazer, mas a voz que perguntou por Mr. Helstone a desiludiu. Aquela voz era uma voz irlandesa, consequentemente, não a de Robert Moore, mas do vigário Mr. Malone.
Ele foi levado à sala de jantar, onde, sem dúvida, rapidamente ajudaria o reitor a esvaziar os decantadores.
Era um fato conhecido que, em qualquer casa que chegasse um vigário, fosse no lugarejo de Briarfield, Whinbury ou Nunnely, na hora das refeições ou do chá, era imediatamente seguido por um segundo e um terceiro vigário. Não que eles tivessem marcado um encontro, mas geralmente andavam pelas mesmas bandas ao mesmo tempo. Quando Mr. Donne, por exemplo, ia à casa de Mr. Malone e não o encontrava, informava de seu destino e apressava-se a toda velocidade atrás dele. O mesmo se dava com Mr. Sweeting. Assim, por acaso, naquela tarde, os ouvidos de Miss Helstone foram torturados três vezes com o toque da campainha.
Fanny trouxe-lhes mais vinho da adega e, através da porta fechada, Miss Helstone ouviu as gargalhadas francas e o ruído discordante das vozes. Seu medo era que eles ficassem para o chá, pois ela não tinha prazer nenhum em servir aquele trio singular. Aqueles três homens eram jovens como Mr. Moore, tinham recebido praticamente a mesma educação e, ainda assim, existia entre eles uma diferença enorme na opinião da moça: a presença dos vigários a aborrecia e a de Robert Moore era-lhe encantadora.
Não só ela estava destinada a ser favorecida com a presença clerical, mas o destino lhe trazia mais quatro outras convidadas, embaladas em tecidos que se arrastavam pesadamente pela estrada de Whinbury: uma matrona e suas três filhas vieram lhe fazer uma visita “amigável”, como era o costume da vizinhança. Sim, pela quarta vez a campainha soou naquele dia. Fanny veio anunciá-las: – Mrs. Sykes e as três misses Sykes.
Quando Miss Helstone recebia, era seu hábito torcer nervosamente as mãos, corar um pouco e avançar precipitadamente ao encontro das pessoas. Ela era hesitante em tais ocasiões e deficiente na forma de receber, embora tivesse estado uma vez na escola, por um ano, e tomado lições a respeito do tema. Assim sendo, neste dia, suas pequenas mãozinhas brancas foram maltratadas, enquanto ela, de pé, esperava a entrada de Mrs. Sykes.
A dama, alta, de tez biliosa, que demonstrava sincera devoção pelo clero, fez sua entrada majestosa. Atrás dela vinham as três filhas, sendo todas as três vistosas, bem-crescidas e mais ou menos bonitas.
As senhoras inglesas nessa época, jovens ou velhas, bonitas ou feias, tristes ou alegres, todas (ou quase todas) tinham certa expressão estampada em suas faces que parecia dizer: “Bem sei e não me vanglorio disso, mas sou o modelo de respeitabilidade, do que é bom e correto. Portanto, somente me aproximo ou se aproximam de mim, aquelas ou aqueles que se mantêm em afiada vigilância para com seus princípios, valores, opiniões, vestidos e práticas.”
A senhora e as filhas estavam muito longe de serem exceções a esta regra, muito pelo contrário, eram uma ostentosa ilustração dessa verdade. Miss Mary, jovenzinha de aparência bastante agradável, usava a boa opinião que tinham a seu respeito com dignidade, embora com aspereza. Já Miss Harriet, que era muito bela, usava a sua beleza com orgulho. Parecia altiva e fria. Miss Hannah, que era a mais vaidosa, convencida e descarada, exibia-se com franqueza. Quanto à mãe, evidenciava a gravidade apropriada à sua idade e fama de religiosa.
Miss Caroline, mesmo na sua deficiência em receber, confessou-se encantada por vê-las (uma mentira absoluta); disse que esperava que Mrs. Sykes estivesse melhor da tosse (havia vinte anos que Mrs. Sykes sofria do mal) e que esperava que as demais misses Sykes que tinham ficado em casa estivessem bem de saúde – ao que as misses Sykes, sentadas em três cadeiras em frente ao piano, responderam com uma reverência majestosa e imponente. Seguiu-se um silêncio obtuso e Mrs. Sykes então perguntou por Mr. Helstone; se ele havia tido novos acessos de reumatismo; se não se fatigava em pregar duas vezes em um só domingo; se ele era ainda capaz de dar conta de todo o serviço da paróquia; sendo assegurado que sim pela sobrinha, ela e todas as suas filhas, em coro, expressaram que ele era “um homem maravilhoso, o mais extraordinário da sua idade.”
Segunda pausa.
Miss Mary, tomando por sua vez a palavra, perguntou se Miss Caroline tinha assistido à reunião da Sociedade Bíblica que tinha sido realizada em Nunnely na última quinta-feira. A verdade obrigou Miss Caroline a responder negativamente, pois, na última quinta-feira, ela tinha ficado em casa lendo um romance que Robert lhe emprestara. Essa resposta provocou uma expressão simultânea de surpresa por parte das quatro senhoras.
– Estávamos todos lá – disse Miss Mary. – Mamma e todas nós. Nós até convencemos papai a ir. Hannah insistiu nisso, mas ele adormeceu enquanto Mr. Langweilig, o ministro alemão, estava falando. Senti-me muito envergonhada.
– Estava lá também o doutor Broadbent, falante e bonito – disse Miss Hannah, bem alto, como se gritasse para que todos a ouvissem.
– Você não poderia esperar isso dele, Hannah, pois ele é quase um homem de aparência vulgar – disse Miss Harriet.
– Mas um homem tão querido – interrompeu Miss Mary.
– E um homem bom e útil – acrescentou a mãe.
– Mas como um açougueiro na aparência – interpôs Miss Harriet, orgulhosa – eu não podia suportar olhar para ele. Ouvi-o com os olhos fechados.
A jovem Miss Helstone sentia a sua ignorância e incompetência. Não tendo visto o doutor Broadbent, ela não poderia dar sua opinião. Terceira pausa, durante a qual Miss Caroline reconheceu que no fundo do seu coração ela era uma idiota sonhadora, que levava uma vida impraticável e como era pouco apta às relações normais desse mundo ordinário. Ela reconheceu que não procedera bem em ter se ligado exclusivamente à casinha branca de Hollow e de ter limitado todo o seu universo à existência de um dos habitantes daquela cottage. Não poderia ser dito que ela desejava se assemelhar àquelas senhoras diante dela, mas ela desejava tornar-se superior ao seu estado atual, de modo a sentir-se com menos receio por sua dignidade.
O único meio que ela encontrou para reatar a conversa foi convidando a senhora e suas filhas para o chá. Mrs. Sykes já tinha começado a dizer: “Estamos muito gratas a você, mas...”, quando Fanny chegou com o recado de que os cavalheiros também ficariam para o chá.
– Que cavalheiros são esses? – perguntou Mrs. Sykes. Depois de ouvir a resposta, ela e suas filhas se entreolharam surpresas. A opinião que elas tinham dos jovens vigários não era a mesma de Miss Caroline. Mr. Sweeting era o favorito delas, assim como Mr. Malone, porque ele pertencia ao clero.
– Muito bem. Visto que já tem companhia, acho que ficaremos – comentou Mrs. Sykes. – Formaremos um grupo muito agradável!
Miss Helstone não teve outra saída senão conduzir as senhoras ao andar de cima e ajudá-las a desvencilharem-se dos xales, arranjarem os cabelos e porem-se bonitas, e depois reconduzi-las à sala de visitas, mostrar-lhes alguns livros de gravuras ou objetos comprados da Corbelha dos Judeus até que Fanny preparasse o chá para tantas visitas inesperadas.
Miss Helstone, cumprindo com o seu dever de dona de casa, com mais aborrecimento do que prazer, foi à cozinha para consultar Fanny e Eliza sobre o chá.
– O que vamos fazer? – inquiriu Eliza, a cozinheira. – Eu não fiz pão suficiente. Jamais pensei que teríamos tantas visitas! – exclamou ela, aborrecida.
– Temos algum bolo? – perguntou Miss Caroline.
– Apenas três bolos e um pão. Quem me dera que essa gente metida ficasse em suas casas e só viesse aqui se fosse convidada. Eu que queria terminar meu chapéu! – reclamou Eliza, rabugenta.
– Então – sugeriu Miss Caroline, a quem a emergência dava certa energia – Fanny, corra à venda de Briarfield e compre alguns bolos e biscoitos; e não seja resmungona, Eliza. Isso não vai ajudar agora.
– E qual o serviço de chá que vamos usar? – perguntou Eliza.
– Ah, o melhor, eu suponho. Vou buscar o serviço de prata – a moça correu ao armário e trouxe a baixela, o bule, a manteigueira e o açucareiro.
– Agora arranje tudo o mais rápido possível, pois quanto mais cedo o chá for servido, mais depressa irão embora. Assim espero, pelo menos. Pobre de mim! – suspirou Miss Caroline, retornando à sala de visitas.
“Se ao menos Robert estivesse aqui!”, pensou, parando um instante à porta antes de abri-la, “seria fácil a tarefa de divertir essas pessoas! Haveria um interesse em ouvi-lo falar (embora ele nunca dissesse muito) e em falar na presença dele. Não tenho nenhum interesse em ouvir qualquer um desses que estão aqui ou em falar com eles. Esses vigários são uns tolos e egoístas. Elas, sem dúvida, são pessoas finas e respeitáveis. Não digo que não são boas, longe disso, mas são tão diferentes de mim.”
Os habitantes de Yorkshire, nesse tempo, tomavam o chá todos sentados em volta da mesa, o mais próximo possível dela, com os joelhos devidamente introduzidos sob o tampo de madeira. Era essencial ter uma infinidade de pães, manteiga, vários tipos de bolos, em quantidade abundante, torradas e outras iguarias. Era conveniente que o centro da mesa fosse ocupado por uma compoteira cheia de marmelada ou geleia. Além das carnes, devia haver variedade de queijos e tortas. Se houvesse também um prato de fatias de presunto, cortadas fininhas, guarnecidas de salsa, tanto melhor.
Felizmente Eliza, a cozinheira do reverendo, conhecia o seu ofício. A chegada inesperada de tantos convidados a tinha deixado irritada no início, mas dominou-se e parecia que tinha recuperado sua alegria no devido tempo, pois o chá foi servido em grande estilo; não faltou nem o presunto, nem as tortas, nem a marmelada, enfim, nenhum acompanhamento.
Os vigários, convidados para essa abundante refeição, entraram alegres, mas, ao verem as senhoras, presenças as quais não tinham sido anunciadas, recuaram na porta. Mr. Malone, que conduzia o quarteto, parou abruptamente, quase derrubando Mr. Donne que vinha logo atrás. Mr. Donne, cambaleando três passos, quase caiu nos braços de Mr. Sweeting e este nos de Mr. Helstone. Todos disseram a Mr. Malone que tivesse cuidado e fizeram-no avançar, o que ele fez, corando. Mr. Helstone entrou, afastou os tímidos vigários, cumprimentou as suas belas convidadas com um aperto de mão, acompanhado de um gracejo, e instalou-se confortavelmente entre a amável Miss Harriet e a petulante Miss Hannah. Miss Mary pediu para passar para o assento em frente ao reverendo para que ela pudesse vê-lo, já que ele não podia estar perto dela. Tudo era perfeitamente fácil para Mr. Helstone. Ele estava galante e suas maneiras eram agradáveis para com as jovens senhoras. Mais popular impossível, visto que, no fundo, ele nem respeitava e nem gostava do sexo feminino, isto é, as circunstâncias tinham mostrado que, intimamente, ele era temido por quem o amava.
Os vigários sentaram-se onde puderam. Mr. Sweeting, o menos envergonhado dos três, refugiou-se junto de Mrs. Sykes que, ele sabia, era quase tão afeiçoada a ele como se ele fosse seu filho. Mr. Donne, depois de rodopiar ao redor da mesa, com uma graça toda própria, dizendo em voz alta o pragmático “como está, Miss Helstone?”, caiu em um assento, quase se esbarrando no cotovelo da sobrinha do reverendo, cuja irritação era absoluta devido à antipatia peculiar que ela sentia por Mr. Donne. Mr. Malone, rindo sem graça, introduziu-se no assento do outro lado. Dessa forma, ela foi abençoada com um par de bajuladores com quem teria que manter uma conversa mortal, servir-lhes de criada, entregando-lhes copos, circulando os pratos, ou mesmo os levantando como se eles fossem um bando de inválidos.
Mr. Malone, inesgotável conversador entre os homens, dessa vez ficou calado na presença das senhoras. Três frases, no entanto, ele tinha prontas e não deixou de proferi-las:
– Continua caminhando, Miss Helstone?
– Tem visto o seu primo Mr. Moore ultimamente?
– A sua classe da escola dominical mantém o mesmo número de pessoas?
Estas três questões foram respondidas por ela e depois reinou o silêncio de um lado, mas com Mr. Donne, ela não foi muito feliz. Este era problemático e exasperante, na opinião da moça. Ele tinha um estoque de pequenas frases banais e perversas, que podiam ser consideradas no povoado de Briarfield como abusivas, mesmo entre os nativos de toda a região de Yorkshire. Suas queixas da falta da alta sociedade, do atraso da civilização nestes distritos, murmurações contra a conduta desrespeitosa das classes baixas do povo do Norte para com os seus superiores, a maneira de viver ridícula e boba por estas bandas, a falta de estilo, de elegância, como se ele, Mr. Donne, fosse grande coisa. Suas insinuações eram rústicas e Miss Helstone mal conseguiu suportar. Na verdade, pensava ela, qualquer outra senhora que o ouvisse o desprezaria, embora, às vezes, de fato, ele tivesse razão em alguma coisa. Mas, como uma menina de Yorkshire, ela odiava ouvir falar mal do lugar e de seu povo. Abriu a boca para recomendar a Mr. Donne que não era refinado estar sempre repreendendo os outros por vulgaridade, que nenhum bom pastor devia ficar eternamente censurando seu rebanho. Ia sugerir que, em vez de ele ficar na igreja reclamando, devia visitar os doentes e os pobres em suas casas, procurar ser-lhes útil, já que ele tinha sido ordenado para um ministério. Com certeza não tinha sido para usar roupas macias e sentar-se em casas de pessoas abastadas e comer feito um rei. Contudo, essas questões, se ditas por uma mulher, ainda mais por uma moça, seriam consideradas por todos os vigários (seu tio, principalmente) como, até o último grau, uma coisa audaciosa e irreverente. Por isso decidiu guardar para si as suas opiniões.
O chá foi longo e enfadonho para Miss Caroline. Todos os convidados tagarelaram como sua jovem anfitriã tinha previsto. Mr. Helstone estava em excelente estado de espírito, o que lhe acontecia sempre que estava na presença de mulheres bonitas. Na verdade, só com a senhora de sua própria família manteve-se taciturno. Com o restante, mostrou-se brilhante e tagarela, principalmente com a sua vizinha da esquerda e da direita. Miss Mary, que estava sentada à frente do reverendo, era a mais sensata e a menos coquete das três, portanto a ela o velho viúvo deu menos atenção. No fundo, ele não via serventia para as mulheres. Gostava das tolas com nada na cabeça, usava-as como um brinquedo para se divertir nas horas vagas para depois serem jogadas fora.
Miss Hannah era a sua favorita. Miss Harriet, sem dúvida, era a mais bela, porém ela era egoísta e cheia de si. Portanto, não era tão fraca como ele gostava. Ela tinha certa dignidade que se misturava à sua altivez. Se não falava feito um oráculo, não tagarelava feito uma idiota. Ela não consentia ser tratada como uma boneca, uma criança, um brinquedo. Queria que se inclinassem diante dela como se ela fosse uma rainha.
Miss Hannah, pelo contrário, não exigia nenhum respeito, apenas elogios. Se seus admiradores lhe dissessem que ela era um anjo, podiam tratá-la como uma idiota. Era tão crédula e tão frívola que se tornava uma pateta quando se via objeto de atenção e lisonjas. Mr. Helstone realmente se sentia tentado a renovar a experiência do matrimônio por uma segunda vez com Miss Hannah, mas, felizmente, as lembranças salutares dos aborrecimentos que lhe dera a primeira união, punham os seus sentimentos em cheque.
O pequeno Mr. Sweeting, sentado entre Mrs. Sykes e Miss Mary, ambas as quais muito gentis com ele, tinha diante de si um prato de tortas e marmelada e parecia mais feliz do que um monarca. Ele estava apaixonado por todas as misses Sykes e todas elas eram doidas por ele. Se ele sentia algum pesar naquele momento, era pela ausência de Miss Dora, a quem ele, secretamente, esperava um dia chamar de Mrs. David Sweeting e conduzir como uma imperatriz através da aldeia de Nunnely; imperatriz, certamente, se para isso bastasse uma estatura colossal: ela era enorme e pesada. Vista de costas, parecia uma senhora robusta de quarenta anos, mas possuía uma linda face e um excelente caráter.
A refeição, finalmente, chegou ao fim. Já teria acabado há muito tempo se Mr. Donne não persistisse em ficar sentado com sua meia xícara de chá frio diante dele, muito tempo depois dos outros terem acabado, mesmo muito tempo depois de ter acabado toda a provisão de mantimentos e de todos manifestarem sinais de impaciência. Ele parecia pensar que esta posição isolada lhe dava certa importância, que era digno e imponente para ser o último, que era alguma coisa importante para manter todos os outros esperando. Por fim, o velho reverendo, que até então tinha estado muito agradavelmente ocupado com Miss Hannah para cuidar do atraso, ficou impaciente.
– Por quem esperam? – perguntou ele.
– Por mim, eu acredito – voltou Mr. Donne, complacentemente, cheio de satisfação.
– Por você! – exclamou Mr. Helstone, levantando-se.
Mr. Donne, nada envergonhado, ainda ficou sozinho por uns dez minutos, quando então Mr. Helstone tocou a campainha para que a prataria fosse removida. O jovem vigário se viu forçado a esvaziar sua xícara e abandonar o papel que, em seu entender, tinha chamado sobre ele a atenção de forma lisonjeira.
Em seguida, como de costume, Miss Helstone abriu o piano e preparou as partituras. Logo pediram música. Este foi o momento de Mr. Sweeting se exibir e ele estava ansioso para começar. Em seguida, portanto, empenhou-se na árdua tarefa de convencer uma das jovens a favorecê-lo com uma canção. Desempenhou isso com amor, rindo, suplicando, resistindo às desculpas, afastando as dificuldades e, finalmente, conseguindo persuadir Miss Harriet, que se deixou conduzir ao piano. Em seguida, pegou sua flauta (ele sempre a levava no bolso como um lenço), atarraxou-a e ajustou-a. Mr. Malone e Mr. Donne, juntos, riam com desdém, com o que o homenzinho não se importou. Ele estava persuadido de que o sarcasmo dos colegas era inveja. Eles não podiam acompanhar as senhoras como ele, e estava prestes a desfrutar de seu triunfo sobre os demais.
O triunfo começou. Mr. Malone, pesaroso por ouvir o colega tocar de maneira tão notável, resolveu também se fazer notar e, assumindo ares de apaixonado (personagem que ele tinha se esforçado uma ou duas vezes para compor, mas que, até então, não tinha obtido sucesso e, sem dúvida, lhe faltavam méritos), aproximou-se do sofá em que Miss Caroline estava sentada, instalou-se junto dela e deu início a um discurso incompreensível, com a língua e as mãos, acompanhadas das mais extraordinárias caretas. No decorrer de seus esforços para se tornar agradável, acabou por se apoderar de duas almofadas e fez uma espécie de barreira entre ele e o objeto de suas atenções.
Miss Helstone, encantada pela separação, logo arranjou uma desculpa para passar para o lado oposto da sala; sentando-se ao lado de Mrs. Sykes, suplicou-lhe algumas instruções sobre um novo ponto de tricô, um favor prontamente concedido; assim, Pedro Augusto foi repelido.
Mr. Malone, muito mal-humorado e vendo-se abandonado, entregue inteiramente aos seus próprios recursos sobre aquele grande sofá, com três almofadas nas mãos, fazia triste figura. O fato era que ele estava decidido a se aproximar da sobrinha de Mr. Helstone. Não porque queria ser seu amigo, mas, como muitos outros, achava que seu tio era rico e, uma vez que ele não tinha filhos, deixaria toda a fortuna para a sobrinha.
Miss Helstone, por um momento, deixou cair o seu tricô no colo, fechou os olhos e encostou a cabeça na poltrona. A noite parecia longa demais para ela. Uma espécie de letargia tomou conta de seu corpo, produzida, sem dúvida, pelo zumbido em torno dela: o ruído desarmônico e insípido das teclas do piano, as notas ofegantes da flauta, o riso e a alegria de seu tio, de Miss Hannah e de Miss Mary, risos os quais ela não compreendia, pois não achava nada de engraçado na conversa deles e, acima de tudo, a interminável fofoca de Mrs. Sykes em seus ouvidos. Fatigada até a exaustão, ela aproveitou o momento que Mr. Sweeting veio falar com Mrs. Sykes para deslizar-se silenciosamente para fora do salão e procurar um momento de repouso solitário. Refugiou-se na sala de jantar, onde um remanescente fogo ainda ardia na lareira. O lugar estava vazio e silencioso, os copos e as garrafas tinham sido levados, as cadeiras arrumadas, tudo estava em ordem. Afundou-se na grande poltrona de seu tio, semicerrou as pálpebras e descansou. Pelo menos descansou os membros, pois a sua mente voou diretamente para Hollow, para o limiar da sala, passou para o escritório, procurando o local abençoado pela presença de Robert Moore. Acontecia que nenhuma dessas localidades tinha essa honra, porque Mr. Moore estava a meia milha de distância de ambos e muito mais perto de Miss Caroline do que ela supunha. Ele atravessava, neste momento, o cemitério e se dirigia para a porta do presbitério. No entanto, ele não estava vindo para ver a prima, mas com a única intenção de dar uma notícia ao reverendo.
Sim, Miss Caroline. Você ouviu o toque da campainha, pela quinta vez nesse dia, estremeceu e está certa agora que deveria ser o objeto de seus sonhos. Inclinada para a frente, escutava avidamente enquanto Fanny abria a porta. Sim! Essa é a voz baixa de Mr. Moore, com o leve sotaque estrangeiro, mas tão doce aos seus ouvidos. Levantou-se apressadamente e pensou: “Fanny vai dizer-lhe que Mr. Helstone está ocupado e ele irá embora. Oh! Ela não pode deixá-lo ir.” Apesar do seu bom senso, atravessou a metade da sala e estava prestes a precipitar-se, mas ele entrou no corredor.
– Como o seu patrão está com visitas – disse ele – deixe-me entrar para a sala de jantar e traga-me pena e tinta. Vou escrever um bilhete para ele.
Quando Miss Caroline ouviu essas palavras e percebeu que ele se aproximava, tentou escapar e, se houvesse outra porta, teria desaparecido por ela. Mas sentiu-se presa, acuada, e receou que sua presença inesperada irritasse Robert Moore. Um segundo antes ela teria voado para ele, agora queria fugir. Mas era impossível. A sala só tinha uma saída, pela qual ele vinha entrando com o olhar de surpresa e conturbado que ela temia. Ela gaguejou uma espécie de pedido de desculpas:
– Deixei a sala por um minuto para descansar um pouco.
Havia qualquer coisa de timidez, de embaraço no ar e no tom com que ela pronunciou essas palavras, que qualquer pessoa notaria a triste mudança operada nela ultimamente, pois todo o seu alegre autocontrole tinha-lhe deixado. Mr. Moore provavelmente se lembrou da sua amável solicitude e da doce confiança com que ela o acolhia e pôde sentir o efeito da sua frieza. Tinha agora como manter o seu novo sistema com êxito. Talvez ele achasse mais fácil praticar esse sistema em plena luz do dia, no quintal de sua fábrica, no meio das suas ocupações diárias do que em uma sala de estar tranquila, ao anoitecer. Fanny acendeu as velas, que antes tinham estado apagadas sobre a mesa, trouxe-lhe todo o material de escrita e saiu da sala. Miss Caroline estava prestes a segui-la. Mr. Moore, para agir de forma coerente, deveria tê-la deixado partir; contudo, ergueu-se diante da porta e estendeu a mão gentilmente, retendo-a. Ele não lhe pediu para ficar, mas não queria deixá-la partir.
– Devo dizer ao meu tio que está aqui? – perguntou ela, com a voz comovida.
– Não. Posso dizer a você o que eu iria dizer a ele. Quer ser minha mensageira?
– Sim, Robert.
– Então pode informá-lo que descobri uma pista sobre a identidade de pelo menos um dos homens que destruíram os teares. Pertence ao bando que atacou os armazéns de Mr. Sykes e de Mr. Pearson e tenho esperança de tê-lo sob custódia amanhã. Você pode se lembrar disso?
– Oh, sim!
Esses dois monossílabos foram proferidos num tom ainda mais triste do que nunca e ela abanou levemente a cabeça e suspirou.
– Você vai processá-lo?
– Sem dúvida.
– Não, Robert.
– E por que não, Caroline?
– Porque vai colocar contra você, mais do que nunca, toda a população operária.
– Isso não é razão para eu deixar de cumprir o meu dever e defender minha propriedade. Esse homem é um grande canalha e deve ser incapacitado de cometer novos delitos.
– Os seus cúmplices vão se vingar! Você não conhece a maldade das pessoas desta província. Eles se orgulham de manter uma pedra em seu bolso por sete anos, de usá-la depois desse tempo e de voltar a guardá-la por mais sete, e de, finalmente, acertar seu alvo.
Mr. Moore riu.
– Uma enérgica baboseira – disse ele, sorrindo. – Que faz a honra dos seus queridos amigos de Yorkshire. Mas não tema por mim, Lina. Eu estou em guarda contra esses seus cordeiros compatriotas.
– Como poderei deixar de me inquietar? Você é meu primo. Se alguma coisa lhe acontecer... – calou-se.
– Nada vai me acontecer, Lina. Para falar como você, há uma Providência acima de tudo, não é verdade?
– Sim, querido Robert. Que Ele o guarde.
– E, se as orações têm alguma eficácia, vão me beneficiar. Você ora por mim às vezes, Lina?
– Não algumas vezes, Robert. Você, Louis e Hortense estão sempre em minhas orações.
– Era o que eu imaginava. Ocorreu-me que, algumas vezes, quando fatigado e contrariado, me deitava como um pagão, outro anjo havia pedido perdão pelo meu dia e pela segurança da minha noite. Mas, quando um homem foi educado somente para ganhar dinheiro, vivendo para isso e por nada mais, parece estranho que pronuncie uma oração; é singular que um coração bom e puro se apodere dele e lhe dê guarida como se ele tivesse direito a uma proteção dessa ordem. Se me fosse dado o direito de guiar esse coração, creio que o aconselharia a deixar de se preocupar com aquele que não vê na vida fim mais elevado do que restaurar sua fortuna arruinada e apagar do seu brasão burguês a nódoa infame da falência.
A alusão, embora feita com afeição e ternura (como pensou Miss Helstone) foi profundamente sentida e claramente compreendida.
– Pois bem, na verdade, eu só penso em você como meu primo – foi a resposta rápida. – Começo a compreender melhor as coisas do que quando você veio para a Inglaterra, melhor do que há uma semana ou um dia atrás. Sei que seu objetivo de vida é crescer, ganhar dinheiro, e que não lhe cai bem ser sentimental. No futuro, você não deve interpretar mal os meus sentimentos quando lhe forem favoráveis. Não me compreendeu antes, não é?
– Mas, olhe-me agora – disse ele.
– Oh! Você está diferente agora. Atualmente ouso falar com você – disse ela.
– Todavia, eu sou o mesmo, exceto por ter deixado o comerciante em Hollow. É só o seu parente que está diante de você.
– Meu primo Robert e não Mr. Moore.
– Nada de Mr. Moore, Caroline.
Neste momento ouviu-se um rumor dos convidados na outra sala, pois estavam indo embora; a porta foi aberta, chamaram a carruagem, pediram os xales e os chapéus; Mr. Helstone chamou pela sobrinha.
– Preciso ir, Robert.
– Sim, é preciso ir ou eles entrarão e nos encontrarão aqui. Eu prefiro sair pela janela a encontrar esse exército. Só um minuto, cubra o castiçal por um instante. Boa noite. Beijo-a porque somos primos e entre primos um, dois, três beijos são permitidos. Caroline, boa noite!
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