Shirley
Capítulo XXVI
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Os Cadernos Antigos
Quando os habitantes de Fieldhead regressaram a Briarfield, Miss Caroline Helstone estava quase restabelecida. Miss Keeldar, assim que chegou, foi visitá-la.
Uma chuva fina caía sobre as flores tardias e sobre os arbustos que a aproximação do outono amarelecia. Ouviu-se a porta do jardim girar nos gonzos e diante da janela passou a silhueta familiar de Miss Keeldar. Ao entrar no quarto demonstrou seus sentimentos à sua maneira; quando estava perturbada, quer fosse de temor, de alegria, ela falava pouco. Raras vezes permitia que sua boca, ou mesmo os olhos, traíssem a emoção de que estava tomada. Apertou Miss Helstone nos braços, contemplou-a, deu-lhe um beijo e, em seguida, perguntou-lhe:
– Está melhor?
E um minuto depois acrescentou:
– Vejo que está realmente livre do perigo, mas tome cuidado. Foi Deus quem lhe devolveu a saúde e não deseja que ela fique exposta a novos abalos.
Continuou a falar da sua viagem com empolgação. De quando em quando seus olhos voltavam-se para Miss Helstone. Podia ler naquele olhar uma profunda solicitude, um pouco de emoção e também de espanto.
“Ela está certamente melhor”, dizia sua expressão, “mas como está fraca! Quanto perigo ela correu!”
De repente o seu olhar incidiu sobre Mrs. Pryor.
– E quando a minha preceptora voltará para junto de mim? – interrogou Miss Keeldar.
– Posso contar-lhe tudo? – perguntou Miss Helstone à mãe.
Como a autorização lhe fora concedida por um gesto, ela informou Miss Keeldar do que se passara durante a ausência dela.
– Muito bem – respondeu sem demonstrar espanto. – Muito bem, mas para mim não é novidade.
– Como? Então você sabia?
– Há muito que eu já tinha adivinhado tudo. Eu conhecia parte da história de Mrs. Pryor, não por ela própria, mas por outros. Conhecia todos os pormenores do caráter e da carreira de Mr. James Helstone. Uma tarde de conversa com Mrs. Mann foi suficiente, pois ela costuma citar Mrs. James Helstone como exemplo, como uma dessas lanternas vermelhas que ela usa para alertar suas filhas para que se desviem do caminho do casamento. Certa vez perguntei a Mr. Yorke sobre este assunto e ele me disse: “Shirley, minha filha, se quer saber alguma coisa sobre Mr. James Helstone, só lhe direi que era um homem tigre. Era belo, depravado, terno, falso, delicado e cruel.” Não chore, Caroline, nunca mais falemos dele.
– Não estou chorando, Shirley! Ou, se estou, não é nada. Continue: não seria minha amiga se me ocultasse a verdade.
– Felizmente eu já disse quase tudo o que tinha a lhe dizer, exceto que o seu próprio tio confirmou as palavras de Mr. Yorke, pois, como sabe, ele detesta a mentira. Minha senhora – prosseguiu Miss Keeldar, dirigindo-se a Mrs. Pryor – pensou, por acaso, que eu a veria todos os dias ao lado de sua filha e não observaria as enormes semelhanças que têm em muitas coisas? Perdoe-me, mas tirei minhas próprias conclusões. Tirei-as e se mostraram exatas. Começo a me achar perspicaz.
– E não me disse nada? – replicou Miss Helstone, que conseguira dominar sua emoção.
– Nada. Não me achava autorizada a dizer uma só palavra sobre esse assunto.
– Mas isso não combina com sua maneira de ser, Shirley!
– Por quê?
– Você não é reticente, é francamente comunicativa.
– Posso ser comunicativa e saber, contudo, até onde devo ir. Mostrando o meu tesouro, posso esconder uma pérola ou duas; uma pedra curiosa ou gravada; um amuleto, do qual eu própria raramente me permita contemplar seu místico fulgor.
*******
Mal Miss Caroline ganhou forças suficientes, Miss Keeldar reclamou sua presença diária em Fieldhead.
Os Sympsons eram gente devota, e por isso a sobrinha do pastor foi acolhida por eles com cortesia. Mr. Sympson era um homem que reunia uma respeitabilidade sem mácula; um temperamento repugnante; devotos princípios e um espírito mundano. A sua esposa era uma excelente senhora, paciente, benévola e educada. A sua educação fora baseada num sistema de vistas estreitas, polvilhada de certos preconceitos sobre alguns excelentes princípios e uma rígida casca de beatice.
As filhas eram modelos do seu sexo. Eram altas, cada uma com o seu nariz romano. A sua educação fora irrepreensível. Tudo o que faziam era bem-feito. Seus espíritos foram cultivados pela história e pela leitura de livros mais sólidos. Sabiam de cor certo código de leis sobre como deviam falar e como deviam se comportar. Elas próprias nunca se desviavam do curioso caminho traçado por esse código; era com um secreto e silencioso pavor que presenciavam nos outros a falta de cumprimento dele.
Harry Sympson, o único rapaz, e o mais novo da família, tinha quinze anos. Estava geralmente na companhia do preceptor. Quando não estava com este, era para procurar a sua própria prima. Este rapaz diferia das irmãs: era baixo, manco e pálido. Os seus grandes olhos brilhavam com certa melancolia nas órbitas profundas. Habitualmente eram mais escuros do que claros, mas podiam-se iluminar; em certos momentos, contudo, não brilhavam, mas fuzilavam. Uma emoção podia ao mesmo tempo fazer com que lhe viesse a cor ao rosto ou dar decisão aos seus movimentos de enfermo. A mãe de Harry tinha um fraco por ele, achava que as suas particularidades eram um sinal de predestinação. “Ele não é como as outras crianças,” pensava a mãe. Julgava-o um novo Samuel e desde o berço o destinara a Deus. Portanto, o rapazinho preparava-se para estudar Teologia. Mr. Sympson e as suas filhas, incapazes de compreender o rapaz, deixavam-no entregue a si próprio. No entanto, Harry era o favorito de Miss Keeldar.
No meio desse círculo familiar, ou antes, fora dele, girava como um satélite Louis Moore, o preceptor.
Sim, ele era o satélite da família Sympson, a ela preso, contudo, distinto. Estava sempre presente, porém sempre mantido a distância. Cada membro dessa correta família tratava-o com dignidade. O patriarca era delicado, por vezes irritável como era de se esperar de um temperamento pouco sociável. A mãe, como era uma excelente mulher, tinha para com ele certas atenções, porém, conservava toda a rigidez. As filhas viam nele uma abstração e não um homem. Nada podia ultrapassar a reserva da sua conduta para com ele.
Nada deixou mais espantada Miss Helstone do que descobrir que o seu primo não encontrava em Fieldhead absolutamente nenhuma simpatia amigável. Para Miss Keeldar, ele era apenas um simples professor; para as respeitáveis misses Sympson, porventura coisa nenhuma.
Quanto ao próprio Louis Moore, parecia habituado àquele gênero de vida e resignado a suportá-lo durante um tempo indeterminado. Nunca ria e raras vezes falava em público quando a família estava reunida. Nunca o ouviam emitir uma queixa; cumpria escrupulosamente seus deveres. O seu aluno, contudo, gostava dele, mas Louis parecia não depender de atenções para viver. Quando a sua prima, Miss Caroline, lhe fez gentis ofertas de amizade, não a encorajou, mais a evitava do que a procurava. Só uma criatura viva, além do seu aluno, obtivera naquela morada a sua afeição. Era o intratável Tártaro, que, rosnando aos outros, mostrava por ele uma singular parcialidade, de modo que, às vezes, quando Louis Moore entrava na sala de jantar e se sentava à mesa sem ninguém lhe prestar atenção, Tártaro levantava-se do seu lugar aos pés de Miss Shirley e ia instalar-se junto do taciturno professor.
– Shirley – disse Miss Helstone certa vez em que se encontravam a sós no pavilhão de verão – sabia que o meu primo Louis era preceptor da família de seu tio antes de os Sympsons terem vindo pra cá?
A resposta de Miss Keeldar não foi tão rápida como era do seu costume.
– Sim... sabia, naturalmente...
– Admira-me que não tenha me contado.
– Por que se surpreende com isso?
– Parece-me curioso. Não posso compreender. Você fala muito e livremente, como é possível que nunca me tenha dito uma palavra a esse respeito?
– Porque calhou assim – e Miss Keeldar começou a rir.
– Singular criatura! – continuou Miss Helstone – eu julgava que a conhecia bem, mas começo a reconhecer que estava enganada. Conservou-se muda como um túmulo a respeito de minha mãe e eis agora outro segredo. Mas o motivo pelo qual conservou esse segredo é que é para mim um mistério.
– Nunca fiz segredo disso, pois não tinha motivo nenhum para fazê-lo. Se você tivesse me perguntado quem era o preceptor de Harry, tinha-lhe dito, aliás, eu julgava que você soubesse.
– Não é só isso o que eu estranho. Você não gosta do pobre rapaz. Por quê? Será porque considera servil sua posição? Gostaria que o irmão de Robert ocupasse um lugar mais elevado?
Miss Keeldar murmurou algo que Miss Caroline Helstone não compreendeu, mas o tom parecia ser de desprezo. Num movimento de orgulhosa impaciência, arrancou uma rosa duma haste que entrava pela janela aberta.
– Louis Moore é irmão de Robert Moore de Hollow, um parentesco muito próximo – repetiu Miss Caroline com firmeza. – Embora a natureza não lhe tenha dado traços tão belos ou um ar tão nobre como o do irmão, o sangue dele é igualmente puro, e seria ele um cavalheiro se fosse livre.
– Judiciosa, humilde e piedosa, Cary! – exclamou ironicamente Miss Shirley Keeldar. – Escutai-a homens e anjos! Não deveríamos desprezar a fealdade, ou uma ocupação laboriosa e honesta, não é assim? Repare no objeto de seu elogio. Ele está ali no jardim – continuou Miss Keeldar, mostrando Louis Moore, que se aproximava lentamente caminhando.
– Ele não é feio, Shirley, não deixa de ter nobreza, é apenas triste. O silêncio esconde o seu espírito, mas julgo-o inteligente e pode estar certa de que, se não tivesse qualquer coisa muito notável na sua natureza, Mr. Hall nunca teria procurado a companhia dele como tem feito.
Miss Keeldar riu, depois riu ainda mais, sempre com seu ar sarcástico.
– Bem, muito bem – disse ela. – Visto ele ser amigo de Mr. Hall e irmão de Mr. Moore, consentiremos em tolerar a sua existência, não é assim, Caroline? Você acredita que ele seja inteligente, não é? Não é totalmente idiota, há qualquer coisa de notável na sua natureza, isto é, quero dizer que ele não é totalmente um rústico. Bom, as suas observações influenciaram-me e, para lhe provar, vou lhe dirigir a palavra se ele passar por aqui.
Louis Moore aproximou-se do pavilhão, porém não reparou que estava ocupado e se sentou no limiar. Tártaro, que se tornara o seu companheiro habitual, seguira-o e tinha se deitado aos seus pés.
– Meu velho companheiro – disse Louis, acariciando a orelha escura do cão – o sol de outono tanto brilha para nós como para os que são mais ricos e mais belos. O jardim não é nosso, mas nem por isso deixamos de gozar sua beleza e seu perfume, não é assim?
Continuou sentado, em silêncio, fazendo carinho em Tártaro que se babava num excesso de afeição. No arvoredo circundante começou a levantar-se um leve rumor, qualquer coisa esvoaçava de um lado para outro com a leveza das folhas. Eram passarinhos que vieram pousar na relva, à distância respeitosa, e começaram a saltitar como se esperassem qualquer coisa.
– Estes diabinhos castanhos recordam-se de que lhes dei de comer outro dia! – disse ainda Louis. – Querem alimento. Hoje me esqueci de trazer-lhes, encantadores bichinhos, não tenho uma única migalha comigo.
Enfiou a mão no bolso e tirou-a vazia.
– A imprevidência é fácil de reparar – murmurou Miss Keeldar, que estava à escuta.
Tirou um pedaço de pão do bolso, do qual nunca faltava qualquer coisa para jogar às galinhas, aos patinhos ou aos pardais, esmigalhou e, inclinando-se para Louis, colocou as migalhas em sua mão.
– Aqui tem – disse ela. – Há uma Providência para os imprevidentes.
– Obrigado. Esta tarde de setembro está deliciosa – disse ele, que, sem se desconcertar de modo algum, atirou tranquilamente as migalhas aos pássaros.
– Mesmo para você? – perguntou Miss Keeldar.
– Tão agradável para mim como para qualquer monarca.
– O senhor tem um sentimento de triunfo áspero e solitário por tirar seu prazer da natureza, das coisas inanimadas e dos seres mais ínfimos da criação.
– Solitário, mas não áspero. Junto dos animais sinto que sou filho de Adão, herdeiro daquele a quem foi dado o domínio sobre tudo aquilo que se move. O seu cão gosta de mim e segue-me; suas pombas vêm esvoaçar diante de meus pés; sua égua conhece-me tão bem como à miss e obedece-me melhor.
– E as minhas rosas dão-lhe seu perfume; as minhas árvores, sua sombra.
– E... – continuou Louis – nenhum capricho me pode privar desses prazeres, são meus.
Afastou-se. Tártaro foi atrás dele como que preso pelo dever e pelo afeto. Miss Shirley Keeldar ficou no limiar do pavilhão olhando os dois se afastarem calmamente. Miss Caroline reparou na expressão dela, olhando o preceptor que se afastara, empalidecera, e seu orgulho parecia sangrar interiormente.
– Ofendem-no muitas vezes. Isso é o que o torna melancólico – disse Miss Helstone.
– Você viu? – replicou Miss Keeldar, com irritação. – Sempre que conversamos sobre qualquer coisa, discutimos. Por isso deixemo-lo de lado e nunca mais falemos nele.
“Suponho que ele tenha se comportado dessa maneira mais de uma vez”, pensou Miss Caroline. “Deve ter sido isso que afastou Shirley dele. Contudo, é estranho que ela não dê o desconto do seu caráter às circunstâncias. É raro vê-la tão inconsiderada ou tão irritável.”
O testemunho de dois amigos de Miss Helstone sobre seu primo Louis Moore aumentou a boa opinião que ela fazia dele. William Farren, cuja cottage tinha ido visitar em companhia de Mr. Hall, considerava-o verdadeiro cavalheiro como não havia outro em Briarfield. Mr. Hall, em resposta a uma pergunta de Miss Helstone sobre o que pensava de Louis Moore, respondeu francamente que não encontrara ainda melhor companheiro desde que saíra de Cambridge.
– Mas ele é tão grave! – objetou Miss Helstone.
– Grave? É o mais alegre companheiro do mundo! Cheio de vivacidade, de bom humor e originalidade. Nunca houve excursão que me desse tanto prazer como a que fiz com ele aos lagos. Sua inteligência e seu gosto são de tal modo superiores que nos sentimos felizes por estar sob sua influência; e quanto ao seu caráter e sua natureza, são os melhores que se pode encontrar.
– Em Fieldhead ele parece triste e julgo-o um pouco misantropo.
– Oh! Os Sympsons são pessoas muito respeitáveis, mas incapazes de o compreenderem. Dão muita importância à formalidade e à etiqueta, o que não pode agradar a Louis. Lá ele é um peixe fora d’água.
– Não me parece que isso agrade a Miss Keeldar.
– Ela não o conhece. De outra forma não deixaria de prestar justiça às suas qualidades – disse Mr. Hall.
– Bem, suponho que ela não o conheça – murmurou Miss Helstone.
De acordo com esta hipótese, esforçou-se por compreender o que lhe parecia inexplicável, mas depressa foi obrigada a recusar os preconceitos de Miss Keeldar, até mesmo a desculpa da ignorância.
Um dia aconteceu de Miss Caroline Helstone encontrar Harry na sala de estudos e notou que ele possuía um amável e afetuoso caráter. O jovem estava absorvido por certa experiência mecânica, pois sua enfermidade o levava a procurar as ocupações sedentárias, portanto, começou a procurar no escritório de seu preceptor cera ou barbante, necessários para o seu trabalho. Louis Moore estava ausente, pois Mr. Hall tinha vindo buscá-lo para darem um grande passeio. Harry não pôde encontrar imediatamente o objeto da sua investigação, mas, ao abrir uma última gaveta, deparou-se não com um rolo de barbante nem com um bocado de cera, mas com um pequeno monte de cadernos de capas cor de mármore atados com uma fita. Harry olhou para aquele achado espantado:
– Que velharias que Mr. Moore guarda na sua escrivaninha! – disse ele. – Eu não conservaria tão cuidadosamente os meus exercícios.
– Que é?
– São velhos cadernos de exercícios.
Atirou o maço para Miss Helstone. O embrulho pareceu-lhe tão limpo por fora que teve vontade de conhecer seu conteúdo.
– Se são apenas cadernos de exercícios, julgo que poderei abri-los.
– Oh! Sim, certamente. A escrivaninha de Mr. Moore é metade minha. Ele deixa que eu guarde aqui as minhas coisas e eu lhe dou licença para ver isso.
Os cadernos continham temas de francês escritos numa caligrafia apertada, mas duma nitidez e clareza notáveis. A letra era bem conhecida de Miss Caroline, além disso, no fim de cada tema, podia ler-se: “Shirley Keeldar, Sympson Grove”, e a data era de quatro anos atrás.
Tornou a amarrar o maço, muito admirada, e conservou-o na mão durante um instante. Tinha a impressão de que ao abri-lo violara um segredo.
– Isso era de Shirley – disse Harry, indiferente.
– Foi você quem os deu a Mr. Moore? Ela deve ter escrito para Mrs. Pryor, suponho.
– Não. Ela os fez em meu quarto de estudos, em Sympson Grove, quando vivia lá conosco. Mr. Moore ensinava-lhe francês. É a língua materna dele.
– Ahn! Ela era uma boa aluna, Harry?
– Era um pouco selvagem e ria o tempo todo, mas eu gostava da presença dela. Tornava as horas das lições encantadoras. Ela também aprendia depressa, não sei como. O francês não era nada para ela. Falava-o corretamente, tão corretamente como Mr. Moore.
– Ela era uma aluna obediente?
– Dava muito trabalho sob certo ponto de vista; era estouvada, mas eu gostava dela. Estou desesperadamente apaixonado pela Shirley – o menino riu.
– Desesperadamente apaixonado, ora veja! Sabe lá o que está dizendo, Harry?
– Estou desesperadamente apaixonado por ela. É a luz dos meus olhos. Ainda ontem eu o disse a Mr. Moore.
– Ele deve tê-lo censurado pelo seu exagero.
– Não. Nunca briga comigo como fazem as professoras. Estava lendo e limitou-se a sorrir sem tirar os olhos do livro; disse que se Miss Keeldar era só isso, ela era menos do que ele tinha pensado, visto eu ser apenas um rapazote míope e de vista fraca. Receio bem não passar de um desgraçado, Miss Caroline. Sou um estropiado, não sei se sabe.
– Não se aflija com isso, Harry. Você é um rapazinho muito simpático e, se Deus não lhe deu saúde e força, dotou-o com um bom caráter, um coração e um cérebro excelentes.
– Mas as pessoas me desprezarão. Às vezes imagino que você e Shirley me desprezam.
– Ouça, Harry. Em geral, não gosto dos rapazes da sua idade, confesso que tenho até uma grande aversão por eles. Vejo neles uns jovens celerados que sentem um prazer bárbaro em torturar os pássaros, os insetos, os gatinhos e tudo o que é mais fraco do que eles. Mas você é tão diferente que sinto uma viva simpatia por você. Tem quase tanto raciocínio como um homem, muito mais, sabe Deus, do que grande número de homens que eu conheço. Você gosta de ler e é capaz de falar com bom senso daquilo que leu.
– Gosto de ler. Sei que tenho tino e também bons sentimentos, mas é só isso.
Nesse momento, Miss Keeldar entrou.
– Harry – disse ela – trouxe um lanche para você. Fui eu própria quem o preparou.
Colocou na mesa um copo de leite, um prato de qualquer coisa bastante parecida com a sola de um objeto que tinha a forma dum garfo de grelhar.
– O que os dois estão fazendo aí mexendo na escrivaninha de Mr. Moore?
– Estamos examinando os seus cadernos – respondeu Miss Helstone.
– Os meus cadernos velhos?
– Cadernos com temas em francês. Veja! Devem considerá-los valiosos, pois estão cuidadosamente conservados.
Miss Helstone apontou para o maço e Miss Keeldar o pegou.
– Eu não sabia que ainda existiam – disse ela. – Supunha que tudo isso já servira há muito para acender a lareira ou para fazer os papelotes das criadas de Sympson Grove. Por que é que os conservou, Harry?
– Não fui eu. Nunca teria pensado em tal coisa. Nunca me passou pela cabeça que os cadernos dos temas pudessem servir para qualquer coisa. Mr. Moore foi quem os guardou numa das gavetas mais escondidas de sua escrivaninha. Com certeza os tinha esquecido lá.
– É isso. Decerto se esqueceu deles – repetiu Miss Keeldar. – Estão extremamente bem escritos – disse ela com satisfação.
– Que mocinha estouvada você era nesse tempo, Shirley! Estou a vê-la perfeitamente; era tão esbelta e tão leve que, embora fosse alta, eu podia carregá-la se quisesse. Usava seus inumeráveis caracóis caídos pelos ombros e os vestidos flutuantes. Divertia Mr. Moore, pelo menos no princípio; creio que depois o fazia se arreliar.
Miss Keeldar passou as folhas manuscritas e ficou calada. Um instante depois ela disse:
– Isto foi escrito numa tarde de inverno; é a descrição de um efeito da neve.
– Lembro-me – disse Harry. – Mr. Moore, depois de tê-la lido, exclamou: “Eis um francês dominado.” Elogiou-a e disse que o texto estava muito bom. Em seguida você o fez desenhar a passagem que tinha descrito.
– Então não se esqueceu de nada, Harry?
– De nada. Nessa tarde fomos todos censurados por não termos descido para o chá quando fomos chamados. Lembro-me do meu preceptor sentado no seu cavalete e a Shirley por detrás dele segurando uma vela e vendo-o desenhar a rocha coberta de neve, o pinheiro, o gamo deitado debaixo dele e, por cima, a lua crescente.
– Onde estão esses desenhos, Harry? Caroline certamente gostaria de vê-los.
– Estão na pasta dele, mas está fechada e ele leva a chave.
– Você pode pedi-la quando ele retornar?
– A Shirley é que devia pedir isso a ele. Por que mudou? Está tão reservada com ele. Conduz-se perante ele como uma senhora importante.
– Shirley – você é, na verdade, um enigma! – murmurou Miss Caroline. – E eu que pensava merecer sua confiança! Inexplicável criatura! Até um rapazinho a censura.
– Esqueci os bons tempos de outrora, sabe, Harry – disse Miss Keeldar em resposta ao moço Sympson e, como se não tivesse escutado Miss Helstone, calou-se.
– Coisa que nunca deveria ter feito, Shirley. Não é digna de ser a estrela da manhã de um homem se tem uma memória tão fraca.
– Estrela da manhã de um homem? Que coisa! E quando diz homem, refere-se a si próprio, pelo que vejo. Vamos, beba o seu leite enquanto está quente!
O rapazinho ergueu-se e, a manquejar, dirigiu-se para a lareira. Miss Keeldar o tinha deixado próximo ao fogo.
– Meu pobre querido manquinho! – murmurou Miss Keeldar na sua voz mais doce, ajudando-o a caminhar.
– De quem gosta mais: de mim ou de Sam Wynne, Shirley? – perguntou Harry, sentando-se na poltrona.
– Oh! Harry! Eu detesto o Sam Wynne, ao passo que você é o meu favorito.
– De mim ou de Mr. Malone?
– Também mais de você mil vezes.
– Mas eles são homens que já têm suíças e seis pés de altura.
– Ao passo que você, Harry, será sempre um pálido manquinho.
– Sim, bem sei.
– Isso não o deve entristecer. Não lhe tenho dito muitas vezes que há um homem quase tão pequeno, tão pálido, tão doente como você, e que, contudo, é tão poderoso como um gigante, tão valente como um leão?
– O almirante Horácio?
– O almirante Horácio, visconde Nelson e duque de Brounty, grande pelo coração como um titã, valente e heroico como os mais valentes dos tempos da cavalaria, que dirige o poderio da Inglaterra e comanda suas forças no mar.
– Um grande homem, mas eu não sou guerreiro, Shirley. E, contudo, o meu espírito é tão impaciente que arde dia e noite. O porquê, eu não sei dizer. Para ser, para agir, para sofrer, creio eu.
– Harry, o que o atormenta é sua inteligência que é mais forte e mais velha do que o seu corpo. Seja paciente, dê tempo ao tempo. Nem será soldado, nem marinheiro, Harry, mas, se viver, será, escute a minha profecia, um autor, talvez um grande poeta.
– Um escritor? É claro! É uma iluminação para mim! Eu quero... quero escrever um livro que lhe possa dedicar.
– Sim, você o escreverá. Meu Deus! Mas o que digo? E que bem podem produzir as minhas palavras? Harry, agora coma e viva.
– De boa vontade! – gritou uma voz que vinha do exterior. – Reconheço o cheiro do almoço. Miss Keeldar, posso entrar e tomar minha parte?
– Mr. Hall! – exclamou Miss Keeldar. Era Mr. Hall e Louis Moore que regressavam do passeio.
– Na sala de jantar há um lanche decente e uma reunião de pessoas decentes sentadas à volta dele. Pode juntar-se a essa sociedade e partilhar da festa se assim lhe convém. Mas, se o seu mau gosto o incita a preferir o lanche sem cerimônia que temos aqui, dê-nos o prazer da sua companhia.
– O cheiro agrada-me e deixarei que o meu nariz faça a escolha – respondeu Mr. Hall, que, nesse momento, entrou acompanhado por Louis Moore.
Os olhos deste último caíram sobre sua escrivaninha em desordem.
– Gatunos! – exclamou ele. – Harry, merece um corretivo.
– Então o dê a Shirley e a Caroline, pois as culpadas são elas – respondeu Harry, pensando mais em fazer-se teatral do que em dizer a verdade.
– Traidor e falsa testemunha! – exclamaram ao mesmo tempo as duas jovens.
– Não tocamos em nada, senão no mais louvável espírito de investigação.
– Não duvido – disse Louis Moore e, coisa rara, sorriu.
– E onde remexeram nesse louvável espírito de investigação? – ele olhou para a gaveta aberta. – Esta gaveta está vazia, onde está seu conteúdo? Quem o levou?
– Aqui está. Aqui está! – apresentou Miss Helstone o pequeno maço e colocou-o em seu lugar.
Louis Moore fechou a gaveta com uma chave minúscula que trazia metida na corrente do relógio, colocou em ordem os outros papéis, fechou a secretária e sentou-se sem fazer mais nenhuma observação.
– Julguei que fosse ralhar muito mais – provocou Harry. – Estas meninas merecem uma boa reprimenda.
– Entrego-as à sua própria consciência.
– Suas consciências as acusam tanto de crimes premeditados como de crimes praticados, Mr. Moore. Se eu não estivesse aqui, teriam feito à sua pasta o mesmo que fizeram à sua escrivaninha, mas eu disse-lhes que estava fechada à chave.
– Quer lanchar conosco? – perguntou Miss Keeldar, dirigindo-se a Louis Moore e parecendo desejosa de mudar o rumo da conversa.
– Decerto, se me dá licença.
– Terá que se contentar com leite fresco e bolo de Yorkshire.
– Seja o leite fresco – disse ele. – Mas, quanto ao seu bolo de aveia!... – e fez uma careta.
– Ele não o pode comer – disse Harry – parece pão de farelo feito com levedura azeda.
– Então, por especial favor, conceder-lhe-emos alguns bolos secos.
Miss Keeldar tocou a campainha e deu suas ordens, que foram logo executadas. Ela própria serviu o leite e distribuiu o pão pelo pequeno círculo que rodeava o fogo brilhante da sala de estudos. Tomou em seguida o seu lugar e, ajoelhando-se diante do fogo, de garfo em punho, desempenhou com habilidade suas funções. Mr. Hall, que gostava de tudo quanto era fantasia, e a quem o bolo grosseiro de aveia parecia, pela força do hábito, tão saboroso como um maná, estava no melhor humor possível, pois conversava e ria alegremente. Louis Moore, portanto, pôs sua alegria em sintonia com a de Mr. Hall. Não ria muito, mas com seu ar mais tranquilo do mundo, dizia coisas imensamente espirituosas. Provou ser aquilo que Mr. Hall dizia, uma pessoa agradabilíssima.
Naquele momento, Miss Keeldar não se mostrava fria nem altiva. Não parecia se dar conta da humildade das funções que estava desempenhando, ou, se dava, era apenas para se sentir bem com isso. O seu orgulho não se revoltava de modo algum por ver o preceptor de seu primo fazer parte da roda para a qual desempenhava o ofício de criada. Pelo seu lado, Louis Moore aceitava da mão dela a sua parte e fazia isso com tanta naturalidade como se ele fosse igual à herdeira.
– Já pegou calor demais – disse ele depois de ela ter conservado o garfo na mão durante algum tempo. – Deixe-me tomar o seu lugar
E tirou-lhe o garfo com uma espécie de calma e autoridade a que ela se submeteu passivamente.
– Gostaria de ver suas pinturas, Louis – disse Miss Caroline, acabando o suntuoso lanche. Mr. Hall também demonstrou interesse.
– Para lhe ser agradável, farei coro com você, mas pela parte que me toca, bastou-me o que lhe aturei como artista no Cumberland e no Westmoreland. Mais de uma vez apanhamos uma carga de água nas montanhas por causa da obstinação dele em ficar sentado no banco, a fixar os efeitos das nuvens, do nevoeiro que se formava, das aberturas de sol, e sei lá mais o quê!
– Aqui está a pasta – disse Harry, trazendo-a numa das mãos e apoiando-se com a outra na muleta.
Louis a pegou, porém permaneceu sentado como se esperasse que alguém falasse. Parecia não querer abri-la, a menos que Miss Keeldar se mostrasse interessada na exibição.
– Faz-nos esperar para aguçar a nossa curiosidade – disse ela.
– Sabe abri-la muito bem – disse-lhe Louis, dando-lhe a chave. – Uma vez partiu-me a fechadura, experimente agora.
Ela abriu e monopolizou o conteúdo. Foi a primeira a ver os desenhos todos. Gozou esse favor, se favor era, em silêncio. Louis Moore conservava-se de pé atrás dela, olhando por cima do seu ombro e depois de ela ter acabado e, estando os outros ainda a olhar, abandonou o seu posto e começou a passear pela sala.
Ouviu-se o rodar de uma carruagem, a sineta da porta grande vibrou e Miss Keeldar estremeceu.
– São visitas – disse ela – e virão me chamar; estou em lindo estado para recebê-las; Harry e eu passamos a metade da manhã no jardim colhendo frutas. Que feliz é a mulher do chefe indígena! Que não tem deveres de salão a cumprir e pode se deixar ficar sentada num canto sossegada, a tecer mantas ou acarinhar os filhos. Quero emigrar para as florestas do Oeste.
Louis Moore sorriu.
– Para se casar com um Nuvem Branca ou um Grande Búfalo e, depois do casamento, consagrar a doce tarefa de lavrar o campo do seu senhor enquanto ele estiver a fumar seu cachimbo ou a beber aguardente?
Miss Keeldar parecia disposta a responder Louis, mas nesse momento a porta da sala de estudos se abriu para dar passagem a Mr. Sympson. Este personagem pareceu petrificado ao ver o grupo reunido diante do fogo.
– Julgava que estava só, Miss Keeldar, e encontro uma reunião completa!
E, evidentemente, a julgar pelo seu ar chocado e escandalizado, se não tivesse reconhecido num dos presentes um eclesiástico, não teria deixado de fazer um sermão a Miss Keeldar sobre seus hábitos extravagantes, mas o respeito pela igreja reteve-o.
– Queria apenas lhe anunciar – prosseguiu friamente – que a família de Walden-Hall, Mr. Wynne e a esposa, as misses e Mr. Sam Wynne, encontra-se no salão.
Depois cumprimentou Mr. Hall e se retirou.
– A família de Walden-Hall! Não me podia acontecer coisa pior! – murmurou Miss Keeldar.
Deixou-se ficar sentada com um ar um tanto contrariado e pouco disposta a apresentar-se no salão. O calor do fogo tinha lhe avivado as cores; durante a manhã o vento alvoroçara-lhe os cabelos negros e ela vestia apenas um leve e amplo vestido de musselina; o xale que trazia estava negligentemente enrolado à cintura. No seu todo havia algo de indolente, de selvagem, pitoresco e singularmente belo; mais belo do que habitualmente, como se qualquer emoção interior lhe tivesse dado à fisionomia uma frescura e uma expressão nova.
– Shirley, Shirley, deve ir – murmurou Miss Helstone.
– Ainda queria saber por quê.
Ergueu os olhos e, no espelho que ficava em cima da lareira, viu que Mr. Hall e Louis Moore a contemplavam com gravidade.
– Sim – disse ela, sorrindo – se a maioria das pessoas presentes me garante que a gente de Walden-Hall tem direito às minhas civilidades, submeterei as minhas inclinações aos meus deveres. Quem acha que eu devo ir, levante o braço.
Consultou novamente o espelho, que refletiu um voto unânime contra ela.
– Deve ir – disse Mr. Hall – a senhora tem deveres. Não lhe é permitido fazer apenas aquilo que lhe apetece.
Louis Moore apoiou:
– Bravo, bravo!
Miss Helstone, aproximando-se da amiga, alisou-lhe os caracóis rebeldes, deu-lhe um jeito no traje, que a tornou mais composta, menos artística, e Miss Keeldar foi posta fora da sala, porém, protestando contra a expulsão com um esgar significativo.
– Há na pessoa dela um encanto curioso – disse Mr. Hall depois que Miss Keeldar saiu. – Agora – acrescentou ele – tenho que ir embora porque Mr. Sweeting foi visitar a mãe e tenho dois enterros para fazer.
– Harry, volte aos seus livros. Está na hora da lição – disse Louis Moore.
– Um encanto curioso... – repetiu o aluno quando ele e o mestre ficaram sozinhos. – É certo. Ela é como uma feiticeira branca, isso sim. Não acha? – perguntou o rapazinho.
– De quem está falando?
– Da minha prima Shirley.
– Nada de perguntas ociosas. Estude em silêncio.
A fisionomia de Louis Moore assumiu um tom severo. Harry conhecia aquela disposição, que raramente se mostrava em seu professor, mas quando aparecia, temia-a. Obedeceu.
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