Shirley

Charlotte Brontë · Capítulo 22 de 38

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Shirley

Volume III

 

CAPÍTULO XXII

 

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Duas Vidas

 

Mr. Moore só mostrara metade da decisão e da atividade de que era capaz na defesa de sua fábrica. A outra metade, a mais terrível, ele mostrou no ardor infatigável que sucedeu à perseguição do líder daquele motim. Ele não queria atacar a massa, talvez um sentimento de justiça lhe dissesse que homens desorientados e mal aconselhados, ainda por cima atiçados pelas privações, não eram dignos da sua vingança.

Contudo, não se sabia quem eram os chefes do bando. Acreditava-se que era gente de fora, vinda das grandes cidades, muitos deles nem eram membros da classe operária. Eram valdevinos, gente falida, homens que nada tinham a perder. Mr. Moore perseguia-os como um cão persegue uma caça. O seu cavalo devia odiar aquela época, pois quase não tinha momentos de descanso. Mr. Moore vivia nas estradas, e os magistrados dos distritos deviam temê-lo, pois eram homens lentos e tímidos. Ele, contudo, forçava-os a vencerem certo medo que os acometia: o medo do assassino. Fora esse medo que manietara os braços de todos os industriais e de quase todos os homens públicos do distrito. O único que não temia nada era Mr. Helstone.

Mr. Moore conhecia o perigo, contudo o desprezava. Os líderes que ele queria pegar eram quatro. No espaço de quinze dias, dois foram apanhados perto de Stilbro; quanto aos outros dois, foi preciso procurar fora das fronteiras de Yorkshire.

Ao mesmo tempo, o comerciante não deixava de lado a sua fábrica danificada. As reparações, contudo, não eram difíceis; o carpinteiro e o vidraceiro davam conta do recado. Os arruaceiros não tinham conseguido entrar na casa das máquinas que, por esse motivo, nada sofreram.

Durante esta vida ocupada, enquanto a severa justiça e os negócios reclamavam toda a sua energia e o absorviam por completo, fazia ele algum esforço para manter aceso um fogo mais doce do que aqueles que arderam no tempo de Nêmesis. Eis o que seria difícil descobrir. Raramente se encaminhava para os lados de Fieldhead. Se aparecia por lá, suas visitas eram breves; se ia ao presbitério, era apenas para se reunir em conferência com o pastor e no gabinete dele.

Durante esse período, a guerra continuava e não apresentava o menor indício de tempo sereno. E a ruína fazia sempre a sua obra sob os passos de Mr. Moore, quer ele andasse a cavalo ou a pé, quer apenas atravessasse o seu escritório ou galopasse ao longo do triste pântano de Rushedge, sentia o chão tremer sob os seus passos.

 

*******

 

Como decorreu o verão para as misses Keeldar e Helstone? Começaremos pela herdeira. Que ar ela tem? O de uma moça pálida que se enfraquecia, abandonada por um infiel apaixonado? De modo algum. Miss Keeldar estava perfeitamente bem. A sua presença alegrava o velho e sombrio solar. A galeria e os quartos ressoavam muitas vezes os ecos alegres da sua voz.

De vez em quando ela tomava o seu trabalho de agulha, mas, por qualquer fatalidade, nunca lhe sucedia trabalhar nele por mais de cinco minutos seguidos. Mal acabava de preparar o dedal e de enfiar a linha na agulha, um pensamento súbito fazia com que corresse ao andar superior, talvez para procurar outro estojo com agulhas de marfim de que acabava de se recordar, ou uma velha caixa de costura de que não precisava mais para nada, mas que nesse momento se lhe afigurava indispensável. Parava em frente ao espelho para arranjar os cabelos, ou colocar em ordem uma gaveta que pensava ter deixado pela manhã numa desordem. Ou, talvez, apenas para contemplar de certa janela o panorama no qual se avistava a igreja e o presbitério de Briarfield, agradavelmente submersos pelo arvoredo.

Mal retornava à sala de visitas, escutava a respiração estrangulada de Tártaro na porta do alpendre e tinha que correr para abri-la. Estava muito calor e ele entrava ofegante. Miss Keeldar tinha de levá-lo à cozinha e ver com seus próprios olhos se a tigela de água estava cheia. Através da porta aberta da cozinha, avistava-se o pátio cheio de galinhas, perus, pombos brancos, de pescoço encarnado, outros azuis ou cor de canela. Espetáculo irresistível para Miss Keeldar! Ela corria para buscar migalhas de pão para jogar a eles nos degraus da escada e em torno dela comprimiam-se seus súditos emplumados.

John estava no estábulo. Ela precisava falar com ele e ver a jumenta. Era preciso que ela ficasse de olho em tudo. Havia alguns bezerros ou cordeirinhos que as mães rejeitavam. Miss Keeldar fazia-se conduzir junto deles e conseguia o prazer de lhes dar de comer pelas suas próprias mãos, sob a direção e o cuidado de John. Durante essa operação, o empregado falava das suas preocupações e alguns problemas na agricultura. A sua ama se via obrigada a ir buscar o chapéu de palha para acompanhá-lo ao longo das sebes, para decidir na própria plantação o que se havia de fazer. A tarde brilhante se transformava em um doce entardecer e Miss Keeldar regressava a casa um pouco tarde para o chá e, depois dele, nunca pegava em costuras, e, sim, lia. Mostrava-se tão absorvida pela leitura, ao contrário da costura. O seu gabinete de estudo ficava diante da lareira; o seu lugar predileto era um banquinho ou o tapete aos pés de Mrs. Pryor. Tártaro estava sempre estendido ao seu lado, com seu negro focinho alongado sobre as patas dianteiras, fortes e grossas como as de um lobo. Miss Keeldar tinha o espírito absorvido pela leitura, não levantava os olhos, não se mexia nem fala.

Por fim, uma luz pálida que vinha da janela caía sobre a página. Miss Keeldar olhava, a lua já se erguera. Ela fechava o livro, se levantava e percorria a sala. Talvez o livro fosse bom, talvez tivesse refrescado sua alma, a enchido e aquecido o seu coração. O tranquilo salão, a janela pela qual se avistava a doce rainha das noites, bastavam para fazer da terra um éden e da vida um poema para Miss Keeldar. Uma calma e profunda delícia inflamava-lhe suas veias juvenis. Delícia sem perturbação e sem mistura, que nenhum poder humano lhe podia tirar, pois não fora concedida por nenhum poder humano. Puro dom de Deus à sua criatura, livre oferta da natureza à sua filha.

 

*******

 

Antes do término do mês de julho, Miss Keeldar teria, sem dúvida, partido juntamente com Miss Helstone para a viagem que tinham combinado. Contudo, nessa época, caíra sobre Fieldhead uma invasão: um exército de visitas assaltou Miss Keeldar no seu castelo e forçou-a a se render sem condições. Um tio, uma tia e duas misses Sympson’s, de Sympson-Grove, foram passar uma temporada com ela.

As leis da hospitalidade obrigaram-na a renunciar ao seu projeto, o que fez com uma facilidade um tanto surpreendente para Miss Helstone, que sabia como ela era determinada e fértil em expedientes quando se tratava de fazer prevalecer suas vontades. Miss Helstone, portanto, demonstrou surpresa por vê-la submeter-se tão facilmente. Miss Keeldar, no entanto, respondeu que certas recordações tinham o poder de dominá-la. Ela passara dois anos da sua juventude em Sympson-Grove.

Miss Helstone perguntou-lhe que sentimentos ela nutria por aqueles parentes. Ao que Miss Keeldar respondeu que nada tinha de afinidades com eles, porém, o pequeno primo, Harry Sympson, decerto, não se parecia em nada com as duas irmãs e tivera, outrora, uma grande amizade por ele. 

No domingo seguinte o banco de honra da igreja de Briarfield estava ocupado por um velhote todo janota, que ajeitava as lunetas e mudava de posição de três em três minutos; por uma velha plácida, vestida de cetim castanho, e por duas misses exemplares, tanto no toilette quanto nas atitudes. No meio deles estava Miss Keeldar. Parecia um cisne ou uma gralha branca. Vamos deixá-la nessa respeitável companhia para nos ocuparmos de Miss Helstone.

Separada por circunstâncias de Miss Keeldar, pois não podia ir procurá-la com seus parentes hospedados em Fieldhead, afastada do solar pelas modificações que os recém-chegados tinham provocado, Miss Helstone se viu novamente confinada ao presbitério, reduzida aos passeios solitários pelas veredas afastadas. Passava as longas tardes em grande tristeza, ora sentada na sala, ora no maciço jardim onde os raios de sol eram brilhantes. Lá ela passeava através das flores e lia velhos livros da biblioteca do tio. Para variar, às vezes, costurava para os pobres, sob a direção de Miss Ainley. Às vezes, quando sentia as lágrimas assomarem-lhe aos olhos, perguntava a si mesma como podia a excelente mulher que tinha cortado e disposto o trabalho o qual costurava, conservar uma serenidade tão igual na sua solidão.

“Nunca encontro Miss Ainley oprimida, desesperada ou abatida”, pensava ela “e, contudo, a sua pequena casa é tão simples, triste, e ela não tem grandes esperanças brilhantes, nem amigo nenhum no mundo. Disse-me certa vez que habituara os seus pensamentos a tenderem sempre para o Céu e suponho que voltou suas esperanças para a felicidade da vida futura. Assim fazem as freiras, fechadas em suas celas, com o seu candeeiro de ferro, seus vestidos discretos como um sudário, a cama estreita como um caixote. Ela diz muitas vezes que não teme a morte. Eu ainda temo a morte, mas creio que é por eu ser nova. A pobre Miss Ainley sentir-se-ia mais presa à vida se a vida tivesse mais encanto para ela. Deus certamente não nos criou para desejarmos continuamente a morte. Creio do fundo do meu coração que fomos destinados para amar a vida e para a gozarmos enquanto ela nos é dada. Deus, concedendo-nos a existência, não podia querer que ela fosse essa coisa pálida, inútil e insípida que se torna para muitos e para mim em particular...”

 

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