Shirley
Volume II
CAPÍTULO XII
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Misses Helstone e Keeldar
Miss Shirley Keeldar mostrou que tinha sido sincera ao dizer que seria feliz relacionando-se com Miss Caroline Helstone, pois começou a procurá-la frequentemente. Na verdade, se ela não tivesse tomado a iniciativa, essa relação não teria se estabelecido. Miss Helstone, de fato, estava pouco disposta a travar novos relacionamentos. Ficava remoendo a ideia de que as pessoas não podiam querê-la por perto, que ela não poderia diverti-las e que uma brilhante criatura, feliz e jovem como a herdeira de Fieldhead, parecia-lhe demasiado e completamente independente de uma companhia tão desinteressante quanto a sua, portanto, nunca seria realmente bem-vinda.
Miss Keeldar podia ser brilhante e provavelmente feliz, mas ninguém é independente o suficiente para não gostar de encontrar uma convivência agradável e, apesar de há cerca de um mês ter travado conhecimento com grande parte das famílias das imediações e se dar muito bem com todas as misses Sykes, as Pearson e as duas superlativas misses Wynne, de Walden Hall, parecia não ter encontrado entre todas elas nenhuma que a interessasse deveras. Ela não se confraternizava com nenhuma delas, para usar suas próprias palavras. Se tivesse tido a felicidade de ter nascido o jovem Shirley Keeldar, senhor do solar de Briarfield, esperado pelos seus pais, de nenhuma delas teria feito uma senhora, a dona da mansão Keeldar. Foi o que ela declarou certo dia para Mrs. Pryor, que a escutou muito calmamente e lhe respondeu:
– Minha querida, não tome o hábito de se considerar um cavalheiro, pois é estranho. Aqueles que não a conhecem, ouvindo você falar assim, podem acreditar que afeta maneiras masculinas.
Miss Keeldar nunca ria de sua antiga governanta. Suas pequenas manias e mesmo as inofensivas peculiaridades dessa senhora eram, aos seus olhos, respeitáveis. Por isso aceitou seu conselho sem dizer nenhuma palavra contrária. Conservou-se quieta perto da janela, olhando um cedro grande, em cujos ramos inferiores ela vira um pássaro. Depois começou a assobiar para o pássaro, em breve o som melodioso aumentou para uma melodia muito doce e habilmente executada.
– O que é isso minha querida? – perguntou Mrs. Pryor.
– Eu estava assobiando – respondeu Miss Keeldar. – Esqueci-me. Perdão, senhora. Tinha tomado a resolução de não assobiar diante da senhora.
– Mas, Miss Keeldar! Onde aprendeu a assobiar? Deve ter contraído esse hábito desde que veio para Yorkshire. Nunca a ouvi assobiar antes.
– Oh! Aprendi a assobiar há muito tempo.
– Quem lhe ensinou?
– Ninguém. Aprendi ouvindo e achava que já tinha me esquecido. Mas, recentemente, aliás, ontem à tarde, ouvi um senhor assobiando essa música no campo do outro lado da sebe e isso me fez recordar.
– Quem era o homem?
– Não temos apenas um cavalheiro na região, minha senhora? Mr. Moore. Pelo menos ele é o único que não tem cabelos brancos. Os meus dois veneráveis favoritos, Mr. Helstone e Mr. Yorke, são na verdade velhos galanteadores infinitamente superiores a todos os demais jovens estúpidos.
Mrs. Pryor ficou em silêncio.
– A senhora não gosta de Mr. Helstone?
– Minha querida, as funções de Mr. Helstone o protegem das críticas.
– Observo que a senhora se retira da sala quando ele é anunciado.
– Tenciona sair esta manhã, minha querida? – desconversou Mrs. Pryor.
– Sim. Vou ao presbitério buscar Caroline Helstone e incentivá-la a fazer um pouco de exercício. Farei com que caminhe pelos lados de Nunnely.
– Se vai naquela direção, minha querida, tenha a bondade de lembrar Miss Helstone que se agasalhe. O vento está frio e ela me pareceu tão frágil.
– Obedecerei minuciosamente, minha senhora. Não quer acompanhar-nos?
– Não, meu amor. Eu seria um empecilho. Sou pesada e não poderia andar tão rápido como as meninas.
Miss Keeldar não teve dificuldades em persuadir Miss Helstone a acompanhá-la e, quando ficaram a sós na estrada tranquila e solitária de Nunnely, ela começou facilmente a conversar. Dominando sua timidez, Miss Caroline sentiu logo grande prazer em conversar com Miss Keeldar. A primeira troca de observações banais bastou para dar a cada uma a ideia do que era a companhia uma da outra. Miss Keeldar disse que gostava da extensão verde da relva que as rodeava e mais ainda da vegetação que cobria os cumes, pois se lembrava das suas viagens na fronteira da Escócia. Recordava especialmente de uma região que tinha atravessado durante uma longa tarde de verão em que não havia sol, mas que o calor era abrasador. Ela viajara do meio-dia até o pôr do sol sobre o que parecia uma solidão sem fim, coberta de altas sebes, sem ver outros seres a não ser carneiros selvagens, sem ouvir outros gritos senão os das aves selvagens.
– Eu sei como é isso – disse Miss Helstone.
– Sim – olha aquelas nuvens! Iguaizinhas as da Escócia na tarde que mencionei – disse Miss Keeldar.
– Trovejava?
– Ouvia-se ao longe o surdo ribombar dos trovões, mas a tempestade só rebentou ao anoitecer quando já havíamos chegado na nossa pousada. Bem, se pousada for uma casa isolada no sopé de uma cadeia de montanhas.
– Você observou como as nuvens descem sobre as montanhas?
– Sim. Fiquei uma hora em pé na janela para gozar desse espetáculo. Os montes pareciam envolvidos num nevoeiro sombrio e, quando a chuva caía em torrentes, de repente, eles desapareceram. Foram lavados deste mundo.
– Vi tempestades assim nos distritos montanhosos de Yorkshire e, quando o céu estava transformado em uma catarata e a terra toda inundada, lembrei-me do dilúvio.
– Como é reconfortante depois dessas tempestades. Sentir renascer a calma e distinguir através das nuvens um raio de luz atestando que o sol não se submergiu.
– Miss Keeldar, pare um instante e olhe para o vale e as flores de Nunnely!
Ambas pararam no limite verdejante da planície e mergulharam seus olhares no profundo vale vestido com as vestes da primavera, sobre os prados cobertos de margaridas e botões-de-ouro. Neste dia, tudo isso, aquele verde novo, sorria para a clara luz do sol. As colinas distantes se encontravam com o horizonte fazendo uma sombra matizada como uma grande pérola. Por cima dos bosques, o que restava de uma floresta primitiva, dormia à sombra de uma nuvem. As montanhas longínquas eram matizadas de diferentes tons: azul-prateado, roxo, verde e rosa, uma fusão de cores junto das nuvens brancas como lã, puras como a neve, seduzidas pelos olhares daquela remota visão do céu. O ar que banhava a fronte das duas moças era fresco e doce.
– A nossa Inglaterra é uma ilha encantadora! – exclamou Miss Keeldar. – E o Yorkshire é um de seus recantos mais belos.
– Você também é filha de Yorkshire? – perguntou Miss Helstone.
– Sim. De sangue e nascimento. Cinco gerações da minha família dormem sob as naves da igreja de Briarfield. Foi naquela velha casa que está atrás de nós que eu respirei pela primeira vez.
Posto isto, Miss Helstone estendeu-lhe a mão, que foi, portanto, tomada e abalada.
– Então somos compatriotas – disse ela.
– Sim – concordou Miss Keeldar, com um aceno grave de cabeça, e, apontando para a floresta, perguntou: – Aquilo é o bosque de Nunnely? Você já foi lá?
– Muitas vezes – respondeu Miss Helstone.
– No coração dele?
– Sim.
– Como é ele?
– É como um acampamento dos filhos da floresta de Anaque[10]. As árvores são velhas e enormes. Quando você está de pé em suas raízes, a cúpula parece que está em outra região. Os troncos são firmes como pilares, enquanto os galhos balançam a cada brisa suave. Mas, quando não há vento, seus ramos ficam numa imobilidade absoluta, e com a ventania parecem uma onda que avança num mar de trovões acima de nós.
– Não foi um dos refúgios de Robin Hood? – brincou Miss Keeldar.
– Sim e ainda há vestígios de sua estadia por lá. Penetrar nos bosques de Nunnely, Miss Keeldar, é recuar muito longe para os dias sombrios do passado. Você pode ver um vale no meio da floresta, no centro?
– Sim, claramente.
– Essa ruptura é um oco profundo revestido com uma relva tão verde e curta como um gramado. Nele existem árvores antigas e retorcidas, carvalhos poderosos, uma multidão deles. No fundo desse buraco existem as ruínas de um convento de freiras.
– Vamos um dia a esse bosque, eu e você sozinhas? Podemos levantar bem cedo, Caroline, e sair ainda no início de uma manhã de verão. Passaremos um dia inteiro lá. O que acha? Podemos levar lápis para fazermos esboços, livros interessantes e qualquer coisa para comermos. Tenho duas cestinhas nas quais Mrs. Gill, a minha despenseira, poderá embalar as nossas provisões. Não vai cansá-la demais andar tão longe, não é?
– Oh, não! Especialmente se eu descansar por muito tempo no bosque. Conheço todos os pontos agradáveis dele e sei onde poderíamos obter nozes, avelãs e onde morangos silvestres abundam. Conheço certos sítios atapetados de musgos, com clareiras inexploradas, algumas amarelas bem douradas, algumas cinzentas e sombrias, outra parecida com uma verde pedra preciosa. Sei de grupos de árvores que encantam a vista pelo seu efeito pitoresco: carvalhos, bétulas, faias e alguns freixos isolados e envolvidos em mantos brilhantes de hera. Posso muito bem servir-lhe de guia, Miss Keeldar!
– Não se aborreceria e acharia maçante passar o dia inteiro sozinha comigo?
– De forma alguma! Penso que nos entenderíamos muito bem e, no mais, qual seria a terceira pessoa, cuja presença estragaria o nosso prazer?
– Na verdade eu não conheço nenhuma que tenha mais ou menos a nossa idade, isto é, nenhuma mulher pelo menos, e quanto a homens...
– Uma excursão torna-se uma coisa muito diferente quando há homens – interrompeu Miss Helstone.
– Concordo com você. Seria uma coisa muito diferente do que estávamos propondo.
– Estávamos indo simplesmente para ver as velhas árvores, as ruínas antigas, para passar um dia em tempos antigos, rodeadas de silêncio e, acima de tudo, pela quietude.
– Está certa. A presença de cavalheiros dissipa o charme. Ainda mais se forem do tipo errado como: Mr. Malone, Mr. Wynne e aquele outro. A irritação tomaria o lugar da serenidade.
– Nosso poder de ser feliz está em nós, eu acredito – comentou Miss Helstone, sabiamente. – Fui ao bosque de Nunnely com muita gente, os curas, diversas senhoras, e eu achei a excursão insuportavelmente tediosa e barulhenta. Voltei lá sozinha com Fanny, que ficou sentada na cabana do lenhador costurando e entretendo sua esposa, enquanto eu vagava por todos os cantos fazendo esboços e lendo, e gozei de uma calma felicidade durante todo o dia. Mas, isso foi quando eu era mais jovem. Há dois anos.
– Foi lá com o seu primo, Mr. Moore?
– Sim, uma vez.
– Que tipo de companheiro é ele nessas ocasiões?
– Um primo, como sabe, não é um estranho.
– Sim, mas estou ciente também de que os primos, quando estúpidos, são ainda mais insuportáveis do que os estranhos, porque você não pode tão facilmente os manter distantes, mas seu primo não é estúpido, não é?
– Não, mas...
– Bem?
– Se, como você disse, a companhia dos tolos a irrita, a convivência dos homens superiores deixa uma impressão penosa. Quando a bondade ou o talento estão além e acima de qualquer dúvida, sua própria dignidade de ser seu associado, muitas vezes, torna-se uma questão difícil de ser transportada.
– Oh! Isso não me apoquentaria nem por um instante sequer. Não me considero indigna de ser a companheira de qualquer homem, embora esteja sendo pedante. Quando eles são bons, eles são muito bons, creio. O seu tio não é um mau espécime de senhor idoso. Fico sempre contente de ver aquele rosto moreno e inteligente em minha própria casa ou em qualquer outro lugar. Você gosta dele? Ele é gentil com você? Agora, fale a verdade.
– Foi ele quem me educou desde a infância, precisamente como ele teria criado sua própria filha se tivesse uma, não tenho dúvida. Isso é bondade e, contudo, estou longe de amá-lo profundamente. Gosto mais de estar longe do que em sua presença.
– É estranho. Ele tem a arte de se fazer tão agradável.
– Sim, em sociedade, mas em casa ele é duro e silencioso. Assim como deixa sua bengala e seu chapéu no vestíbulo do salão paroquial, guarda no mesmo lugar sua vivacidade e sua alegria. Em casa está sempre de testa enrugada e é de poucas palavras. Em sociedade é todo sorriso, brincadeiras e repleto de ditos espirituosos.
– Ele é tirânico?
– Nem um pouco. Não é nem tirano nem hipócrita. É simplesmente um homem mais liberal do que afável, mais brilhante do que alegre, mais escrupulosamente do que verdadeiramente justo, se pode entender distinções tão sutis.
– Oh, sim. A afabilidade implica a indulgência que lhe é desconhecida; a suave alegria acompanha um coração ardente que ele não possui, e a verdadeira justiça engendra a simpatia de que eu suspeito que o meu velho amigo seja absolutamente destituído.
– Muitas vezes eu me pergunto, Shirley, se a maioria dos homens se assemelha ao meu tio nas relações domésticas, isto é, se é impossível, para aqueles que se veem todos os dias, conservar a afeição e o interesse constante.
– Eu não sei e temo não poder esclarecer suas dúvidas. Por vezes eu também as tenho. Mas, para lhe contar um segredo, se eu estivesse convencida de que os homens diferem de nós necessária e universalmente, que são inconstantes, por vezes perversos e sem compreensão, nunca me casaria. Seria muito penoso vir a descobrir que não era amada por aquele que eu amasse, e verificar a absoluta inutilidade dos esforços que eu fizesse para lhe agradar. Uma vez feita essa descoberta, que partido eu tomaria? Teria que ir embora para sempre, afastar-me-ia da pessoa para quem a minha presença fosse inoportuna.
– Mas não poderia fazer se estivesse casada.
– Não, não poderia. Aí está. Não poderia voltar a ser senhora de mim. Este pensamento é terrível e me sufoca! Nada me irrita tanto como a ideia de ser um fardo ou um aborrecimento.
– Eu me pergunto por que nós todas não resolvemos permanecer solteiras – disse Miss Helstone. – Nós devemos ouvir a sabedoria da experiência. Meu tio sempre fala do casamento como um fardo e, eu acredito que, quando ele fica sabendo de um homem que quer se casar, ele o considera invariavelmente um tolo ou louco.
– Mas, Caroline, os homens não são todos como seu tio. Certamente que não. Espero que não.
Ela fez uma pausa e refletiu.
– Acho que cada uma de nós encontrará uma exceção a favor daquele que amamos até sermos casadas – sugeriu Miss Helstone.
– Acho que sim. E julgamos essa exceção perfeitamente justa. Imaginamos que são como nós, só lemos em seus olhos a afeição, só ouvimos a sua voz suave. Acho que não devemos confiar no que eles chamam de paixão, Caroline. Acredito que é fogo nos galhos secos, queima e logo desaparece. Nós os vemos ser benévolos com os animais, com as criancinhas, com os pobres, e achamos que conosco será da mesma forma, isto é, que serão sempre bons e atenciosos. Observamos ainda que ele é justo, que sempre fala a verdade, que é consciente, e sentimos alegria e paz por ele ser um bom filho e um irmão dedicado. Quem ousaria dizer que ele não será um bom marido?
– Meu tio afirmaria sem hesitar. Ele diria que ele estará cansado de nós antes de um mês.
– Mrs. Pryor afirmaria seriamente o mesmo.
– Mrs. Yorke e Miss Mann também.
– Se esses oráculos são verdadeiros, é bom nunca nos apaixonarmos.
– Muito bom, se você pode evitar.
– Mas, escolho duvidar da sua autenticidade.
– Temo que seja a prova de que o seu coração já está tomado – disse Miss Caroline.
– De maneira nenhuma. Mas, se assim fosse, sabe que oráculo eu iria consultar?
– Diga.
– Nem um homem nem uma mulher, nem velhos nem os jovens, mas o pequeno mendigo irlandês que vem à minha porta de pés descalços; o pássaro que, mesmo em dia de neve ou geada, bate com o bico na janela para ter uma migalha; o cão que lambe a minha mão e senta-se ao lado dos meus joelhos.
– Já viu alguém que foi gentil com tais seres?
– E você já viu alguns desses seres sentir instintivamente que alguém os ama e procurar nele a sua proteção? – perguntou Miss Keeldar.
– Temos uma gata preta e um cão velho na reitoria. Sei de alguém, cujo joelho a gata preta gosta de escalar, contra o ombro e rosto ela gosta de ronronar. O velho cão sempre sai de seu canil, abana o rabo e põe-se a ladrar afetuosamente quando esse alguém passa junto dele.
– E o que esse alguém faz para merecer tudo isso?
– Ele calmamente afaga a gata e permite que ela se sente em seus joelhos e, quando ela o perturba demais com o seu ronronar, ele a coloca suavemente no chão, nunca a arremessa para longe dele. Ele sempre assobia para o cão e dá-lhe uma carícia.
– Será que esse não é Mr. Moore?
– É ele mesmo.
– Que belo companheiro! – disse Miss Keeldar, com entusiasmo. Seus olhos brilhavam.
– Não é verdade que ele é bonito? Não tem belos olhos, traços bem desenhados, uma fronte límpida e principesca?
– Tem tudo isso. Possui ao mesmo tempo o encanto e a bondade.
– Tinha a certeza de que o julgaria assim. Quando eu olhei pela primeira vez para o seu rosto, eu sabia que o faria – disse Miss Helstone.
– Já estava bem inclinada a ele antes mesmo de conhecê-lo. Quando o vi, gostei dele e o admiro agora. A beleza e o charme têm grande encanto, Caroline. Mas quando elas se mesclam com bondade, esse encanto é poderoso.
– E quando tem ainda a inteligência – ponderou Miss Caroline.
– Quem poderá resistir-lhe?
– Lembre-se do que disse meu tio e do que disseram Mrs. Pryor, Mrs. Yorke e Miss Mann – observou Miss Helstone.
– E lembre-se também do coaxar das rãs do Egito. Ele é um ser nobre. Um homem grande, bom e belo é, sem contradição, a primeira das coisas criadas.
– Acima de nós?
– Desprezo-me por disputar o império com eles, sim, eu desprezo isso. Seria como se a minha mão esquerda disputasse a precedência com a minha direita. Seria como se as minhas veias tivessem ciúmes do sangue que circula nelas e isso é ridículo. Não quero entrar nessa disputa.
– Os maridos e as esposas brigam horrivelmente, Shirley.
– Coitados! Pobres criaturas. Deus os fez para outro destino, para outros sentimentos.
– Mas, enfim, somos ou não iguais aos homens?
– Nada me encanta mais do que encontrar o meu superior, alguém que me faça sinceramente sentir que me é superior.
– Alguma vez você encontrou? – perguntou Miss Helstone.
– Desejo encontrá-lo qualquer dia.
– Miss Keeldar, você quer entrar? Estamos chegando ao presbitério.
– Hoje, não. Mas amanhã virei buscá-la para passar a noite comigo. Caroline Helstone, se você realmente é o que no momento me parece que é, seremos amigas. Nunca na minha vida inteira fui capaz de falar com uma jovem como eu falei com você hoje. Dê-me um beijo e até amanhã.
*******
Mrs. Pryor parecia tão disposta como Miss Keeldar a cultivar a amizade de Miss Helstone. Ela, que não ia a parte alguma, escolheu uma tarde em que o reitor não estava em casa e, em poucos dias, estava no presbitério. O dia quente e, somado a essa circunstância, o embaraço de entrar em uma casa estranha – pois ela parecia habituada a viver retraída e isolada – deixaram-na toda afogueada, parecendo vividamente perturbada.
Quando Miss Helstone entrou na sala de jantar, encontrou-a sentada no sofá, tremendo, abanando-se com o lenço parecendo que lhe faltava ar; ela parecia lutar com uma perturbação nervosa que ameaçava torná-la histérica.
Miss Helstone admirou-se de ver uma dama daquela idade tão pouco senhora de si. Ela não compreendia aquela fraqueza numa mulher de aparência robusta, porque Mrs. Pryor apressou-se a alegar o cansaço de sua caminhada e o calor do sol como razões da sua indisposição temporária. Miss Caroline, gentilmente, procurou aliviar seu calor, ajudando-a a se livrar do seu xale e a retirar a touca. Mrs. Pryor não teria aceitado semelhantes atenções de todas as pessoas, pois, em geral, ela recuava de qualquer contato ou da aproximação de uma mão estranha. No entanto, para a pequena mão de Miss Helstone, ela se rendeu e parecia aliviada por seu contato. Em poucos minutos, ela deixou de tremer, ficou quieta e tranquila.
Mrs. Pryor tinha ideias sensatas e conhecimentos variados, portanto, começou a falar de temas comuns. Miss Helstone encontrou mais prazer em escutá-la do que esperava, falou sem restrição e o diálogo fluiu. Na parede em frente ao sofá onde estavam sentadas estavam penduradas três fotos: a do centro, acima da lareira, era a de uma mulher e as outras duas fotografias eram masculinas.
– Que belo rosto! – exclamou Mrs. Pryor, interrompendo a meia hora de conversa animada. – Os traços são perfeitos e nenhum cinzel de pintor poderia melhorá-lo. É um retrato, eu presumo.
– É o retrato de Mrs. Helstone.
– De Mrs. Matthewson Helstone, a esposa de seu tio?
– É. E dizem que é muito parecido com o que ela era. Antes de seu casamento, ela era apontada como a beleza do distrito.
– Eu deveria dizer que ela mereceu essa distinção. Que precisão em todos os traços! Contudo, é um rosto passivo. Ela não deve ter sido o que se chama de mulher de espírito.
– Creio que ela era uma pessoa incrivelmente calma e silenciosa.
– Dificilmente eu teria esperado, minha querida, que a escolha de seu tio caísse sobre uma pessoa com essa descrição. Afinal, ele não gosta de ser divertido com uma animada tagarelice?
– Em sociedade, sim. Mas, ele sempre diz que nunca poderia suportar uma mulher faladora. Em casa ele gosta de sossego para refletir.
– Mrs. Matthewson parece que viveu poucos anos depois de seu casamento, acho que ouvi isso.
– Cerca de cinco anos.
– Bem, minha querida – prosseguiu Mrs. Pryor, erguendo-se para sair – fica combinado que irá muitas vezes a Fieldhead. Espero que você não deixe de ir, não deve ficar solitária aqui, não tendo nenhum parente na casa, e se precisar de conselhos sobre seus estudos, pode me procurar.
– Estou acostumada a isso, pois tenho crescido sozinha. Vou buscar seu xale e sua touca.
– Mas, se você quiser que eu a assista em seus estudos, estou à disposição.
Miss Caroline expressou com calor sua gratidão e amabilidade.
– Espero conversar muito com a menina. Desejo muito lhe ser útil – insistiu Mrs. Pryor.
Mais uma vez Miss Helstone agradeceu. Ela pensou que bom coração estava escondido sob a aparente frieza da sua visitante. Observando que, ao sair, Mrs. Pryor voltava a olhar com um ar de interesse para os retratos, Miss Caroline casualmente explicou:
– O retrato mais próximo da janela, como pode ver, é do meu tio há vinte anos. O outro, à esquerda da lareira, é do seu irmão, meu pai.
– São parecidos – disse Mrs. Pryor. – Nota-se, contudo, uma diferença de caráter no traçado da testa e da boca.
– Que diferença? – Miss Caroline perguntou, acompanhando-a até a porta. – James Helstone, quer dizer, meu pai, é considerado o melhor dos dois. Tenho notado que as pessoas comentam sempre: ‘que homem bonito!’ Você não acha a sua imagem bonita também, Mrs. Pryor?
– Os traços são mais suaves e mais finos do que os de seu tio.
– Mas, onde está a diferença de caráter a que a senhora aludiu? Diga-me. Quero ver se a senhora acerta.
– Minha querida, seu tio é um homem de princípios. Sua testa e seus lábios são firmes; seu olhar, direto; e o outro...
– Bem. Não tenha medo de ofender-me. Sempre gosto da verdade.
– Gosta da verdade? É bom para você. O outro, minha querida, se tivesse vivido até hoje, de pouca ajuda seria para sua filha. É, no entanto, uma graciosa cabeça. Minha cara – disse ela voltando-se de repente – acha que os princípios têm valor inestimável?
– Tenho certeza de que sem eles nenhum caráter tem valor.
– Você sente a importância do que diz, Caroline?
– Sim. Muitas vezes as circunstâncias me forçaram a refletir sobre isso desde muito cedo.
– Então a lição não foi perdida, ainda que tenha vindo prematuramente. Minha querida, não fique assim à porta, está frio e pode se resfriar.
Os novos conhecimentos de Miss Helstone logo se tornaram preciosos para ela. A sua companhia era sempre reconhecida como um privilégio. Ela descobriu que teria sido um erro, de fato, ter deixado escapar a oportunidade desse alívio, por ter se deixado valer-se dessa mudança feliz. Uma vez assim, seus pensamentos ganharam um novo rumo e um novo canal foi aberto para eles, desviando alguns deles da direção em que seguiam e diminuindo o ímpeto de sua paixão.
Pouco tempo depois, Miss Caroline sentia-se encantada em passar dias inteiros em Fieldhead, tendo a sua companhia disputada ora por Miss Shirley ora pela Mrs. Pryor. A todo instante uma delas reclamava a sua presença. Nada poderia ser menos demonstrativo do que a amizade da mulher mais velha, embora ela fosse também vigilante, assídua e incansável. Nada punha melhor em evidência a sua personalidade peculiar do que o interesse que demonstrava por Miss Caroline. Ela vigiava todos os seus movimentos, parecia querer protegê-la. Ela sentia prazer quando Miss Helstone lhe pedia conselhos e assistência. Ajudava-a com tal ardor que em breve a moça teve prazer em recorrer a ela.
A completa docilidade de Miss Shirley Keeldar para com Mrs. Pryor a princípio surpreendera Miss Helstone, e não menos o fato da ex-professora ficar tão à vontade na residência de sua jovem pupila, onde exercia com calma e independência umas funções muito dependentes. No entanto, Miss Caroline logo descobriu que bastasse conhecer as duas senhoras para compreender o enigma. Parecia impossível conhecer Mrs. Pryor sem estimá-la e amá-la. Pouco importava que ela andasse sempre com roupas antiquadas, que seu discurso fosse formal e que tivesse vinte pequenas singularidades. Era a sua maneira de ser, ela era como um guia seguro, uma conselheira fiel, tão bondosa que, na mente de Miss Caroline, nenhuma pessoa acostumada à sua presença poderia facilmente se dar ao luxo de prescindir dela.
Quanto à dependência, se Miss Caroline não a sentia nas relações com Miss Shirley, por que sentiria com relação à Mrs. Pryor? A herdeira era rica, muito rica em comparação com sua nova amiga: uma possuía um rendimento líquido de mil libras por ano; a outra, nem um penny. Contudo, ela sentia em ambas uma igualdade que não se via na sociedade ordinária de Briarfield ou de Whinbury.
O motivo disso era a mente de Miss Shirley Keeldar. Ela não se preocupava apenas com o dinheiro e a posição social. Lógico que ela estava contente pela independência que o dinheiro lhe dava. Por vezes sentia-se entusiasmada com a ideia de ser dona de uma mansão, que tinha rendeiros e uma grande propriedade. Evocava com certa complacência a extensão de seus domínios de Hollow, que compreendiam um excelente moinho para fábrica de tecidos, uma tinturaria, armazéns, a casa, o jardim e os edifícios exteriores chamados de cottage de Hollow. Mas, era uma exultação bastante indisfarçável e singularmente inofensiva. Os seus pensamentos elevados tendiam para outro curso. Admirar o que era grande, respeitar o que era bom, mostrar-se alegre com a alegria dos outros, tal era a inclinação natural da alma de Miss Keeldar, que meditava mais nos meios de seguir sua inclinação do que na sua superioridade social.
Miss Keeldar pela primeira vez tinha sentido um interesse real por Miss Helstone, que era calma, recolhida e, como parecia ter uma saúde delicada, precisava de alguém para cuidar dela. A sua predileção aumentou ainda mais quando descobriu que a sua maneira de pensar e falar era apreciada por ela. Ela não esperava isso. Miss Caroline, de fato, gostava das mesmas coisas que sua nova amiga: os livros que Miss Keeldar tinha lido com mais prazer eram os preferidos de Miss Helstone. Muitas aversões também eram comuns às duas, e entendiam-se maravilhosamente para rir das pretensões pomposas e do falso sentimentalismo.
Miss Shirley Keeldar achou que Miss Caroline Helstone sabia distinguir o puro metal das escórias brilhantes e sem valor. Ela tinha uma ou duas vezes ouvido pessoas muito inteligentes pronunciarem esta passagem e achou completamente admirável que, quando ela leu a alma de Miss Caroline, recusou-se a reconhecer como qualquer coisa que não pudesse ser mais colorida. As mentes das duas misses estavam sempre em harmonia e, muitas vezes, soavam docemente juntas.
Certa noite elas tiveram a oportunidade de estar sozinhas no salão, ao fim de um longo dia de chuva sem tédio. Estava quase escurecendo, mas ainda não tinham trazido as velas e o crepúsculo se aprofundava. Um vento ocidental rugiu alto do salão trazendo nuvens selvagens e uma chuva tempestuosa caía lá fora nas treliças antigas, mas dentro de casa reinava toda a paz. Miss Keeldar estava sentada à janela contemplando a tempestade que ia ao céu e o nevoeiro que cobria a terra, escutando certas notas da ventania que choravam como inquietos espíritos. Ressoavam-lhe aos ouvidos fragmentos de suaves baladas, ela cantou uma ou duas estrofes. Miss Helstone, retirada um pouco de Miss Keeldar num lado mais escuro do salão, com o rosto iluminado apenas pelo reflexo do fogo sem chama, passeava de um lado para outro, murmurando para si fragmentos de poesia gravados na memória.
– Você gosta de homens tipo Rousseau, Caroline?
– De maneira alguma, mas simpatizo intensamente com certas qualidades que possuem. Certas centelhas divinas da sua natureza deslumbram-me os olhos e inflamam minha alma. Apesar disso, desprezo-os. São feitos de barro e ouro. A escória e o metal formam uma massa fraca. Para dizer tudo o que eu penso, são caracteres contra a natureza, insalubres e repugnantes.
– Atrevo-me a dizer que eu seria mais tolerante com um Rousseau do que você, Caroline. Por natureza você é submissa e contemplativa, mas, contudo, gosta dos homens positivos e práticos. Dessa maneira, deve lastimar muito por seu primo Mr. Moore, agora que você e ele nunca se encontram.
– Lamento, é verdade.
– E ele deve lamentar também.
– Oh! Decerto que não.
– Não posso imaginar – prosseguiu Miss Keeldar, que recentemente tinha tomado o hábito de introduzir o nome de Mr. Moore nas conversas, mesmo quando ele parecia não ter nada a ver com ela. – Não consigo imaginar que ele não tenha uma profunda afeição por você, que ele não estava apaixonado, pois ele lhe dava tanta atenção e até mesmo a instruía.
– Ele nunca teve por mim uma afeição profunda, aliás, ele nunca professou gostar de mim. Pelo contrário, fazia o possível para provar que apenas me tolerava.
Miss Caroline tinha suas razões para ser menos confiante do que nunca no futuro. Ela estava determinada a não errar e ser lisonjeira em relação à estimativa de seu primo para com ela. Ela não tinha razões para ser otimista, para ter esperança no futuro e não queria recordar o passado.
– Então – observou Miss Keeldar – em troca você apenas o tolerava?
– Shirley, os homens e as mulheres são tão diferentes. Estão em uma posição tão desigual. As mulheres têm tão poucas coisas com que se ocupar e os homens, ao contrário, têm tantas. Podemos ter uma amizade por um homem, mesmo quando ele é quase indiferente a nós. Robert costumava ir a Londres por uma ou duas semanas. Pois bem, mal ele partia, a sua ausência deixava-me um vazio. Briarfield ficava maçante e triste. Eu tinha as minhas ocupações habituais e, ainda assim, sentia sua falta. Enquanto eu estava sentada sozinha à noite, eu sentia uma estranha certeza, uma convicção a qual não posso descrever, como se um mago ou um gênio, naquele momento, me mostrasse (você se lembra das Mil e Uma Noites?), era como se, com a sua ajuda, eu pudesse ter uma visão de Robert. Eu sabia que, embora todos os meus pensamentos fossem para ele, os seus estavam longe de mim.
– Caroline – perguntou bruscamente Miss Keeldar – você não gostaria de ter uma profissão, um comércio?
– Cinquenta vezes por dia eu desejo isso. Anseio ter algo absorvendo-me, preenchendo minha mente, ocupando minhas mãos e meus pensamentos.
– Pensa que só o trabalho pode fazer um ser humano feliz?
– Não, mas pode atenuar a dor e impedir que ela quebre nossos corações como um tirano. Além disso, o trabalho bem-sucedido tem sua recompensa. No entanto, uma existência vazia, triste e sem esperança não tem nenhuma.
– Dizem que os trabalhos rudes e as profissões liberais tornam as mulheres masculinizadas e desgraciosas.
– O que importa isso para as solteiras? O que importa que sejam ou não privadas de atrativos? Logo que sejam decentes, úteis e limpas o suficiente.
– Você fala como uma solteirona.
– Serei uma delas. É o meu destino. Nunca me casarei com um Mr. Malone ou um Mr. Sykes e ninguém mais vai querer se casar comigo.
Seguiu-se uma longa pausa. Miss Keeldar a quebrou. Mais uma vez veio aos seus lábios o nome pelo qual ela parecia enfeitiçada.
– Lina. Mr. Moore não a chamava de Lina às vezes?
– Sim. Em sua terra natal, Lina é, às vezes, usado como abreviação de Caroline.
– Bem, Lina, você se lembra de que lhe fiz notar sobre a desigualdade na sua cabeleira, um caracol que lhe faltava aqui do lado direito, e a resposta que Caroline me deu foi que tinha sido culpa de Robert, que lhe havia cortado uma grande madeixa?
– Sim. Lembro-me.
– Se Mr. Moore lhe fosse indiferente como você diz, para que quereria ele seus cabelos?
– Ah, não sei. Ah, já me lembro! Foi de mim que isso partiu, não foi dele. É sempre de mim que surgem as ideias desse gênero. Ele ia partir para uma viagem à noite. Antes da sua partida, encontrei na caixa de costura de Hortense uma madeixa de cabelos curta, preta e frisada. Hortense me disse que era de seu outro irmão, uma recordação. Robert estava sentado perto da mesa, olhei para sua cabeça e vi que o cabelo dele era abundante. Caíam-lhe sobre a fronte alguns daqueles cachos redondos. Pensei que ele poderia me dar um. Eu o queria muito e perguntei a ele. Ele disse que me daria na condição de que ele pudesse escolher uma trança da minha cabeça. Então ele cortou uma de minhas longas madeixas e eu um de seus curtos cachos. Ainda o guardo comigo, mas ouso dizer que ele perdeu a minha, com certeza. Aí está uma dessas minhas ações patetas que me afligem o coração e põem o meu rosto a arder quando penso nelas.
– Caroline!
– Julgo-me tola, Shirley, em alguns aspectos. Desprezo-me. Mas, eu disse que não a queria como minha confessora, pois você não pode fazer comigo uma troca recíproca de fraquezas. Você não é fraca como eu. Desvie de mim esse olhar penetrante, Shirley! É um insulto para mim.
– Não a acho fraca, Caroline. Certamente que não. Entre!
Esta palavra foi a resposta a uma leve pancada na porta. Miss Keeldar estava naquele momento perto da porta e Miss Caroline na outra extremidade da sala. Ela viu um bilhete sendo colocado nas mãos de Miss Shirley e ouviu as palavras:
– Mr. Moore lhe mandou, senhora.
– Traga velas – ordenou Miss Keeldar.
Miss Caroline sentou-se, expectante.
– Uma comunicação sobre negócios – disse a herdeira, mas quando as velas chegaram, ela não o abriu nem o leu. Logo depois vieram dizer que Fanny, a criada do reverendo, tinha acabado de chegar para levar a sobrinha do reitor para casa.
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