Shirley
Capítulo VIII
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Noé e Moisés
No dia seguinte Mr. Moore levantou-se antes do dia amanhecer, foi a cavalo a Whinbury e retornou antes que sua irmã tivesse preparado o café da manhã. O motivo de sua estada em Whinbury, ele não disse a ninguém e também Miss Hortense não fez perguntas. Não era costume de Mr. Moore comentar sobre suas saídas, negócios complicados, e, muitas vezes, ele guardava sombrios segredos em seu peito para não preocupar sua irmã.
Depois do café, ele se dirigiu ao escritório para ler as correspondências entregues pelo filho de Joe Scott, Harry. As notícias não eram nada boas, pelo contrário, pois quando Mr. Moore pousou a última carta, suas narinas dilatadas exprimiam certa cólera irônica e desafiadora. Embora ele não tenha dado margens para explosões, havia um olhar que parecia invocar o diabo para que este varresse os encargos e as preocupações para o inferno. No entanto, tendo escolhido uma pena, seus movimentos enquanto escrevia demonstravam furor (somente nos dedos, pois seu rosto estava plácido), escreveu uma porção de respostas e lacrou-as. Então saiu e atravessou o moinho. Na volta, ele sentou-se para ler o jornal.
O conteúdo parecia não ter grande interesse. Por mais de uma vez pousou o jornal nos joelhos, cruzou os braços, olhou para o fogo, virou a cabeça em direção à janela e, ocasionalmente, olhava para o relógio. Em suma, sua mente parecia preocupada. Talvez ele estivesse pensando na beleza do tempo, pois estava uma manhã suave e luminosa para a estação. Talvez ele desejasse gozá-la nos campos. A porta do seu escritório estava escancarada, portanto, a brisa e os raios do sol entravam livremente. Contudo, o visitante não trouxe consigo o perfume da primavera em suas asas, apenas um ocasional sopro de enxofre da espessa coluna de fuligem e fumaça que saíra da chaminé do moinho.
A aparição azul-escura (Joe Scott vinha da cuba de tingimento) apareceu momentaneamente na porta aberta e pronunciou as palavras: – Ele chegou, senhor – e desapareceu.
Mr. Moore não ergueu os olhos do papel. Um homem de estatura elevada, ombros largos e maciços, pernas compridas, envergando um terno de fustão e calçando meias de lã acinzentadas, entrou, foi recebido com um aceno de cabeça e convidado a se sentar. O visitante tirou o chapéu, guardou-o sob sua cadeira, enxugou a testa com um lenço de algodão manchado e colocou em um canto o bastão de oficial que tinha na mão. Feito isso, começou a articular um leve som com os lábios, embora desarticulado, mas provavelmente para se mostrar à vontade.
– Já tem o que é necessário, suponho – disse Mr. Moore.
– Sim, sim. Está tudo certo.
O homem voltou a assobiar e Mr. Moore, à leitura. Aparentemente o jornal tornara-se mais interessante. Não tardou, no entanto, para que ele voltasse para o seu armário, que estava ao alcance do seu longo braço, sem se levantar, e pegasse uma garrafa preta, a mesma com a qual Mr. Malone já travara conhecimento, um copo e uma jarra, colocasse-os sobre a mesa e dissesse ao seu convidado:
– Sirva-se. Tem água naquele pote lá no canto.
– Com todo o gosto. Tenho sempre sede pela manhã – disse o homem, levantando-se e fazendo conforme Mr. Moore lhe sugeriu.
– Mr. Moore não bebe nada? – perguntou ele, enquanto preparava a mistura com uma mão hábil. Depois, tomando um grande gole, deixou-se cair na cadeira, satisfeito. Mr. Moore, lacônico, respondeu com um movimento negativo de cabeça.
– Faz mal – continuou o visitante – não há nada melhor para enxotar o aborrecimento. Excelente marca holandesa! Manda trazer do estrangeiro com certeza. Creio que seria muito bom se bebesse um copo. Os rapazes que vêm aí vão fazê-lo falar durante muito tempo. Precisa ganhar forças.
– Viu esta manhã Mr. Sykes? – indagou Mr. Moore.
– Vi-o há um quarto de hora. Ele me disse que tinha a intenção de vir aqui e eu não ficaria admirado de vê-lo chegando com o velho Mr. Helstone. Eu reparei que este selava seu pônei quando passei na parte de trás do presbitério.
A profecia mostrou-se verdadeira, pois passados cinco minutos ouviu-se o trote do pônei entrando no pátio e uma voz nasal familiar exclamando:
– Rapaz (provavelmente abordando Harry Scott), segure meu cavalo e leve-o para o estábulo.
Mr. Helstone entrou ereto e marchando com agilidade, parecendo mais vivo e animado do que de costume.
– Bela manhã, Moore! Como é, meu rapaz? Ha! Olha quem temos aqui! (dirigindo-se ao personagem do bastão). – Sugden! O quê! Você vai trabalhar nisso diretamente? Palavra! Você não perde tempo mesmo, não é, meu rapaz? Mas, Moore, eu vim lhe pedir explicações. Entregaram-me seu recado. Tem certeza de que a pista é boa mesmo? Como vai tratar disso? Arranjou um mandado de prisão?
– Sugden tem um.
– Então, se você vai procurar o culpado, eu vou acompanhá-lo.
– Será poupado desse trabalho. Ele vem me procurar. Estamos só aguardando a sua chegada.
– E quem é? Um dos meus paroquianos?
Joe Scott havia entrado sem ser visto. Tal como um sinistro fantasma, metade da sua pessoa tingida do mais profundo tom índigo, inclinou-se sobre a mesa. A resposta do seu patrão ao reverendo foi um sorriso. Joe tomou a palavra com um olhar tranquilo, porém arteiro, e disse:
– É um dos seus amigos, Mr. Helstone. Uma pessoa de quem fala muitas vezes.
– De fato, Joe? Diga logo o nome do sujeito. Você me parece bem esta manhã.
– Oh! É apenas o reverendo Moisés Barraclough.
– Ah! – exclamou o reitor, pegando na caixa de rapé e aspirando uma longa pitada. – Ah! Quem poderia supor uma coisa dessas! Mas, o piedoso homem nunca foi seu operário, Moore. Ele é um alfaiate.
– Tanto pior. Mais rancor eu tenho ainda. Por que ele tinha que interferir nos meus negócios e incitar os operários contra mim?
– E Moisés estava realmente presente no caso do pântano de Stilbro? Ele foi lá com aquela perna de pau e tudo?
– Sim, senhor – respondeu Joe. – Ele foi a cavalo para não deixar a pegada da sua perna de pau. Era o chefe e estava usando uma máscara. O restante do grupo só tinha os rostos pintados de preto.
– E como foi que descobriram?
– Vou dizer-lhe, senhor – disse Joe. – Ele estava cortejando a Sarah, a criada de Mr. Moore que, eu não sei se por causa da sua perna de pau ou da sua hipocrisia, não parecia dar-lhe importância. Acontece que Sarah, bem, o senhor sabe como as mulheres são estranhas, ela o encorajava apesar de sua perna, mas tinha outra corda em seu arco, o Fred Murgatroyd, um dos nossos rapazes. Ele gosta dela e, como as mulheres julgam os homens pela cara, e Fred tem um rosto mediano enquanto Moisés não é nada bonito, como todos nós sabemos, a moça assumiu Fred Murgatroyd. Há dois ou três meses, Murgatroyd e Moisés se encontraram num domingo à tarde. Ambos tinham vindo rondar a casa para convidar Sarah para passear. Eles tiveram uma briga e foi o Fred quem apanhou mais. Ele é novo e baixo e Barraclough, mesmo só com uma perna, é quase tão forte quanto o Sugden.
Joe – interrompeu Mr. Moore. – Você é insuportável nas explicações. Quase tão demorado quanto Moisés em seus sermões. Toda a história se resume em que Fred Murgatroyd estava com ciúmes de Moisés Barraclough e, na última noite, quando ele e um amigo se abrigavam da chuva em um celeiro, viram e ouviram Moisés em conferência com seus comparsas. Pelo seu discurso ficou claro que ele era o líder, não só em Stilbro, mas no ataque à propriedade de Mr. Sykes. Além disso, eles planejaram uma delegação e Moisés vem me visitar esta manhã e, no espírito mais religioso e pacífico, deve rogar-me por abrir mão das malditas máquinas. Fui esta manhã a Whinbury, provi-me de um mandado e de um oficial da polícia e agora estou esperando para dar ao meu amigo a recepção que ele merece. Entretanto, Mr. Sykes está chegando e Mr. Helstone deve encorajá-lo, pois teme um processo.
Ouviram um ruído de um cabriolé que entrava no pátio. Mr. Sykes apareceu. Era um homem forte, alto, com cerca de cinquenta anos. Era aprazível de recursos, mas, embora tivesse uma expressão agradável, faltava-lhe energia. Ele parecia ansioso.
– Vieram? Já foram embora? Prendeu-os? Já acabou? – perguntou ele, inquieto.
– Ainda não – respondeu Mr. Moore, com indiferença. – Estamos esperando por eles.
– Não virão. É quase meio-dia. Melhor desistir. Isso vai incitar ódio e trará consequências fatais.
– O senhor não precisa aparecer – respondeu Mr. Moore. – Eu irei encontrá-los no pátio e o senhor pode ficar aqui.
– Mas o meu nome será publicado no processo. Uma esposa e uma família tornam um homem cauteloso.
Mr. Moore olhou-o enojado. – Vá embora se prefere, por favor – disse Mr. Moore. – Deixe-me entregue a mim mesmo. Eu não tenho nenhuma objeção de agir sozinho. Mas pode ter certeza de que não vai encontrar segurança na fraqueza. Seu sócio, Mr. Pearson, cedeu, admitiu e perdoou. Bem, isso não impediu que tentassem matá-lo em sua própria casa, não foi?
– Meu caro senhor, tome um pouco de vinho com água – recomendou Mr. Helstone a Mr. Sykes.
Vinho com água era na realidade uísque e água como descobriu Mr. Sykes depois de tomar dois copos cheios e tornar-se imediatamente ousado. Em dois minutos a cor voltara ao seu rosto e com ela a valentia. Ele anunciou que não deixaria ser pisoteado pela população e que estava determinado a não suportar por mais tempo a insolência das classes trabalhadoras; que tinha reconsiderado e estava decidido a ir até o fim. Mr. Sykes dirigiu-se a Mr. Helstone.
– O senhor, como ministro, talvez ache desagradável estar presente em meio a cenas de tumulto, até posso dizer de perigo. Ouso dizer que seus nervos não vão suportar, afinal é um homem de paz. Mas, para nós, industriais e fabricantes que vivemos num mundo sempre em tumulto, a presença do perigo apenas faz bater mais forte o coração.
A mais estridente gargalhada, embora breve e de modo algum ofensiva, foi a resposta do reverendo. Mr. Moore teria pressionado o heroico industrial a tomar outro copo, mas o clérigo, que nunca transgredia nem permitia que outros transgredissem em sua presença, não permitiu.
– O suficiente é tão bom quanto o que é preciso, não é, Mr. Sykes? – disse o pároco. Mr. Sykes concordou, mas observou com olhos pesarosos Joe Scott, obedecendo a um gesto do reverendo, remover a garrafa. Mr. Moore, com um sorriso travesso nos lábios, demonstrava grande desejo de embriagá-lo. O que diria certa jovem prima se visse o comportamento de seu querido, bom, ótimo Robert, o seu Coriolano? Reconhecê-la-ia naquele rosto travesso e sardônico o mesmo homem que tinha passado a tarde tão tranquila com a irmã e a prima? Aquele para quem ela olhou para cima com tanto amor; aquele que se inclinou sobre ela com tanta gentileza na noite passada? Aquele que leu Shakespeare e ouviu Chénier?
Sim, era o mesmo homem, mas visto por outro lado, um que Miss Helstone ainda não tinha contemplado, embora, talvez, ela não tivesse sagacidade suficiente para suspeitar de sua existência. Bem, Miss Caroline, sem dúvida, tinha seu lado defeituoso também. Ela era humana. Devia ser então muito imperfeita se não tinha visto em Mr. Moore o seu lado pior. Provavelmente já disse isto: o amor pode desculpar qualquer coisa, exceto a maldade, pois a maldade mata o amor. Mr. Moore, com todos os seus defeitos, podia ser estimado, pois ele não tinha nenhum tumor moral em sua mente, nenhuma mancha indestrutível. Ele era de natureza boa e não havia nele falsidade, porém era um discípulo da razão e não um devoto da emoção. O mesmo podia ser dito do velho Mr. Helstone. Nenhum desses dois seria capaz de pensar ou falar uma mentira, pois nenhum deles tinha qualquer encanto pela miserável garrafa preta que acabara de ser posta de lado. Eram seres superiores ao pobre Mr. Sykes.
Ouviram um rumor de passos numerosos vindo do pátio. Mr. Moore e Mr. Helstone foram até a janela e observaram com cautela para não serem visíveis do exterior. O único comentário entre eles foi um sorriso cínico que brilhou em cada um dos olhos severos.
Uma tosse, que se assemelhava a uma introdução de uma oratória, foi ouvida, seguida por uma interjeição destinada a acalmar o zumbido de várias vozes. Mr. Moore entreabriu sua janela para admitir o som mais livremente.
– Joseph Scott... – começou uma voz nasalada – queremos saber se seu patrão está aí dentro e se pode nos atender.
– Está aqui dentro – respondeu Joe, indiferente.
– Será que pode, por favor, ter a bondade de dizer-lhe que doze cavalheiros querem vê-lo?
– Qual o assunto? – perguntou Joe. – Ele poderá perguntar – complementou.
– Viemos com um propósito.
Joe avisou Mr. Moore, que deixou Sugden de plantão: – Venha quando eu assobiar.
Mr. Moore saiu rindo de forma rude. Ele avançou para o pátio com uma das mãos no bolso e a outra no colete. A aba do seu chapéu caía-lhe sobre os olhos para encobrir um pouco da fagulha de profundo desprezo que não conseguia esconder. Doze homens esperavam por ele no pátio, alguns em manga de camisa, outros de aventais azuis. Dois deles estavam visivelmente à frente do bando. Um era um homenzinho garboso, com um nariz arrebitado. O outro tinha uma figura vigorosa, ombros largos, que se distinguia pelo seu ar hipócrita e os olhos de gato nos quais se lia a falsidade, e ainda por uma perna de pau e uma robusta muleta. Uma espécie de rito contraía-lhe os lábios, parecia rir de alguém ou de alguma coisa.
– Bom dia, Mr. Barraclough – disse Mr. Moore, com ar bonachão.
– A paz seja convosco! – foi a resposta que deu Barraclough fechando completamente os olhos de seu natural semicerrados.
– Agradeço-lhe, pois a paz é uma coisa excelente. Não há nada que eu mais queira para mim. Mas, creio que não veio aqui só para isso, isto é, creio que a paz não seja a sua finalidade.
– Pelo o que me diz respeito, a nossa finalidade – começou Barraclough – pode soar estranho e, talvez, insensato aos ouvidos como os seus, porque os filhos deste mundo são mais sábios em sua geração como os filhos da luz.
– Vamos aos fatos, por favor. Diga-me do que se trata – pediu Mr. Moore, impaciente.
– Vai ouvir, senhor. Se eu não souber explicar, atrás de mim tem onze que poderão me ajudar. Trata-se de um grande desejo – mudando a voz de um meio sorriso de escárnio para uma lamentação – e também é desejo do senhor.
– Está querendo uma ajuda financeira para uma nova capela, Mr. Barraclough? A não ser que a sua vinda aqui tenha esse fim, eu não vejo outra razão.
– Eu não tinha esse dever em mente, senhor, mas já que a Providência o levou a mencionar o assunto, receberei o que puder dispor, isto é, o que tiver de sobra, a menor contribuição será aceitável.
Com isso, ele tirou o chapéu e estendeu-o para Mr. Moore como uma caixa de esmolas, com um sorriso de bronze no rosto, ao mesmo tempo que sua fisionomia tomava um ar de feroz imprudência.
– Se eu lhe desse alguma moeda, você iria beber.
Barraclough ergueu as palmas das mãos e seus olhos aos céus na mais grotesca hipocrisia.
– Parece-me uma criatura notável, Mr. Barraclough – disse Mr. Moore, num tom seco e frio – não teme se mostrar um hipócrita inveterado e que seu comércio é a fraude? Você espera, realmente, me fazer rir da habilidade com que desempenha a sua esperteza, ao mesmo tempo que pensa que pode enganar os homens que estão atrás de você?
O semblante de Moisés baixou e ele viu que tinha ido longe demais. Ele ia responder, quando o segundo líder, impaciente por ter sido mantido até então em segundo plano, avançou. Este homem não parecia um traidor, apesar de seu ar convencido e arrogante.
– Mr. Moore – começou ele, falando com ar de importância e pronunciando cada palavra muito lentamente, como para dar aos seus ouvidos tempo para apreciar plenamente a elegância incomum da fraseologia – poder-se-ia, talvez, dizer que a razão, mais do que a paz, é o nosso propósito. Nós viemos em primeiro lugar suplicar que escute a voz da razão e, se recusar, é meu dever preveni-lo de que tomaremos medidas que lhe farão sentir a imprudência, a loucura da sua conduta. Quero dizer, senhor, que, sendo estrangeiro, vindo de uma costa distante, de outro hemisfério deste globo, lançado, como posso dizer, como um pária nestas costas, os penhascos de Albion, o senhor não tem o entendimento do que pode ser vantajoso para as classes trabalhadoras. Para resumir, queremos que abandone essa fábrica e volte sem demora para seu país. É o melhor que tem a fazer. O que me diz disso? – disse ele, voltando-se para os outros membros da delegação, que responderam por unanimidade:
– Bravo! Bravo! Ouça o nosso camarada!
– Bravo, Noé! – murmurou Joe Scott, que estava atrás de Mr. Moore. – Está tão eloquente quanto Moisés. O senhor veio da Antártica, patrão?
Moisés, no entanto, não se deu por vencido. Lançou um olhar zangado para Noé e tentou novamente a sua oratória. Dessa vez, abandonou o sarcasmo que lhe tinha dado mau resultado.
– Antes da sua chegada aqui, Mr. Moore, vivíamos em paz e tranquilidade, isto é, há vinte anos, quando o trabalho manual era estimado e respeitado, não havia máquinas, pois ninguém tinha se aventurado a introduzi-las por aqui, essa coisa tão perniciosa. Eu não sou um imprensador de tecidos, sou um alfaiate, contudo, sou um homem sensível e quando vejo meus irmãos oprimidos, levanto-me para defendê-los. É por isso que eu vim aqui neste dia aconselhá-lo a desfazer-se de seu maquinário infernal e contratar mais operários.
– E o que acontecerá se eu não seguir o seu conselho, Mr. Barraclough?
– Que o Senhor amoleça o seu coração, senhor!
– Mr. Barraclough é Wesleyano agora?
– Deus seja louvado! Bendizei o seu nome! Sou um Metodista.
– O que em nenhum aspecto o impede de ser ao mesmo tempo um bêbado e um vigarista. Há uma semana encontrei-o caído na beira da estrada quando voltava do mercado de Stilbro. E, enquanto você prega a paz, toda a ocupação da sua vida se resume em fomentar a discórdia e causar perturbações. Você não simpatiza com os pobres que estão em dificuldades, mas com você mesmo. Sua meta é incitá-los à indignação por maus propósitos. Não só você, mas esse indivíduo chamado Noé. Vocês dois são inquietos, intrometidos, canalhas e insolentes, cuja principal motivação é um princípio egoísta, ambicioso, tão perigoso quanto pueril. As pessoas que estão atrás de vocês, algumas delas, são honestas, embora estejam acompanhadas de homens errados. Na realidade, estão sendo enganadas por vocês dois, seus hipócritas.
Barraclough ia falar.
– Calado! Você já teve a sua vez de falar, agora é a minha. Quanto a receber ordem sua ou de qualquer outra pessoa, não admitirei. Aconselham-me a deixar o país e abandonar as máquinas e fazem-me ameaças. Pois, recuso-me a sair. Ficarei e manterei a minha fábrica para a qual mandarei vir todas as melhores e mais modernas máquinas. Que farão comigo? O máximo que podem fazer, e isso vocês nunca se atreverão, é queimar o meu moinho, destruir seu conteúdo e atirar em mim. Então? Suponha que o edifício esteja em ruínas e eu morto. Vocês aí que estão atrás desses dois malvados, o que lucrarão com isso? Farão parar as invenções, a ciência? Não! Nem por uma fração de segundo. Outra fábrica melhor e mais moderna se erguerá aqui sobre os escombros e, talvez, eu seja substituído por um proprietário mais empreendedor. Escutem-me! Vou continuar a fabricar os tecidos como eu quiser, empregarei os meios que me convierem. Quem, depois dessa declaração, ousar interferir-se nos meus negócios sofrerá as consequências. Um exemplo deve provar se falo ou não a verdade.
Deu um assobio agudo. Sugden apareceu com seu bastão de oficial da polícia e a ordem de prisão.
Mr. Moore virou-se bruscamente para Barraclough.
– Você estava em St¬ilbro – disse ele – tenho provas de que estava no pântano, de que usava uma máscara e de que derrubou um dos meus homens com suas próprias mãos. Sugden, prenda este homem.
Moisés foi capturado. Ouviu-se um grito e uma corrida para resgatá-lo, mas a mão que Mr. Moore tinha no bolso reapareceu com uma pistola.
– Ambos os canos estão carregados – disse ele. – Estou muito determinado a me servir dessa munição. Para trás!
Caminhando para trás, de frente para o inimigo, ele acompanhou o preso até a porta do escritório. Ordenou a Joe Scott e a Sugden para entrarem com o prisioneiro e fecharem a porta por dentro. Depois, pôs-se a andar de um lado para outro ao longo da fachada da fábrica, de olhos fixos no chão, com a mão pendurada descuidadamente ao seu lado, mas ainda segurando a pistola. Os onze que restaram ficaram observando por algum tempo, falando entre si em voz baixa. Por fim, um deles se aproximou. Este homem era muito diferente dos que tinham falado antes. Era feio, mas a modéstia e a energia estavam pintadas na sua aparência.
– Não tenho grande confiança em Moisés Barraclough – disse ele – e queria lhe dizer, eu próprio, algumas palavras, Mr. Moore. Pela minha parte não vim aqui com más intenções, mas a fim de fazer um esforço para endireitar as coisas que vão cruelmente mal. O senhor vê que estamos desgraçados, doentes; somos pobres e as nossas famílias sofrem. Essas máquinas e esses teares privam-nos do nosso trabalho. Não temos nada o que fazer e não podemos receber nada. O que vamos fazer? Resignarmo-nos a morrer de fome? Não! Eu não sei dizer palavras bonitas, Mr. Moore, mas sinto que seria covarde um homem sensato deixar-se morrer de fome como um fraco. Eu não gosto que se faça correr sangue, nunca consentiria em matar um homem, nem mesmo ferir. Também não sou favorável que quebrem as máquinas e os moinhos, pois, como o senhor disse, isso não faria parar o progresso e as invenções. Mas, eu falarei e farei todo o barulho que puder. A invenção pode ser uma coisa boa, mas sei também que não é certo que os pobres morram de fome. Os que governam devem encontrar uma maneira de nos ajudar. Eles devem fazer novas leis. Não somos preguiçosos, apenas queremos trabalhar honestamente para sustentar nossas famílias.
– Concordo com você, meu caro. Mas não posso mudar as leis. Vá ver se convence os membros do Parlamento – disse Mr. Moore – não adianta atormentar os proprietários dos moinhos que também estão tentando sobreviver. Isso é um absurdo e eu não estou aqui para suportar isso.
– O senhor é um dos mais duros – voltou o operário. – Não nos concederá algum tempo? Não poderia consentir em fazer as suas mudanças um pouco mais devagar?
– Então eu sou o representante de toda a corporação dos fabricantes de Yorkshire?
– O senhor é o senhor mesmo.
– Se fizesse o que me aconselha, dentro de um mês estaria falido. A minha falência colocaria pão na boca de seus filhos famintos ou deixaria mais bocas famintas? William Farren, não obedecerei às suas imposições nem às de qualquer pessoa. Mandarei trazer amanhã mesmo outras máquinas; se vocês as quebrarem, conseguirei outras, mas não cederei nunca.
Neste momento o sino da fábrica tocou. Eram doze horas, hora do almoço. Mr. Moore virou abruptamente as costas à delegação e entrou em seu escritório.
As suas últimas palavras tinham deixado uma má impressão, ele tinha deixado fugir a sorte que estivera em suas mãos. Se tivesse falado gentilmente com William Farren, que era um homem honesto, sem inveja nem ódio contra os que a fortuna colocara acima dele, que não achava duro e nem injusto ser obrigado a ganhar o pão de cada dia e não pedia senão trabalho, Mr. Moore poderia ter feito dele um amigo. Parece estranho que tivesse dado as costas àquele homem sem ter uma palavra de conciliação ou de simpatia. O rosto do pobre homem estava desvairado pela necessidade. Tinha o aspecto de um homem privado de bem-estar havia muitas semanas, meses talvez, contudo, não havia maldade na sua expressão. Estava abatido, triste, gasto, porém paciente. Como tinha podido Mr. Moore deixá-lo com aquelas palavras! Sem uma palavra benévola. É o que se perguntava Farren, de regresso à sua velha casa, outrora uma morada decente, agora triste e pobre, embora sempre limpa. Concluiu que o proprietário do moinho era um egoísta, um insensível e um tolo. Sentiu-se muito abatido, quase sem esperança.
Mal entrou, a mulher serviu uma espécie de almoço que tinha preparado para ele e os filhos. Era apenas um mingau com algumas migalhas de alho bravo. Algumas das crianças mais jovens pediram mais quando acabou sua parte, o que perturbou violentamente William. Enquanto sua esposa os acalmava como podia, ele levantou-se de seu assento e foi para a porta. Enxugou os olhos com a manga da camisa e o sentimento de ternura deu lugar a um sentimento mais amargo.
Estava ali de pé meditando em silêncio quando apareceu um senhor de preto. Via-se que era clérigo, mas não era nem Mr. Helstone, nem Mr. Malone, nem Mr. Donne, nem Mr. Sweeting. Ele podia ter uns quarenta anos, a sua aparência era simples, pele escura e já bastante grisalho. Ao caminhar, inclinava-se um pouco para a frente. Seu semblante era triste e preocupado, mas ao se aproximar de Farren, ergueu os olhos e uma expressão de franca cordialidade iluminou-lhe o rosto.
– É você, William? Como passou? – perguntou ele.
– Mr. Hall. É o senhor mesmo? Quer entrar e descansar um instante?
Mr. Hall, cujo nome o leitor já viu mencionado antes (e que, na verdade, era o vigário de Nunnely, a paróquia onde nascera William Farren, a qual este último só tinha deixado havia três anos para residir em Briarfield e trabalhar em Hollow), entrou na casa e, tendo saudado a boa esposa e os filhos, se sentou. Ele começou a falar muito alegremente sobre o período de tempo decorrido desde que a família tinha deixado a sua paróquia; as mudanças que ocorreram desde então e, depois de responder às perguntas sobre sua irmã, Miss Margaret, perguntou com muito interesse, ao olhar à sua volta para os quartos nus, a sala vazia, os rostos magros e pálidos:
– E como passam todos? Como vão os negócios?
– Muito pobremente. Nós nos demos muito mal por aqui – respondeu William – estamos todos sem trabalho. Vendi quase todos os móveis, como pode ver. E o que vai ser de nós, só Deus sabe.
– Mr. Moore o despediu?
– Despediu-me e tenho agora uma opinião sobre ele que, se me mandasse chamar agora, não quereria trabalhar para ele.
– Não lhe fica bem dizer isso, William.
– Eu sei, mas já não sou o mesmo, sinto que estou mudando. Se os filhos e a mulher tivessem o que comer, não me importaria. Mas eles sofrem, morrem de fome.
– Sim, meu rapaz. Bem vejo que você também. Sentem-se, William e Grace. Vamos conversar.
Mr. Hall fez com que a mais nova das crianças se sentasse em seus joelhos e pôs a mão na cabeça de outra.
– Tristes tempos! – comentou. – E já duram há muito. Deus assim o permite. Que seja feita a Sua vontade! Mas ele experimenta-nos cruelmente.
O reverendo refletiu durante alguns instantes.
– William, você não tem dinheiro, mas se alguém lhe emprestasse uma ou duas libras esterlinas, poderia investir em algo? Poderia abrir um negócio modesto? – Farren não respondeu, mas a mulher disse com vivacidade:
– Estou certa, senhor, de que ele arranjaria algo. É um homem muito habilidoso. Se tivesse uma ou duas libras, poderia dar início a um negociozinho. Não é verdade, William?
– Se fosse da vontade de Deus – anuiu William, com resolução. – Podia comprar artigos de mercearia e começar como vendedor ambulante.
– E o senhor saiba – interrompeu Grace – que William não bebe, que não é indolente e que não vai desperdiçar o dinheiro. É meu marido e eu não deveria elogiá-lo, mas sempre direi que não há na Inglaterra homem mais sóbrio e honesto do que ele.
– Está bem. Falarei com um ou dois amigos e creio que, dentro de um ou dois dias, poderei arranjar-lhe cinco libras esterlinas. Será um empréstimo e não um donativo. Será preciso restituí-las.
– Compreendo, senhor. Fica assim combinado.
– Por agora, aqui, fica isso para a Grace comprar algum alimento. Agora, meninos, ponham-se de pé, em fila, e digam a doutrina enquanto sua mãe vai comprar alguma coisa para o jantar, pois estou certo de que não comeram grandes coisas.
Mr. Hall ficou até o regresso de Grace, depois se despediu às pressas, dando um aperto de mão em Farren e na mulher; disse-lhes que em breve traria boas notícias, disse um “Deus os abençoe, meus amigos”, e partiu.
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