Shirley

Charlotte Brontë · Capítulo 10 de 38

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Shirley

Capítulo X

 

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As Solteironas

 

A primavera chegava ao seu auge e a superfície da Inglaterra começava a se tornar agradável. Os campos e as montanhas estavam verdes e os jardins floresciam, mas, no fundo, a alma inglesa não estava nada melhor: os pobres continuavam miseráveis e infelizes; os que serviam na guerra estavam cansados; os empregadores, perseguidos; o comércio, paralisado, e a guerra continuava derramando mais sangue do que toda a riqueza acumulada na Inglaterra até então.

Algumas notícias ocasionalmente falavam de sucessos na Península, mas estas chegavam lentamente. Eram separadas por longos intervalos entre os quais só se ouviam as insolentes felicitações de Bonaparte sobre seus triunfos contínuos. Aqueles que sofriam por causa da guerra achavam insuportável essa luta contra um poder que os seus temores ou os seus interesses lhes faziam supor invencível. Eles exigiam a paz em todos os termos. Homens como Mr. Yorke e Mr. Moore existiam aos milhares, colocados pela guerra à beira da falência e que insistiam na paz com a energia do desespero. Eles realizavam reuniões, faziam discursos e encabeçavam petições para conseguirem esse benefício, não importava para eles a que termo fosse, mas queriam o fim da guerra.

Todos os homens, tomados isoladamente, são mais ou menos egoístas, mas em massa, são mais intensos ainda. O comerciante britânico não era exceção à regra, confirmava isso de uma maneira impressionante. Era um fato que essas classes mercantis pensavam com demasiado exclusivismo em ganhar dinheiro, pois se esqueciam de qualquer consideração nacional, exceto a de estender o comércio de seu país, ou antes, o seu próprio. Os sentimentos cavalheirescos, o desinteresse e o orgulho da honra nacional estavam verdadeiramente mortos nos seus corações.

Já disse que Mr. Moore não era um patriota abnegado e disposto a se sacrificar. Também já relatei as circunstâncias que o levaram a concentrar seus esforços para promoção do seu interesse pessoal e, consequentemente, quando se sentiu pela segunda vez à beira da ruína, ninguém lutou com mais rigor contra as influências que o teriam empurrado para ela. Ele fez de tudo o que poderia fazer para fomentar a agitação do Norte contra a guerra, e fez ainda agir outros que, pelo seu dinheiro e pelas suas relações, tinham mais poder do que ele. Às vezes, por flashes, sentia que havia pouca razão nos pedidos que o seu partido dirigia ao governo.

Quando chegavam, de tempos em tempos, as notícias de toda a Europa ameaçada por Bonaparte, uma ameaça lenta, porém perseverante, e lia os telegramas do lorde Wellington nas colunas dos jornais, Mr. Moore confessava que do lado das tropas da Grã-Bretanha se encontrava um poder genuíno, sem ostentação, que no fim lhe daria a vitória. Mas isso ainda estava longe e ele, como indivíduo, seria esmagado e suas esperanças reduzidas a pó. Era ele mesmo que teria que agir, perseguir suas esperanças e cumprir o seu destino.

Cumpriu tão vigorosamente que, dentro de pouco tempo, veio uma ruptura decisiva com seu velho amigo Tory, o reitor. Eles se desentenderam em uma reunião pública e depois trocaram algumas cartas pungentes nos jornais. Mr. Helstone denunciou Mr. Moore como jacobino, deixou de vê-lo e nunca mais lhe falou. Ele intimou até sua sobrinha, muito claramente, que suas comunicações com a cottage de Hollow estavam cortadas, suspensas até mesmo as aulas de francês.

Mr. Helstone se perguntava quem teria sido o cretino que trouxera a moda de se ensinar francês às mulheres inglesas, pois nada lhes poderia ser menos conveniente. Era como alimentar uma criança raquítica com mingau de giz e água. Sua sobrinha, Caroline, portanto, deveria renunciar a ver o primo e a prima que, na opinião dele, eram pessoas perigosas.

Mr. Helstone esperava encontrar oposição a essa ordem, ele esperava lágrimas e muitas falas. Raramente ele se incomodava com a vida de Miss Caroline, mas tinha uma vaga noção de que ela sentia prazer em ir a Hollow; ele também suspeitava que a presença ocasional de Robert Moore na igreja não lhe era desagradável. O velhaco percebera também que, se Mr. Malone entrava em cena e se mostrava sociável e charmoso, enquanto brincava com as orelhas do gato preto, Miss Caroline logo dava um jeito de desaparecer, sem fazer barulho, enfiando-se no andar superior, de onde só saía quando chamada para a ceia. Já quando Robert Moore estava presente, embora ele não brincasse com o gato, ela sentava-se à sala e tinha um prazer especial em costurar bugigangas para a corbelha dos judeus ou almofadas de tricô para os missionários.

Miss Helstone sempre se mantinha muito tranquila, embora Robert Moore lhe desse pouca atenção, quase nunca lhe falasse. Contudo, Mr. Helstone, não sendo um daqueles idosos que facilmente se iludem, muito pelo contrário, tinha-os observado por diversas vezes enquanto se cumprimentavam. Tinha notado, em especial, em um desses encontros, um olhar diferente. Não era de modo algum um olhar de mútua inteligência. Os olhos de Mr. Moore, quando encontraram os de Miss Caroline, acharam-nos limpos e meigos, e os olhos de Miss Caroline ao encontrarem os de Mr. Moore se sentiram impressionados pela sua expressão viril e penetrante. O reitor sentiu vontade de repreender ambos. Isso o irritava, mas por quê? Impossível sabê-lo. Mr. Moore sorriu levemente e Miss Caroline corou ligeiramente. Se tivesse perguntado a ele o que Mr. Moore merecia naquele momento, ele teria dito “um chicote”; se tivesse perguntado o que Miss Caroline merecia, ele teria citado um cruel castigo contra aquele flerte de amor, e prometeu a si mesmo que tal loucura não aconteceria sob seu teto.

Essas considerações particulares, combinadas com razões políticas, fixaram sua resolução de separar os primos. Ele a anunciou numa tarde em que Miss Helstone estava sentada, trabalhando em sua costura, próxima à janela da sala. O rosto de Miss Caroline, que se voltou para ele, estava em plena luz. Alguns minutos antes, até Mr. Helstone teria ficado impressionado de vê-la tão pálida e mais abatida do que de costume. Ele também notou que, há três semanas, o nome de Robert Moore não fora pronunciado por seus lábios, e percebeu também que ele não aparecera no presbitério nesse espaço de tempo. Algumas suspeitas de encontros clandestinos tinham assombrado sua mente e, como tinha má opinião das mulheres, sempre duvidava delas. Ele pensava que era preciso vigilância constante.

Foi num tom seco e significativo que ele lhe comunicou o seu desejo de que cessassem as visitas diárias a Hollow.

– Ouviu o que eu disse, Caroline? – ele esperava um olhar de depreciação, mas o que viu foi um aceno muito leve com a cabeça, sem olhar.

– Sim, tio.

– E vai fazer o que eu lhe mando?

– Sim, com certeza.

– E não haverá troca de cartas entre você e sua prima Hortense. Nenhuma relação, quaisquer que sejam. Não aprovo os princípios daquela família. Eles são jacobinos.

– Muito bem, tio – disse Miss Caroline, em voz baixa.

Ela consentia, portanto. Não houve polêmica, o seu rosto não se ruborizou de despeito, as lágrimas não lhe obscureceram a vista. A expressão sombria e pensativa que cobria os seus traços antes que Mr. Helstone lhe tivesse dirigido a palavra permaneceu imperturbável. Miss Helstone era obediente. Sim, perfeitamente obediente porque a ordem do tio coincidia com os seus próprios pensamentos, porque era agora uma dor para ela ir a Hollow, onde só encontrava o desapontamento. Esperança e amor tinham deixado a cottage e Robert Moore parecia ter desertado daquela moradia. Antes, sempre que ela perguntava por ele, o que era muito raramente, pois a simples menção do seu nome fazia seu rosto ficar quente, a resposta era que ele não estava em casa, ou estava muito ocupado com os negócios. Miss Hortense temia que a prima estivesse se matando por aplicação ao estudo, tamanho o abatimento. Ele quase nunca participava de uma refeição na sua própria casa, vivia no escritório.

Era somente na igreja que Miss Caroline tinha a chance de vê-lo, e lá, raramente levantava os olhos para ele. Era, ao mesmo tempo, grande a dor e demasiado o prazer que sentia ao olhá-lo, pois compreendera que era uma emoção desperdiçada.

Uma vez, em um sombrio e úmido domingo, quando havia poucas pessoas na igreja e, em especial, a ausência de certas senhoras as quais ela temia seus olhos e a língua, Miss Caroline permitiu que seus olhos errassem na direção do banco de Mr. Moore para descansar algum tempo em seu ocupante. Viu que Miss Hortense tinha ficado prudentemente em casa por causa da chuva e com receio de estragar seu chapéu novo. Durante o sermão, Mr. Moore conservou-se de braços cruzados e olhos baixos, parecendo muito triste e absorto. Tendo examinado a expressão sombria dele, Miss Caroline compreendeu instintivamente que os seus pensamentos não seguiam um curso alegre e agradável. O seu espírito estava certamente dominado por interesses, por responsabilidades em que ela não podia tomar parte.

Ela, contudo, meditava em sua própria maneira sobre o assunto, especulou sobre seus sentimentos, sobre sua vida, sobre seus medos, sobre o seu destino; meditou sobre os sentimentos de Mr. Moore, queria sentir como ele, suas perplexidades, obrigações, seus deveres, e esforçou-se para perceber o estado de espírito de um homem de negócios, sentir o que ele sentia, aspirar o que ele aspirava. Seu sincero desejo era ver as coisas como elas eram, e não como uma romântica. À custa de muito esforço perseverante, conseguiu obter um vislumbre da luz da verdade, aqui e ali, e esperava que esse raio escasso pudesse ser suficiente para guiá-la.

“O estado mental de Robert é muito diferente do meu”, concluiu, por fim. “Eu não penso senão nele, e não tenho nenhum lugar em seu espírito. Ele não tem tempo para pensar em mim. Não tem sequer um olhar. Coisa cruel! Em sua mente não há espaço para lazer. O sentimento chamado amor tem sido há dois anos a emoção predominante no meu coração, sempre lá, sempre acordado. Ele está se levantando agora, vai sair da igreja. Será que ele vai virar a cabeça para este banco? Foi-se embora. Um olhar terno de sua parte ter-me-ia tornado feliz até amanhã de manhã. Esse olhar não quis ele conceder-me. É estranho que a dor quase me sufoque pelo olhar de um ser humano não ter encontrado o meu.”

Mr. Malone tinha vindo como de costume passar a noite de domingo com seu tio e, como de costume nessas ocasiões, Miss Caroline retirou-se depois do chá para seu quarto. Fanny, sabendo de seus hábitos, tinha-lhe acendido um fogo delicioso, pois o tempo estava tempestuoso e frio. Fechada ali, silenciosa e solitária, o que ela poderia fazer senão ficar absorta em seus pensamentos? Sem fazer ruído, percorria de um extremo ao outro o tapete do quarto com a cabeça inclinada e as mãos cruzadas. Reinava na casa o mais completo silêncio, pois a porta dupla do gabinete abafava os ruídos das vozes dos senhores. Os criados estavam quietos na cozinha envolvidos com livros que sua jovem senhora lhes havia emprestado. Ela mesma tinha um livro aberto sobre a mesa, mas não conseguia ler, pois sua própria mente estava muito ocupada, cheia, errante para ouvir a linguagem de outra mente.

A sua imaginação alimentava-se das mais encantadoras imagens: cenas em que ela e o primo tinham estado juntos, esboços de um canto próximo à lareira no inverno; uma radiosa paisagem numa tarde quente de verão passada com ele nos bosques de Nunnely; vinhetas divinas da primavera ou suaves momentos do outono quando ela se sentou ao seu lado em Hollow. Via-se diante dela Robert Moore, o som da sua voz que tanto a impressionava, sentia de novo as suas raras carícias. Porém, em breve, a realidade substituiu aquele devaneio. As imagens desvaneceram-se, a voz calou-se, o aperto de mão tornou-se glacial; em vez da companhia do vigoroso cavalheiro, achou-se só em presença da sua própria silhueta refletida na parede. Afastando-se daquele pálido fantasma, que reproduzia a sua atitude sonhadora e abatida, sentou-se e disse para si mesma: “Viverei, talvez, até os setenta anos, pois tenho uma boa saúde. Pode ainda estar reservado para mim, pelo menos, mais meio século de existência. Como hei de ocupá-lo? Que farei para encher o intervalo que me separa do túmulo?”

Ela refletiu.

“Não me casarei, parece”, ela continuou depois de uma pausa. “Suponho que, como Robert não se importa comigo, eu nunca terei um marido para amar, nem filhos pequenos para cuidar. Até recentemente eu tinha contado com os deveres e as afeições de esposa e de mãe para ocupar minha existência. Parecia que este era o meu destino, como se fosse uma coisa natural e comum, e nunca me dei ao trabalho de procurar qualquer outro; mas agora eu percebo, claramente, que eu posso ter me confundido. Provavelmente serei uma solteirona. Viverei para ver Robert casado com outra pessoa, uma moça rica. Nunca me casarei. Pergunto-me: Para que eu nasci? Onde será o meu lugar neste mundo?”

“Ah! Já vejo”, prosseguiu ela depois de mais um momento de reflexão, “é a pergunta que fazem as moças solteiras e que os outros respondem por elas, dizendo: ‘o seu destino é fazer o bem para os outros, é ser útil a alguém necessitado’. Isso é justo até certo ponto. É uma doutrina muito conveniente para as pessoas que a professam, mas noto que certas pessoas se convencem de que se deve desistir de suas vidas por elas, a seu serviço e lhes retribuem com elogios, chamando-as de dedicadas e virtuosas. Será o suficiente? Será isso viver? Eu suspeito que a virtude resida na abnegação de si mesmo. Bem, pelo menos a vida é curta. Setenta anos passam como um vapor, como um sonho. Os atalhos que trilham os pés humanos terminam no mesmo fim, no túmulo.”

O fogo lançava seu último clarão. Mr. Malone já tinha partido e o sino tocou para as orações da noite.

O dia seguinte Miss Caroline teve que passar completamente sozinha. O tio foi jantar com seu amigo Mr. Boultby, vigário de Whinbury. Ela passou o tempo todo mergulhada nos mesmos pensamentos, olhando o futuro e se perguntando o que ela ia fazer da vida. Fanny, indo e vindo, percebeu que sua jovem ama estava quieta demais. Estava sempre no mesmo lugar, sempre inclinada diligentemente sobre um pedaço de pano. Ela não levantou uma única vez a cabeça para falar com Fanny como era seu costume e, quando esta comentou que o dia estava bom, e que ela deveria dar um passeio, ela apenas respondeu: – Está frio.

– Está muito aplicada hoje à costura, Miss Caroline – continuou Fanny, aproximando-se da mesinha.

– Estou cansada disso, Fanny.

– Então por que não deixa isso aí? Leia ou faça alguma coisa para diverti-la.

– Esta casa é solitária, Fanny. Você não acha?

– Para mim, não é. Eliza e eu fazemos companhia uma para a outra, mas a miss vive em casa. Deveria fazer algumas visitas. Ah, vá. Deixe-me persuadi-la. Suba ao seu quarto, faça-se linda e vá tomar um chá amigável com Miss Mann ou Miss Ainley. Estou certa de que tanto uma como a outra ficaria encantada de ver você. 

– Mas as suas casas são tristes, ambas são solteironas. Estou certa de que todas as mulheres que ficam solteiras são infelizes.

– Não! Mas não é mesmo, Miss Caroline! Elas não podem ser infelizes, pois tratam-na tão bem; elas são unicamente egoístas.

– Miss Ainley não é egoísta, Fanny! Ela está sempre fazendo o bem. Como ela foi boa e dedicada para com a sua madrasta até os seus últimos dias de vida. Não se lembra? E agora, como ela é sozinha no mundo, sem irmão ou irmã, como ela é caridosa para com os pobres!

– Acredito que ela é uma boa mulher, miss.

– Vou vê-la! – exclamou Miss Caroline, erguendo-se com animação. – E se ela me convidar para o chá, eu ficarei. É um malfeito negligenciar as pessoas porque elas não são bonitas, jovens e alegres! E, certamente, vou visitar Miss Mann também. Ela pode não ser amável, mas que vida ela teve!

Fanny ajudou Miss Helstone a pôr de lado o seu trabalho e depois a ajudou a se vestir.

– Miss Caroline é que não ficará solteira! – disse ela, enquanto amarrava o cinto do seu vestido de seda marrom, tendo anteriormente encaracolado seus cabelos sedosos, cheios e brilhantes. – Não há sinais de uma solteirona na miss – complementou Fanny.

Miss Helstone olhou-se no pequeno espelho que tinha à sua frente e julgou notar sinais contrários. Viu que no último mês se dera em seu rosto uma grande alteração. Estava mais pálida, e em volta dos olhos, agora melancólicos e sem brilho, estava uma sombra escura; seu semblante estava desanimado, ela não era, em suma, tão bonita ou tão fresca como ela costumava ser. Ela deu a entender isso a Fanny, de quem ela não obteve resposta direta, apenas uma observação de que as pessoas variam em sua aparência e que ela logo voltaria a ser mais rosada do que nunca. Tendo dado essa garantia, Fanny mostrou um zelo singular envolvendo-a em xales e lenços, até que Miss Helstone, vendo-se quase sufocada com o peso, viu-se forçada a resistir a mais adições.

A moça foi primeiro visitar Miss Mann, pois esse era o ponto mais difícil. Miss Mann certamente não era uma pessoa muito amável. Miss Helstone sempre, sem hesitação, havia declarado que não gostava dela e mais de uma vez se juntou ao seu primo para rir de alguma de suas peculiaridades. Mr. Moore não era dado ao sarcasmo, especialmente se o alvo fosse mais humilde ou mais fraco do que ele, mas tinha acontecido de Miss Helstone, uma ou duas vezes, estar com Miss Hortense quando Miss Mann foi chamá-la e, depois de ouvir a conversa e visualizar suas características, ela tinha ido para o jardim onde Mr. Moore estava cuidando de algumas de suas flores preferidas, e ao estar perto e vê-la, ele se divertiu com a comparação entre as duas e riu do timbre da voz de Miss Mann, o qual chamou de “voz de órgão”. Miss Helstone logo se colocou em defesa da outra: “Miss Mann não fez a si mesma ou sintonizou a sua voz, Robert”. Este se desculpou com a frase: “A natureza faz as urzes e os espinhos.”

 

*******

Conduzida à saleta de Miss Mann, Miss Helstone encontrou-a, como sempre, cercada pela elegância, limpeza e conforto (afinal, não é uma virtude das solteironas que a solidão raramente lhes dê hábitos de negligência ou desleixo). Não havia o menor vestígio de poeira em seu mobiliário polido, nem nos tapetes. Em um vaso sobre a mesa, flores frescas, e um fogo brilhante na lareira. A dona da casa estava sentada numa cadeira de balanço acolchoada e tinha as mãos ocupadas com algum tricô. Ela fazia meias. Este era seu trabalho favorito, pois era necessário o mínimo de esforço. Ela mal se levantou quando Miss Caroline entrou. Evitar a excitação era um dos objetivos de Miss Mann na vida. Desde que viera para baixo de manhã, esforçou-se para atingir certo estado letárgico de tranquilidade e, quando tinha chegado a esse estado, chegou uma visitante que a fez estremecer, desfazendo todo o trabalho de seu dia. Ela praticamente não ficou satisfeita ao ver Miss Helstone. Ela a recebeu com reservas, ordenou-lhe com austeridade que se sentasse. A moça se sentou diante dela e Miss Mann olhou-a fixamente.

Ser olhada fixamente por Miss Mann não era coisa vulgar, pois a mulher tinha olhos formidáveis. Mr. Moore tinha sofrido esse olhar uma vez e nunca tinha esquecido a circunstância. Ele o considerou igual a qualquer coisa parecida com uma Medusa. O olhar teve tal efeito sobre ele que, em vez de levá-lo imediatamente do local onde estava para casa, tinha-o levado até a reitoria, onde ele tinha aparecido na presença de Miss Caroline com uma cara muito estranha, assombrada, exigindo uma saudação dos primos para corrigir um dano que fora feito nele.

Certamente Miss Mann tinha olhos formidáveis para uma pessoa do sexo frágil. Eram destacados e mostravam uma grande quantidade de branco, pareciam quase tão fixos e imóveis como se fossem bolas de aço incrustadas em uma cabeça e, quando esses olhos pesavam sobre as pessoas, ela começava a falar em um tom indescritivelmente seco, monótono, sem vibração ou inflexões, dir-se-ia que era algum espírito mau. Mas, era tudo uma invenção da imaginação. Miss Mann era uma pessoa honesta e consciente de que tinha exercido funções no decurso de sua vida, deveres que teriam aterrado mais do que uma pessoa na grave angústia. Agora, tenho que destacar, o seu maior defeito era a maledicência.

Maledicente, ela certamente era. Miss Helstone não estava ali há mais de cinco minutos e sua anfitriã, que ainda a mantinha sob o feitiço do seu terrível olhar de Górgona, começou a esfolar vivas algumas famílias da vizinhança. Sem fazer grandes distinções, ocupava-se dessa tarefa de maneira fria e deliberada. Raramente admitia que alguém pudesse ser bom. Dissecava mais ou menos imparcialmente quase todos os conhecidos dela. Se Miss Caroline, de vez em quando, aventurava-se a dizer uma paliativa, ela a refutava com certo desdém. Ainda assim, por mais impiedosa que fosse a sua autópsia moral, não procurava propagar o escândalo, nem divulgava relatórios realmente malignos ou perigosos. Não era o seu coração que merecia censura, e, sim, o seu temperamento.

Miss Caroline fez naquele dia esta descoberta pela primeira vez e, lastimando os injustos juízos que por mais de uma vez tinha feito sobre a mal-humorada solteirona, começou a falar-lhe com doçura, não só em palavras, como numa voz cheia de simpatia. A solidão de sua condição golpeou a visitante com uma nova luz, como também o caráter de sua feiura, palidez e as linhas profundamente desgastadas de recursos.

Miss Mann, vendo tal semblante e tocada pelo interesse tão inesperado, largou a frieza e respondeu candidamente. Habitualmente ela não era comunicativa, pois ninguém se importava em ouvi-la, mas neste dia ela foi e Miss Caroline chorou ao ouvi-la. Miss Mann certamente se sentiu pela primeira vez compreendida e ganhou ânimo com a viva atenção de Miss Helstone, e, portanto, entrou em particularidades da sua vida. A visitante soube, assim, que aquela solteirona tinha sido filha, irmã das mais dedicadas e a mais infatigável das enfermeiras à cabeceira dos moribundos, e que a estes cuidados, contínuos e prolongados junto dos doentes, devia a doença que a envenenara naquele momento de vida. Miss Helstone passou lá o dia, não fazendo as outras visitas que tinha projetado e, quando deixou Miss Mann, foi com a resolução de tudo fazer no futuro para lhe desculpar os defeitos de nunca mais zombar do seu ar excêntrico e da sua fealdade; e, sobretudo, de não deixar de ir visitá-la uma vez por semana.

Ao retornar disse a Fanny que estava muito feliz por ter saído e que aquela visita lhe tinha feito bem.

No dia seguinte foi ver Miss Ainley. Para esta a vida não era tão fácil como para Miss Mann. A sua residência era mais humilde, mas, se fosse possível, ainda mais estranhamente limpa, embora a excelente senhora, não podendo permitir-se o luxo de manter uma criada, tratava ela própria da casa com a ajuda apenas ocasional de uma menina que vivia em uma casa de campo próxima à sua.

Não só Miss Ainley era mais pobre, como fora mais maltratada pela natureza do que a outra solteirona. Na sua juventude ela devia ter sido feia; agora, com a idade de cinquenta anos, ela era mais feia ainda. À primeira vista era preciso estar numa disposição de espírito muito particular para não a achar repelente. Era afetada no vestir e nas maneiras; o seu ar e o seu falar eram os de uma solteirona.

O acolhimento que deu a Miss Helstone foi cerimonioso, mesmo em sua bondade, mas a moça desculpou-a. Ela sabia alguma coisa sobre a benevolência do coração que batia debaixo daquela roupa; toda a vizinhança, pelo menos a parte feminina, sabia também de algo bom. Ninguém falava mal de Miss Ainley, exceto alguns jovens cavalheiros e desconsiderados que a declaravam horrenda. Miss Helstone sentiu-se logo à vontade naquela pequena sala. Mãos solícitas desembaraçaram-na do xale e do chapéu e instalaram-na junto do fogo. Dentro em pouco a moça e a outra estavam mergulhadas numa conversa amável. Miss Caroline, portanto, não tardou em experimentar o poder que pode exercer uma alma serena, dedicada e benévola. Miss Ainley nunca falava de si, mas, sim, dos outros. Não se ocupava dos defeitos, mas o seu tema favorito eram as necessidades do próximo, o qual procurava acudir dos seus sofrimentos. Era verdadeiramente piedosa e muitos a chamariam de santa.

Não fora de sua própria boca que Miss Caroline soube das suas boas obras, mas eram bem suas conhecidas. A sua caridade era assunto familiar dos pobres de Briarfield. Essas boas obras não eram esmolas; a velha solteirona era demasiado pobre para poder dar muito; eram obras de irmã de caridade, bem mais difíceis de cumprir do que as de senhora benfeitora. Não se importaria de velar o leito de qualquer doente; e era, em todas as circunstâncias, serena, humilde, benévola e de humor igual.

Dessa bondade não tirava grande recompensa nesta vida. Muitos pobres tinham se habituado de tal maneira aos seus serviços que quase não pensavam em lhe agradecer. Os ricos ouviam falar dela com espanto; mas um sentimento de vergonha, produzido pela diferença que notavam entre os seus sacrifícios e os dela, forçava-os a guardar silêncio. Muitas senhoras, contudo, tinham por ela uma veneração profunda; um homem, um só, tinha-lhe dado sua amizade e toda a sua confiança. Esse homem era Mr. Hall, pároco de Nunnely. Dizia ele, e com justiça, que a vida dela se aproximava mais de Cristo do que a de qualquer outra pessoa do seu conhecimento.

Miss Helstone estudou bem o espírito e o coração que acabavam de lhe revelar. Não encontrou uma grande inteligência que pudesse admirar, mas descobriu em Miss Ainley tanta bondade, doçura, paciência, franqueza, desejo de ser útil, que inclinou respeitosamente sua própria inteligência diante da mulher que estava à sua frente.

No entanto, com dor, sentia que a vida que tinha feito Miss Ainley feliz não a poderia fazer. Entretanto, pensava que talvez com o hábito essa vida pudesse se tornar possível e até agradável. Compreendeu que era desprezível definhar sentimentalmente, ficar inerte, perder a juventude num doloroso langor e envelhecer sem fazer nada. “Vou colocar-me em ação e tratar de ter juízo. Quem sabe até me torno uma pessoa melhor”, foi a decisão que tomou.

Perguntou então para Miss Ainley se podia ajudá-la nas obras de beneficência. Miss Ainley indicou-lhe algumas pobres famílias de Briarfield que seria bom visitar; deu-lhe também alguns trabalhos que ela poderia fazer para algumas mulheres pobres que tinham muitos filhos.

Miss Caroline voltou ao presbitério, traçou seus planos e tomou a resolução de não se desviar deles. Consagrou uma parte do seu tempo aos seus diversos estudos e a outra parte aos trabalhos com Miss Ainley. O resto deveria ser separado para se exercitar um pouco. Nenhum instante foi deixado aos pensamentos febris que a tinham envenenado na noite anterior.

É preciso lhe fazer justiça, pois a moça colocou seus planos em ação, conscientemente e com perseverança. Foi um duro trabalho, mas que a ajudou a combater e a vencer a sua própria dor.

Contudo, devo dizer a verdade: esses esforços não lhe trouxeram saúde no corpo nem a contínua paz da alma. Ela definhou, tornou-se cada dia mais magra, mais triste e mais pálida. O nome Robert Moore, por mais que tentasse, não lhe saía da mente. As recordações do passado ressoavam constantemente aos seus ouvidos e um fúnebre grito interior obcecava-a e deixava-a sem forças. Somado a isso, o peso de um espírito despedaçado e de faculdades doentes e paralisadas esmagava a vivacidade da sua juventude. O inverno pareceu vencer a sua primavera: os tesouros da sua inteligência iam-se entorpecendo pouco a pouco numa glacial e árida estagnação.

 

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