Shirley

Charlotte Brontë · Capítulo 27 de 38

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Shirley

Capítulo XXVII

 

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A Primeira Mulher Sábia

 

Os temperamentos de Miss Keeldar e de seu tio não podiam harmonizar-se. Ele era irritável e ela independente. Ele era despótico e ela gostava da liberdade. Ele era positivo e ela romanesca. Não fora sem objetivo, contudo, que ele viera a Yorkshire. A sua missão era clara e pretendia desempenhá-la conscienciosamente. Queria casar a sobrinha com um partido respeitável, confiá-la à guarda de um marido e lavar as mãos para sempre.

A desgraça era que, desde a infância, Miss Keeldar e ele tinham estado sempre em desacordo sobre o significado da palavra respeitável. Ela nunca aceitara a definição imposta por ele e não era de se esperar que, no ato mais importante de sua vida, fosse consentir em admiti-la.

Não tardou a surgir ocasião dessa verificação.

Mr. Wynne pediu a mão de Miss Keeldar para seu filho, Samuel Fawthrop Wynne.

– Perfeitamente respeitável! – disse Mr. Sympson. – Uma bela propriedade, livre de quaisquer encargos, sólida fortuna e boa família. É preciso que este casamento se realize.

Mandou chamar a sobrinha ao salão, fechou-se com ela, comunicou-lhe a proposta, deu-lhe sua opinião e pediu o consentimento dela.

Miss Shirley Keeldar recusou.

– Não, não me caso com o Samuel de forma alguma!

– Mas, por quê? É preciso que me dê uma razão. De todos os pontos de vista, ele é mais digno do que a menina.

Ela estava de pé em frente à lareira. Estava pálida como o mármore da chaminé. Os seus olhos largos estavam dilatados, duros e chamejavam.

– E eu pergunto-lhe: de que ponto de vista é esse moço digno de mim?

– Tem duas vezes a sua fortuna e o dobro do senso comum. A família dele é tão respeitável como a sua.

– Mesmo que ele fosse cem vezes mais rico do que eu, não faria o voto de amá-lo.

– Queira dar-me a conhecer as suas objeções, por favor – pediu o tio.

– É um libertino desprezível e vulgar. Aceite isso como a primeira razão que me leva a desprezá-lo.

– Shirley Keeldar, estou chocado com a menina.

– A inteligência dele não atinge um nível que eu possa estimar; eis a segunda razão. Tem ideias estreitas, sentimentos corrompidos, gostos grosseiros e maneiras vulgares.

– Esse homem é respeitável e rico. Recusá-lo é sinal de presunção da sua parte.

– Recuso terminantemente! Não lhe consinto que me atormente mais a tal respeito!

– Tem a intenção de um dia se casar ou quer acabar celibatária?

– Não lhe dou o direito de me fazer semelhante pergunta.

– Poderei saber se espera que algum titular, que algum par do reino peça a sua mão?

– Duvido que um título do reino venha, algum dia, pertencer àquele a quem eu quereria poder conferi-lo.

– Se tivesse havido algum exemplo de insanidade na família, seria levado a julgá-la louca. A sua excentricidade e a sua teimosia atingem as raias da loucura. Tome cuidado! Desafio-a que manche o nosso nome com um casamento infame!

– O nosso nome! Serei acaso uma Sympson?

– Não, graças a Deus! Mas fica prevenida! Não quero que façam pouco de mim.

– Ora essa! Que sombra de autoridade tem o senhor sobre mim? Por que havia eu de temê-lo? Antes de me casar, estou decidida a respeitar, a admirar e a amar.

– E se o seu amor fosse por um mendigo?

– Nunca caberá a um mendigo, pois isso não é respeitável.

– A qualquer empregado inferior, a qualquer ator, ou autor de comédias, a qualquer...

– Continue, senhor. A qualquer o quê?

– A qualquer miserável escrevinhador, a qualquer...

– Não tenho nenhum respeito pelos escrevinhadores, mas tenho pela literatura e pelas artes. E, de tal ponto de vista, ainda queria saber como me poderia convir esse estúpido Mr. Wynne! É incapaz de escrever uma carta sem cometer dezenas de erros de ortografia e a única coisa que lê na vida é jornal desportivo. Era o escárnio da escola em Stilbro!

– O que ela pretende? Por que não são as leis mais severas! Dessa forma eu a obrigaria a tomar juízo!

– Console-se, meu tio. Mesmo que a Inglaterra fosse um país feudal e o senhor o czar, nem assim poderia obrigar-me a fazer esse casamento. Eu escrevo a Mr. Wynne recusando-o. Não se ocupe mais com este assunto.

Miss Keeldar – sobretudo, a sua fortuna – tinha por esse tempo feito sensação no distrito. Não houve menos de três pedidos de casamento, a seguir ao de Mr. Wynne, todos eles mais ou menos aceitáveis. Todos, por sua vez, foram apoiados pelo tio e sucessivamente recusados pela sobrinha. Muitas pessoas perguntavam a si próprias, tal como o tio, a quem pretendia ela conquistar, já que mostrava tão insolente desdém.

Por fim, os fofoqueiros julgaram ter encontrado a chave do enigma. O próprio tio supôs ter descoberto a verdade. Esta descoberta mostrou-lhe a sobrinha de um ponto de vista tão novo que modificou inteiramente a sua conduta para com ela.

Fiedhead tornara-se, havia pouco, demasiado pequena para conter ambos: a bondosa tia já não os podia reconciliar; as filhas já tremiam à vista das inúmeras discussões entre tio e sobrinha. Mas, conforme já disse, sobreveio uma mudança, Mr. Sympson se acalmou e a família sentiu-se tranquilizada.

O leitor já ouviu falar da aldeia de Nunnely, da sua velha igreja, da floresta, das ruínas do seu mosteiro. A aldeia tinha também um solar, a que se dava o nome de Priorado, uma residência mais antiga, maior, mais senhoril do que as de Briarfield ou Whinbury, e, além disso, tinha também o barão, um homem gentil de quem nem Briarfield nem Whinbury podiam orgulhar-se. Tal posse era, havia muitos anos, puramente teórica. O barão atual, um jovem que residira sempre numa província afastada, era desconhecido no seu domínio de Yorkshire.

Durante a estada de Miss Keeldar nas águas afamadas de Cliffbrigge, ela e os seus amigos tinham encontrado Sir Philip Nunnely, a quem tinham sido apresentados. Depois houve vários encontros. Ele parecia gostar da solidão, as suas maneiras eram despretensiosas, demasiado simples para serem chamadas de afáveis. Era mais tímido do que orgulhoso, bem longe de parecer tolerante com a sociedade deles, porém mostrava-se feliz ao lado dela.

Com um homem sem afetação, Miss Keeldar podia ligar-se facilmente. Conversou e passeou com Sir Philip: ela, a tia e as primas aceitaram várias vezes um lugar em seu iate.

No entanto, havia algumas sombras nesse quadro. Sir Philip tinha gostos literários, escrevia poesias, sonetos e baladas. Talvez Miss Keeldar achasse excessivo aquele recital de suas composições; talvez tivesse desejado mais riqueza nas rimas, mais harmonia nas medidas, mais frescura nas imagens, mais calor na inspiração. Pelo menos, mostrava-se reticente sempre que ele insistia no capítulo poemas, e fazia todo o possível para encaminhar a conversa para outra direção.

Sobre qualquer outro assunto ele era suficientemente sensato e ela gostava de conversar com ele sobre temas variados. Por vezes ele lhe fazia algumas perguntas sobre a sua própria, quase desconhecida, propriedade em Nunnely, e ela ficava encantada por respondê-las. Nunca omitia a descrição do velho Priorado, do parque selvagem, da velha igreja e da aldeia escondida em meio ao verde. Ela até o aconselhou a viver no solar dos seus antepassados.

Com certa surpresa, Sir Philip tomou seu conselho ao pé da letra e na época de que estamos tratando, pelos fins de setembro, chegou ao Priorado.

Não tardou em fazer uma visita a Fieldhead e esta primeira visita não foi a única. Depois já não lhe bastava ficar sentado com Miss Keeldar na sala onde outros podiam entrar e na qual, raramente, tinha a oportunidade de mostrar a ela as suas últimas composições. Ele queria conduzi-la através das alegres pastagens e pela margem das águas tranquilas, mas ela evitava esses passeios a sós. Sir Philip, contudo, organizou para ela recepções nas suas terras e na sua magnífica floresta.

Essas assiduidades rodearam Miss Keeldar de distinção. O espírito profético do tio descortinava nelas um esplêndido futuro. A sobrinha já não lhe parecia uma moça estouvada, mas, sim, uma mulher cheia de bom senso. Miss Keeldar escutava-o com indiferença; aparentemente não percebia o objetivo do tio.

Uma coisa parecia clara, Sir Philip não era homem para se desdenhar: era amável e, se não era um espírito superior, era, pelo menos, inteligente. Miss Keeldar não podia falar sobre ele o que havia falado de Mr. Wynne. Tinha sensibilidade e um gosto pelas artes muito real, se não muito esclarecido. Quanto à sua linhagem e à sua fortuna, estavam muito acima das pretensões que Miss Keeldar podia ter.

Em suma, as coisas tinham chegado ao ponto de justificarem plenamente a observação que Mr. Yorke fez um dia a Louis Moore.

– O seu irmão Robert é um louco ou imbecil. Há dois meses eu podia jurar que ele tinha a caça na mão, e aí ele anda a correr o país, a passar em Londres semanas seguidas e, quando retornar, estará abatido. Louis, há nas coisas humanas uma corrente que leva à fortuna, mas se a deixarmos passar, nunca mais ela volta. Se eu estivesse no seu lugar, escrevia para ele voltar imediatamente.

– Robert tinha intenções a respeito de Miss Keeldar? – perguntou Louis, como se a ideia fosse nova para ele.

– Fui eu próprio quem lhe sugeriu a ideia e só dependia dele realizá-la, porque ela gostava dele.

– Como vizinho.

– Mais do que isso. Eu a vi mudar de cor e atitude à simples menção do nome Moore. Escreva a esse rapaz, eu lhe digo, insista para que ele regresse. Afinal, ele é melhor figura do que esse barãozinho.

– Não lhe parece, Mr. Yorke, que, para um aventureiro sem vintém, é desprezível aspirar casar-se com uma mulher rica? Não é pretensão demais?

– Oh! Se levares a esse ponto a delicadeza dos sentimentos, então nada tenho a dizer. Sou um homem simples e prático e se o Robert está decidido a abandonar a outro esse presente real, sou indiferente. Nem barão, nem duque, nem príncipe me teria levado, sem luta, a minha amada.

Rodeada de adulações e de mimos como era nessa altura, parece que Miss Keeldar não tinha sido, contudo, absolutamente estragada por eles. A sua boa natureza não havia sido abandonada.

A voz pública deixara de associar seu nome ao de Mr. Robert Moore e esse silêncio parecia sancionado pelo aparente esquecimento do ausente; mas o que provou que ela não o esquecera inteiramente e que conservava por ele, se não amor, pelo menos interesse, foi o redobrar de atenções de uma repentina doença que lhe permitiu mostrar pelo irmão de Mr. Moore, esse pobre preceptor com o qual ela se conduzia habitualmente com tão estranhas alternativas de fria reserva e de dócil respeito.

Louis Moore apanhara, talvez, numa das pobres cabanas do distrito, uma febre que o abateu muito durante alguns dias. Fosse como fosse, adoeceu e foi obrigado a ficar no leito.

Uma noite, revolvia-se na cama tendo junto de si Harry, que não o deixava, quando uma pancada, demasiado leve para ser de Mrs. Gill ou duma criada, chamou à porta o moço Sympson.

– Como está Mr. Moore esta noite? – perguntou uma voz abafada.

– Entre e veja com seus próprios olhos.

– Está dormindo?

– Bem queria eu que ele pudesse dormir. Entre e venha falar com ele, Shirley.

– Talvez ele não goste.

Entrou, contudo, e Harry, vendo que ela hesitava, pegou-a pela mão e a levou para junto do doente.

A luz muito fraca permitia, no entanto, distinguir o elegante traje de Miss Keeldar. Havia nessa noite em Fieldhead uma reunião em que se encontrava Sir Philip Nunnely. As senhoras estavam no salão de onde Miss Keeldar se esquivara para visitar o preceptor de Harry. O seu vestido branco como a neve, os seus belos braços, o fio de ouro que contornava o seu pescoço branco e caía, oscilando sobre o seu peito, brilhavam estranhamente na obscuridade daquele quarto. O ar dela era sério e pensativo e falava com doçura.

– Como se sente esta noite?

– Não tenho estado muito doente e agora me sinto melhor.

– Soube que se queixava de sede. Trouxe-lhe algumas uvas. Pode prová-las?

– Não, mas agradeço-lhe que tenha se lembrado de mim.

– Tirei-as de um cacho magnífico que enchia um cestinho.

Ela pegou uma uva e levou aos lábios do doente. Louis abanou a cabeça e voltou para o lado o rosto afogueado.

– Mas, o que eu posso então lhe trazer em vez disto? Vejo que os seus lábios estão secos. Que bebida prefere?

– Mrs. Gill me dá chá e água.

Houve um silêncio de alguns minutos.

– Presumo como apanhou essa febre. Soube que visitava muitas vezes os doentes de Briarfield e os de Nunnely com Mr. Hall. Devia ter sido mais prudente.

– Não se deve ser temerário. Mas, está me fazendo pensar, Miss Keeldar, talvez fizesse melhor não entrar no quarto e não se aproximar tanto da minha cama. Não creio que a minha doença seja contagiosa, não receio – disse com uma espécie de sorriso – que possa pegá-la. Mas para que há de se expor sequer à sombra de um risco? Deixe-me.

– Paciência. Não me demorarei muito, mas terei prazer em fazer qualquer coisa pelo senhor, em prestar-lhe qualquer serviço...

– Está fazendo falta no salão.

– Não. Os cavalheiros ainda estão à mesa.

– Não vão demorar muito. Sir Philip Nunnely bebe pouco e estou, precisamente, ouvindo-o passar da sala de jantar para o salão.

– É um criado.

– É Sir Philip. Conheço seu andar.

– Tem um ouvido muito apurado.

– Tive-o sempre e parece que ainda o tenho mais apurado de algum tempo para cá. Sir Philip Nunnely veio ontem tomar chá. Ouvi-o cantar uma canção que fez para a miss. Ouvi quando ele foi embora às onze horas. Escutei quando a chamou lá fora para contemplar as estrelas. Harry, dê-me um pouco de água, por favor!

– Eu lhe darei, Harry – disse Miss Keeldar.

Mas Louis ergueu-se e pegou o copo das mãos do menino Sympson e recusou a ajuda de Miss Keeldar.

– Então, nada posso fazer pelo senhor?

– Nada. Porque não me pode garantir uma noite de repouso e é tudo de que preciso neste momento.

– Não tem dormido bem?

– O sono abandonou-me.

– Se eu tivesse esse poder, quereria mergulhá-lo no sono mais profundo, mais sossegado e calmo, sem um sonho sequer.

– O aniquilamento! Não é isso o que eu quero!

– Então, com os sonhos de tudo o que desejar.

– Monstruosas ilusões! O sonho seria então o delírio e o despertar seria a morte.

– Os seus desejos não devem ser tão utópicos. Não é um visionário.

– Miss Keeldar, suponho que o pense, mas o meu caráter, talvez, não seja tão legível para a senhorita como poderia ser a última página de um romance.

– É possível... Mas, gostaria de encadear esse sono ao seu travesseiro. Se eu pegasse num livro e me sentasse ao seu lado para lhe ler algumas páginas?... Posso bem dispor de uma meia hora.

– Agradeço-lhe, mas não quero retê-la.

– Eu leria baixinho...

– Não daria resultado. Sinto-me num estado demasiadamente febril e excessivamente irritável para poder suportar uma voz doce e vibrante tão perto do meu ouvido. É melhor deixar-me.

– Está bem. Vou-me embora.

– E não me dará boa-noite?

– Dou, sim. Boa noite, Mr. Moore.

– Harry, meu rapaz, vá deitar-se. São horas de descansar.

– Sir, gostaria de ficar junto do senhor a noite toda.

– Não é necessário. Estou muito melhor. Pode ir descansar.

– Dê-me a sua benção, Sir.

– Deus o abençoe, meu melhor aluno!

– Nunca me chama de seu mais querido aluno!

– Não, nem nunca chamarei.

Talvez Miss Keeldar tivesse ficado ressentida com o seu antigo professor por ele ter-lhe recusado as atenções. O certo é que não voltou a oferecê-las. Embora o seu passo leve se fizesse ouvir muitas vezes no corredor, não tornou a deter-se à porta do doente e a sua voz doce e vibrante jamais volveu a perturbar o silêncio do quarto dele. Aliás, a boa constituição do doente depressa venceu a doença e, em alguns dias, pôde se levantar e retornar às suas funções de preceptor.

Apesar de tudo, algo subsistia no antigo império do professor sobre sua antiga aluna. A distância que ela mantinha entre os dois era um forte indício.

Uma tarde, os Sympsons tinham ido dar um passeio de carruagem. Miss Keeldar, sempre pronta a evitar a companhia deles, ficara em casa a pretexto de que estava escrevendo uma carta. Esta já estava terminada no momento em que o portão do solar se fechou atrás da carruagem e Miss Keeldar se dirigiu então para o jardim.

Era um dia calmo de outono. O sol dourava os campos por toda a parte; as árvores estavam ainda cobertas de folhas, embora já amareladas. A giesta ainda em flor tingia de amarelo as montanhas; o riacho serpenteava através dos campos silenciosos em direção a Hollow. Nenhum vento agitava os bosques que o marginavam. Os jardins de Fieldhead tinham a marca da melancolia decadente. Ao logo das áleas, varridas pela manhã, novas folhas haviam caído. A estação das flores e até dos frutos acabara, embora se vissem ainda algumas maçãs nas árvores, aqui e acolá, só uma flor se mostrava, pálida e delicada por entre as folhas caídas.

Estas derradeiras flores, as últimas, Miss Keeldar as colheu enquanto passeava com ar preocupado ao longo das áleas. Estava amarrando à cintura um ramo sem perfume e sem viço, quando Harry Sympson, que se dirigia a ela manquejando, chamou-a:

– Shirley, Mr. Moore gostaria de vê-la na sala de estudos e de ouvi-la ler um pouco de francês, caso não tenha qualquer outra coisa urgente para fazer.

O mensageiro deu o recado com muita simplicidade, como se fosse uma coisa sem importância.

– Mr. Moore pediu-lhe que me dissesse isso?

– Decerto! Por que não? E agora vamos e façamos como se estivéssemos ainda em Sympson Grove. Como eram agradáveis aquelas horas de estudo!

Miss Keeldar pensou, talvez, que as circunstâncias tinham mudado desde então. Contudo, não fez qualquer reparo e, após alguns segundos de reflexão, seguiu tranquilamente Harry.

Louis Moore estava sentado à sua escrivaninha folheando um livro que tinha aberto diante de si e marcava certas passagens com um lápis. Inclinou-se ligeiramente em resposta à saudação dela, mas não se levantou.

– Há alguns dias se ofereceu para ler-me qualquer coisa – disse ele. – Não pude então ouvi-la. Agora a minha atenção é toda sua. Seria útil, talvez, praticar um pouco de francês. Tenho notado que a sua pronúncia começa a enferrujar-se.

– Qual será o livro?

– Aqui tem as obras de Bernardin de Saint-Pierre. Leia algumas páginas.

Ela aceitou a cadeira que ele instalara junto da sua. O volume estava pousado em cima da mesa e havia apenas um livro entre eles.

Miss Keeldar começou a ler. O francês tornara-se estranho à sua língua. Hesitava. A leitura era entrecortada, detida por uma respiração precipitada, desarticulada por entoações muito inglesas. Ela, portanto, parou.

– Não posso continuar. Leia-me o senhor um parágrafo, por favor.

O que ele leu, ela repetiu.

Em três minutos tinha aprendido a pronúncia dele.

– Muito bem! – foi o comentário aprovador no fim da leitura do parágrafo.

– Eis o francês quase recuperado, não é verdade? Não poderia escrever em francês como outrora? – perguntou ele.

– Oh! Não. Com certeza erraria a escrita.

– Já não seria capaz de escrever o tema da Primeira mulher sábia?

– Ainda se lembra dessa velharia?

– Sou capaz de repeti-la, palavra por palavra.

– Aposto que não!

Ele recitou então um longo trecho, cheio de poesia e de ardor, que tinha como epígrafe este versículo de Gênesis.

“Aconteceu que, quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a face da terra, e que entre eles nasceram as moças, os filhos de Deus viram as filhas dos homens, acharam-nas belas e escolheram-nas para suas mulheres.”

O último parágrafo mostrava o enlace do gênio da humanidade.

– Nunca pude emendar este tema – disse Miss Keeldar quando Louis Moore acabou. – A sua pena de censor o tinha coberto de linhas de críticas que em vão me esforcei por compreender.

– Mr. Moore! – exclamou Harry. – Faça Shirley repetir alguns trechos que ela dizia tão bem de cor.

– Se eu pedir um, será o Cavalo Domado – disse Louis Moore.

Ela voltou a cabeça para o lado, seu pescoço e face coraram vivamente.

– Ah! O senhor vê como ela não se esqueceu? – disse Harry, triunfante. – Ela ainda se lembra da maldade!

– Decerto, eu era uma rebelde! – respondeu ela.

– Uma rebelde – repetiu Harry. – Sim, você e o papá tinham brigado terrivelmente e você havia cortado as relações com ele, com a mamã, com Mrs. Pryor, com toda a gente. Você dizia que o papá a tinha insultado.

– É verdade que ele tinha me insultado – interrompeu Miss Keeldar.

– E queria abandonar Sympson Grove imediatamente. Tinha arrumado todas as suas coisas e o papá desfez as suas malas. A mamã e Mrs. Pryor choravam e você, ajoelhada no chão, com as suas coisas, com a sua mala diante de si, parecia... parecia... um ser diferente no meio da sua cólera. As suas feições, em tais momentos, não ficam contraídas, ficam imóveis, mas perfeitamente belas. Não parece irritada, mas apenas decidida. Como se um obstáculo que atravessara no seu caminho fosse desfeito como por um raio. O papá fraquejou e chamou Mr. Moore.

– Basta, Harry.

– Não, não basta. O senhor deu a entender ao papá que aquela agitação toda lhe faria voltar a gota. Depois falou tranquilamente às senhoras, convidando-as a sair; seguidamente disse a Shirley que o momento não era para palavras e censuras, porque acabava de ser servido o chá na sala de estudos e que o senhor estava cheio de sede. Daí Shirley o levou para lá. Primeiro você não queria falar, mas não tardou a amaciar e ficar serena. Mr. Moore começou a falar-lhe do continente, da guerra, de Bonaparte, assuntos que interessavam a ambos. Depois do chá ficamos sentados um de cada lado dele. Sentíamo-nos tão felizes! Nunca passei uma tarde tão agradável como aquela! No dia seguinte ele pregou-lhe um sermão de uma hora, terminando por lhe dizer que estudasse Bossuet, como castigo, o Cavalo Domado. A Shirley decorou-o em vez de fazer as malas e Mr. Moore riu disso por mais de um ano.

– Nunca ela recitou uma lição com mais zelo – disse Louis Moore. – Deu-me então o prazer de ouvir pela primeira vez a minha língua materna falada sem acento por uma moça inglesa.

– Durante o mês inteiro ela foi doce como uma cereja de verão – disse Harry. – Depois das zangas o caráter de Shirley ficava sempre melhor do que antes.

– Estão falando de mim como se eu não estivesse presente – observou Miss Keeldar, que não tinha ainda erguido a cabeça.

– Tem certeza de que está presente aqui? – perguntou Louis Moore. – Em certos momentos, depois da minha chegada, tenho sido tentado a perguntar à senhora Fieldhead se ela sabe o que foi feito da minha antiga aluna.

– Estou aqui neste momento.

– Sim, vejo-a até bastante humilde, mas não me arriscaria a aconselhar o Harry ou outros a acreditarem demasiado na humildade duma mulher que num dado momento pode velar a face ruborizada como uma modesta criancinha, para logo a seguir se mostrar pálida e altiva como uma estátua de Juno.

– Um homem da antiguidade, segundo se diz, deu vida à estátua saída do cinzel. Outros podem ser dotados do poder contrário e moldaram a vida em pedra.

Louis Moore teve alguns segundos para reflexão perante aquela observação. O seu olhar parecia dizer: “estranha frase! Qual será seu significado?” Avaliou-a em seu espírito como um alemão avaliaria uma proposição de metafísica.

– Quer dizer – replicou ele, por fim – que há homens que inspiram repugnância e, desse modo, gelam uma alma sensível?

– Muito engenhoso! – respondeu Miss Shirley. – Se a interpretação lhe agrada, fique com ela, a mim é indiferente.

E, dizendo isto, levantou a cabeça e retomou a expressão altiva e a cor de mármore que Louis descrevera.

– Vejam a metamorfose! – disse ele. – Acabamos de falar nela e aqui a temos: a humilde ninfa transformada em deusa inacessível. Mas o Harry não pode ficar sem a sua narração e Olímpia será digna a dar a ele essa oportunidade e prazer. Comecemos.

– Não me lembro da primeira linha.

– Eu não a esqueci. Atenção, Harry! Miss Keeldar condescende em fazer-lhe esta graça. Vejam este cavalo ardente e impetuoso...! É assim que começa.

Miss Keeldar concordou em fazer o esforço que lhe pediam, mas não tardou a parar.

– Só posso continuar se tornar a ouvir o trecho inteiro – disse ela.

– Contudo, foi aprendido em bem pouco tempo. Depressa aprendido, depressa desaprendido – disse o preceptor. E recitou o trecho com facilidade, corretamente, com uma ênfase lenta e expressiva.

Miss Keeldar foi pouco a pouco prestando mais atenção à medida que ele progredia. O seu rosto voltou-se para a direção dele e, quando Louis acabou, ela parecia ter colhido cada palavra dos próprios lábios dele e até sua pronúncia, marcando os períodos como ele próprio os marcava. Reproduzia a atitude e a expressão da face de Louis.

– Recorda-se do Sonho de Atalaia? Pode recitá-lo?

Ele recitou-o. Ela repetiu-o. Sentia um vivo prazer em apropriar-se assim da língua dele. Ela pediu mais e todos os antigos exercícios foram passados em revista e com eles Miss Keeldar se viu reviver os seus alegres dias de estudos.

O crepúsculo descia sobre o breve dia de outono; as janelas da sala de estudos, obscurecidas pelas plantas trepadeiras a que o vento de outubro não arrancara ainda as folhas secas, mal deixavam penetrar os reflexos do céu, mas o fogo dava claridade suficiente para iluminar o ambiente.

Louis Moore dirigiu-se à aluna, em francês. A princípio ela respondeu com hesitação, parando a cada momento. Mr. Moore emendava-a, dando-lhe ânimo. Harry tinha tomado parte na lição e os dois alunos estavam diante do mestre, abraçados pela cinta. Tártaro, que durante muito tempo solicitara sua admissão, mantinha-se deitado muito ajuizadamente diante do fogo. O grupo sentia-se plenamente feliz, porém um rumor de rodas sobre o pavimento do pátio não tardou a vir surpreendê-los desagradavelmente.

– Aí está a carruagem – disse Miss Keeldar. – O jantar deve estar pronto e eu ainda não estou vestida.

Uma criada veio trazer a vela para Mr. Moore e o chá, pois o preceptor e o aluno jantavam na hora do lanche.

– Mr. Sympson e as senhoras já voltaram – disse a criada – e Sir Philip Nunnely veio com eles.

– Como você ficou sobressaltada, Shirley! A sua mão também tremeu – disse Harry, depois de a criada ter fechado a porta e ido embora. – Mas eu não sei por que foi. Mr. Moore sabe? Eu sei quais são os projetos do papá. Esse Sir Philip é um homenzinho muito feio! Eu preferia que ele não tivesse vindo, preferia que as minhas irmãs e toda a gente tivessem ficado em Walden-Hall para jantar. Shirley teria voltado a fazer o chá para ela e para nós e teríamos passado um agradável serão.

Louis Moore estava fechando a sua escrivaninha e guardava o volume de Bernardin.

– Era esse o seu plano, meu rapaz?

– O senhor não está de acordo com ele?

– Não aprovo as utopias. Olho a vida sob sua face de ferro e a realidade com sua densidade de aço. Faça o chá, Harry. Estarei de volta dentro de um minuto.

E saiu da sala. O mesmo fez Miss Keeldar, por outra porta.

 

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