Shirley

Charlotte Brontë · Capítulo 32 de 38

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Shirley

Capítulo XXXII

 

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O Estudante e a Ninfa dos Bosques

 

Como Briarmains ficava mais próximo do que Hollow, Mr. Yorke levara para lá o seu jovem amigo. Instalara-o na melhor cama da casa, com tanto cuidado como se tratasse de um dos seus próprios filhos. A visão do sangue que jorrava do ferimento de Robert fizera dele um filho do coração.

Não havendo outra mão para ajudá-lo, foi necessário que Mr. Yorke o levasse para lá sozinho. A sua benevolência, sem reservas, conquistou a absoluta dependência da vítima. Já a soturna Mrs. Yorke, que tinha um ataque de nervos quando Jessy não queria sair do jardim para voltar para dentro de casa ou quando Martin se propunha a partir para a Austrália a fim de gozar a liberdade, agora, depois de uma tentativa de homicídio quase à sua porta, de um homem meio assassinado deitado na sua melhor cama, estava com novo aspecto; aquilo lhe dava nova vida, avivava-lhe o humor e até dava à sua touca uns ares de turbante.

Ela era precisamente daquelas mulheres capazes de tornarem a vida impossível a uma criada, mas que cuidariam como heroínas de um hospital cheio de doentes com graves pestes. Ela quase amava Mr. Moore. O seu coração duro encheu-se de ternura ao vê-lo confiado aos seus cuidados, dependente dela como uma criança de berço. Escorraçou Jessy e Rose do andar superior da casa e proibiu as criadas que pusessem os pés lá.

Coisa estranha! Louis Moore foi autorizado a entrar, a se sentar na borda da cama, a encostar-se ao travesseiro, a pegar a mão do irmão e a pousar os lábios na sua testa pálida. Mrs. Yorke suportou aquilo. Admitiu que Louis estivesse presente durante a metade do dia; que ele ficasse sentado uma noite inteira no quarto; ela própria se levantou às cinco da manhã, numa fria manhã de novembro, acendeu o fogo na cozinha, preparou o café da manhã para os dois irmãos e os serviu. Majestosamente envolvida num vasto penteador de flanela, de touca de dormir, sentou-se para vê-los comer com tanta satisfação como uma galinha quando contempla seus pintinhos. Entretanto, neste mesmo dia descompôs a cozinheira que se permitira levar a Mr. Moore uma papa de sagu, e a criada de quarto também perdeu a estima dela porque, quando Louis saiu, ela lhe trouxe o casaco da cozinha e, como descarada que era, ajudou-o a se vestir, aceitando em troca um “muito obrigado” e um xelim.

Duas senhoras vieram pálidas, inquietas, e pediram para ver Mr. Moore durante uns instantes, mas Mrs. Yorke endureceu seu coração e recusou terminantemente. Contudo, Miss Hortense foi acolhida com ardor. Menos mal do que se poderia esperar. Miss Moore, aliás, não demonstrou qualquer espécie de ciúme por causa das atenções que Mrs. Yorke tinha com Robert; deixou-a ocupar o lugar de enfermeira e arranjou outras ocupações para ela na casa. Ambas se entenderam admiravelmente bem para afastar os visitantes da casa. Tinham-no cativo e mal permitiam ao ar que o soprasse e ao sol que brilhasse sobre ele.

Mac Turk, o cirurgião a quem Mr. Moore fora confiado, queria instalar junto dele uma enfermeira profissional, da sua escolha, mas nem Mrs. Yorke nem Miss Hortense estavam dispostas a consentir em tal coisa.

É certo que o tratavam da melhor forma que podiam, mas ocorreu um acidente: as ligaduras soltaram e isso resultou em grande perda de sangue. O cirurgião ficou furioso. Ao ver o estado de Mr. Moore, desabafou com uma série de expressões escolhidas, que se torna inútil repetir.

Durante a maior parte de uma noite de inverno, o médico e dois ajudantes permaneceram junto de Mr. Moore, fechados com ele, trabalharam e lutaram sobre um corpo esgotado. Todos os três de um lado da cama, do outro, a morte. A luta foi cruel. Pela manhã, as probabilidades pareciam tão iguais que as duas partes podiam julgar-se igualmente vitoriosas.

Mr. Moore foi confiado à guarda do jovem Mac Turk enquanto foi-se buscar novos reforços que vieram na pessoa de Mrs. Horsfall, a melhor enfermeira do seu estado-maior. Foi aos cuidados dessa mulher que o médico confiou Mr. Moore com as mais severas recomendações.

Mrs. Horsfall tinha uma qualidade, sabia obedecer a ordens. Aos seus olhos, os dez mandamentos eram menos sagrados do que as ordens do cirurgião. Não era uma mulher, era um dragão. Miss Hortense e Mrs. Yorke retiraram-se completamente aterrorizadas pela grossura e altura; pelos grandes ossos e pelos músculos de Mrs. Horsfall. Esta conservava-se no andar superior e, quando entendia que era conveniente, descia para se alimentar, bebia o seu trago e fumava quatro cachimbadas.

Quanto a Mr. Moore, ninguém se atreveu mais a inquirir sobre seu estado, pois Mrs. Horsfall estava de guarda.

Pela manhã e à noite o médico vinha vê-lo. O caso, assim complicado por um acidente, interessava ao jovem cirurgião. Na verdade, Mr. Robert Moore passava horas pouco agradáveis; cheio de sofrimento, em perigo de vida, mal podendo falar, tendo por enfermeira uma espécie de gigante e por companhia três cirurgiões. Foi nestas condições que ele passou todo o triste mês de novembro.

No começo de seu cativeiro, Mr. Moore opôs uma fraca resistência a Mrs. Horsfall, mas ela ensinou-lhe, num instante, a ser dócil. Não ligava a mínima para os seus seis pés de altura nem para os seus hábitos masculinos, tratava-o como trataria uma criança de berço.

Finalmente, novembro passou e dezembro chegou com o inverno profundo, com o céu puro, o frio e as geadas.

Um dia tranquilo seguia-se de uma noite transparente como cristal; no horizonte, a luz tinha reflexo de pérola. As montanhas estavam violáceas e eram vermelhos os reflexos do poente. O firmamento tinha um fundo de cristal branco, tons pálidos, cerúleos ou de esmeralda, essa transparência resplandecia a paisagem.

Que objeto é aquele, de um azul sombrio, que se move, isolado naquele bosque incolor? É apenas um rapaz da escola de Briarfield, que deixou os companheiros regressarem a casa pela estrada e preferiu o bosque, à procura de uma árvore com um montículo coberto de musgo junto às raízes, sobre o qual ele gostava de se sentar. Por que ele andava sozinho em tal lugar? Estava frio e era tarde. Lá está ele sentado neste exato momento. Em que pensará ele? Saberá sentir o encanto e a pureza da noite? Uma lua branca como uma pérola sorria para ele através das árvores cinzentas. Dará ele conta desse sorriso? Não é possível dizê-lo. O seu rosto não é nenhum espelho que reflita as sensações, mas antes uma máscara que as esconde. É um rapazinho de quinze anos, alto para sua idade, com um ar que promete tão pouco às amenidades como ao servilismo. Os prefeitos sensatos evitam se meter na vida deste rapaz. É melhor deixá-lo consigo próprio, pois o tempo acabará por educá-lo.

Martin Yorke, pois se trata de um dos jovens Yorkes, tem grande desprezo pela poesia. Fale-lhe com ar sentimental e ele lhe responderá com uma troça. Mas, ali está ele sozinho, contemplando respeitosamente a natureza, enquanto ela abre, diante de seus olhos atentos, uma página de severa e silenciosa poesia.

Mal acaba de se sentar, extrai um livro da sua pasta, não uma gramática latina, mas um livro de contrabando: contos de fadas. Ele ainda tem uma boa hora de claridade para os seus jovens olhos, aliás, a lua está ali, a sua luz ainda vaga enche a clareira onde está sentado.

Ouvem-se passos. Ele guarda o livro na pasta e coloca-se à escuta: Não! Sim! Novamente se ouve um rumor entre as folhas secas. Martin ergueu os olhos, os ramos se afastam e uma mulher surge.

Está vestida de seda preta e um véu cobre-lhe a face. Martin nunca havia encontrado uma mulher naquele bosque, a não ser, muito raramente, qualquer mocinha da aldeia que vinha colher avelãs. Naquela tarde a aparição não lhe desagradou. À medida que ela se aproxima, verifica que não é velha nem feia, mas, pelo contrário, muito nova e, se não reconhecesse aquela de quem ele muitas vezes fala que é feia, descobriria beleza sob a leve gaze do véu. Ela passou ao seu lado sem dizer nada. Era o que ele esperava; as mulheres não passavam dumas macacas para ele; orgulhosas. E ele não conhece boneca mais cheia de si do que esta Miss Caroline Helstone, mas a dama volta atrás e, erguendo o véu, olha o rapaz e pergunta-lhe com doçura: 

– Não é filho de Mr. Yorke?

Nenhum testemunho humano poderia persuadir Martin Yorke de ter mudado de cor e, contudo, corara até a raiz dos cabelos.

– Sou – respondeu com brusquidão.

– É o Martin, não é?

Esta simples frase, dita com certa timidez, soou agradavelmente aos ouvidos do moço. Amaciou-o como se fosse uma nota musical. Martin tinha uma profunda consciência do seu valor pessoal. Ficou agradavelmente envaidecido ao ver que aquela moça o distinguia dos irmãos. Tal como o pai, detestava as cerimônias; gostava de ouvir uma mulher chamá-lo apenas de Martin. O outro extremo, a excessiva familiaridade, parecia-lhe ainda pior do que a cerimônia. O leve tom de timidez de Miss Caroline pareceu-lhe perfeitamente conveniente.

– Sim, sou o Martin.

– Como estão seu pai e sua mãe? 

Felizmente ela não disse papá e mamã, o que teria estragado tudo.

– E Rose e Jessy? Estão bem, eu suponho.

– A minha prima Hortense continua em Briarmains?

– Oh, sim!

Martin pronunciou isso num tom cômico e com um leve sorriso. O leve sorriso foi-lhe devolvido por Miss Helstone, que adivinhava perfeitamente o que os moços Yorkes pensavam de Miss Hortense.

– Está frio esta tarde... – ela comentou.

– Por que anda por estas bandas tão tarde? – ele perguntou.

– Perdi-me no bosque.

Desta vez Martin se permitiu uma risada irônica.

– Perdeu-se na vasta floresta de Briarmains? Merece nunca achar a saída.

Miss Helstone sorriu e respondeu:

– Nunca tinha vindo aqui e creio que estou agora violando a propriedade alheia; o bosque é de seu pai, não é?

– Sim, mas já que foi tão desastrada e se perdeu, eu vou guiá-la.

– Não precisa, agora já encontrei a trilha; irei bem depressa. Martin – disse ela – como está Mr. Moore?

Aos ouvidos de Martin tinham chegado certos rumores e julgou lícito se divertir fazendo uma experiência.

– Vai morrer. Nada o pode salvar. Todas as esperanças estão perdidas!

Ela fitou-o nos olhos e disse: – Morrer?

– Morrer. E por causa das mulheres. Da minha mãe e de outras. Mexeram nas ligaduras e estragaram tudo; ele perdeu quase todo o sangue; não fossem elas, ele já estaria melhor.

Miss Helstone parecia pregada ao chão. Ao término de dois minutos, sem ter pronunciado uma palavra, começou a andar, sem se despedir, sem fazer mais qualquer pergunta. Não tivera graça nenhuma. Não era aquilo que Martin esperava, contava com uma cena dramática; não valia a pena assustar a moça, visto que ela não lhe daria o espetáculo esperado. Chamou por ela:

– Miss Helstone!

Ela nem ouviu nem se voltou. Martin correu atrás dela.

– Ouça! O que eu lhe disse lhe fez sofrer?

– Desconhece o que é a morte, Martin. É ainda muito novo para que eu possa conversar com você sobre este assunto...

– Então acreditou? É mentira. Quis apenas fazer uma brincadeira. Mr. Moore come por três. Elas passam o tempo a fazer papas para ele, tapiocas e outras coisas boas. Não posso ir à cozinha sem encontrar uma panela no fogo com qualquer coisa para Mr. Moore.

– Martin! Martin!... – a voz dela tremeu e calou-se. – Não é bonito da sua parte, quase me matou...

Miss Helstone deteve-se, encostou-se em uma árvore, trêmula e pálida como a morte.

Martin contemplava-a com inexprimível curiosidade. Por um lado, aquilo, para ele, para usar o seu vocabulário, era “bom como nozes”, pois lhe dizia tantas coisas e despertava nele uma grande vontade de descobrir segredos. Por outro lado, recordava-lhe o que sentira outrora ao ouvir um melro chorando os filhotes que Matthew matara à pedrada e não era um sentimento de prazer. Incapaz de achar alguma coisa para lhe dizer que pudesse consolá-la, começou a pensar o que poderia fazer para ajudá-la. Sorriu e exclamou:

– Já sei! Vou reparar o mal que lhe fiz. Já se sente melhor, Miss Helstone? Venha comigo.

Sem refletir sobre o que seria mais difícil para Miss Caroline, escalar um muro ou atravessar uma sebe, levou-a por um caminho à direita. Viu-se obrigado a ajudá-la a transpor obstáculos e, embora zombando da sua fraqueza, sentia grande satisfação em sentir-se útil.

– Martin, antes de nos separarmos, dê-me sua palavra de honra, de que Mr. Moore está melhor.

– Pensa muito nesse Mr. Moore!

– Não... mas... vários amigos dele podem pedir-me notícias suas e quero poder respondê-las.

– Diga-lhes que ele vai razoavelmente bem, mas que é um preguiçoso. Diga-lhes que come costeletas de carneiro ao jantar e na ceia a melhor araruta que existe.

– E quem trata dele, Martin?

– Quem cuida dele? Daquele grande bebê? Ora! É uma mulher tão gorda quanto o nosso maior tonel, uma solteirona rude e feia. Ela deve fazer da sua vida o diabo! Só ela aproxima-se dele além dos médicos. Creio que ela lhe bata. Às vezes, quando estou deitado, encosto meus ouvidos à parede e ouço pancadas como se alguém estivesse espancando alguém. No fim das contas, apesar das costeletas e das geleias que lhe dão, eu não queria estar na pele dele. Cá para mim, ela come a maior parte do que vai para Mr. Moore, mas não o deixa morrer de fome, isso é certo!

Profundo silêncio e meditação da parte de Miss Helstone e vigilância arteira da parte de Martin.

– Suponho que nunca o vê, não é, Martin?

– Eu? Não! E não me interesso em vê-lo.

Novo silêncio.

– Não veio a nossa casa há cinco semanas com Mrs. Pryor para saber dele? – perguntou ainda Martin.

– Vim.

– Suponho que queriam vê-lo?

– É certo, mas a sua mãe nos enxotou de lá.

– Sim, ela recusou; eu ouvi tudo. Tratou-as com muita dureza.

– Não foi benévola, porque, como sabe Martin, somos parentes dele e é natural que tenhamos interesse pela saúde de Mr. Moore. Mas temos de nos separar. Estamos à porta da sua casa.

– E então? Que importância isso tem? Eu a acompanho até o presbitério.

– Notarão a sua ausência e não saberão onde está.

– Não se preocupe. Tenho idade suficiente para olhar por mim.

Martin sabia que já merecia censuras e pão seco por uma semana. Contudo, aquela tarde lhe trouxera uma aventura e isso valia a pena mais do que os pastéis e as torradas.

Acompanhou Miss Helstone ao presbitério. Durante o trajeto, prometeu que veria Mr. Moore, a despeito do dragão que lhe guardava o quarto, e marcou uma hora no dia seguinte para Miss Caroline aparecer no bosque e receber as notícias. Aquele plano podia falhar, no entanto, a ideia lhe sorria.

Quando voltou a casa, os pães secos foram devidamente prodigalizados juntamente com os sermões. Aceitou a penitência com o mais firme estoicismo. Contudo, antes de subir para o seu quarto, fez uma visita, em segredo, à sala de jantar; compartimento frio e majestoso que raras vezes servia, pois a família habitualmente tomava suas refeições na sala de estar. Deteve-se diante da chaminé e ergueu a vela a altura de dois quadros que representavam cabeças de mulheres; uma, beleza serena, feliz e inocente; a outra, mais graciosa, porém triste e desesperada.

“Parecia-se com esta”, disse ele contemplando a segunda figura, “quando soluçava, encostada na árvore; suponho...”, continuou mais tarde, no seu quarto, sentado à beira da cama, “suponho que ela esteja com o que eles chamam de apaixonada; sim, apaixonada por esse Mr. Moore que está no quarto ao lado. Chut! Essa Mrs. Horsfall bate mesmo nele! Pelo barulho parece que é mesmo verdade, mas suponho que ela está apenas lhe fazendo a cama. Ouvi, certa vez, ela batendo no colchão como se estivesse lutando boxe. É engraçado! Mrs. Horsfall é uma mulher e Miss Caroline Helstone também é mulher e, contudo, nada têm de parecido. Miss Caroline seria o que costumam chamar de linda moça? Parece-me que sim. Tem-se prazer em olhar para ela. Há um não sei o quê tão claro no rosto dela, tão doce nos seus olhos! Ela tem umas longas pestanas e a sombra delas parece-me repousante. Se ela se portar bem e continuar a agradar-me, como me agradou hoje, poderei recompensá-la. Não me desagrada em nada a ideia de enganar minha mãe e esse ogro da velha Mrs. Horsfall. Não que me seja agradável dar prazer a Mr. Moore, mas tudo que eu fizer por ele me será pago e em moeda da minha escolha. Sei muito bem qual a recompensa que vou lhe pedir; uma recompensa desagradável para ele e agradável para mim”. Deitou-se.

 

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