Shirley

Charlotte Brontë · Capítulo 4 de 38

Páginas do PDF

Shirley

Capítulo IV

 

OceanofPDF.com

Mr. Yorke (continuação)

 

Mr. Yorke era, por excelência, um gentleman de Yorkshire. Podia ter cinquenta e cinco anos, mas parecia mais idoso à primeira vista porque seus cabelos eram brancos. A fronte era larga e um pouco grande. A tez fresca indicava uma constituição forte. A dureza das características dos homens do Norte era notada em seu rosto e no som da sua voz. Todos os seus traços eram ingleses, sem mistura de sangue normando. Nada tinha de aristocrático nem de elegante este rosto, que pessoas de sociedade teriam achado vulgar. Porém, em cada linha, em cada ruga daquele rosto, estavam marcados o vigor, a sagacidade, a inteligência e a rude originalidade. Tinha um ar desdenhoso, sarcástico, o ar de um homem difícil de conduzir, impossível de manipular e dominar. Era de elevada e elegante estatura; seu andar era digno e confiante.

Se me custou desenhar seu físico, mais dificuldades eu tenho de descrevê-lo moralmente. Se espera, leitor, achá-lo uma perfeição ou, melhor, um senhor idoso cheio de benevolência e filantropia, enganou-se redondamente.

Ele acabou de falar com Mr. Moore com certa compreensão e simpatia, mas você não deve concluir, por essa razão, que ele pensava sempre com a mesma compreensão e simpatia.

A julgar por suas ameaças há algumas horas, ele teria empregado um ar arbitrário e até cruel para fazer avançar a causa da liberdade e da igualdade. Igualdade! Sim. Mr. Yorke falou sobre igualdade, mas no fundo ele era um homem muito orgulhoso. Era amigável para com as pessoas que estavam abaixo dele, mas altivo como Belzebu com quem quer que fosse no mundo que ele considerasse seu superior. A revolta estava em seu sangue: ele não podia suportar o controle; seu pai, seu avô antes dele, não poderiam suportá-lo; e seus filhos, depois dele, nunca poderiam fazê-lo.

Em primeiro lugar, Mr. Yorke não respeitava ninguém, defeito que leva o homem a se enganar em todas as circunstâncias da vida em que o respeito é necessário. Também não venerava nada.

A falta de veneração fez dele um intolerante para aqueles acima dele: reis, nobres, sacerdotes, dinastias e parlamentos, com todas as suas obras, a maioria de seus decretos, suas formas, seus direitos, suas reivindicações, eram para ele uma abominação, tudo lixo. Ele não encontrava nenhuma utilização ou prazer neles e acreditava que não teria nenhum dano ao mundo se seus cargos fossem destruídos e seus ocupantes esmagados na queda. A falta de veneração fazia dele um coração morto para o deleite de admirar o que é admirável; secou as mil fontes puras de gozo. Ele não era um homem sem religião, embora não fosse membro de nenhuma igreja; a sua religião não poderia ser a de alguém que sabe como venerar. Ele acreditava em Deus e no Céu, mas o seu Deus e o seu Céu eram os de um homem em quem falta temor, imaginação e ternura.

Em segundo lugar, não era dotado de espírito de comparação, o que o conduzia à falta de sensibilidade.

Quanto às boas qualidades, pode-se dizer que era o homem mais considerado e mais hábil de Yorkshire; mesmo os que não gostavam dele eram forçados a respeitá-lo. Os pobres gostavam dele porque era justo. Para os seus operários era afetuoso e até paternal. Quando não tinha trabalho a lhes dar, esforçava-se para lhes arranjar outra coisa para fazer e, se não o conseguisse, ajudava as famílias a se mudarem para outras terras onde podiam arranjar trabalho. Devo dizer também que, se algum de seus operários demonstrava tendência à insubordinação, Mr. Yorke, tal como grande número de indivíduos que detestavam a repressão feita pelos outros, o sabia fazer com vigor e tinha o segredo de abafar a rebelião antes de ela se manifestar. A prosperidade de seus negócios lhe permitia falar com severidade àqueles que estão em situação diferente da sua, portanto, ele atribuía a culpa da situação desagradável em que se encontravam a eles próprios, deixando de fazer causa comum com os patrões para defender a dos trabalhadores.

A família de Mr. Yorke fora a primeira e a mais antiga do distrito e, se ele não fosse o mais rico, era, contudo, um dos mais influentes. Tivera uma boa educação e na sua juventude viajara para o continente e lhe eram familiares o francês e o italiano.

Mr. Yorke conhecia todo o povo de Yorkshire e era conhecido muitas léguas ao redor. Contudo, os seus amigos íntimos eram poucos. De temperamento profundamente original, não gostava do vulgar. Era um homem de caráter franco e rude, e qualquer que fosse a posição da pessoa, era sempre acolhida por ele. Mas, detestava as pessoas requintadas e insípidas, qualquer que fosse a sua categoria.

Você já notou, decerto, que Mr. Yorke tratava Mr. Moore com cordialidade. Há duas ou três razões que justificam sua parcialidade a respeito do jovem industrial. A primeira é que Mr. Moore falava o inglês com pronúncia estrangeira e o francês com a mais absoluta pureza e, esta figura magra e sombria, de belas linhas um pouco gastas, não se parecia em nada com o tipo inglês de Yorkshire. Essas razões parecerão pouco importantes e pouco capazes de influenciar um homem como Mr. Yorke, mas lhe traziam velhas recordações, talvez, ideias divertidas; transportavam-no ao tempo das suas viagens da juventude; tivera visto na Itália tipos como o de Mr. Moore; tivera ouvido nos cafés parisienses e no teatro vozes parecidas com a dele; era novo então, e quando olhava o jovem estrangeiro e lhe escutava a voz, tinha a ilusão de ser jovem também.

Havia uma segunda razão, qualquer motivo material. Mr. Yorke tinha conhecido o pai de Mr. Moore, fizera negócios com ele, fora, até certo ponto, comprometido com suas perdas. Em terceiro lugar, reconhecera no recém-chegado um homem verdadeiramente hábil nos negócios. Estava persuadido de que, por um meio ou outro, este rapaz chegaria a fazer fortuna, e respeitava sua energia e perspicácia, talvez mesmo sua rudeza. Uma quarta circunstância os unia: Mr. Yorke era um dos tutores da menor a quem pertenciam as terras onde se achava instalada a fábrica de Hollow.

A respeito do outro conviva presente neste momento no salão de Mr. Yorke, havia entre eles dupla antipatia, aquela antipatia natural e a proveniente das circunstâncias. O livre-pensador odiava o formalista; o amante da liberdade desdenhava o puritano. Além disso, dizia-se que noutros tempos tinham amado a mesma mulher.

Na sua juventude, Mr. Yorke fora conhecido pela preferência que tinha pelas mulheres brilhantes e espirituosas. Um porte elegante, um ar distinto, um espírito vivo e uma língua acelerada tinham para ele grandes atrativos. No entanto, nunca pensara em desposar nenhuma dessas elegantes com quem gostava de conviver; tendo se apaixonado loucamente, procurava com ardor uma jovem que contrastasse, em absoluto, com a que conhecera antes; uma moça com rosto de madona, a imparcialidade personificada. Pouco lhe importava que ela estivesse no antípoda da que estava habituado a admirar. Para ele, Maria Cave era perfeita, porque, fosse qual fosse a razão (alguma deveria haver para isso), ele a amava.

Mr. Helstone, naquele tempo, vigário de Briarfield, amava também a mesma Maria. Muitos outros ainda admiravam a sua beleza angelical; mas o moço eclesiástico fora o preferido, talvez, pela sua posição. É verdade, de fato, que Mr. Helstone não sentia por Maria a envolvente paixão que Mr. Yorke sentia. Conhecendo-a melhor, ficou, por consequência, mais senhor de si e dela. Maria o aceitou de imediato e o casamento logo se realizou.

A natureza, contudo, não tinha disposto Mr. Helstone para ser um bom marido, mesmo para uma mulher de gostos sedentários. Como Maria Cave ficava por muito tempo silenciosa, ele pensava que nada a incomodava ou que ela não sentia falta de nada. Ao fim de um ano ou dois, ela não tinha para ele grande importância sob nenhum aspecto. Contudo, quando certo dia, bruscamente, como ele pensou (porque quase não tinha dado conta de seu definhamento), ela se despediu dele e deste mundo, ele ficou aturdido. Mr. Helstone só viu no leito nupcial uma forma de argila branca e fria, sentiu então mais a perda que acabava de ter do que aparentou, pois era um desses homens a quem a desgraça não arranca lágrimas.

Mal Mrs. Helstone havia falecido, logo se espalhou na vizinhança o rumor de que ela tinha morrido de desgosto; falou-se até em maus tratos; essas bisbilhotices, grosseiramente falsas, foram, no entanto, avidamente escutadas. Mr. Yorke as ouviu e acreditou, em parte. Ele já não tinha sentimentos benévolos para com seu rival; embora casado com uma mulher que contrastasse sob todos os aspectos com Maria Cave, não podia se esquecer do amargo desapontamento que tinha sentido ao ser rejeitado e, quando soube que, aquela que para ele havia sido tão preciosa, fora desprezada, maltratada por outro, sentiu contra ele uma profunda animosidade que perduraria a vida toda.

 

*******

 

Mr. Yorke não voltou a censurar Mr. Moore e a conversa derivou-se para um tema mais geral; falavam, no entanto, com aspecto de disputa. O estado inquieto do país, as numerosas depredações cometidas recentemente nas fábricas do distrito, alimentaram tanto mais a conversa quanto as três pessoas presentes diferiam na sua maneira de ver as coisas.

Mr. Helstone achava que os operários não tinham razão. Condenava vivamente este espírito de rebeldia contra a autoridade que se estendia por toda a parte, assim como a recusa de suportar com paciência males que ele considerava inevitáveis. Por isso, o remédio que ele prescrevia era uma intervenção vigorosa por parte do governo, uma apertada vigilância da parte dos magistrados e, sempre que fosse necessária, uma repressão militar rápida e enérgica.

Mr. Yorke perguntava se essa intervenção, essa vigilância e essa repressão severa e vigorosa dariam de comer aos que morriam de fome e trabalho aos que não tinham. Achava singular a ideia de haver males inevitáveis. Os patrões – concordava ele – estavam realmente embaraçados; mas a culpa dos seus embaraços cabia ao governo, que era vil, corrupto e sanguinário (eram os qualitativos de Mr. Yorke).

– Mas para que discutir? – continuou: – Como se pode fazer ouvir a voz da razão num país governado por um rei e pelos párocos? Quem tem por rei nominal um doido, cujo verdadeiro monarca é um devasso sem princípios, pode esperar mais o quê?

Mr. Helstone levantou-se, pôs seu chapéu largo e respondeu que, no decorrer da sua carreira, tinha encontrado duas ou três pessoas em quem sentimentos assim se mantiveram enquanto tinham conservado a saúde, a força e a prosperidade. Mas vem um momento – disse – para todos os homens “em que os donos da casa tremem pelo que vem lá do alto”, e que este é o momento da provação para o inimigo da religião e da ordem. Ainda lembrou a Mr. Yorke que a blasfêmia contra Deus e contra o rei era um pecado mortal e que existia um juízo final.

Mr. Yorke respondeu que acreditava firmemente no juízo final. Se não fosse assim, onde estaria o castigo desses miseráveis que pareciam triunfar neste mundo; que abusam dos privilégios imerecidos; que tiram o pão da boca dos pobres; que maltratam os humildes e rastejam com baixeza diante do rico e do poderoso. E acrescentou que, quando se sentia aflito com esse estado de coisas e o seu aparente êxito neste lamacento planeta, pegava o velho livro (e mostrou a grande Bíblia numa das prateleiras da estante), abria-o ao acaso e caía invariavelmente sobre um versículo que explicava tudo. Estava tão certo, disse ele, do destino futuro de alguns desses como se um anjo tivesse descido para fazê-lo conhecer a verdade.

– Senhor – disse o pároco com toda a dignidade – a grande ciência do homem é conhecer a si mesmo, assim como o fim para que dirige os seus passos.

– Sim, sim, deve se lembrar, Mr. Helstone, de que a ignorância foi expulsa do céu, atravessou os ares e veio abater-se diante de uma porta, no flanco da montanha que conduz ao inferno.

– E também não me esqueci, Mr. Yorke, de que o orgulho, não vendo o caminho diante de si, caiu num precipício que tinha sido cavado de propósito pelo príncipe das trevas e se despedaçou na queda.

– Basta! – disse Mr. Moore, que até então tinha sido um espectador silencioso do debate ao qual a indiferença pelos partidos políticos e pelas murmurações da vizinhança tornava-o um juiz imparcial – agora que os senhores já provaram que se odeiam cordialmente, pela minha parte, o meu ódio está tão completamente absorvido pelos que quebraram os meus teares que não me resta nenhum para os meus íntimos amigos e ainda menos para coisa assim tão vaga como uma seita ou um governo. Mas, realmente, caros senhores, eu tenho que declarar que os acho detestáveis; os piores exemplares do que eu jamais tive a desonra de suportar. Não ouso ficar com um rebelde e blasfemador como Mr. Yorke e ainda menos ir-me embora com um eclesiástico cruel e despótico como Mr. Helstone.

– Pois, vou-me embora, Moore – disse o pároco, friamente – e venha ou não comigo, conforme lhe apetecer.

– Não, ele não terá o que escolher; partirá com o senhor – respondeu Mr. Yorke. – Já passa da meia-noite e eu não quero mais visitas. Vão-se embora.

Tocou o sino e Deb, o criado, apareceu. – Leve estes homens até a porta e mande embora os que estão na minha cozinha. Depois tranque as portas e vá se deitar.

Mr. Helstone e Mr. Moore encontraram os demais homens que se dirigiam em grupo para a estrada. Montaram em seus cavalos e afastaram-se rapidamente, Mr. Moore rindo da brusca despedida e Mr. Helstone profundamente indignado.

 

OceanofPDF.com