Shirley
Capítulo XXXIV
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Caso de Perseguição Doméstica
Martin, depois de ter provado o sabor da aventura, queria saboreá-la mais uma vez. Miss Helstone, aquela moça que outrora ele chamara de feia, e cujo rosto não lhe saía da cabeça, achara-se uma vez dentro de sua esfera e a ideia de que a visita podia não se repetir o perturbava assustadoramente. Sentado à sua escrivaninha, ele procurava uma maneira de acrescentar um segundo capítulo ao seu conto de amor apenas iniciado.
Martin sentia uma repugnância religiosa ao ver que o domingo se aproximava. O pai e a mãe, embora negassem ter alguma coisa em comum com a igreja estabelecida, nunca deixavam de ocupar o seu banco na igreja de Briarfield assim que chegava o dia santo. O pior é que eles eram obrigados a ir e ficar sentados, mesmo contra a vontade.
Por essa razão, Martin detestava o domingo. O culto era demasiado demorado e o sermão do pastor, em geral, pouco do seu agrado. Na tarde daquele dia, porém, as suas meditações silvestres lhe apontaram um novo encanto no dia que viria pela frente.
Foi um dia de muita neve, tão abundante que, durante o pequeno almoço, Mrs. Yorke declarou que seus filhos, em vez de irem à igreja, ficariam em silêncio durante duas horas na sala de estar, enquanto Rose e Martin leriam alternadamente uma série de sermões.
– A Rose fará o que quiser – disse Martin, sem erguer os olhos do livro que, como era o seu costume de sempre, lia ao mesmo tempo que comia.
– A Rose fará o que lhe mandarem e o Martin também – disse a mãe.
– Eu quero ir à igreja – replicou Martin, com a inefável tranquilidade de um verdadeiro Yorke, que, colocado entre a espada e a parede, tendo a certeza absoluta do que queria, se deixaria matar, mas não voltaria atrás.
– O tempo não está bom para sair de casa – atalhou o pai.
Não houve resposta. Martin continuava a ler, com um ar muito sério, a partir lentamente o pão e a beber o leite.
– Martin não gosta de ir à igreja, mas gosta menos ainda de obedecer – disse Mrs. Yorke.
– Está dizendo que somente a minha perversidade me guia? – perguntou o rapaz.
– Certamente.
– Está enganada, minha mãe.
– Então, o que é que o guia?
– Uma complicação de motivos que me seria impossível explicar-lhe o significado, tanto como colocar-me do avesso para lhe mostrar o mecanismo interior da minha pessoa.
– Escutem o Martin, escutem-no! – exclamou Mr. Yorke. – Tenho que fazer este rapaz seguir a carreira de advogado. A natureza o predestinou a viver da sua língua. Minha mulher, o seu terceiro filho será, sem dúvida, advogado, pois tem tudo o que é preciso para isso: descaramento, fatuidade e palavras, palavras, palavras!
– Passe-me o pão, Rose – pediu Martin, com uma serenidade e uma gravidade cheia de fleuma.
A sua voz natural era doce e queixosa, mal chegava, nos seus momentos de irritação, a um murmúrio de uma mulher. Quanto mais o seu humor era inflexível e teimoso, mais a sua voz era afável e triste. Tocou a campainha e pediu afetuosamente por seus sapatos.
– Mas, Martin – observou o pai – a neve é tanta que um rapaz mal poderia abrir caminho. Contudo, meu rapaz – prosseguiu Mr. Yorke, ao ver que Martin se erguia no momento em que o sino da igreja começava a tocar – este caso é daqueles em que não quero impedir um rapaz teimoso de fazer o que lhe der na veneta. Vai à igreja como deseja. Está um vento insuportável, caindo geada, sem falar na neve. Mas vai, se prefere isso a um bom fogo.
Martin pegou tranquilamente seu casaco, uma manta para o pescoço e o boné e saiu com ar decidido.
“Meu pai é mais sensato do que a minha mãe”, pensou ele com os seus botões. “As mulheres têm tão pouco bom senso!”
Chegou à igreja. “Agora, se o tempo lhe colocar medo, pois está uma verdadeira tempestade, ou se essa Mrs. Pryor se opuser a que ela saia e eu não a puder ver, isso vai me deixar irado. Mas ela deve vir. Se tiver uma alma digna dos olhos e das feições, há de vir.”
Martin olhou ao seu redor. A igreja estava fria, silenciosa e vazia. Tinha apenas uma mulher sentada no banco da frente. Ao calar-se o carrilhão, continuando só um sino a badalar lentamente, algumas velhas paroquianas foram entrando e tomando seus lugares nos bancos comuns.
“Desprezá-la-ei se ela não vier”, pensava Martin, quase congelando. O grande chapéu do pastor já passara o pórtico; os sinos calaram-se, fecharam-se as portas e o culto começou, mas o banco do presbitério permaneceu vazio. Ela não tinha vindo.
“Ser indigno! Ela é como todas as outras: fraca, egoísta e frívola. Não se parece em nada com a mulher do quadro. Quem é ela? Uma boneca, um brinquedo, uma mulher, em suma!”
Esta era a liturgia de Martin.
O moço cínico estava tão absorto que se esqueceu de se erguer no momento propício e estava ainda de joelhos numa atitude de devoção exemplar quando começou o primeiro hino. Ergueu-se, corando, pois era tão sensível ao ridículo como uma mocinha. Para sua maior complicação, a porta da igreja se abriu novamente e as naves laterais começaram a encher-se. Uma centena de pezinhos ressoou sobre o lajeado do templo. Eram os alunos da escola dominical. Segundo o costume de Briarfield, aquelas crianças ficavam num lugar onde havia uma lareira acesa e só eram conduzidas à igreja na altura da comunhão e do sermão.
Finalmente, quando o coro e a congregação se ergueram para entoar um cântico, entrou, para fechar a procissão, um grupo de moças mais crescidas. A sua monitora, depois de elas terem se sentado, passou para o banco do presbitério. Martin conhecia muito bem aquela capa cinzenta à francesa e o chapeuzinho de castor. Afinal, Miss Helstone sempre tinha vindo à igreja. Martin segredou provavelmente a satisfação ao seu livro de oração, que conservou colado ao rosto durante dois minutos.
Satisfeito ou não, teve tempo suficiente para se irritar antes do final do sermão; ela não voltou os olhos em sua direção uma única vez.
“Se ela não prestar atenção em mim”, pensava ele, “terei pior opinião dela do que nunca. Seria uma vergonha que ela tivesse vindo à igreja por causa desses cordeirinhos das suas alunas e não por minha causa ou por causa daquele grande esqueleto chamado Mr. Moore.”
O sermão acabou finalmente; a benção foi pronunciada e a congregação dispersou-se. Miss Helstone não tinha se aproximado dele.
Desta vez, ao colocar o nariz para fora da porta, Martin achou que o frio tinha aumentado, que estava penetrante.
O caminho mais curto para casa era através dos campos. Era perigoso, pois não havia trilha, contudo, foi o caminho que o rapaz escolheu. Na segunda barreira, erguia-se um grupo de árvores. Não era um guarda-chuva que estava lá à sua espera? Sim, uma sombrinha mantida em pé a todo o custo por causa do vento. Por detrás dela, uma capa cinzenta à francesa balançava ao sabor da corrente fria. Martin sorriu ao subir a rampa cheia de neve. Atingindo a barreira, sentou-se nela e deu início a uma conversa, que não lhe desagradaria prolongar indefinidamente:
– Devia fazer um negócio, trocar-me pela Mrs. Pryor.
– Eu não tinha certeza de que tomaria este caminho, mas quis correr o risco.
– Aceita? Quer ceder Mrs. Pryor à minha mãe e colocar-me no lugar dela?
– Eu não sei o que quer dizer, Martin! Por que está falando de Mrs. Pryor?
– Chama-a de mamã, não é verdade?
– Ela é a minha mãe.
– Não é possível! Então ela é uma mamã inútil e negligente e eu valho cinco vezes mais do que ela. Pode rir, não faço objeções de que você ria de mim; os seus dentes são bonitos e eu detesto maus dentes. Os seus são belos como as pérolas de um colar, iguais umas às outras.
– Martin, o que vem a ser isso? Eu julgava que os Yorkes nunca faziam galanteios.
– Nunca os tinham dito até a atual geração, mas eu sinto vocação para criar uma nova geração de Yorkes. Começo a me sentir fatigado pelos meus antepassados. Temos tradições de quatro séculos, histórias de Hiram, que era filho de Hiram; que era filho de Samuel; que era filho de John; que era filho de Zerubbabel Yorke até o último Hiram. Fora aquilo que vê na pessoa do meu pai. Antes dele houve um Godfrey. Temos o retrato dele, está no quarto de Mr. Moore e é parecido comigo. Nada sei do seu caráter, mas tenho a certeza de que diferia do dos seus descendentes. Tem longos cabelos encaracolados, ele está elegantemente vestido e, depois de dizer que é parecido comigo, acrescento que ele é bonito.
– Mas você não é bonito, Martin.
– Não agora, mas deixe o tempo passar. É minha intenção começar desde este momento a cultivar-me, a polir-me, e você verá.
– É um rapaz estranho e bem extraordinário, Martin, mas não julgue que um dia será bonito.
– Vou tentar, pelo menos, mas estávamos falando de Mrs. Pryor. Ela deve ser a mãe mais desnaturada do mundo para deixar a filha sair com um tempo desses.
– A mamã estava cheia de ansiedade e não queria deixar que eu saísse, mas receio ter-me mostrado obstinada, pois eu queria muito sair.
– Para me ver?
– Precisamente; não pensava em outra coisa. Receava muito que a neve o impedisse de vir. Não calcula o prazer que tive ao vê-lo na igreja.
– Vim para cumprir os meus deveres e para dar um bom exemplo à paróquia. Então, diz que se mostrou obstinada? Gostaria de vê-la neste momento. Se me pertencesse, eu haveria de colocá-la na linha. Dê-me o guarda-chuva.
– Só posso demorar-me dois minutos, pois o almoço deve estar na mesa.
– Também o nosso; um pato assado; uma torta de batatas e um pudim de arroz. Arranjo sempre maneira de saber o que será servido. Gosto muito de todas estas coisas. Pois bem, sacrifico-as se assim o pedir!
– O nosso jantar é frio, pois o meu tio não permite que se cozinhe aos domingos, senão o que for indispensável. Mas tenho que voltar. A casa ficaria sobressaltada se eu não voltasse a tempo.
– E em Briarmains! Parece-me que estou ouvindo o meu pai expedindo o contramestre e cinco dos titulares para procurarem o corpo do filho pródigo, e minha mãe se arrepender das suas numerosas injustiças para comigo, agora que me supõe perdido.
– Martin, como está o Robert?
– Aí está o motivo para que viesse. Só para me perguntar isso... Não está pior, mas continua sendo maltratado como de costume, engaiolado, no mais completo isolamento. Vão acabar por fazer dele um idiota. Mrs. Horsfall o fará morrer de fome. Você viu com seus próprios olhos como ele está magro.
– Foi muito gentil no outro dia, Martin.
– Em que dia? Eu sou sempre gentil, um menino exemplar.
– Quando voltará a ser tão gentil?
– Estou percebendo seu jogo, mas não vai conseguir me dobrar. Eu não sou nenhum alcoviteiro.
– Mas é preciso. É necessário.
– Lembre-se de como foi difícil arranjar as coisas naquele dia.
– E voltará a arranjá-las?
– Isso é que não! Deu-me demasiado trabalho, gosto da tranquilidade.
– Mr. Moore deseja me ver, Martin. E eu também desejo vê-lo.
– Estou certo de que sim – disse Martin, friamente.
– É muito feio da parte de sua mãe afastar dele seus amigos.
– Por que não diz isso a ela?
– Bem sabe que de nada serviria. Pois bem, insistirei. Vou vê-lo de qualquer maneira. Se não quiser me ajudar, passo sem sua ajuda.
– Pois passe. Não há nada melhor do que contarmos somente com nós mesmos.
– Não tenho agora tempo para discutir com você, Martin. Mas acho-o bastante irritante. Boa tarde.
Miss Helstone foi-se embora com o guarda-chuva fechado, pois não poderia mantê-lo contra o vento.
“Não é uma cabeça leve”, pensou Martin. “Vou vigiá-la. Estou ansioso para saber como ela vai se arranjar sem a minha ajuda. Mesmo que a tempestade fosse de fogo e não de neve, ela seria capaz de se atirar para a frente para obter cinco minutos de conversa com aquele Mr. Moore. Agora me parece que passei uma manhã agradável. Lógico: os desapontamentos não faltaram, os receios e os assombros de cólera só contribuíram para tornar ainda mais agradável este breve encontro. É preciso que ela volte outra vez e muitas outras vezes. Sinto prazer em deixá-la nervosa, em fazê-la chorar. Tenho vontade de saber até onde ela irá e ao que se atreverá para satisfazer seu desejo. Acho curioso ter encontrado uma criatura humana que pense tanto noutra como ela pensa em Mr. Moore. Mas são horas de voltar para casa. Estou faminto. Quero a minha parte do pato e veremos se é o meu irmão ou eu quem terá hoje a porção maior do pudim.”
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