Shirley
Capítulo XIV
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A Caridade de Miss Shirley Keeldar
“Claro, eu sei muito bem que ele vai se casar com Shirley”, foram as primeiras palavras que vieram à mente de Miss Helstone quando ela se levantou na manhã seguinte. “E ele deve se casar com ela, pois ela pode ajudá-lo”, acrescentou com firmeza. “Mas, eu serei esquecida quando se casarem”, pensou com amargura. “Oh, eu serei totalmente esquecida; e o que farei quando o meu Robert estiver perdido para mim? O que será de mim? O meu amado Robert! Como eu gostaria de poder chamá-lo de meu! Mas eu sou pobre e incapacitada de ajudá-lo! Shirley é rica e tem poder, além de bela e amorosa, isso eu não posso negar. Ela o ama, não com sentimentos inferiores. Como ele deve se sentir orgulhoso de ser amado por ela! Nenhuma objeção válida poderia ser feita. Deixe que se casem, então; mas depois eu não serei mais nada para ele. Quanto a ser uma espécie de irmã dele e todas essas coisas, eu desprezo. Quero ser tudo ou nada para um homem como o Robert. Uma vez juntos, tenho que deixá-los. Sinto-me tão pouco capaz de fazer o papel de uma amiga e também de inimiga. Para mim Robert é um homem maravilhoso. Amei, amo-o e devo amá-lo para sempre. Eu queria ser a sua esposa se eu pudesse; como não posso, tenho que ir para onde eu nunca mais o veja.”
Estas reflexões ocuparam a mente de Miss Helstone até o final da tarde, quando uma das personagens que assombravam seus pensamentos passou próximo à janela da sala. Miss Keeldar caminhava lentamente, o seu andar e a sua expressão davam a impressão de sonho e indolência que lhe eram habituais. Quando ela se animava, a indolência desaparecia, seu ar melancólico tornava-se alegre e genial, temperando seu riso e seu olhar com um sabor único e especial, de modo que a alegria dela parecia o crepitar dos espinhos embaixo de uma panela.
– Por que não foi me ver esta tarde como havia me prometido, Caroline?
– Não estava de bom humor – respondeu Miss Helstone, muito verdadeiramente.
– Não? – Miss Shirley fixou nela seu olhar penetrante. – Vejo que não está disposta a conversar. Está em um de seus humores inclementes. Sabe quando você sente que sua presença não é bem-vinda? Sinto isso.
– Desculpe-me, Shirley. Não dormi bem.
– Não se preocupe. Mas, como acho que precisa de uma amiga, ficarei para o chá. Vou tomar essa liberdade e já vou retirar o meu chapéu.
E isto ela fez e depois ficou de pé com as mãos atrás das costas.
– Está com uma expressão esquisita – continuou ela, ainda olhando intensamente para Miss Caroline, embora não hostilmente, mas, talvez, penalizada. – Parece uma pobre corça ferida procurando a solidão. Você tem medo de que eu a atormente e descubra do que se trata essa ferida, essa mágoa que está sangrando você?
– Nunca tenho medo da Shirley.
– Mas, às vezes, você não gosta dela... Muitas vezes a evita. Não pode evitar a Shirley e sentir inimizade por ela sem que ela perceba. Se você não tivesse voltado ontem à noite na companhia de quem você sabe, hoje seria uma garota muito diferente. A que horas chegou ao presbitério?
– Às dez.
– Hum! Levaram três quartos de hora para andar uma milha? Quem foi que andou tão devagar, Caroline ou Mr. Moore?
– Shirley, você está falando bobagens.
– Aposto que ele lhe disse um monte de bobagens, não duvido, ou, pelo menos, ele teve essa intenção, o que é mil vezes pior. Vejo o reflexo de seus olhos em sua testa neste momento. Seria capaz de desafiá-lo se pudesse encontrar um segundo com quem pudesse contar. Estou desesperadamente irritada. Eu me senti assim ontem à noite e, hoje, tenho estado o dia todo. Não me pergunte por quê – continuou ela, após uma pausa – você é muito modesta e silenciosa. E você não merece que eu derrame meus segredos em seu colo sem um convite à minha palavra. Ontem à tarde eu estava disposta a esperar por Mr. Moore com cruéis intenções. Tenho pistolas e sei usá-las.
– Está brincando, Shirley! Quem mataria? A mim ou a Robert?
– Nenhum dos dois, talvez, a mim, quem sabe. O mais provável é que eu mate um morcego ou um ramo de árvore. O seu primo é um filhote de cachorro, sério, sensato, judicioso, um pouco jovial, mas mesmo assim um cachorro criterioso e ambicioso. Vejo-o diante de mim, falando com sua conversa suave que me domina, o que eu sinto perfeitamente. Como estou consciente do que ele faz! Faz isso com sua firmeza de propósito e sua força de vontade. Por isso eu não tenho paciência com ele e o detesto.
Miss Keeldar começou a andar rápido pela sala, repetindo energicamente que ela não tinha paciência com os homens em geral e com o seu inquilino em particular.
– Está enganada, Shirley – disse Miss Caroline, um pouco alarmada. – Robert não é um cachorro, nem pedante e nem um libertino paquerador. Posso lhe garantir isso.
– Você atesta isso? Você acha que eu vou levar sua palavra em conta sobre esse assunto? Para defender os interesses de Mr. Moore, você seria capaz de cortar sua mão direita.
– Mas eu não mentiria. E se eu falo a verdade, devo assegurar-lhe que ele não foi mais do que delicado para comigo na noite passada. Isso é tudo.
– Não lhe perguntei o que ele tinha sido. Posso adivinhar. Da janela eu o vi apertar-lhe a mão entre seus longos dedos assim que ele saiu no meu portão.
– Isso não é nada. Não sou uma estranha para ele, você sabe disso. Sou uma velha conhecida, sua prima.
– Estou indignada – respondeu Miss Keeldar. – Toda a minha felicidade neste momento – acrescentou – está destruída pelas manobras de Mr. Moore. Ele se intromete entre mim e você. Sem ele seríamos boas amigas. Mas, a todo momento ele se torna um objeto de aborrecimento e de desprezo para você. Cruza o nosso caminho e obscurece tudo.
– Não, Shirley, não!
– Ele faz isso, sim. Estou dizendo a verdade. Você não queria a minha companhia esta tarde e eu fiquei muito aflita. Você é naturalmente um pouco reservada, mas eu sou sociável, gosto de companhia e não posso ficar sozinha. Nunca me aconteceu, por um minuto que fosse, eu não desejar a sua presença. E nunca gostaria de me livrar de você, e você não pode dizer a mesma coisa em relação a mim.
– Shirley, eu posso dizer qualquer coisa que você quiser. Eu gosto de você.
– Desejaria me ver amanhã em Jericó, Lina?
– A cada dia me vejo mais ligada e afeiçoada a você. Você sabe que eu sou muito inglesa para ter uma amizade tão veemente, mas você está muito acima do comum, é tão diferente das outras jovens, eu, de fato, a estimo, valorizo e aprecio sua presença. Você nunca me pesa. Você acredita no que eu lhe digo? O problema está em mim.
– Em parte – replicou Miss Keeldar, com um sorriso incrédulo. – Mas você é uma personagem peculiar, Caroline! Calma como você parece, há dentro de você uma força e uma profundidade que é difícil de ser atingida ou apreciada. Certamente você não é feliz.
– E as pessoas infelizes raramente são boas? É isso que você quer dizer?
– De maneira alguma! Quero dizer que as pessoas infelizes estão sempre preocupadas e com pouca disposição para aturar pessoas da minha natureza. Além disso, há uma espécie de tristeza que não só deprime, mas corrói. E temo que seja a sua. A piedade pode servir-lhe de alguma coisa, Lina? Se for este o caso, aceite a de Shirley. Ofereço a minha da mais alta qualidade.
– Shirley, eu nunca tive uma irmã e você também não. Mas, neste momento, sinto o que deve ser os sentimentos que unem duas irmãs: uma afeição entrelaçada com a vida, que nenhum choque pode abalar, que as pequenas disputas somente ofendem instantaneamente para que surjam mais fortes e mais vivas quando a pressão é removida. Um carinho que nenhuma paixão pode destruir, que o próprio amor não pode igualar em força e constância. O amor nos machuca, Shirley. Causa-nos tais angústias, tais torturas que as nossas forças são destruídas e devoradas pelas chamas. Na afeição não existe dor nem fogo, mas a consolação e o bálsamo. Sinto-me consolada e aliviada quando Shirley está por perto. Você acredita em mim agora?
– Acredito facilmente naquilo que me agrada. Nós realmente somos amigas apesar do nosso eclipse.
– Somos, sim – respondeu Miss Caroline puxando Miss Shirley para junto dela e fazendo-a sentar-se ao seu lado. – Aconteça o que acontecer, seremos sempre amigas!
– Venha, então, vamos falar de outra coisa que não seja o nosso perturbador.
Mas, neste momento, o reitor entrou e o assunto que Miss Keeldar estava prestes a falar foi deixado de lado até o momento de sua partida. Ela, então, atrasou alguns minutos no corredor para dizer: – Caroline, preciso lhe dizer que eu tenho um grande peso em minha consciência e estou tão perturbada como se tivesse cometido um crime ou estivesse em vésperas de cometer. Não se trata da minha consciência em particular, como deve compreender, mas da proprietária ou da dona da mansão de Fieldhead. Estou sob uma influência da severidade de que não aprovo absolutamente nada, mas que não posso resistir. Algo será feito em breve, no qual nem quero pensar. Para aliviar a minha mente e para evitar danos, tanto quanto me seja possível, eu quero começar a fazer boas obras. Não se surpreenda, portanto, se você me vir transformar escandalosamente numa pessoa caridosa em extremo. Não tenho ideia de como começar, mas você poderia me dar alguns conselhos. Vamos falar mais sobre o assunto amanhã. Peça a esta excelente pessoa, Miss Ainley, para ir a Fieldhead. Tenho algumas pretensões e quero me colocar sob a sua orientação. Dê-lhe a entender, Lina, que, embora cheia de boas intenções, o meu caráter é um pouco indolente, para que ela não se sinta tão escandalizada com a minha ignorância sobre as sociedades beneficentes ou coisa semelhante.
No dia seguinte, Miss Caroline encontrou Miss Shirley sentada em sua mesa, toda grave, com um livro de contas, um maço de notas e uma bolsa bem cheia diante dela. Ela parecia bem séria, mas um pouco confusa.
– Caroline! Entre e sente-se. Acabo de passar os olhos pelas despesas da casa procurando em que eu poderia reduzir e tive uma conversa com Mrs. Gill, a cozinheira, e ela saiu com a convicção de que o meu cérebro estava certamente enlouquecido. Chamei-lhe a atenção de uma maneira completamente nova para ela sobre o dever de se fazer economia. Eu própria fiquei espantada com minha eloquência sobre tal assunto, mas tudo isso não passou de teoria, pois quando eu vim para a parte prática, não me foi possível poupar uma única libra. Não tive a firmeza necessária para suprimir um único pote de manteiga, toucinho, carne, pão, frios ou qualquer outra gratificação da cozinha. Sou covarde sobre certos pontos, bem sei. Há uma covardia impregnada em minha natureza. Sei que nunca suspenderei as iluminações em Fieldhead, mesmo que quilos bem irresponsáveis de velas sejam consumidos. Corei e baixei a cabeça diante de Mrs. Gill quando era ela que teria que implorar pela minha clemência. Achei impossível de fazer-me entender e eu tinha fortes razões para provar que ela era uma fraude. Eu não tenho a calma dignidade nem coragem.
– Shirley, como está sendo injusta com você mesma! O meu tio, que não é dado a falar bem das mulheres, diz que não há dez mil homens na Inglaterra tão verdadeiramente destemidos como você.
– Sou destemida fisicamente. Não tenho medo do perigo. Não me assustei em nada quando o grande touro de Mr. Wynne se ergueu com um mugido, baixou a cabeça e se precipitou sobre mim. Mas, tive medo de ver a vergonha e a confusão no rosto de Mrs. Gill. Você tem dez vezes mais força de espírito do que eu sobre certos assuntos. Não haveria nada que a pudesse obrigar a passar perto de um touro, por mais manso que se parecesse, mas teria feito a minha cozinheira ver firmemente que ela tinha procedido mal. Então você teria, gentilmente e sabiamente, a advertido. Eu sou incapaz de proceder assim. Entretanto, apesar das minhas despesas, tenho em mãos o dinheiro com o qual devo realmente fazer algo de bom. Os pobres de Briarfield sofrem cruelmente e eu preciso ajudá-los. O que acha que devo fazer, Lina? Não seria correto distribuir dinheiro de uma só vez?
– Não, com certeza, Shirley. Você não deve fazer isso. Tenho notado que toda a sua caridade consiste em distribuir xelins e meias-coroas de uma maneira generosa e descuidada, o que dá lugar a uma espécie de abuso contínuo com você. Deve ter uma pessoa que cuide disso para você e aloque o dinheiro com sabedoria. Você falou com Miss Ainley? Ela vai saber como aplicar esse dinheiro. E, enquanto isso, prometa-me manter a calma e não comece jogando fora seu dinheiro. Você deve se sentir muito rica com tudo isso.
– Sim e não. Não é uma soma imensa, mas eu me sinto responsável pela sua eliminação. Eu realmente acho que é minha responsabilidade distribuir parte do meu dinheiro, pois pesa em minha mente mais fortemente do que eu poderia ter esperado. Eles dizem que há algumas famílias quase morrendo de fome em Briarfield. Alguns dos meus próprios aldeões estão em circunstâncias infelizes. Portanto, devo ajudá-los.
– Algumas pessoas dizem que não devemos dar esmolas aos pobres, Shirley. Você pode ajudá-los dando-lhes trabalho e os remunerando dignamente.
– Quem diz isso são criaturas insensatas. Aos que não têm fome é fácil discorrer sobre a degradação da caridade. Mas, eles se esquecem da brevidade da vida, assim como sua amargura. Nenhum de nós tem muito tempo a viver. Devemos ajudar uns aos outros nos momentos de aflição tanto quanto pudermos.
– Mas você socorre os outros, Shirley. Já tem o hábito de dar muito.
– Não é suficiente. Devo dar mais ou, eu lhe digo, o sangue do meu irmão deve gritar qualquer dia no Céu contra mim. Porque, apesar de tudo, se os incendiários políticos viessem atacar minha propriedade e fomentar desordem na aldeia, eu sei que eu a defenderia como uma tigresa.
– Você fala como Robert.
– Sinto como Mr. Moore, só que com mais ardor. Que eles ataquem Mr. Robert Moore, seu moinho, seus interesses, e sintam ódio por ele. No momento, eu não sou aristocrata, nem considero os pobres em torno de mim como plebeus. Mas, se eles vierem empregar de violência contra mim ou os meus e pretenderem ditar normas para nós, vou esquecer completamente a pena de sua miséria e o respeito pela sua pobreza. No lugar nascerá em mim um desprezo pela sua ignorância e ressentimento pela sua insolência.
– Shirley, como os seus olhos brilham!
– Porque a minha alma está em fogo. Quereria ver Mr. Moore esmagado pelos números?
– Se eu tivesse o poder que você tem para ajudar Robert, eu o ajudaria.
– E agora, Lina, se os seus olhos não lançam relâmpagos, brilham, contudo. Você abaixou os cílios, mas eu vi acender-lhes centelhas. No entanto, ainda não é chegado o momento de combater. O que eu queria fazer, se pudesse, era evitar o mal. Mas, para suavizar o sofrimento e para diminuir o ódio, deixe-me dar com largueza o meu supérfluo e, para que o que se dá seja mais eficaz, vamos fazê-lo de forma sensata. Então vamos procurar Miss Ainley.
Sem outra palavra, Caroline colocou a touca e partiu. Foi um belo dia para Miss Ainley aquele em que fora chamada a Fieldhead para deliberar sobre projetos que tanto lhe interessavam e, depois de a fazerem sentar-se em um lugar de honra, a uma grande mesa, com papel, penas e tinta e, diante dela o que valia mais do que tudo isso, o dinheiro, solicitaram que ela elaborasse um plano para levar alívio aos pobres de Briarfield. Ela, que os conhecia a todos, que lhes estudara as necessidades, sabia como eles poderiam ser mais sabiamente socorridos.
Miss Keeldar colocou à disposição da bondosa Miss Ainley trezentas libras, cujos olhos se encheram de lágrimas de alegria, pois representava alimento para os famintos, roupas para os que estavam nus e medicamentos para os doentes. Ela rapidamente organizou um plano simples e sensato para a aplicação daquele dinheiro, e garantiu a Miss Helstone e a Miss Keeldar que não tardariam a chegar tempos mais felizes. Ela queria tentar juntar outras quantias e constituir um fundo para aliviar os pobres de Whinbury e de Nunnely, ao mesmo tempo em que os de Briarfield. Mas, primeiro era preciso consultar os membros do clero, que eram todos seres sagrados para Miss Ainley. Miss Keeldar estipulou expressamente que os vigários não teriam voz ativa na aplicação do dinheiro.
Infatigável quando se tratava de fazer o bem, Miss Ainley pôs-se logo a trabalhar e daria uma volta de quinze quilômetros para ver os três pastores, submeter-lhes seus planos e solicitar sua aprovação. No entanto, Miss Keeldar não consentiu e propôs, como emenda, reunir o clero à noite em Fieldhead. Miss Ainley estaria presente e explicaria o seu plano ao conselho privado.
Foi com algum horror que Miss Ainley ouviu essa proposta. Miss Helstone, no entanto, falou uma ou duas palavras suaves em louvor de Mr. Sweeting, o que acalmou novamente Miss Ainley. Mr. Sweeting era, de fato, o seu favorito. Ela se esforçava para respeitar os senhores Malone e Donne, mas as fatias de bolo e os copos de vinho eram diferentes quando oferecidos a Mr. Sweeting, quando ele ia vê-la em sua pequena casa.
Miss Keeldar havia convidado os pastores para uma visita a Fieldhead e, enquanto Miss Ainley não chegava, ficou conversando amavelmente com eles. Ela tinha se encarregado de Mr. Boultby e de Mr. Helstone. O primeiro era um teimoso galês, obstinado, mas que não deixava de fazer, talvez, com um bocado de ostentação. O último era um velho conhecido. Ela tinha um sentimento bastante amigável para ambos, especialmente para o velho Mr. Helstone e não custou nenhum problema ser bastante agradável para com eles.
Ela deixou Mr. Hall na companhia de Miss Helstone, ou melhor, foi o próprio Mr. Hall que se entregou aos cuidados de Miss Caroline. Ele não era, em geral, um cavalheiro, mas todas as senhoras gostavam dele. Era um devorador de livros, mas era míope, usava óculos e era sujeito a frequentes distrações. Procurava por Miss Caroline em cada festa aonde ela ia. Tal preferência de um celibatário por uma pessoa solteira teria dado, num caso vulgar, motivo à maledicência, mas Cirino Hall tinha quarenta e cinco anos, era levemente calvo, o seu cabelo começava a ficar grisalho e nunca ninguém cogitava que ele pudesse querer se casar com Miss Caroline Helstone. Ele próprio não o pensava. Desde há muito tempo desposara seus livros e a sua paróquia. A sua boa irmã, Miss Margaret, que usava lunetas e era sábia como ele, tornava-o feliz em sua posição de celibatário. Pensava que era demasiado tarde para mudar.
Quando Miss Ainley chegou, foi gentilmente recebida por todos. Mrs. Pryor e Miss Margaret Hall deram-lhe lugar entre elas no sofá e, logo que as três se sentaram, formaram um trio que teria feito rir os jovens estouvados, mas que tinha o seu valor.
Miss Keeldar expôs o caso e mostrou o plano.
– Conheço a mão que elaborou isso – disse Mr. Hall, olhando para Miss Ainley e sorrindo. A sua aprovação estava ganha. Mr. Boultby ouviu e deliberou com cabeça baixa. A coisa parecia demasiado importante para que ele desse o seu consentimento sem pensar a respeito. Dessa forma, Mr. Helstone olhou atentamente em volta com uma expressão alerta e desconfiada, como se temesse que qualquer personagem de saia tentasse algum subterfúgio para adquirir muita importância. Miss Keeldar capturou e compreendeu a expressão de seu olhar.
– Esse projeto não é nada – disse ela, despreocupadamente. – É apenas um esboço, uma mera sugestão. Peço aos senhores que estabeleçam um regulamento.
E ela mesma foi arranjar lugar próprio para escrever. Arrastou uma cadeira de braços para junto da mesa e, estendendo a mão para Mr. Helstone, pediu-lhe permissão para instalá-lo ali. Ele propôs alguma dificuldade por um minuto, enrugou a testa e, por fim, murmurou:
– Bem, como não é nem minha mulher nem minha filha, deixar-me-ei levar por essa vez, mas ouça o que lhe digo: eu sei que deseja me manobrar, suas manobras femininas não me cegam.
– Oh! – exclamou Miss Keeldar, mergulhando a pena no tinteiro e colocando em sua mão – deve ver sempre em mim o capitão Keeldar. Isso é absolutamente um negócio de homens. Estas senhoras estão apenas destinadas a ajudar no trabalho de campo.
Sorrindo de uma maneira que mais parecia uma careta, começou a escrever. Ele logo se interrompeu para fazer perguntas e consultar seus colegas e lançar seu olhar de desdém para as senhoras. Cada sacerdote sabia das necessidades dos pobres de sua paróquia: onde a roupa era necessária, onde necessitava de comida, onde o socorro em dinheiro poderia ser mais judiciosamente concedido sem receio de abusos. Sempre que a memória os atraiçoava, Miss Ainley ou Miss Hall eram solicitadas.
Miss Keeldar observava de pé atrás dos reitores, apoiando-se, às vezes, no ombro de um ou de outro para ler o que era registrado, escutar o que diziam e, de vez em quando, permitindo-se o seu estranho sorriso significativo em excesso para quem quisesse julgá-lo amável. Raramente os homens gostam que se leiam seus pensamentos e sentimentos. É bom para as mulheres que sejam dotadas de cegueira.
Quando tudo ficou registrado, segundo as intenções de Miss Keeldar, e os clérigos compreenderam plenamente o seu projeto a ponto de consentirem em assinarem no alto da lista, cada um com cinquenta libras esterlinas, ela ordenou que fosse servida a ceia. A refeição fora preparada com esmero para deixar os convidados de excelente humor. Os vinhos foram saboreados com prazer e discernimento. O capitão Keeldar foi cumprimentado pelo seu bom gosto e o elogio deixou Miss Shirley encantada. Ela planejara satisfazer seus convidados e tinha se saído muito bem; seu rosto resplandecia de prazer.
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