Shirley
Capítulo XVII
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A Festa das Escolas
Aquele exército comandado por párocos e mulheres não ia para o combate e muito menos ao encontro do inimigo, contudo, a música tocada pela banda era de guerra e, a julgar pelos olhares e atitudes de alguns, de Miss Keeldar, por exemplo, os cantos despertavam um espírito, senão marcial, pelo menos cheio de ardor. O velho Mr. Helstone, voltando-se por acaso, viu a expressão no rosto de Miss Keeldar e não pôde reter o riso, coisa que ela compreendeu e partilhou.
– Não temos nenhuma batalha em perspectiva – disse ele – o nosso país não tem necessidade que combatamos por ele. Daremos simplesmente um passeio. Aperte as rédeas, capitão, e comprima o fogo desse ardor, pois não precisamos dele. É uma pena!
– Sigo o seu conselho, pastor – respondeu Miss Keeldar. Depois murmurou para Miss Helstone: – Quero que a sua imaginação me empreste o que a realidade não me dá. Não somos soldados nem desejo a carnificina ou, se o somos, somos soldados da cruz. Quero imaginar que o tempo voltou alguns séculos atrás e que acompanhamos uma peregrinação à Palestina. Eu quase desejaria ter um perigo a afrontar: uma fé, uma pátria, ou, pelo menos, uma luta por um amor!
– Olhe, Shirley! – interrompeu Miss Helstone. – Você enxerga melhor do que eu. Que mancha é aquela que se distingue no alto da colina de Stilbro?
Miss Keeldar olhou para a direção apontada por Miss Helstone.
– Acho – disse ela e complementou rapidamente: – Vejo uma linha vermelha. São soldados da cavalaria! – exclamou ela, com vivacidade. – São seis soldados e estão galopando. Vão passar perto de nós... Não! Viraram à direita, devem ter visto a procissão e a evitaram dando uma volta. Mas, para onde eles estão indo?
Aqui Mr. Helstone ergueu a voz: – Vamos passar através da Royal-Lane pelo atalho a fim de chegarmos mais cedo a Nunnely.
E, em consequência, o exército partiu para o desfiladeiro de Royal-Lane. Este local era muito estreito e só duas pessoas podiam passar por vez, pois, do contrário, alguém poderia cair no fosso que o cercava de cada lado. A multidão estava no meio dele quando se notou um movimento estranho entre os comandantes. As lunetas de Mr. Boultby e o largo chapéu de Mr. Helstone agitaram-se e os vigários assistentes fizeram sinais uns aos outros. Mr. Hall voltou-se, sorrindo, para as senhoras.
– O que está acontecendo? – alguém indagou.
Mr. Hall apontou a bengala para a extremidade do desfiladeiro, à frente do grupo. Lá vinha uma segunda procissão em sentido inverso, conduzida também por homens de preto e, como já se podia ouvir, por uma banda de música.
– Aquilo será a sombra da nossa? – perguntou Miss Keeldar.
– Se você desejava uma batalha, pode estar certa de que terá uma. Pelo menos uma batalha de olhares – murmurou Miss Helstone, sorrindo.
– Eles não passarão! – exclamaram em conjunto os vigários. – Nós não cederemos!
– Ceder! – respondeu Mr. Helstone, severamente. – Quem fala em ceder? Rapazes! Pensem em algo imediatamente! Senhoras, bem sei, sejam firmes. Não está aqui uma mulher dedicada à igreja, pela honra da instituição, que não esteja disposta a sustentar a luta contra esses atrevidos. O que diz, Miss Keeldar?
– Quero saber o que é aquilo!
– São as escolas dos dissidentes, todos reunidos numa aliança ímpia. Entraram no desfiladeiro para obstruir a nossa marcha e fazer-nos recuar.
– Que coisa! – murmurou Miss Keeldar. – Eles merecem uma lição.
– Uma lição de polidez – sugeriu Mr. Hall, que era sempre da paz.
O velho Mr. Helstone colocou-se em marcha aceleradamente à frente da sua companhia. Estava quase chegando junto dos outros chefes de roupas escuras, quando aquele que parecia comandar a outra procissão, um personagem obeso de cabelos alisados na testa, mandou fazer alto. A procissão parou. O comandante pegou um livro de hinos, indicou o número, deu o tom, e todos entoaram em conjunto o mais doloroso dos cânticos.
Mr. Helstone deu sinal aos seus músicos, que romperam com toda a força dos metais. Mandou-lhes tocar o Rule Britannia e ordenou às crianças que o acompanhassem em coro, o que elas fizeram entusiasmadas. O inimigo ficou fulminado; o canto, interrompido. Na guerra do barulho, já tinha sido vencido.
– Agora! Sigam-me – gritou Mr. Helstone à multidão, que saiu, não correndo, mas a passos firmes e estrondosos. – Sejam firmes, crianças e mulheres! Contenham uns aos outros, segurem pela roupa se for preciso!
E marchou o pároco à frente, com um passo tão ereto e destemido, o que foi acompanhado impetuosamente por todos.
Os dissidentes em princípio ficaram admirados e depois alarmados. Recuaram comprimindo-se e, por fim, foram forçados a dar meia-volta e deixar livre o desfiladeiro. O gordo dissidente ficou sentado no fosso. Era um negociante de bebidas, um chefe não conformista e dizem que ele bebeu mais água nesta tarde do que nos doze meses precedentes.
Depois de terem feito passar gloriosamente todo o exército, Mr. Hall olhou para Miss Helstone e ela para ele. Miss Keeldar e Mr. Helstone apertaram cordialmente as mãos.
Por três horas e meia a procissão passou pelos campos recentemente ceifados, por paisagens inusitadas e indescritíveis e, no fim da tarde, estava de volta ao ponto de partida. Em frente à escola foram instalados grandes bancos de madeira, nos quais as crianças se sentaram para se banquetear com o que chegava em enormes cestos cobertos por toalhas brancas e cheios de iguarias. Antes da distribuição, um cântico foi entoado pelas crianças dirigido por Mr. Hall. As jovens vozes, entoadas assim ao ar livre, eram melodiosas e tocantes.
Grandes bolos e chá quente, bem doce, foram distribuídos com a maior liberalidade. A regra era dar a cada criança o dobro do que seria capaz de comer, a fim de ficar uma reserva para que ela levasse para casa para aqueles a quem a idade e a doença não tinham permitido comparecer.
Mais tarde arrumaram-se os bancos para que todos pudessem brincar à vontade. O tilintar de um sino chamou as professoras e os benfeitores à sala da escola. Lá estavam Miss Keeldar e Miss Helstone e outras senhoras examinando os arranjos das mesas. A profusão de verde das flores que ornamentavam as paredes; o brilho dos bules de prata e das porcelanas que cobriam as mesas; a atividade que reinava por todos os lados; os rostos alegres, os vestuários coloridos, constituíam um espetáculo agradável e festivo. Todos falavam, não muito alto, mas alegremente, e os canários, dependurados por toda a parte, faziam-se ouvir com seus cantos vibrantes.
Miss Helstone, na qualidade de sobrinha do pastor, tomou lugar em uma das três primeiras mesas. Mr. Boultby e Miss Hall presidiam às outras duas. Eram nessas mesas que se sentariam os convidados ilustres. Miss Helstone desembaraçou-se do seu chapéu e da echarpe para não sentir calor e, com os longos caracóis caindo-lhe até o pescoço, mexia-se encantadoramente como o efeito de um véu.
A sala começava a encher. Mr. Hall tinha vindo ocupar o seu posto ao lado de Miss Helstone que, enquanto acabava de dispor as xícaras e as colheres, fazia apreciações em voz baixa sobre os acontecimentos do dia. Miss Keeldar estava sentada ao lado deles estranhamente apática: não falava, nem ria, pelo contrário, estava muito estranha e lançava olhares vigilantes à sua volta. Parecia temer que qualquer intruso se apoderasse de um lugar que tinha ficado vago junto dela e que ela havia reservado, evidentemente, para alguém. De vez em quando estendia o seu vestido de cetim sobre esse lugar ou pousava nele as luvas e o lenço bordado.
Miss Helstone, por fim, perguntou-lhe quem era o amigo o qual ela esperava. Miss Keeldar inclinou-se para ela e murmurou:
– Espero Mr. Moore. Vi-o ontem à tarde e o fiz prometer que viria com sua irmã. Receio que ele chegue tarde demais e fiquem separados de nós. Aí vem uma multidão. Os lugares vão ficar todos ocupados. Que maçada!
E, com efeito, Mr. Wynne, o magistrado, sua mulher, o filho e as duas filhas fizeram nesse momento a sua entrada solene. Para maior desgosto de Miss Keeldar, o filho do magistrado apoderou-se do lugar reservado, instalando-se resolutamente sobre o vestido, as luvas e o lenço. Miss Keeldar tinha verdadeira aversão pelo filho do magistrado, Mr. Sam, pois ele também mostrava pretensões à sua mão.
Aos ouvidos de Miss Helstone ressoava ainda o vibrante murmúrio: “espero Mr. Moore”, quando os sons do órgão se sobrepuseram ao confuso rumor das pessoas. O doutor Boultby e os senhores Helstone e Hall ergueram-se. Todos os imitaram. O Benedicite foi cantado com acompanhamento de música e o chá teve início.
Miss Helstone estava muito ocupada com o que fazia para ter tempo de olhar à sua volta, mas quando acabou de encher a última xícara, lançou um olhar inquieto por toda a sala. Finalmente reconheceu Hortense Moore e teve a ideia de transpor todos os obstáculos e correr até ela para beijá-la, um beijo para ela e dois para o irmão.
Ergueu-se, mas soltou uma exclamação abafada, talvez porque o impulso tinha sido violento, se tivesse precipitado através da sala, se uma mão não a tivesse contido na cadeira e uma voz vinda de trás dela não lhe tivesse murmurado:
– Espere pelo fim do chá, Lina, que eu a trarei aqui – logo que ela conseguiu erguer novamente seus olhos, viu Robert Moore em pessoa ali, não longe dela, sorrindo-lhe com ardor. Ele lhe pareceu mais belo do que nunca. Aquela imagem feriu-lhe os olhos como um clarão doloroso e foi impressa em sua memória como se tivesse sido fotografada por um relâmpago.
Ele se adiantou e falou com Miss Keeldar, a qual, irritada por algumas atenções inoportunas de Sam Wynne, que permanecera sentado sobre suas luvas e seu lenço, e também pela falta de pontualidade de Mr. Moore, não estava de bom humor. Encolheu os ombros, depois lhe disse uma ou duas palavras azedas sobre a sua “insuportável demora”. Mr. Moore nem replicou nem se desculpou. Deixou-se ficar tranquilamente ao lado dela, como se esperasse que ela recuperasse a calma, o que se deu em menos de cinco minutos, pois ela entendeu-lhe a mão, que ele tomou com um sorriso meio zangado, meio reconhecido.
Durante todo esse tempo, o pobre Sam Wynne parecia pouco à vontade. A sua linda vizinha, a julgar pela sua exasperação, parecia de poucos amigos. Miss Keeldar estava angustiada, não parava sossegada, tinha calor, abanava-se com um leque, lastimava-se de falta de ar e de pouco espaço. Falando alto, fazia notar que, em sua opinião, “quando as pessoas acabam de tomar o chá deviam sair da mesa para dar lugar a outras; anunciava que aquilo não estava certo e que os homens deveriam ser mais cavalheiros”. Mr. Sam ofereceu-se para acompanhá-la para fora da sala, o que ela disse que, decerto, ele “queria que ela pegasse uma constipação.” Em resumo, o rapaz não pôde aguentar mais e, depois de ter engolido o seu último gole de chá, julgou conveniente deixar o lugar.
Mr. Moore deveria estar pronto para apoderar-se dele, mas se encontrava no outro extremo da sala em profunda conversa com Mr. Sykes. Um grande negociante de cereais, Mr. Timóteo Ramsden, fatigado de ficar em pé, dirigiu-se para o lugar vago. Miss Keeldar, contudo, lançou mal de um expediente: um movimento com sua echarpe entornou um bule, cujo conteúdo se espalhou em parte sobre o seu vestido de cetim. Foi preciso chamar um rapaz para reparar o desastre.
Mr. Ramsden abriu a boca, recuou lentamente e, como Miss Keeldar parecia que ia desmaiar ali mesmo, virou-se sobre os calcanhares e recuou apressadamente.
Mr. Moore enfim voltou e Miss Keeldar sossegou. A sua expressão mudou, sua fronte enrugada e a inexplicável curva da sua boca voltaram à expressão natural. E, no entanto, não lançou a Mr. Moore qualquer olhar gracioso. Pelo contrário, o acusou de ter feito o seu dia um mar de contrariedades e de ser a causa da perda da estima de Mr. Ramsden e da inapreciável amizade de Mr. Sam Wynne.
– Não duvido de que a menina conheça um caminho seguro para o coração de cada um deles. Não duvido disso – disse tranquilamente Mr. Moore.
Mr. Moore parecia muito contente por ter, enfim, achado o seu lugar, mas não teve uma palavra para exprimir sua gratidão, nem se desculpou pelos aborrecimentos que tinha causado. A sua indiferença era maravilhosamente autêntica: estava tão sério, tão calmo, que parecia ainda mais belo. Não teria pensado ao vê-lo ali que se tratava de um pobre homem, lutando contra a falência, sentado ao lado de uma menina rica. No seu rosto havia a calma da igualdade e, talvez, reinasse o mesmo sentimento em seu coração. De vez em quando, pela maneira que se dirigia à menina Keeldar, pousava seus olhos sobre ela, dir-se-ia que ele a dominava tanto pela posição quanto pela estatura.
A conversa entre os dois se tornara animada, embora nem sempre harmônica, pois às vezes havia controvérsia. Ela enchia-o de perguntas, mas ele recusava satisfazer-lhe as curiosidades. Ela olhou para ele e Mr. Moore lhe sorriu com simpatia, mas os seus lábios não descerraram. Miss Keeldar então se mostrou irritada e voltou-lhe as costas, mas não tardou que ele lhe chamasse a atenção.
Parecia que o calor da sala incomodava Miss Helstone. Ela estava ficando cada vez mais pálida à medida que o chá se prolongava. Logo que fizeram a oração de agradecimento, ela deixou a mesa e apressou-se a seguir a sua prima Miss Hortense Moore, que, como Miss Mann, já tinha procurado o ar livre.
Miss Moore acolheu a sua antiga aluna com mais dignidade do que calor.
– Agora parece que já não nos conhece – disse Miss Moore enquanto Miss Helstone lhe pegava a mão.
Miss Helstone conhecia muito bem a prima para aceitar aquela frieza, certa de que a sua bondade natural não tardaria a prevalecer. Com efeito, Miss Moore, logo que notou seu rosto emagrecido, mudou de atitude. Beijou-a em ambas as faces, perguntou-lhe ansiosamente sobre sua saúde e teria provavelmente continuado com um longo interrogatório, seguido de uma não menos longa repreensão sobre o assunto, se Miss Mann não lhe tivesse desviado a atenção pedindo-lhe que a acompanhasse a casa.
Miss Helstone procurou então por Miss Keeldar. Avistou a sua echarpe colorida e seu vestido cor púrpura no centro de um grupo de senhoras, todas bem conhecidas dela, mas que ela costumava evitar sempre que podia. Ela não queria, contudo, permanecer só, quando todas as outras se reuniam aos pares ou em grupos. Aproximou-se das suas próprias alunas, mocinhas crescidas ou jovenzinhas que olhavam para algumas centenas de crianças mais novas que estavam brincando de cobra cega.
Miss Helstone conhecia aquelas jovens e as amava, no entanto, era tímida mesmo com elas quando estava fora do ambiente da escola. Ela se aproximou daquele grupo naquele momento mais para buscar proteção do que para favorecê-las com sua presença. Por instinto, as jovens sentiram-lhe a fraqueza, mas sua cortesia natural fez com que a respeitassem. Cercaram-na polidamente e com carinho, acolhendo os seus ligeiros sorrisos e os seus esforços para começar a conversa com uma benevolência e com uma cortesia que a puseram logo à vontade.
Mr. Sam Wynne chegou muito apressado e insistiu para que as alunas maiores se juntassem às menores nos jogos. Dessa forma, Miss Helstone ficou novamente sozinha. Estava pensando num tranquilo descanso em casa quando Miss Keeldar, notando de longe o seu isolamento, correu para junto dela.
– Vamos subir até o alto dos campos – convidou-a Miss Keeldar. – Sei que você não aprecia multidões, Caroline.
– Mas isso será privá-la de um prazer, Shirley! Tirá-la de perto de tanta gente que tão assiduamente lhe faz a corte e que, sem esforço, você se torna tão agradável a elas.
– Não! Não é sem esforço. Já estou fadigada da tarefa. É um insípido e ingrato exercício o de conversar e rir com essas pessoas de Briarfield. Há muito a procurava, tentava ver onde estava este vestido branco. Tenho prazer em observar os que amo no meio da multidão e compará-los aos outros. Comparei-a e você não se parece com ninguém aqui. Há rostos mais lindos do que o seu, com certeza. Não é, por exemplo, uma beleza como Miss Harriet Sykes. Ao lado dela, a sua pessoa parece insignificante, mas o seu aspecto é encantador, Lina! Você tem um ar refletido, o que eu acho muito interessante.
– Está brincando, Shirley? Vamos falar de outra coisa.
– Então vamos falar de Mr. Moore e vigiá-lo. Estou vendo-o.
– Onde?
Miss Helstone não olhava para os campos, mas para os olhos de Miss Keeldar como tinha o costume de fazer todas as vezes que Shirley indicava um objeto que descobria ao longe. A sua amiga tinha melhor vista do que ela e Miss Caroline parecia pensar que o segredo da sutileza do seu olhar se podia ler na íris sombria dos seus olhos.
– Lá está Mr. Moore – disse Miss Keeldar, indicando um ponto no campo onde brincavam centenas de crianças e um número igual de adultos passeava. – Lá embaixo. Será que não consegue distinguir aquela elevada estatura? No meio da multidão ele parece Saul em um conselho de guerra e é, na verdade, se não me engano, um conselho de guerra.
– E por que isso, Shirley? – perguntou Miss Helstone, cujos olhos tinham alcançado finalmente o objeto procurado.
– Robert está conversando com meu tio e eles trocam um aperto de mão? Estou enxergando isso mesmo? Então, estão reconciliados?
– E não sem boas razões. Pode crer. Devem ter um inimigo em comum e fazem planos de detê-lo. E por que Mr. Wynne, Mr. Sykes, Mr. Armitage e Mr. Ramsden estão em volta dele? E por que chamam Mr. Malone para se juntar a eles também? Hum! Quando chamam aquele, é porque precisam de braços vigorosos – comentou Miss Keeldar, que, olhando, enervou-se: – Eles não quiseram confiar em mim – disse ela. – É sempre assim quando chega o momento. Monstros!
– Não sente? Há qualquer mistério no ar! Esperam algum acontecimento e tenho certeza de que estão preparando algo. Vi isso hoje nos modos de Mr. Moore. Estava animado, mas seu olhar estava duro.
– Duro com você, Shirley!
– Sim, comigo. Muitas vezes ele é duro para comigo. Raramente conversamos a sós, mas muitas vezes sinto que o fundo de seu caráter não é macio.
– Contudo, ele parecia falar-lhe com doçura.
– Certamente. O tom era muito amável e as maneiras, encantadoras; entretanto, o homem dizia aquilo em que se podia replicar e ainda por cima estava reservado. A reserva dele me irrita.
– Isso é verdade. Robert é reservado.
– E ele quase não tem o direito de ser reservado para comigo. Ele até começou a confiar-me seus assuntos e, como não fiz nada para perder sua confiança, ele não deveria tê-la retirado. Pensa sem dúvida que eu não tenho uma alma suficientemente forte para que ele possa colocar sua convicção em mim numa crise.
– Decerto teme causar-lhe inquietações.
– Precaução inútil. A minha natureza é elástica e não se deixa deprimir facilmente, ele deveria saber, mas é um homem altivo, tem seus defeitos, embora você não queira acreditar, Lina. Repare como o grupo está animadíssimo. Eles nem desconfiam que estamos de olho neles!
– Vigiando bem, Shirley, talvez se possa encontrar o fio da meada.
– Vai haver agitação em breve. Amanhã ou esta noite talvez, mas seus olhos e os meus ouvidos estão bem abertos. Mr. Moore vai ficar sob minha vigilância e, Lina, vigie também.
– Vigiarei. Robert está indo embora. Vi-o voltar-se, acho que nos viu. Estão se despedindo e apertando as mãos.
– Sim. Apertam a mão com força. Como para ratificar qualquer pacto solene.
As duas viram Mr. Moore deixar o grupo, passar por uma porta e desaparecer.
– Ele não se despediu de nós... – murmurou Miss Helstone. Mal as palavras lhe saíram dos lábios, procurou esconder sob um sorriso o desapontamento que as palavras pareciam trair. Por um momento, lágrimas involuntárias umedeceram e iluminaram seus olhos.
– Oh! Não tardaremos a remediar isso! – exclamou Miss Keeldar. – Havemos de forçá-lo a nos dizer adeus.
– Forçá-lo? Mas isso não é a mesma coisa de se despedir espontaneamente – disse Miss Helstone, contrariada.
– Será a mesma coisa!
– Mas ele foi embora. Não poderemos encontrá-lo.
– Conheço um caminho mais curto do que o que ele tomou. Vamos sair no seu caminho.
– Mas, Shirley! Eu preferia não ir.
Miss Helstone disse isto quando Miss Keeldar já agarrara seu braço e a arrastava pelos campos; era inútil resistir, nada se igualava à obstinação de Miss Keeldar quando esta metia um capricho na cabeça. Miss Helstone se viu longe da multidão antes mesmo de saber o que estava acontecendo e levada ao longo de uma paisagem estreita e sombria, com uma abóbada formada por altas árvores e um tapete de margaridas. Não deu atenção ao sol da tarde que recortava sombras sobre a relva, nem ao cheiro puro que exalava das flores, ouviu apenas um ruído de um portão que se abriu numa extremidade da paisagem e Miss Helstone compreendeu que Mr. Moore se aproximava. As longas hastes do espinheiro que se erguiam diante das moças formavam uma espécie de trincheira e elas o viram antes que ele as visse. Num relance, Miss Helstone viu que a alegria de Mr. Moore havia esmorecido. Ele a havia deixado atrás de si no campo onde as crianças brincavam e não lhe restava senão o seu ar sombrio, calmo e preocupado. O seu olhar era severo, mas tinha uma estranha e sombria animação. Aquela fantasia de Miss Keeldar era fora de propósito. Se ele ao menos parecesse bem disposto, porém, não era o caso...
– Não deveríamos ter vindo – disse Miss Helstone para Miss Keeldar, com certo azedume. Ela parecia realmente perturbada: ser, daquela forma, arrastada e lançada à frente de Robert, contra sua vontade, quando ele evidentemente não esperava. Miss Helstone estava contrariada ao extremo, mas como Miss Keeldar não se importava com nada disso, atirou-se diante de seu inquilino e impediu-lhe a passagem.
– Esqueceu-se de nos dizer adeus! – disse Miss Keeldar a Mr. Moore.
– Esqueci-me de lhes dizer adeus? E de onde saíram? Serão fadas? Deixei duas parecidas com as duas, uma vestida de púrpura e a outra de branco, ambas de pé no alto de uma ribanceira, quatro campos atrás de mim ainda há pouco.
– Deixou-nos lá e encontrou-nos aqui! Nós o vigiamos e continuaremos a vigiá-lo e um dia iremos interrogá-lo, mas não será hoje. Agora o que tem que fazer é nos dar boa tarde e passar – disse Miss Keeldar, petulante.
Mr. Moore olhou para ambas e mudou seu semblante.
– Os dias de festa têm seus privilégios, assim como os dias de perigo – replicou ele, gravemente.
– Vamos! Deixe de discurso e dê-nos boa tarde e passe – respondeu Miss Keeldar.
– Devo dar-lhe boa tarde, Miss Keeldar?
– Sim, e a Caroline também. Não há nada de novo nisso. Acredito que não é a primeira vez que vai nos desejar boa tarde.
Mr. Moore tomou a mão de Miss Keeldar, conservou-a numa das suas e cobriu-a com a outra. Baixou o olhar sobre ela, gravemente, com benevolência e com autoridade. A herdeira não podia fazer desse homem seu vassalo. Na maneira como ele olhava para aquele rosto encantador, não havia servilismo, apenas homenagem, talvez houvesse também afeição, interesse realçado por outro sentimento; qualquer coisa no tom em que lhe falava como nas expressões de que se servia, dizia que o sentimento era a gratidão.
– O seu devedor lhe deseja uma boa tarde e uma boa noite. Que a menina possa repousar tranquilamente e em segurança até amanhã.
– E o senhor? O que pretende fazer? O que dizia a Mr. Helstone com quem o vi trocar um aperto de mão? Que faziam todos aqueles senhores à sua volta? Coloque sua reserva à parte e fale. Seja franco para comigo.
– Quem poderá resistir-lhe? Serei franco: amanhã, se houver alguma coisa a ser contada, irá sabê-lo.
– Fale agora – insistiu Miss Keeldar – não deixe para amanhã.
– Mas, eu não poderia lhe contar senão metade de uma história e o meu tempo é curto. Não tenho um instante a perder. Mais tarde me desculparei disso aqui confessando tudo com franqueza.
– Mas vai para Hollow? – insistiu Miss Keeldar.
– Vou.
– E não sairá mais nesta noite?
– Com certeza. Agora adeus para ambas.
Mr. Moore decerto planejou pegar a mão de Miss Helstone e colocá-la entre as suas, mas ela não estava ao seu alcance e não se aproximou.
Miss Caroline tinha se afastado alguns passos. A sua resposta ao adeus de Mr. Moore foi somente uma ligeira inclinação de cabeça e um terno sorriso. Ele disse novamente adeus e as deixou.
– Pronto, acabou-se – disse Miss Keeldar quando ele partiu. – Obrigamo-lo a se despedir de nós e não perdemos nada da sua estima.
– Assim espero – respondeu Miss Helstone.
– Parece-me bem tímida e bem pouco demonstrativa – criticou Miss Keeldar – por que não deu a mão a Mr. Moore quando ele lhe ofereceu a dele? Ele é seu primo e a ama! Tem vergonha que ele veja a sua afeição?
– Robert se dá conta de tudo que lhe interessa. Não é preciso fazer-lhe demonstração de sentimento.
– Está lacônica. Seria estoica se pudesse. Aos seus olhos, o amor seria um crime, Caroline.
– O amor, um crime? Não, Shirley. O amor é uma virtude divina. Mas para que trazer à força essa palavra para a conversa? Ela está singularmente deslocada.
– Bem! – exclamou Miss Keeldar.
As duas jovens percorreram o túnel verdejante sem dizer uma palavra. Miss Helstone quebrou o silêncio:
– Procurar as atenções de um homem, dar os primeiros passos, é um crime. Já o amor! Um anjo mais puro não deveria corar ao falar dele. E quando eu vejo um homem associar a ideia de vergonha ao amor, vejo bem que sua inteligência é grosseira e seu temperamento é vil. Muitas mulheres e homens que se julgam requintados não podem mencionar o amor sem trair sua natural e imbecil degradação. Para eles o amor é um sentimento baixo a que ligam ideias indignas.
– Está a descrever a maior parte do mundo, Caroline.
– São frios, covardes e estúpidos sobre esse assunto, Shirley! Nunca amaram nem foram amados.
– Tem razão, Lina! E na sua ignorância blasfemam contra este fogo vivo, roubado por um serafim num altar divino.
O súbito e alegre carrilhão da igreja da vila pôs fim ao diálogo chamando todos de volta à igreja.
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