Shirley
Capítulo VI
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Coriolanus[5]
Nessa manhã, Miss Moore teve uma aluna muito distraída. Miss Helstone esqueceu uma vez, mais outra, as explicações que foram dadas a ela. No entanto, ela suportava com inalterável serenidade as repreensões que merecia sua desatenção. Sentada ao sol, perto da janela, parecia receber com o seu calor uma benéfica influência que a tornava ao mesmo tempo feliz e bondosa.
Para ela não havia sido negado o dom da beleza. Não era absolutamente necessário conhecê-la intimamente para amá-la, pois era suficientemente bonita para agradar à primeira vista. Sua forma era adequada à sua idade: era feminina, leve e flexível; cada curva era perfeita, cada membro proporcional; tinha uma cintura graciosa; o seu rosto era expressivo e delicado; seus olhos eram belos e talentosos. Às vezes lançavam raios irresistíveis que iam diretamente ao coração. Sua boca era muito bonita, tinha uma pele delicada, um cabelo castanho magnífico e uma profusão de cachos emolduravam-lhe o rosto de forma pitoresca. Seu estilo de se vestir anunciava bom gosto. Os vestidos, pouco requintados em relação à moda e ao preço do tecido, eram sempre da cor e do corte que mais faziam sobressair suas perfeições naturais. Seu traje de inverno naquele dia era de merino, num tom suave de castanho como seus cabelos. A pequena gola redonda pousava sobre uma fita cor-de-rosa e era presa por outra da mesma cor. Não trazia mais nenhum enfeite.
Tanto a aparência de Miss Caroline Helstone quanto seu caráter ou inteligência – se ela tinha alguma – devem falar por si só no devido tempo. Suas conexões com os Gerards e os Moores não tomam muito tempo para serem explicadas. Os pais de Miss Helstone tinham se separado logo após seu nascimento, em consequência de discordância de disposição, isto é, incompatibilidade de gênios foi o que disseram a ela. Sua mãe era meia-irmã do pai de Mr. Moore, assim, embora não houvesse mistura de sangue, ela era, de certa forma, prima de Robert, Louis e Hortense. Seu pai era o irmão de Mr. Helstone, um desses homens de quem, mesmo depois de terem deixado este mundo, evitam-se recordações. Ele tinha tornado sua esposa infeliz. O que ela soubera a respeito do pai era que ele não tinha bons princípios.
Miss Caroline Helstone nunca conhecera a mãe, da qual tinha sido afastada desde a sua infância e não tinha voltado a vê-la. O pai morreu relativamente jovem e seu tio, o reverendo, desde então era seu único guardião. Sabia-se que Mr. Helstone, por natureza e hábito, era a pessoa menos indicada para educar uma moça, de maneira que ele não se preocupava muito com sua educação. Provavelmente ele não teria tomado nenhuma iniciativa se ela, encontrando-se negligenciada, não tivesse crescido ansiosa por sua própria conta e cobrado, de vez em quando, por um pouco de atenção e por meios de adquirir uma quantidade de conhecimento que não poderia ser dispensada. Ainda assim, Miss Caroline tinha um penoso sentimento de ser inferior, em conhecimento, às jovens da sua idade. Aceitara com alegria quando a prima Miss Hortense Moore se ofereceu para ensinar-lhe francês e trabalho com agulha, logo após sua chegada à fábrica Hollow. Miss Moore, por outro lado, gostava dessa tarefa, pois lhe dava importância. Ela gostava de exercer sua autoridade sobre essa aluna dócil, mas cheia de vivacidade. Ela julgava Miss Helstone como ela própria se julgava: uma moça ignorante e, ao vê-la fazer progressos rápidos e extraordinários, não os atribuía à boa aplicação da estudiosa aluna, mas inteiramente ao seu próprio método superior de ensino. Quando ela descobriu que Miss Caroline, inábil na sua rotina, tinha um conhecimento próprio, instrução desigual, mas variada, a descoberta não lhe causou nenhuma surpresa, pois ela estava convencida de que tinha sido conversando com ela que, sem se dar conta, a moça adquirira todos aqueles tesouros. Mesmo quando forçada a sentir que sua pupila sabia muito sobre assuntos dos quais ela sabia muito pouco, Miss Hortense preferia diminuir a prima para se tornar importante.
A professora que se gabava de possuir um “espírito positivo” e ter certa preferência pelos estudos áridos, mantinha Miss Helstone no mesmo caminho. Obrigava a moça a estudar incansavelmente a gramática da língua francesa, atribuindo, como os exercícios mais úteis, as intermináveis análises lógicas. Essas análises não eram particularmente agradáveis e Miss Helstone pensava que poderia ter aprendido francês tão bem sem elas. Às vezes a aluna se ressentia pelo tempo excessivo gasto naquele labirinto gramatical e, enquanto Miss Moore estava vasculhando suas gavetas no andar de cima, uma ocupação em que ela passava grande parte da manhã, arranjando, desmanchando e reorganizando, ela levava seu livro ao escritório de Robert, que a tirava daquele embaraço. Robert Moore possuía um cérebro lúcido e calmo. Mal ele olhava as pequenas dificuldades que embaraçavam Miss Caroline, elas se dissolviam como por encanto. Em duas palavras dava-lhe a chave do enigma. Ela pensava: “se Hortense pudesse ensinar como ele, eu depressa aprenderia!”. Ela sempre lhe pagava com um sorriso de admiração e reconhecimento, e depois deixava a fábrica relutantemente e voltava para a casa de campo. Lá, ela completava o exercício e resolvia o problema, pois Miss Moore também lhe ensinava aritmética. Miss Helstone desejava que a natureza a tivesse feito um menino em vez de uma menina, pois, se assim fosse, ela poderia pedir a Robert para deixá-la ser seu secretário e sentar-se com ele no escritório, em vez de sentar-se com Hortense na sala de estar.
De vez em quando, embora raramente, ela passava a noite na casa de campo de Hollow. Às vezes, durante essas visitas, Mr. Moore tinha ido ao mercado e não tinha voltado; às vezes ele tinha ido à casa de Mr. Yorke; muitas vezes ele estava envolvido com um visitante do sexo masculino em outro cômodo da casa, mas às vezes ele também estava em casa, desprendido e livre para falar com ela. Quando este era o caso, as horas fugiam com a rapidez do relâmpago. Não havia na Inglaterra lugar mais agradável do que a pequena sala quando ocupada pelos três primos. Miss Hortense, quando não estava ensinando, xingando ou cozinhando, estava longe de ser mal-humorada. Era seu costume relaxar à noite e ser gentil com sua jovem parenta inglesa. Havia também um meio de torná-la melhor e até amorosa, induzindo-a a tomar o seu violão, tocá-lo e cantar. Ela, então, ficava muito bem-humorada e, enquanto demonstrava suas habilidades com uma voz bem tonificada, não era desagradável ouvi-la, embora tivesse sido absolutamente agradável se ela não tivesse um caráter tão formal e soberbo.Mr. Moore, livre das preocupações dos negócios, não era dado à alegria exuberante, contudo, mostrava-se encantado com a vivacidade de Miss Helstone. Ouvia com prazer sua tagarelice e respondia-lhe benevolamente suas perguntas. Para Miss Helstone, era agradável se sentar próximo a ele e sentir seu olhar afetuoso. Às vezes, ele estava mais disposto, quase animado, muito gentil e amigável.
O problema era na manhã seguinte. Ela tinha certeza: o olhar voltava a ser frio, quase distante. Essa circunstância intrigava a inexperiente prima.
Contudo, ainda que Miss Caroline Helstone apreciasse muito essas visitas à noite à casa de campo, nunca ia lá sem ser convidada. Muitas vezes, de fato, pressionada por Miss Hortense a ir, ela recusava, pois notava que Robert não insistia ou apoiava francamente o convite. Nesta manhã, pela primeira vez, ele tinha-lhe, muito espontaneamente, feito um convite. Falara-lhe tão afetuosamente que ela teve uma sensação de felicidade suficiente para mantê-la feliz durante todo o dia.
A manhã decorreu como habitualmente. Miss Hortense, sempre cheia de serviço, passava da cozinha para a sala, ora ralhando com Sarah, ora examinando os exercícios de Miss Helstone e fazendo-a repetir sua lição. Por mais perfeitas que fossem as tarefas, nunca tinha uma palavra de elogio: uma de suas máximas era que o elogio era inconsistente com a dignidade de um professor.
Ela acreditava que as reprimendas incessantes, graves ou leves, eram necessárias para a manutenção da autoridade e, se nenhum erro fosse encontrado, ela procurava no andar da aluna, na respiração, no vestido ou no semblante algo que exigisse correção.
O tumulto habitual ocorreu no almoço quando Sarah quase jogou a comida sobre a mesa, com um olhar que expressava claramente: “nunca servi semelhante gororoba na minha vida! Isso não serve nem pra cachorro!”
Não obstante o desprezo de Sarah, a refeição estava muito saborosa. A sopa era uma espécie de purê de ervilhas secas, que Miss Hortense tinha preparado em meio a lamentações amargas de que neste país desolado não se encontrava feijões. Então veio um prato de picado de carne, com miolo de pão, muito bem temperado e cozido numa forma. Prato estranho, mas longe de ser desagradável. O prato de legumes compunha-se de couve picada, de um patê de frutas, preparado segundo uma receita de Madame Gérard Moore e cujo gosto fazia supor que tinha sido adoçado com melado em vez de açúcar. Miss Helstone não tinha nenhuma objeção à culinária belga. De fato, ela aprendera a apreciar. Ainda bem que isso ocorrera, pois, caso contrário, Miss Hortense teria visto a rejeição à comida como antipatia à sua pessoa.
Logo após o almoço, Miss Helstone persuadiu a prima a se vestir. Essa manobra tinha que ser feita com cuidado. Ela teria que fazer com que Miss Hortense tirasse a saia branca, a camisola e os papelotes sem que ela percebesse que eles eram objetos desagradáveis, que aquele vestuário não era correto. Mas, se isso fosse dito claramente, seria motivo suficiente para que ela não aceitasse e se mantivesse naquele estado o dia todo. Qualquer tentativa prematura de exortação quanto à sua maneira de se vestir era, portanto, imprudente. Evitando cuidadosamente as rochas e as areias movediças, Miss Helstone, com o pretexto de mudar de ambiente, conseguiu levar a prima para o quarto. Uma vez lá, convenceu-a a se vestir logo, pois não valia a pena voltar, já que perderiam muito tempo e ela poderia tomar seu banho agora. Enquanto Miss Hortense lhe passava um sermão a respeito do desprezo que tinha pelas vulgares frivolidades da moda, Miss Helstone tirou-lhe rapidamente a camisola, vestiu-a decentemente com um vestido, arrumou a gola, escovou seus cabelos e tornou-a muito apresentável. Porém, Miss Hortense queria dar os toques finais, e os toques finais consistiam em um lenço enorme amarrado em volta do pescoço e um grande avental preto, de serva, o que estragaria tudo. Miss Helstone tinha que intervir rapidamente e com sabedoria.
– Por que não usa um colar com o vestido, prima Hortense? Sinto-me sufocada com lenços no pescoço e meus aventais estão muito curtos, por isso há muito tempo eu prefiro nem os usar.
No entanto, Miss Hortense, por força da perseverança, provavelmente teria se obrigado a fazer tal mudança e, como não tinha tempo para uma disputa sobre o assunto, decidiu que os aventais pequenos de Miss Helstone seriam suficientes. Mas, não tocaria no assunto já que ela decidira por aboli-los. Quanto aos lenços, em sua opinião, como a prima ainda era apenas uma criança, ela podia dispensar os lenços, especialmente porque seus cachos eram longos e quase tocavam seus ombros.
Contudo, como seu irmão, naquela manhã mesmo, sugeriu que ela pedisse a opinião da prima sobre como se vestir adequadamente para evitar a chacota das pessoas daquele lugarejo, foi obrigada a ceder, mas desaprovava totalmente o asseio excessivo e fantasioso de Miss Caroline com sua aparência. Algo mais sólido e caseiro teria sido considerado mais adequado.
Naquele dia, Miss Helstone venceu.
A tarde foi dedicada à costura. Miss Hortense, como a maior parte das damas belgas, era especialmente hábil com a agulha. Ela, de modo algum, considerava desperdício de tempo se dedicar horas incontáveis aos bordados delicados, à renda fatigadora da visão, aos maravilhosos trabalhos de tricô e, acima de tudo, aos mais elaborados meios de remendar. Ela daria um dia para o conserto de dois buracos em uma meia e achava sua “missão” nobremente cumprida quando conseguia isso. Este foi outro problema para Miss Helstone. Ela foi condenada a aprender este estilo estrangeiro de cerzir: ponto por ponto, de forma a imitar exatamente a trama do tecido. Um processo enfadonho, mas considerado por Miss Hortense Gérard e por seus ancestrais de longas gerações como um dos primeiros deveres de uma mulher. Quando ela descobriu que Miss Helstone era profundamente ignorante da mais essencial das realizações femininas, ela quase chorou de piedade sobre a juventude miseravelmente negligenciada da prima. Portanto, nenhum momento era perdido na busca de um par de meias que precisasse de reparos para que ela ensinasse a ignorante mocinha inglesa a reparar sua deficiência. Essa tarefa fora iniciada há dois anos e Miss Caroline conservava as meias sem qualquer sucesso. Ela fazia algumas linhas todos os dias, por meio de penitência para a expiação dos seus pecados. Era um fardo doloroso para ela, que teria gostado muito de jogá-las no fogo, e, uma vez, enquanto Mr. Moore a observava sentada, suspirando por causa das meias, havia proposto uma cremação privada no escritório da fábrica, mas Miss Helstone sabia que a proposta era imprudente e o resultado só poderia ser um novo par de meias, provavelmente, em pior estado.
Durante toda a tarde as duas costuraram, até que os olhos e os dedos de Miss Helstone acabaram fatigados. Até mesmo seu espírito estava cansado. O céu já havia escurecido depois do almoço e tinha começado a chover de novo, agora com violência. Miss Helstone temia que Robert tivesse se deixado persuadir pelos senhores Sykes ou Yorke a permanecer em Whinbury até passar o temporal. O relógio marcou cinco horas, o tempo passava depressa e a chuva continuava em torrentes. Ouvia-se o gemer do vento nas árvores e no telhado; o dia findava-se e o fogo da lareira derramou na sala um brilho avermelhado como o crepúsculo.
– Com esse tempo a lua não vai aparecer – disse Miss Moore. – Creio que meu irmão não voltará tão cedo. Na verdade, ele deveria se arrepender de ter ido. Vamos tomar café, Caroline. Seria inútil esperá-lo.
– Ainda não são seis horas, prima. Ele ainda pode vir.
– Não vem, eu já lhe disse. Posso calcular seus movimentos. Eu conheço meu irmão. Vá à cozinha e diga a Sarah para nos trazer o lanche, ou chá, como vocês falam.
A incerteza é desagradável e o desapontamento, amargo. Todo mundo, uma hora ou outra, sentirá isso. Miss Caroline, obediente às ordens de Miss Hortense, foi à cozinha. Sarah, sentada junto à mesa, fazia um vestido.
– Sarah, Hortense pediu que você servisse o chá – disse a jovem com ar abatido. Então, inclinou seu braço e cabeça contra a chaminé, olhando, com indiferença, para o fogo.
– Como parece triste, miss! É tudo por causa dessa sua prima que a faz trabalhar como uma escrava. É uma vergonha!
– Nada disso, Sarah – foi a resposta breve.
– Oh! Sei que é. Você está quase chorando! Tanto tempo trancada aqui! Seria o bastante para entristecer até um filhote de gatinho.
– Sarah, o seu patrão volta do mercado mais cedo quando está chovendo?
– Nunca! Mas hoje, por alguma razão, mudou seus hábitos.
– O que você quer dizer?
– Já voltou. Estou certa de que vi Murgatroyd levar seu cavalo para a baia quando eu fui pegar água na bomba há cinco minutos. Ele está no escritório com Joe Scott, eu acredito.
– Você está enganada, pois não o viu – Miss Helstone temia acreditar e se decepcionar. Contudo, o seu coração estava agitado.
– Como eu poderia ter-me confundido? Eu conheço o cavalo dele.
– Mas você não o viu, não é mesmo?
– Ouvi-o falar. Ele estava dizendo a Joe Scott sobre ter resolvido alguma coisa, que antes de uma semana estariam instalados novos teares na fábrica e que, dessa vez, teria o cuidado de requisitar quatro soldados do quartel de Stilbro para guardar a carroça.
– Sarah, você está fazendo um vestido? – Miss Helstone mal se continha de tanta felicidade.
– Sim. É bonito?
– Encantador! Prepare o café que eu termino de talhar essa manga para você. Se você quiser, posso lhe dar alguns enfeites. Tenho algumas fitas de cetim de uma cor que vai combinar com ele.
– A miss é muito amável.
– Apresse este café, Sarah. Seja uma boa garota. Mas, primeiro, coloque os sapatos do seu patrão sobre a lareira, pois ele tira as botas quando chega. Ouço a sua voz, ele está chegando.
– Miss, está cortando errado.
– É verdade. Desculpe-me Sarah. Tem como acertar, foi apenas um recortezinho. Não houve nenhum dano.
Abriu-se a porta da cozinha e Mr. Moore entrou todo molhado, parecia sentir frio. Miss Helstone levantou a cabeça por um instante, mas baixou-a em seguida. Debruçada sobre o vestido, houve uma tentativa de esconder a expressão de seu rosto, e quando finalmente seu olhar se encontrou com o de Mr. Moore, seu semblante estava radiante.
– Já tínhamos desistido de esperar por você. Hortense disse que não viria – disse ela.
– Mas eu tinha prometido voltar cedo. Você me esperava, não é verdade?
– Não, Robert... Temi que não viesse com toda essa chuva. Mas, está todo molhado e gelado! Vá, troque de roupa. Se você apanhar um resfriado, eu... nós... quero dizer, eu me sentiria culpada até certo ponto...
– Não estou completamente molhado. O meu casaco é revestido e impermeável. Só preciso de sapatos secos. Mas, é agradável ver o fogo depois de enfrentar o vento frio e a chuva por alguns quilômetros – ele ficou de pé diante do fogão, junto dela. Mr. Moore manteve os olhos fixos nos utensílios de cozinha que brilhavam sobre uma prateleira. Instantes depois, olhou para o fogo e deixou-se dominar pelo seu benéfico calor. Baixando os olhos, encontrou uma face corada, sorridente e feliz, emoldurada por cachos sedosos e iluminada por um par de belos olhos encantadores.
Sarah tinha ido levar a bandeja para a sala, onde era retida por uma repreensão de sua ama. Mr. Moore pousou por um momento a mão no ombro de sua jovem prima, inclinou-se e beijou-a na testa.
– Oh! – exclamou ela, como se aquele beijo lhe descerrasse os lábios.
– Sentia-me infeliz ao pensar que não viria. Agora, estou quase feliz demais. Você é feliz, Robert? Gosta de estar em casa?
– Creio que sou, Caroline. Esta noite, pelo menos.
– Tem certeza de que não está preocupado com os teares, os negócios, a guerra?
– Não agora.
– Pode afirmar que não está com o coração ferido porque esta casa é pequena para você?
– Neste momento, não.
– Pode afirmar que não está amargo porque as pessoas ricas e grandes esqueceram-se de você?
– Sem mais perguntas, Caroline. Você está enganada se pensa que eu estou ansioso para agradar ou obter favores dos ricos. Só desejo um meio de existência, uma posição, uma carreira.
– Com o seu próprio talento e bondade, você deve vencer. Você foi feito para ser grande e será.
– Eu me pergunto agora se você fala honestamente, do fundo do seu coração. Qual conselho me daria para adquirir a mesma grandeza que você possui dentro de você, adorável menina? Sinto-me pobre, falido e miserável. Oh! A vida não é como você pensa, Lina!
– Mas você é como eu penso. Não é?
– Não sou.
– Então é melhor.
– Muito pior.
– Não! Muito melhor. Eu sei, sinto que você é bom.
– Como você sabe disso?
– Quando me olha, eu sinto isso.
– Onde você acha isso?
– No meu coração.
– Ah! Julga-me com seu coração, Lina. Você deveria julgar-me com a cabeça.
– Assim o faço e estou muito orgulhosa de você, Robert. Você não pode saber todos os meus pensamentos sobre você.
O rosto sombrio de Mr. Moore mudou de cor, seus lábios sorriam, mas cerraram-se. A alegria brilhou nos seus olhos, apesar de franzir, resolutamente, as sobrancelhas.
– Não pense bem de mim, Lina – disse ele. – Os homens, em geral, são uma espécie de escória, muito diferente de qualquer coisa de que você tenha ideia. Eu não tenho nenhuma pretensão de ser melhor do que eles.
– Se fosse assim, eu não o estimaria tanto. Mas, creio que está falando dessa forma porque você é modesto. Por isso tenho tanta confiança em seu mérito.
– Quer lisonjear-me? – perguntou ele, voltando-se bruscamente para ela, perscrutando-lhe o rosto com um olhar penetrante.
– Não! – disse ela com doçura, rindo da sua súbita vivacidade.
– Não se importa que eu suponha que me lisonjeia ou não?
– É verdade. Pouco me importa.
– Está segura de suas intenções?
– Acho que sim.
– Quais são elas, Caroline?
– Só aliviar o meu espírito, expressando uma parte do que sinto e, depois, fazer com que você se estime mais.
– Assegurando que minha parenta é minha amiga sincera?
– Justamente. Que eu sou sua amiga sincera, Robert.
– Eu sou o que o acaso e as mudanças fizeram de mim, Lina.
– Mas não é meu inimigo, entretanto.
A resposta foi evitada por Sarah e Miss Hortense que, entrando juntas na cozinha, discutindo sobre café com leite ou outra antiga oposição, os interromperam.
Os antigos ocupantes da cozinha se retiraram para a sala de estar. Antes que Miss Hortense os seguisse para lá, Miss Caroline ainda teve tempo de repetir a pergunta:
– Não é meu inimigo, não é, Robert?
– Como poderia sê-lo?
Então, sentando-se à mesa, fez com que Miss Helstone sentasse ao seu lado.
Ela, feliz e encabulada, mal ouviu a explosão de cólera de Miss Hortense quando ela voltou da cozinha. A longa declamação a respeito da “conduta imprópria e indigna de certa criatura má” soava tão confusamente em seus ouvidos como o retinir da porcelana chinesa. Robert riu um pouco e depois, educadamente e com calma, pediu à irmã que se acalmasse; assegurou-lhe que, se isso lhe fosse agradável, poderia escolher uma das moças da fábrica para substituir Sarah. “Somente”, acrescentou ele, duvidava muito que alguma lhe servisse. Atrevida e voluntariosa como a irmã dizia que Sarah era, talvez, não fosse pior do que a maioria das mulheres de sua classe.
Miss Hortense admitiu a verdade dessa conjectura. Na opinião dela, “todas aquelas aldeãs inglesas eram insupportables” e o que não daria ela para ter uma boa cozinheira da Antuérpia, com sua touca alta, saia curta e os tamancos decentes adequados à sua classe. Qualquer coisa era melhor do que uma coquette insolente em vestidos cheios de babados e sem touca nenhuma!
– Devo lhe arranjar uma moça da Antuérpia? – perguntou Mr. Moore, que era severo em público, mas do tipo muito agradável na intimidade.
– Obrigada pela oferta. Uma menina da Antuérpia não ficaria aqui dez dias, menosprezada como ela seria por todas as desobedientes jovens da sua fábrica. Você é muito bom, querido irmão; desculpe-me pela minha petulância, mas verdadeiramente meus julgamentos com relação a Sarah são verdadeiros. Contudo, este é provavelmente o meu destino, pois lembro-me de que nossa reverenciada mãe experimentou sofrimentos semelhantes, embora ela tivesse à sua escolha os melhores servos domésticos da Antuérpia. Em todos os países eles são mimados e rebeldes.
Mr. Moore também tinha certas reminiscências sobre a mãe. Tinha sido uma boa mãe para ele; honrava sua memória, mas se lembrava de que ela mantinha o mesmo tratamento com os empregados da cozinha na Antuérpia, assim como fazia sua fiel irmã aqui na Inglaterra. Portanto, deixou o assunto de lado e mudou de conversa.
Quando o serviço de café foi removido, tratou de consolar Miss Hortense, trazendo-lhe o livro de música e o violão. Depois, passando-lhe em volta do pescoço a correia do instrumento, com doce afeição fraternal que ele sabia que era bastante poderosa para acalmá-la, pediu-lhe que tocasse algumas das canções favoritas de sua mãe.
Nada refina tanto o coração como o afeto. As questões de família tornam-nos vulgares e a união eleva. Miss Hortense, satisfeita com seu irmão e grata a ele, cantava e tocava quase com graciosidade, quase bonito. O seu ar inquieto foi, por um momento, substituído por um sorriso cheio de bondade. Cantou com sentimento as canções que ele lhe pedira, pois elas lembravam a mãe que tinham amado ternamente e faziam-na voltar aos tempos de juventude. Ela observou também que Miss Helstone a escutava com interesse, o que aumentou o seu bom humor, e a frase dita pela prima, ao final da canção: “Quem me dera poder cantar e tocar como Hortense”, tornou-a encantadora por toda a noite, tagarelando que “seu talento não foi construído em um dia, nem em uma semana, ou, por simplesmente querer e ser inteligente. Era com esforço que ela tinha realizado aquela grande obra. Que sempre fora notável por sua perseverança; que seus mestres tinham comentado que era tão agradável, como também raro, encontrar tanto talento unido com solidez numa só pessoa.” Uma vez que o tema da conversa fosse seus próprios méritos, mademoiselle Hortense era fluente.
Embalada pela satisfação de si mesma, ela pegou no tricô e pôs-se a trabalhar tranquilamente. As cortinas fechadas, um fogo vivo e o candeeiro suave davam à salinha um encanto inexprimível. É provável que os três ali presentes sentissem esse encanto, pois todos pareciam felizes.
– O que vamos fazer agora, Caroline? – perguntou Mr. Moore, retornando ao seu assento ao lado de sua prima.
– O que vamos fazer agora, Robert? – repetiu ela, brincando alegremente. – Você decide.
– Vamos jogar xadrez?
– Não, não, odeio jogos silenciosos que só mantêm as mãos ocupadas.
– Então vamos falar de algum escândalo? – brincou ele.
– Sobre quem? Somos suficientemente interessados em alguém para fazê-lo em pedaços? – indagou Miss Helstone, que tinha por princípio não falar da vida alheia.
– A pergunta é: você seria capaz de falar mal de alguém, Lina? Devo dizer que não – disse ele.
– E eu também. Mas... (ela, apressadamente e com contrição, olhou para Miss Hortense), poderíamos falar não de uma pessoa que vive entre nós, mas seria agradável voltar ao passado; ouvir aqueles que dormem por gerações em suas sepulturas, isto é, ouvir seus pensamentos e difundir suas ideias.
– Quem será o orador? Que língua ele deve proferir? Francês? – perguntou Robert Moore.
– Seus antepassados franceses não falam tão docemente, nem tão solenemente, nem tão impressionantemente como os seus ancestrais ingleses, Robert. Esta noite será inteiramente inglesa. Você deve ler um livro de um inglês.
– Um velho livro inglês?
– Sim, um velho livro de um inglês de que você goste. Escolherá uma passagem desse livro perfeitamente em harmonia com o que se passa com você. Deve despertar sua alma, enchê-la com uma doce música. Será como uma mão amiga sobre seu coração, fazendo-o vibrar como se fossem cordas. O seu coração é uma lira, Robert. Deixe que se aproxime de você o glorioso William e verá como ele tirará das suas cordas a força e a melodia.
– Tenho que ler Shakespeare?
– Você deve lê-lo com o seu espírito aberto, deve ouvir sua voz com os ouvidos da sua mente, deve tomar um pouco da alma dele na sua.
– Com objetivo de tornar-me melhor e operar como um sermão? – zombou ele.
– É para agitar você, para dar-lhe novas sensações. Ele vai fazer você sentir fortemente não só as suas virtudes, mas também seus pontos viciosos e perversos.
– Deus! O que diz? – perguntou Miss Hortense, que até então estava contando os pontos de seu tricô e não tinha assistido ao que fora dito, mas cujos ouvidos estas duas fortes palavras pegaram como um puxão.
– Não ligue, irmã. Deixe-a falar. Deixe-a dizer tudo o que quiser esta noite. Ela gosta de bater com força no seu primo, mas me diverte; então a deixe em paz.
Miss Helstone, que, subindo em uma cadeira, tinha ido vasculhar a estante, voltou com um livro.
– Aqui está Shakespeare – disse ela – e aqui está a tragédia de Coriolanus. Agora leia e descubra, pelos sentimentos que essa leitura lhe despertará, como você é ao mesmo tempo vil e nobre.
– Venha, então, sente-se aqui perto de mim e corrija-me quando eu pronunciar mal.
– Serei então a professora e você meu aluno?
– Ainsi, soit-il![6]
– E Shakespeare é a nossa ciência, uma vez que estamos indo estudá-lo?
– Parece que sim.
– E você não se fará de cético e zombeteiro como um francês? Não julgue que, recusando-se a admirá-lo, dá provas de superioridade.
– Não sei.
– Se o fizer, Robert, levo Shakespeare para longe, silencio-me, ponho meu chapéu e volto para casa.
– Sente-se. Vou começar – ele riu.
– Um minuto, por favor, irmão – interrompeu Miss Hortense. – Quando o senhor de uma família lê, as senhoras devem sempre costurar. Caroline, querida criança, tome o seu bordado. Você pode obter três ramos trabalhando à noite.
Miss Helstone olhou consternada para Miss Moore.
– Não posso enxergar com essa luz e meus olhos estão cansados, prima. E, no mais, não posso fazer duas coisas ao mesmo tempo: uma vez se eu costurar, eu não posso ouvir; se eu ouvir, não posso costurar.
– Que infantilidade! – Miss Hortense começou. Mr. Moore, como de costume, suavemente interrompeu.
– Deixe-a negligenciar o bordado, Hortense. Nesta noite eu desejo sua total atenção fixada em meu sotaque. E, para garantir isso, ela deve seguir a leitura com os olhos. Ela deve olhar para o livro.
Ele colocou o livro entre os dois, repousou seu braço na parte de trás da cadeira da prima e, assim, começou a ler.
Desde a primeira cena de Coriolanus, Mr. Moore sentiu-se vivamente interessado e, à medida que a leitura avançava, gostou mais ainda, pois era uma leitura inteligente para seu paladar intelectual. Disse com expressão e sentimento o discurso arrogante de Caio Marcius aos cidadãos esfomeados; não disse achar justo aquele orgulho irracional, mas ele parecia pensar assim. Miss Helstone olhou para ele com um sorriso singular.
– Eis já tocado em um ponto vicioso – disse ela. – Vejo que simpatiza com este altivo patrício que não simpatiza com seus famintos cidadãos e ainda os insulta. Continue, Robert.
Ele prosseguiu. As passagens belicosas causavam-lhe certa impressão ruim. Ele disse que tudo aquilo lhe parecia bárbaro, mas o combate entre Marcius e Tullus Aufidius agradou-lhe. À medida que avançava, ele se esquecia de criticar. Era evidente que ele apreciava o poder, a verdade de cada parte e, largando de lado o caminho estreito dos preconceitos, começou a deleitar-se com aquele vasto e fresco da natureza humana, e a sentir a realidade estampada sobre cada personagem que falava a partir da página aberta diante dele.
Ele não lia as cenas cômicas muito bem e, Miss Helstone, tendo o livro na mão, lia essas passagens para ele. Em seus lábios, ele parecia apreciá-las e, de fato, ela lhes dava um espírito com uma expressão vigorosa com que ela parecia dotada de fazê-lo.
Coriolano em glória, Coriolano em desastre, Coriolano banido, passaram sucessivamente como sombras gigantescas um após o outro. Antes da visão do homem banido, o espírito de Mr. Moore pareceu fazer uma pausa. Imaginou-se na lareira da casa de Aufidius, frente a frente com aquela grandeza decaída, mais alta na queda, na humilhação do que na prosperidade. Viu aquela figura aterrada, aquele sombrio rosto “que tinha o selo da autoridade” e aquela “nobre nau desmantelada”, e Mr. Moore concordou absolutamente com a vingança de Caio Márcio, não se escandalizou por ela, e Miss Helstone sussurrou novamente:
– Mais um sentimento de fraternidade mal-entendido.
A marcha sobre Roma, as súplicas da mãe, a longa resistência, o triunfo final do bem sobre o mal, o desespero de Aufidius para o que ele considerava uma fraqueza do seu aliado, a morte de Coriolano, o sofrimento final de seus inimigos, todas as cenas cheias de verdade e força sucederam-se, arrastaram no seu fluxo profundo e rápido o coração, para a alma do leitor e ouvinte.
– Então? Você gostou de Shakespeare? – perguntou Miss Caroline minutos depois de ele ter fechado o livro.
– Acho que sim.
– Descobriu alguma analogia entre você e Coriolano?
– Talvez sim.
– Não estava ele cheio de defeitos e também de qualidades?
Mr. Moore concordou.
– E quais eram os seus defeitos? Por que foi odiado pelos seus concidadãos? O que o levou a ser banido por seus compatriotas?
– Por quê? Qual a sua opinião? O que você acha que foi, Lina? – Mr. Moore jogou a pergunta de volta para ela.
– Ainda pergunta?
– Então, responda, Esfinge – brincou ele.
– Era uma mistura disso tudo. Você não deve ser altivo para com seus operários; não deve negligenciar as chances de acalmá-los; não deve se mostrar inflexível, dando a uma reclamação o peso de uma ordem.
– Quem coloca tais noções em sua cabeça, Caroline? – Mr. Moore perguntou, surpreso.
– Um forte desejo para o seu bem; um cuidado pela sua segurança, querido Robert. E o medo causado por muitas coisas que eu tenho ouvido ultimamente de que você vai se prejudicar – ela respondeu, colocando sua mão suavemente sobre o braço dele.
– Quem lhe disse essas coisas, Lina?
– Ouvi meu tio falar sobre você. Ele elogia seu espírito rígido, sua determinação, seu desprezo pelos inimigos, sua resolução para não se submeter à multidão, como ele diz.
– E você acha que devo me submeter a eles?
– Não, mas não posso deixar de pensar que é injusto incluir todos os pobres trabalhadores. É insultuoso chamá-los de ‘máfia’ e pensar neles dessa forma e tratá-los com altivez.
– Caroline, você é uma democratazinha! O que diria seu tio se soubesse?
– Raramente falo com meu tio, como sabe, e nunca sobre semelhantes assuntos. Ele acha que tudo que não seja costura e cozinha está acima da compreensão das mulheres e não é assunto para elas.
– E você julga compreender os assuntos sobre os quais me aconselha?
– Na parte em que lhe diz respeito, eu os compreendo. Sei que seria melhor para você ser amado do que odiado por seus operários, e eu estou certa de que a benevolência é melhor do que o orgulho para ganhar respeito e afeição. Caso fosse orgulhoso e frio para comigo e Hortense, não amaríamos você. Quando você age friamente para comigo, como às vezes acontece, como posso me arriscar ser carinhosa?
– Pois bem, Lina, já tive da sua parte a minha lição de idioma e de moral, com um toque de política. Hortense me contou que você tinha se
impressionado muito com um pequeno trecho desse pobre André Chénier[7], A Jovem Cativa. Você ainda se lembra dele?
– Creio que sim.
– Recite-o, então. Não se precipite e tenha cautela com a pronúncia.
Miss Helstone, a princípio com a voz trêmula e baixa, mas ganhando coragem à medida que progredia, repetiu os doces versos de Chénier. As três últimas estrofes ela recitou muito bem.
Mr. Moore escutou, no princípio de olhos baixos, mas logo os ergueu furtivamente. Recostado na sua cadeira, ele podia ver Miss Helstone sem que ela percebesse seu olhar fixo nela. O rosto da jovem tinha um colorido; seus olhos, uma luz; seu rosto, uma expressão que, nesta noite, teria embelezado os traços mais vulgares. Mas a vulgaridade não era o defeito daquele rosto. O raio de sol não caía sobre a terra árida, mas sobre uma delicada flor. Cada linha era desenhada com delicadeza e todo o aspecto era encantador. Naquele instante, animada, comovida e impressionada, tê-la-iam achado bela. Uma tal expressão devia inspirar não só o sentimento calmo de estima, de admiração, mas outro sentimento mais terno, mais doce e mais íntimo. A amizade, talvez a afeição, o interesse. Quando ela terminou, virou-se para Mr. Moore e os seus olhos encontraram os dele.
– Recitei regularmente? – ela perguntou, sorrindo, como uma criança feliz e dócil.
– Na verdade eu não sei.
– Como não sabe? Você não ouviu?
– Ouvi e olhei. Você gosta de poesia, Lina?
– Quando eu me encontro com a poesia real, eu não posso descansar até que eu a aprenda de cor.
Mr. Moore ficou em silêncio por alguns minutos. O relógio bateu nove horas. Sarah entrou e disse que a criada de Mr. Helstone tinha vindo buscar Miss Caroline.
– Então, a noite já se foi – observou ela – e parece-me que só daqui a muito tempo passarei outra noite aqui.
Miss Hortense, que já dormia há algum tempo sobre seu trabalho de costura, não deu nenhuma resposta à observação da prima.
– Não desejaria vir passar mais tardes aqui? Teria alguma objeção em passar outras noites? – perguntou Robert, pegando seu manto e, cuidadosamente, envolvendo-a nele.
– Gosto de vir aqui, mas não desejo ser inoportuna. Não estou dizendo isso para que me convidem. Você tem que entender isso.
– Oh, eu compreendo-a, criança. Você, às vezes, briga comigo por eu querer ser rico, mas se eu fosse rico, você viveria sempre aqui, viveria comigo onde quer que eu vivesse.
– Isso seria agradável. Mas, se você fosse pobre, muito pobre mesmo, seria mais agradável ainda. Boa noite, Robert.
– Prometi que caminharia com você até o presbitério. Esqueceu-se?
– Sei que prometeu, mas eu pensei que você tivesse se esquecido e eu mal sabia como lembrá-lo, embora eu quisesse fazer isso. Gostaria de ir? Está uma noite fria e, como Fanny está aqui, não vejo necessidade disso.
– Aqui está o seu casaco. Não acorde Hortense. Venha!
Os oitocentos metros que separavam Hollow do presbitério passaram depressa. Eles se separaram no jardim sem beijo, apenas com um aperto de mão. No entanto, Robert deixou sua prima agitada e numa alegre perturbação. Ele havia sido singularmente amável com ela naquele dia, não só em palavras, em elogios, mas em maneiras, nos olhares, nos tons doces e ternos.
Por outro lado, ele voltou grave, quase melancólico. Enquanto ele estava apoiado em seu próprio portão, meditando sob a úmida claridade da lua, sozinho, com o silencioso e sombrio edifício da fábrica diante dele, cercado de todos os lados por colinas, exclamou, de repente:
– Isso é impossível! É uma fraqueza! Espera-nos a ruína completa.
No entanto, acrescentou com voz mais calma, baixando a voz: – Não passa de uma loucura temporária. Conheço-a bem. Amanhã o acesso terá desaparecido.
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